domingo, 7 de abril de 2024

Antero de Quental, Mestre rutilante, num soneto do figueirense Manuel Cardoso Marta, em "Corpo e Alma", 1957.

Manuel Augusto Cardoso Marta (Figueira da Foz, em 1882 e 1958),  estudante no seminário de Coimbra e  republicano, professor nas Escolas Móveis e na Escola Industrial Fonseca Benevides, jornalista, fundador de revistas (Feira da Ladra, e Nova Gazeta de Lisboa), poeta e etnógrafo, no seu 28º e último livro, Corpo e Alma, inseriu uma carta do "poeta insigne" Eugénio de Castro, de 1941, quando Cardoso Marta lhe enviara o manuscrito, e que se torna o prefácio da obra finalmente impressa na Figueira da Foz em 1957. Eis o elogio de Eugénio de Castro (1869-1944): «é um livro de relevo, de notável avanço espiritual sobre a anémica poesia dos nossos dias (...) e desejava que os Deuses lhe ponham a virtude e selo do triunfo». 
A obra contem vários sonetos "magníficos", tais como Menino e Moço, Amor, Ela, Ramaiati (Índia) e Serra da Boa Viagem (Figueira da Foz), alguns dedicados a amigos como Matos Sequeira, Natália Correia, Aquilino, Francisco Lage, Jaime Lopes Dias,  e cinco sonetos sobre escritores: Bocage, Camilo, Junqueiro, Cesário Verde e  Antero de Quental. E é o deste que transcrevemos, pois assinala um acolhimento bem luminoso da poesia, palavra e logos fulgurante do vate e líder da geração de 70, embora exprimindo-se nas duas quadras iniciais sob uma forma bastante espectrizante, aliás de acordo com muita da poesia do famigerado poeta açoriano.  Oiçamo-lo:

A  ANTERO  DE  QUENTAL

«Quando a noite, espalhando o véu sombrio,
esconde em treva a terra adormecida;
quando a razão sucumbe, esmorecida,
ao terror do ignoto e do vazio;

quando surge, num gélido arrepio,
a nocturna visão indefinida;
às horas em que a Morte espreita a Vida
na máscara dum ricto escuro e frio;

abro o teu livro, Mestre. E já cerradas
essas páginas rútilas, vibrantes,
duas auroras, duas madrugadas

nascem e casam-se em abraço estreito:
a que apaga as estrelas cintilantes
e a que acendem teus versos no meu peito.»
 
Eis um profundo soneto em que Cardoso Marta afirma em si algo que Antero de certo modo vivenciou, batalhou, sofreu:
 «quando a razão sucumbe, esmorecida,
ao terror do ignoto e do vazio». 
E nesses momentos  de dúvida vividos na noite, em sintonia com a vida e morte do poeta-filósofo, nessas horas de travessia nocturna, sob o tremendo mistério da vida que esmorece a razão, Cardoso Marta, relendo os poemas de Antero Quental, sente dentro de si o milagre da concordância da aurora exterior e da interior pois  realiza rutilantemente (de rutilus, cor de fogo, resplandecente, brilhante) as forças luminosas e vitoriosas que certos sonetos de Antero encerram madrugantemente e lhe transmitem num abraço não espectrante mas auroral, fulgurante, cintilante. Não admira pois que o sinta e chame com gratidão e amor:
« abro o teu livro, Mestre. E já cerradas
essas páginas rútilas, vibrantes ...»
Anote-se que outro soneto, Regresso, tem como epígrafe inicial o verso de Antero "Só quem teme o Não-Ser é que se assusta",  e nele Manuel Cardoso Marta  dialoga com o espírito-irmão de Antero, muito ascensionalmente e com fé no seu Deus:
 «Se acaso é um cobarde quem receia
o Não-Ser, oh meu Mestre e meu Irmão,
eu não n-o temo e tenho a convicção
de um Mais-Além, por que a minha alma anseia.
 
E tanta vez me alucinava a ideia
da volta ao Nada, sem continuação...
Já não me assusta a eterna escuridão!
Há um Deus que condena e que premeia.
 
Torne, Senhor, de novo a fé; também
torne a esperança à razão já convencida
e asas que, sendo filho, eu te mereço.
 
Ó minha ingénua crença antiga! Ó Mãe,
que me ensinaste a crer numa outra vida
melhor do que o desterro em que apodreço!»
 
Manuel Cardoso Marta era um republicano, socialista no bom sentido, etnógrafo, amante do povo português e das suas tradições (danças, folclore, gravura popular, humorismo), grandes almas (jornalistas e escritores figueirenses, Antero, Camilo, Eça de Queirós) e história consagrando-lhe vários livros e orientando exposições e revistas. Deu-se com muitos escritores, poetas e investigadores e neste blogue encontra um livro que lhe foi oferecido por Carlos Sombrio  https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2019/06/carlos-sombrio-artista-da-figueira-da.html

sexta-feira, 5 de abril de 2024

De 5 para 6 de Abril de 2024, a Noite do Poder, Laylatul Qadr, no ano a mais auspiciosa para o Islão.

                                    

Acontece hoje de 5 para 6 de Abril de 2024, a Noite do Poder, Laylatul Qadr, no ano considerada a mais auspiciosa segundo o Islão, pois as ligações entre o Céu ou mundos espirituais e a Terra ou plano físico, são intensificadas, em comemoração da primeira revelação do Alcorão de Allah a Maomé através do anjo Jibril, correspondente a Gabriel e assim, dos níveis espirituais Imams, tal Ali e Hussain, Mestres como Al-Khidr, o imortal ou sempre verdejante, ou ainda Sohrawardi, Dara Shikoh, Nur Ali Shah, Anjos, tal como o seu da Guarda, e almas guias santas podem ajudar-nos a estabilizar a mente, a intensificar o coração, a abrir o olho espiritual, e a sentir, ver e religar-nos mais às realidades espirituais e divinas.

Aproveite então para, mais demorada ou persistentemente, saudar e invocar os anjos, os mestres, santos e santas e a Divindade e tente interiorizar-se, harmonizar-se e receber alguma luz do espírito divino e, quem sabe, inspirações.

 

Santa e luminosa noite! Boa sorte! Bata e abrir-se-á... 

Saiba querer abrir-se às forças luminosas do Espírito e da Divindade 

quinta-feira, 4 de abril de 2024

Reflexões sobre o Y pitagórico, o bívio, a via bifurcada, com um poema de Gabriel Gomes de Senabria.

                                                
A escolha entre o vício e a virtude, o que será bem ou melhor e o que será mal ou pior, a partir dos ensinamentos de Pitágoras, referida em autores como Xenephon, Persius e outros, foi simbolizada com a vigésima letra do alfabeto grego, o Y, denominado então como o Y de Pitágoras, o ípsilon (que se lê até mais upsilon), já que tendo sido um mestre do caminho da harmonia do corpo e alma com o espírito e o Cosmos, ensinara o discernimento da escolha certa em tal símbolo, entre outros que atravessarão os séculos algo misteriosos, a partir da sua escola de Crotona.
                                                
Ao longo dos séculos tal símbolo e metáfora das escolhas na vida peregrina humana, referido ainda como o bivium, o bívio, a dupla via ou o caminho bifurcado, foi sendo comentado ou poetizado por alguns seres luminosos e conscientes da Filosofia Perene ou da Tradição espiritual pitagórica, e num artigo referi-os: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2021/12/da-meditacao-e-do-discernimento-o-y.html
Vemos portanto que este símbolo, tanto da
sabedoria perene ou universal como mais especificamente da tradição pitagórica e, em seguida, da literatura e sabedoria greco-romana, teve ao longo dos séculos quem o trabalhasse, e assim Jesus emprega-o espontaneamente quando fala da via estreita e da via larga, tal como alguns dos primeiros padres da Igreja que conheceram melhor a sabedoria pagã, e poderíamos chamá-los tanto pitagóricos como espirituais pois,  face à existência do egoísmo e da solidariedade, das virtudes e vícios, da violência e do amor, do bem e mal (relativos, pelo menos), valorizaram  a existência do caminho de harmonização, aperfeiçoamento, ascensional, bem como da auto-consciencialização, ponderação serena e  livre determinação, qualidades e capacidades que nos nossos dias vemos enfraquecidas, com os meios de comunicação a servirem  desígnios controladores, como tem vindo acentuar-se com  várias manipulações, tais como as das farmacêuticas, as alimentares e de bebidas, as editoriais, e as de ideias, preconceitos e fobias.

Saber-se discernir a cada momento o melhor caminho, a melhor compreensão, a melhor acção ou atitude exige de nós serenidade desprendida e aspiração à verdade, ao bem, ao justo, o que tem de ser trabalhado, estudado, respirado, meditado, aprofundado regularmente ou constantemente, seja de manhã, seja a meio da noite, seja especialmente ante qualquer desafio urgente ou opção mais difícil.

Frequentemente somos confrontados com escolhas, comentários, julgamentos, conflitos e não podemos ficar sempre calados, indecisos, submissos ou ignorantes, sobretudo quando há vidas em perigo, em sofrimento, em opressão, em alienação e perdição, ou quando simplesmente temos de decidir-nos por uma das duas vias ou hipóteses, e então a tradição do Y pitagórico estimula-nos a meditarmos e discernirmos o que nos eleve e será o melhor e o que nos rebaixa e subanimaliza, para tal discernimento ajudando antevermos as consequências próximas e futuras...

Saibamos pois manter a bússola da verdade acessa no nosso peito, e com a mente e coração investigar as situações-problemas, para cooperarmos com o Bem,  a Verdade e a Justiça e não sermos cúmplices da ignorância ou, pior ainda, do erro, da mentira,  da violência e do ódio ou mal.

 De Gabriel Gomes de Senabria, nascido na segunda metade do séc. XVI no grande centro cultural de Alcala de Henares, filho de um médico e que foi trabalhar para a América do Sul na administração do reino castelhano, desincarnando em 1647 e que era dado  à poesia e à ética,  oiçamos como poetizou o Y pitagórico, de certo modo segredando-nos: se queres não te lamentar na vida depois da morte, deves de seguir o caminho mais áspero da virtude para assim alcançares o supremo Bem ou a Glória, a qual significa a Luz e o resplendor espiritual e divino.

                                       «Nasce o homem mortal no mundo vão,

E apenas com a vista o ar mede,

Logo um caminho vê, que se divide

Em duas veredas do viver humano.

Áspera aquela à mão direita

Ao caminhante mísero despede;

E a da esquerda a nada impede o passo,

Antes o oferece deleitoso e fácil.


Mas no fim são diversas: a primeira

Por penhascos de penas se remata

Em glória perdurável, e verdadeira.

Com seus deleites a segunda mata.

Quem quiser acertar consulte a Consciência

Quanto à melhor via a optar.» 

segunda-feira, 1 de abril de 2024

Oráculo do mês Abril de 2024, para maior harmonia e união da Terra e do Céu, da Humanidade e da Divindade.

                                  

Leitura de uma tiragem no Tarot de quatro cartas simbólicas, acerca dos melhores caminhos a serem trilhados: 
- Ó Humanidade, sê mais sábia, cultiva a Sabedoria, a Divindade Feminina.
Escuta a tua sensibilidade íntima, e ouve o que as mulheres sábias, as matronas, as deusas, as três Mães, as sibilas, as sacerdotisas, as místicas, inspiradas, shamans, sorores, guias, curadoras, artistas, poetizas, médicas, escritoras te podem dizer.
Venera no teu interior e no seio delas a Sabedoria e aprofunda-a, ama-a, louva-a e assim cumpre a tua missão de religares o Céu e a Terra harmoniosamente. [1ª Carta ou arcano da Papisa].

- O Mundo está muito dilacerado por muitos conflitos, a morte pode ceifar a qualquer momentos muitos inocentes. Há muitos seres longe da verdade e do amor, desejosos da III grande guerra. Procura e vive a justiça e a verdade, e a morte irá desaparecendo ou diminuindo na sua precocidade e criminalidade mas, até lá, precavém-te, ora e medita. [2ª carta, Morte].

- Após a morte, porém, há sempre ressurreição, renascimento, seja neste plano físico, seja no subtil e espiritual. Aspira a este renascer, clama por Deus e os seus Anjos, mestres, santas e santos, abre-te à corrente de Luz que te deve encher, animar, inspirar, e para a qual deves dirigir a atenção, a respiração profunda e as tuas orações e ouvidos, quem sabe até ouvires a vontade ou a voz Divina em ti. [3ª carta, Ressurreição].

- Assim poderás ser abençoado pelo Anjo da Temperança, ou mesmo o ser, aquele que cria a concórdia dos opostos, o que harmoniza as discórdias, o que faz convergir para a verdade e unidade as partes divergentes, o que sabe caldear o Yin e o Yang, o Bem e o Mal, para que a Paz, o Amor e a Sabedoria vão emergindo mais na Humanidade. E nesta missão diária te revestirás de energias luminosas e intensificarás os raios e asas da aspiração e comunhão harmoniosa com a Natureza e os mundos espirituais e divinos e seus seres. 
Assim te religarás mais com a Divindade, nossa fonte primordial, Pai e Mãe, Sol central da manifestação cósmica e terrestre, Geia-Gaia, na qual participaremos criativa e alegremente neste mês florido de Abril, lúcida e temperantemente [4ª carta, Temperança].
 
 
                                       

Uma mensagem para o 1º de Abril escrita há anos e interpolada para 2024; com ligações à Utopia.

A ilha utópica, numa xilografia de Ambrosius Holbein, pintada, numa das primeiras edições, a de 1518, da Utopia, de Thomas More, obra e palavra sempre perene na demanda da humanidade fraterna e harmoniosa. Pode ler em: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2020/01/a-utopia-de-more-e-o-prefacio-de.html, ou https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2020/01/ensinamentos-da-utopia-de-thomas-more.html

1 de Abril, começo de um novo mês, de novas oportunidades de crescimento, [de trabalho, de frutificação, de aprofundamento], apelando à nossa criatividade [serena ou mesmo] optimista [à nossa determinação perseverante], capaz de prosseguir [manter, aprofundar, estar] em estados de consciência luminosos e de avançar em determinados objectivos [valores, causas, realizações que devemos discernir e equacionar bem].
Mas também novas oport
unidades de limpeza das nódoas [das tendências desequilibrantes e erros] da nossa alma, ou de desfragmentarmos o disco rígido da nossa mente, pelo arrependimento [a ascese purificadora], a transmutação energética, as lágrimas, [as decisões e determinações, e] as orações e irradiações para aqueles a quem fizemos sofrer, ou que mais precisam [na Terra e nos mundos subtis].
Conseguirmos
 abrir [na descontração e na gratidão, na oração e na meditação] o canal central que nos liga à Divindade [imanente e transcendente] alguns momentos diários e aí elevarmos o fogo da nossa aspiração, seja de amor [aproximativo ou] unitivo seja de melhorarmos e de sermos cada vez mais canais para [as correntes d']os raios divinos, respirando calma e profundamente para absorvermos as suas energias elevadas, para que os átomos e partículas [e chakras e zonas] do nosso ser se [reabasteçam, harmonizem], clarifiquem e elevem, [e] para que alguma felicidade ou ananda brilhe...
Dia 1 é o do
 ser criativo, de quem se conhece como peregrino ou peregrina [e] que tanto é nada como é tudo, mas que no amor e na paz, na sabedoria e nas práticas, no amor da natureza e na humildade e fraternidade labuta, sofre e persevera [nas causas e lutas pela Utopia da justiça e harmonia, sabedoria e fraternidade na Humanidade e na Terra]
Avance pois no novo mês com amor, confiança, alegria, destemor e criatividade...

Vinheta ideada por José Vitorino de Pina Martins para dois dos seus livros: Labora pela utopia, mas dirige a a tua atenção e olho subtil para a tua alma e energia interna, e para o espírito luminoso que és, e ainda para a Fonte de tudo Divina...

domingo, 31 de março de 2024

Três orações aos Anjos, de Reinério Bocache, incluídas na "Chave da Consciência para os que tratam do exercício das virtudes e caminho da perfeição abrirem o precioso tesouro da Oração Mental", 1751.

                                           
Reynerio Bocache, italiano a viver em Portugal,  tradutor
, editor, escritor e livreiro, bastante interessado na via espiritual e que já em 1747 publicara Vida, e milagres do principe dos anacoretas, e pay dos cenobiarcas. Santo Antam Abbade o Magno / traduzido de francez, em castelhano, e agora no nosso idioma portuguez, deu à luz em 1751 uma obra, com bastante de compilação de outras, intitulada  Chave da Consciencia  para os que tratam do exercicio das virtudes e caminho da perfeição abrirem o precioso tesouro da Oraçam Mental. Com instrucção da praxe de adquirir as virtudes: ordenado em forma de Dialogo  entre um Director, e Exercitante,  num in-8º de 267 páginas, e com uma 2ª edição em 1758, acrescentada e melhorada, sinal do sucesso dela, e onde narra até a origem da obra: «em 24 de Novembro de 1740, por vocação divina  nos levou à Soberana Rainha do Anjos Maria Santíssima à sua Santa Capela com o título da Barroquinha     [algures na Lisboa mística do séc. XVIII], a mim e a mais alguns devotos, a exercitar este santo exercício da Oração Mental» e embora alguns já a praticassem mas sem grandes resultados, com as recompilações melhoraram muito.
Ora para além de  páginas boas sobre o que entendia ser a oração mental, e como a realizar, inclui três orações aos Anjos, para diferentes ocasiões, que transcreverei, pois no seu todo, ou em algumas ideias, frases ou palavras, poderão inspirar-nos. Ei-las:  

                                        
«Anjo da minha guard
a, guardai-me todos meus cuidados, para que nesta hora não me lembre nenhum [cuidado ou preocupação], que estou diante de Deus, e Senhor com quem venho falar, e ajudai-me a recolher-me dentro de meu coração.» p. 16

«Anjo da minha guarda, Arcanjo S. Miguel, S. Rafael, S. Gabriel, humildemente vos peço, e a todos os que assistis diante do Trono da Santíssima Trindade, que ajunteis esta minha adoração com a vossa, para que seja dado ao Senhor, toda a glória, honra e louvor.» p. 20

«Anjo de Deus, e de minha guarda, que da Celestial Hierarquia foste dado, para minha defensa, e guarda, eu confesso, que sou indigno de invocar-vos, porque sempre me guiastes, e não vos segui, me aconselhaste, e não vos obedeci, me defendestes de meus inimigos, e eu me rendi a eles. Mas contudo dou-vos as graças, por me haveres guardado esta noite. Peço-vos me guardeis este dia de meus inimigos, alumieis meu entendimento para conhecer o meu nada, e observar os preceitos Divinos, e os da caridade do Próximo. Amen.» p. 232.

Que realçaremos nas orações: 1º O Anjo da Guarda, guarda-nos dos pensamentos dispersantes, das preocupações, e para tal contribui imaginarmos a sua forma diante de  nós. 2º Quando oramos e adoramos, pedimos ao Anjo que nos juntemos a eles nessa adoração mais realizada e sentida da Divindade. 3º Agradecer de manhã, pela noite protegida, e ao final do dia, pelas inspirações ou impulsos subtis recebidos....  Vivam mais entre nós os Anjos, que o nosso coração esteja mais ígneo e aberto a eles, e agindo com eles.

sexta-feira, 29 de março de 2024

Sete imagens propícias à contemplação espiritual da Cruz, latina e de Jesus. Sexta-feira santa de 2024.

Este registo num quadrado de 4x4 cm, contendo ao centro um círculo com o Menino Jesus dos Atribulados abraçado à Cruz (ou melhor, com os braços cruzados sobre ela) e com o cordeiro ao ombro e atado por uma corrente, sentado no chão com ar concentrado e sereno, e com duas chamas no interior do coração, nasceu da imagem existente no séc. XVIII, no convento das Religiosas Trinas, no Mocambo, hoje rua das Trinas, na Madragoa de Lisboa, muito venerada e divulgada, e que exortava e inspirava as pessoas a tentarem acolher e cruzar as suas atribulações com serenidade e aspiração de purificação, confiando nas bênçãos da natureza e divinas. Há várias versões, com diversas dimensões e legendas. Esta foi desenhada por Santos e impressa no Porto. Em Lisboa havia-as veneradas na igreja do Loreto e na de S. Roque, além da principal do convento das religiosas Trinas.     Especial devoção tinham a ela os pais com crianças doentes.
Esta cruz latina, de verso e reverso igual, e em xadrez, de delicada feitura devocional, tende a inspirar-nos a subir a montanha da vida, ou a Golgota, ou os montes das nossas paixões e dores, com lucidez e amor, harmonizando ou ultrapassando as discórdias, dualidades e opostos, ligando a Terra e o Céu, nós e a Fonte Divina, em sabedoria e esperança.
Este santinho rendilhado, de manufactura francesa parisiense Rouasse Lebel, de cerca de 1870, com uma alma levando às costas a Cruz, por um caminho árduo e que a levará ao cimo do monte, onde uma representação da alma santificada ou imortalizada se discerne com esforço entrando o portal paradisíaco. A legenda é: "A rota é escarpada mas ela conduz ao céu", e  no reverso contém algumas frases de adesão ao caminho exemplificado por Jesus, ad astra per aspera, e estimula-nos a sermos fortes nas provações.
Tal como os raios das nuvens descem dos céus sobre a Terra e de certo modo a fecundam igneamente, assim da Cruz e do coração ardente de amor do Mestre desprendem-se raios e flores que intensificam o fogo do nosso coração na cruz da vida, e geram flores, fragrâncias e dons de prudência e fortaleza, caridade e sabedoria.  
No Hospital de S. Lázaro, no Evangelho de S. João, o amigo de Jesus "ressuscitado",  e que fora fundado em Lisboa ainda na primeira dinastia, serviam-se e curavam-se os leprosos, e o registo que se vendia, como vemos, fornecia uma versão da cruz de Jesus ou latina bastante irradiante do centro dela, que poderia ser Jesus, o coração, o espírito, e tida como dissipadora do mal. As pontas em trilóbulo assemelham-se a uma chama trinitária. Nas épocas de peste  utilizavam-se mais estes registos ou estampas, sendo frequentes soltos ou inseridos em livros religiosos e de orações dos séculos XVII a XIX. Talvez tenha havido alguns afixados mesmo em portas.

Os Calvários nas aldeias e vilas eram pontos de cruzamento de energias sacralizadoras e dissipadoras do mal e dos sofrimentos. A eles se acolhiam os mais devotos e os mais ameaçados, outros apenas faziam o sinal da cruz ao passarem diante deles, seja por costume, seja para invocarem e recolherem as bênçãos divinas e as traçarem  e derramarem sobre si mesmas. Tinham algo de menhires, de pontos de ligação entre a Terra e o Céu, como Jesus realizara sacrificialmente na Cruz, símbolo sagrado desde a mais remota antiguidade pela sua representação do encontro e concórdia dos quaternários dos elementos, das direcções do espaço, das estações do ano. Estes registos tinham grande aceitação e nas festas religiosas e romarias eram adquiridos a fim de levarem às casas as bênçãos do calvário e da igreja ou santuário próximos.  O Calvário do Senhor, em Gouveia, é ainda anualmente celebrado com grande festa em Agosto. Neste registo do final do séc. XIX um anjo recolhe num Graal o que se derramava da chaga do Lado, a quinta e quintaessenciada chaga, exaltada por muitas místicas e místicos, no lado direito do peito.
 

O amor imenso de Maria Madalena pelo mestre, em vida e morte, e na imortalidade, tornou-se um paradigma para o comportamento religioso e assim ao longo dos século milhões de almas sofreram como ela a morte precoce e dolorosa de Jesus às mãos das autoridades judaicas e romanas em Jerusalém. A aspiração amorosa de comunhão com tal sofrimento, e que o Mestre se manifestasse nas almas, gerou muitas visões, estados extáticos e conversões, e mesmo nos nossos dias muitos religiosos, freiras e fiéis continuam orando pelo coração ao mestre da Paixão e Ressurreição, seja na época pascal seja noutros momentos de maior provação ou aspiração. Mas nos nossos dias a banalização do sofrimento e do mal, sobretudo na Palestina, tem secado bastante este tipo de  devoção aos pés do mestre Jesus.