quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

O despertar no além de que depende? Qual a eficácia das orações pelos que partiram, ou sofrem?

Quando morrermos com quem vamos estar? -, interrogo-me diante de fotografias de antepassados...

Será com eles, podendo mesmo ser recebidos por alguns ou, mais provável, só após estarmos interiorizados  algum tempo é que poderemos vê-los, encontrá-los, bem como às pessoas mais próximas, afins ou queridas?

Sabemos pouco das causas da menor ou maior capacidade de energia auto-consciente activa no corpo psico-espiritual e nos seus sentidos espirituais, com que sobrevivemos no além, determinando o nosso campo de cognição e acção, embora as artes de bem morrer e orar tenham sido muito ensinadas, e citarei apenas dois autores, porque os traduzi e publiquei, Erasmo e Bô Yin Râ, e onde o amor e a lucidez de sintonia com a vontade (ou até dharma) mais elevada ou divina são indicados como as melhores causalidades...

Quantos conseguem porém sair do corpo e estar logo conscientes e activos, dominando à vontade a sua movimentação subtil nos planos ou mundos a que terão acesso? Quantos é que ficam presos num umbral dos mundos astrais? Quantos é que são logo atraídos para o sub-mundo subtil ou espiritual a que estão mais ligados por frequência vibratória e estrutura anímica, religião e espiritualidade, causas e conhecimentos, lutas e artes? Quantos é que desprendendo-se libertadoramente ascenderão  rumo aos mundos espirituais e à Divindade?

Vou escrevendo estes fragmentos interrogativos de auto-gnose, enquanto que na Palestina o genocídio vai sendo praticado a céu aberto, mas muito disfarçado pelos meios de informação, na sua maioria pagos ou controlados por pessoas ou corporações que apoiam plenamente Israel e facilmente o sionismo.

Os já mais de 29.00 tragicamente mortos, e onde predominam as mulheres e crianças inocentes, imaturas, impreparadas para tal decepar precoce, onde estão, como estão?

Estarão no plano astral da Terra Santa, assim chamada pela vida e morte do mestre Jesus, quem sabe agora dinamizando as operações de ajuda aos recém desincarnados, com o apoio de guias islâmicos, cristãos e anjos?

Ou serão encaminhados inconscientes para outras localizações do plano astral terrestre ou mesmo para dimensões não conectadas com a Terra?

E será que muitos, dos mais velhos e conscientes, recusam-se a abandonar as suas casas e lojas, terras e olivais, altos e mesquitas e são avistados por alguns clarividentes como fantasmas, em vez de espíritos em ascensão?

Que orações poderemos nós lançar sentidamente da alma, coração e até voz que tenham impacto neles, ou no ambiente tão dilacerado? Teremos força de sentimento e de pensamento para chegar até lá, numa acção à distância da mente e coração, que circula pelo Campo unificado de energia consciência informação que entretece todos,  ou apenas alguns frágeis eflúvios se elevam de nós, ao orarmos, e espíritos caridosos, humanos ou angélicos, redirecionam-nos para as almas mais necessitadas, ainda vivas ou já fora dos corpos?

Eis interrogações que poucos saberão responder mas que todos podemos demandar pois, apesar de tantos séculos de vivências e comunicações, de tanto livro  e lápide, tanto a vida da oração como a do além continuam um mistério. Saibamos então perseverante e criativamente rezar, meditar e orar com sentimentos profundos,  seguindo o que o nosso coração espiritual, ou espírito, em comunhão subtil realizar e irradiar de paz, amor e luz, e algo resultará de acréscimo de Bem e de Amor no Universo, como entre nós tão bem afirmou idealisticamente Antero de Quental na sua magistral carta (e pode lê-la no blogue) a António Moleirinho: «O Universo só dura pelo bem que nele se produz», ou que o sustenta...

Desenho de auto-gnose e demanda juvenil.

 

Desenho interrogativo ou de auto-gnose dinamizante, dos vinte e poucos anos...

1) Será lícito entristecer-me?
Teremos liberdade para tudo?

2) Meu pensamento voa, mas cá em baixo jaz o sofrimento.

3) Bem lá no alto a estrela do Espírito que Eu sou brilha, mas nós pobres por cá [em baixo] em palavras e pensamentos finitos.

4) Os dados estão lançados. Aceitemos o irmão corpo e Portugal. E demos as mãos em acção de graças, antes que em mágoas de tristeza

HUMANO SER.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

Três desenhos espirituais, realizados imperfeitamente por mim há anos e anos, na demanda da gnose e da Luz.

 Desenhados há bastantes anos, e já no Colégio Militar era sofrível em tal arte, tornaram-se com o tempo algo misteriosos, sobretudo o primeiro no qual é difícil lembrar-me das circunstâncias e do que senti, ou do que operou, de motivação na gestação. Teria de ter uma boa memória psicanalítica ou jungiana, ou então meditá-lo "de novo" bem....
                                         
Consigo discernir ainda assim no 1º desenho, o mais antigo, dos meus 20 e tal anos, uma alegoria à Nova Era de Aquário, com uma sereia, um deus ou mestre, talvez egípcio (com muitas forças psíquicas), um elfo ou gnomo, e um ser (e quem será ele?) que recebe os impactos dos outros três. Ao fundo, as montanhas, seja apenas físicas, seja da aspiração ou das dificuldades da ascensão, e o Sol. Assinei Datatom, talvez em ligação com o Egipto.
                                     
No 2º, a que chamo agora Ascensões posso sentir e discernir símbolos da ligação entre a Terra e o Céu, entre a Humanidade e a Divindade, tais como o triângulo, a montanha, as escadas, as espirais aéreas, partindo do sangue e fogo do coração e rumo ao ser espiritual e divino, lá no alto aureolado. É o mais suave e belo, e talvez sugira inspirar-nos ou esforçar-nos mais pela beleza espiritual e as suas cores suaves e luminosas.
                                   
O 3º, mais recente, retoma a representação das montanhas sagradas, seja as nossas seja mais os Him
alaias, e sobre elas  ergue-se uma mandala flamejante, com uma cruz pateada irradiando e no centro uma misteriosa figura crucífera Linhas de força em espiral elevam-se da terra e do interior das montanhas e no cimo de tudo a estrela de cinco pontas brilha resplandecente, símbolo da nossa identidade mais elevada e à qual a um dia estaremos mais identificados.
Que efeitos estimuladores podem suscitar, ou
 intuições gerar, seja para quem desenha, seja para quem os analise psiquicamente, seja para quem os contemple misticamente, não sabemos, mas valem, na sua imperfeição, por serem testemunhos semi-artísticos duma demanda..., e entram ainda no blogue para variar tanta partilha de textos em palavras...

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

Livros que abri, páginas que li: "O Retrato do padre Lagrange", por Jean Guitton. Diálogos sobre Deus, exegese, profecias e a Verdade.

                                                

 Livro que abri, páginas que li...

 Jean Guitton (18.8.1901-21.3.1999) foi um notável professor liceal e universitário, historiador, ensaísta e biógrafo católico, que viveu mais de noventa anos, em aprendizagens tal com Loisy, Carcopino e Lagrange e com grande produção literária, passando por uma fase mais crítica após a 2ª grande Guerra, em que esteve preso dois anos pelos alemães, ao ser considerado um pró-alemão, e por  ser um apoiante do marechal Pétain, chefe do governo de Vichy colaboracionista, vindo depois a ser limpo de tais acusações e reintegrado no ensino universitário (Filosofia, na Sorbonne, desde 1955) e desfrutando amizades literárias, políticas e religiosas importantes, entrando mesmo na Academia Francesa em 1961,

Na obra Portrait du père Lagrange, Celui qui a reconcilié la science et la fois, ou seja, Retrato do Padre Lagrange, Aquele que reconciliou a ciência e a fé, um título algo exagerado para um trabalho de exegese bíblica apenas mais fundada arqueológica e linguisticamente, Jean Guitton biografa bem o  exegeta e teólogo cristão Marie-Joseph Lagrange (7.3.1855-10.3.1938), a pedido, algo reparador, do papa Paul VI que decidira canonizá-lo. Era um erudito dominicano, famoso por ter realizado importantes investigações sobre a Bíblia e Cristianismo,  fundador  em Jerusalém em 1890 da Escola Prática de Estudos Bíblicos (depois Escola Bíblica e Arqueológica Francesa), donde sairá a prestigiada Bíblia de Jerusalém, e em 1892 da Revue biblique, em 1898 da coleccão Études bibliques. Destacará muito bem o  seu percurso eriçado de dificuldades no seio da Igreja, pelas suspeitas do seu método histórico e da sua exegese mais fundamentada serem modernistas, pelas inimizades (tal a do jesuíta alemão Leopold Fonck) mais do que polémicas, e pelas censuras a que pelo voto de obediência teve de se submeter anos a fio, tal a do Papa Pio X que o impediu de publicar qualquer trabalho durante dez anos. A sua tradução dos Quatro Evangelhos e os estudos preparatórios serão muito apreciados e como dissemos  o seu processo de beatificação está em andamento.
Num in-4º de 244 pági
nas, que foi dado à luz em Paris, em 1994, Jean Guitton,  após uma primeira parte com capítulos biográficos por vezes emocionantes pelas perseguições sofridas, insere numa segunda parte, "Encontros", extractos valiosos dos diálogos que travaram em Paris e Jerusalém, que nos permitem compreender melhor tanto o pensamento e a personalidade de Lagrange como as linhas de sabedoria e de demanda que realizavam e "conversaram", no sentido de Agostinho da Silva do convergir para a verdade, para a unidade ou mesmo converter ao mais alto em nós...

                                               

Num desses apontamentos valiosos, nas pp.162-63, o Padre Lagrande defende-se de ser um escritor para as pessoas mais simples, já que admitia a hipótese de ter sido real a vinda dos reis magos, afirmando: "esta condenação prévia duma hipótese qualquer, este direito concedido à razão de condenar uma experiência, é radicalmente contrário ao espírito científico, e no meu sentir [ou ver], é um pecado contra o espírito. Nas ciências, esta suspeita prévia não pode existir." Destaquemos esta identificação do estreitismo dogmático ao famoso e misterioso "pecado contra o Espírito santo", que segundo os Evangelhos seria o menos perdoável. Anote-se que noutro momento da sua vida (como Guitton no narra), considerou também os erros de gramática como pecados contra o Espírito Santo, provavelmente no sentido de serem contra a ordem gramatical e racional, o Logos, e a sua acção nos que escrevem...

Já na pág. 164 o Padre Lagrange contradiz-se um pouco, pois depois de justificar-se de explicar Deus como um homem barbudo aos aldeões, e interrogar-se: «fiz mal de agir assim, como o fizeram desde a origem aqueles que falavam ao povo, desde Jonas, S. Vicente de Paula, o cura d'Ars?», conta a sua charla ou prédica pela rádio na Bulgária: «Queridos amigos comunistas búlgaros, vós sois ateus, não acreditais em Deus porque vos ensinam que Deus é barbudo. Rejeitais a barba com razão, mas negais Deus sem razão. No fundo, o que é um ateu? Vou dizer-vos: um ateu é um espírito que tem uma ideia de Deus mais pura que os seus contemporâneos. O exemplo mais famoso é o de Sócrates que foi condenado pelo tribunal político ateniense porque ele era ateu e que corrompia a juventude.
Aos meus olhos, a vo
ssa ignorância é sinal da vossa pureza. Vós não quereis o Deus de barba e orelhas como está representado sobre os vossos ícones. Tendes razão em rejeitar a barba, mas errais muito ao rejeitar Deus.»  E contradiz-se porque mesmo aos aldeões devia ter explicado melhor Deus sem antropomorfismo, embora seja bem sábia a compreensão da pureza ou não contaminação de visão  presente em Sócrates ou num simples ateu, bem assinalada aliás logo por ele com uma visão intimista da Divindade, pois de facto o padre Lagrange iniciara a sua rábula do Deus barbudo, com as seguintes palavras, bem valiosas de serem mais praticadas ou sentidas: «Supõe que expões às pessoas da tua aldeia a ideia mística que Deus não cessa de falar a nossa alma e que a nossa alma não cessa de conversar com Deus. Para falar ao povo, eu faço um desenho que representa um Deus barbudo, com uma barba florida como Carlos Magno e duas orelhas. Errarei ao agir assim....» Esta fala, conversa ou oração incessante, numa linha até erasmiana, conforme partilhei no seu Modo de Orar a Deus, pode e deve ser  sentida como uma maior atenção ao nosso interior espiritual.

Valioso também, na  página 165, num subcapítulo intitulado Lagrange e Bergson, Jean Guiton contar:«Como eu era o discípulo e herdeiro espiritual de Bergson, o padre Lagrange interrogava-me sobre textos que o embaraçavam no último livro de Bergson chamado As duas Fontes da Moral e da Religião», e assim Guiton esclareceu-o quanto à fé cristã de Bergson pois este, rebatendo a hipótese crítica do cientista e investigador religioso Paul-Louis Couchoud (1879-1959, Le Mystère de Jesus), que negava até a existência histórica de Jesus (tal como tal Arthur Drews e Herman Raschake) afirmara-lhe que «a humanidade e a historicidade dos Evangelhos parecem-me um aquisição eterna».
Valioso o diálogo entre os dois ac
erca do "dramatizante dualista" Blaise Pascal e a concordância verdadeira ou fabricada entre profecias antigas do Antigo Testamento e as ocorrências da vida de Jesus nas narrativas evangélicas, e onde Jean Guitton surge bem mais próximo da verdade e não condescendendo, como em parte o P. Lagrange, com a alteração da mensagem de Jesus: «Pascal raciocinava assim: há no Antigo Testamento profecias, isto é anúncios sobre o futuro, anúncios muito precisos nos detalhes como nos momentos temporais. Ora, segundo Pascal, essas profecias, feitas muitos séculos antes de Jesus. foram verificadas na história do Jesus, nomeadamente as profecias feitas pelo profeta Isaías sobre a  morte ignominiosa de Jesus que nós chamamos a Paixão. Que pensa das profecias, ou melhor do argumento das profecias de Pascal [e que os comuns cristãos também aceitam], já que passou toda a sua vida a estudar o Antigo e o Novo Testamento e que por consequência é mais competente que qualquer pessoas para nos dizer se Pascal tinha razão [nesta aposta] ou se Pascal se enganou, em função das últimas descobertas da exegese moderna?

Responde o Padre Lagrange: «É verdade que em 1906 em Jerusalém, fiz uma conferência sobre esse assunto tão difícil e contudo capital. Dir-vos-ei em que condições tal conferência foi realizada em Santo Estevão, Jerusalém. Acabara de sair um livro de Sully Prudhomme (16.3.1839-6.9.1907), o poeta celebre que foi o primeiro prémio Nobel de Literatura e que tinha uma muito grande autoridade moral, e Sully Prudomme sugeria que os argumentos de Pascal [de quem era uma grande conhecedor] tinham sido arruinados pela exegese moderna [dos Evangelhos e do Cristianismo]. Pascal dera a maior importância à profecia, e considerava-a como o selo que Deus dá à sua obra anunciando-a antecipadamente. 

Sully Prudhomme
Jean Guitton interrompe-o então e diz-lhe: «- Permita-me, meu padre, indicar-lhe qual é a minha dificuldade quanto às profecias, seja em Pascal ou em si. E esta dificuldade surge cada vez mais à medida que se avança na exegese, e ela inquieta muitos dos nossos contemporâneos.
Se as profecias, dizem-nos, se realizam [ou realizaram], é por uma razão muito simples, é porque o Evangelho, a história evangélica tal como nós a encontramos hoje nos quatro Evangelhos, foi fabricada pelos redactores para realizarem [ou cumprirem] as profecias e a partir das profecias do Antigo Testamento. De modo que nós não nos espantamos nada que Jesus tenha ressuscitado "segundo as Escrituras" porque as Escrituras, ou seja as profecias, foram a fonte das narrativas dos Evangelhos. De modo que o argumento das profecias está arruinado, já que em vez de provar a verdade da religião, demonstra as fraudes que estão na sua origem.»
Bem apertado por Jean Guitton, o P. Lagrange admite que haja nos Evangelhos partes que foram induzidas pelas profecias do Antigo Testamento, mas realça que o mais importante foi «o anúncio que viria um Messias, rei, de qualquer nome que se chame, e que faria uma verdadeira revolução religiosa que se estenderia à humanidade inteira. O problema é então saber se este ser anunciado veio e se tal ser que anunciaram é precisamente o Nazareno», e tal é o que pensaram o apóstolos, Pascal e eu.
E passando os dois a discutirem se as profecias tem dois sentidos, um literal e outro espiritual ( e podem-se até discernir mais), um nos efeitos superficiais, o outro nas causas profundas, Jean Guitton atreve-se a citar de um comentador de Pascal um texto valioso, ou como ele chama "notável", e que bem meditado nos pode aproximar mais da verdade e do seu Campo unificado de energia consciência informação: «Não há qualquer dúvida que todas as verdades são eternas, que elas estão ligadas e dependentes umas das outras, e este encadeamento não é só para as verdades naturais e morais, mas ainda é para as verdades de facto que podemos dizer também de certo modo eternas, pois todas estando atribuídas [ou designadas] a certos pontos da eternidade e do espaço, elas compõem um corpo que subiste como um todo [tout à la fois] para Deus»

E fiquemos com esta imagem de um corpo místico da Verdade, ou do Logos, Inteligência, Amor, Razão e Ordem do mundo, e que para os cristãos tem a sua cabeça em Jesus Cristo, o mestre da hoje em genocídio Terra Santa... Que a paz e a fraternidade possam surgir o mais rápido possível...

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Antero de Quental, nos sutras de Joaquim Correia da Costa, em crítica a um livro de Mário Beirão, no "Diário de Lisboa", de 14-3-1929.

                                     

Arrumando gavetas, papéis, manuscritos, jornais, deparei-me com um artigo de crítica literária do diplomata e escritor  Joaquim Correia da Costa, no Diário de Lisboa (onde escreveu bastante desde 1922), de 14-3-1929, acerca do Último Lusíada, acabado de dar à luz pelo poeta Mário Beirão (1890-1965) e onde, no meio do elogioso texto, de uma página a quatro colunas,  vislumbrei um parágrafo dedicado a Antero de Quental,  com o qual inicia a menção da linhagem dos poetas líricos em que Mário Beirão se inseria e que passaria então por Antero de Quental, António Nobre, Gomes Leal, Guerra Junqueiro, Teixeira de Pascoaes e João de Deus, concluída por ele com a esperança nos novos poetas. 

 O que discerniu muito sinteticamente sobre Antero de Quental merece ser salvo da tumba do esquecimento dos frágeis jornais no decorrer do Tempo e receber alguma hermenêutica mais luminosa, pois Joaquim Correia da Costa era um pensador crítico, inteligente e sensível, apreciador das literatura e artes plásticas, do integralismo e tradições portuguesas, com muitos amigos, tal Fernando Pessoa, Carlos Parreira, João Ameal e outros,  pelo que vamos então ressuscitá-lo, saudando-o no esplendor do espírito e das coisas, para o seguirmos no seu livro de valiosos ensaios de crítica literária,   apontamentos de viagem no estrangeiro e descrições de Portugal e seus costumes, -  campinas e cavadores, mercados e feiras, excelentes ou não fosse ele natural de Moita do Ribatejo - , dedicado  a Alberto da Rocha Brito, a António de Cértima e a Lino António, com capa de Almada Negreiros, dado à luz na Lumem, editora conimbricense, em 1926.

Eis o que nos transmite, como que em quatro sutras: - "Antero viveu a interrogar-se numa rebeldia dolorosa, onde surgiu a morte e com ela o seu sacrifício sobrehumano. O mais alto desejo sensível cabe todo dentro de alguns sonetos de Antero. O Poeta atingiu em sua obra o credo na humana condição, tão vizinha da morte. Atingiu num sonho todo o mundo e depois de o atingir disse à vida o seu Nirvana.»

Aproximemo-nos então do começo: "Antero viveu a interrogar-se numa rebeldia dolorosa, onde surgiu a morte e com ela o seu sacrifício sobrehumano."

Esta afirmação não é exagerada, pois Antero interrogou muito a vida e seus sentidos e mistérios, suas instituições e agentes, e fê-lo com audácia, coragem, independência e logo rebeldia não só mental mas também física e factual, como na sua vida de estudante, de polemista ou de revolucionário socialista exemplarmente manifestou.

Podemos dizer "interrogou", como talvez melhor ainda "questionou. investigou, demandou" e, nesse processo de estudo, exame, experimentação, descoberta, tese, antítese e síntese, Antero foi avançando e amadurecendo seja religiosa, política,  filosófica ou psiquicamente, todavia com a doença a surgir-lhe algo cedo, diminuindo-o na sua irradiação e obra e predispondo-o para a morte precoce. Assim, as unificações com o mundo das ideias e dos seres pela laboração afectiva e psíquica, poética e filosófica que Antero realizara e partilhara, através da edição final dos Sonetos e a publicação das Tendências Gerais do Pensamento Filosófico, ficaram como o seu testamento, final, ainda que reconhecesse nele limitações de não ter conseguido gerar a sua poesia espiritual e luminosa perfeita, nem escrever a sua visão filosófico-espiritual plenamente.

Foi um "sacrifício sobre-humano", o seu suicídio? É uma boa denominação ou  classificação do acto fatal: Antero mata-se, sacrifica-se na ara ou altar dos seus ideais, das suas aspirações e do inconseguimento deles pessoal e provavemente até nacional. 

Era uma parte - quem sabe, um dos seus corações - de Portugal que se suicidava, vencida na incapacidade  da Liga Patriótica do Norte, presidida por Antero, de conseguir em 1891 dinamizar a reacção voluntariosa dos partidos e do governo ao Ultimato do imperialismo britânico.  

No anoitecer de 11 de Setembro de 1891, olhando para trás, nesse alto monte escarpado final, Antero de Quental deve ter visto a sua vida fabulosa de criança açoriana, de estudante, de literato, de poeta apaixonado, de orador, de revolucionário idealista, político e socialista, de epistológrafo e filósofo, mas em que não conseguira assentar na realidade da profissão e trabalho,  casa e  terra, mulher certa ou amada (a sua Beatriz  sentida idealizadamente na Beatrice e nas Primaveras Românticas)  ou ainda  grupo, cenáculo ou meio receptivo e frutuoso, mesmo que fosse só a Ordem dos Mateiros, sonhada para uns poucos, em modo agro-florestal e contemplativo, resistentes à degeneração do Ocidente, como hoje mais acentuadamente observamos, com alguns montados mateiros a sobreviverem.

Assim, a não-vivência harmoniosa ou plena como desejaria, a má situação do corpo, dos nervos e da esperança na alma de Portugal e na possibilidade de cooperar com ela e, por fim, a frustração do seu projecto de retorno à ilha natal com as duas pupilas - ao não se poder realizar na proximidade com elas desejada - levaram-no a cortar os laços que o prendiam à humanidade da terra. E nestes sentidos Antero foi sobre-humano, arrancou ou exigiu algo mais do que o humano nele.......

Estava desiludido, cansado de quê? Da terra mesmo, da vida humana, da sociedade, e em especial da sociedade portuguesa e açoriana, ou estava sobretudo já desinteressado da vida da Terra, por não ter mais esperanças quanto a ela e, pelo  desgaste e enfraquecimento nervoso e psíquico e a sua difícil readaptação à vida parda em Lisboa (para onde teria de regressar), só e com escassos amigos, algo já uma sombra do Antero deslumbrante que Eça de Queirós viria a debuxar uns anos depois magnificamente no seu In Memoriam?

Assim a palavra sacrifício sobre-humano pode interpretar-se em vários sentidos, tal o de desiludido, sacrificar de novo a sua vida, e agora diante da morte, face aos altos ideais supra-humanos: - "Já que não os consigo mais realizar, nem nós portugueses, que haja quem faça o seppuku ou hara-kiri, o mea culpa, o não sou digno de Ti, Vida, partindo sem medo para a libertadora irmã Morte."

E foi um "sacrifício sobre-humano", difícil, como são a maioria dos suicídios - e que longo filme ou livro trágico se realizaria de últimos  pensamentos dos que enveredaram por tal prática e caminho -, porque provavelmente se debateu dolorosamente entre o ir e o ficar, entre o tentar  realizar ainda algo (talvez obra filosófica e espiritual, ou apenas a educação das duas pupilas Albertina e Beatriz) ou o baixar os braços e desistir. E, finalmente, porque  no fim dos dois tiros disparados  esteve algum tempo ainda em forte sofrimento, numa crucificação sobre-humana, só suportável porque a um "sobre-humano nível" se referia e aspirava...

Entremos agora nas ideias-forças da 2ª afirmação sutrica: "O mais alto desejo sensível cabe todo em alguns sonetos de Antero."

Nesta frase, afirmativa da poderosa força (quase atómica) dos sonetos de Antero,  discernimos a sua compreensão dele ter conseguido atingir em poemas o máximo de amor, de aspiração, de idealismo, isto é, de alto desejo, seja de amor,  justiça,  gnose,  fraternidade ou verdade, e ter condensado tal em palavras, rimas, ritmos, imagens, sentimentos, sonetos poderosamente perenes.  

E são realmente muitos  os poemas e sonetos plenos de tal fogo e demanda, que infelizmente não foi tão plenamente realizada em certos níveis internos e gnósticos, embora noutros sim e que ele sabia: a perfeição poética estava reconhecida, e o seu pensamento filosófico foi partilhado no fim da vida na Revista de Portugal e por alguns bem recebido, e durante muitos anos em cartas fora derramando a sua palavra ou verbo encantatório, idealista, libertador, fraterno, sábio....


A frase seguinte, "O poeta atingiu em sua obra o credo na humana condição, tão vizinha da morte, " é também bastante desafiadora, e poderemos lê-la, entre outras hermenêuticas, assim: A obra poética de Antero é um credo, uma afirmação de crença nos valores e potencialidades do ser humano, imensos  e enormes, mas que sabemos serem sempre frágeis pela sua sujeição à sempre vizinha morte e a tantas adversidades.

Joaquim Correia da Costa demonstra uma boa afinidade com o pensamento de Antero de Quental, na valorização da morte sempre ao lado da vida e, nesta equiparação, nesta visão da dualidade, pode haver até uma crença na vida depois da morte, pois se a vida gera tantas maravilhas, mas está sempre colada à morte, porque não admitir que esta tenha também muitas maravilhas em reserva para os que as merecerem?  Não sabemos porém o posicionamento espírita, ou espiritual, ou de crente ou descrente na imortalidade da alma, que Joaquim Correia da Costa tinha. Contudo, o últim0 sutra permite vasta hermenêutica:  "Atingiu num sonho todo o mundo e depois de o atingir disse à vida o seu Nirvana."

Esta tão bela quão misteriosa frase  poderemos interpretá-la pluridimensionalmente: Antero de Quental alcançou na sua obra poética e de ensaio literário, político, filosófico, ético e espiritual uma expansão consciencial muito grande, quase uma unidade com o universo e, atingida tal infinitização, Antero despediu-se da Vida fazendo por si próprio a sua extinção ou Nirvana, no banco do jardim ou campo de S. Francisco, sob a palavra Esperança, na sua terra natal de Ponta Delgada, fechando o anel duplo do espaço tempo de Ouroboros, rumo ao seu além nirvânico, certamente não de extinção total mas antes, vislumbramos, de lenta ressurreição psico-mórfica...

 A expressão sutrica "disse à sua vida o seu nirvana" é bastante original e profunda e assinala tanto o poder persistente e coerente de rebeldia indomável de Antero, pois tal como se rebelara contra as praxes e autoridades académicas, ou  o patriarcalismo conservador da escola de Lisboa e de António Feliciano Castilho, e depois lutara por um socialismo humano e por fim contra o imperialismo britânico, confrontado com o aproximar irremediável da Morte, com quem tanto dialogara e poetizara no seu percurso ardente, preferiu ser ele dizer ou fazer a sua própria morte, ou fim, ou extinção ou nirvana, num acto portanto de rebeldia máxima à normalidade, provavelmente mais dolorosa que jubilosa ou nirvanica, pelo menos enquanto não morreu cerebralmente, embora não saibamos que forças de desprendimento libertador emanou em tal acto e momentos pelo éter eterno...

Resta intuir ainda com que força e luz ele despertou consciencialmente no além, já sem corpo físico mas num corpo poético-espiritual, e quanto tempo, as suas melhores ou mais causais tonalidades vibratórias, intensificadas com entretecimento com as dos por ele têm orado, levaram a ressuscitá-lo mais...

Muito luz e amor para os três: Antero de Quental, Mário Beirão e Joaquim Correia da Costa! Demos graças Lux, Aum, Amen, Iao, Hum.

domingo, 18 de fevereiro de 2024

Extractos do Evangelho de Ramakrishna, por Mahendranath Gupta, no 188º aniversário de Ramakrishna. E o prefácio de Aldous Huxley.

                                   

Comemorando-se os 188 anos do nascimento de Sri Ramakrisna Paramahansa (1836-1886) neste mês de Fevereiro, a 18, e tendo eu estado em 1995 alguns meses em Calcutá no Instituto de Cultura da Missão ou Ordem de Ramakrishna, dirigido então por Swami Lokesvarananda, a traduzir (à mão...) a narrativa da sua vida e alguns textos sagrados do Sanatana Dharma, a Tradição espiritual perene da Índia, estes com o pundit Satchitananda Dhar, resolvi partilhar alguns extractos  dessa maravilhosa narrativa escrita em bengali, a Sri Sri Ramakrishna Kathamrita,  por Mahendranath Gupta (1854-1932), publicada entre 1902-1932, e que traduzi a partir dum exemplar 4ª edição do Evangelho de Ramakrishna, na tradução inglesa de Swami Nikhilananda, editada em 1994, que leva até um breve mas denso e valioso prefácio do genial autor da Ilha, e do Admirável Mundo Novo,  Aldous Huxley (1894-1963), ou não publicara ele a famosa antologia Perennial Philosophy, com textos de quase todas as tradições, mas não  portuguesa, e que o meu primeiro guru na Índia, Swami Kaivalyananda, de Rishikesh, me fez ler e cogitar como preparação à realização espiritual vedântica. 

"Haverá, numa ou noutra das próximas gerações, um método farmacológico para fazer com que as pessoas gostem da sua servidão e para produzir uma ditadura sem lágrimas, por assim dizer, produzindo uma espécie de campo de concentração indolor para sociedades inteiras, de modo a que as pessoas tenham, de facto, as suas liberdades retiradas, mas ainda assim gostarão disso, porque estarão distraídas de qualquer desejo de rebelarem-se, por propaganda ou por lavagem ao cérebro intensificada por métodos farmacêuticos...»

No prefácio, depois de lembrar como são raros os génios artísticos ou religiosos que têm a sorte de encontrar um narrador qualificado, Aldous Huxley congratula-se com o encontro entre Ramakrishna e Mahendranath Gupta e a fidelidade com que este preservou a profunda genuinidade, e, simultaneamente, realização espiritual de sri Ramakrishna, o que o torna universal, enaltecendo-os assim "ao ensinarem-nos sobre a vida o espírito": «Ler estas conversas nas quais a doutrina mística alterna com um tipo de humor invulgar, e em que os mais bizarros aspectos da mitologia Hindu dão lugar às mais profundas e subtis afirmações acerca da natureza da Última Realidade, é em si mesmo uma educação livre em humildade, tolerância e suspensão de julgamento».

Transcrevo hoje o diálogo que começa na página 80, quase no princípio do 1º Capítulo, intitulado Mestre e Discípulo, onde M., ou Mahendranath Gupta, relata os seus primeiros encontros e diálogos com Sri Ramakrisna, e que se tornará o seu mestre. Dialogam sobre uma questão persistente, a de pensarmos e adorarmos a Divindade como sem forma, absoluta, não dual, ou antes reconhecê-la e cultuá-la com forma, pessoal, de acordo até com a nossa afinidade de maior devoção às várias formas da Divindade ou mesmo dos seres, mestres, avatares e profetas em que Ela se manifestou, nomeadamente nos fundadores das religiões  ou vias. Ramakrishna responde ainda a outra questão fudamental, como aquietar a mente, como poderemos mais religar-nos ao Espírito e à Divindade. Boas inspirações e práticas....

« (...) Mestre [Ramarishna Paramahansa]: “Bem, acreditais em Deus com forma ou sem forma?”
M., [Mahendranath Gupta] algo surpreendido, diz a si mesmo: “Como é que alguém pode acreditar em Deus sem forma quando acredita em Deus com forma? E se alguém acredita em Deus sem forma, como é que pode acreditar que Deus tenha forma? Podem estas duas ideias contraditórias serem verdadeiras simultaneamente? Pode um líquido branco como o leite, ser negro?”
M.: “Senhor, eu prefiro pensar em Deus sem forma”.
Mestre: “Muito bem. Basta ter fé em qualquer um destes dois aspectos. Acredite em Deus sem forma, está muito bem, mas nunca pense nem por um momento que só esse seja verdadeiro e todo o resto falso. Lembre-se de que Deus com forma é tão verdadeiro como Deus sem forma. Mas mantenha-se firme na sua convicção”.
A afirmação de que ambos são verdadeiros espantou M.; nunca tinha aprendido tal nos seus livros. Então o seu ego recebeu um terceiro golpe, mas como ainda não estava completamente esmagado, tornou a questionar o Mestre.
M.: “Senhor, suponhai que alguém acredite em Deus com forma. Certamente Ele não é a imagem de barro.”
Mestre (interrompendo): “Mas porquê de barro? É uma imagem do Espírito.”
M. Não conseguia compreender bem o significado da expressão “imagem do Espírito.” “Mas, senhor”, disse ao Mestre, “deve-se explicar aos que adoram a imagem de barro, que ela não é Deus e que, adorando-a, devem ter Deus em vista e não a imagem de argila. Não se deve adorar a argila.”
Mestre (incisivamente): “Trata-se de um passatempo de vocês, pessoas de Calcutá, dar palestras e trazer os outros para a luz! Ninguém se detém para pensar como conseguir obter a luz para si. Quem são vocês para ensinar os outros?
“Aquele que é o Senhor do universo ensinará cada um. Só ele, que criou esse universo, nos ensina: Aquele que fez o sol e a lua, homens, animais e todos os outros seres; Aquele que provê os meios para seu sustento; que deu filhos aos pais e dotou-os de amor para os fazerem crescer. O Senhor fez tantas coisas – não mostrará Ele às pessoas a maneira de adorá-Lo? Se precisarem de ensinamentos, Ele será o Mestre. Ele é o nosso Guia Interno.
“Suponhamos que haja um erro em adorar-se a imagem de barro. Não o saberá Deus que é o único que a está a ser invocado? Ele gostará de tal adoração. Por que tereis dor de cabeça por causa disso? Seria melhor esforçar-se por conhecimento e devoção.”
A esta altura , M. sentiu que seu ego estava completamente esmagado. E disse para si mesmo: “Sim, ele falou a verdade. Que necessidade tenho de ensinar os outros? Conheci Deus? Será que realmente O amo? ‘Não tenho espaço suficiente para mim na minha cama e estou a convidar alguém para compartilhá-la comigo! Não sei nada acerca de Deus e estou a tentar ensinar os outros. Que vergonha! Que tolo eu sou! Isto não é matemática ou história ou literatura, que uma pessoa possa ensinar aos outros. Não, isto é o mistério profundo de Deus. O que ele me diz, chama-me.”
Esta foi a primeira argumentação com o Mestre e felizmente a última.
Mestre: “Estava a falar de adorar a imagem de barro. Mesmo que ela seja de barro, há necessidade desse tipo de adoração. O Próprio Deus providenciou diversos tipos de adoração. Aquele que é o Senhor do universo arranjou todas essas formas para servirem às diferentes pessoas nos diversos estágios do conhecimento.
“A mãe cozinha diferentes pratos a fim que sejam apropriados ao estômago de seus diferentes filhos. Suponhamos que ela
tem cinco filhos. Se há peixe para cozinhar, ela prepara vários pratos a partir dela - pilau, escabeche, peixe frito e assim por diante,
para satisfazer os diferentes gostos e poderes de digestão de seus filhos.
“Compreende-me?”
M.(humildemente): “Sim, senhor. Como é que nós podemos fixar as nossas mentes em Deus?
Mestre: “Repita o nome de Deus e cante as Suas glórias, e mantenha a companhia santa; de vez em quando visite os seres devotos de Deus e os homens santos. A mente não pode estabilizar em Deus se estiver mergulhada dia e noite no mundanidade, nos deveres e responsabilidades do mundo; é muito necessário de vez em quando entrar na solidão e pensar em Deus. Fixar a mente em Deus é muito difícil no princípio, a não ser que se pratique a meditação na solidão. Quando uma árvore ainda é jovem, é necessário protegê-la com uma cerca, senão pode pode ser destruída pelo gado.
“Para se meditar, deveis recolher-vos dentro de vós ou retirar-vos para um lugar isolado ou para uma floresta. E deveis sempre discriminar entre o Real e o irreal. Só Deus é Real, a Substância Eterna, tudo o mais, irreal, ou seja, impermanente.
Discriminando assim, a pessoa deve sacudir os objetos impermanenes da mente.”
M. (humildemente): “Como devemos viver no mundo?”
Mestre: “Cumpri os vossos deveres mas mantende a vossa mente em Deus. Vivei com todos – mulher, filhos, pai e mãe - e servi-os. Tratai-os como sendo-vos muito queridos mas, sabendo no coração dos corações, que eles não vos pertencem.»

sábado, 17 de fevereiro de 2024

Sri Ramakrisna e os seus ensinamentos, recolhidos por Max Müller e comentados por Pedro Teixeira da Mota. Vídeo e textos. No 186º aniversário de Sri Ramakrishna Paramahamsa.

Comemorando-se em 2024 o aniversário de Sri Ramakrishna a 18 de Fevereiro de 1836, com o Sol, a Lua e Mercúrio em Aquário, resolvemos partilhar alguma da sua sabedoria e utilizamos o livro que o pioneiro do orientalismo e dos estudos comparativos das religiões Max Müller publicou em 1898, Ramakrishna his Life and Sayings, contendo um pequeno prefácio de seis páginas e, nas restantes duzentas páginas, 395 pensamentos e parábolas do seu ensinamento, que lhe foram transmitidos por alguns dos discípulos directos de Ramakrishna, morto então apenas há doze anos. Recebeu mesmo em sua casa em 28 de Agosto de 1896 swami Vivekananda, o discípulo principal de Sri Ramakrisna, o qual ficou encantado com Max Müller.
A obra teve grande sucesso  e divulgou bastante a sabedoria yogi indiana viva num místico da actualidade, valorizando assim a apreciação dela já que Max Müller, apesar de ser um protestante luterano (e isso reflecte-se na sua obra e nas traduções, apesar de ter sido atacado na época por ser panteísta e anti-cristão) e um ocidental admirador do império inglês e do germânico, era tanto um grande linguista e filólogo especialista de sânscrito e  professor universitário de Oxford, como o fundador da Ciência da Religião e director da pioneira e tão valiosa colecção dos Livros Sagrados do Oriente, que deu à luz cinquenta títulos, um dos quais da sua autoria, a primeira tradução do Rig Veda, com os comentários, a samhita, de Sayana. E foi ainda o autor de diversas obras valiosas sobre o Sanatana Dharma, os ensinamentos espirituais indianos, demarcando-se da divulgação alterada e atabalhoada da Sociedade Teosófica, estando algumas das obras disponíveis no Internet Archive, nomeadamente a tão valiosa e pioneira, no comparativismo religioso quanto às noções de Deus e de alma, enraizado no estudo das fontes,  Theosophy or Psychological Religion, na qual no prefácio explica que escolheu "tão venerável nome porque recentemente fora tão mal apropriado  que urgia restaura-lo na sua verdadeira função".
Resolvemos então ler, traduzindo do inglês para português e comentando levemente, uma p
arte do prefácio e em seguida alguns desses ensinamentos de Sri Ramakrishna, gravando-os em duas partes de meia hora, e estando a ligação no fim deste artigo.
                                                                  
Max Müller em 1894-95 por George F. Watts, um pintor pre-rafaelita de quem era amigo, tal como de John Ruskin.
Resolvi porém transcrever também alguns desses ditos e ensinamentos divulgados por Max Müller e que foram colhidos nas conversas ou satsangas que Ramakrishna diariamente dava e que nos seus últimos anos foram preservados mais fidedigna e contextualizadamente pelo discípulo e sábio Mahendranath Gupta (1854-1932), registados em bengali, em 5 volumes, Sri Sri Ramakrishna Kathamrita, o Evangelho de Ramakrishna. Começo agora apenas na frase 214º, porque nas duas gravações de vídeo li e comentei maioritariamente as primeiras...
                                             
«214. O prato da balança ma
is pesado desce, enquanto o mais leve sobe. Similarmente, quem está carregado de muitas preocupações e ansiedades do mundo, vai para baixo para o mundo, enquanto que o que tem menos preocupações ergue-se para o reino celestial.
215 Deus está em todos os seres, mas nem todos os seres estão em Deus: esta a razão porque eles sofrem.
351 Uma ama duma família rica educa o filho do seu patrão, amando a criança como se fosse sua, mas sabendo que não tem qaulquer direito a ele. Similarmente, devemos também pensar que somos apenas preceptores e guardiões das nossas crianças cujo verdadeiro Pai é Deus.
352 É inútil cogitarmos as escrituras sagradas sem se ter uma mente discriminativa e desprendida. Não é possível progresso espiritual sem discriminação (viveka) e desapego (vairagya)
353. Conhece-te a ti mesmo e então conhecerás o não-eu e o Senhor de tudo. O que é o meu ego? é a minha mão ou pés, a carne, o sangue o músculo ou tendões? Reflecte com profundidade, e saberás que não há tal coisa como o eu. Tal como continuamente descascando a pele da cebola, também ao analisar-se o ego encontrar-se-á que não há uma entidade real que corresponda ao ego. O último resultado de toda esta análise é Deus. Quando o egoísmo cai fora, a Divindade manifesta-se ela mesma.
354 A prática devocional e espiritual apropriada a esta idade do Ferro, Kali Yuga, é a constante repetição do nome do Senhor do Amor.
355 Se queres ver Deus, tem uma fé firme na eficácia da repetição do nome de Deus, Hari, e tenta discriminar entre o real do irreal.
358 A companhia dos santos e sábios (satsanga) é um dos principais elementos do progresso espiritual.
364 Em que condição mental acontece a visão de Deus? Deus é visto quando a mente está tranquila. Quando o mar psíquico está agitado pelo vento dos desejos, não pode reflectir Deus, e então a visão de Deus é impossível.
365 Como é que podemos encontrar Deus? O pescador, ansioso por captar uma boa variedade de peixe, espera calmamente horas a fio, tendo deitado o isco e o anzol na água, esperando calmamente que a engodo apanhe o peixe. De igual modo, o devoto que segue pacientemente com as suas devoções pode estar seguro que encontrará Deus.
376 Devemos mergulhar profundamente no Oceano de Sat Chit Ananda, Ser, Inteligência e Felicidade eterna. Não receies os monstros das profundezas do mar, a avareza e a ira. Reveste-te da curcuma da Discriminação e do Desapego (Viveka e Vairagya) e esses jacarés nãos e aproximarão de ti, pois o cheiro da curcuma é demasiado forte para eles.
379 Por vezes a paz reina no coração, mas porque não dura muito? Assim como o fogo feito com a queima do bambu extingue-se rapidamente se não for mantido vivo com o constante soprar, assim a devoção contínua é necessária para manter o fogo da espiritualidade.
390 O corpo é transiente e não importante. Porque é que então se trata tanto dele? Ninguém se importa com uma caixa vazia, mas preservam a caixa que contém dinheiro e outros objectos valiosos. A pessoa justa ou com virtudes não pode deixar de cuidar do corpo, pois ele é o templo em que Deus se manifestou ou que foi abençoado pelo advento de Deus.
391 Quanto tempo é que a semelhança de Deus [godliness, a qualidade divina, a santidade] permanece no ser humano? O ferro está vermelho enquanto estiver incandescente e fica negro após ser removido do fogo. De igual modo o ser humano tem uma semelhança ou uma natureza divina enquanto está em comunhão com Deus....»

 Segue-se o 1º vídeo. O 2º encontra-o no mesmo canal do youtube...