domingo, 7 de janeiro de 2024

Uma conversa com Agostinho da Silva, em 1988: Deus criador, Espírito omnipresente e Deus interno. Europa, de Eduardo Lourenço, que nos pôs na gaveta e Socialismo que Mário Soares pôs na gaveta.

Agostinho da Silva [1906-1994], com o seu chapéu russo. O que diria ele dos conflitos actuais e da mortandade na Palestina? Lux, Justitia, Pax.  

                                                  

Transcrição dum registo manuscrito numa folha das Edições Manuel Lencastre, datado de 28.XII.1988. Acrescentos explicativos em letra menor e dentro de [...].

«Visita ao prof. Agostinho da Silva.                                          Começámos pelo Stephen Hawking e a física moderna, que estão cada vez mais a não encontrar matéria [ao chegarem a partículas cada vez menores e mesmo à anti-matéria]. E quanto à fonte donde jorra a água, ela é incapaz de a definir [Com o hipotético Big Bang dá-se a formação da átomos do Hidrogénio e muito depois do Hélio, os quais se juntam na formação das estrelas, a partir das quais biliões depois se origina o oxigénio, que junto ao Hidrogénio gera o vapor de água].  E a fórmula [explicativa do aparecimento do Universo pelo] do acaso [ser] impossível.
Deus criador. Ou o Espírito Santo, energia impessoal criativa e omnipresente. [Entre estas duas hipóteses aproximativas à Divindade, Agostinho da Silva segue claramente a segunda, aprofundando-a com originalidade e ligando-a a tradição portuguesa e à física moderna.]

E conversaremos sobre muitos aspectos. Como há dias se chateou um pouco com o Eduardo Lourenço, com a sua Europa de Nice [a cidade francesa onde morava], essa Europa que desde o século XVI nos pôs na gaveta,[ muito clarividente, face ao que se tem passado...]

Como o sonho do  Carlos V e de Filipe II duma Península Ibérica se poderia fazer com a capital em Lisboa, e com o espírito dos comuneros [1520-1522, contra a coroa castelhana], que era o do Encoberto (em Valência), agora realçado [ou actualizado] como o Espírito Santo, da criança, do velho e da liberdade. [Bem importante esta actualização da simbolização mítica e espiritual do dinamismo de Portugal: já não o Encoberto, ou o Sebastianismo, mas sim o Espírito Santo, com os seus valores tão actuais e necessários].

Como arranjar leite para todas as terras, e cultura para todos? [Terão de ser] Ou teóricos que investigam, ou práticos que se instalam nas abadias [ou em conventos e comunidades, casas de bem comum, como lhes chamou também.]
[Afirma] que os freires militares continuam. Freires na defesa dos lugares santos.  Cita Einstein, Isfahan (e eu acrescento, onde o Espírito Santo é invocado), e a luta contra os infiéis. Contra todos os que não são fiéis a si próprios e à disciplina.

Conta a história, da tradição do Ruanda Burundi [do Deus criador que, face aos desentendimentos que poderiam acontecer, deixou no peito de cada ser uma parte de si, para ser fonte de inspiração e de harmonia Terra. Narrou esta história a outros e está numa das suas folhinhas que enviava por correspondência.]

Explico-lhe como esse ensinamento de Deus interno é o cerne da questão [principal da vida]. Mas que tem de crescer, é um potencial, e que ninguém nos diz ou ensina isso. Que cresce pelas práticas espirituais e Agostinho acrescenta: « - Pelos encontros do acaso». Sorrimos, sentindo e assim terminamos a conversa.

Disse-me ainda que estava farto das cadeiras na frente [onde tinha que se sentar], de ser reconhecido na rua, que não sabe se a Europa nos pôs na gaveta, ou se Mário Soares pôs o socialismo na gaveta, mas passará a escrever a partir do mês de Janeiro já não [as cartas-boletins intituladas] É a hora, mas uma carta de sugestão prática, já que crê que as telhas nas cidades vão cair, e que é nas abadias [grupos ou comunidades alternativas na Natureza] que se deve construir o futuro.

Acha que os Descobrimentos não devem ser comemorados, pois não são só nossos, e que as Navegações essas sim, e fizeram-se na linha de exploração da divisão [da Terra] que nos coubera no Tratado de Tordesilhas, até 1725.»

Está bom [de saúde e de ânimo].» 

    Muita luz e amor para ele, onde quer que queira estar! Aum, Amen

 Kailas, numa pintura do mestre russo Nicholas Roerich.

sábado, 6 de janeiro de 2024

Para Shanti Das, o peregrino da Índia, discípulo de Gandhi e Vinoba, o activista da Ahimsa, o ecologista e fundador da comunidade da Arca, poeta e filósofo.

      Escrito no dia da desincarnação terrena de Shanti Das (servidor da Paz), ou Lanza del Vasto.[29-I-1901 a 5-I-1981]

                 «Para Shanti Das
A man has died and in the labyrinth of life we are more alone. Morreu um homem e no labirinto da vida estamos mais sós.

Assim despediste-te da Terra no dia dos Reis Magos. Lembrando os homens que os malefícios do progresso e da indústria destroem o menino. Tu que viveste uma vida de austeridade e simplicidade com alegria, força e divindade, não te afastes já deste plano mais denso e deixa-nos algumas intuições e controlos.
A lança na mão atravessaste as terras pirenaicas para vires aqui apontar o caminho da não-violência, forte como um fogo, belo como as searas ao vento. Em nós semeaste esta força de resistência ao mal que caracteriza os homens de antanho antes de quebrar do que torcer. E agora ao abandonares a Terra deixas-te-a empobrecida, e a tristeza vem-nos do coração à garganta, ainda que saibamos que como alma mais vivo do que nunca estás. E a minha alma sorri, afastando as nuvens que toldam a visão clara que é apanágio daqueles que incessantemente vão aumentando os seus actos de justiça, neste universo preso não sei de que tendências desagregativas e no qual bem poucos seres reúnem as forças para manterem o rosto sorridente

Ah amigo, agora que nos deixaste como está o teu corpo frio e morto e sob algum caixão enregelado? Mas que medo podemos ter de neve e da morte se o nosso coração está quente e a força de nos transformarmos e de transformarmos mais o mundo está viva e em cada momento é semeada, em cada contacto passada?
Oh, também o Divino está sorridente contigo nestes momentos em que te aproximas mais dele?

Pastor dos montes Hermínios, a lança abre-me o coração, a tua musica [e cantos] quer saltar pelas orelhas, e relembro os votos secretos, as promessas escondidas das futuras realizações, sem nome, em silêncio, embora os canhões continuam a atroar e a envenenar o ar enquanto as mentes do grande número se debatem nas franjas da fome ou da ignorância, no luxo ou na inutilidade. E contudo tu, como Eles passaste e ergueste alguns cantos em que de mãos dadas os humanos se religaram com a irmã Natureza.
Agora vou despedir-me de ti, sem deixar que a energia mais pelas lágrimas mas fazendo-a subir ao alto, donde se derrama em força austera para melhores realizações futuras.
Shanti das, como uma montanha firme sorris.
Lanza del vasto, como um mestre estás
Agora a nós de avançarmos com a sarça ardente, o fogo do amor e do espírito divino irradiando...

                                      PAZ FORÇA AMOR »

 

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Expansion of consciousness, experiences of unity, enlightened beings, and the humble path for us.

The process of approaching, getting or entering into the One, or opening our consciousness to its universal dimension, or to its Spirit, so much spoken or extoled by spiritual seekers or teachers, is quite subtle and misterious, and it doesn't move in a very straight line in our paths, but working mostly on patterns of particles and waves, rytms and cycles. And may be we should to meditate more or get a deeper understanding of that alternating pattern of matter in differents realms of our lives, helping us to dissolve cristalizations on particles-ideas-doctrines and on particular situations. And so enter a more fluidic awareness, as for example, liberating us from attachments and identificating us with the smooth path of the waves,  as the waves of the alchemical stone of our mantrans entering in the ocean and almost reaching the extreme sea shore of the universal mind, where all of us are contained and in subtle ways entangled, in a fanthomless One.
May be for these higher states of expansion would be better first of all to enter in the silent waves of inner listening, as it is a good way to experience or live the mythical music of spheres or particles, or the voice of consciousness, as we subdue our thought waves to a state of silence, receptivity, listening and tunning to the harmonies and messages of the spiritual cosmos, that then it is a living inner experience.
We have so to use with much attention and reverence the words One or Universal Consciousness, or the Universal Spirit, specially in the sense of meaning to become one with That. May be we should more humbly and discard theoretical doctrines and to say: my aproach, my feeling, my intuition or realization of that incomensurable One or Universal Consciousness, or Holy Spirit is this one: and so, so, so...
But some people proclaim that they achieved that state of union, that they have become enlightened. We can see that mostly in the advaita Vedanta tradition, either with indian gurus either with western gurus. and they are almost 100% faking a impossible realization for them, easily seen as their knowledge is so limited.
There is in fact many levels in the Universe, and very few have acess to their deepest and highest. And so to attain union or unity with the One, or divine Being or the Absolute is in fact impossible for a normal human being, even if pretending to be enligthened.
For normal human beings there are many available levels of expansion of consciousness, or having an artistic, creative or spiritual experience of unity with someone or whatever.
Sometimes we can become one with someone trough love, or more become one with the room where we stay, or the horizont we contemplate. But these experiences have just a limited level of unity, mostly the one of feeling, as there is a merging of the subtle bodies of eteric and emotional energies enclosed in us, in the room or in nature.

Sometimes we can go beyond the boundaries of windows and feel really the omnipresent spirit in the space, may be some kilometers beyond. It will be a stronger expansion of the suble body of consciousness, or even of the spiritual body.
Other times we can encompass the orbit of the planet, or even get some glimpses of the distant planets, stars and the cosmic space realms, but they are just momentaneous visions or intuitions attained by the opening of the spiritual eye, surely by some merits and graces.
Naturally we should accept the possibility of some people being able to be much of their time or, better, when they want, in that expanded awareness, but they are very, very, few. The true masters..
So may be the one of the important questions is to be more transparent and open to what surrounds us and, in the meditations, to the Universal Consciousness or Divine Spirit that has to be attained within...
Should we do some meditations and aspirations, as the indian devotees, the bhaktas or dvaitic seekers, not only to their chosen deity or loved face of God (the ishta devata), but also to the universal truth or to the One, in order that this highest level became more ingrained in ourselves and potencialize a better unfolding of our stream of thinking, wishing, doing and being, from wich results a subduing or refinement of the ego, so easily nurtured in the diversity of the Manifestation, and the manifestation of the spirit within?
I think so, and also that in order to have better acess to the Universal consciousnes may be is good to think and dialogue with friends, for example in the case of the ones partaking of this coloquy, that are like points of light in the networking of the Universal consciousness at this particular moment, and that could enter more deeper in the realizations here mentioned and reciprocally intensify them.
We are not so isolated and the limitating powers of the ego are not so strong. Through our prayers, mantra, meditations and breathing energies with awareness, and also planetarian (many time virtual) satsanga with friends or seekers, I feel we can help a little bit the transformation of Mankind, and open more subtle avenues and networks, or even neural pathways, in the planetarian consciounes, outside and inside us, and so we can open ourselves to higher levels of communnion between us and the higher realms of the love-wisdom being, Mahat or Logos, or the Intelectus Mundi, or the brotherhood of the masters, angels and great spirits.
From that level we can receive some sparklings, some glimpses from the spiritual levels, approaching the One, the Divine Source. These signs of union come trough the spiritual and subtle bodies as light, sound, peace, love, insights, voice. And then the inner state of the soul is deeper and more harmonized, and even the flow of thoughts, projects, actions become more ordered to the truth, to the Spirit, to the Universal One, to the Primordial Being.
So let us be more modest and lucid, and discard the ego trips of so many instructors and gurus teaching's high secrets, sharing an imaginay enlightnement or posing themselves as avatars of the Divine, and let us work humbly in silence approaching the inner master and spirit, invoking the fiery currents of the cosmic Love-Wisdom.
                                                                

quinta-feira, 4 de janeiro de 2024

Sobre o Amor. Apontamentos do diário de Fevereiro e do diário de Março de 2010.

Sobre o amor direi que é difícil concluir se a sua natureza é mais a de um espelho que reflecte  e acolhe a beleza divina, se uma elevação ardente do ser humano para ela. [Provavelmente ambos, embora ser um espelho da beleza divina, que na sua essência é a fonte primordial de amor e na sua manifestação é a harmonia do Cosmos, seja mais difícil e elevado.]

Mas o sorriso nirvânico caracteriza-o, e prova uma especial ligação [dele] com a imortalidade. Poderia ser assim a consciência da eternidade e da imortalidade... [Algo que certos discípulos poderiam sentir semi-conscientemente na causalidade meditativa. E também  há pessoas que mantêm (ou tentam manter] um sorriso quase permanente, por auto-consciencialização espiritual, ou por sentimento do fogo do amor acesso no seu coração, em si, por alguém, pelos outros, pela Divindade.]

O amor nos humanos depende das circunstâncias. Há condições ideais para o sentirmos: saúde, paz e calma, até bom ambiente, música. [Embora o fundamental seja ora a fluidez com a Natureza ora a afinidade com alguém.] Talvez seja como a alma movida para fora do corpo e para dentro da eternidade. 

A alma é alimentada pela beleza visual, auditiva e mental, e sentindo-a afectivamente fica cheia dela e ao transbordar, ao destilar-se, saboreia o amor [realiza que sente o amor, que está em amor]

Venho de uma missa meditada [ou seja, que passei grande parte a meditar sentado] em que atingi boa realização do Amor divino. 

O amor Divino ou Espiritual é um diálogo ardente com Deus. É uma aspiração intensa, um silêncio profundo e uma abertura ao Infinito. 

O amor espiritual transfigura, intensifica a aura espiritual e enche o cálice do coração do néctar da imortalidade

De manhã ao meditar pensei que no mundo subtil devia haver livros fantásticos e que deveria ter acesso a ele por dois meios: um desejo intenso, por reconhecer a sua existência e possibilidade de consulta, de os conhecer. 

Outro, a partir de desejos de os estudar e de se fazer divulgações altruístas, conseguir-seo acesso a eles. [Mas confesso que poucas vezes consegui sonhar com livros especiais ou extraordinários, talvez porque gostando e trabalhando tanto ainda com os terrenos e bons, os subtis não sejam tão necessários.]

Cependant je m'interroge c'est le coeur qui veut aimer particulierement ou c'est notre ego qui veut prendre ou controler l'amour universelle du coeur? [Tradução: No entanto, pergunto-me: será que é o coração que quer amar particularmente ou é o nosso ego que quer tomar ou controlar o amor universal do coração?]

Je me interroge, est-que c'est un épanchement naturel du coeur le dialogue généreux entre nous, ou est-ce qu'il y a des projections, des expectatives et des désirs qui peuvent par contre faire que l' amor soit plus qu'une partage desinteressé ou une comunnion pure, une aventure de accomplissement de nos rêves ou désirs? [Pergunto-me: será que é um derramamento natural do coração o diálogo generoso entre nós , ou haverá projecções, expectativas e desejos que podem fazer do amor que seja, mais do que uma partilha desinteressada, ou uma comunhão pura, uma aventura de realização dos nossos sonhos ou desejos?]
                                                   ~~~~~~~~~~
  Amores: é fácil o amor com quem gostamos, ou mesmo o devocional para o Anjo da guarda, os antepassados [e a Divindade].
Mais difícil é o amor sacrificial, aquele que já não é [o] nosso prazer, interesse ou felicidade mas o dos outros que procuramos...
Quantos sabemos dar este salto para fora do nosso estreito mundo de interesses e proporcionar ao outro alguma alegria inesperada?
    Da pureza e impureza: se um pequena ponta de pincel impregnada de negro, altera logo imediatamente a cor aguarelada que preparamos, assim também certos pensamentos ou actos nos sujam irremediavelmente por algum tempo. Devemos assim estar muito atentos às nossas forças anímicas [aos sentimentos e pensamentos que nos atravessam e desarmonizam, para que o Amor brilhe mais clara e desobstruidamente].
                                                             

quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Poemas espirituais, nocturnos, de aspiração antes de adormecer. E ao olho espiritual.


Pouso à borda da nau
da minha cama
os despojos usados do dia.
A camisa aberta escorrega
e o meu corpo jazerá por fim.
O silêncio da noite é aparente:
Nossas almas estão cheias de vida
e das vistas do dia.

Vou passear em torno da nave
antes de a abordar.
Desprender-me de todos os fios,
e correntes inúteis
e lançar energias para o alto,
para bem longe.

Lá para o infinito e para Deus,
Mistérios das origens
e destinos finais desejados
mais perto e conhecidos.
Por isso escrevo, durmo
e mantenho a Vida.

(verso) 
 
Dispo a camisa na noite fria.
Esfrego os braços tímidos
e arremesso bem longe
os pesos e tensões.

Invoco o fogo do Alto
e assimilo-o bem.
Depois, percorro os cantos
do quarto e os símbolos que
são janelas por onde chamo
e saúdo esses mistérios
que nos antecederam e guiam.
Não estou só
e o meu corpo enrijeceu.
Saúdo os mortos do passado
e vou dormir para o futuro.

~~~~

Conseguirei trazê-lo de volta,
Ele o olho da visão imortal?

Cruzei os átrios e as barcaças
mas por toda a parte soava a dispersão.
Irmãos conscientes no coração,
onde os podemos encontrar?

Ainda que com uma vara
afastasse os monstros e erros,
ainda assim o sorriso efémero
era passagem de vãos e aduladores.

Os véus rasgados do templo,
as colunas destruídas,
as palavras sacras perdidas,
tudo serviria para nos espicaçar
com o aguilhão da morte:

Oh Espírito, não dormites mais,
nem fraquejes mais.
Desperta, ergue-te, brilha,
Resplandece, ó olho espiritual.

terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Apuleio e o espiritual no seu "Livro do Mundo". Breve apresentação, com transcrição das partes mais valiosas.

Apuleio é um filósofo importante na tradição espiritual ocidental, pois vivendo no segundo século depois de Cristo pode ainda contactar e ser iniciado nas tradições pré-cristãs e dar testemunho delas nas suas obras. Nasceu em Madaura, hoje Argélia, em 127, então um colónia romana e onde o seu pai era um magistrado,  recebendo assim uma boa educação, que  continuou em Cartago, um grande centro humanista então, como ele nos descreve nas Flóridas, e em Atenas, onde aprofundou na Academia o platonismo mais místico, e por isso escreverá na Apologia: «nós da família platónica nada conhecemos senão da festa e alegria do que é solene, sublime e celeste». Foi iniciado em vários centros, diz-nos na Apologia:  nos mistérios egípcios de Ísis, Osíris e Seraphis,  e em vários gregos, tais os de Deméter em Eleusis e provavelmente os dos Cabiros na Samotrácia. Além de filósofo e iniciado, foi um notável orador, um subtil causuista, um irónico retórico e um imaginativo conferencista e novelista. Libertou-se da Terra cerca do ano 180 em Cartago.

 Das suas  obras abordamos neste texto do blogue  brevemente, e porque o acabámos de ler, o Livro do Mundo, uma obra pequena e condensada acerca do que se considerava ser o Mundo, em grego Cosmos, em parte baseado no conhecimento científico da época, em especial de Aristóteles, Platão e talvez de Plínio. Há quem pense que a obra seja mais uma tradução dum texto da escola peripatética de Aristóteles, tal como o livro da Doutrina de Platão, seria a partir dum manual do platonismo. Cremos que há certamente também muito do seu génio nos dois escritos. 

Ao abordar a fonte fundadora do mundo,   a Divindade e os seus deuses, Apuleio adopta uma posição bastante eclética, citando extractos de vários autores, observando-se  uma discordância quanto ao não se dever falar da Divindade,  que  Platão advertira (enquanto não se saberia Dela), talvez na linha do silêncio da tradição  acroamática (oral) de Pitágoras, que não autorizava os seus auditores sequer a fazerem perguntas nos primeiros anos do discipulado, o que entre nós foi destacado por Sant'Anna Dionísio no seu  Enigmas Helénicos, impresso na Seara Nova, em 1969.

Algumas partes da obra são bem substanciais,  tais as que  tratam de Deus, dos Deuses e dos daimons ou espíritos intermediários, e em menor escala as das caracterizações e designações dos planetas, estrelas, cinco elementos, partes da terra, ventos, fenómenos atmosféricos e subterrâneos. 

 O mundo é reconhecido como um cosmos ou todo ornado e belo, uma comunidade ou sociedade, mas não há nas descrições grandes  intuições da sua pluridimensionalidade, embora haja indicações da prática do caminho espiritual, pouco há directamente dos mistérios iniciáticos do Egipto e da Grécia, e menos ainda da magia e superstições, o que  por exemplo apresenta bastante noutras obras, tal as Metamorfoses, o De Ísis e Osíris, o Burro de Ouro (onde o Deus supremo é Ísis), ou ainda da hierarquia de espíritos ou daimons, como tenta no Do Deus de Sócrates. Contudo, as analogias, metáforas e compreensões da Divindade, dos Deuses e da alma que apresenta, sendo bem variadas e profundas, têm um certo cunho pessoal, dizendo por exemplo, "eu vi", ou mesmo uma origem vivencial iniciática, ao referir por mais de uma vez o olho espiritual.  É natural que alguns dos primeiros padres da Igreja que o leram e o referem, tal S. Agostinho, se tenham servido do que escreveu.

Deve-se realçar a definição inicial de filosofia, como base da demanda do conhecimento mesmo pela ciência, a valorização do olho espiritual ou divino, ou da alma, nas suas capacidades de voar longe pelo pensamento, bem como a consequente capacidade de desprendimento face ao menos importante e essencial, desapego que se  ganha seja num conhecimento maior da terra e do mundo (e por isso se viajava e peregrinava...) seja nos estados místicos ou expandidos da consciência, sintomaticamente algo que vários estudiosos das experiências religiosas de alteração da consciência, desde William James, vieram a destacar.

São  valiosas as apresentações da necessidade da Divindade ter os seus agentes intermediários, seja deuses seja daimons, para exercer a sua providência. Também a caracterização do elemento éter, que mais do que ígneo considera estar em constante movimento de rotação, é valiosa e parece-nos próxima da noção de prana e de certo modo do akasa dos indianos. Aliás todo o parágrafo dedicado aos elementos é substancial e iremos traduzi-lo e transcrevê-lo.

A propósito da Divindade, na qual distingue o seu dinamismo  omnipresente da sua essência inacessível  e que considera estar situada na parte mais elevada do Universo, no Olimpo, onde nada de negativo penetra, relembra Apuleio como oramos a Ela levantando as mãos e as vozes ao céu, e como a Divindade é a fonte, origem e fim de tudo, exemplificando com várias orações de um hino órfico.
Transcrevem
os algumas das partes mais valiosas do De Mundo, e amanhã ainda acrescentaremos outras. Utilizamos como texto base a edição bilingue das obras completas de Pétrone, Apulée, Aulu-Gelle, traduzidas  por M. Nisard e dadas à luz pelo prestigiado livreiro impressor parisiense Firmin Didot em 1875.
Incipit ou início:
«Sempre me
pareceu, ó Faustino, que a filosofia, a considerar e a examinar com atenção, tem por objecto a procura da verdade, a prossecução das virtudes e a participação das coisas divinas, e isto sobretudo porque ela se aplica à interpretação da natureza.
Quando encontraram a filosofia, ela serve-lhes de guia,
ela esclarece-lhes as suas descobertas. Eles ousaram então viajar em espírito nas praias do céu, e percorreram essas rotas que eles viam com a luz da sabedoria e o único olhar da reflexão.
Assim, quando a natureza
nos tinha separado por um intervalo imenso deste mundo longínquo, o pensamento, atravessando as distâncias no seu desabrochar rápido, elevou-se até ele. A alma, com o seu golpe de olho divino, reconheceu facilmente e compreendeu os princípios aos quais todo o mundo deve a sua origem; e transmitiu o conhecimento a outros; ela fez como os profetas, que cheios da majestade divina, revelam ao resto dos homens o que um benefício celeste lhes permite ver.»

«O mundo inteiro consta de uma sociedade do céu e da terra, e de todos os que participam dela. Ou seja, o mundo é uma ordem ornamentada, dirigida por Deus, custodiada rectamente pelos deuses, tendo como eixo cardeal sólido e imóvel a terra, onde se geram e vivem todo o tipo de animais.»  

«O próprio céu, as estrelas que se encontram nele e todo o sistema de astros, chamam-se éter, não porque, como alguns pensam, porque queima e está inflamado, mas porque está sempre numa rotação rápida. o éter não é um dos elementos que todo o mundo conhece, pois ele é bem diferente; e se pela enumeração que se faz ele é o quinto, pelo seu nível, pela sua natureza divina e inalterável, ele é o primeiro.»

 «Os elementos estão unidos por laços mútuos; há como que cinco nós que os ligam a todos; e tal é ordem que preside à sua afinidade, que o elemento mais pesado se combina com o mais leve. A terra contem a água no seu seio e a água, segundo alguns, sustenta a terra. O ar é produzido da água e o fogo forma-se do ar condensado. O éter e os seus fogos são inflamados pelo sopro do Deus imortal; iluminados por este centro divino, eles iluminam a abóbada do mundo com os seus fogos resplandecentes. É por isso que os deuses superiores  ocupam essa regiões superiores.»

«Contrariamente ao que diz Platão, penso que é melhor falar de Deus, mesmo dum modo imperfeito de que não falar. É uma opinião já muito antiga, profundamente gravada no coração dos homens, que há um Deus que presidiu ao nascimento de todas as coisas, um Deus que vela pela conservação e o renovamento de tudo o que criou, e que nenhuma coisa está tão fortemente organizada que possa viver dela própria e sem o socorro de Deus. Imbuídos desta opinião, os poetas chegaram a dizer que tudo está cheio de Jove, Júpiter, e que a sua presença não se revela somente ao pensamento, mas ainda aos olhos, às orelhas, a tudo o que é capaz de sentir. O que está perfeitamente dito se quer-se fazer conhecer a potência divina, mas não se queremos falar da essência mesma de Deus.»

«Cremos que Deus retém a sua alta majestade e reside em si mesmo no alto, mas dispensou por todas as orbes do mundo potestades, que habitam o sol e a lua e todo o céu. Elas velam pela saúde e salvação de todos os habitantes da terra, mas não têm necessidade de um grande numero de servidores, como a nossa raça indigente, para realizarem os seus trabalhos.»

«De igual modo que, nos coros, o maestro da orquestra entoa o hino e a multidão de homens e mulheres, com as suas vozes graves ou penetrantes, compõe uma harmonia completa, de igual modo a razão divina estabelece a harmonia no meio de tanta diversidade.»

«Ora o rei e pai de todas as coisas, que só vemos pelo olho da inteligência e da meditação, estabeleceu leis fixas para todo o mundo: deu-lhe astros como luminárias e povoou-o de todas as espécies, umas visíveis, outras ocultas, e fê-lo mover-se de uma só impulsão.»

«Tal como um exército inteiro obedece a um só chefe que marcha à cabeça e exerce o comando supremo, assim se passa com a organização das coisas divinas e humanas; todas obedecem a um só mestre, cada uma delas tem as suas leis particulares, e Providência, que vela sobre o conjunto, está escondida a todos os olhos, excepto aos da inteligência. Este mistério do qual o Todo Poderoso está rodeado não o impede de agir tal como a nós de o conceber. Para entender este princípio, eis uma comparação que nos servirá de exemplo, ainda que imperfeita: a alma humana não é visível, e contudo somos obrigados a confessar que ela preside aos actos mais notáveis do corpo. A forma e a substância da alma não caiem sob os nossos olhares, mas compreendemos, pela importância da sua acção, qual é a sua natureza e de que potência ela está dotada. É o génio dela que provê as necessidades do ser humano. (...) É preciso ser-se muito injusto na apreciação dos factos, para se negar que uma potência análoga à da alma pertence a Deus, este Ser Supremo cuja essência é sublime e a vida imortal, este pai das virtudes, e a própria virtude!»

 «É assim que Deus vela pela salvação do mundo, religando entre si as partes do mundo pela sua força divina. Onde habita? Não habita perto das regiões da terra, nem no meio dos ares móveis; ele ocupa o cimo do mundo, que os gregos chamam com razão o céu (Ouranos), porque ele é a última parte de toda a altura; pela mesma razão chamam-lhe Olimpo, porque está abrigado de todas as tempestades e de todos as alterações. com efeito, o Olimpo jamais foi obscurecido pelas nuvens, entristecido pelos frios e as neves, agitado pelos ventos ou fustigado pelas chuvas. É o que fez dizer a um poeta:"O Olimpo, a morada imortal que os deuses habitam, nunca é agitado pelos ventos, nem molhado pela chuva, nem coberto pelas nuvens, e não há nuvens que obscureçam o seu ar sempre puro."

Donde a opinião e ideia comum entre os seres humanos e confirmada por  observações, afirmar que Deus está no mais alto do Cosmos. Donde o modo de orar seja o de pedir com as mãos estendidas  para o céu, como diz um poeta romano: "Aspice hoc sublime candens, quem invocant omnes Jovem", "Olha esse resplendor sublime que todos invocamcomo Jove, Jupiter."»

«Deus é essa lei que mantém a equidade, e que não tem necessidade de qualquer reforma, nem de qualquer mudança. De igual modo o mundo inteiro é dirigido pela providência imutável do seu autor, e vivificado por este princípio que anima todas as naturezas, todas as espécies e todos os géneros. (...) Não há que um só Deus, mas é chamado por diversos nomes, por causa dos seus numerosos atributos que parecem-no multiplicar: como Protector toma o nome de Júpiter (da palavra juvare, ajudar, gratificar); como princípio de vida, os Gregos chamam-no com razão Zeus; chamam-no também Saturno, como filho do Tempo, ou seja como ser sem começo nem fim. É também o deus da tempestade, do raio, da chuva, da serenidade; outros chamam-no o deus que fertiliza, o guardião da cidade, o deus hospitaleiro, o deus Amigo. Dá-se lhe por fim o nome de todas as nobres  funções. Ele é tanto o deus dos combates, como Triunfador, o Conquistador, o Porta-troféus, Encontramos na velha linguagem romana, e na dos haruspícios, uma imensidade de outras designações análogas a elas.»

«Deus, como diz uma velha sentença  e como o sustenta a razão,  é o princípio, fim e meio de tudo, e penetra e dá lustre a todas as coisas  e diz-se  que vibra rapidissimamente sobre o universo. Ao seu lado, caminha sempre e em toda a parte a Necessidade vingadora; ela pune os que se afastam da lei sagrada, mas  protege o futuro de quem, desde a sua mais tenra infância, desde o berço, o realiza, o respeita,  dá-se todo a ele e confia.»

                                                        

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

Acerca de 2024. Vencerá a Temperança e a Multipolaridade, embora a velha ordem dominadora do Ocidente ainda matará uns milhares antes de amansar ou tombar?

De Edward Burn-Jones, um dos mais dotados pré-rafaelitas, a Roda da Fortuna.

A Roda do Tempo e da Fortuna girou, e agora é e será o ano de 2024 a envolver e a dar vida à ainda jovem e desassossegada humanidade, tão cheia de conhecimentos e ilusões, aspirações e ambições, que se não fossem os seres mais sensíveis ou sábios, os mestres, os anjos, as faces Divinas, cairia em muitos erros e sofrimentos, desastres e mortandades.
E o que
nos sussurram tais guardiões ou custódios dos seres humanos na Terra Humanidade, esses que comungam mais conscientemente no corpo místico da Humanidade? - Temperança, nada em excesso, meditação, justiça, solidariedade, multipolaridade, compaixão, criatividade benéfica, amor, auto-conhecimento espiritual, religação divina, Ser.
                                                        

 Saibamos equilibrar os opostos, transmutar o negativo em positivo, sair da unipolaridade para desabrochar na multipolaridade...

Subindo, ad astra per aspera, à alta torre de observação já nos mundos subtis, onde o céu e a terra parecem tocar-se, e onde as vertigens podem acontecer,  avistamos no horizonte longínquo as cordilheiras nevadas das serras sagradas e inspiradoras, e deparamos com um céu plúmbeo cinzento, tão nocivo a alguns, como o nosso abnegado mártir Antero de Quental sofreu em 1891,  e discernimos no seio dele, bem alto e sobre nós,  um letreiro com uma data, 1812, seguida de algumas palavras difíceis de se lerem, mutáveis, indicadora de que desde tal ano se gerou um processo ou cortejo  de violência e guerras imenso.
Ora como 1812 foi a segunda data da fundação do USA, após a guerra com a Inglaterra, passando a ser reconhecida por esta como a mais forte e logo a que passaria a controlar a Europa ou mesmo bastante do mundo, parece tal sinal indicar que o céu da Humanidade está trevoso sobretudo por causa da violência norte-americana e dos seus coligados.
Provavelmente o céu indica que será em 2024 que o ambiente plúmbeo e negativo gerado
pela hubris violentíssima do império norte-americano sobre tantos governantes e povos do mundo, na sua ganância desmedida de oprimir e controlar o planeta graças ao seu imperialismo oligárquico, ao infinito e tão corruptor dólar, às suas doutrinas individualistas e excepcionalistas abusivas e aos meios ilícitos usados, finalmente começará (após os conflitos que o império ainda vai  intensificar) a claudicar mais visível e fortemente.

Cremos que está chegada a hora de muitos povos e gentes, que sentem, aspiram e querem libertar-se de tal jugo opressivo, se unirem vitoriosamente e o mais belo sinal da possibilidade de realização de a multipolaridade fraterna (e já não a unipolar transhumanizada-infrahumanizada do Fórum Económico Mundial), está patente  na aliança do BRICS, geoestratégica e económica (com a tão necessária desdolarização em curso), fundada e liderada pela Rússia, a China, o Brasil, a Índia e a África do Sul, e em crescente alargamento:  no primeiro dia de 2024 entraram o Irão, a Arábia Saudita, os Emiratos Árabes, o Egipto e a Etiópia.

                                     
Esta passagem da humanidade à multipolaridade faz parte da ordem do Universo, do Tao, é um anseio da Anima Mundi, e no contexto do crescimento de consciência e discernimento da verdade advin
do do rápido acesso ao que se passa no mundo, está a ser intensificada, pelo que o domínio oligárquico superimperialista tão injusto tem os seus dias contados, embora vá ainda fazer sofrer e morrer muita gente, pois os actuais dirigentes dos USA, NATO e UE estão na maioria vendidos, semi-alienados nos seus partidarismos e, logo, insensíveis e indiferentes às mortes humanas (colaterais...), não contando nada face aos seus objectivos de domínio e controle ou, cada vez mais, de sobrevivência do seu já tão degenerado sistema.

                                                 
Caber-nos-á discernir em que campo da batalha psíquica nos vamos inserir, pois  somos todos responsáveis, pese a grande manipulação dos meios de informação controlados na sua grande maioria  pelo império da mentira, do dólar, da violência, da arrogância racista, nacionalista ou de elites, e seus funcionários avençados, que não jornalistas, como dizia John Pilger, um corajoso jornalista e defensor de Julian Assange, há dois dias desincarnado.

                                        
Devemos pois cooperar, nas nossas pequenas esferas, corajosa e criativamente na  defesa e no aprofundamento e desenvolvimento da Liberdade, da Ecologia, do Bem, da Sabedoria, da Verdade, da ordem Natural e Espiritual, Rita ou Sanatana Dharma na tradição indiana. E cremos que serão os líderes e povos do BRICS que são (Eu sou...) e estão mais no caminho da Verdade e da Vida, que os Mestres da Luz Primordial ao longo dos séculos têm trilhado e ensinado para uma Humanidade e Natureza mais plenas e realizadas na sua identidade e dignidade, liberdade e altos fins.

                                                 
Avancemos pois corajosamente, luminosamente, a sós ou em em pequenas redes de apoio, e face a tanta negatividade, censura, opressão e  incremento de crises e guerras, que tentam oprimir e desnaturalizar a humanidade de corpo, alma e espírito e de origem
Divina, saibamos criativamente vencer tais seres e forças negativas.
Possam os níveis de vida serem mais justos e elevados, possa a multipolaridade triunfar e ajudar a libertar a Humanidade de tanta exploração económica e psíquica, rumo a fases de vida mais felizes, fraternas e harmoniosas, com a Terra e o Céu.  

Pintura de Bô Yin Râ. Temperança e Esperança. Da Divindade na Humanidade e em Gaia.