sexta-feira, 18 de março de 2022

Dulce bellum inexpertis. A guerra só é doce para quem não a experimentou. Adágio comentado de Erasmo. Tradução do latim por Pedro Teixeira da Mota.

 Erasmo (1466-1536) foi sem dúvida uma das grandes almas e vozes do Renascimento europeu, e durante alguns anos, no começo do século XVI, mesmo o mais escutado e admirado dos humanistas pela sua grande sabedoria e mestria, amigo do nosso Damião de Goes que foi até Friburg para com ele aprender e confabular. As suas obras mais imortalizadas são certamente o Elogio da Loucura, os Colóquios e os Adágios, onde a sabedoria e erudição e a crítica bem irónica dos costumes e crenças do seu tempo brilham imorredoiramente, pesem as censuras, ataques e proibições que sofreram. Ao ter sido obrigado pelos tutores, por morte do pai, a tornar-se um clérigo, muito do seu labor foi dedicado à religião cristã e a uma purificação e retorno às fontes documentais autênticas e ao cristianismo original, para isso contribuindo com uma nova versão do Novo Testamento, com o  Manual do Cavaleiro cristão, o Modo de Orar a Deus (que traduzi com Álvaro Pereira Mendes, e comentei) e com as numerosas  edições críticas pioneiras dos primeiras padres da Igreja, traduzindo do grego para latim, então a língua franca europeia, por exemplo, Orígenes e Clemente de Alexandria. 

   Frontispício da edição aldina de 1508, constitucional e evocadoramente um Graal..

A recolha comentada dos Adágios ou Provérbios, a que chamou um depósito de Minerva, a Deusa da Sabedoria, teve sucessivas impressões, tendo começado em Paris em 1500, a Collectanea Adagiorum, com 808, crescendo, após e graças à sua estadia em Itália de 1506 a 1508  na oficina e sodalidade do impressor e humanista Aldo Manuzio, para os 3.000, saindo então nos seus prelos venezianos a Adagiorum chiliades tres, reproduzida ao alto E por fim chega aos 4.151 adágios na edição final de 1533, de Basileia, no seu amigo Froben, Adagiorum chiliades quator cum..., Quatro Milhares de Adágios...
Entre eles, alguns foram crescendo na profundidade e tamanho do
comentário ou glosa, que já não era só filológico e literário mas bastante  moral, irónico, político e espiritual, e como nos tempos da sua vida alternaram ora dissensões e guerras ora concórdia e grandes esperanças de uma paz geral (sob a égide da República das Letras e dos soberanos abertos a ela), um adágio destacou-se: o famoso Dulce Bellum inexpertis, a Guerra só é doce para quem a desconhece, que chegou mesmo a ser editado autonomamente, sob o título Bellum, Guerra.  E como as lutas entre o papado, os reis, os estados cristãos e os turcos fendiam de tal modo tumultuosamente a sua época, sob a mesma temática dará a luz  a sentida Lamentação da Paz, Querela Pacis, em 1517 (ano em que se escusou a acompanhar o imperador Carlos V a Espanha), a qual teve também grande sucesso, nomeadamente em Espanha, bastante erasmista na época, com duas edições logo em 1520 e 1529, como o historiou nos nossos dias magistralmente Marcel Bataillon, grande amigo do nosso notável erasmiano e moreano José V. de Pina Martins.
Resolvi então eu traduzir, bem laboriosamente, do latim de uma edição quinhentista, e cotejando com a tradução espanhola de Lorenzo Riber (na Aguilar, 1964) o começo do longo comentário do Adágio,
pois vive-se hoje na Europa um conflito importante, que tem agitado e dividido bastante a opinião pública, pesem os mass media seguirem na sua generalidade uma narrativa oficial que sabemos nunca corresponder aos factos mas que influencia muito as populações e as suas almas e ânimos, levando-as frequentemente a comportamento e pensamentos pouco verdadeiros e nada adequados à serenidade e imparcialidade de observação e julgamento.  Possam estas palavras e imagens, ideias e conhecimentos sábios e belos do perene Erasmo, desde o "beijo que une as almas" à "centalhazinha divina", tocarem algumas pessoas e contribuírem para o auto-conhecimento e o discernimento e para uma maior aplicação e vivência da verdade, da justiça e da paz...

Gravura dada por José V. de Pina Martins. Erasmo abençoando-nos: Sancte Erasme, ora pro nobis.

 Começo do Quarto Milhar dos Adágios de Erasmo, o 4.001...
«Um adágio tão elegante quão celebrado pelos escritores é lcys
apeiro polemos, isto é, dulce bellum inexpertoa guerra é doce para quem não conhece. Isto diz-nos Vegecio  no livro III, cap. XIV, do seu Tratado de Arte Militar: «Não confies muito no noviço que cobiça o prélio, pois a luta só é doce para quem não a provou.»
De Píndaro cita-se: «a guerra é agradável ao que a desconhece, mas
para a quem a experimentou, ela é horrível no seu coração».  Na vida dos mortais há coisas que antes de experimentadas não se consegue discriminar quantos perigos e infortúnio trazem consigo.
"Apetecível para quem não a conhece é o cultivar da amizade
com um poderoso; mas quem a experimentou, teme-a".
É vista como bela e esplêndida a possibilidade de se andar entre
pessoas importantes e discorrer-se sobre os assuntos dos governantes; mas os que conhecem penosamente tal, abstêm-se de beber de tal felicidade. Parece suave amar jovens mulheres, mas só aos que ainda não sentiram quanto de amargo traz [ou pode trazer] o amor consigo.
Por esta norma general poderá medir-se qualquer assunto que ande misturado com muitos perigos e junto a muitos males, já que ninguém o quererá tomar sobre si, a não ser que seja jovem e
inexperiente.
A propósito de isto, Aristóteles, na sua Retórica, adverte quanto à
razão da juventude ser mais audaz e a velhice mais tímida: porque naqueles a inexperiência gera confiança e nestes o conhecimento pessoal de muitos males causa timidez e inações. Pelo que se há algo nas coisas mortais que importa fugir por todos os modos, evitar pela oração e afastá-lo é sem dúvida a guerra, que é a coisa mais ímpia, a mais largamente perniciosa, mais pegajosamente tenaz, mais tétrica, e mais indigna do ser humano, para não dizer cristão.
E contudo é incrível como hoje até que ponto e com que temeridade
e quanto por qualquer causa fútil se declara a guerra e com quão feroz bestialidade e barbárie se a leva para a frente, não tanto pelos não cristãos como pelos cristãos; e algo não só pela gente profana, mas por sacerdotes e bispos; e já não só por jovens e inexperientes, mas verdadeiramente até por anciões plenamente experientes; e não exclusivamente por plebeus e de natureza vulgar mas por príncipes ou governantes cujo ofício era compor com a prudência e a razão os os costumes temerários e estultos das massas. E não faltam jurisconsultos [ou homens públicos] e teólogos [ou pensadores] que a esta actividade tão nefasta ainda juntam lume e pingos de água fria.
Resulta de todos estes antecedentes que nos nossos dias a guerra é
algo tão aceite e corrente que as pessoas admiram-se que haja quem não a aprecie; é em geral tão aprovada, que se tem por impiedade e, estou pronto a dizer, por heresia, reprovar-se uma coisa, a mais celerada e miserável de todas.
Quão mais justo fora interrogar-nos que mau génio, que peste, que
intempérie, que fúria foi a primeira a pôr na mente dos homens uma animosidade tão selvagem, que impulsionará a uma criatura tão plácida, gerada para a paz e a benevolência, a única dada à luz para a salvação, a precipitar-se com feroz vesânia, com tão insanos tumultos, à destruição mútua!
                                                   
                                               Início do adágio do 4001 numa edição antiga.
E tanto maior será o assombro de quem, afastando a sua atenção das opiniões aceites pelas pessoas normalizadas, e a dirige para apreciar a força e natureza das coisas, e contempla,  por um momento separadamente, a imagem do ser humano por um lado, e por outro o 
simulacro da guerra, com olhos de verdadeiro filósofo.
Ora ao considerar-se em primeiro lugar a figura e o corpo humano,
por acaso  não se compreenderá logo que a Natureza, ou antes Deus, gerou este ser animado não para a guerra mas  para amizade; não para a destruição mas salvação, não para a injúria mas a beneficiência? Enquanto que cada um dos outros seres animados está provido de armas, tal o ímpeto do touro armado de cornos, a raiva do leão com unhas-garras...»
[Seguem-se uma série linhas de exemplos de como os animais tem consigo as suas próp
rias armas, tais como cornos, unhas, venenos, etc...]
                                           
                                Nosso querido amigo na sodalidade da cavalaria do Amor sábio.
«Só ao ser humano produziu-o nu, frágil, terno, sem defesas, de carne flexível e pele delicada. N
ão se pode ver nos seus membros algo que tenha sido dado para a luta ou violência, para não mencionar  entretanto que, na generalidade, os outros desde que nascem, bastam-se a si mesmos para cuidarem da vida, só o ser humano sendo produzido de modo a que por muito tempo dependa do subsídio ou apoio  alheio. Não sabe falar nem andar nem captar alimento; implora auxílio apenas com vagidos. De tudo isto pode-se facilmente deduzir que é o único ser animado nascido plenamente para a amizade e que, por serviços mútuos, se une e adquire coerência social. Por onde, a Natureza quis que fosse aceite o dom da vida, não tanto para o seu próprio bem como para o dos outros e que estivesse bem ciente de que fora dedicado as graças [ou musas], à compreensão de si e às relações necessárias.

As três Graças, numa sanguínea de Rafael.

Deu-lhe uma aparência não tétrica nem horrenda, como aos outros, mas suave e plácida, para manifestar sinais de amor e de benevolência. Deu-lhe olhos amigáveis, e nestes sinais da alma. Deu-lhe braços generosos para abraçar. Deu-lhe o sentido do beijo, para que deste modo se juntem e se relacionem sexualmente as almas.
                                              
Abraço de todo o ser, beijo de união. Em Hypnerotomachia Polifilo, de Colona.
Só a ele atribui o riso, indício de alegria; e a ele só deu as lágrimas, símbolo da misericórdia
e da clemência. E deu-lhe a voz, nem ameaçadora nem horrenda, como às feras, mas sim amiga e branda.
E não contentando-se com isso a Natureza só a ele atribui uso da
palavra  e razão, ambas as coisas muito importantes para se ganhar e alimentar a benevolência, para que nada se faça à força entre os homens. Inseriu a repulsão  da solidão e o amor da sodalidade [ou companhia amiga], e introduziu interiormente a semente da benevolência. Fez com que o mais salutar fosse também suavíssimo. Que coisa mais agradável que um amigo, e igualmente  mais necessária? Portanto se fosse possível viver comodamente a vida sem comércio mutuo,  nada pareceria agradável sem companhia, a não ser que  alguém abandonasse completamente a sua humanidade e degenerasse em fera.
Juntou ainda mais o estudo das disciplinas liberais e a aspiração
ardente ao conhecimento; algo que assim como afasta poderosamente o engenho humano de toda a ferocidade assim também tem força especial para conciliar as necessidades. Pelo que  nem afinidade nem o parentesco carnal une os ânimos com vínculos de amizade mais apertados e firmes como a sociedade [sodalidade, grupo, fraternidade] de estudos  honrados. E acima disto distribui uma admirável variedade de dotes entre os mortais, assim das almas como dos corpos, de tal modo que cada um deles encontra as qualidades que amassem ou admirassem por sua excelência ou que por sua utilidade e necessidade ambicionassem e abraçassem. 

A centelhazinha divina em nós, em Bô Yin Râ.

Finalmente deu uma centelhazinha [ou estrelinha] do espírito [mens] divino para que sem a ostentação de  prémio, mas por si mesmo ajudassem ao bem de todos. Na verdade isto é sumamente natural de Deus, no seu olhar pelo bem do universo.
Por outra parte, que volúpia é aquela que o nosso ânimo sente de
modo algum vulgar quando percebemos que alguém foi salvo por nós? E por isso mesmo um ser é caro ou querido por outro ser, por estar-lhe obrigado por algum insigne benefício.
Pelo que Deus neste mundo constitui o ser humano como uma certa
imagem [ou simulacro] de Si mesmo, para que,  tal como uma divindade [numem] terrena, propiciasse a salvação de todos.
Sentem isto também até os animais, tal como vemos que não só os
mansos mas também os leopardos e os leões e outras ainda mais ferozes, nos grandes perigos refugiam-se sob poder [opem] do ser humano. Este é o santuário extremo de todos; este altar é santíssimo
no universo, esta âncora para ninguém não é sagrada.
Pintamos em certa grau a 
efígie do ser humano. Agora, o simulacro adverso da guerra, tal como é visto, componhamo-lo...»
                                 
E continuava Erasmo com as suas belas e sacras mãos a escrever... Ficará talvez para outro tradutor, mais conhecedor e familiar do latim, e logo com necessidade de menos utilização do nosso tão limitado e precioso tempo na
Terra...
Tradução feita em algumas horas dos dias 16, 17 e 18 de Março,
quando além das guerras surdas que os Ocidentais sustentavam no Oriente, uma mais intensa ou cirúrgica se realiza no coração da Europa e para a qual desejamos sincera e ardentemente que rapidamente se chegue ao consenso que evitará mais mortos, destruições e sofrimentos. Para tal oro ou rezo que contribuam  estas palavras sábias, por vezes tão elucidativas e frescas, contendo as forças anímicas de Erasmo e da sabedoria Divina que ele realizou, sem dúvida um dos mestres da Europa humanista, hoje em grande parte subsistindo no intelecto, ou vá lá nas almas, de apenas alguns milhares de seres, nesta União Europeia dirigida de modos demasiados cinzenta, ineptos, conflituosos e pouco humanistas, mas que ainda assim se encontra sob a égide subtil da República das Letras, Corpo místico da Humanidade ou Satsanga, onde Erasmo, com outros grandes seres, mestres e espíritos celestiais, continuam a inspirar-nos, se a tal aspirarmos e querermos...

quinta-feira, 17 de março de 2022

Amizades e conflitos. Guerras distantes e próximas. Da manipulação e dilaceramento actual. Dialogar e pacificar....

Nestes tempos em que tantas amizades perdem a sua coesão e se esfiapam, parecendo perdidas as razões de ser, até então válidas e sobretudo suficientes para manterem um statu quo sem atritos...

Nestes tempos em que mesmo pessoas amigas de longa data se surpreendem em campos opostos e ora conseguem dialogar e fazer luz, raro, ou se afastam ou silenciam para não terem de discutir demasiado...

                    

Nestes tempos em que mesmo amizades familiares enfraquecem ou mesmo fenecem, caindo por terra o à vontade, a franqueza e o amor que tinham raízes sanguíneas centenárias, milenárias mesmo...

Nestes tempos em que tantas pessoas conhecidas, nomeadamente nas redes sociais, se digladiam ou mesmo repudiam mutuamente, e mais ou menos, na circunstancialidade em que estão envolvidas, justificadamente...

Nestes tempos de insultos soezes e ordinários, com transbordamentos do diabólico ódio e até incitamentos à morte, e que nos desvendam o que ia e vai dentro de cada um...

Nestes tempos de raríssimos seres de grande desprendimento e em que quase todos, ao tomarmos partidos por actos, sentimentos pensamentos, palavras ou escritos, entramos em lutas e afectivamente desiludimos ou desiludimo-nos, ou mesmo fazemos sofrer e sofremos...

Nestes tempos de progressivo isolamento dos mais lúcidos face a tantos outros, aos media, aos partidos, aos Estados, aos grupos de pressão da nova Ordem mundial, subsistindo apenas aqui e acolá alguns núcleos de almas, famílias, grupos, satsangas, comunidades e zonas mais afins e luminosamente coesas, algo que devemos sempre demandar ou perseverar...

Resumindo e concluindo, nestes tempos de tanta manipulação e opressão, corrupção e violência, só podemos desejar e querer que as pessoas se mantenham íntegras e serenas, alinhando-se verticalmente, e não se deixem expor, influenciar e subjugar tanto pelos media, os meios de informação tão vendidos e alinhados com quem lhes paga, assim partidários fanaticamente e desinformantemente aumentando a ignorância e o medo, os ódios e as doenças...

Assim, nestes tempos de tanta morte e sofrimento,  só podemos desejar que terminem os vírus e as medidas sanitárias opressivas,   embora saibamos que não será tão rápido pois, aberta, seja por quem foi - se a Natureza, se um laboratório de guerra biológica - a caixinha da Pandora viral e depois a vacinal, com os biliões de lucros das farmacêuticas, ela não se fechará tão facilmente, pelo que teremos de aprender a sobreviver com modos de vida mais biológicos, alternativos, prudentes, sábios,amorosos e espirituais....

Nestes tempos em que, para além dos múltiplos conflitos em África e no Médio Oriente, tal a Síria, a Palestina e o Yemen, tão ocultados e manipulados nos noticiários e artigos dos media ocidentais,  desabrochou menos larvarmente o confronto entre a Rússia e a Ucrânia, entre o Ocidente norte-americanizado e a Rússia, no qual muito e tanto está ainda em aberto, com os mais fanáticos, e os gananciosos dos armamentos, desejando a 3ª grande Guerra, só podemos agir, meditar e orar para que rapidamente diálogos e negociações obtenham o consenso justo e necessário e assim findem as mortes, sofrimentos e destruições...


Pelo que, nestes tempos dilacerantes que correm, só podemos orar pedindo as bênçãos do Alto e do Divindade para a Humanidade e sobretudo para todos os que procuram viver na luz, na sabedoria, justiça, amor e paz, de modo a que os mais sub-animais, insensíveis e extremistas, capazes de crueldade e ódio, sejam enfraquecidos, vencidos e reeducados...

Nestes tempos de tantos conflitos e divisões, guerras e separações, aspiremos e oremos para que muitos seres possam encontrar de novo as suas terras e lares, as suas almas amigas ou afins, as suas famílias, os seus grupos e com eles, e em interdependência fraterna mundial, gerar mais paz, beleza, prosperidade, sabedoria, arte e amor para a Humanidade e o Planeta...

domingo, 13 de março de 2022

Luzes e sombras, dos desejos e aspirações à estrela. Fotografias por Pedro Teixeira da Mota. Manhã de 13.III.2022.

A Luz solar é tão multidimensional, tão divina...

    

Nas manhãs de cada dia, os raios do Sol entram pelas casas a dentro e deixam, sugerem e inspiram mensagens
para as almas que as sabem acolher com o coração aberto...
O alimento de cada dia solarizado nos é dado...
A maçã vermelha dos nossos desejos e aspirações pode dourar-se aos raios do Sol Divino da Verdade e do Amor, até a estrela do Espírito despontar e a paz se irradiar...
Os encontros e uniões transfigurantes e imortalizantes...
Sejamos as estrelas (jivatman), de Luz e de Amor, emanadas da Divindade...
Lux   Pax

terça-feira, 8 de março de 2022

Dos conflitos que dividem e dilaceram as pessoas e sociedades. Com um sábio poema ( ای بیخ) de Hafez Shirazi em vídeo.

Estes dois últimos conflitos que tomaram conta das almas humanas e as dividiram, e fizeram mesmo enfrentar-se ou até sub-animalizar-se, o Covid  e suas políticas sanitárias e a luta da Rússia contra a Ucrânia e o Ocidente, indicarão que os factores ideológicos são nas pessoas bem mais importantes que pensámos, já que separam pessoas, amizades e famílias, umas erguendo-se contra as outras, e não discutindo já apenas a bola, os partidos e o preço certo, ou será que deparamos antes posicionamentos fundamentalmente emocionais, em grande parte manipulados pelos "media" e arregimentados, sem haver nas almas verdadeiro discernimento do que está por dentro e detrás de tais acontecimentos e actores, ou o que está em causa nas encruzilhadas e qual é a melhor ou mais justa via, pois tal como Fernando Pessoa dizia no final da Mensagem:  «Ninguém sabe que coisa quer. Ninguém conhece que alma tem, Nem o que é mal nem o que é bem?»?

O Y pitagórico, discernir e intuir bem o caminho. Não sermos marionetas, mas antes seres do caminho do meio. Já com outro artigo no blogue, o bívio ou Y.

Quatro vantagens ou aspectos positivos vejo nestes conflitos, apesar dos muitos trágicos sofrimentos e escombros. Primeiro, caminharmos para sociedades mais justas e sóbrias e para o fim duma ordem internacional demasiado unilateralmente dirigida pelos que detêm o dólar norte-americano e manipulam pelos media em grande parte o mundo. Segundo, aceitar o dilacerar de antigas amizades ou, vamos lá, aparentes conhecimentos tidos como aceitáveis, pois ficamos a ver os outros sob aspectos que apenas suspeitávamos ou nem sequer, e portanto ficamos com mais discernimento quanto ao que eles são ou valem em certos aspectos. Terceiro, é  que reduzem a nossa convivialidade dialogante, nomeadamente se queremos evitar discussões e conflitos desnecessários. E assim tanto vamos eliminando de seguir no Facebook pessoas, e haverá quem as remova, para que já não nos incomodem ou os incomodemos na página inicial, como também deixamos praticamente de falar ao telefone,  para  não termos que discutir, criar sofrimento e desilusão nos outros, ou ouvir então insultos soezes e ordinários a quem quer que seja. Deste modo libertamo-nos de exacerbar tolices e teimosias, lutas e ódios que só densificam o labiríntico ou pantanoso astral do mal na humanidade, ao serem amplificados, esperando que o bom senso e o amadurecimento pelo sofrimento tornem as pessoas mais sábias, fraternas e menos sujeitas a tantas fobias desgraçantes...

O astral labiríntico que atrai e prende as almas, numa pintura de Bô Yin Râ.
A quarta vantagem, com duas vertentes, é podermos termos mais tempo para irmos trabalhando e dançando, lendo e escrevendo, aprofundando e ouvindo o que mais gostamos e bem faz ao mundo, seja por exemplo, como está no vídeo final, as belas vozes da cultura poética iraniana, mesmo sem as percebermos  senão pela tradução, no caso um iluminante poema de Hafiz de Shiraz, e a esta sua cidade natal e de libertação fui eu peregrinar e conferenciar há uns anos, e por isso talvez mais a rosa da cavalaria do Amor no meu coração brilhe, abrindo-me mais a valorizar, e entramos na segunda vertente, da escarpada subida à montanha de Meru, Albornoz ou Himavat,  certamente muito importante, a relação polar, nomeadamente quando com uma ou outra alma mais afim, subtil, valiosa dialogamos ou mesmo vivemos, comungando do Graal  ou Jam-e Jam da gnose, do amor e da realização e assim peregrinando juntos às caravanserai do mundo espiritual e divino....  
Possa  da lama de tanto ódio e violência, insensibilidade e arrogância, a flor de lótus do Amor despontar em mais seres e uma paz mais verdadeira, divina mesma, permear-nos a todos...

Dara Shikoh (20-III-1615 a 30-VIII-1659)e sua alma polar Nadira Banu Begum (14-X-1618 a 6-VI-1659), mártires no caminho do Espírito... Mil pétalas do lótus da Divindade em vós e unindo-nos...

Oiçamos então Hafiz, de Shiraz, terra natal de outro mestre da  religião do Amor persa ou iraniana, Saadi (e ambos apreciados por Antero de Quental e Fernando Pessoa), com uma poema de grande sabedoria e belas imagens, que nos falam do Caminho do aperfeiçoamento e da humildade, da libertação dos desejos e da realização do amor e luz Divina. E possa "a Luz fulgurante da Verdade chegar ao nosso coração", tal como ele ora ou reza poetizando...

                         

sábado, 5 de março de 2022

Acerca da Oração nestes tempos do ano do Tigre. Com texto de Bô Yin Râ e música do Dead Can Dance - Sanvean.

Pintura de Bô Yin Râ, na queda d'água de Cela Cavalos, Gerês.

Nestes tempos em que estamos tão envoltos por conflitos externos, mais do que nunca se torna necessário trabalhamos por preservar a alma lúcida e luminosa não a deixando ao alcance perturbante de qualquer acontecimento ou imagem, político, comentador ou pessoa pronta a distorcer o discernimento calmo da verdade, e a nossa capacidade para sermos fiéis do Amor e, para tal, a oração, a meditação, a contemplação, o diálogo sereno, o canto, a dança sagrada, o banho consciente e a comunhão profunda com a natureza ou com alguém são meios fundamentais de recriarmos a harmonia em nós, pois tanta força, impacto, impressão, palavra ou intenção negativas que entram ou tentam afectar a nossa psique ou alma obrigam-nos constantemente a limpar-nos, purificar-nos, alinhar-nos, recarregar-nos.
Salientarei hoje e agora apenas a oração, uma prática que todos
aprendemos desde crianças numa ou outra oração que em geral ainda sabemos de cor e que, se pronunciada conscientemente e sentidamente no nosso interior, vai-nos tornando capazes de verdadeiramente acalmar, interiorizar, orar e logo descobrir-nos enquanto seres espirituais e podermos estabilizar, operar e irradiar luminosamente pelo Bem, a Luz e o Amor no Universo e no planeta.
O ensinamento que junto ou acrescento agora é de um dos mestres
mais valiosos dos últimos séculos XX, Bô Yin Râ, do seu livro A Oração, que brevemente espero publicar na tradução a que laboriosamente cheguei,  onde no capítulo quarto, depois de nos anteriores ter explicado o que significam os princípios da oração transmitidos por Jesus: "procurar e encontrar, pedir e receber, bater e ser aberto", e como se enganam os que pensam que falam com Deus, um deus da sua imaginação, diz-nos: 

«O ser humano que “ora” então da maneira certa, tal como deve pedir-se, - atingirá uma verdadeira renovação espiritual, e esta renovação é necessária sempre que a vida exterior entorpece insensibilizantemente os sentidos da alma. -
A “renovação espiritual” não reside portanto num renovamento da centelha viva espiritual do ser humano, mas numa renovação da receptividade da alma a todos influxos que, emanando do mundo do Espírito puro, podem e querem atingi-la pelas “antenas” do núcleo da sua essência espiritual. -»
Meditarmos na diferença entre a alma e o espírito é bem importante e compreendermos que na oração profunda, que certamente pode passar antes por uma certa confissão humilde e logo de abertura às bênção do alto, as forças anímicas são renovadas e fortificadas pelo influxo que a centelha vital consegue então receber do mundo espiritual, com os seus guias, mestres e anjos, e do mundo e ser Divino e primordial...
Segue-se o original alemão do extracto de Bô Yin Râ e uma tradução inglesa deste importante  ensinamento...


Ein Wichtig Lehre...
Vom "Das Gebet": «Der Mensch, der dann auf rechte Weise also
"betet" wie gebetet werden muß, wird wahrlich geistige Erneuerung erlangen, und diese Erneuerung ist immerfort wieder vonnöten, wenn das Außenleben die Fühler der Seele taub geschlagen hat. –

"Geistige Erneuerung" ist aber nicht etwa eine Erneuerung des geistigen Lebensfunkens im Menschen, sondern Erneuerung der Aufnahmefähigkeit der Seele für alle Einflüsse, die sie aus dem Reiche des reinen Geistes,über die "Antenne" ihres eigenen geistigen Wesenskernes, erreichen können und erreichen wollen. –»
*****
«The person who then ‘prays’ in the right way, as the prayer should be prayed, will truly attain spiritual renewal, and this renewal is always necessary again whenever external life has insensibilized the soul’s antenns. –
But "spiritual renewal" is surely not a renewal of the spiritual spark of life in the human being, but renewal of the receptivity of the soul to all influences which can and want to reach it from the realm of pure spirit, via the "antenns" of its own spiritual core of Being. –»

                        

quinta-feira, 3 de março de 2022

Sabedoria Persa (20 e última). Um poema de Hafiz e outro de Christophe Plantin, ecoando a "aurea mediocritas" de Horácio, ou uma vida simples e feliz.


Eis o poema final da antologia Fontes da Sabedoria Persa, do mais amado poeta do Irão, de Shiraz, Hafiz (1320-1390). Simples, poderá infelizmente parecer nos nossos dias uma utopia pois a convivialidade humana, as relações amistosas e a tranquilidade no mundo têm sido muito afectadas por múltiplas circunstâncias. Talvez uma razão mais para o escutarmos e apreciarmos, tentando criar possibilidades de sentirmos e vivenciarmos a amizade pura que escorre das imagens dos poemas com as pessoas que possamos encontrar afins ou ressoantes...
«Alguns amigos, uma garrafa de vinho, tempo livre,
Um livro, um recanto entre flores...
Eu não trocaria jamais tal felicidade
por nada deste mundo ou de outro.»
Comentário:
Eis-nos com um dia, ou um tempo, ou um estado ideal de paz e  felicidade, no qual estamos em amor, em irradiação de alma e espírito, em comunhão com a Natureza, os livros, a beleza, os amigos, o ser amado...
Poder criar, construir, cultivar, curar, ajudar, vencer defeitos e limitações, intensificar ou aprofundar o conhecimento e as ligações subtis e espirituais entre os seres, a Natureza e a Divindade, eis o que criativamente e não manipulada e comercialmente nos faz feliz, ou seja, faz vir até nós essa Ananda ou Felicidade, que é certamente uma graça...
Em verdade, vivermos ou termos um recanto, uma casa, na Natureza, pode ser uma fonte de grande felicidade, nomeadamente quando podemos ler e dialogar com os bons amigos que são os livros e seus autores, mortos ou vivos, e as pessoas afins, em convívios de refeições, trabalhos comuns, caminhadas ou meditações.
É a tão valorizada, pelos romanos antigos, os estóicos e em especial Horácio, na suas Odes, e entre nós por Antero e Pessoa,  aurea mediocritas, um estado dourado de felicidade atingido por desapego em relação aos bens, posições e famas no mundo e por um certo minimalismo ou mediocridade de meios de consumo e subsistência, ainda que certamente ter uma casa na natureza seja hoje ora uma carga de trabalhos, ora um luxo. Mas esqueçamos as circunstâncias concretas actuais adversas a tal desabrochar de felicidade campestre e mergulhemos na valorização de tal estado de simplicidade: amigos, livros, disponibilidade para dialogar e aprofundar o que seja. E claro, para muitos, o vinho, seja o tangível, seja o da sabedoria ou do amor, que a estalajadeira derrama dos seus olhos, coração, palavras e ânfora, como a tradição persa tão magistralmente desenvolveu em poemas de circulação entre o eros ou amor humano e o divino.
                                                          illustratie
Para terminarmos este pequeno ciclo de comentários a fontes da Sabedoria Persa, algumas medianas outras boas, e espero apresentar a minha própria antologia e não só comentar (em viagens de autocarro), eis um dedilhar da mesma aurea mediocritas mas já na Europa humanista: oiçamos o famoso soneto, tão reproduzido, do notável impressor Christophe Plantin (1514 ? -1589), francês mas que trabalhou mais em Antuérpia, da geração posterior aos fabulosos que trabalharam com Erasmo, tais como Aldo Manuzio e Joahnn Froben, e que chegou a ter a honra de ver a sua Bíblia Poliglota, dirigida e excepcionalmente anotada pelo notável humanista espanhol Benito Arias Montano, ser enviada pelos portugueses para os missionários jesuítas de Goa participantes nos diálogos inter-religiosos em Fatehpur Sikri e que assim a puderam oferecer, ao sábio imperador Akbar, filho de Humayun e de uma persa shia, Ḥamida Banu Begum exactamente hoje há 442 anos, como me deparei agora, numa sincronia bem valiosa, nas Efemérides do Encontro de Portugal com a Índia e do Oriente e Ocidente, para o dia 3 deste mês de Março e que encontra mais detalhada no blogue. 
                                               
«Os padres Aquaviva e Monserrate oferecem ao imperador mogol Akbar (1542-1605) a erudita e magnífica Bíblia Poliglota da oficina  de Christophe Plantin, preparada pelo sábio humanista Benito Arias Montano, neste dia 3 de Março de 1580, em Fatehpur Sikri, Índia numa encadernação fechada em ouro, com as belas gravuras da escola flamenga de Quentin Matsijs que, copiadas e adaptadas, entrarão imediatamente na simbólica artística imperial mogol. O imperador Akbar, na demanda da religião universal, recebe este Livro sagrado, com a devoção dum discípulo ardente: tira o turbante e coloca-o sobre a cabeça, depois aperta-o contra o peito e por fim beija-o.» Advirta-se que a imagem que se segue algo seca é provavelmente fruto da visão narrativa ocidental diminuidora do Oriente, e já então manipuladora como nos dias de hoje se vê tão exagerada e opressivamente nos últimos tempos:
Vamos então ao soneto, não de Akbar, que era analfabeto mas profundamente sábio e pioneiro na sua busca de uma unidade supra-religiosa e nacional (com a Din-i Ilai, a Religião Divina que fundou), sendo o seu neto, Dara Shikoh, esse sim um mestre da poesia e do comparativismo religioso, mas de Christophe Plantin, e transcrevemos primeiro em francês e depois na minha rápida tradução portuguesa, com duas ou três palavras melhoráveis...
 
    Le Bonheur de Ce monde
 
Avoir une maison commode, propre et belle,
Un jardin tapissé d'espaliers odorans,
Des fruits, d'excellent vin, peu de train, peu d'enfans,
Posseder seul sans bruit une femme fidèle,

N'avoir dettes, amour, ni procès, ni querelle,
Ni de partage à faire avecque ses parens,
Se contenter de peu, n'espérer rien des Grands,
Régler tous ses desseins sur un juste modèle,

Vivre avecque franchise et sans ambition,
S'adonner sans scrupule à la dévotion,
Dompter ses passions, les rendre obéissantes,

Conserver l'esprit libre, et le jugement fort,
Dire son chapelet en cultivant ses entes,
C'est attendre chez soi bien doucement la mort. 

A Felicidade neste mundo 

Ter uma casa cómoda, limpa e bela,
Um jardim atapetado de socalcos fragrantes,
Frutos, excelente vinho,pouca pressa, poucas crianças,
Possuir só, silenciosamente, uma mulher fiel.

Não ter dívidas, amores, nem processo nem querelas,
Nem partilhas a fazer com parentes,
Contentar-se com pouco, não esperar nada dos Grandes,
Regrar todos os seus desígnios por um modelo justo.

Viver só com franqueza e sem ambição,
Dar-se sem escrúpulos à devoção,
Dominar as suas paixões, torná-las obedientes.
 
Conservar a alma livre e o julgamento forte,
Recitar o seu rosário cultivando os seus entes,
É esperar em sua casa muito docemente a morte.»

Saibamos viver os mais felizes possível, e fazendo os outros felizes, evitando falsidades e confrontos, traições  e opressões  pois cada ser, cada grupo, é uma caravana que passa rumo ao seu Oriente, ao seu Além,  e a caravanserai hospitaleira ou satsanga dos amigas e amigas de Deus de cada um de nós é necessariamente para poucos seres afins. Aprofundemos então com eles os mistérios da existência e não deixemos dispersar e polemizar, manipular e subanimalizar... Seres livres e lúcidos no Caminho Divino...
Nestes dias em que o Caminho e a realização espiritual são tão desfigurados  por tanto comercialismo do esoterismo, da new age, da cura, dos satguruss e visvhagurus, dos anjos e das seitas e religiões, tentemos discernir bem o que se nos oferece ou vende. E espero conseguir  avançar um dia com mais sabedoria persa ou iraniana elevada,  comentada... Nur...

quarta-feira, 2 de março de 2022

Dalila Pereira da Costa: homenagem de coração, no dez anos da sua partida para a Terra Lúcida. E acrescentado.

Este texto foi escrito após a saída do corpo físico da Dalila Pereira da Costa, já só em corpo espiritual rumo aos mundos mais luminosos que sempre sentiu e intuiu, demandou e amou. Não fora ainda publicado, pois pensava completá-lo, o que faço hoje, 2.III.2022, levemente ampliado, quando se comemoram exactamente dez anos da sua entrada nos maravilhosos mundos subtis e espirituais, onde ela merecidamente estará certamente muito bem. No seu 105º aniversário, a 4-III-23, foi de novo relido e melhorado...

                                                

Dalila Pereira da Costa, uma das últimas grandes vates portuguesas, partiu...
Dalila Pereira da Costa, notável escritora, poetisa, ensaísta, jardineira, celtista, católica, mística e gnóstica, acaba de deixar a Terra e a sua bela casa ajardinada na Av. 5 de Outubro, no Porto, palco de tantas
conversas, lanches, visitas ao jardim e à sua estufa e plantas, e algumas meditações...
As suas múltiplas obras
espirituais, a sua clariaudiência nocturna, a sua bondade, o seu acrisolado amor a Maria mãe de Jesus, aos Anjos e Arcanjos e a Portugal, à Sabedoria perene e a uma melhor união entre o Ocidente e o Oriente, certamente perpetuar-se-ão em alguns dos seus leitores e amigos...
Nascida a 4 de Março de 1918 no Porto, de ramos de família com raízes durienses e irlandeses, licenciou-se em Letras na Universidade de Coimbra em 1944, onde recebeu o magistério de Joaquim de Carvalho, Damião de Peres e Torquato de Sousa Soares (este tendo-o eu ainda visitado em sua casa a conselho de Dalila), e manteve uma ligação forte com os ideais e os homens da Renascença Portuguesa, fundada no dealbar da República por Leonardo Coimbra, Teixeira de Pascoaes e Jaime Cortesão, grandes almas que cultivaram não só os bens e valores portugueses pelo amor, a saudade, a arte, a ciência, o tradicionalismo e patriotismo, como genialmente se lançaram em voos de criatividade literária e investigação filosófica e mesmo espiritual, em especial  Leonardo Coimbra, Teixeira de Pascoaes e Jaime Cortesão. Discípulos destes, e muito amigos de Dalila, foram alguns valiosos pensadores, e destacarei dois com quem convivi mais amistosamente ao longo de alguns anos:  Sant'Anna Dionísio (1902-1991) e Agostinho da Silva (1906-1994).

Sant'Anna Dionísio, Dalila Pereira da Costa e Pedro Teixeira da Mota. Capela de Rio Mau.

A valorização da mitologia, da poesia, da filosofia e da mística como vias de salvação ou de iniciação foi uma das suas ideias forças  vectorizantes da sua vida e obra, e num dos seus bons livros sobre a Tradição Espiritual Portuguesa, A Nau e o Graal, e pioneiro pois de 1978, defende o conhecimento como acto total de um ser total: «Em alma, corpo e espírito. Onde a realidade será conhecida partilhadamente pelo pensamento e sentimento. Onde o coração é o órgão eminente do conhecimento. Em participação com a Realidade». Vivermos mais conscientes do coração espiritual e da sua irradiação de Amor, diremos nós hoje, no seu aniversário de 2023, relendo-a, invocando-a...

Na realidade podemos dizer acertadamente que Dalila Pereira da Costa era um ser que levava consigo  intima, discreta e como que curvadamente o coração feito graal, ou caminho para o Graal, pela sensibilidade e capacidade de empatia e de sintonização subtil grandes.
Estudiosa, atenta e sensível aos símbolos e forças manifestados na saga dos Descobrimentos, destacou a Cruz de Cristo, o Escudo real, a Esfera armilar e o Graal como símbolos vivos e criadores agindo sobre os seres "com a força de verdadeiros mandalas. Ideogramas do homem e do cosmos, sem cessar em todos os instantes e ubiquamente, durante sua obra no mundo - mostrando-lhe e repetindo-lhe o modelo
do Todo organizado, para essa sua obra: como integração última".
Para esta aspiração e crença no regresso à Divindade, à Pátria-Mátria original, ao
Paraíso, a mundo espiritual primevo, contribuía a sua forte capacidade de recuperar memória subtil, que lhe permitia recolher imagens contidas ou ressoantes como memórias nos locais que visitava ou mais amava (tal o seu Porto) ou mesmo recuar ao mundo espiritual antes da queda no corpo físico de origem animal, ou mesmo ainda como ela acreditava, a vidas passadas. 

Uma visão da maior parte dos livros da Dalila por ordem cronológica
Na sua vasta obra de cerca de trinta livros Dalila Pereira da Costa fez uma revisitação erudita, espiritual e imaginativa das grandes linhas de força, temas, autores, mitos e realidades do território português ao longo dos séculos, destacando-se as aproximações bastante pioneiras à espiritualidade de Fernando Pessoa (O Esoterismo de Fernando Pessoa, 1977), ou ainda a Camões, Gil Vicente, Antero de Quental,  místicos e místicas portuguesas, participantes do movimento da Renascença Portuguesa, dos povos e grandes seres que aqui passaram e as influências que trouxeram, integrando tal na vasta tapeçaria dos movimentos europeus e planetários tanto históricos como míticos e espirituais.
Algumas dessas obras, como dissemos, são incursões no mundo
imaginal, em que Dalila inspirada por captações em modos subtis de imagens, palavras, diálogos, partilha tal em forma poética, sendo por isso de difícil hermenêutica,  de leitura compreendida na sua pluridimensionalidade, já que convergiam memória fundíssima, sonhos, desejos, imaginação, receios e visões. Levam títulos como Jardim de Alvorada (1981), A Cidade e o Rio (1982), Hora de Prima (1983), Mensagem do Anjo da Guarda (1993), Portugal Renascido (2000).
De conteúdo mais íntimo, vivencial e espiritual, em que tenta
compreender os seus quatro grandes momentos visionários e  extáticos são A Força do Mundo, de 1972, que publicara aliás antes em 1970 em francês sob o título L' Experience de l'Extase na revista Esprit, e os Instantes nas estações da Vida, de 1999, momentos que ela em geral, muito discreta, não falava interessando-se mais sobre os nossos trabalhos e realizações, e partilhando as suas angustias pela destruição da terra e alma portuguesa.

As últimas obras de Dalila Pereira da Costa destacam-se pela sua crescente mestria do comparativismo religioso e espiritual, a par dum aprofundamento das suas próprias capacidade de compreensão interior e algumas delas são incursões valiosas nos domínios subtis da alma, do espírito e da alma mundi. Destacaremos a Corografia Sagrada, Temas Portugueses, 1993, dedicada às raízes antigas, à sacralidade das serras, a tradições e festas  de portugueses, e a seres como Gil Vicente, Fernão Mendes Pinto, Antero de Quental, Raul Brandão, Camilo Pessanha, tendo um dos capítulos "Tripla peregrinação por Terras da Beira Alta e Trás os Montes" a particularidade de eu ter participado com ela e o sr. Acácio, seu caseiro no Douro, em Outubro de 1981, em  visitações de S. Pedro de Balsemão, Panóias, Cárquere.  
Também bem valiosos são Entre  Desengano e Esperança. Ensaios Portugueses, 1996, e Dos Mundos Contíguos, 1999, que já abordámos neste blogue, particularmente este último pelas suas interrogações face à fenomenologia das dimensões subtis e espirituais dos seres e do universo e pelo seu conhecimento das tradições não só portuguesas e cristãs mas também celtas (e houve nela com o decorrer do tempo um crescimento da apreciação das fontes pagãs),  indianas  e iranianas; e mesmo de certas noções da física moderna se soube apropriar, algo bem necessário de se verificar mas raro.

Já os seus dois últimos livros, quase in folios  de 139 e 105 páginas  Contemplação dos Painéis, 2004, e As Margens sacralizadas do Douro através de vários cultos, 2206, são notáveis tanto pelo pioneirismo das abordagens tingidas de certa clarividência  como pelo facto de que os escreve e publica com mais de oitenta anos de idade e ainda com uma alma  controlando e utilizando harmoniosamente o cérebro e o corpo, fruto de um modo de vida amante da Natureza, sóbrio, recolhido, estudioso, devoto, espiritual, o que nos deve impulsionar em tal e sua senda, bem característica da Tradição Espiritual Portuguesa...

Transcrevemos o índice desta sua última obra, sem dúvida altamente recomendável: I Parte: A Mitologia da Água. O Poder Oracular da Água. Dois Santuários do Douro, Cachão da Rapa e Pala Pinta. O Sol e a Serpente. A Vinha e os Cultos Mistéricos.  O Xamã nas margens do Côa e Douro. O Eremita. As Núpcias da Terra e do Céu. Uma reintegração Realizada. História e Trans-História. Tótem. Tribo e Genealogia. O Primeiro Santuário Português do Douro. E a Primeira e Última Cidade do Douro, A Fronteira, As Muralhas. II Parte. À Irmã Galiza com saudades: A Lua e a Serpente.  Duas Fatais Heranças. Os Filhos da Deusa Lusina. Arqueologia e Filosofia Portuguesas. A Saudade na Filosofia Galaico-Portuguesa.
Gerou ainda da sua alma tão luminosa e serena uma correspondência imensa, já que conservava cópias das cartas enviadas mais importantes, a qual está a ser devidamente tratada para brevemente sair a público. Conservo uma dezenas de cartas e postais dela, que espero partilhar também. 

A Dalila a ser entrevistada pela Sandra Pinheiro...
 No ano de 2018 comemorou-se na Universidade Católica do Porto os 100 anos do seu nascimento e em 2020 saíram as actas: Dalila Pereira da Costa. No centenário do nascimento, 1918-2018,  440 páginas de numerosas contribuições onde encontra a minha, aliás transcrita levemente melhorada neste blogue...                                                                   

Fotografia na sua biblioteca, na sala térrea, onde se encontravam os seus dois ou três mil livros e  em geral recebia as pessoas amigas, adornada com bastantes fotografias dos seus mestres e amigos, objectos oferecidos e, às vezes, com o seu cãozito a saltitar esfuziantemente, numa imagem bela e significativa, durante um diálogo entrevista com Sandra Pinheiro, realizado em 21-VII-2009, três anos antes  de ela nos deixar fisicamente, mas não subtilmente pois está connosco na comunhão do corpo místico da Humanidade, uma realidade da qual deveríamos estar mais cientes e, logo, espiritualmente mais alargadamente conscientes.
Que o Graal divino arda poderosamente na sua alma e os mestres e
Anjos estejam com ela, e que como sibila de Portugal, da Natureza como manifestação divina e da espiritualidade unitiva, possa ela inspirar ainda muitos seres. Muita luz e amor na Dalila e, através dela e suas obras, em nós e no mundo...