sábado, 30 de janeiro de 2021

"O Rosto e a Obra", 12ª p. e última da entrevista a Pedro Teixeira da Mota por António Paiva.

 Eis-nos na décima segunda e última parte da entrevista, primeiro em diálogo presencial e depois ampliada livremente para entrar no livro O Rosto e a Obra, Autores portugueses da Espiritualidade, 12 entrevistas, pelo António Paiva, dado à luz pela Espiral Editora, e ao ser transcrita para aqui, de novo, ampliada...

António Paiva – Estamos a chegar ao fim do nosso tempo. Obrigado por esta peregrinação. Uma pequena peregrinação por alguns aspectos da tua vida e da tua compreensão do caminho e da realização espiritual.

Pedro Teixeira da Mota – Sim, houve uma pequena partilha de certos aspectos e que foram  ampliados pela revisão posterior. Poderia ter falado mais das pessoas que me impulsionaram ou apoiaram no começo do Caminho, em Portugal e no estrangeiro, umas mais velhas outras mais companheiras fraternas ou amorosas. O Caminho é também o resultado de muitos elos que nos permitem avançar mais luminosamente pelo que  aos pais, a familiares e amigos devemos estar gratos e cultivar mesmo com regularidade alguma dedicação interior para as suas almas, onde quer que estejam. É o que se chama o corpo  místico da humanidade, ou comunidade das almas afins, e é algo que ao longo da vida deve ser consciencializado e trabalhado com gratidão.
É claro que haveria muito mais a dizer sobre os seres, grupos e locais
esotéricos ou espirituais que fui conhecendo ou dialogando ao longo do anos, dos quais alguns já partiram, outros desapareceram. O professor António Pedro, o engenheiro Manuel Lourenço, discípulo de José Racalho e de  Maria O'Neil, Marcelle Costa Pina, ligada a Salemi do grupo Ondes Vives e à cosmogonia d'Urantia, os franceses Rishi Atri e Anusuya, que ensinavam o Kriya Yoga e o ensinamento de Bô Yin Râ em França, Agostinho da Silva, Sant'Anna Dionísio, Dalila Pereira da Costa e José V. de Pina Martins (na fotografia, junto a Pico della Mirandola) são os principais, sem mencionar agora os indianos....

Muito também se poderia reflectir sobre a nova Era e a espiritualidade de Portugal, nas últimas décadas e na época que atravessamos, na qual é preciso, mais do que entrarmos em grupos exploradores e mistificadores, e agora em online,  estarmos bem alinhados psico-somática e espiritualmente, praticando com regularidade a meditação e a religação divina, e com modos de vida ecológicos e sóbrios, assentes de preferência na alimentação e agricultura biológica, para podermos resistir às forças artificiais, massificantes e alienantes do sistema mundial neo-conservador.
Os mais influentes e mais ricos do sistema capitalista neo-liberal, liderados pelo Fórum Económico Mundial,
estão a tentar implementar uma Nova Ordem Mundial cada vez mais ditatorial, com muitos políticos vendidos ao semi-secreto grupo da alta finança e às grandes empresas (das farmacêuticas e agro-química à indústria dos armamentos), de que qualquer governo da USA é em geral o principal porta-voz e opressor mundial, com aliados poderosos, como a Inglaterra, a Austrália e alguns outros. 
A misteriosa estirpe do sar corona, provavelmente saída dum laboratório sino-ocidental de Wuan, veio aguçar esta situação, sendo por vezes visíveis propósitos e métodos autoritários e opressivos de transformação e escravatura da Humanidade, aos quais deveremos saber lucidamente responder, resistir, adaptar-nos, vencermos.

                                          

Saibamos valorizar o trabalho interior, a sós e em pequenos grupos, associações e comunidades, de preservação e harmonização do planeta e da sua biodiversidade, e do ser humano na sua dignidade e liberdade, e é bom estarmos neste momento a conversar, no bom sentido que o Agostinho da Silva realçava, o de convergirmos numa unidade maior, num sítio como a Espiral, tão ligada à alimentação natural, à medicina não sintomática e às práticas psico-somáticas alternativas à sociedade mecanicista, materialista e tão manipulada que nos rodeia.
Tentarmos valorizar a potencial missão de Portugal de continuar a sua tradição cultural universalizante, iniciada nos Descobrimentos, com a realização mais profunda de uma verdadeira espiritualidade. ou seja, já não por dogmas nem mitos, nem nacionalismos, quinto-imperialismos ou sectarismos, nem mistificações de reincarnações, canalizações e quintas iniciações, mas pela fraternidade, pelo conhecimento verdadeiro e pela maior invocação, meditação, assimilação e comunhão
com o nosso espírito imortal e com os mestres, anjos e a Divindade.

                A estrela do espírito individual imortal, num ornamento de Bô Yin Râ.
Nisto me distingo da  mindfulness, uma moderna (e algo superficial e comercial) apropriação de uma técnica, de origem yogi e budista, de recolhimento e observação da transitoriedade dos conteúdos psíquicos, e que é considerada hoje uma panaceia facilmente acessível e sem efeitos colaterais e que é contextualizada e praticada sem graça nem espírito, nem abertura e ligação ao Amor, ao mundo espiritual e à Divindade. É claro que tal prática de observação pode ajudar algumas pessoas a estarem menos agitadas ou deprimidas e ser um começo de um caminhar espiritual, mas para tal é preciso uma orientação humanista e uma visão do ser humano como corpo, alma e espírito que a mindfulness não possui em geral.
Se as pessoas conseguirem viver mais fraternalmente, superando egoísmos, separatismos e assimetrias tão grandes, será possível impulsionar-se a sociedade a escolher modos de gestão e de governo sensíveis e responsáveis, nos quais não sejamos apenas marionetas de interesses estrangeiros ou da alta finança, como estamos a assistir frequentemente com as sucessivas crises, destacando-se esta última do vírus gripal de 2020, e que está talvez a ser aproveitada para destruição dos mais fracos e para o crescimento da repressão e submissão.
É necessário que haja mais procura de conhecimento harmonizador através de investigações sérias e debates construtivos e por competentes, para que decisões e medidas baseadas numa imparcial e alargada demanda da verdade e do bem comum sejam formuladas e implementadas a favor do bem dos muitos, e que sejam depois transmitidas bem pelos meios de comunicação...
Sabemos contudo que muito dificilmente o mundo dos partidos e dos políticos mudará, pelo menos rapidamente, pelo que a consciência da riqueza humana e espiritual potencial de cada ser, no meio de um património cultural valioso e duma natureza bela e fértil, como há em Portugal e em tantos países, deve por si só impulsionar-nos a desabrochar em trabalhos e criatividades valiosas a sós, em famílias e em pequenos grupos, algo indiferentes às negatividades e roubalheiras que nos rodeiam... 
Utopicamente, e vencendo as distopias, massificações alienantes e autoritarismo, poderemos admitir que tais núcleos resistentes se irão alargando, como famílias, comunidades, grupos, apoiados numa agricultura e alimentação orgânica, na saúde defendida por meios preventivos e naturais, com práticas de oração, de meditação e de contemplação, por vezes até em sintonia de celebração com estações do ano, festas dos calendários religiosos, posicionamentos astronómicos, desenvolvendo assim modos de vida mais harmoniosos e holísticos.
Disto resultará uma melhor a ligação com os eco-sistemas e espíritos da natureza, com os anjos, santos e mestres, e com a Divindade, gerando-se uma vivência maior supra-local da fraternidade ou irmandade dos seres nos seus mundos e do Espírito Divino e das Suas qualidades que nos unem e abençoam.              Sem ser V Império nenhum, um mito demasiado queimado por nacionalismos e zelotas, tanto mais que o Império do dólar e da USA ainda não terminou, nem a nova era do Aquário será provavelmente mais que uma designação esperançosa para certos ideais e tentativas de mudanças de paradigmas e que poderão ser sobretudo apenas sub-campos mais luminosos na multidiversidade da grande alma da Humanidade e de Gaia.
Eis-nos pois tanto num belo mas árduo caminho interior como numa luta exterior por ideais e realizações pelos quais vale a pena peregrinarmos e gerarmos sons e palavras, obras e livros, lutando, esforçando-nos com amor, no "talento de bem fazer".                             Mantermo-nos lúcidos e fortes e em sabedoria e amor, rumo ao mundo espiritual e à Divindade, pelo bem, eis a nossa estrela diária...

                              Aum Tat Sat...

António Paiva – Muito obrigado por esse propósito para a peregrinação da nossa vida
                                      ---------------- « » -----------------
Biografia de Pedro Teixeira da Mota.
Estudou em Lisboa nos Maristas, Colégio Militar e Liceu Pedro Nunes. Licenciado em Direito pela Universidade Clássica de Lisboa.
Após duas estadias de um ano e dois meses na Índia onde foi um yogi, e em que foi niciado por alguns gurus, começou a ensinar a espiritualidade indiana, yoga e, em especial, a meditação, em Évora, Porto, Guimarães, Covilhã e Lisboa, contudo dentro de uma visão do caminho espiritual perene e não
sectário nem de marketing. Tornou a estar um ano na Índia em 1995.
Em 1988 e 1989 foi co-director, com Lídia Caldeira Cabral, da Associação Waldorf de Lisboa, onde proferiu várias conferências e onde levou Agostinho da Silva a conferenciar.
Publica em 1988 e 1989, após consulta prolongada do espólio do Fernando Pessoa na Biblioteca Nacional, a Agenda do Centenário de Fernando Pessoa e o Livro da Sabedoria Portuguesa, e quatro livros de inéditos de Fernando Pessoa, comentados: Moral, Regras de Vida e Condições de Iniciação; A Grande Alma Portuguesa; A Rosea Cruz; Poesia Profética, Mágica e Espiritual.
Publica em 1998 O Livro dos Descobrimentos do Oriente e do Ocidente, de efemérides para cada dia do mês, a propósito dos Quinhentos anos do Descobrimento do caminho marítimo para a Índia. Encontra-se agora online no blogue, em doze textos, correspondentes
aos 12 meses e muitíssimo ampliado e bem ilustrado.
Entre 2003 e 2005, foi co-fundador e animador, com Sofia Costa
Quintas e Célia Costa Cabral, da Livraria e Galeria Pessoas e Saberes, em Lisboa, onde realizou várias conferências e meditações.
Em 2006, dá à luz a tradução comentada do texto sânscrito Cântico da
Consciência Suprema, Astavakra Gita, nas Publicações Maitreya.
Em 2008 faz a tradução (com Álvaro Pereira Mendes), e introduz,
comenta e anota o Modo de Orar a Deus, de Erasmo de Roterdão, nas Publicações Maitreya.
Em 2008 colabora com doze entradas de temática espiritual no Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, coordenado por Fernando Cabral Martins, da editorial Caminho.
Em 2010 participou na galeria Novo Século, de Carlos Barroco e Nadia Baggioli, na exposição colectiva de artes plásticas intitulada “O Amor é Cego”, com livros de artista manuais.
Em Maio de 2015 publica o livro de trinta e três ensaios intitulado Da Alma ao Espírito, nas publicações portuenses Maitreya e que, embora com pequenas tiragens, está na 3ª edição melhorada.
Em Junho de 2015 é co-prefaciador, com Anabela Rita, da Mensagem, de Fernando Pessoa, ilustrada por 25 artistas e editada pela Prelo Arte, e
coordenada por José Maria Ribeirinho.
Trabalhou como especialista do livro antigo, catalogand
o e comentando em alfarrabistas ou leiloeiras lisboetas, de 1994 a 2020.
Tem proferido numerosas conferências sobre a Tradição Espiritual Portuguesa, e seus principais elos, em especial Jorge Ferreira de Vasconcelos, Antero de Quental, Wenceslau de Moraes, Fernando Pessoa e Augusto de Santa Rita, mas também sobre o Humanismo, em especial Erasmo, e ainda a sabedoria espiritual de outros povos, em especial da Grécia
com Pitágoras e os pitagóricos, Índia, Irão e Japão.
Colaboração esporádica em jornais e revistas, destacando-se
Raiz e
Utopia, Arte e Opinião, Nova Renascença, Arte Ibérica, Agenda Cultural de Lisboa, Singularidades, Ar Livre, Nova Águia, Artes e Letras, Transdisciplinar, Pessoa Plural (nº 9, Oriente), Revista Portuguesa de História do Livro.
Página ou blogue: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com., e um canal no Youtube, também sob o mesmo nome, e algumas páginas culturais no Facebook.                                                                            
Investigações em curso: modos de vida para o séc. XXI, a espiritualidade mundial ou tradição perene, e mais particularmente a tradição espiritual Portuguesa, a tradição yogi indiana, a pitagórica e dos mistérios da Antiguidade, a mística iraniana e sufi, o shinto e o ensinamento de Bô Yin Râ, bem como as ligações entre ciência moderna e consciência, e a aprofundar a meditação e os mistérios do ser humano, do Cosmos subtil e da Divindade.

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Cartas de Antero de Quental a Germano Meireles, e o estoicismo, a paciência, a fé, a voz íntima e a Providência.

 Numa carta enviada de Lisboa, em 24 de Fevereiro de 1875, a Germano Vieira Meireles (1842 a 3-XII-1877),  numa tentativa de tocar no amigo íntimo e condiscípulo em Coimbra, então advogado e jornalista em Penafiel, onde com 22 anos de idade co-fundara (com o pai do comum amigo, Joaquim de Araújo), o famoso jornal O Século XIX em que tantos grandes poetas colaboraram, Antero de Quental partilha a sua visão do problema da dor, da paciência, da fé e da voz da consciência.

                                              
Já uns meses antes, a 24 de Outubro de 1874, realçara a grande ciência da paciência em outra carta a Germano Vieira Meireles, congratulando-se por ele estar a passar melhor desde que deixara a Foz do Douro: «sempre previ isso, porque a humidade é nos hostil a nós outros nervosos. Cá estou eu agora, com o detestável tempo que aqui tem durado há quinze dias, num estado de irritação nervosa insuportável. (...) A paciência (agora é que o tenha chegado a conhecer) é a chave da vida moral, a última palavra da ciência da vida. Quem chegar a alcançá-la, sem ao mesmo tempo cair na inércia e na estupidez, omne solvit punctum!». 

Oiçamos então Antero de Quental, em Fevereiro 1875, com uma fotografia desse ano, onde de facto parece mais determinado e forte que Germano Vieira Meireles.            

«Caro Germano
Saúdo o amigo! Que fazes e, sobretudo, como vais? Estará ai o Alberto, que, segundo me escreveu, faz a tenção de ir brevemente ao Porto? Se está, saúda-o por mim. Eu cá estou. Sempre na mesma: mas à doença impassível oponho uma paciência que cada vez mais luta com ela com mais vantagem. Por isso estou contente. Abençoada doença, se fizer de mim o homem impassível dos Estóicos, o Santo de Marco Aurélio. Não digo isto brincando, e para mim o livro das Máximas de Epicteto é um dos livros mais sérios que têm sido escritos. Porque não o lês? Mas talvez fora isso, infelizmente, inútil, porque não tens a Fé. A Fé não é só património do Cristão, há também a Fé da Filosofia idealista que pelo menos é tão boa. Mas tu és positivista, meu pobre Germano. Pobre Filosofia essa, e fraco apoio! Quem me dera que tu pudesses crer! Esta orgulhosa razão é preciso humilhá-la num acto de sentimento íntimo: é preciso também chorar, e amar aquilo mesmo que nos faz chorar. Então ouve-se em nós uma voz que não é a da razão, menos forte ou sonora, mas mais pura e sobretudo mais consoladora. Isto tenho feito e faço, e só desejo que o faças tu também. Pensa nisto. Se achares esta homilia muito lírica, considera que escrevo isto às seis da manhã, começando a amanhecer, e tendo eu perdido a noite – perdida para o sono, mas aproveitada para muitos pensamentos.
Adeus, querido amigo. Dá notícias ao teu do coração,
Antero.»

Realcemos apenas, primeiro, como Antero de Quental aceita as provações e dores que a sua misteriosa doença lhe provocam, pois está a sentir a sua vontade de perseverar confiante, ou seja, a dita paciência a crescer em si, desvalorizando as dores, o que significa no fundo ter Fé, a qual não é só cristã, mas do idealista, de quem acredita e ama o bem e a verdade e, aceitando ou querendo tal luta, sente e desenvolve energias para as suas demandas e batalhas.                                                                             Segundo, o apelo ao silêncio e à audição da voz interna do Espírito, algo que Antero de Quental trabalhou sob várias designações e recomendou muito em cartas a amigos, destacando-se entre eles Fernando Leal, como já tratei num artigo. E o que teria ele dito em diálogos, olhares, silêncios? 

Noutra carta a Germano, de 16 de Setembro de 1876 Antero volta, talvez algo paternalmente, ou em compaixão, à carga sobre a Fé, que ele correlaciona com a Providência, depois de justificar as poucas cartas que escreve: «a debilidade nervosa, paralisia, ou o que quer que é, invadiu-me os braços, e isto, complicado com o que já havia, obriga-me à imobilidade. De sorte que perco a esperança de poder ir aí ainda este ano (...) Paciência. A tua última carta era bem triste, meu pobre amigo. Quem me dera ver-te numa disposição plácida. A imaginação faz mal muitas vezes: é preciso amortecê-la, porque é ela que nos estimula os nossos pensamentos de revolta e nos desespera. Também entristece muito o espectáculo do mundo, como ele vai. O que convém é considerar que nada sucede no mundo, ainda o mal, sem uma razão suficiente, e que todas estas razões suficientes, encontrando-se numa região aonde não atinge o nosso entendimento, formam a ordem moral do Universo, ou, como outros dizem, a Providência. Mas tu não crês nisto, infelizmente! e perdoa-me se te impacientam estas sentimentalidades (...) »

Talvez em verdade Antero tenha sido algo sentimentalmente optimista, crendo que o mal tem sempre uma razão suficiente e que ela não só faz parte ou forma a ordem moral do Universo, como se pode incluir na Providência ou como Providência. Eu, por exemplo, não entendo assim: há o mal de clara oposição à ordem Moral do Universo e contra a Providência, divina ou cósmica. Há seres e entidades maléficas que estão contra a ordem moral do Universo, contra o Amor, o Bem, e obrigam tal Ordem ou Dharma a muitas acções e reacções que tentam compensar ou diminuir esse mal, esses seres maléficos, numa batalha que se opera tanto no universo físico visível, o tal "espectáculo do mundo entristecedor" [tanto na época como agora no séc. XXI], como também nos mundos invisíveis e subtis, todos afectados pelo mal, o egoísmo, o ódio. É só nos mundos espirituais que podemos verdadeiramente sentir plenamente a Ordem e Harmonia espiritual e divina. 

Haverá ainda algumas cartas trocadas entre os dois amigos, duas delas com Antero ainda doutrinando, amainando, pacificando Germano, tal a de Maio de 1877, apoiando-se até na "darwinística" bestialidade do ser humano: «E tu como vais? Imagino que mal, pelo menos de espírito, pois essa ferida é incurável. Meu pobre Germano! Irritas-te muito com os homens e suas misérias, para poderes conseguir a Paz. A comédia humana é ao mesmo tempo uma comédia divina, por isso não nos deve merecer indignação. Os Homens são ainda assim o melhor que podem ser, atenta a sua natureza bestial. O Darwinismo é uma grande fonte de consolação filosófica». 

 Também na penúltima carta, escrita das famosas termas francesas da Bellevue, onde Antero tratava os seus nervos com hidroterapia a conselho de Charcot, de 26-VIII-187, cerca de três meses antes de Germano morrer subitamente de um aneurisma aos 35 anos (e vindo Antero a acolher e educar as duas filhas, Beatriz e Albertina) encontramos de novo os ensinamentos de despreocupação, paciência e higiene psico-somática: «Dizes que passas agora melhor, mas sempre receoso dos funestos ataques nevrálgicos [Provavelmente já um anúncio de morte pressentido por Germano..]. Mas não convirá pôr de banda esses receios? O estado moral, a imaginação têm mais influência do que se cuida nos fenómenos corporais. Recear o mal pode às vezes ser chamar por ele, especialmente nos temperamentos nervosos. (...) A hidroterapia por ora não tem feito maravilhas. Os mestres dizem-me que se precisa bastante tempo e não posso senão dar-lhes razão; por isso espero paciente, senão esperançado. (...)»

 Acolhamos estes ensinamentos como testamento de uma amizade que por razões de distâncias se enfraquecera mas que tivera píncaros elevados na fraternidade idealista e revolucionária estudantil coimbrã,  que levaram mesmo Antero a dedicar-lhe em 1865 as Odes Modernas, com grande fraternidade, idealismo e amor, como podemos ver, ler e sentir:

                               
Escrevi ainda um artigo, com uma gravação, sobre as tão idealistas, revolucionárias e belas Odes Modernas, a que pode ter acesso em: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2018/04/antero-de-quental-as-odes-modernas-e.html
Paz, paciência e, com vigilância e luta contra o mal, mais abertura intuitiva à Providência divina, harmonizadora, curativa, libertadora... Luz, Amor e força para Germano Vieira Meireles e Antero de Quental....

segunda-feira, 25 de janeiro de 2021

"O Rosto e a Obra", 11ª parte da entrevista (melhorada) a Pedro Teixeira da Mota por António Paiva. O caminho de Santiago...

 Eis-nos na décima primeira parte (das 12) da entrevista, primeiro em diálogo presencial e depois ampliada livremente para entrar no livro O Rosto e a Obra, Autores portugueses da Espiritualidade, 12 entrevistas, pelo António Paiva, dado à luz pela Espiral Editora.

António Paiva – Mas Pedro, voltando aos excessos, não será também possível que na ferida resida o segredo da cura? De que na exaltação da dor eu me abra para a cura?

Pedro Teixeira da Mota – Sim, em certos casos, mas em outros não. Frequentemente as pessoas acabam por enfraquecer-se e ficar muito na ferida quando deviam curá-la, vencê-la, ultrapassá-la e mesmo realizarem mais a sua dimensão espiritual que está para além da dor, algo certamente difícil mas que todos os que já suportaram dores muito fortes de algum modo vivenciaram, em especial durante as meditações que nesses momentos conseguiram fazer, e nas quais a dor se esfuma, diminui ou é melhor suportada. A dor e o sofrimento existem para serem compreendidos nas suas causas e vencidos, transmutados nos seus vários níveis.

António Paiva – Vamos pegar nisso e colocar a peregrinação, não só a interior mas também a exterior, que leva à movimentação do corpo, como um caso em que há uma prova imposta ao corpo, com estados de sofrimento físico, de exaustão. E o que pode resultar dessa ferida e dessa exaustão. Tu que já fizestes algumas peregrinações que dizes? 
 
 Pedro Teixeira da Mota – Sim. Já fiz várias peregrinações em alguns países, montes e montanhas, algumas delas difíceis ou desafiantes, nomeadamente no Marão ou no Gerês transmontano, tal como quando começa a chover ou tomba uma neblina densa e uma pessoa cai ou rasga-se nas silvas e arbustos, ou fica ensopada, ou perde-se e apesar de tudo tem de manter a sua calma algo estóica e a sua invocação das melhores correntes telúricas e espirituais sobre si. Outras vezes é apenas a dificuldade de algumas partes do caminho que aguça o nosso sentido espiritual e de ser que está a ligar o céu e a terra, e como eu digo nessas alturas montanhosas: caminhar com mil olhos nos pés...

António Paiva – A Serra do Teixeira de Pascoaes, o Marão!

Pedro Teixeira da Mota  – Sim, a serra do Teixeira de Pascoaes, o Marão que eu através da Dalila Pereira da Costa conheci bem, pelo lado da encosta de Fontes, da zona que vem do para mim mítico rio Douro, pois vivido na infância, nas Caldas do Moledo, em todo o seu esplendor de um curso poderoso, ora cinzento, ora azul e verde, ora dourado e bordejando as suas margens com frescura, brisas, peixes, barcos, sons...
A Dalila foi uma escritora e poetisa com grande sensibilidade mística e, ainda que com um balizamento católico por vezes condicionador, muito aberta ao paganismo, que ela estudou procurando discernir as suas conexões e continuidades no Catolicismo, valorizando sobretudo o Princípio Feminino Divino, cósmico e telúrico, tanto presente no xamanismo, como nos greco-romanos, celtas e lusitanos, como no culto mariano, e dando disso bons testemunhos em vários dos seus livros, tal o Da Serpente à Imaculada, e excelentemente no seu último, As margens sacralizadas do Douro através de vários cultos.
Pouco depois de ter vindo da Índia, onde estivera um ano, vivendo perto de Guimarães, fui visitá-la por indicação do Agostinho da Silva e nasceu uma amizade duradoura, com muitos encontros e diálogos na sua casa na Av. 5 de Outubro, no Porto. E como ela tinha algumas propriedades no Douro, ofereceu-me a possibilidade de ficar em pequenas casinhas sem electricidade nem água, a não ser da fonte próxima. Aí ficava uns 15 dias ou mais, sempre em Agosto, quando fazia anos e por ser a época de férias em que não ensinava Yoga no restaurante Suribachi, no Porto, o que me permitiu fazer várias subidas peregrinantes à Serra, registando em pequenos cadernos de bolso o que ia sentindo ou realizando, e assim de algum modo, reflectindo a vibração ambiental e as analogias interiores, os sons e orações da peregrinação num texto que as acolhia, fixava e perenizava. Espero um dia publicar algumas páginas de tais diários.
Mas lancei-me também em outras peregrinações, seja na Europa, tal a do monde Athos, seja sobretudo na Índia onde fui de ashram em ashram e indo até às nascentes do rio Ganges, em Kedarnath nos Himalaias, com dificuldades, embora tivesse chegado lá perto de autocarro.
Também quando deixando por uma semana Madras por Arunachala, a fim de conhecer e meditar no ashram de Ramana Maharishi, subi descalço, sob um calor forte,  essa montanha tão sacralizada de Arunachala, onde ele fizera as suas meditações e vivera em grutas. Foi uma ascese purificadora que pode ter contribuído para os bons resultados obtidos quando meditei na gruta dele.
Subi também ao Monte Fuji no Japão, no que foi talvez a experiência mais dura de sempre, com cerca de uma hora mesmo nas últimas de forças, mas consegui erguer-me do pouso onde parara encharcado de suor e gelado e começar a caminhar, como que ordenado pelo meu eu espiritual, e chegar ao seu cimo de 3.777. Depois de fazer as minhas orações no santuário e de meditar lancei na cratera vulcânica alguns cristais do Gerês, como este que aqui tenho, para irradiar a energia de Portugal e pô-la a comungar com os Kami, que são as entidades espirituais, seja espíritos que viveram na terra, seja divindades dos mundos elevados e que têm ali a sua montanha mais sagrada e que quem contempla ou medita pode com alguma graça sentir e ver. 
 
 A peregrinação tem esse desafio de sabermos utilizar a exaltação e a ascese com conta, peso e medida. Todavia, por vezes temos de chegar mesmo aos limites, pois se vamos só pelo mediano podemos não conseguir chegar à meta ou nem desenvolver forças suficientes para nos inspirarmos. Ora nesta subida sozinho ao sagrado Fuji, e praticamente sem nada nem qualquer preparação, após a exaltação inicial em que ajudei pessoas e avancei demasiado rápido, estive mesmo a dado passo na mó da morte, encharcado, enregelado e sem forças, mas recolhendo-me, observando-me, aceitando a morte, meditando e seguindo a direcção superior em mim, consegui vencer as dificuldades corporais e chegar ao cimo quase ao nascer do sol. E depois nas meditações e contemplações ter os sinais abençoadores dos Kami.

António Paiva - Sei que fizeste o Caminho de Santiago, o que nos podes dizer de tal experiência?

Pedro Teixeira da Mota – Sim, realizei a peregrinação do Caminho de Santiago, sem dúvida sentindo-a bastante iniciática. Vim da fronteira da França-Espanha, de Roncesvales até Compostela, cerca de 750 kms em 28 dias, e passei por muitas situações, locais, vivências bem enriquecedoras, seja com pessoas, igrejas, natureza, meditações, esforços, intuições e escritas. Certamente há quem sofra mais, menos, ou nada, tudo varia de acordo com a Fortuna e a Providência divina, e pelo karma das pessoas e ainda o modo como a nossa vontade e intencionalidade reagimos às circunstâncias e dificuldades.
Se por exemplo uma pessoa caminhar demasiado num dia, pode provocar um certo tipo de lesão muscular forte. No dia seguinte ao levantar-nos temos a opção de ficar a tratar dela ou então continuarmos o Caminho. Se a pessoa tem a noção de ascese, de um certo estoicismo, lança-se ao caminho e consegue superar a dor. É nesse sentido em que a própria dor se torna, como tu referiste, factor de evolução. Comigo isso sucedeu, quanto caminhei mais de 30 kms seguidos num dia e, em parte, alguns sobre alcatrão. Mas a dor foi superada e transmutou-se a tensão e desgaste, seja pelo repouso nocturno, seja pela oração, seja pelo caminhar consciente e em oração frequente no dia seguinte.
Este teste do caminho e da nossa capacidade de transmutar é importante. Se uma pessoa consegue sentir a dor e aceitá-la e entrar nela conscientemente, ela pode dissolver-se nos seus aspectos que nos contraem e nos atemorizam. Perante o aspecto, aparentemente e na realidade, limitativo da dor, ao se invocar e introduzir as forças subtis dos mundos espirituais ficamos mais fortes e desenvolvemos o corpo psico-espiritual, o nosso corpo de luz. 
Podemos dizer que na peregrinação do Caminho de Santiago estamos a talhar ou a esculpir, como se diz na Tradição Espiritual Portuguesa, a nossa alma durante semanas numa relação única com a Natureza e com nós próprios, a sós, em silêncio, com os sons da natureza e das aves, e os pés na terra e a cabeça no céu. Sentimos porém que apesar de sós, mesmo que dialogando com um ou outro peregrino mais afim, há uma entrada numa egrégora energética que não só é telúrica, de cada terra que pisamos e percorremos, mas também proveniente tanto dos milhares ou milhões de pessoas que foram trilhando o Caminho, “El Camino”, como dos imensos pontos sagrados com que nos vamos cruzando ou inter-relacionando, sejam pedras, árvores, rios, pontes, templos, padrões, aves. Foi uma intuição muito sentida...
A peregrinação, despindo-nos de muitas artificialidades e reduzindo-nos ao homo viator, horas e horas, desperta tanto a nossa sensibilidade unitiva com a Natureza, como verticalmente com o mundo espiritual, sobretudo se durante e depois da caminhada fazemos oração, meditação ou mesmo participamos em missas que padres ou conventos especiais oferecem aos peregrinos, por vezes em cerimónias, cantos, diálogos ou contactos sublimes de doçura e fraternidade mística. 
A nossa identidade espiritual, com o decorrer dos quilómetros da caminhada e os esforços e asceses que vamos fazendo, vem mais ao de cima, ganha forças sobre a nossa personalidade e vida e como que cavalga o nosso corpo, fazendo-nos vivenciar uma felicidade subtil resultante de caminharmos livres, comungantes da natureza e investidos de estados ou forças espirituais afins das divinas. 
 
        Quando entramos na Galiza e seus bosques sentimo-nos mesmo em casa...
Sentimo-nos verdadeiramente num vasto campo em que tudo está ligado entre si subtilmente e nesse campo geomórfico e psicomórfico (ou seja, em que as formas e seres são modelados pelas energias naturais e as psíquicas) em que estamos e nos expandimos, podemos vivenciar experiências espirituais significativas, fortes.
Tal como a de sentirmos que estamos a dar os nossos passos num caminho que liga a terra e o céu ao som de um espécie de tambor gerado pelos passos das centenas ou milhares de pessoas que estão fazer naquele mesmo momento o Caminho, e que tem em si e sobre si os milhões de almas que fizeram ou contribuíram para o Caminho e com quem de alguns modos comungamos, por vezes sentindo a presença ou os sinais das entidades invisíveis ou celestiais que nos podem visitar ou abençoar, outras vezes simplesmente nos maravilharmos com um rio, uma árvore, uma paisagem, um abrigo ou capela erguida por um construtor ou devoto... 

António Paiva – Há então sinais que por vezes se tornam visíveis numa parte do caminho.

Pedro Teixeira da Mota – Exactamente, sobretudo para quem medita mais demoradamente, pois a maior parte das pessoas não meditam e realizam pouco a peregrinação como uma entrega e demanda espiritual. Eu era sempre das primeiras pessoas a levantar nas camaratas ou dormitórios, onde estavam por vezes cerca de cinquenta pessoas. Só ou com mais uma ou duas pessoas éramos os primeiros a sair, ainda à luz das estrelas, mas quando chegava a altura do nascer do Sol eu detinha-me para meditar e não via mais ninguém nessa orientação. Depois, uma ou duas pessoas com quem conversei começaram também a meditar e por vezes fizemo-lo em conjunto. 
Constatei também que certas igrejas românicas, fabulosas na sua arquitectura, simbolismo, ambiente e localização, e logo com uma energia bem forte, não atraíam as pessoas, que passavam ao lado sem aproveitarem para comungar com as energias telúricas do local, dos construtores e das mensagens deixadas nos capitéis e siglas, seja ainda dos santos, mestres e anjos invocados nelas e, por fim, da Divindade. 
Portanto, a interacção com os pontos de poder do Caminho, se é bem realizada e mais demoradamente, pode ocasionar experiências fortes, intuições e abertura do olho espiritual. A peregrinação serve verdadeiramente para uma pessoa ligar-se mais com o mundo celestial, irradiar melhores energias para antepassados, ou por quem rezar, e muitas vezes conseguir a intenção à qual pode ter dedicado a peregrinação.

António Paiva - Intenção ou dedicatória de uma peregrinação, tal como quando se faz um voto e se o vai cumprir nas nossas peregrinações domésticas?

Pedro Teixeira da Mota- Sim, vem de ex-voto, de voto, de dedicação, acto de graças para se cumprir a promessa feita, se um pedido fosse satisfeito, ou por intenção de alguém que falecera. Só que, quando falo das dedicatórias nas peregrinações, entendo o realizá-las com uma intenção: faço esta peregrinação com o voto que as energias luminosas que eu porei em acção, nomeadamente através de rezas e asceses, serão pelo meu antepassado que já está no além. Ou dedico os meus esforços para obter mais certeza se a Divindade tem para mim ou não uma certa forma ou face determinada. Ou se existem ou não os anjos, em especial os da guarda. Ou se me devo unir a certa pessoa ou não, etc.
Cada um de nós ao iniciar uma peregrinação pode escolher um pedido, uma bênção do alto e se trilharmos o caminho luminosamente a resposta vem, talvez no ponto mais difícil e mais alto do Caminho, ou quando meditamos mais tempo, e recebemos então os sinais ou esclarecimentos e alegramo-nos e fortalecemo-nos espiritualmente.
 

domingo, 24 de janeiro de 2021

"O Rosto e a Obra", 10ª parte da entrevista (melhorada) a Pedro Teixeira da Mota por António Paiva.

Eis-nos na décima parte (das talvez 14) da entrevista, primeiro em diálogo presencial e depois ampliada livremente para entrar no livro O Rosto e a Obra, Autores portugueses da Espiritualidade, 12 entrevistas, pelo António Paiva, dado à luz pela Espiral Editora.
                                                     
António Paiva - Apontas para o mundo espiritual e o Ser divino de um modo diferente do que as religiões ou mesmo grupos nos falam. Explica-te um pouco melhor.

Pedro Teixeira da Mota - A partir de experiências e intuições, e em sintonia com a Tradição perene, podemos intuir, sentir, realizar e afirmar que a Divindade é a fonte primordial de tudo e logo da vibração, da Palavra, do Amor e, de certo modo, a principal emissora e sustentadora do Amor no Cosmos, na natureza, nos espíritos e seres humanos, embora tal corrente energética passe depois a estar condicionada pela auto-afirmação e egoísmo de cada ser, o que gera mais conflitos e lutas do que aberturas ao Amor....
Ora no ser humano, sendo a componente afectiva essencial, a palavra será um dos meios onde mais podemos infundir e desenvolver o Amor e assim podemos gerar e transmitir sons e palavras em si luminosas ou sagradas, invocadoras de determinadas qualidades divinas, deidades ou da Divindade. E desta adoração e invocação interior, e realizada audível ou em silêncio, ficamos mais alinhados e recebemos forças para melhor equacionarmos e lidarmos com as tarefas diárias e as suas dificuldades.
Assim o que vamos desenvolvendo já não é uma mera crença num Deus das Escrituras, ou que está sentado no Céu, ou que é ciumento e violento, ou que quer isto e aquilo, mas sim uma vivência anímica e espiritual interna, de sentir, de aspirar e estar ligado ao Deus vivo íntimo, o que se concretiza ainda como graças de visão subtil, de sentimentos, de audição, de inspiração, de presença, ou seja, de Luz, Paz e Amor.
Também as qualidades psíquicas harmoniosas em que nos concentramos ou meditamos nos fazem sintonizar o espírito e o ser Divino e assim uma pessoa pode sentir mais necessidade, atracção ou afinidade com a paz, e usar então o mantra om shanti, shanti, shanti, paz, paz, invocando, cultuando e intensificando a paz em si e à sua volta e, deste modo, acalmando a mente, cérebro, respiração e corpo e podendo então receber, sentir ou comungar com vibrações ou níveis mais elevados, seja de paz, seja do espírito ou do Divino.
Em verdade, estamos todos a trabalhar com o som, a irradiar sons e e a ligar-nos com os mundos subtis e os planos mais elevados através das vibrações e sons, com seus efeitos em nós e no campo unificado de energia consciência e informação que permeia o Cosmos e que foi sentido ou intuído também nesse sentido mais profundo e elevado como a Música das Esferas, exterior e interior, nomeadamente por Pitágoras e os pitagóricos. O que damos ou emanamos, receberemos. Deveríamos pois ser todos mais mantricos e musicais...
Há que reconhecer o grande poder da palavra, do som e da música e como ele cada vez está mais visivelmente em acção na sociedade, ainda que de formas frequentemente desfiguradas e enganadoras, tais como os políticos e pregadores aldrabões, convincentes pantomineiros, como vemos em tantas igrejas e seitas religiosas, ou mesmo em gurus sedutores pelas vozes e doçuras, e que acabam não por impulsionar as pessoas no caminho verdadeiro e divino mas no da ilusão e queda, como os pitagóricos já representaram no seu famoso Y
 
AP – E o poder da poesia? Fala-se tanto que Portugal é um país de poetas e não tanto um país de prosadores. O que pensas de tal?

Pedro Teixeira da Mota – Sim, temos uma tradição poética muito boa e bem antiga, quase que dos primórdios da nacionalidade, com os romanceiros e com as cantigas de amigo e de amor. E depois sucessivos vates, ora líricos, épicos, naturalistas, religiosos e filosóficos deixaram-nos um valioso cancioneiro poético, de tal modo que foi mesmo considerado por Augusto de Santa Rita, em 1916, na revista modernista Exílio, na qual Fernando Pessoa colaborou duplamente, como uma tradição espiritual de rouxinóis, sua toada ou rimas poéticas ensinadas às mães que por sua vez a transmitiam às crianças, quando as cantam ou leem  sobre o berço.
Na realidade a poesia é investida de um poder grande quando é dita a crianças, com suas almas e cérebros bem receptivos, ou quando é acolhida por almas sensíveis, atentas e profundas, em especial quando o que se escreve ou exprime corresponde verdadeiramente a uma realização sentida, anímica ou espiritual.
Todavia há pessoas que podem alinhavar com mais ou menos arte, harmonia ou perfeição formal uma série de palavras, imagens, ideias, aparentemente fortes, belas ou elevadas, mas tal não corresponder a realizações interiores, sentidas e vividas não havendo assim uma verdadeira criação derivada de uma realização interior ou espiritual, o que nem sempre se discerne...
Também se dá o contrário, quando poetas com uma certa realização interior vão cultivar alguns estados depressivos e de niilismo, ou mesmo em estilos faustianos, como por exemplo Antero de Quental, que foi um ser de grande genialidade, líder da sua geração universitária, poeta de alta sensibilidade e inteligência, compondo magníficos poemas, só que vários dos sonetos algo negativos e próximos da morte, do vazio, da desilusão da vida, algo que na realidade na época (e de certo modo sempre) se podia cultivar, sentir, atravessar. 
A correspondência epistolar mantida por ele com muitos amigos, constitui talvez o melhor núcleo que nos ficou ao nível da transmissão do verbo ou palavra, do combate pela justiça e pelo conhecimento, e da amizade, empatia, amor, lucidez e sabedoria, mas também de ironia, tristeza, indignação e desânimo, testemunhando na sua grande alma o que era o ambiente psíquico de Portugal na segunda metade do séc. XIX bem como o poder da poesia e dos ideais assumidos por essa geração moderna coimbrã liderada por ele. Assim, os seus Sonetos continuam a ser justificadamente lidos e estudados, até nos programas do Ensino Secundário, alguns até porque são realmente além de belos e difíceis de compreender, bons nos seus efeitos anímicos. Antero de Quental tem sido um dos espíritos que de certo modo me visitou e eu visito e saúdo com regularidade, levando-me a gerar assim dezenas de textos e vídeos sobre ele no youtube e no blogue.
Como sabemos, terminou a sua peregrinação terrena suicidando-se, para isso contribuindo vários factores e ficando em abertos questões tais, como se foi uma desistência por doença, cansaço e desânimo ou se no acto estava lúcido, determinado e corajoso...
De qualquer modo é natural que quem corta o fio da vida antes de tempo precise de certas energias, para as quais as nossas orações, aspirações e energias elevantes poderão ser coadjuvantes.
Outro caso de poesia com grande e até mais poder mágico e elevante na nossa tradição cultural e espiritual, e igualmente com bastantes laivos de tristeza ou deprimente, foi a de Fernando Pessoa. São às centenas os seus poemas tristes, negativos, de vazio e indiferença. Mas também brilha, além da revolução pagã, franciscana e até com algo de zen de Alberto Caeiro, a notável Mensagem, o poema do Clarim e várias poesias esotéricas e iniciáticas, várias publicadas pela primeira vez por mim em 1989 no livro Poesia Profética, Mágica e Espiritual, e nelas as palavras, rimas e ritmicidades, imagens e forças podem ser mesmo mágicas, despertantes e actuantes na nossa alma, erguendo-se quase que em rituais iluminantes e transformantes, se bem lidas ou sentidas.

AP - E o que te parece o Livro do Desassossego, considerado por alguns como o mais triste do século XX?

Pedro Teixeira da Mota - Sim, o Livro do Desassossego, uma espécie de diário genial de um empregado de escritório com grande capacidade de sentir, analisar, analogizar e filosofar uma teoria de indiferença perante o quotidiano existencial do ser humano comum citadino europeu do início do séc. XX, está cheio de páginas cinzentas, de desânimo, tristeza e indiferença, mas volta e meia as suas vivências interiores são atravessadas por alguma estrela cadente, alguma luz da mónada, como ele próprio diz, que se derrama então pelo seu dia de sombra e pelas páginas transfigurando-as.
Fernando Pessoa estava até consciente de como tal tipo de sensibilidade e de visão passada à escrita era depressiva e negativizante, mas sabia que exprimia estados anímicos das pessoas das quais elas gostavam e portanto ele próprio de certo modo sacrificava-se nisso. Tanto nele como em Antero de Quental há a assunção das dores, frustrações e niilismos que assaltavam tantas almas que não se deixavam limitar pelas aparências, pelo Catolicismo ou pelo Materialismo e que não encontravam ainda suficientemente a Luz e o Amor, tanto no seu interior como nas suas relações, no exterior, na sociedade.

António Paiva - Então parece-te que eles usaram o seu verbo e palavra, talvez não dos melhores modos, mas no que eles conseguiram no meio das limitações sociais e ambientais da época?

Pedro Teixeira da Mota - Sim, e isso é mesmo afirmado por Antero, quando diz já perto do fim da sua vida, depois de ter renunciado a escrever mais poesia, que os versos que ele gostaria de fazer, harmoniosos espiritualmente, seriam outros que os viriam a redigir pois ele já não sentia nem a inspiração, musa ou forças para tal.

                                                   
Podemos considerar Fernando Pessoa o elo seguinte, o seu continuador nesta linha espiritual, e ele próprio o reconheceu por mais de uma vez por escrito (e traduzindo bastantes sonetos de Antero para inglês), sofrendo limitadoramente as condições algo pobres de vida e as forças religiosas e políticas ambientais. No último ano da sua vida, depois da instauração das directrizes de censura de Salazar, afirmou que não escreveria mais. Não se suicidou mas o seu consumo de álcool tinha um pouco disso, talvez a sua técnica de excesso compensatória, e assim bateram as asas dois grandes seres com 49 e 47 anos apenas... Uma pena!

António Paiva - Que ensinamentos em relação à palavra poderemos então nós recolher de tais exemplos, quase sacrificiais?

Pedro Teixeira da Mota - Talvez valorizar mais o uso da palavra correctamente, responsavelmente, magicamente, seja para nos harmonizarmos e realizarmos espiritualmente, seja para ajudar e estimular os outros, curando e harmonizando, não nos deixando ficar demasiado no negativo e no triste, nem demasiado nas críticas, ainda que justas e necessárias, nem também em mistificações e sectarismos como acontece em tantos grupos esotéricos ou ocultistas, em geral sofrendo uma certa lavagem ao cérebro inibidora do que é dissidente ou contrário.
Esta consciência da sacralidade da palavra, certamente difícil de ser mantida numa sociedade em que predomina a superficialidade, a inutilidade, a distracção, a mentira e a manipulação em tanto do que se ouve e escreve, é fundamental de ser constantemente recuperada e para isso servindo tanto o nosso repúdio das banhas da cobra esotéricas, políticas ou consumistas como também os nossos recolhimentos e meditações, silêncios e palavras proferidas sempre com plenitude ou, mais simplesmente, repetirmos mantras e orações quando sentirmos que é oportuno, bom.
Será pois a sós, em orações e meditações ou em diálogos com um ou dois ou, como se diz, reunidos no nome ou palavra da Verdade e do Amor, que poderemos melhor preservar o valor operativo da palavra. E assim chegarmos a tocar, abrir, estimular até a pessoa com quem dialogamos, harmonizando-a e clarificando-a em certa zona psíquica ou centro de forças, com as qualidades e níveis a que estejam ligados.
Mas este direcionamento sonoro ou psíquico intencional ou mesmo do olhar para os chakras é rarissimamente praticado e mais escassamente ainda se consegue observar e contemplar plenamente, em geral porque para tal acontecer seria necessário que se encontrem tais dois seres e que, estando em amor dialogante, sejam mesmo investidos de energias espirituais ou de Amor divino bem fortes.
Dentro desta magia da palavra, e do seu Talent de bien faire, como queria o Infante D. Henrique e mais tarde Fernando Pessoa, deveríamos ainda apurar a transmissão dos sons justos, não só para os humanos, mestres e anjos que permitem a comunicação com aves e animais, pois estes recebem, sentem e entendem à sua maneira, nomeadamente pela qualidade do som e intencionalidade com que lhes falamos. Tudo isto são subtilezas que devemos ir trabalhando...

sábado, 23 de janeiro de 2021

"O Rosto e a Obra", 9ª parte da entrevista (melhorada) a Pedro Teixeira da Mota por António Paiva.

   Eis-nos na nona parte (das talvez 12) da entrevista, primeiro em diálogo presencial e depois ampliada livremente para constituir o livro O Rosto e a Obra, Autores portugueses da Espiritualidade, 12 entrevistas, pelo António Paiva, dado à luz pela Espiral Editora. 

 António Paiva - E quanto aos vegans, o que te parece esta abordagem e o seu sucesso actual? 

Pedro Teixeira da Mota - O veganismo parece-me um esforço de pureza radical de alguma juventude ocidental, talvez ligada a linhas de força ecológicas, de sustentabilidade e de minimalismo, e seria bom discernirmos as motivações principais, tal como quantos sentem (ou consciencializam) mesmo o sofrimento que a produção dos lacticínios (e nem falamos da carne) provoca nos animais e quantos o fazem por um sentido de pureza ou então apenas por moda selectiva. É certamente uma movimentação valiosa, seja pelo empreendorismo e empregos que desenvolve, seja pela aproximação menos violenta à utilização e sobretudo exploração, por vezes muito pesada ou mesmo cruel e trágica, dos animais para a alimentação e vida humana, já que para além dos queijos vegans, mesmo ao nível de roupas, sapatos, cremes (e lembro-me da Sapato Verde, da Alexandra e do Mário, à rua das Chagas),  tem surgido muita oferta boa, embora algumas ainda não para todas as bolsas...
Contudo, descobrirmos e trilharmos o caminho justo, axial quanto às diversas energias possíveis de interacção, passando por excessos ou não, deve ser vivido e assumido diariamente, criativamente, sem ser algo demasiado fixado ou predeterminado, mas sim com atenção e empatia, liberdade e alegria, sinceridade e humildade, sabendo discernir, acolher e transmutar as energias e situações, nomeadamente as desarmoniosas e adversas, pressentindo os perigos e consequências, nomeadamente os que possam resultar de excessos ou de carências.
Há uma constante interpenetração de energias e de seres, pois estamos interligados num todo, e este holismo a física moderna tem comprovado, com alguns cientistas mais abertos às energias subtis e à espiritualidade, e alguns mestres e movimentos, a tentarem aprofundá-lo, com maior ou menor argúcia ou mesmo clarividência, com maior ou menor urgência de acções, como é o caso do aquecimento global.
Na verdade, afectamos globalmente muito a Natureza, mas mesmo individualmente e laboratorialmente o observador influencia o que observa, com a física quântica a comprovar tal, havendo até uma imitação empática resultante de mecanismos neuronais que espelham o que é observado, de tal modo que por vários processos subtis aquilo que somos, vimos, sentimos ou fazemos interage com os outros, põe-nos em ligação com eles, e em especial com as pessoas que vibratoriamente e animicamente estão mais próximas de nós.
As pessoas com uma vida mais controlada, auto-consciente e ecológica podem ser mais criativas e respeitadoras da ordem universo, dos ambientes, dos seres e impulsionar a humanidade num caminho de menos desequilíbrio consumista, semi-cego e violento, que afecta tanto os eco-sistemas, os animais e as pessoas, de modo a que haja mais harmonia, luz e unidade fraterna, tão ameaçadas nos nossos tempo por medidas autoritárias e repressivas que muitos governos e redes sociais têm implementado por várias razões e em especial à custa do corona virus, condicionando direitos humanos e destruindo empresas e economias médias e locais.

António Paiva – Tu és uma pessoa que escreve e que fala. Regularmente és um orador convidado em eventos. Voltemos pois à Palavra. Que usos tens feito dela?

Pedro Teixeira da Mota – É sempre bom questionarmos as nossas palavras, não só faladas como também escritas ou meramente pensadas, algo a que em geral as pessoas pouco ligam.
Na verdade não as aprofundamos tanto quanto deveríamos, em grande parte pela rapidez da vida e o escasso tempo para nos observarmos e conhecermos. Reconheço em mim próprio tal, já que em geral não vejo-oiço os vídeos que vou gerando e ficam no meu canal do Youtube, alguns deles com meditações, orações e mantras, não extraindo assim observações aperfeiçoadoras...
É evidente que quem está ligado com as tradições orientais, seja da Índia, seja do Japão e China, ou está a par de algumas realizações das últimas décadas, nomeadamente em movimentos e grupos ligados às energias, crescimento pessoal e transpessoal, estados expandidos de consciência, ou quem aprecia a música, o canto, os sons, as taças tibetanas, etc., tem alguma consciência do valor e do poder dela.
Tal é visível de vários modos e em muitos grupos com práticas de emissão e modulação de sons ou palavras, seja em voz alta, baixa ou inaudível, nomeadamente com mantras indianos, salmos, mistificantes decretos ou pretensas fórmulas mágicas e kabalistas. Ou então, mais passiva e frequentemente, apenas ouvindo-se certas músicas.
Na realidade, para além do valor da musicoterapia, ainda pouco desenvolvida e acessível, é útil ter-se algum tipo de hino, canto, mantras e orações, ligados a certas energias, ou mesmo faces da Divindade, com os seus nomes próprios, e que sejam trabalhados dentro de nós com mais regularidade ou fidelidade, com ou sem acompanhamento instrumental. E que em certa proporção nos talham, como dizia Fernando Pessoa, ou que nos esculpem, como escreveu em quadra, Agostinho da Silva.
Eu diria até mais, que configuram o nosso campo electro-magnético, psicomórfico e espiritual, tal como hoje em dia chamo, para acrescentar um pouco à designação de um bom investigador, Rupert Sheldrake, mais simples, de campos mórficos, em que estamos todos interligados, e que já não serão apenas energético-telúricos mas também, enquanto forças do mundo espiritual e dos seus seres, que subsistem mesmo como forças arquétipas ou específicas de certos locais, povos, crenças, tradições e grupos.
Não há só a ressonância mórfica (ou nas formas) de ritmos e padrões vibratórios que vêm de energias ligadas ao electro-magnetismo da Terra no seu posicionamento no sistema solar e ao corpo energético do ser humano e dos animais, mas há uma interacção possível a partir do que emanamos animicamente (e não diremos apenas mentalmente) e do que chega ao nosso próprio ser, nomeadamente dos níveis mais elevados das nossas opções e ligações superiores.
Um exemplo: é nos dado iniciaticamente, ou escolhemos, e praticamos ou trabalhamos certo som ou nome consagrado à Divindade, seja Aum, Krishna, Shiva, Narayana, Jesus, Deus, Allah Akbar, Al Rahim, Amaterasu omikami, etc. Todavia, nas práticas adoptadas, o que brotar ou ressoar mais no nosso interior e movimentar luminosamente as nossas energias anímicas é que deverá ser o nome, mantra ou oração mais importante de ser seguido ou praticado no momento para chegarmos ao silêncio e a uma unificação, a nossa.
Portanto, descobrirmos dentro de nós quais são os sons, mantras, dhikrs ou invocações que nos harmonizam, fortificam e religam ao Alto, dentro deste mundo de manifestação tão dispersante e ilusório e em que há tantas dualidades e tantas forças em luta, ou se quisermos tantas vozes e sons dissonantes, é uma ajuda importante no nosso Caminho.
Se tivermos de facto os canais anímicos abertos através do som, da oração, da meditação, da respiração, da atenção, da intenção, do amor e da aspiração é mais fácil uma pessoa manter uma ligação com os níveis superiores, e somos então menos afectados pelas acções e reacções do dia-a-dia, e conseguimos mais facilmente limpar-nos, harmonizar-nos e centrar-nos, nomeadamente quando chegamos a casa, ou quando meditamos mais tempo.

António Paiva - Mas tens tido experiências desses níveis subtis, dos efeitos dos sons, palavras, mantras, seja por ti mesmo seja do exterior?

Pedro Teixeira da Mota - Quem medita, e esforça-se por uma vida harmoniosa, verdadeira e peregrina acaba por ter ao longo dos anos vivências internas valiosas de tais invocações, cantos, meditações, ou então experiências e conhecimentos pelo exterior.
Há tempos estive a jantar no restaurante vegetariano Govinda, em cima do jardim de Oeiras. O dono de então tinha uma ligação forte com a Índia e com o movimento Hare Krishna, no qual há a consciência de que o amor ou devoção (bhakti) transmite-se aos alimentos ao serem preparados, tanto mais que são oferecidos a Sri Krishna e a Radha, havendo especial atenção ao que ocupa a mente e que sentimentos temos em tais momentos. Ora lembro-me na Índia de ter chegado a um ashram dum mestre com milhares de discípulos na linha da meditação no som e na luz e ele ter-me recebido. Fez-me sentar ao seu lado e depois de algum diálogo, valorizou a vibração de amor que emana de nós a cada momento e da importância dela ao cozinharmos, contando-me que uma vez recebera o almoço e quando começara a comer sentira que algo se passara. Interrogando os discípulos sobre o que sucedera na cozinha confirmaram-lhe que tinha havido uma discussão forte. Também uma vez, há muitos anos numa caminhada em Portugal, encostei-me a um muro e ao fim de pouco tempo comecei a sentir-me estranhamente mal e avançando um pouco percebi que era um matadouro. Dois pequenos exemplos.

Na verdade estamos constantemente a emanar e a receber energias subtis, envolvidos permanentemente por sub-campos energéticos e psíquicos específicos, algo que se reconhecia até outrora como os ambientes psíquicos ou as egrégoras de locais e grupos, pois as palavras, vibrações e pensamentos têm efeitos fortes sobre a nossa alma (ou mesmo no corpo) e nos outros, ainda que as pessoas frequentemente não se apercebam de tal, tanto mais que as influências, toques ou sons desses níveis são subtis.
Ora as energias subtis que emanam de seres (visíveis ou invisíveis) e de grupos algo negativos, que procuram fazer dinheiro, ter poder, visibilidade e explorar as pessoas e os seus prazeres, gostos e receios, acabam por envolver ou aprisionar dirigentes e seguidores de modos por vezes muito limitadores ou destrutivos das suas melhores potencialidades.
Isso acontece em alguns movimentos da nova Era ou de cultos religiosos novos, muitos originados na civilização, tão desequilibrada, consumista e exploradora norte-americana, cheia de aparências falsas, de palavras que parecem de oiro mas que são depois de chumbo, com muitas aldrabices ou mistificações quanto a canalizações, iniciações, extra-terrestres, datas proféticas, métodos, práticas, etc.
É então importante aguçarmos a sensibilidade e melhorarmos o discernimento, seja quanto às pessoas que falam e o que as suas vozes nos indiciam, seja o que escrevem ou ensinam, de modo a não deixarmos entrar na nossa consciência e mente (sobretudo sem darmos conta) informação falsa ou manipulada que afectará a nossa bússola interna da verdade, algo que pouca gente cultiva, frequentemente enchendo-se de informação desnecessária, por exemplo, ocultista ou esotérica, que é teórica, incomprovável e frequentemente falsa, e que no fundo só vai pesar e atrapalhar, pagando-se ainda por cima bastante (o que é em geral sinal de vigarice) pelos cursos, consultas, seminários, etc.
Uma ascese vigilante dos sentidos e dos instintos, dos alimentos e das palavras, das imagens e das músicas, das vibrações e intenções que entram em nós é fundamental, se queremos harmonizar e unificar os nossos níveis ou corpos físico, etérico, astral e mental, e assim mais integrados fortalecer as ligações com o mundo espiritual e os seus seres, e com o Ser Divino, nas Suas Faces, estas conforme a invocação, dedicação e adoração de cada ser.

domingo, 17 de janeiro de 2021

A Luz Eterna e as Cores, no caminho espiritual, por Bô Yin Râ. Comentários breves de Pedro Teixeira da Mota..

  O notável  pintor alemão e mestre Bô Yin Râ (1876-1944), na sua obra Das Hohe Ziel, Le But Suprême, O mais elevado Objectivo, impressa em 1925, em Leipzig, pela Verlag Mägische Blätter, transmite-nos muita sabedoria em dez pequenos capítulos, intitulados O Apelo do Espírito (onde realça a necessidade de afinarmos o nosso ouvir no silêncio), Os Dois Caminhos (o dos poderes e mistificações e o que leva ao reino do Espírito puro), Do Procurar e Encontrar (no interior e com o pensamento cerebral calado), da Luz Eterna, das Cores da Luz, Do Objectivo Supremo (que é a realização de ti mesmo na tua forma de manifestação engendrada pelo Espírito), Dos Caminhos dos Antigos (não caminhes sobre escombros), Das Bênçãos do Trabalho (é no trabalho bem feito que se recebe mais), do Poder do Amor (O espírito que é Deus e que é Amor, a maior força do ser humano, não deve ser identificado com o intelecto) e O Mestre da Nazaré (um mestre unido a Deus profundamente mas que não é Deus, embora nos venha ajudar a desvendar ou mesmo estar no reino de Deus).
                                              
Estão traduzidos e c
omentados por mim no Youtube, mas resolvi hoje  ler e comentar de novo brevemente os dois capítulos que tratam da Luz Eterna e das Cores da Luz, e disso resultou o vídeo apenso. Mas como faltaram algumas linhas quando o filme-bateria terminou, vou transcrevê-las aqui para as pessoas ficarem com o capítulo todo...
Mencionando
o seu desejo de descrever as maravilhas infinitas da Luz Eterna, Bô Yin Râ lamenta a incapacidade das palavras e escreve:
                                        
«Eu só posso, tal como uma pessoa que viu numa grande viagem maravilhas long
ínquas da Terra, tentar despertar em vós a possibilidade de representarem o que nunca viram; mas se quereis contemplar interiormente o que  vos devo transmitir, devereis ter a vontade de percorrer por vós próprios, conscientes de todo o esplendor que aqui vos prometo, o caminho que no fim conduz-vos à vossa própria visão, no mais profundo de vós. Possas tu ser reconhecido como um sábio desta terra ou que  vejam em ti alguém pouco familiarizado com a Sabedoria deste mundo, sabe que a Luz da Eternidade só será certamente tua se quiseres procurá-la em ti mesmo. Guarda-te das vias enganadoras que te querem induzir a procurar a Luz com os olhos dos outros. Procura-a mais em ti à tua maneira e sabe: só poderás obtê-la na tua própria cor, - e possas atinja-la já nesta vida terrestre, ou somente após teres abandonado a tua vestimenta terrena ao pó.

Avança tranquilamente e corajosamente no teu próprio caminho , e quaisquer que sejam as coisas que possas esperar de acordo com a tua natureza, elas serão em verdade ultrapassadas largamente pelo que um dia te deverá pertencer.» 
Segue-se o vídeo:

                    

sábado, 16 de janeiro de 2021

O Cavaleiro de Oliveira será um Cavaleiro do Amor na sua "Viagem à ilha do Amor"?

 
Quem lê a Viagem à ilha do Amor de Francisco Xavier  de Oliveira, mais conhecido como o Cavaleiro de Oliveira (1702-1783), dada à luz em 1744, em Amesterdão, não acha nada nela que ofenda os "bons costumes" ou mesmo sequer a religião católica, não se discernindo bem a proibição pela tétrica Inquisição Portuguesa, que aliás já o censurara  sob o pretexto de ter escrito contra o celibato dos padres, embora se suspeite que, mais do que a sua liberalidade de costumes e sucesso no reino feminino, tenha sido o conflito com o Conde de Tarouca, embaixador português na Áustria, onde Cavaleiro de Oliveira servira como secretário de Embaixada, de 1735 a 1738 (sucedendo a seu pai, embora tenha sido remetido mais para o expediente), a causa de tal proibição. Com efeito, em 1741 já publicara o 1º volume das suas Cartas Familiares, as Memoires de Portugal e as Mille et Une Observations, onde  farpejava os defeitos portugueses, dos quais a Inquisição era a incarnação máxima.
Três anos depois da saída à luz, e apenas na Holanda, Haia, onde então morava, desse livro que passou desapercebido, converteu-se ao protestantismo, e passou a ser protegido pela corte inglesa, chegando a viver até aos 82 anos, em Inglaterra, vencendo portanto a magia negra que a Inquisição lhe fizera de o queimar em efígie como herético num auto de fé realizado no Rossio em 1761, tendo tido ainda antes bastante sucesso com as suas obras acerca d0 Terramoto de 1755, escritas em francês.  Ora A Viagem à ilha do Amor é quase mais um exercício psicológico de nomear, numa progressão de viagem,  jogo ou peregrinação, as características psíquicas que em geral acompanham o amor, a busca do prazer e da felicidade, entre dois seres, com algumas observações bem vistas quanto aos seus traços e efeitos nos seres humanos. E não há uma excessiva personificação de tais virtudes e vícios, a descrição não é muito grande ou profunda, mas há algumas ideias que valerá a pena transcrevermos.
Apresenta-nos uma ilha utópica do Amor, e terá lido certamente  a Utopia de Tomas More, e teve presente a ilha dos Amores dos Lusíadas de Luís Camões, pois ela surge tentadoramente anunciada por zéfiros e cupidos que seduzem, quais sereias, alguns dos viajantes duma embarcação transviada.
Francisco Cavaleiro de Oliveira, surge com o nome de Tirso e tal pode ser um sinal de algum conhecimento dos mistérios e iniciações do Amor, nomeadamente das os greco-romanos de Dionísio e Baco, pois o tirso era a vara ou bastão de iniciação, podendo portanto considerar-se que Cavaleiro de Oliveira vai apresentar uma iniciação ao Amor, o que de facto faz mas sem atingir aspectos elevados ou iniciáticos, antes dando do amor as suas características principais psico-somáticas, por vezes  com grande sensibilidade e logo entrada nos planos subtis ou anímicos, como podemos ver nas descrições bastantes astrais e pressentidas, por exemplo, do Ciúme ou da Inquietação.
O que pretendeu ele com este tratado, que não teve sucesso, tanto mais que escrito em português não podia circular em Portugal em tempo da Inquisição (assim só surgirá entre nós na impressão lisboeta de 1855), ao contrário do discurso que escreveu  sobre as causas do terramoto de 1755, já em francês, a língua e o público internacional que o pode ler, não é fácil de discernirmos, embora possamos tanto considerá-lo um exercício de imaginação e psicologia sobre o Amor, como um livrinho com um título suficientemente atraente para ter mais sucesso do que mereceria, já que a viagem acaba por não ser muito feliz nem desvendar aspectos novos ou brilhantes do Amor, antes havendo como que uma submissão do Amor ao Destino, que o deixa quase como que mera lembrança agradável do bom tempo passado mas gerando até sofrimento.
Não há uma assunção do amor como um processo interior, como um estado anímico crescente, valioso, criativo, como o poder íntimo divino em nós, e fica-se pelo amor que une dois seres num nível só  psico-somático e que acaba por ser sempre vítima das muitas limitações psicológicas e sociais dos seres, as quais podem resumir-se na palavra Destino, a última alegoria ou personificação que vem cortar as esperanças amorosas do ser amante ou na demanda do amor.
O livro tem em si no final um travo amargo, e Cavaleiro de Oliveira não conseguiu erguer-se como Cavaleiro de Amor suficientemente nesta obra, ainda que creiamos que ele o tenha sido em vários aspectos, já que casou-se três vezes e namorou mais algumas, e enfrentou a poderosa Inquisição portuguesa e seus esbirros, bem como ainda alguma parte da aristocracia portuguesa, demonstrando ser um cavaleiro da Justiça, da Verdade e certamente em parte do Amor, embora neste livro não o mostre nos níveis elevados que ele tem, iniciáticos ou espirituais mesmo e que ele não terá reconhecido por experiência ou gnose interna
Embora ao aludir brevemente ao Amor que existe já antes do Caos inicial, ao mostrar a Felicidade (a Prem Ananda, da Índia) que ele proporciona e ao apontar para a fusão recíproca que acontece entre os dois seres que se amam verdadeira ou plenamente, Cavaleiro de Oliveira mostre ser um Cavaleiro ou Fiel do Amor, contudo não desenvolveu suficientemente tais aspectos para que a obra se aproximasse de um tratado do Amor, como no século XVI se escreveram alguns valiosos, em grande parte dependentes ou influenciados por Marsilio Ficino e o seu comentário ao Banquete de Platão.
Teria que ter intensificado, aprofundado, expandido o Amor em si e nos seres enquanto fogo cósmico e individual, como aperfeiçoador de características e qualidades, como capacidade de comunhão e  expansão universal e mesmo de unificação espiritual e divina.
O amor entre dois seres pode ser maior ou menor, mas no caso de seres que estão livres e sentem afinidades e amor suficiente entre si, então ele é uma escola ascensional que pode levá-los aos píncaros do amor, da unidade, da sabedoria, pois ao estar-se em amor estamos mais vivos, conscientes, verticais, irradiantes, e respiramos o Amor e irradiamo-lo, certamente num trabalho alquímico constante de soprar a chama no atanor (a relação, a casa, o corpo e alma, sushuma), para o qual temos de ser humildes e compassivos, criativos e livres, perseverantemente...
O Fiel do Amor valoriza mais do que tudo estar em Amor, e seja com a amada, seja na ausência dela, está em amor, sente o amor, pois o amor não depende de ser amado, mas ama naturalmente, e ele sente e sabe que o mais alto amor é o que nos liga a sós ou com outros à Divindade tanto Primordial como íntima, a qual é  a Fonte do Amor,
Sendo então o Amor essencial na Divindade e a força ou mais poderosa no cosmos, compreende-se que haja muitos seres em muitas igrejas ou seitas que se sentem muito em amor com os outros e mesmo tendo até apenas uma concepção de Deus bastante limitada,  sentem-se felizes, saudáveis, dinâmicos, optimistas em tais religiões ou igrejas.
O melhor então será os seres conseguirem meditar, sentir, ver e ser o Amor, e sentindo-o e adorando-o tanto na sua Fonte Primordial divina cósmica como simultaneamente no interior das suas almas e corpos, dinamizando-o, partilhando-o na peregrinação pelo sub-campos  unificados de consciência e energia, quais estrelas em vias Lácteas ou caminhos de SantoYagus, Santiago
Viva Deus Santo Amor, clamaram e clamam os místicos do amor..
 Sejamos a estrela do espírito, a qual é uma centelha emanada da Fonte primordial do Amor divino, e consigamos vê-la e senti-la mais no nosso corpo espiritual flamejante iluminante, que se exprime no talento de bem fazer por actos, pensamentos, palavras e intenções, o talent de bien faire, do Infante D. Henrique, de Fernando Pessoa, dos Templários e de todos portadores do santo Graal, os que trabalham em amor ou que verdadeiramente no Amor ardem e se entregam, sacrificam, elevam ou dão....