Ó tu que desejas chegar ao fim da viagem,
Toma o meu conselho e aprende a paciência.
Um cavalo árabe galopa duas vezes uma corrida,
Um camelo move-se gentilmente noite e dia.»
Livros, Arte, Amor, Religião, Espiritualidade, Ocultismo, Meditação, Anjos, Peregrinar, Oriente, Irão, Índia, Mogois, Japão, Rússia, Brasil, Renascimento, Simbolismo, Tarot, Não-violência, Saúde natural, Ecologia, Gerês, Nuvens, Árvores, Pedras. S. António, Bocage, Antero, Fernando Leal, Wen. de Morais, Pessoa, Aug. S. Rita, Sant'Anna Dionísio, Agostinho da Silva, Dalila P. da Costa, Pina Martins, Pitágoras, Ficino, Pico, Erasmo, Bruno, Tolstoi, Tagore, Roerich, Ranade, Bô Yin Râ, Henry Corbin.
Ó tu que desejas chegar ao fim da viagem,
Toma o meu conselho e aprende a paciência.
Um cavalo árabe galopa duas vezes uma corrida,
Um camelo move-se gentilmente noite e dia.»
Nesta história do seu Gulistan, Sa'adi (1210-1292) valoriza diante de nós os comportamentos invulgares, quase ingénuos, de abnegação e de amor ao Amor, e põe-nos de ainda de sobreaviso quanto à necessidade de sabermos discernir bem as pessoas amigas, para que não sejamos nem enganados nem mal influenciados. Ou ainda, que saibamos associar-nos às pessoas mais puras, ou seja, de coração mais no caminho de abertura à realização espiritual e presença divina e à vida justa, harmoniosa e em boas sinergias. Oiçamo-lo então: «Um ladrão fez uma visita à casa de um homem espiritual, mas apesar de ter procurado com grande afã não encontrou nada e lamentou-se em voz alta. O homem piedoso, ao dar-se conta do que se passava, atirou logo o cobertor que o cobrira no sono para o caminho do ladrão para que este não se fosse frustrado.
«Ouvi dizer que os homens no caminho de Deus
Não perturbam os corações dos inimigos.
Como podes tu obter tal dignidade
Quando discutes e fazes guerra a amigos?
A amizade das pessoas puras, quer na tua presença ou ausência, não é como a daquele que encontra defeitos por detrás das tuas costas mas que está pronto para morrer por ti diante da tua face.
Na tua presença, gentil como um cordeiro,
Na tua ausência, como um lobo devorador.
Aquele que te trás e conta as faltas dos outros,
Certamente levará as tuas faltas aos outros.»
Saibamos então ver e valorizar as melhores potencialidades e criatividades dos que nos rodeiam, ou mais sentimos ou gostamos, não demos atenção aos maldosos, para que tanto a humanidade como o nosso grupo de almas vibratoriamente próximas ou afins evolua e intensifique a sabedoria e o amor perenes, tão poetizados e filosofados por Saadi, Hafiz, Sohrawardi e outros luminosos mestres da tradição persa ou iraniana...

Dentro de uma agenda diária indiana Bhagavan Ramana dairy for 1990, dedicada ao sábio da montanha de Arunachala, que estava na secção indiana da minha biblioteca, encontrei inesperadamente algumas páginas escritas em Portugal, após ter estado em 1995-1996 um ano a viver na Índia, e quando escrevia o livro dos Descobrimentos do Oriente e do Ocidente, que viria a sair à luz em 1998, para comemorar os 500 anos da viagem de Vasco da Gama e a união de Portugal com a Índia. Resolvi então ler à noite (2-XII-2020) o que escrevi, ampliando ou comentando por vezes, do que resultou o vídeo (e um outro, anterior, de apenas 3:00, pois a máquina parou) no final deste artigo. Mas hoje (5-XII) resolvendo partilhar a gravação para o Youtube e o Blogue encontrei duas páginas escritas, na Índia, em 1996, nesse mesma agenda diário que comprara com desconto (pois era já de 1990) na livraria do ashram de Ramana Mahrishi. E assim, em vez de transcrever para este texto o que já está partilhado oralmente no vídeo, vou antes fazê-lo com essas impressões do peregrino, quando já tinha uns nove meses de Índia, os últimos três de peregrinações e viagens.
Página do dia 15 Janeiro. Verso impresso ao alto, de Ramana Maharishi: «Expressão do AUM, inigualável, insuperável, quem te pode compreender, O Arunachala?
«De manhã medito na sala do ashram, em frente à fotografia grande emoldurada que o substitui e o invoca e evoca posta na parede acima do divã por ele ocupado fisicamente durante alguns anos e agora vazio ou talvez aberto subtilmente às suas emanações.

É a despedida, calma, profunda. Algo da realização espiritual da unidade e de Ramana Maharishi respira-se, sente-se. Depois vem o dia activo, após escrever nas costas de duas fotografias postais dele, mensagens para Jorge Falcão, um amigo adepto do caminho advaitico ou da não dualidade, e para o Pedrinho Teixeira da Mota. Vou buscar fotocópias de alguns livros do ashram a Tiruvanamalai, e visito em 35 minutos o templo principal. Um brâmane leva-me a dois santuários onde acende uma réstea de canfora perante o Shiva lingam e faz uma oração em meu nome. O ambiente não é aqui doentio, embora as estátuas sejam pretas, dum granito ou basalto milenário. E revestidas de fumo, pastas coloridas e vestes, agitam-se quase numa ânsia de serem vivas fisicamente. Quem saberá discernir os resultados da adoração de estátuas, algumas das quais em certos povos e tradições eram verdadeiramente animadas?
Percorro as estátuas com rapidez até que ao longe uma fila grande de pequeninos lingams fazem-se relembrar os Budhas, também pequeninos e vestidos de cores garridas, dos mosteiros do Tibete. Uma deusa Saraswati em estáta dourada, mesmo por detrás do santuário principal faz-me deter e saudá-la por uns momentos. É uma senhora ou deusa da sabedoria e da música, dourada, fina, mas quem lhe liga e a leva consigo? Depois de me ter posto cinzas na testa e no cimo da cabeça, recebo ainda banana, flores e um pacotinho de açucares, o prasad. Dou-lhe 20 rupias. Agradece. Não posso tirar fotografias dentro do recinto sagrado. Apenas fora, as torres altas, os elefantes, a vaca sagrada imponente e escura a ser adorada, e os sadhus que passam algumas horas sentados em posição de pedintes dos fieis que peregrinam este famoso templo shivaísta.

Regresso ao ashram de Ramana Maharishi para entregar os livros de volta ao simpático encarregado da livraria que me os emprestou para fotocopiar. E depois é a viajem para Madras, passando por Kanchipuram, que está fechado em restauros. Visito ainda assim mas rapidamente o ashram de Sankaracharya . O guarda do portão do templo de Kanchipuram ainda disse que se pagasse 5 dólares, poderia entrar e espreitar. Como não tenho já muita paciência para estar a discutir preços, bato antes com a mão na testa e digo-lhe: - Está louco? Estou ou não na Índia, não devo pagar em rupias? Mas ter de bater na testa, e encher os olhos da confusão ou grande agitação que caracteriza muitas partes da vida indiana citadina ou dos transportes, desgasta o cérebro, que vai desejando cada vez mais paz, shanti, shanti... Tanto desgaste o viajar na Índia. Bem fez Ramana (1879-1950) que instalou-se e
viveu quarenta anos à sombra da montanha sagrada de Arunachala, que
tanto poetizou como manifestação divina, traduzindo e comentando textos sagrados antigos, e transmitindo a metodologia de auto-inquérito, "Quem sou eu, Quem sou eu", e partilhando a sua realização
da unidade supra-mental dos seres e das consciências, no que se chama na
Índia, a tradição advaita, ou seja, não dual: na essência só é ou
existe a consciência divina, única, Brahman. É ela que é o fundo e
essência na nossa consciência e individualidade. Por isso um dos grandes mantras, as mahavakyas, diz: Aham Brahmasmi, Eu sou um com Brahman, a Divindade. Eu sou parte de Brahman, Eu sou da mesma geração eterna divina.
Hotéis,
ashrams, riquexós, táxis, comboios, aviões e tantas lutas, injustiças,
roubos, cansaços que nos envolvem, desgastam e desafiam a sabermos
manter-nos num estado de consciência não conflituoso, paciente e elevado, yoguico
ou unitivo diremos em alguns momentos mais meditativos ou de harmonia e fusão com as pessoas e a natureza, sem dúvida tantas vezes maravilhosas... Pensei
que o templo de Tiruvanamalai estivesse pesado, carregado de energias
menos positivas, mas embora se vejam alguns brahmanes com ares semi-degenerados
por centenas e centenas de anos de ambientes algo sombrios e açucarados,
a vibração deles e do sítio era em geral boa. Claro
que há muita prática devocional algo supersticiosa ou pelo menos
demasiado crente no miraculoso, visível nas raparigas que fazem certos gestos e votos
em alguns pontos do vasto templo com muitos santuário, nas dádivas mais impressionantes de
pessoas e nas exigências dos brâmanes ou sacerdotes. Talvez por ser um
templo muito peregrinado e logo rico, os brâmanes aqui não são aves de presa,
de rapina ou ameaçadoras como acontece por vezes em alguns locais, e uma certa comunicação de reconhecimento de
seres espirituais e no caminho circula. Talvez também a proximidade da montanha sagrada de Arunachala, que reflectirá e reverberá as elevadas vibrações dos Himalaias, mais as irradiações de Ramana Maharishi e do seu ashram, sejam factores importantes na consciência mais luminosa realizável nesta zona...
II
«Wall von Kristall
Allüberall!
Schließe Dich
Rings um mich
Schließe ein
Mich im Sein! –
Überwölbe mich!
Überforme mich!
Laß nichts herein
Als Licht allein!»
*******
«Wall from crystal
Everywhere!
Close yourself
Around me
Enclose
Me in Being! –
Arch over me!
Transform me!
Let nothing inside
But Light alone!»
*********
«Abóbada (ou muralha...) de cristal
Em toda à volta!
Fecha-te
À volta de mim,
Inclui-me
No Ser.
Arqueia sobre mim!
Transforma-me!
Não deixes em mim
Senão a Luz em si!»
- «Graces by your contributions. So, I will share my vision or understanding: 1º We were united to God, we get separated from God, and most of the people, 99% may be, are in fact now separated from God. We don't have, as you say, awareness of Himself, we loose the vision of Him and the inner connection, even if we have strong aspiration and love, even if in the deepest core of ourselves, as spiritual beings, the Divinity is there. Mostly people have no awareness of the spiritual realm, some yes, but of the Divine realm, less still.
- Surely, we are sparks from the Divine essence and we are in a multidimensional Cosmos, coming out of Him but already so distant from the Primordial Divine center that if we can say that God's life is surely the foundation of everything, still on the physical world and in the physical or animal being most of the human beings are much far from that Source Being, realm and awareness. Only some blessed, mystics, initiates and masters keep that connection and awareness in their hearts and spiritual vision.
- The spirit is a tiny individual star or spark, or cintilla, emanating from the fire of God's Love, and the self is only a dancing transitoriness as an ego, and a mask of the real self, the perennial Spirit. Graces...»
- Indeed, as you say, just the awareness is missing and for recovering of that awareness there are the masters and there is the spiritual path, in its different forms, ways, traditions, leading to more or less awareness, reconnection, communion or even union.»
O intrigante aparecimento dos Manifestos Rosacruzes em 1614 na Alemanha originou tantas repercussões que se formou uma vasta bibliografia rosicruciana, e que nunca mais terminará, pois o que fora uma brincadeira tornou-se um veio amplo da tradição espiritual ocidental merecendo portanto dos que se interessam pelos caminhos da espiritualidade, algum estudo e acolhimento. Ora como ao longo dos anos, de quando em quando li e meditei tal tradição e seus símbolos, particularmente quando publiquei o livro de inéditos de Fernando Pessoa sobre a temática Rosa Cruz, em 1989, e recentemente ao participar nas palestras em Zoom-online, organizadas pelo Rui Lomelino de Freitas a propósito do seu livro de reedição d' Os Manifestos Rosacruzes, resolvi partilhar alguma bibliografia crítica rosicruciana, transcrevendo informações valiosas, ou mistagogas, e apontando questões que tais livros suscitam. O primeiro livro a observarmos é:
FACON, Roger. LE GRAND SECRET DES "ROSE-CROIX". Nice, Éditions Alain Lefeuvre. 1979. In-4º de 268 págs. Brochado.
É uma obra rica de
informações e de citações de autores, com dezenas de capítulos,
mas ao partilhar simultanemante compreensões e ensinamentos valiosos e acontecimentos mais mirabolantes ou então os exageros e mistificações de
sucessivos ocultistas e dirigentes rosacrucianos, sugere que no autor há certa ingenuidade na aceitação ou afirmação de versões, ideias ou teses, embora a narrativa seja mais de investigação estilo jornalística ou policial do que histórica, confessional ou doutrinária.
A capa original, de André Boudet, está alinhada com o texto da contracapa, que termina algo bombasticamente: «Perseguidos e adulados sucessivamente, os imortais prosseguem, mais do que nunca, a sua missão de fraternidade universal. É neste universo estranho e prodigioso que nos conduz Roger Facon. E os irmãos de hoje declararam-lhe:"Uma última chance será dada ao ser humano antes do fim dos tempos. Ela virá quando a ROSA FLORESCER SOBRE A CRUZ»... Que afirmações mais mirabolantes, certamente para vender mais o livro...
Perguntar-se-á: Que irmãos foram esses? Serão credíveis, tanto eles como Roger Facon, nascido em 1950, escritor de romances polares, isto é, de intrigas policiais e investigações, desde a infância, pela influência dos seus avós, com ligações ao imaginário da alquimia, e que escreverá umas duas dezenas de obras, entre o fantástico, o policial e o ocultista?
Cremos que evidentemente o fim de tempos é mais uma figura de retórica sensacionalista e repetida por tantos milenaristas, messianistas, apocalípticos. Os Irmãos que lhe teriam falado vêm em terceira mão e provavelmente em si são até mistagogias criadas por dirigentes rosicrucianos. Quanto ao fim dos tempos, seria para eles nos anos 70, 80, 90, 2000, 2015 ou agora em 2020 ou já 2030? Ou antes, não deveremos reconhecer que estamos sempre em movimento de crise e que mesmo os melhores rosacrucianos e astrólogos dificilmente conseguem calcular e adivinhar o que os políticos mais destrutivos deseja, ou pensam ou decidem? Finalmente, perguntemos, estará Roger Faucon influenciado pelo mítico fim dos tempos, em grande parte proveniente dos zelotas que redigiram o Apocalipse e dos que o atribuíram, para dar mais garantias, a S. João, o apóstolo querido de Jesus, e semeando uma fantasmagoria de luta, por entre ameaças, ilusões e temores, das forças do bem contra as do mal?
Avancemos então com a leitura crítica e a transcrição de alguns dados menos conhecidos recolhidos por Roger Facon, que nos primeiros capítulos do seu livro, reconheçamos, narra bem a história e o conteúdo dos Manifestos, a vida de Johannes Valentinus Andrea (1586-1654), o autor principal do erudito e espiritual círculo de Tübinguen (grupo do qual dá poucos dados), a quem se devem as obras, e que sendo filho de um pastor protestante e duma farmacêutica, e neto de um pastor luterano antigo chanceler da Universidade de Tubingen, recebera uma educação muito rica que lhe permitiu ainda adolescente escrever obras de teatro e as geniais Núpcias Alquímicas.
Baseando-se nos estudos de alguns autores e investigadores, Roger Faucon mostra estas datações dos Manifestos: «Na sua História dos RosaCruzes, Franz Wittemans lembra que, segundo Sperber, a Fama estava já mencionada em vários escritos em 1595. Para Kazauer, ela foi composta entre 1570 e 1583. Segundo Hans Schick, as Núpcias Alquímicas foram realizadas entre 1603 e 1605. A Fama dataria de 1610, a Confessio de 1611, 12. Para Will Erich Peuckert, entre 1604 e 1605 saíram sucessivamente Núpcias, Fama e Confessio, como vemos ficando várias hipóteses cronológicas no ar.
Seguem-se alguns capítulos sobre as reacções em França (realçando a obra do Abade Montfaucon de Villars), os primeiros seguidores Rosacruzes (Descartes, Comenius, Michäel Maïer, Robert Fludd e Francis Bacon) do séc. XVII, e os precursores do movimento Rosa Cruz, tais como, por exemplo, Camapanella e o médico e ocultista Paracelso (1493-1541), referido antes do seu tempo real de vida na biografia mítica de Christian Rosenkreutz contida na Fama Fraternitas, e que também teria,
como esta, criticado o Papa, mas ao mesmo tempo Lutero, caracterizando-os como sendo «um barrete branco, e um branco barrete, ou duas prostitutas que disputam a mesma camisa».
Dá algumas notícias históricas da violência católica e jesuíta na época que justificam a linha
protestante patente nos Manifestos Rosacruzes, e cita o belo verso de Lutero «Der Christen Hertz Rosen geht, Wann mitten untern
Kreutze steht...» «Le coeur du Christ devient rose, Quand il est au
milieu, sous la croix», que traduzo antes por «O Coração do Cristão torna-se Rosa, quando está sob o meio da Cruz...» A propósito dos
precursores mais remotos e de certo modo fantasiosos dos Rosa Cruzes, tem um sub-capítulo, Os Filhos do
Escaravelho, onde escreve: «H. Spencer Lewis, fundador em 1609 da
Ordem Rosicruciana A.M.O.R.C, faz retroceder a origem da Rosa Cruz às
escolas dos mistérios do Egipto. Para ele, a «famosa fraternidade» fora fundada pelo faraó Thotmès III (1500-1447 a. C) e teria
comportado inicialmente 12 membros. O seu sucessor teria passado para
300 membros e adoptado como signos de reconhecimento, a cruz ansata e
o escaravelho. E Roger Facon termina esse sub-capítulo, com outra ousada e incomprovável afirmação,
esta via Gérard Sède, um escritor algo mistificador: «Egipto cujo centro
iniciático maior é Heliopolis, a cidade do Sol. Uma cidade
particularmente cara a Tommaso Campanella. Irmão pregador, no qual
Gerard Sède via «não somente um precursor da Rosa Cruz mas ainda um
dos membros fundadores daquela».
Onde encontramos dados mais interessantes no livro de Roger Facon é acerca das organizações
rosacrucianas e ocultistas que o autor leu, conheceu ou pertenceu. E assim escrevendo das sociedades do séc. XIX, privilegia três, a Ordre Kabbalistique Rose Croix, 1888, de Stanislas Guaita, a Ordre Rose Croix
du Temple et du Graal, de Saar Peladan (que deu um forte impulso na arte simbolista, com os seus salões Rosa Cruz) e sobretudo a Societas
Rosicruciana in Anglia, esta fundada em 1865 por Robert Wentworth, e que
virá a
ter como dirigentes sucessivos Bulwer Lytton, William W. Wescoot e
Samuel
L. Mathers, este último afirmando que tivera contactos fisicamente com alguns
Superiores Incógnitos, sabendo-se hoje que foi tudo uma grande mistificação.
Fernando Pessoa, entre nós, lerá uma das suas obras e discernirá os
seus fortes desequilíbrios astrais que lhe provocarão a morte. Mathers não foi único
membro da Golden Dawn a dizer que beneficiara do contactos com os Superiores
Desconhecidos. Devemos citar, diz-nos Roger Faucon, também Aleister Crowley: «o maior dos
magos modernos», segundo Serge Hutin, «o único mago do XX século
ocidental», segundo Robert Amadou, dois ocultistas, ou melhor esotericistas franceses, por vezes pouco históricos No
fim da biografia curta que traça de Alesteir Crowley,
manifestará Roger Faucon a sua discordância, forte e corajosa, com esses dois maçons,
Serge Hutin e Robert Amadou, considerando que «com a Golden Dawn
e a O.T.O. – no seio do qual circulam teorias fascinantes da qual se
inspiraram os responsáveis do Grupo Thulé e os dignitários do III
Reich – nós estamos em presença do ocultismo desviado. Onde a
falsa mística
coabita com os velhos temas da extrema-direita... Nós estamos bem longe, em todo o caso, do espírito da Fama. A Rosa Cruz de que se reclamam a Golden Dawn e a Ordo Templi Orientis é uma rosa-cruz invertida: a Rosa-Cruz NEGRA.»
Outras histórias interessantes relatadas, já do séc. XX: o fundador duma das organizações mais populares, a A.M.O.R.C., Harvey Spencer Lewis (1883-1939), deu uma vida e imagem de Jesus pouco tradicional, e transcrevemos do resumo de Roger Facon: «Na sua segunda obra aparecida em 1929 na USA - Spencer Lewis, baseando-se em documentos essénios, tibetanos, egípcios e hindús,- mas também em escritos dos primeiros Padres da Igreja, em judeus e em pagãos - esforçou-se de demonstrar que o Cristo foi um «GENTIO DE SANGUE ARIANO». Instruído pelos melhores dirigentes da Fraternidade essénia instalada na Palestina (os «irmãos em Túnica Branca»), Jesus frequentou a escola secreta do Monte Carmelo. Depois viajou na Índia. Ao Tibete. Na Pérsia. Na Grécia. No Egipto. Antes de atingir o Adeptado. E de se tornar a incarnação do Verbo. Ele pregou um socialismo sagrado - radicalmente oposto ao imperialismo romano - e foi, por causa disso, condenado a sofrer o suplício da Crucificação. Somente, ELE NÃO MORREU NA CRUZ. Muitos dos seus discípulos, particularmente influentes (José de Arimateia, Nathael, Nicodemo) obtiveram a sua graça [ou libertação] do imperador Tibério. Jesus foi descravado, tratado, durante a noite no túmulo de José de Arimateia, depois conduzido ao mosteiro do Monte Carmelo, onde só acabaria por morrer bastante mais tarde. DE VELHICE. Depois de ter continuado a dirigir os seus discípulos». «H. Spencer Lewis, La vie Mystique de Jesus, Éditions rosicruciennes».
Em verdade, são afirmações algo ou mesmo muito mistificantes: Jesus ariano, peregrino planetário e um socialista crucificado pelo imperialismo romano...). Roger Facon critica fortemente este ensinamento da Amorc: «a interpretação proposta por H. Spencer Lewis é portanto contrária à Tradição. Ela não deve ser aceite por um cristão - e ainda por cima se é um esoterista. Ela é contrária ao espírito da Fama, da Confessio e das Núpcias Alquímicas de Christian Rosenkreutz. É uma interpretação marginal. Que deve, certamente, ser respeitada, como deve ser toda a opinião expressa humanamente nos países democráticos. Mas ela não responde às normas rosicrucianas tradicionais».
Narra em seguida sem pôr abertamente em causa o facto de ousadamente Christian Bernard, o sucessor e filho do primeiro Legado Supremo para a Europa da A.M.O.R.C., afirmar ter sido numa sua vida anterior S. Tomás de Aquino (alguém que teria sido também Rudolfo Steiner...), e descreve algo dos seus misteriosos contactos com os cento e quarenta e quatro verdadeiros irmãos Rosacruzes, presididos pelo próprio, e portanto não sendo um mero ser legendário, Christian Rosenkreutz, em doze capitais do mundo, uma das quais Lisboa, onde esteve por duas vezes. Afirmações bem difíceis de se provarem.
Há poucas referências ao austríaco Rudolf Steiner (1861-1925), fundador da Antroposofia e autor de bastantes doutrinações, imaginações e especulações rosicrucianas, destacando-se os seus valiosos comentários às Núpcias Alquímicas de Christian Rosenkreutz, consideradas como descrevendo o processo da iniciação por imagens e imaginações. Steiner apenas é nomeado a propósito do mirabolante livro Legende des Fréres Ainès de la Rose Croix, de Victor Caro (1911-1992) (em quem Faucon contudo sente que o mais prudente leitor pode e deve ter confiança), quando transcreve a longa lista mistificada e mistificadora da sucessão dos Mestres dos Fréres A. R. C., provinda dos Templários, onde surgem desde Robert Flud a S. Vicente de Paula, de Bulwer Lytton a Eliphas Levi e William W. Wescott, este que lhe teria dito que Max Heindel (1865-1919) poderia vir a ser também mestre.
A Rudolf Steiner (na fotografia em cima) é atribuída a função do 55º Imperador, nos anos de 1898-1900, surgindo em nota de rodapé algumas interrogações: «Max Heindel teria sido contactado por um Grande Mestre dos F.A.R.C, se acreditarmos em Roger Caro. Ora Heindel dá-nos uma descrição dos Irmãos Maiores da Rosa Cruz» bem diferente daquela que a Legenda. Treze membros em vez dos trinta e três. Heindel, sabemo-lo, entrou em conflito rapidamente com Steiner [com quem aprendera durante algum tempo]. Ora, o Dr. Steiner é o 55º Imperador dos F.A.R.C. Desejarão fazer-nos compreender que com Max Heindel, nós estamos em presença dum «dissidente», tendo querido dar um claridade particular a uma realidade relativamente modesta?».
Na realidade Max Heindel aprendera bastante com Rudolfo Steiner, de tal modo que lhe dedicara, a 1ª edição da sua Concepção RosaCruz do Cosmos, retirando-a posteriormente, uma vez que Steiner o criticara por ter afirmado que Max Heindel "tinha tirado tudo que pode das suas palestras e livros enquanto lá esteve". Max Heindel refere ou aceita algo de tal acusação mas defende-se porém com a sua iniciação com um Mestre Rosa Cruz superior, secreto, posterior à estadia com Steiner, em Berlim e de quem, desse sim, teria recebido ensinamentos valiosos. Mas se não tinha clarividência e se não recebeu de mestres superiores, Heindel copiou muito de Steiner.
A sua Rosicrucian Fellowship foi fundada em 1909 e dispensa gratuitamente as suas sincréticas doutrinas, muito devedoras de Blavatsky e de Steiner, mas ao contrário das várias outras organizações rosicrucianas, que se dizem mais ou menos mistificadoramente em contacto com os Superiores Incógnitos ou os verdadeiros irmãos Rosacruzes, não se fazem pagar directamente pelos cursos fornecidos. Max Heindel diz serem treze Irmãos, sete estando em acção no mundo e cinco sempre no templo de Berlim, onde ele tivera a sua iniciação secreta. No fim do mesmo capítulo Roger Facon refere muito brevemente a Escola Espiritual da Rosa Cruz Aurea, ou Lectorium Rosacrucianum, que diz ser de inspiração cátara e joanita. Os capítulos sobre Cátaros, Graal, Rei do Mundo estão também repletos de hipóteses imaginativas e incomprováveis. Talvez os melhores capítulos sejam os ligados aos Cavaleiros Templários, defendendo que os ditos três beijos heréticos na cerimónia da iniciação na Ordem corresponderiam à transmissão do sopro criador, à filiação na cadeia de ouro dos iniciados e ao despertar do Kundalini. E o da alquimia, «cujo fim é - por meio das técnicas apropriadas - de se abrir à iluminação do Espírito. De reencontrar a utilização do Corpo Divino. De retomar o lugar no "Mundo de Deus". Esta obra de Roger Facon, com sensibilidade e conhecimento, é generalista e divulgativa, algo no estilo de investigação jornalística ou policial (e ele trabalhou na polícia), com informações diversas recolhidas aqui e acolá, ora divertidas ora emocionantes, sucedendo-se a uma velocidade talvez grande demais e logo superficializando, mas que abrem para vários aspectos da saga oculto-rosicruciana, sobretudo nos últimos séculos tão prolífera em grupos, ordens, pseudo-mestres e iniciações, cisões, lutas. Não há grandes sinais de intuições originais do autor, embora se sinta uma predisposição de procura da verdade, de justiça e da "iluminação" tradicional... Demos por fim esta revisitação e aspiremos mais a manter a ligação espiritual e pelas nossas acções e meditações fazer desabrochar a rosa do espírito e do amor...
Partiu do corpo e da terra física visível, esta madrugada, às 3:00, de 1 de Dezembro de 2020, tal como há sete anos a sua mulher, o notável ensaísta e filósofo Eduardo Lourenço, homem discreto, de coração, muito culto e de apurada capacidade psicológica, crítica e dialéctica. Já com 97 anos, da geração coimbrã de outro grande investigador (sobretudo do Humanismo e da Utopia) e amigo José V. de Pina Martins, tendo sido resistente estrangeirado (França) ao Estado Novo e gerado uma vasta e bem importante obra publicada de crítica e de ensaísmo, em particular sobre a Europa, Portugal, Camões, Antero, Pessoa e outros escritores.
A Gravida desde 1998 tem editado (ou reeditado) muitos dos seus ensaios e artigos, a Fundação Calouste Gulbenkian, que o acolheu nos últimos anos, prepara a sua Obra Completa, pelo que não podemos queixar-nos de não o podermos ler ou não o termos aproveitado mais, pois a sua generosidade e dedicação proverbial, uma sensibilidade socialista, levava-o a aceitar todos os convites para falar, conferenciar, mesmo quando cansado ou já doente.
Libertou-se finalmente, de certo modo, do corpo físico que já pouco o podia servir e encontra-se agora nos planos subtis a vivenciar surpreendido o dito grego tão querido dos seus mestres Antero de Quental e Fernando Pessoa, além de Joaquim de Araújo (com o seu valioso poema Na Morte de Antero), "Morrer é ser iniciado".
Seu leitor desde a adolescência, cruzámo-nos como amantes da Tradição cultural e espiritual portuguesa em alguns eventos e cirscunstâncias, e dialogamos e conversamos um tempo razoável, uma das vezes em sua casa, do que ficou uma parte registada em vídeo que partilho, tanto mais que o tema por onde circulámos era a morte de Antero e assim, na morte e ressurreição, poderemos comungar com eles.
Na dedicatória do meu exemplar do Labirinto da Saudade, bem lido e anotado particularmente em 1987 e 88, quando publiquei A Grande Alma Portuguesa (com textos de Fernando Pessoa), simpática ou generosamente Eduardo Lourenço, durante a nossa animada conversa e lanche, com a sua irmã Maria Alice e a Ana Almeida Martins, sua grande amiga e notável anteriana, escreveu: «Para o seu caro Amigo Pedro Teixeira da Mota, buscador das verdades últimas que muito invejo, com um abraço do coração do seu admirador, Eduardo Lourenço. Lisboa, 30 de Nov. de 2017.»
Brevemente escreverei sobre este valioso e lúcido livre pensador e notável psicólogo dos mitos e da cultura portuguesa, bastante anteriano e pessoano, transcrevendo até algumas das suas ideias e apreciações acerca destes nossos dois vates maiores de Portugal.
Possam os raios de Amor dos nossos corações chegarem até à sua alma, possa ele estar a receber os apoios necessários na transição, possa ele despertar e avançar luminosamente, e possamos continuar a trabalhar pela cultura, a verdade, a justiça, a liberdade e a felicidade dos seres...