terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Sebastião Tavares de Pinho, Aires Barbosa e André de Resende. "Humanismo em Portugal". Homenagem na sua morte.

Sebastião Tavares de Pinho, com quem conversara há quatro dias, 23-I-2020, no intervalo da  sessão ordinária da Academia das Ciências que comemorou o centenário do nascimento de José Vitorino de Pina Martins, morreu no dia seguinte, 24,  quando regressava a Coimbra. Uma tragédia...
                 Sebastião Tavares de Pinho e a mulher na homenagem a Pina Martins
Abalado ainda por tão desgraçado acontecimento mais não posso que alinhavar um queixume, relembrar os nossos poucos encontros à volta de Pina Martins e do Humanismo, em Lisboa e Coimbra, e recensear algo dos seus dois volumes do Humanismo em Portugal, que me ofereceu há anos com generosa dedicatória («Ao Dr. Pedro Teixeira da Mota, com amizade e alta estima intelectual e humana, oferece, Sebastião T. Pinho») e que são profundos e detalhados estudos sobre pré-humanismo e o Humanismo em Portugal, já que dominava plenamente o latim e o grego, traduzindo constantemente textos que se tornavam assim mais facilmente legíveis ou acessíveis.  
Como se lê na sua biografia da Universidade de Coimbra, foi «Bacharel em Estudos Clássicos em 1971, licenciado em Línguas e Literaturas Clássicas e Portuguesa em 1972, doutorado em Literatura Latina do Renascimento em 1983, e professor catedrático desde 1992, (...), leccionando as cadeiras de Civilização Grega, Língua e Literatura Latina Clássicas, e Latim e Literatura Latina Renascentistas».
Chamado agora subitamente aos mundos espirituais, crente na imortalidade espiritual, como afirmamos nesse diálogo último em que contrapusemos ao envelhecimento e degradação corporal a força do espírito imortal em nós, usando mesmo ele dar coesão,  certamente que estará já a despertar ou mesmo a dialogar com alguns dos autores que mais amou, trabalhou e divulgou. E foram muitos, não só os citados neste livro em dois tomos, como em outros, desde os professores conimbricenses do séc. XVI a Luís António Verney. 
No 1º volume, o primeiro capítulo é consagrado à Corte de Aviz e o Pré-Humanismo, destacando as traduções de D. Pedro e da Escola da Corte, e o bom conhecimento de alguns autores greco-romanos que já então havia, patente nas obras que D. Pedro e seu irmão o rei D. Duarte escreveram ou encomendaram, com vários extractos significativos  transcritos.
O terceiro  capítulo trata de André de Resende (1500-1573),  formado em Espanha, França e Lovaina, e com amplas viagens na Europa, transcrevendo e traduzindo as cartas de improviso trocadas com o  cardeal-infante D. Afonso (1509-1540), ao qual o poeta Jorge Coelho  vaticinou o papado, bem com o sermão pregado por André de Resende no Sínodo de Évora de 1534.
                             Uma das valiosas obras de André de Resende
O quarto capítulo é consagrado a Lopo Serrão, médico e poeta, e ao seu tratado De Senectude, Da Velhice, Lisboa, 1579,  que mostra «como a poesia latina podia estar ao serviço da medicina gerontológica e da filosofia moral».
É o segundo capítulo que vamos comentar, consagrado a Aires Barbosa, nascido em 1470, em Esgueira, Aveiro, que fez parte da sua carreira estudantil em Salamanca e Florença, aqui chegando a mestre de Artes, conhecendo Hermolau Barbaro e Pico della Mirandola, aprendendo Arte Poética, Literatura Grega e Retórica com Angelo Policiano.
Em 1495 regressa à Península Ibérica e será professor em Salamanca até 1523, leccionando latim e grego e editando aí várias obras em prosa de teor didáctico e pedagógico, filológico, sobretudo. Quando regressa a Portugal é mestre na corte, dos irmãos de D. João III, até 1530, quando se recolhe a terra natal, Esgueira. Em 1536 publica nos prelos do mosteiro dos cónegos regrantes de Santa Cruz em Coimbra a sua obra mais famosa Antimoria, «o seu poema de maior fôlego, escrito contra a ironias de Erasmo expostas no «Elogio da Loucura» (o Encomium Moriae) - precisamente no ano da morte do humanista flamengo, em 1536.  
                                      Sancte Erasmus, ora pro nobis...
Marcel Bataillon, nos Études sur l' Humanisme au Portugal, 1974, também considera Antimoria "uma condenação deferente mas decidida da livre sátira de Erasmo", mas já  a José V. de Pina Martins, em Aspectos do Erasmismo de André de Resende, Lisboa, 1969, defende a hipótese de ter sido uma crítica não contra os fins prosseguidos por Erasmo, mas apenas quanto aos meios irónicos usados e que perturbavam a crença dos fiéis na Santa Igreja. E acrescenta: «trata-se de uma posição táctica, só formalmente anti-erasmiana, pois, de facto, defendem-se ideias e afirmam-se propósitos susceptíveis de serem entendidos e até integrados numa perspectiva teológica de cunho erasmista». 
  O Antimoria continha 50 epigramas em apêndice,  uns auto-biográficos mas a maior parte deles satíricos e didácticos, como nos explica Sebastião Tavares de Pinho:  
«Este combate humanístico registado na poesia de Barbosa abria-se em múltiplas frentes e revestia-se de vários aspectos: contra a preponderância dos juristas e canonistas, que depreciavam o estudo científico das línguas clássicas e cuja incultura e deturpação do próprio sentido das leis e da justiça Barbosa condenava (Epigramas 14, 15, 26, 27 e 48); contra os que desprezavam a função do «gramático» e contra a querela gramatical que por vezes se gerava em torno de matérias por vezes insignificantes (Epigramas 12, 28, 29 e 34), contra a ciência de lombada de certos pseudo-bibliófilos, contra a soberba dos autodidactas, a crendice dos astrólogos e os inimigos de Cícero (Epigramas 19, 24, 37 e 48)».
                            Antimoria eiusdem nonnnulla Epigramata, 1536.
A propósito de questão de  Aires Barbosa ter escrito  um livro de Retórica ou apenas alguns exórdios, Sebastião Tavares de Pinho oferece-nos explicações valiosas e práticas: «de todos os componentes de um estrutura oratória - exordium, narratio, probatio, refutatio e peroratio, para usarmos, por exemplo, a divisão adoptada por Quintiliano, - o exórdio (ou «princípio» ou «proémio», conforme as variações ou preferências de autores antigos) é aquele que nunca falta, dada a indispensável função que nela exerce de apontar e definir a finalidade do discurso, de criar no ouvinte as melhores condições de receptividade e, em última instância, quando tais funções pudessem ser supridas pelos outros segmentos oratórios, para, como diz Aristóteles (Retórica, 1416a), pelo menos servir de ornamento, pois, se um discurso não tem exórdio, dá ares de improvisado», e apresenta-se como um corpo sem cabeça, para usarmos a imagem do Fedro (264a) de Platão (...)
Dentro das suas principais funções, que o Estagirita [Aristóteles] compara às da proposição nos poemas homéricos e do prólogo na dramaturgia, o exórdio deve ser, segundo o mesmo autor, uma mostra, uma espécie de «exposição de mercado» de todo o tema da oração, de modo a fornecer ao ouvinte, desde o início, o seu fio condutor (1415a). Para Cícero, todo o proémio ou princípio está estreitamente conexo com o resto do discurso, não como um simples prelúdio musical que nada tenha a ver com o resto da peça, mas como um membro intimamente ligado ao seu corpo, e deverá conter como que em germe a causa inteira de que se vai tratar, facilitando o acesso ao seu desenvolvimento seguinte (Acerca do Orador, II,80,325). É sempre bom lembrar que a etimologia de exordium, da mesma raiz do verbo ordior - cujo sentido próprio é o de montar uma teia (donde, o português «urdir») -, tal como da palavra ordo, que significa «o arranjo dos fios ao começar da tecelagem» ou urdidura, assenta na mesma metáfora fabro-têxtil de textus. Ora, para que um tecido fabril saia perfeito, é necessário que ele parta de uma urdidura bem feita. Do exordium, do começo da composição de um texto oratório, depende, pois, o desenvolvimento acabado do discurso inteiro. É por isso que os princípios de retórica lhe deram particular importância. Como diz ainda o Arpinate [Cícero], (idem, II, 78, 315), é o exórdio que, por assim dizer, fornece a ideia do resto do discurso e lhe serve de recomendação; deve, pois, encantar e atrair imediatamente o auditório.
                                          Cícero: ora e labora...
É esta a segunda e especialíssima função do proémio: a de captar a benevolência, manter a atenção e gerar a docilidade do ouvinte. Todos os teóricos, desde os antigos aos modernos, insistem nesta ideia fundamental. Aristóteles, por exemplo, ensina como tal objectivo se pode conseguir: apresentar motivos de interesse de quem ouve, evocar matéria que lhe diga pessoalmente respeito, incluir factos que provoquem surpresa e agrado. (1415a-b). A Retórica a Herénio (I,4. e 6), que dedica várias páginas ao exórdio, começa por defini-lo como o princípio da oração por meio do qual o espírito do ouvinte ou do juiz se dispõe e prepara para ouvir» e mais adiante afirma: «O Exórdio consiste em tornarmos, desde o começo, o espírito do ouvinte apto a escutar-nos. Ele tem a finalidade de podermos manter os auditores atentos de dóceis e de captar a sua boa vontade». Cícero reitera as mesmas ideias no De Oratore, lembrando embora que a preocupação de prender o auditório deve manter-se também ao longo de todo o discurso.» 
Ficamos assim com uma boa visão da arte de começar bem um discurso....
 O 2º volume estuda no 1º capítulo a poesia, a epistolografia e o Humanismo do bispo D. Jerónimo Osório (na imagem), e do seu sobrinho Dr. Jerónimo Osório,  em cerca de 190 p. No 2º capítulo os padres José de Anchieta, Francisco Xavier, Manuel da Nóbrega e António Vieira, e no 3º capítulo leva o título de Humanismo e Helenismo no Colégio das Artes, onde inclui a literatura inédita dos séculos XVI e XVII existentes nos arquivos da Biblioteca de Coimbra respeitantes a oratória, teatro, poesia e filosofia. 
Sebastião Tavares de Pinho  era o coordenador científico do Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, animando um grupo de cerca de 20 latinistas que têm vindo a  publicar muitos dos inéditos referidos.
Possam o seu exemplo e alma continuarem vivos e frutíferos em vários dos seus amigos ou discípulos....
Concluamos com um dos seus labores, um extracto do sermão de 1534 de André de Resende, acerca de união mística, pessoal ou comunitária: «Tal união não deve ser entendida como se fosse na essência ou por meio de uma similitude omnímoda, pois esta só é comum à santíssima Trindade; mas verifica-se uma determinada semelhança e participação na natureza divina, através da conformação da nossa mente com a vontade de Deus, do mesmo modo que Lucas afirma no primeiro capítulo dos Actos, que «A multidão dos crentes tinha um só coração e uma só alma».
Consigamos nós, a sós, a dois ou em grupo chegar a tal unificação das nossas forças psíquicas em abertura ou sintonia com a vontade ou amor ou bênção do Ser Divino. 
Possa Sebastião Pinho estar na luz e na comunhão dos santos humanistas...
                               Te Deum Laudamus, pintura de Bô Yin Râ

domingo, 26 de janeiro de 2020

A "Utopia" de Thomas More e o prefácio de Guillaume Budé, vistos por Pina Martins e Aires do Nascimento.

O valor eterno das realizações do Humanismo, que desabrocharam na época Renascimento com  o acesso, estudo e revalorização da língua e cultura greco-latina e a exaltação da dignidade humana, assenta muito em alguns seres e suas vidas e obras, que irradiarão através dos séculos incólumes às transformações e desagregações de referências e valores, numa sociedade global  cada vez mais confrontada com problemas graves decorrentes de alguns países nada humanistas, e instituições ditas transhumanistas,  que desrespeitam a vida humana, a livre mentalidade bem como pela Natureza e seus seres e ecosistemas que culminam na negação de Deus...
Dante guiado pela sua alma-gémea, beata Beatrix, contempla o Sol do Amor Divino
Apesar das situações conflituosas sociais virem já da antiguidade clássica, e já Platão ter escrito a sua República, e na Idade Média um cristianismo renovado e utópico se ensaiar, seja com os franciscanos espirituais, as viagens de S. Brandão, os ensinamentos da escola de Chartres e a cosmovisão da Divina Comédia de Dante, foi com o Renascimento, a invenção da imprensa, o desenvolvimento da escolaridade e a progressiva ascensão de uma classe média culta e dinâmica que se tornou possível uma revolução social que permitiu mentes mais despertas e lúcidas e maior igualdade, justiça e harmonia nas sociedades.
John Colet, pioneiro do humanismo em Inglaterra, amigo grande de Erasmo.
Sem esquecermos as fundações críticas, corajosas e irenistas de John Colet e de Erasmo (este desde 1499, quando conhece Thomas More, e que esteve algumas vezes em Inglaterra), nomeadamente o primeiro no sermão pregado diante do belicoso Henrique VIII, resumido por Erasmo na sua Vida de John Colet, e o segundo no Elogio da Loucura (escrito em 1509 mas publicado em 1515) e nos vários textos irenaicos ou pacifistas, é em 1516 que surge  a Utopia do Thomas More, a qual funda a utilização da palavra para sempre, a que seguirão outras utopias que se tornarão também verdadeiramente imortais,   tais como os Cinco livros de Rabelais, publicados entre entre 1532 e 1562 (com Pantagruel a ser filho de uma princesa da ilha da Utopia), a  Reipublicae Christianopolitanae Descriptio, 1619, de Johan Valentin Andreae, a  Atlantida Nova1622, de Francis Bacon e a   Civitas Solis, 1623, de Tomaso Campanella.
A garrafa alquímica e sagrada com as palavras que a sacerdotisa de Baco dá a beber a Pantagruel e Panurgo no fim das peregrinações iniciáticas que os levaram para além do reino da quinta-essência. Rabelais. Quinto Livro.
 Thomas More é portanto um desses autores perenizados, não só pelas leituras da Utopia (do grego, sem lugar) e ensaios que se continuam a dedicar-lhe como sobretudo pela recreação constante de utopias, que tanto significam "em parte alguma", nusquama, como More traduziu para latim, como também, e transmitido por Thomas More (num poema de um sobrinho do narrador português Rafael Hitlodeu, inserto antes do começo da narrativa), Eutopia, "bom lugar",  cada vez mais necessárias, mesmo que pequenas e locais, nos nossos pardos dias de opressão mundial da comunicação livre e de sociedades fraternas, fora do domínio do capitalismo oligárquico ou neoliberalismo selvagem.
 Entre nós, embora cedo a Utopia tenha sido assinalada pelos nossos maiores humanistas, nomeadamente João de Barros, e embora no séc. XX tenham surgido traduções de versões francesas ou inglesas, da pena de Berta Mendes, com prefácio de Manuel Mendes, e depois de José Marinho, será só no século XXI que surgirá em impressão bilingue, já que havia algumas em manuscritos (como Pina Martins me passou), em 2006, na Fundação Calouste Gulbenkian, a primeira tradução directamente do latim realizada laboriosa e magistralmente por Aires de Nascimento sob a sugestão e a orientação de Pina Martins, em 2015 estando já em 2ª edição revista.
                                             
José V. de Pina Martins foi entre nós quem mais amou e partilhou Thomas More, com Fernando de Mello Moser (na imagem em cima), seu amigo, prematuramente partido (1927-1984) e que deixou também numerosos textos e obras a ele dedicados, destacando-se Tomás More e os caminhos da perfeição humana, 1982, e Dilecta Britannia, Estudos de Cultura Inglesa, 2004, obra já póstuma, onde se coligem nove valiosos ensaios moreanos, impressa pela Fundação Calouste Gulbenkian.
Pina Martins, doutor pela Sorbonne, junto a Pico della Mirandola
José V. de Pina Martins (1920-2010), dedicando-lhe ao longo do seu vasto percurso humanista, científico e bibliófilo, várias publicações e exposições, coleccionando as suas obras, antigas e modernas, e tendo as suas salas  abençoadas por três grandes pinturas de Thomas More, Erasmo e Pico della Mirandola, era movido pela atracção derivada de considerar Thomas More,  um notável pai de família, polígrafo, chanceler do reino, teológo, jurista, historiador, poeta, cristão,   sobretudo como um grande humanista tanto pela sua paixão pela cultura humana como pela sua aplicação na defesa dos direitos naturais e sobrenaturais do Homem...
 Sob as bênçãos de Erasmo, José V. de Pina Martins, com Pedro Teixeira da Mota, na sua biblioteca, nos seus últimos tempos na Terra.
 E, tal como Pina Martins, Thomas More fora também admirador de Giovanni Pico della Mirandola, de quem traduzira  textos religiosos e uma biografia realizada pelo sobrinho.
Todavia, desabrochara como um super-homem ou santo quando, face à pressão do rei para o reconhecer como chefe da Igreja e não o Papa,  conseguira manter íntegra a sua consciência moral e religiosa pondo-a acima da obediência humana e política, pagando com a prisão e depois a morte, e assim entrando  como mártir religioso e de consciência desassombrada no além e na eternidade, com a igreja Católica a reconhecê-lo, com o cardeal John Fischer e os outros mártires da época, como susceptível de culto em 1886 e santo em 1935.
 A Utopia é transmitida por um navegador português, Rafael Hytlodeu,  em duas partes, a 1ª parte, descrevendo os males da sociedade inglesa, e na 2ª (escrita porém antes) a vida perfeita duma ilha bem povoada e organizada, em especial da capital Amauroto,  tendo saído à luz na 1ª edição em 1516, em Lovaina, graças a  Pierre Gilles e gerando logo uma 2ª impressão, em 1517, em França, esta contendo um  prefácio do sábio francês Guillaume Budé e que sairá na 3ª edição, de Basileia, depois da breve mas elogiosa recomendação da obra por Erasmo ao impressor Froben, 3ª edição considerada a melhor e a utilizada por  Pina Martins e Aires do Nascimento para a notável edição que publicaram em 2006. 
 Guillaume Budé, o prefaciador francês, nascera em 26-I-1468, de uma família de funcionários da corte e, depois de ter estudado na Universidade de Orleans Direito Civil, aprendeu grego com Georges Hermonymo e Janus Lascaris, fazendo a sua 1ª viagem a Itália em 1501, desde 1503 dando à luz as suas pioneiras traduções do grego, do qual se torna o maior conhecedor francês, a par de Lefèvre d'Étaples, o outro grande humanista de então. Em 1505 participa na embaixada a Roma ao belicoso papa Júlio II (o visado por Erasmo, anonimamente, no Papa expulso do céu), a quem oferece uma das traduções dos tratados de sabedoria de Plutarco. Em 1516 Budé escreve a 1ª carta a Erasmo e também a que dirige Tomas de Lupset, que lhe fizera conhecer a Utopia, tornando-se esta carta elogiadora da obra de Thomas More prefácio das sucessivas edições posteriores. Em 1522 é o mestre da Livraria do rei, dá origem ao Colégio de França e vai publicando obras, tal em 1535 o  De Transitu hellenismi ad christianismum, bem paradigmático hoje para a passagem a uma religião universal do espírito e do amor, até libertar-se do corpo terreno a 28-VIII-1540.
 José V. de Pina Martins, de quem comemoramos em 2020 o centenário do nascimento, num dos seus textos, L'Utopie de Thomas More et l'Humanisme, onde considera Budé um dos melhores helenistas da Europa, resume tal prefácio assim: «Budé não se coíbe de afirmar que as leis que regem a vida em sociedade são injustas, que elas são um desafio à equidade, e traem o espírito cristão. Ele constata, e declara, que o que se chama direito natural está na origem de regras que, no mundo civilizado, só favorecem os ricos e os poderosos. A legalidade é um alibi para os meios de pressão empregados pelos que estão no poder poderem espoliar os outros.»
Acrescenta ainda Pina Martins, depois de transcrever em latim alguns excertos da visão de Budé,  tais como «Jesus Cristo recomendara uma comunhão e caridade pitagórica entre os seus seguidores», que «Budé sonhava aplicar o exemplo dos utopianos, vivendo segundo a natureza e a razão, a uma sociedade que se dizia cristã, mas que traía a cada momento a mensagem do Cristo.» E em nota de rodapé, afirma, : «A carta de Guillaume Budé, apercebemo-nos, é de uma actualidade ardente. A sua crítica das injustiças sociais esclarece e reforça a de Rafael Hitlodeu, na 1ª parte». Com tal sensibilidade e aspiração, Pina Martins, dialogando com a Utopia de Thomas More,  escreveu a sua valiosa e enorme Utopia III, dada à luz em 1998.
Primeira página do relato da Utopia, na impressão de Froben, em Basileia, 1518
 Já Aires do Nascimento, na sua nota de rodapé ao início da transcrição da sua pioneira e tão meritória tradução da carta de Guillaume Budé na edição de 2006 da Utopia, escreve: «Esta carta de Budé é considerada como o melhor prefácio ao texto de Moro e com razão ela foi colocada aqui: algumas ideias fundamentais sobressaem da leitura que o humanista francês consagrou ao texto: construção da vida em comunidade baseada na equidade que deriva da solidariedade nascida da natureza humana; a função do Estado numa sociedade de iguais que se devem reger pela virtude e não por lei manipuladoras; os princípios enunciados para a Utopia são susceptíveis de inspirar a renovação da comunidade humana.»
                                                     
Se lermos na íntegra a carta do notável jurista, diplomata, linguísta, historiador, bibliotecário, que realçar mais nela? Transcrevamos, usando a tão trabalhosa quão valiosa tradução de Aires do Nascimento, a visão de Budé, nomeadamente de "Moro, personalidade singularmente percuciente, espírito sereno e experimentado na apreciação dos acontecimentos humanos", estimulando-nos a sermos assim mais observadores, mais identificados e ligados à nossa essência espiritual divina e justa, vendo com claridade e sem preconceitos e emocionalismos. 
Também a crítica da ciência das leis civis é forte: «têm apenas uma finalidade, a de treinarem, para uma destreza, tão travessa quão acerada, de uns contra os outros» de modo a que «em parte com a conivência das leis e em parte o apoio das autoridades do direito, rouba e sonega»
Valiosa é também a consideração que Budé nos dá de já na época predominarem pensamentos «a juízo de um pensar comum alienante» e «sendo a maior parte da gente falha de visão pela remela de uma ignorância crassa», julgando assim mal do que é justo, tanto mais que os preceitos justos e verdadeiros de sempre «distam muito das determinações e decretos daqueles.... 
Este aspecto é muito actual, pois a lavagem ao cérebro que os meios de informação fazem, em geral muito vendidos aos sistema norte-americano e a outros grupos de pressão fortes, enche a mente das pessoas de falsas verdades e estas perdem a sua bússola interior da verdade.
Guillaume Budé lembra-nos do essencial, numa linha semelhante ao conceito oriental de Dharma, Ordem ou Dever, ao definir a Justiça como «virtude que atribui a cada um o que lhe pertence», e que o direito nos Estados «procede de uma justiça equilibrada e gémea do mundo, a que chamam Direito Natural» e que é bem o contrário da cupidez generalizada, que se encontra em legisladores, governantes e políticos, muitos deles ineptos ou corruptos, estabelecendo "amarras" sobre o povo e os intelectuais, "arrecadando receitas" e obtendo altos cargos. Ora contra tal tendência já se erguera Cristo, criador e dispensador dos bens da propriedade, ao estabelecer uma comunidade pitagórica e ao estatuir a caridade entre os seus discípulos. 
Três eram as instituições divinas, resumia Budé que sustentavam a Utopia: igualdade entre os cidadãos ricos e pobre, ou, para quem preferir cidadania completa em toda a sua escala; amor, constante e firme de paz e harmonia; menosprezo de ouro e prata. Por elas foi afastada a avareza e a cupidez, e assim a justiça e o pudor ou pureza mantiveram-se nos utopianos.
                                                     
                                       Thomas More, num desenho de Hans Holbein...
Guillaume Budé terminará esta carta imortalizante da sua sábia alma espiritual elogiando a fraternidade dos amigos de Deus:«Embora Moro fosse de si mesmo homem grave e gozasse de grande autoridade, o testemunho de Pedro Gilles de Antuérpia serviu para eu lhe dar pleno assentimento. Muito embora eu nunca tenha conhecido pessoalmente este último personagem (deixo de lado recomendação de ciência e de vida), aprecio-o pelo facto de ser amigo mais que jurado de Erasmo, homem preclaríssimo e do maior prestígio ganho em todos os domínios nas letras sagradas e profanas, e com ele, de há muito, formei um pacto de amizade, através de correspondência particular de um para outro». 

 E conclui esta carta-prefácio, escrita em Paris, em 31 de Julho de 1517, assim, numa tradução minha:«Quereria também que por mandado meu levasses a Moro uma saudação redobrada, seja que envies, como disse, seja que digas, que o nome de tal varão consta do mais sagrado livro de Minerva já há muito, segundo a minha opinião e palavra, e pelo relato da ilha do Novo Mundo, a Utopia, lhe dês o meu máximo amor e veneração. A nossa geração e as gerações vindouras terão o seu relato por alfobre de instituições belas e úteis donde cada um pode  enxertar comportamentos introduzíveis e adaptáveis à sua cidade. Vale


 Post scriptum: dedico e ofereço este trabalho, ao finalizá-lo, a Sebastião Tavares de Pinho, da Universidade de Coimbra, notável latinista e humanista, com vasta obra meritória, que soube agora mesmo pelo P. Aires do Nascimento ter morrido de um acidente rodoviário no dia 23, após a sessão ordinária (fraca ideia) da Academia da Ciências que homenageou o centenário do nascimento de José V. de Pina Martins, na qual, vindo de Coimbra, ele prestara o seu testemunho (e que eu gravei, últimas palavras públicas, estando no Youtube). Com Sebastião Tavares de Pinho e sua mulher, a quem apresento os meus sentimentos, dialogara eu, no intervalo da sessão, animadamente  sobre o seu trabalho de coordenação de de vários latinistas tradutores das obras dos jesuítas e conimbricenses e, além disso, na crença ou certeza da imortalidade da alma, que tanto eu como ele sentíamos interiormente... Lux... Brevemente escreverei um texto sobre aspectos da sua valiosa obra.
Muita luz e amor nas suas almas... 
Avance para Deus... 
Que Deus brilhe mais no seu íntimo...

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

"O que está vivo na tradição do Humanismo", de Pina Martins. (2ª p.). Tradução e gravação de Pedro Teixeira da Mota...

Na 3º e última parte do seu escrito O que está vivo na tradição do Humanismo, intitulada "O Humanismo como retorno às Fontes e ao pensamento Irenista", o prof. Pina Martins explica que as fontes dos humanistas foram as cristãs e a patrística (dos primeiros padres da Igreja, tal como Clemente de Alexandria e Orígenes) para a gnose teológica; o pensamento grego para a demanda filosófica; e os textos gregos e latinos para os filólogos e escritores, estes impulsionando métodos mais críticos ou científicos de investigação e fixação dos textos, iniciados por Lorenzo Valla, Erasmo e os grandes impressores, como  Aldus, Froben e Estienne.
Desidério Erasmo, defensor da verdade, no seu scriptorium, por Quentin Metsys
                        
Desta abrangência de fontes resultou também uma certa aceitação da diversidade, por vezes conflituosa, da hermenêutica dos textos, abrindo caminho para um irenismo filosófico e religioso, ou seja, para aceitação tolerante de perspectivações diferentes. Algo hoje fundamental, em tempo de narrativas oficiais e extremar de posições ideológicas, e que teve então sua raiz.
Pina Martins escreve mesmo, talvez para manter viva tal tradição Humanista e despertar-nos de uma subjugação medíocre: «O respeito pelo outro não é mais do que um aspecto do respeito pelo ser humano. Nos nossos dias dá-se prioridade à melhoria da sorte do indivíduo nas suas relações com o trabalho e os meios de produção: este problema está intimamente ligado ao dos direitos do homem na comunidade, pois o Estado existe para a felicidade dos cidadãos, não são eles que têm de se sacrificar para assegurar um enriquecimento hipotético do Estado.» 
E, não sabemos se a sério se com ironia, pois escrevia em 1987, já que nos nossos dias passa-se o contrário, da prisão de Julian Assange à manipulação e opressão crescente das vozes discordantes do capitalismo oligárquico e imperialista que tenta reger o planeta, Pina Martins acrescentava logo em seguida: «Estas ideias, admitidas hoje em toda a parte, encontram-se já em alguns dos textos fundamentais do Humanismo...», citando a Utopia de Thomas More, com as suas seis horas de trabalho e Juan Luis Vives com as propostas de medidas para evitar a pobreza...
                              
  Marsilio Ficino, Picco della Mirandola e Angelo Poliziano, em 1485, em  Florença, num fresco de Cosimo Rosseli.
Transcrevendo a famosa frase de Pico della Mirandola, e que Pina Martins relembrava de quando em quando "philosophia veritatem quaerit, theologia invenit, religio possidet", "o amor da sabedoria (filosofia ou ciência) procura a verdade,  a teologia encontra-a mas só a religião a detém ou possui»", considera tal como aproximação à unidade ou ecumenismo das religiões, já que Pico della Mirandola, tal como Marsislio Ficino, reconheciam uma religião ou filosofia perene, a prisca teologia, que sempre se transmitira, estudando-a nas diferentes religiões e tradições, algo que é hoje uma mentalidade ou visão bem mais corrente, embora com retrocessos nas seitas e mentes fundamentalistas. Certamente que podemos sentir e postular ainda a  religião, que possui a verdade, no seu nível mais elevado e íntimo  como a religação espiritual e divina.
Um dos mais belos e enigmáticos livros com imagens do Renascimento, O  Sonho de Polifilo, de Francesco Colonna.
      Depois de ter equacionado levemente a união da imagem e do texto ao longo dos séculos, sem ainda observar a actual predominância crescente dela, nomeadamente digital, Pina Martins questiona-se quanto à capacidade de ele ou outros fazerem sínteses completas, pois nem sobre o Renascimento nem sobre o saber contemporâneo os melhores seres as poderão fazer, cabendo-nos apenas participar com as nossas contribuições, estudos e investigações, nomeadamente sobre os temas e textos maiores do Humanismo, dos quais enumera no fim treze, da Theologia Platonica de Marsilio Ficino ao Quod nihil scitur de Francisco Sanches, de modo a que possamos revificá-los e frutificá-los nos nossos dias, tal como Pina Martins tão bem realizou, culminando mesmo com a sua Utopia III.
 
 Segue-se então a leitura e simultaneamente tradução do texto francês, com alguns comentários meus, em prol da Tradição Humanista em Portugal e, nestes dias do centenário do seu nascimento, como homenagem de coração e de espírito  ao ilustre investigador, bibliófilo, bibliotecário, professor e amigo José V. de Pina Martins.                                                                                

"O que está vivo na tradição do Humanismo", de Pina Martins. (1ª p.). Tradução e gravação de Pedro Teixeira da Mota

                           
O que permanece vivo da luminosa aspiração e tradição do Humanismo dos séculos XV e XVI é uma questão debatida por muitos seres debatido e sem dúvida cabe a cada um de nós tanto investigá-la como mantê-la viva no que podermos e soubermos nestes tempos mentais cada vez mais manipulados, opressivos e desumanos...
José Vitorino de Pina Martins foi inegavelmente um humanista e um dos melhores conhecedores de vários aspectos do Renascimento europeu e português, ao nível de Marcel Bataillon, Eugenio Asensio, Jean Claude Margolin, André Chastel, etc., dedicando-se em especial a algumas das grandes almas da época, como Giovanni Pico della Mirandola, Erasmo, Thomas More, Sá de Miranda, Damião de Goes, para destacar apenas alguns de vários outros também estudados e partilhados, como Dante, Petrarca, Marsilio Ficino, Reuchlin, João de Barros, Camões, ao longo dos anos exercendo ainda um magistério e até mecenato em relação às investigações e publicações humanísticas em Portugal ou sobre Portugal, nomeadamente ao exercer funções na Fundação Calouste Gulbenkian desde 1972 quando foi convidado a dirigir o Centro Cultural Português em Paris, que cumpriu admirável e frutuosamente até 1983, ano em que passou a director dos Serviços de Educação, da mesma fundação, já em Lisboa.
É deste período da sua vida que nasceu este texto Ce qui est vivant dans la tradition de l'Humanisme, e que resolvemos traduzir lendo-o, com alguns comentários, nestes dias que rodeiam a data do seu centenário do nascimento, ocorrida em Penalva de Alva, em 18 de Janeiro de 1920, e como forma de lhe prestar homenagem e manter viva a sua irradiação humanista, tão necessária nos nossos dias em que a qualidade ética e cultural, que não a científica e tecnológica, parece baixar, diminuir, toldar-se, submergida pela luta sobrevivência, as modas tecnológicas, a manipulação dos meios de informação  e  tantos espectáculos, desportos, canais e terrorismos e imperialismos, etc, etc.
I Trionfi de Petrarca: Que carro ou fama triunfa na nossa alma, vida e mundo?
Dividimo a leitura em duas partes, e nesta 1ª ele explica como a palavra Renascimento indica que o Humanismo dessa época é um tipo de ressurreição das Letras clássicas, ou da literatura e filosofia greco-romana, que estava perdida em algumas bibliotecas monásticas e é trazida à luz graças a sucessivos investigadores e escritores, e multiplicada nos seus efeitos graças à descoberta da tipografia.
Dividindo o texto em três alíneas ou partes, na 1ª Humanismo e Ciência, José Pina Martins discerne lucidamente os aspectos positivos e inovadores, bem como os aspectos negativos e bloqueadores, no aspecto das Humanidades, ou seja, na retórica, dialéctica e gramática, e mesmo na didáctica filosófica, já que se exagerou ou se acantonaram demasiado no microcosmos humano.
Será o Renascentismo tardio ou segundo Renascimento que desenvolverá fortemente as metodologias científicas capazes de apreender a realidade do Macrocosmos, e dá vários nomes dos pioneiros, mostrando o que devemos a Galileu, a Giordanno Bruno ou a Descartes...
Giordanno Bruno, um dos grandes espíritos do Renascimento, queimado vivo pela Inquisição, ao fim de 8 anos de prisão, por defender um conhecimento mais espiritual, uma religião mais livre e  um cosmos infinito, com pluralidade de seres...
Na 2ª parte, Humanismo e Sociedade, Pina Martins valoriza sobretudo a reflexão crítica sobre os diversos ramos da ciência, da linguística à sociologia, que receberam impulsões e contributos de metodologias, aproximações e criações dos Humanistas, destacando ainda como algumas facetas então trabalhadas, mas sendo discutíveis ou demasiado subjectivas, como a Astrologia, a Cabala e o Hermetismo, têm tido sucesso público modernamente, sobretudo devido a pessoas mais susceptíveis de "soluções míticas". 
Valoriza já mais as propostas de irenismo,  ou pacifismo, então apresentadas por Thomas More, na sua Utopia, e sobretudo por Erasmo, um homem de grande cultura e bom senso, apelando sempre ao diálogo e ao entendimento, com respeito e amando os outros, pois "a guerra só é boa para quem a desconhece"...
Conclui esta 2ª parte, considerando muito valiosa e actual a proposta dos humanistas, como  Thomas More, F. T. Bacon, Campanella e sobretudo  Erasmo, com a de «uma religião do puro espírito, a philosophia Christi, até a uma ordem do Estado, axializada sobre a paz e assegurando a felicidade dos membros da comunidade». Na 3ª e última parte, não incluída nesta gravação,  O Humanismo como retorno às fontes e o pensamento irenista, Pina Martins afirmará com força a necessidade de o Estado deixar de ser opressor e explorador dos cidadãos, como vemos hoje tanto no mundo. 
S quiser oiça a gravação desta última parte, no próximo artigo do blogue, da exposição bem lúcida e valiosa do ilustre e querido amigo e professor José V. de Pina Martins.  
                                   Muita luz e amor na sua alma e caminho ascensional!
                      

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

Diálogos com o prof. Pina Martins enquanto catalogava a sua Biblioteca. 2ª transcrição, do Diário de 2001-2002.

  Do meu Diário de 2001-2002 eis a segunda transcrição respeitantes aos diálogos com José V. de Pina Martins enquanto fazia uma catalogação rápida da sua Biblioteca de Estudos Humanísticos.
«10-11-01. Catalogações na biblioteca do prof. Pina Martins, três horas e meia. Explicou-me mais localizações temática e de autores, com algumas hesitações pela sua deficiente visão actual.
Explicou as características de alguns autores que eu desconhecia ou pouco sabia, tal como o De ragguagli di Parnaso, de Traiano Boccalini (1556-1613), que tem em grande estima, tanto mais que há um manuscrito do séc. XVII português dumas cortes de Apolo passadas em Sintra e que foram influenciadas por essa obra tanto satírca como espiritual, que eu já sabia que teria sido lida por Valentim Andreia (1586-1654) e os seus manifestos Rosa Cruz e a sua utópica Reipublicae Christianopolitanae descriptio (1619). Houve uma tradução no séc. XVII espanhola. Aprecia bem este autor de certo modo utópico, tanto mais que na sua obra põe Thomas More a jurar que a forma de acabarem as heresias era o rei de Castela não sair do seu reino, pois Boccalini era anti-castelhano.
                                       
              O olhar para toda a eternidade de Thomas More, émulo de Pico della Mirandola
Comentou uma edição de Petrarca em francês, Mon Secret, autor que ela aprecia muito considerando-o primeiro humanista, e do qual tem uma edição muito rara de Siena, 1515, Il Secreto e, lamentando-me eu que não houvesse traduções para português referiu que no séc. XVI o frade anónimo que compôs a obra religiosa mística Horto do Esposo (que eu já lera partes, na reedição no séc. XX, por Augusto Magne), traduziu muitas páginas do Tratado da vida solitária de Petraca, incluindo-as discretamente no interior dessa obra mística. Quem trabalhou nela foi o padre Mário Martins, amigo de José Pina Martins e da Dalila Pereira da Costa que já mo fez conhecer na residência e biblioteca dos Jesuítas, à Lapa, e com quem dialoguei amistosamente.
Contou-me um dos seus melhores negócios quando comprou uma grande gravura de Portugal a um livreiro italiano por 200 mil e em Portugal trocou-a ao Américo F. Marques, por 5 contos de livros antigos, dos quais um o "Crenus" [?] muito valioso nos USA, uma edição dos Retóricos gregos, Aldina, isto é do impressor Aldo Manucio, e outras obras. O "Cresus" [?] vendeu logo ao livreiro Tavares de Carvalho, que se iniciava então, pela quantia que lhe custou comprar um carro Peugeot.
                                  
A marca tipográfica aldina: Festina Lenta, Apressa-te lentamente, dito clássico que foi bem explicado por Erasmo.
A impressão aldina levou-a para Itália e perguntou ao livreiro que lhe vendera a gravura se a tinha. Ele concordou que era muito rara, e consultando a bibliografia mais o confirmou , admitindo que poderia valer uns 4 ou 5 milhões de liras. Pina Martins mostrou-lhe então a obra e disse-lhe que a propunha trocar e apenas por meio-milhão de liras em livros de bibliografia. «- Oh, ainda assim é muito», mas depois resolveu aceitar, tanto mais que Pina argumentara que pelos menos ele conseguiria vender os Retóricos gregos por um milhão ou dois. Assim pode escolher vários livros bons de bibliografia que mandou para Portugal e que estão alguns em cima duma estante que me indica. Perguntando-lhe eu, se ele conseguira fazer circular o livro, responde-me que sim, o livreiro vendera logo depois a edição aldina...
Há saída mostrou-me uma das estantes onde está mais a secção bibliográfica, que eu pouco tenho nem sei muito. E disse-me: «-É a primeira pessoa que está a conhecer os segredos desta casa. Até agora ninguém os sabia». Eu corrigi para biblioteca, mas ele respondeu ainda como casa.
 
Fotografia inédita da sala ocidental, com Pico della Mirandola.
Saudei o Pico della Mirandola diante da bela pintura antiga, bem como os autores, livros e a sabedoria da sala, por vezes, quando levava ou trazia das estante os livros que ia catalogando, inclinando-me, com gratidão no coração...
Vou em 263 livros catalogados, tendo trabalhado 13 horas e meia, quase vinte livros descritos por hora, média de um por três minutos, e às vezes custa-me não poder estar a observar pessoalmente o livro, sobretudo quando não o conhecendo e sentindo que ele é bom não descubro logo o modo de o valorizar como mais interessante neste ou naquele aspecto, e a merecer eventualmente tomar nota e investigar.
Também me custa catalogar os grandes livros de homenagem a algum autor ou acontecimento histórico, com contributos de várias pessoas conhecidas e desconhecidas, os quais vejo no índice rapidamente sem dar para perceber bem o que vale mais neles, excepto quando algum é mesmo muito significativo. Mesmo assim nestes livros colectivos, tenho anotado de modo geral os que sendo do Renascimento, em contraposição aos medievais, têm mais artigos com valor para mim e os meus estudos.
I Trionfi, de Petrarca. O carro da Fama.
 Segunda 12-11-01.
Trabalhei das 15h às 18 30  catalogando cerca de 90 livros, alguns mesmo bons, tais os de Francesco Petrarca e de Giannozzo Manetti. Trocou comigo os Trionfi de Petrarca, numa edição facsimilada, por uma edição pequena do séc. XIX do Garcilaso de la Vega que  eu trouxera de Madrid há dias.
Um dos exemplares quinhentistas de Petrarca. com uma bela encadernação seiscentista, recebeu do Américo F. Marques,  da rua do Alecrim, na  tal troca pela gravura do livreiro italiano. 
 Contou como o seu grande amigo Eugenio Asensio dizia que comia os livros pois tinha que ir vendendo alguns para sobreviver e assim uma vez juntou uns doze livros óptimos que queria vender por 3500 contos. O livreiro António Tavares de Carvalho só deu 3 mil mas já Ernesto Martins, da Biblarte, em frente ao jardim de Alcântara, consultado aceitou a proposta. Pina Martins vira entre os doze  um de Petrarca que lhe interessava, mas Ernesto Martins apesar de saber que era dos menos valiosos atreveu-se implacavelmente a pedir 700 contos, tendo-os ainda há pouco comprado graças ao Pina Martins que lhe tinha arranjado o negócio.
Avisou-me que quanto ao Toni Tavares de Carvalho, sobretudo, mas também a uma das pessoas do Manuscrito Histórico, tem que se ter muito cuidado com o que se diz senão no outro dia toda a gente sabe. Uma vez mostrou a Tavares de Carvalho um livro  que comprara há uns anos ao livreiro Leo Olschki, especialista do Renascimento, por certo preço. Tavares de Carvalho, que tinha o mesmo livro, atreveu-se a escrever ao Leo Olschki dizendo que tinha o mesmo livro  que Olschki vendera a Pina Martins há uns anos pelo tal preço e que estava disposto a vendê-lo pelo mesmo, o que Pina Martins achou algo deselegante.
Beijei e toquei na testa com dois dos livros mais interessante e sábios, o de Gionnozzo Manetti, e um de Petrarca, e é mesmo bom ao catalogar ir avançando pelo meio de obras tão boas e, ao manuseá-las e conhecê-las um pouco, ir perdendo o desejo ou a necessidade de os possuirmos...
Dia[?]... Mais uma manhã de trabalho, mas apenas de 2 horas, e viemos  para a Baixa Chiado de metropolitano. Perfiz as 22 horas de trabalho e disse-me que o facto de lhe estar a catalogar a biblioteca merecia uma condecoração, replicando-lhe eu que era suficiente a sabedoria que eu podia sentir no peito apenas ao contactar o que está por detrás e dentro destes livros. Beijei um e toquei na cabeça com outro que senti mais valiosos espiritualmente.
Damião de Goes, erasmiano e pioneiro defensor dos direitos humanos.
Hoje,  Quinta-feira, foram apenas 2:15 de trabalho. Algum diálogo sobre o texto do Benefício de Cristo, de Lorenzo Valla (1407-1457), um dos primeiros textos do humanismo crítico da versão oficial do começo de Cristianismo e sobre Damião de Goes, a quem Erasmo depois de o receber por umas semanas em casa, recomendara ir aperfeiçoar o seu latim em Pádua, o que ele cumpriu e com resultados satisfatórios. 
Em relação à morte misteriosa de Damião de Goes, em 30 de Janeiro de 1574, mal acabara de sair da longa prisão inquisitorial, não pensa que tenha sido assassinado, mas terá tombado sob a lareira. A mim custa-me a crer tal, e acho que podem ter-lhe batido e empurrado já que ele não era persona grata seja à casa de Bragança, seja aos jesuítas e familiares do Santo Oficio mais fanáticos. D. João III protegera-o enquanto esteve vivo, mas no tempo da regência da sua mulher a rainha D. Catarina fora perseguido ferozmente pela Inquisição, sobretudo pelo jesuíta Simão Rodrigues, que o denunciou por mais de uma vez ao longo de anos.
Marcel Battailon e Pina Martins, em Paris.
Hoje dia 30 de Janeiro cataloguei quatro horas e conversou-se intermitentemente com intensidade. A propósito do livro de Raymond Cantel, Prophétisme et Messianisme dans l'Oeuvre d´António Vieira, disse que ele era uma pessoa séria e que fora um trabalho de doutoramento bom, a que assistira. Presidia o Marcel Bataillon e participava também Haubron ou Aubrion (?), pessoa pouco séria, ainda que inteligente e esperta, mas pouco trabalhadora, o qual começou a criticar fortemente a obra do P. António Vieira considerando-o muito inferior aos pregadores franceses da época, argumentando ainda com outras críticas ao que Raymond Cantel procurava resp0nder com humildade. I. Revah [outro investigador da história e da Inquisição portuguesa], que assistia no público ria-se criticamente em relação às estupidezes que iam sendo ditas dando mesmo nas vistas, pelo que Marcel Bataillon, que tinha sido quem introduzira I. S. Revah na Sorbonne, teve mesmo de lhe fazer sinal com o dedo sobre os lábios. Finda a sua fala Aubrion (?) e toda a gente fica estarrecida com a demolição do medíocre P. António Vieira, mas eis que Marcel Bataillon toma a palavra e diz que António Vieira foi o melhor orador da Europa naquela época, arrasando as críticas de Aubrion (?), que assim emudeceu.
Pina Martins elogiou Ludovico Antonio Muratori, um humilde bibliotecário que no entanto Newton levara para sócio da mais importante academia científica inglesa, pelos seus grandes conhecimentos e qualidade. Usava o pseudónimo Lamindius Pritanius.
Damião de Goes, numa gravura antiga, tida como fidedigna.
Conheceu o historiador Mário Sampaio Ribeiro que era excessivamente de "direita" ou conservador, não gostando por exemplo de Damião de Goes porque o considerava de esquerda. O Joaquim Veríssimo Serrão, que gostava de gozar, quando o via dizia-lhe que tinha descoberto nas suas investigações documentos que provavam que o rei andara nove meses antes de Damião de Goes ter nascido na zona onde ele nasceu, indício que Mário Sampaio Ribeiro muito apreciava pois tinha a tese de que Goes era um bastardo do rei D. João II.
Acerca de um livro sobre os judeus, Pina Martins disse que antes de se casar com a Primula namorara um jovem judia, e que esta lhe pedira que dissesse à sua família que era judeu. Foi acusado dum certo filo-judaísmo mas considera exagerada ou muito violenta a política de força do estado de Israel. É possível que tenha como muitos portugueses algum sangue judeu, mas do lado dos Pinas, que vem dos Pinheiro, descende de Rui de Pina, e dos Martins também não descobriu sangue judaico. A sua mãe viveu até aos 94 anos, e aos trinta anos já tinha os cabelos brancos, mas sempre foi saudável.
Assistiu na Universidade de Coimbra a um doutoramento honoris causa de alguém, que não registei bem o nome, mas nessa altura estava a uma grande distância dos sábios. Hoje é que está tudo muito mais nivelado.
Criticou a atitude do historiador de arte e académico José Augusto França por ter depositado duas bolas negras em recentes votações para sócio da Academia das Ciências dum russo da Academia Soviética, que muito tem feito pela cultura portuguesa na Rússia, e de Michel Renaud, um estudioso da religião. Mas José Augusto França, uma pessoa algo má, não aceita nem a religião nem os actuais soviéticos...
Recusou os convites para almoçar com o primeiro ministro António Guterres e jantar com o presidente da República Jorge Sampaio, agora que vinha cá o Presidente da Itália. Ainda argumentei que poderia encontrar algumas pessoas interessantes, mas não, diz que só lá estão políticos....

4-12. Catalogo das 15:20 às 18:20. Falou da Augusta Faria Gersão Ventura, a autora de estudos sobre Gil Vicente, nomeadamente a astronomia, uma pessoa séria que se vestia como uma senhora do século XIX com a saia até ao joelho. O seu marido era o professor de grego e os alunos chamavam-lhe o "Faraó". Costumava no fim da aula perguntar ao Pina Martins o que achara da aula, respondendo ele que a considerava muito perfeita muito calma e luminosa. Isso mesmo, replicou ele, esforço-me por falar para a pessoa mais fraca que haja na aula.
Mas no fim do ano lectivo, quando Pina Martins queria ir logo de férias, sem ter prestar exame graças à boa média que obtivera, não o deixou, obrigando-o a redigir e apresentar um trabalho sobre os coros das tragédias gregas. Quando voltou de férias perguntou ao assistente que nota tinha e recebeu a resposta que fora a melhor de todas e que o Faraó explicara que Pina Martins tinha aguentado um mês de labor e que fora o único que apresentara um trabalho.
                                       
Em relação ao bibliófilo e bibliógrafo Visconde da Trindade considera-o um auto-didacta, um curioso, mas como tinha um tão grande amor aos livros a sua obra torna-se interessante ou valiosa.
Quanto ao investigador e professor de Coimbra  José Sebastião da Silva Dias (1916-1994), autor de obras com valor sobre a política cultural e a religiosidade nos séculos XV e XVI, formara-se em Direito mas não sabia bem latim pelo que tentava traduzir textos ou pedia a outros que fizessem por ele.
Quanto a Teófilo Braga, que escreveu muito e chegou a Presidente da República, era mau como pessoa e não percebeu nada de Sá de Miranda. Com efeito, com Antero de Quental, e outras pessoas teve procedimentos pouco justos ou maldosos mesmo.
Sá de Miranda, num desenho que pertenceu a Pina Martins e que me ofereceu.
Domingo, 9-12-2001 23 25 m.
Trabalhei hoje à tarde ,mais quatro horas, tendo chegado assim às 50 horas de trabalho. Dos livros que ia catalogando e das respostas que me ia dando sobre quem eram os autores, registei: Epifânio Dias (1841-1916, latinista e camoneano) era uma pessoa que sabia mas era muito convencido e orgulhoso. E foi já no leito da morte que recebeu a obra do Rebelo Gonçalves (1907-1982) sobre uma edição comentada de Camões na qual era criticado, apenas textualmente, mas mostrando os seus erros, recebendo assim no fim da vida uma pequena lição de humildade.
O historiador Anselmo Bramcamp Freire (1849-1921) era algo anticlerical e bastante contra a rainha Dona Leonor, pensando que tinha sido ela que envenenara o marido D. João II, mas mais tarde quando um médico provou que isso era impossível, admitiu que tinha errado. A sua melhor obra foi o manter ou fundar o Archivo Historico Português responsável por inúmeras publicações valiosas ao longo de muitos anos (1903-1917).
                                     
Mostrou-me o misterioso alfabeto moriano, que foi impresso numa das melhores edições da Utopia, a de 1518, impressa em Basileia pelo grande impressor humanista Ioannes Froben, sob a direcção de Erasmo, demonstrando por esquema a sua formação lógico pictórica, inventada com originalidade e não seguindo a ideia, como queria um investigador russo, que fora influenciada pelo antigo eslavo.
Um dos trabalhos importantes do prolífero investigador Sousa Viterbo (1845-1910), do qual tem várias obras na biblioteca, é o da sua recolha de poesias portuguesas existentes em livros espanhóis antigos, mas, por exemplo, não registou uma de Sá de Miranda (autor muito amado e estudado por Pina Martins) presente numa edição quinhentista espanhola de Garcilaso de la Vega.
                             
Marca do impressor Petrus Zangrius, de Lovaina (numa edição das obras completas de Thomas More), simbolizando a fonte do Amor Divino, derramando-se dos que abrem o seu peito a Ele.
Hoje, 18 de Janeiro, Pina Martins disse-me à entrada da sua biblioteca que fazia anos, depois de me ter convidado para um almoço na Quarta feira no Círculo Eça de Queirós, ao Chiado, advertindo-me que é preciso levar gravata ou então usar uma das que eles tem à entrada. Será o festejo de tal data. Contou que publicou cerca de 150 livros, seus e de outros, nos dez anos que foi Director do Centro Cultural de Paris, da Fundação Calouste Gulbenkian. Augurei-lhe bons projectos e realizações para o novo ano, o dos seus 81 anos, já que ainda está a investigar e a escrever...
                                        
Emblema com lema, original, de José V. de Pina para os seus primeiros livros: "Dirige o teu olhar para ti mesmo". Ou pratica o auto-conhecimento, a meditação, a contemplação e abre o teu olho interior para o sol espiritual e divino.