terça-feira, 23 de julho de 2019

Uma Peregrinação Portuguesa ao Irão, 2013, (6º cap.), por Pedro Teixeira da Mota.

Dia 30. Terça-feira. 9:19. Sinto que o tempo passa mais lenta ou proveitosamente, ou dura mais, pois começara a meditar às 9:07 e agora pensei que já seria mais tarde, mas vejo que não foi tanto tempo fisicamente, embora psico-espiritualmente fosse bem mais longo [ou profundamente sentido], com a repetição dos nomes sagrados islâmicos, a respiração profunda e retenção do ar e, por fim, com o sentir a experiência ou descrição de Saadi, no início do Gulistão,  da "expiração como alegria sobre a nossa alma".
De noite despertei algumas vezes e tive vários sonhos; o primeiro, algo pesado, e em que pusera de novo (em relação aos dias anteriores) a cabeça na direcção sul, fez-me mudar para o norte e assim dormi melhor. Acordei às 4:33, para meditar bem numa hora auspiciosa segundo a tradição indiana, e depois às 7:44 e finalmente às 8:44, para me levantar definitivamente.
São 9:41. Na meditação, um fogacho de luz, uns dois palmos acima da cabeça, quando pensei na “Bem amada” dos ghazal de Hafiz como sendo a alma-gémea, e mandei-lhe alguns pensamentos de amor.
Novo dia pela frente, com sol e a temperatura a irem subindo (26,6%) e a humidade descendo (26%).
 A professora Shokoh Hoseyni vem e lemos do livro Gulistão de Saadi os poemas que eu escolhi como mais importantes para serem sondados e trabalhados.
Almoçamos em casa a lata de feijões com cogumelos que Nasrin e Kani ofereceram à chegada, com pão biológico integral lisboeta. 

Saímos às 15:15 de autocarro para o centro cultural Book City a fim de assistirmos a um colóquio, onde encontramos no gabinete do seu deputado director Ali-Asghar Mohammadkhani algumas pessoas conhecedoras e ligadas ao Irfan ou Sufismo, conversando com dois deles, um dos quais professor universitário e de olhar bem vivo, antes de se iniciar a primeira conferência, à qual assisto ao lado de Shokoh Hoseyni e da jovem estudante Nassim. 
Nassim fora avisada por mim de véspera e, ao aparecer, convidei-a para se sentar à minha esquerda, pelo que me traduzirá partes das intervenções, tanto mais que o seu inglês é melhor do que o de Shokoh, a qual provavelmente quis nestes dias, além de ajudar Nasrin e a mim, treiná-lo inglês. Shokoh, a meio, teve de sair e pude assim receber mais à vontade as breves traduções de Nassim.  
                      
          Mohammadkhani, director deste Book City Institute, e também ele autor, abre a sessão
                      
Falaram Mohammadkhani, o autor turco da obra sobre o Sufismo na Turquia e o tradutor para persa e mais três iranianos, um deles defendendo que o sufismo devia ligar-se ao poder político e influenciá-lo. Estranhei falarem tanto de sufismo e seu activismo quando no Irão oficial se valoriza mais apenas de Irfan, gnose, mística ou sobretudo como filosofia espiritual ou metafísica, já que o sufismo está associado a algum desprendimento dos deveres sociais, hoje mais fortes no Irão, até por defesa contra o bullying norte-americano, e tal diálogo e propostas foi um bom sinal do pluralismo religioso..
                        
No final, aberto o diálogo, a jovem Nassim sentada ao meu lado lança duas perguntas em iraniano, um homem outra e eu uma, em inglês, em duas partes: “Para si, que é verdadeiramente um conhecedor do Irfan, a gnose mística islâmica com mais de 1300 anos, e que tanto encontrou muitos mestres (pirs) como leu muitas obras, quais sãos melhores místicos, ou dervishes, ou pirs das tariqas, os autores que têm mais valor universal e não apenas dentro de um contexto de uma época, de uma cultura ou mesmo de uma subjectividade visionária. Ou se quisermos, tendo em conta que esteve a dizer que Irfan, ou  sufismo pode ser uma ponte entre as religiões, e que está presente em todas a religiões, as quais por vezes ficam algo limitadas e fechadas nos seus conceitos e práticas, quais  serão então os que pertencendo à mística islâmica podem ser mais facilmente aceites e compreendidos por todos?
A segunda pergunta é esta: como sabemos, os ensinamentos de Irfan, ou Taswaud, ou Sufismo têm como objectivo principais sermos bons e estarmos em amor com os outros, e sobretudo conhecermos e amarmos Deus. Ora conhecermos e amarmos Deus, ou estarmos mais próximos Dele, sabemos quão difícil é e por isso muitos mestres propuseram métodos de meditação e de respiração. A questão que eu lhe ponho será então a seguinte: de acordo com a sua experiência quais serão as mais importantes ou valiosas práticas? 
Por exemplo estou-me a lembrar do príncipe mogol do séc. XVII Dara Shukoh, que foi um importante mestre, e que realizou pioneiramente o encontro entre a mística islâmica e hindu, e que dava muito valor ao sultan-al-aksar, a meditação no som interior. Portanto, quais serão as metodologias ou técnicas vindas do Irfan e do Alcorão mais valiosas e praticáveis de modo a podermos estar mais próximos de Haquiqa, a Verdade e de Deus?
Retorquiu-me ele então: Para responder à sua questão muito valiosa, teríamos de estar uma ou duas horas para a respondermos em detalhe, mas quanto à primeira parte da pergunta, qual o meu escritor sufi favorito, dentro do contexto do diálogo das civilizações, culturas e religiões podemos encontrar muitos mas para mim é Rumi. Se traduzirmos ou lermos Rumi, não apenas como poeta, já que ele a usa como simbolismo, mas com os comentários que explicam o Masnavi, e as suas histórias. O meu segundo autor preferido é Hafiz, de Shiraz.
    Sheik Jalaloddin com outros sufis.  Masnavi-ye de Mowlana Jalal al-Din Rumi,     manuscrito iluminado de Tabriz, época Safavid, circa 1530. British Library.
 Quanto à  segunda parte da sua questão, acerca das técnicas de alguns sufis para conhecermos Deus, os sufis dizem “se te conheceres a ti próprio, poderás conhecer Deus”. Para ir para o conhecer Deus é preciso ir através do conhecer o homem. Insan-e-kamil é o Homem Perfeito e é um espelho de Deus. Ninguém viu Deus, ninguém, nem Moisés o viu. Ele viu Deus através do homem. Se vires o Homem Perfeito, então podes realizar quem é Deus. Não deves procurar primeiro técnicas, o que será errado, mas sim encontrar um Insan-e-kamil, um Homem Perfeito, um mestre vivo, que pode ensinar as metodologias correctas.
Há diferentes tipos delas. Eles olham para si e dizem: “precisas de tais nomes de Deus. Deve recitá-los (?) diariamente”. Mas tal não servirá para aquela pessoa ou aquela outra. Há um certo emendar, cortar, ou tecer especial para cada um, de acordo com a sua estrutura base. Não procure por uma tariqa ou confraria, tais como a Kalandaryya (originada no Al-Andaluz peninsular), a Mevlevi (de Mevlana Rumi) ou a 
Shattariyya (do sheikh persa Shattar). por exemplo. Não. Deve encontrar um Homem Perfeito e então sim, pergunte a que ordem, a que caminho ele pertence. Isso são apenas nomes, não é o que importa mais; o mais importante é a essência, a qual o Homem Perfeito já tem realizada e viva em si.
Três dos oradores no final, na livraria; ao centro, o autor do livro apresentado
                              
Já na livraria desta dependência ou filial da instituição cultural Book City, na sessão de assinatura de exemplares da sua obra sobre o Sufismo na Turquia e as suas influências políticas, apresentei-lhe a Nassim, que aproveitou bem a minha sugestão de vir assistir e que pode de novo interrogá-lo sobre o tema que mais lhe interessa, Pir-e-Mogen, o mago da taberna, o mestre zoroastriano, uma figura do sagrado não islâmico dentro da tão especial religião mística islâmica da Pérsia, e que fornece o vinho, ou o amor-sabedoria, o qual provoca o extâse ou a comunhão com o ser Amado, seja humano, espiritual ou Divino, tão desenvolvido ou citado  por Hafiz e Saadi...
Pergunto-lhe ainda: - Quantos Homens Perfeitos julga haver nos nossos dias, uns cinco a dez? E ele responde-me: - Talvez uns seis ou sete homens, já muito idosos. E Pergunto-lhe
então se tinha encontrado ou se estava ligado a algum, e ele replicou, sem se abrir demasiado, que tentava merecer tal…
O autor  é uma pessoa simpática, de boa aparência e consistência mental, ainda que haja um leve ego. É o representante mundial de uma série de grupos sufis. O tradutor, de camisa de xadrez, também denotava bastante paz interior, ou calma, discrição. 
Ao findar ainda pensei passear um pouco e conversar com Nassim, mas o táxi para me levar já estava contratado e eis-me a fazer uma viagem de regresso a casa passando por belos exemplares de arquitectura moderna iraniana, um deles bem flamejante com o pôr do sol, sinalizando e irradiando para quem estiver atento e sensível a tal.
 
 Chegar a casa e ir ao supermercado próximo comprar pão-tosta de sésamo e girasol, uma embalagem de ervilhas e outra de sementes de alfavaca germinadas, além de uma garrafinha de azeite e um pequeno chocolate em promoção, algo que num país com tanta tâmara e fruto seco senti depois ser errado…
Aproveito o tempo em casa para aperfeiçoar o artigo de Saadi, e para ler. Tenho de comprar um casaco pois toda a gente estava bem vestida menos eu, apenas de camisa azul. Sem internet desde que saí de Lisboa, eis-me afectivamente mais solitário, por vezes sentindo o amor a Deus ardendo e movendo-me em rotas peripatéticas pelo quarto.
Foi uma boa conversa a da manhã, com Shokoh Hoseyni, sobre Saadi, a situação actual no mundo e a resistência unida da nação, no Irão.
Já são 1:50 da madrugada e estive a trabalhar o texto sobre Saadi que partilharei na próxima conferência já marcada, numa Universidade em Shiraz. Tomo um chuveiro, e estou pronto para adorar Deus e envolver-me mais na sua Unidade, a qual, englobando todos os seres, obriga-nos a sermos mais diligentes…
Nota:

1 Insan-e-Kamil, o Homem Perfeito, ou o Mestre vivo, palavra persa e turca, um conceito e estado de perfeição explicado e glosado ao longo dos séculos por muitos místicos e sufis. Nur Ali Shah, que morreu em 1800, foi um deles, e no excelente livro que Michel de Miras lhe dedicou em 1974, com um prefácio de Henry Corbin, La méthode spirituelle d’un maître du Soufisme iranien Nur Ali-Shah, há um capítulo acerca do Insan-e-Kamil, onde Nur Ali Shah (via Michel de Miras) transmite a sua visão do ser que através da gnose e da visão se une ao Nome Total Divino e se identifica a Ele unificando ou reunindo em si os pares de opostos como rigor e misericórdia, pluralidade e unidade, não-ser e ser, ou fana (extinção) e baqa (permanência) em Deus. Assim o Homem Perfeito é tanto Profeta como Imam, participa dos Atributos divinos, em especial da Ciência (Ilm), o Poder (Qudrat) e Perfeição (Kamal) e age sem intenções egoístas mas pela Presença divina em si. 

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Uma Peregrinação Portuguesa ao Irão, 2013, (5º cap.), por Pedro Teixeira da Mota. Com video de palestra.

                          
29 de Abril de 2013, Segunda-feira, já 22:01. Teerão.              Missão principal (da vinda ao Irão) cumprida: a palestra sobre a vida e obra de Hafiz correu bem. Ainda estavam a ouvir na sala de conferências da Universidade Azari algumas pessoas, umas vinte e tal, e transmiti com mais intencionalidade para seis ou sete delas.
                     
Talvez devesse ter-me detido noutras, mas é difícil estar sempre atento ao fluir interior e aos receptáculos exteriores da nossa mensagem. Olhei e falei mais para as três ou quatro professoras principais, para as amigas Marzieh e Shafagh e uma desconhecida de olhos negros e bem redondos, ao fundo, e pouco mais identifiquei de destinatários nos ouvintes, mesmo com a calma em que fui proferindo o improviso, pautado pela tradução de Nasrin.
É o problema de estar a falar de longe, e sem conhecer a maior parte das pessoas e em que temos de ir distribuindo a mensagem para todos em geral e de quando em quando tocando em alguém particular. Mas julgo que as pessoas gostaram, como me disse a Nasrin, e algumas vieram cumprimentar-me à saída.
                    
        Nasrin, a professora, e a Sepideh, a sua ajudante, duas almas muito luminosas...
                    
Almoço no restaurante edificado à moda antiga, com tijolos e abóbadas, com um canal de água pelo meio, e bem fresco, pois fica também a nível subterrâneo. Encontrei uns pratos ou ingredientes vegetarianos, comendo com a Nasrin, a Nassim, a Marzieh, a Sepideh e a Shafagh.
                      
A seguir ao almoço fui com a Marzieh (de verde) e a Nassim, uma das alunas de mestrado da Nasrin que assistiu e agradeceu no fim, até ao complexo cultural e Museu Niavaran, onde visitamos três palácios-museus, dos séc. XIX e XX, com belas janelas de vidros coloridos e  fabulosos tecidos e tapetes antigos,juntando-se já no jardim a Shafagh, que também presenciara a palestra.
 
 
  Dialogámos, recitaram poemas de Hafiz (acima no tapete) e por fim, ao anoitecer, descemos para um café-bar, no meio do jardim adjacente ao museu, com luz esverdeada a realçar as árvores e com assentos à oriental e até narguilé (cachimbo grande com água). 
 
Juntou-se entretanto a nós o namorado de Marzieh e tomei um sumo de cenoura, e elas outras bebidas ou gelados. Shafagh, de amarelo, leu um ghazal ou poema de Hafiz e houve boas conversas. 
Saímos, já noite caída, com elas a cantarem ou recitarem de cor os belos poemas de Hafiz em voz alta enquanto caminhavam, num movimento de alegria dinâmica gravado por mim. 
 E eis-me chegado a casa, e já meditado, agradecido, banhado e jantado levemente…
 Poema:

O que farias tu se o Amor subitamente te ditasse:
Não podes mais estar sozinho, une-te e vive a dois,
Quando te julgavas livre de tal forte desafio
E podendo desfrutar da solidão a teu belo prazer?

O que pensarás se o teu sentir te obrigar a amar
E já não poderes dizer que não ao teu coração,
Nem a quereres ser sempre forte e solitário,
Em vez de sacrificado, doce e solidário?

Pode ser, porém, que a Graça divina te resgate
E te retire de tal fusão intimista humana
E te atraia para Ele e a Sua imensa sabedoria
E possas continuar como um peregrino do Divino.

O que te poderá acontecer se continuares a amar
Quem quer que sintas no teu coração a vibrar?
Serás levado para o Céu e para o mundo dual.
Ora a Deus, Pedro, para que ele te possa guiar.

Tu que me fazes sangrar o coração no temor do Amor,
Que magia ou encanto te deu Deus, e assim brilhas
E a minha estrela à tua contemplação só aspira?
Não olhes para trás, Pedro, e vive na plena Luz o presente.

Ó sol poente da minha vida, porque me surges tão rosado,
Vendo apesar da brancura nívea da alma o avermelhado?
Ó alma da minha alma, vem, ilumina-me, sê uma comigo,
Para a minha essência eterna flamejar mais como o Sol divino.
                              
Um dia intenso este 29, a noite anterior passada em casa de Marzieh, onde pude lavar a roupa (Afeteh, sua amiga íntima, reparara que as minhas calças não estavam muito limpas…) e pô-la a secar, tendo dormido bem na sua vasta cama com edredon leve de flor azuis e vermelhas, sobre fundo branco, dormindo ela no quarto da irmã, no andar de cima em casa dos pais, justificando tal incómodo com o facto de aproveitar para pôr a conversa em ordem entre as duas que se dão muito bem.
O pai, médico psiquiatra, ainda veio conhecer-me e dialogar. Calmo, pausado, escreveu e ensinou muito, até pela rádio, mas ouve com atenção a minha compreensão do corpo espiritual e do despertar, dentro do ecumenismo ou espiritualidade intrínseca a todas as religiões e não limitada por elas e seus dogmas ou doutrinas menos acertados.
Sinto que alguns aspectos de menos sujeição da minha parte à leitura literal dos textos religiosos, e portanto não limitado por dogmática, o surpreende um pouco, ou talvez force a sua mente a ir por um caminho que não quis ainda aprofundar…
Acordara cedo, neste dia da conferência, às 6:40: lavar, ler um ghazal à sorte de Hafiz, meditar um pouco e depois dormitar até às 7:40. Levantar, ler, escrever e meditar e, por fim comer levemente, já com a Marzieh.   
                           
Seguimos para a Universidade num táxi que apanhamos mas onde já ia sentado no banco da frente um gentleman, muito bem vestido, professor retirado, e que, depois de uma animada conversa, acabou por prometer (e cumprir) assistir à minha conferência.
Incrível a sincronia do nosso encontro, pois tivera uma bolsa Erasmus para fazer conferências no estrangeiro e estudara bem Hafiz. E eu publicara um livro de Erasmo, conhecendo bem a sua vida e obra, e preparava-me agora para partilhar algumas interpretações originais da da obra de Hafiz.
Veio ter connosco à sala dos professores, onde eu já fora apresentado a vários membros do corpo docente e conversado um pouco, e rapidamente estabeleceu conhecimentos e contactos. Confessar-me-á à saída, simpaticamente, que gostara muito da minha palestra e que era mesmo um conhecimento de nível muito profundo o que eu transmitira.
Falei calmamente para transmitir conhecimento e espiritualidade, sobretudo às estudantes, tentando despertá-las para escreverem poemas como os de Hafiz, e para deixarem-se entusiasmar, tal como acontecera a Goethe ao ler pela 1ª vez os ghazals, e que escrevera então, em tal espírito e estilo, o seu Diwan, a sua antologia de poemas amorosos-dolorosos ao estilo persa.
Seleccionei alguns aspectos da espiritualidade de Hafiz e fui citando ensinamentos dos seus poemas respeitantes à respiração, à sensibilidade, à natureza, a práticas respiratórias e meditativas e à consciência do corpo psico-espiritual e que são tão necessários nos nossos dias de tanto stress, tentando ainda transmitir-lhes o impulso para tal…
Após a conferência estivemos de novo nas instalações dos professores e professoras e ofereceram-me duas dois livros escritos por elas, um sobre Hafiz e outro sobre William Blake, tudo num ambiente de grande alegria ou mesmo felicidade… 
         
São já 23:56, quase a findar o dia. Relembro ainda o almoço no restaurante da Universidade com cinco professoras e alunas, e depois com Nassim e Marzieh a tentativa de entrar no conjunto de museus e palácios do Sa’Dabad, afinal fechado, descendo-se daí a pé por várias ruas, uma delas com obras num prédio e com os troncos das árvores do passeio envolvidas em panos, para as protegerem de esfoladelas ou poluentes. Uma prática bem valiosa e exemplar, boa testemunha do amor que os iranianos têm à natureza e particularmente às arvores em Teerão, hoje em dia com grave poluição dos automóveis.
                                      
                                        

Por fim, visitamos o Niavaran, conjunto cultural de casas apalaçadas transformadas em museus com a revolução democratizante de 1979. Um deles logo à entrada permitiu-me bons momentos de transmissão de espiritualidade a Nassim, pois contém várias obras de arte simbólico-espirituais das quais lhe fui explicando os sentidos semi-ocultos, algumas até ligadas com a espiritualidade indiana.
Nassim e Shafagh estão bastante interessadas na espiritualidade já que as suas teses de mestrado são a de Nassim sobre o Pir-e-moghen, e a de Shafagh a comparação entre os místicos poetas S. João da Cruz e Attar, nomeadamente nos sete níveis da alma. Noutras dependências apalaçadas há alguns tapetes e panos muito belos, um dos quais de oração e outro com a figura de Hafiz, contendo dentro de si dezenas de personagens.
 No amplo jardim adjacente recitamos sucessivamente em persa, inglês e português um ghazal de Hafiz, lido por Marzieh, Nassim e eu.
                     
Uma fonte a jorrar água com força faz-nos descalçar, a mim e a Marzieh e a molharmos e purificarmos os pés. Depois ensino alguns exercícios de energetização na relva, alguns mesmo com saltos e movimentos, e Marzieh revela-se uma boa bailarina e bem descontraída, enquanto que Nassim está mais rígida. Marzieh alegra-se pela nossa espontaneidade de estarmos a exercitar-nos sobre a relva, quando teórica e por costume ela não devia ser pisada, mas a combinação de Hafiz e da espiritualidade viva rompe barreiras…
Shafagh virá juntar-se a nós e, sentados num murinho, pés sobre a relva para harmonizarmo-nos mais, brota um ghazal de Hafiz cantado em conjunto por elas três e que eu gravo, seguindo-se um outro.
                            
Depois foram novos poemas e explicações na casa de chá com narguilés (que não fumámos, claro...), e onde se juntou o namorado de Marzieh.
                     
Shafagh leu um poema e depois Nassim outro e comentamos a separação dos que se amam poder ser dolorosa, tal como Hafiz poetisa no caso de Leili e Majnoun, (1), e os ventos ou brisas como mensageiras entre o Amado e Amada, ou entre o mundo espiritual e os humanos, fazendo eu algum comparativismo com o Japão, onde no Shintoísmo (de Shin -espírito, to -  caminho), elas são sentidas e acolhidas nos seus santuários, quando se está a fazer a veneração, como sinais dos deuses ou dos espíritos. Por fim, viemos para casa, no jardim ainda com elas a cantarem e depois Marzieh e o namorado a trazerem-me a casa abnegadamente.
Posso escrever, para finalizar: Dever cumprido, isto é, a palestra foi realizada e apreciada.
Nota:
1 Leili e Madjnoun (لیلی و مجنون), são o par de amorosos mais amado, lido e glosado de toda a história e literatura persa, com uma origem indeterminada na Pérsia antiga mas que Nizami, no séc. XII, fixa com grande qualidade. Um amor extático, total, acima de todo e qualquer obstáculo condicionante, numa entrega unificadora total mesmo face a uma impossibilidade exterior. O seu criador poetizou um amor intenso que não foi autorizado pelos pais e fundiu  o amor humano e o amor místico, pois a visão da beleza de Leili que atrai Madjnoun é, muito mais que a física, a espiritual, a da sensibilidade interna, a do coração, unificante.  Criou um par mítico  para poetas místicos sucessivos enriqueceram as peripécias e os estados interiores do amor impossibilitado de se realizar com  os conhecimentos espirituais e vivências da Unidade que o amor acesso em nós gera e irradia e que almas místicas e amantes conhecem.

domingo, 21 de julho de 2019

"O Livro do Deus Vivo", de Bô Yin Râ. Cap. XVI. Da Morte. Tradução de Pedro Teixeira da Mota.

 

                             Da Morte.   Cap. XVI   

«Estamos agora diante do portão escuro, através do qual os seres humanos têm de caminhar, quando se despedem para sempre da Terra.
Muitas foram as promessas, e muitas as ameaças,  acerca do que  deve existir por detrás deste portão.
Não sei a qual desses ensinamentos irás oferecer a tua crença?
Mas todas eles, - forçados pela experiência quotidiana,- concordarão num ponto: nunca poderás no teu actual corpo terreno regressar, assim que o tenhas deixado.-
Muitos dizem-te que regressarás num novo corpo, numa época futura, e conceberam esplêndidas "regras", segundo quais se deve reger a época do teu regresso num corpo terreno.
Outros deixam-te aniquilado para todo o sempre com a morte do teu corpo, pois só confiam na aparência visível, a qual lhes mostra após a morte do Homem terreno  apenas um "cadáver" rígido, e nada mais que lhes permita concluir, que tal pessoa esteja de alguma forma ainda em vida.
Erram ambas as crenças!
Tu próprio dificilmente regressarás, mas ninguém sabe quantas das tuas forças anímicas, contigo unidas, poderás conservar, quando te separares desta existência terrena.
As que não uniste a ti, terás de abandonar, tal como o teu corpo desta Terra e assim como as energias deste corpo, ao libertarem-se da sua forma temporária, transitam logo para outras formas de vida, assim também as energias anímicas por ti abandonadas, procurarão um outro campo de acção num ser humano na terra.
Também  estão hoje em ti muitas forças anímicas em acção, que agiram noutras pessoas, anteriores à tua época terrena.
Assim  pode-se, com toda a legitimidade, distinguir os seres humanos em "almas mais jovens" e "almas mais velhas", de acordo com a época em que as suas forças anímicas foram vistas em acção em pessoas do passado.
Entre as pessoas que  vivem hoje na mesma época da Terra, e têm o mesmo número de anos desde que nasceram, existem muitas com forças anímicas muito "mais jovens" do que as da maioria e, do mesmo modo, não são poucas aquelas cujas "forças anímicas" são muito "mais velhas"...
Cada um destes casos especiais pode-se logo reconhecer na vida exterior por a pessoa em causa sentir a vida de um modo surpreendentemente diferente da maioria dos seus semelhantes contemporâneos, por parecer algo "deslocada" da sua época, mostrando ou não inclinações que corresponderiam a uma época imediatamente anterior, ou tendências que tentam exteriorizar-se de acordo com os padrões de uma cultura muito anterior, o que não exclui que em ambos os casos as pessoas não ajam de acordo com a época em que vivem, sabendo muitas vezes transmitir-lhe valores elevados...
A abundância de forças, que constitui a especificidade da tua "alma", varia constantemente, enquanto vives no corpo terreno.
As forças anímicas em ti em acção são ora mais, ora menos...
Também dificilmente, durante o teu tempo na Terra, a morte te fará perder alguém cuja alma sentiste próxima da tua, sem que recebas uma "herança" das suas forças anímicas, - pois são extraordinariamente raras as pessoas que podem levar consigo para a sua vida depois da morte todas as forças anímicas que viram agir em si, unificadas em si próprias e unidas com o seu Deus...
A maioria dos "mortos" da Terra deixa atrás de si uma rica "herança".-
Para o olho espiritual a tua "alma" é uma "nuvem" luminosa e viva, formada de inúmeros "pontos" irradiantes: - as tuas forças anímicas, - e esta nuvem de luz está em permanente mutação, enquanto vives na Terra...

Não é, porém, a imensa abundância das tuas forças anímicas que cria a "riqueza" da tua alma, mas sim a unificação das forças anímicas realizadas em ti no teu "Eu", na tua Vontade gerada pelo espírito.--
Só manterás em posse durável cada uma das forças anímicas, que tu em ti uniste, quando chegar a tua hora de despedida desta vida terrena...
Se  não te uniste aqui na Terra ao teu Deus, então também depois da morte terrena do teu corpo não estarás unido a Ele!
Viverás então como um "Eu" no Espírito omni-abrangente, na tua forma substancial espiritual  e, consoante o que conseguiste espiritualmente na tua vida terrena, modelar-se-á essa forma, e possuirás o poder de nela te realizares...

Sob orientação superior progredirás no teu "caminho", até ao dia em que o teu Deus possa gerar-se em ti...
Mas o tempo que passará até essa união parecer-te-á como uma "eternidade", pois  no estado espiritual e livre do corpo terreno existe também algo equivalente à sensação do espaço e do tempo aqui na terra...
Faltar-te-á nessa altura o poder de modificares, segundo a tua vontade, o  tesouro das tuas forças anímicas que permanecem contigo, e pelo desenvolvimento das quais somente se torna possível a tua experiência espiritual...
Terás então que te conformar eternamente com as forças anímicas que soubeste unir em ti durante a vida terrena...
E no entanto, nunca um "Eu" humano, por muito pobre em forças anímicas que tenha entrado na vida do Espírito, para nela ultimar o seu "caminho" para Deus, sentirá qualquer "aspiração" a regressar à vida corporal terrena,- não importando o que teve de deixar para trás...
Mas semelhante e pouco usual regresso sob outra forma existe, embora apenas em três casos especiais:
Para os que têm de sofrer como consequência das suas acções maléficas no corpo terreno...
Para os que impediram o seu corpo terreno de continuar a viver e experimentar mais, porque julgavam poderem escapar pela morte a tormentos ou a quaisquer outros sofrimentos que lhes pareciam insuportáveis...
E, finalmente, para quem o tempo de vida terrena foi muito curto, para poderem unir na sua vontade algumas forças anímicas, de modo que teriam de permanecer incapazes de atingir a vivência espiritual, se não lhes fosse dada uma segunda possibilidade de adquirirem as forças anímicas, como só a vida terrena pode oferecer...
A mesma razão é também decisiva para ambas as primeiras categorias, ou seja, sempre que se trata de um "Eu" que, mesmo durante uma vida terrena suficientemente longa, não tenha tido em si autoridade sobre quaisquer forças anímicas, porque a bestialidade do seu portador terreno sufocou a sua vontade, - ou de um "Eu" que abandonou todas forças anímicas já integradas em si no momento em que sucumbiu à obsessão mental que iria destruir o seu portador terreno, isto é, o organismo de representação de si mesmo que lhe fora provisoriamente concedido...
Às pessoas, para as quais transcrevi aqui estes ensinamentos, pode bastar ficarem a saber que é apenas pela sua própria culpa que podem vir a passar segunda vez pelas dificuldades da vida no corpo terreno e animal, expostas a todas as contingências físico-materiais...
Mas a possibilidade concedida aos espíritos humanos, prematuramente privados do seu organismo de auto-representação terrena, de poderem readquiri-la uma segunda vez - ou mesmo várias vezes se, pela acção de leis físicas, também essa segunda vez for em vão, o que também se aplica às duas primeiras categorias -, pode ser sentida com o coração cheio de gratidão por cada um dos que começam a pressentir o que a vida terrena significa para o "regresso" do espírito humano outrora "caído", pelo efeito incontornável do Amor que abraça tudo o que é Espírito, por mais fundo que ele tenha caído...
Possa cada um que ler estas palavras guardá-las dentro de si, e aprender cada vez mais a reconhecer que a sua existência terrena lhe confere o tremendo poder de decidir ele próprio o seu destino!
Como este poder é exercido de modo certo é mostrado neste livro.
Mas que ninguém se inquiete com os que morreram na Terra, que "passaram para o outro lado", sem terem conseguido, na sua vida terrena,  que o seu Deus "tivesse nascido" neles, - que com as forças anímicas integradas do seu “Eu” pudessem ter-se unido ao seu Deus!
Também a eles  o Amor eterno abraça verdadeiramente!
Eles encontrarão em todos os que um dia chegaram a unir-se com o seu Deus os seus ajudantes mais fiéis, pois todas as forças anímicas se "tocam" no reino do Espírito substancial, e o que os unidos a Deus já alcançaram na Terra e o que alcançam no Espírito   continua a ser "transmitido" como forças também àqueles em cujo "Eu"  ainda não "nasceu” Deus!---
  Mas ao mesmo tempo essa ajuda é realizada pelos que nunca caíram, os quais no reino do Espírito reconduzem igualmente os espíritos humanos, outrora caídos, de regresso à Luz primordial, tal como já aqui na Terra o fazem, onde quer que encontrem a vontade de regressar...
Esforça-te por alcançar a tua meta mais elevada já aqui na Terra, mas não te inquietes pelos que ainda não a conseguiram alcançar!
Podes contudo oferecer-lhes  também a tua ajuda, quando pensas neles cheio de amor vivo!---
  Eles todos estarão um dia unidos a ti no seu Deus...
Em ti estarás um dia,- unido com o teu Deus,-  conscientemente unido a todos os que possas abraçar no teu Amor!--»

"O Livro do Deus Vivo", de Bô Yin Râ. Cap. XV. As Energias Superiores de Conhecimento.


   As Energias Superiores de Conhecimento Cap. XV do Livro do Deus Vivo, de Bô Yin Râ, 2ª  tradução em português, por Pedro Teixeira da Mota.

«Acreditais no vosso "Progresso" e não dais conta que girais a maior parte do tempo à volta.--
Esforçai-vos incansavelmente por tudo desfibrar, tudo desintegrar, tudo dividir, - e como é certo que nada disso se deixou negar, e desse modo obtivestes muitos conhecimentos, parece-vos certo que a vossa acção deva-vos conduzir um dia à solução de todos os enigmas desta Natureza perceptível aos sentidos.
Mas: - tudo o que foi dividido, dividir-se-á até ao infinito, tudo o que foi desintegrado pode continuar infinitamente a ser desintegrado, e descobrireis sempre que o que pensavas ter desfiado até ao último filamento ainda permite soltarem-se novos filamentos...
A fronteira das vossas investigações  só é estabelecida aqui pela vossa incapacidade, condicionada pela vossa condição terrena, de dividir e desintegrar cada vez mais .-
A obrigatoriedade de parar determina os resultados das vossas investigações!
Eu sei verdadeiramente o que a Humanidade deve a este tipo de investigação, e longe de mim depreciar aqui o modo do vosso pensamento.
Só que também vejo o lado na sombra dessa acção e vejo que vos deixais ofuscar pelos resultados das vossas investigações, pelo que vos afastais cada vez mais de um outro e verdadeiramente mais importante modo de investigação...
Haveis já descoberto à vossa maneira maravilhas e inventado coisas admiráveis.
Mas isso não vos deveria levar a ter a certeza presunçosa de que é possível desse modo chegar um dia  ao conhecimento em domínios que troçarão eternamente da decomposição mecânica e que não se deixam alcançar por nenhum instrumento.--
Quando tiverdes finalmente conseguido destrinçar as mais ínfimas partículas de uma formação física, haveis certamente conquistado a possibilidade de o vosso entendimento tirar então dos dados mecânicos conclusões e de, em última instância, poderdes encontrar, descobrir e inventar coisas importantes para a nossa vida terrena exterior. 
Contudo,  da imagem deste modo assim decifrada a Essencialidade mais primordial permanece-vos tão alheia como dantes.--
Reconhece-se certamente tal trabalho e os resultados que ele pode deixar amadurecer; só que não estais assim mais próximos da "Coisa em si", mesmo quando conhecendo todas as coisas deste mundo visível em todas as suas partículas mais ínfimas e a sua  ordem maravilhosa, - mesmo quando sabeis o modo de agir de cada uma de tais partículas e aprendeis a dirigir as suas forças de modo tal que elas têm agir segundo a vossa vontade...
Não é sob a lente do microscópio que se encontra a "Coisa em si", e jamais um telescópio vos revelará o que "mantém coeso" uma longínqua formação celestial.---
O instinto da investigação é inato em vós e exige ser satisfeito.
Haveis no entanto confiado o trabalho de investigação apenas ao "animal" mais requintado de vós, e as energias superiores da vossa alma, que vos poderiam servir no caso, deixastes negligentemente na penumbra crepuscular, sem as desenvolver...
Assim o "animal requintado" constrói para si os seus métodos de pensamento e os seus instrumentos visíveis, para levar o vosso pensamento e investigação ao infinito, - mas os resultados só levam a novas questões, perante as quais tereis então de quedar-vos perplexos...
Houve todavia na Antiguidade pessoas para quem o vosso modo de investigar não passava de uma tolice, e que, com as suas energias anímicas superiores integradas em si, sem o vosso aparato instrumental, resolviam as mais profundas questões últimas.
Encontraram ali "o Fundamento de todas as Causas",- mas vós - alargais-vos só na superfície.---
Sabeis falar inteligentemente de todas as coisas, porque é que são, como se manifestam, porque é que o seu efeito se produz uma vez e outra vez já não, e muitas outras coisas mais,- mas nunca penetrais até às Causas últimas, pois o que chamais "causas" são apenas os efeitos das Causas primordiais, e é atrás destas que se escondem as verdadeiras Causas, que nenhum de vós conhece por experiência...
Mas as energias da alma, - quando do interior do vosso "Eu" aprendereis a dominá-las, como elas querem ser dominadas – aclarar-vos-ão também as Causas últimas, pois são do mesmo género, mesmo quando não actuam da mesma forma...
Certamente este tipo de "Causas" só será demonstrável pelos que já sabem empregar as suas forças anímicas, - enquanto que as vossas demonstrações são em todo o caso bem mais fáceis de realizar, embora só sejam compreensíveis para os que já assimilaram as premissas sobre as quais assenta o vosso género de demonstrações.
Qualquer força só se desenvolve através de acções comprovativas.
Quando portanto não sabeis usar logo no princípio nas pequenas coisas as vossas energias anímicas, nunca elas se tornarão tão fortes que possam mostrar-vos as suas maravilhas mais elevadas.
Trata-se de reconhecer aqui muitas coisas que em verdade valeria  a pena uma pessoa consagrar-lhes a vida inteira, mesmo que essa vida aqui na Terra tivesse que durar cem anos...
Mas tereis primeiro que vos tornar simples, como são as próprias coisas últimas, antes que o mais simples de tudo se vos revele...
Tornaste-vos demasiado complicados no pensamento para que, sem "desaprender", possais compreender a Realidade no seu sentido mais profundo.---
Possa aqui a experiência terrena acessível a todos oferecer-vos instrução: muitas coisas pareciam-vos ainda não há muito tempo como "superstições muito incultas", - até que a vossa própria investigação permitiu-vos reconhecer que tais superstições se baseavam num conhecimento que  vos fora vedado até agora, enquanto que cérebros de pensamento muito simples sabiam como alcançá-lo.--
Cada um terá certamente exemplos suficientes à disposição, pelo que posso negligenciar mencioná-los agora.
Assim também muito do que ainda hoje se esconde em lendas e mitos, em crenças populares e mesmo em muitas das consideradas "superstições" do povo, emergirá numa época posterior como conhecimento muito maduro .-
A razão de estas coisas não serem ainda do conhecimento dos que as procuram "cientificamente", por vias completamente diferentes, reside na gigantesca complexidade da nossa habitual mentalidade "profissional", que já não quer acomodar-se a representações simples, porque já não é capaz de o fazer sem ter que esquecer a maior parte da sua antiga formação - mesmo que essa formação desenvolvida tenha sido apenas a da "instrução primária".---
Eis como muitas coisas estão frequentemente como que "seladas" à investigação exterior, e só com muito esforço se consegue saber algo.
Às forças anímicas, porém, desde que sejam suficientemente desenvolvidas, nada disto tudo pode permanecer vedado.
Cabe-vos a vós decidir, se os vossos netos deverão mais tarde e forçados a isso, inclinar-se perante os factos que vós poderíeis conhecer, ou se querereis legar-lhes um saber que não terão primeiro que rectificar...
Também cada mensagem de Verdade, submergida hoje em lendas e superstições, provinha na sua origem de pessoas que sabiam utilizar as suas forças anímicas, mas a obscuridade interior dos que se seguiram a eles não os deixou mais compreender o que tinha sido oferecido, pelo que assim a Verdade original foi rapidamente sufocada pelo joio selvagem dos confusos sonhos de vigília, e agora já quase não se a pode extrair limpa do joio que cresce por cima.-
A demanda na alma assídua e cheia de confiança abrirá porém a todo aquele que procura o mesmo Poço, do qual os Sábios dos tempos mais remotos já se abasteciam, de modo que possuirá desde logo em si com toda a claridade o que é praticamente irreconhecível sob o manto da superstição, mas que  reconhecerá então através do seu próprio Conhecimento.-- 
Mas sem uma persistente procura no vosso íntimo,- conduzida com a mesma coragem e resistência com que hoje ainda procurais no exterior, - nunca vos poderá ser revelado o que aquelas forças podem, e que em vós próprios estão escondidas.--
Vós sois os portadores das mais elevadas "energias maravilhosas", - todavia esforçais-vos exteriormente por um escasso ganho! 

As  energias superiores do Conhecimento, das quais procuro aqui focar a essência, estão contidas em cada Ser humano, - só que dormem um sono profundo, até que o seu dono as ressuscite em si mesmo e as una à sua vontade...
A maioria dos homens preparam-se para o último sono, sem nunca terem suspeitado dos tesouros que a sua alma lhes oferecia...
Bem-aventurado aquele ser que souber ainda no tempo certo despertar em si as suas energias de Conhecimento!
Encontrará já aqui na Terra a sua verdadeira vida, e já aqui, na sua condição mortal, conhecerá a sua imortalidade.---

Ora esta é a finalidade última de toda a instrução espiritual, pois de que serviria aqui falar do Espírito, que permanece eternamente em nós, - se esse Espírito estivesse tão afastado da capacidade de vida interior do ser humano terreno, que ele não se pudesse aperceber dele durante a sua vida terrena!--
Só o que, neste plano terrestre,
se tornou  para nós  vivência, poder-nos-á guiar numa nova Vida, quando um dia abandonarmos esta existência terrena
Om Mani Padme Hum. Pintura de Bô Yin Râ.

sábado, 20 de julho de 2019

Do poder das nuvens e suas mensagens e hierofanias. Gerês, zona de Paradela, Julho 2019.

Saiamos das cavernas das nossas limitadas percepções e identificações, aspiremos à luz, ressuscitemos o coração e a aspiração espiritual...
Avancemos por montes e vales, pelo caminho real que conduz através das nuvens, esforços e aspirações à montanha do espírito, dos mestres, da Divindade...
Nuvens e montanhas namoram-se à milhões de anos e por vezes fecundam-nos, sobretudo se conseguimos sintonizar ou mesmo contemplar interiormente a montanha sagrada primordial, Himavat, Meru...
As nuvens pedem-nos atenção desperta e capacidade de elevação poderosa, tal como elas...
Os poderes das tão mutáveis nuvens são grandes...
Ligam e religam a terra e os céus, o mundo físico e o astral ou mesmo até ao mundo espiritual...
Causam sincronias ou comunicações,e são modeladas subtilmente
Geram mesmo subtis entre si comunhões e nascimentos, que nos podem inspirar...
        
Vêm silenciosas mas poderosas ao vento, em ondas sucessivas. Quem as acolhe, quem segue com elas e se entusiasma por momentos?
Banham almas e pedras, árvores e espíritos da natureza...
Na sua profundidade e subtileza galvanizam as consciências mais abertas, mais atentas...
Podem fazer-nos sentir mais interiormente em corpo-espaço subtil e elevarem-nos à multidimensionalidade cósmica e espiritual.
Por vezes desferem setas de amor ou mensagens de sabedoria, tal como nós podemos fazer para vivos e mortos...
Causam mesmo subtis aparições germinantes da Terra
E varrem e purificam árvores, penedos, zonas...
Quando descem aos vales,  velhas almas graníticas aguardam-nas ou contemplam-nas...
Assim se erguem intensas hierofanias nas terras do Gerês
Os círculos de pedras, quais menhires, reactualizam-se como altares, e nós podemos celebrar e adorar neles...
E, depois de  passarem, sobrevivem na subtil memória do local, ou nas almas que semicerram os olhos na reminiscência interior, ou nas imagens...
Contempla e assimila melhor as nuvens, pois nos mundos espirituais também as há e ainda mais belas e poderosas...