segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Ensinamentos sobre os cavaleiros e cavaleiras ou fiéis do Amor e do santo Graal.

                                                        

I - É uma fonte montanhosa o coração do ser no caminho espiritual e, embora não se veja, ao aproximar-nos saboreamos inesperada e inconscientemente a sua frescura, limpidez e cores luminosas e radiantes.
Não podemos abrir ou encostar muito o peito pois o sentimento ou líquido que brota é tão saboroso e puro que se sente ameno, quase quente e logo nos torna alma ardente. Fala-se então da água transformada em vinho ou néctar...
Os místicos do Amor comunicam fortemente pela proximidade corporal, de olhar ou de voz mas também conseguem sentir e comunicar nas brisas e nas linguagem dos pássaros, atravessando extensas regiões ou distâncias graças à chama unitiva que arde neles e os liga.
A qualquer momento, dadas certas condições, o cavaleiro ou cavaleira do Amor pode comungar interiormente no cálice, e  comunicar com os que vibram na mesma frequência de aspirações, intenções, pensamentos e sentimentos, certamente com mais ou menos consciência conforme o seu grau de despertar espiritual.
O nosso coração é um fogo mesmo na noite escura, mesmo nas épocas de pandemias ou desânimos. Só temos de nos aproximarmos dele e fazermos sair as neblinas de dúvidas e medos pela fé, a vontade de sermos o espírito e o fogo de amor que está em nós...

II - Os seres raramente se vêem e sentem como templos da Divindade, e mesmo as pessoas que amam ou se amam pouco realizam tal sacralidade de si mesmos. Cada encontro devia ser uma celebração, um culto, um despertar intensificado, mas pouca gente está atenta e aspira a tal...

Diariamente pelos nossos esforços e meditações, sentimentos e vivências vamos purificando o nosso interior anímico e configurando a nossa alma subtilmente, ora como templo, ora santuário ou graal, e em certos momentos realiza-se mais a religação...

O Graal é um símbolo do coração espiritual, tornado cálice de amor, cálice de aspiração, cálice de comunhão.

Os seres que querem pertencer à cavalaria do santo Graal devem estar conscientes de que é uma grande obra manterem o cálice do seu coração ardente de amor, no meio do dia a dia e de todas as suas tarefas e dificuldades. Por isso evitam ou cortam mesmo com televisões e noticiários, ou pessoas noticiaristas... 

Face a tanta agitação dos eteres e particulas anímicas devem desabrochar ou dedilhar no seu peito com frequência apelos, orações, afirmações e cantos  espirituais e musicais, com os quais se fortificam, elevam, invcam, ajudam, comungam e emanam.

Não são necessárias muitas palavras, uma, duas, três, ou poucas mais,  e bastam para constituir uma oração ou um mantra capaz de harmonizar e acalmara as vagas das energias anímicas e dos pensamentos, os astais negativos e para estabelecer um ritmo que se torna ponte para o nosso corpo espiritual e as ligações a que ele aspira ou pode receber.

   III - A cavalaria do Amor é uma arte de esculpir a alma, tão rica quão dispersável,  e de ligá-la ao espírito, aos mestres, anjos, ao arcanjo de Portugal e à Divindade, e que pela sua dificuldade exige perseverança, fidelidade, e por isso se chamam também aos seus pares  Fiéis do Amor. 

Ser-se fiel ao Amor não é fácil nos nossos dias em que por tantos motivos vemos vacilarem tantos valores éticos e conviviais da sociedade humana, em que tanto grassa a ignorância, a insensibilidade, a corrupção, o salve-se quem puder... Sabermos ser tanto justos como amorosos é a grande obra...

O Amor é então um fogo de esperança na noite escura e que precisa de ser soprado, cultivado, interiormente, perseverantemente, para que o nosso relacionamente social seja também banhado pelos raios de Amor que desentranhamos para vencer as dificuldades, sofrimentos e obscuridades que nos rodeiam.

Podemos concluir consciencializando-nos mais que  o fogo do Amor Divino é a vibração vivenciada ou a vivenciar mais importante dos seres que fazem parte da demanda  do santo Graal, ou mesmo da sua cavalaria e certamente do seu sacerdócio, os Mestres...

Conto espiritual: Manuel e a demanda. Chegar a meio da vida e interrogar-se sobre a realização espiritual e divina.

Este conto foi escrito quando tinha quarenta e quatro anos, e transcrito para o blogue há dois anos e hoje 22-02-2022 partilhado publicamente com pequeninas melhorias:
«A noite caíra há muito sobre as redondezas, mas, naquele quarto, não, as trevas não entrariam... Assim pensava Manuel, enquanto os acordes duma música apoiavam-no naquela fé que a sua alma poderia ultrapassar todos os desejos dispersivos e fraquezas mentais e concentrar-se perseverantemente o suficiente  para descobrir o segredo do misterioso Espírito que cada um é, e que há tantos e tantos anos é demandado e pouco esclarecido.
Manuel ultrapassara a metade da duração de uma vida normal, o ano da estabilização, dizia, 44, o quatro e quatro. Mas afinal nesse  ano o peso que pusera às costas fora de mais e escorregara, partindo a base superior do corpo, a bacia, e tivera de suportar as dores, a imobilidade, as noites longas e os companheiros de hospital enlouquecendo mas equilibrados pelas enfermeiras e empregadas simpáticas e radiosas. Porém, aí estava ele de novo à tona da água, uns quatro meses depois do acidente. Manuel coxeava ainda, só poderia correr ao fim de seis meses, mas sobretudo o que ele queria era amadurecer correctamente:  não fossem só as marcas da cicatriz certeira, mas crescida pelos colóides, a atestar a sua passagem pela morte da anestesia. Não, Manuel, queria que houvesse um ensinamento fundo da gravidade e fragilidade de vida a entranhar-se em si, tal como a anestesia, mas que não durasse só umas horas e antes permanecesse para sempre, dando-lhe alegria na responsabilidade por tudo o que fizesse, de modo a que norteado ou
guiado por princípios éticos e ligações luminosas ao Cosmos as suas acções  frutificassem  correctamente.
Fundamentalmente parecia-lhe que cada acto devia ser assumido na dimensão e responsabilidade de o elevar ou de o rebaixar, tanto a si como aos outros. Cada acto, fosse de pensamento ou dos sentidos, mesmo privado, era público, era universal e devia ser antevisto nas suas consequências futuras.
  A questão da sobrevivência, a necessidade a curto prazo de encontrar uma casa, obrigavam-no a não se dispersar tanto na exterioridade e de definir uma estratégia de trabalho rentável,  mas compatível ou de acordo com os seus ideais e vibrações: Manuel era alguém no caminho espiritual, um peregrino, um espiritual.  Sentia porém tal como uma alma ou como um homem?
Não, não se considerava nem se sentia bem um homem, que para si significava algo de feito pelo exterior, num amadurecimento tosco, pouco sensível e profundo. Como porém também  não era
um jovem, Manuel hesitava em como encaixar-se ou assumir-se. As suas forças mais elevadas, ou ideais orientavam-se para a descoberta do espírito e no fundo para a perenidade, a vida eterna, fora das idades e identificações sociais. Todavia,  como o espírito, embora deixasse filtrar uma luz colorida nas meditações ou se mostrasse lá muito ao alto e longe, não se lhe dava plenamente, Manuel sofria uma certa frustração pois já não conseguia seguir a sociabilidade dos grupos nem das religiões e, ao mesmo tempo, ainda não se tinha auto-realizado suficientemente para ter certezas e poder responder e apontar as veredas aos que o interrogavam, atraídos pela sua calma ou sabedoria.
Uma noite de Lua Cheia bem poderosa, daquelas em que uma grande halo colorido rodeia a nossa dona Luna, Manuel lembrou-se e reflectiu sobre a velha história de Siddharta Gautama, o Budha: ao fim de muito tempo de austeridades e jejuns resolvera aceitar a comida e o leite que uma jovem pastora lhe oferecera e, satisfeito o corpo e provavelmente a afectividade, determinara-se a só findar a meditação quando se lhe desvendasse  o sentido mais elevado da vida. Meditou, meditou então firmemente até atingir um estado de grande claridade e apaziguamento interior: o fim dum ego carente e sem luz, sem dúvida uma iluminação da alma pelo espírito. E logo o segredo do nobre Caminho da Verdade se desenrolou diante do seu olhar interior, calmamente, com um rigor não só lógico mas sobretudo libertador: quem desejava ignorantemente sofreria, quem trilhasse o caminho correcto do desprendimento e da acção e pensamento justos, esse libertar-se-ia da ignorância, ilusão, apego e sofrimento e alcançaria a libertação e uma certa iluminação.

Mas, interrogava-se Manuel, como conseguir estar sem desejos, quando tantas eram as preocupações que se tinham apoderado dos seres humanos no decorrer dos séculos, cada vez mais confrontados com duras e tão manipuladas e complexificadas obrigações e sobrevivências?
Manuel podia-se considerar um afortunado pois estava rodeado da mais alta sabedoria de todos os povos, já que era bibliotecário e a sua mão ou diligência podia estender-se para todos os séculos da história e relacionar-se com os mais altos génios em diferentes línguas. À sua frente a Obra completa de Platão na edição renascentista do florentino Marsilio Ficino, à sua esquerda a Philosophia Perennis do bispo de Chisamo na ilha de Creta e bibliotecário da biblioteca do Vaticano, Agustino Steuco. Mais ao lado, as revistas mais modernas com os últimos pensamentos originais dos instrutores ou mestres da actualidade. Todavia, como já muitas vezes os percorrera conhecia o seu valor, e sentia que os níveis mais elevados de realização eram mesmo muito difíceis de se encontrarem nos nossos dias pelo que uma réstia de descrença introduzira-se na sua demanda.
Quem sabe se alguma vez nesta vida seria possível uma pessoa estabilizar-se numa vivência cem por cento verdadeira, justa e amorosa? Com tantas influências e encontros, informações e reacções, como é que o coração e a cabeça estabilizavam suficientemente no discernimento e na meditação do essencial, do primordial, deixando de ser influenciados por todo o tipo de desinformação e discórdia que as pessoas, forças ou mesmo entidades negativas semeavam nos vários lados em diálogo, competição, conflito? 

E, passando da via contemplativa para a activa, quem conseguia saber com certeza que o que estava a fazer era o melhor que poderia ou deveria realizar?
Manuel procurava chegar às certezas, às coerências. Certos opções a fazer ainda o dilaceravam. No dia seguinte iria proferir uma conferência para um grupo de estudantes de filosofia sobre o papel das bibliotecas no século XXI: Livros versus Computadores.
Quando Manuel manuseava os últimos livros que tinham chegado à biblioteca percebia quase só pela leitura dos títulos e dos índices e uma ou duas páginas o valor da obra, além do que sentia
da harmonia que eles transmitiriam aos seus leitores pela capa, a textura do papel e a mancha tipográfica
Já não era o mesmo quando os livros eram impressos com caracteres de chumbo, quando parecia que a polpa dos dedos e os olhos saboreavam as reentrâncias e saliências que se erguiam em cada página que se lia. Agora, com a impressão offsett as letras apareciam rasteiras e comparativamente como que desbotadas e numa uniformidade de supermercado ou centro comercial gigantesco. Mas mesmo assim algumas, pela combinação de bons caracteres e papel, transmitiam ainda um sabor de relevo e vida, talvez para durarem quase como os livros quinhentistas que eram ainda a coroa de qualquer biblioteca. 
Também as grandes enciclopédias que ocupavam prateleiras e prateleiras, começavam agora a ser reduzidas a dimensões ínfimas pelos novos formatos de memória digital, embora as mais recentes e populares continuassem apenas a poder ser consultadas manual e volumosamente. Quanto às obras só  manuseáveis com muitas restrições, devido à antiguidade, raridade e fragilidade, essas não proporcionavam nas versões digitais uma leitura viva e fiel pois perdiam-se vários pormenores importantes, em especial nas manuscritas e assim tal acessibilidade multiplicada e para todos obtida pela digitalização pública também tinha os seus defeitos
Manuel sabia que o CD ou o audiolivro tinham a sua utilidade mas eram mais  intermediários a acrescer na cadeia da comunicação da sabedoria e embora o autor  se aproximasse assimde quem não o podia ouvir, ou então ler no original, também se distanciava, pois nada havia como o diálogo oral, o manuscrito escrito pelas mãos do autor ou do discípulo, manifestando até grafologicamente ora a firmeza e a hesitação ora o entusiasmo e a paixão.
Ao longo da História a força maior da comunicação passou para os livros por várias razões, tais como a efemeridade das palavras, vivas só no momento histórico em que são pronunciadas, a irresponsabilidade com que podem ser ditas, ou o fanatismo ou malícia com que podem ser alteradas, e que sendo fixadas em textos já não seriam tão modificadas, sobretudo quando havia muitas cópias e datadas. Com a invenção da imprensa no séc. XV passaram a chegar a muito mais pessoas, ultrapassando também as limitações do tempo e unindo a Terra toda, sobretudo na época Descobrimentos dos caminhos marítimos liderados pelos portugueses que uniram verdadeiramente quase todos os povos e estenderam a tipografia dos caracteres por África e Ásia.
Os jornais, as revistas e os almanaque, em especial a partir de meados do séc. XIX, tornaram-se grandes meios de comunicação, ainda que mais informando do quotidiano, da actualidade efémera, embora  contendo
também o apelo revolucionário, a reflexão madura, a sabedoria perene, o conto moral. Todavia nos séculos XX e XXI essa imprensa e tipo de publicações que tanto comunicavam a milhares e milhões de pessoas, passaram a ser ultrapassados pelas rádios, televisões, filmes e sobretudo a internet, com uma quase infinita digitalização dos livros, permitindo-se assim a cada pessoa onde quer que esteja o acesso a quase toda a informação que quiser e quase de forma instantânea.
Manuel era porém sobretudo um amante dos livros, embora também gostasse dos folhetos e das revistas, pois em tudo se manifestava artística e engenhosamente a sede de sabedoria e beleza da Humanidade. Apercebera-se disso não só pela alegria de os encontrar, o gosto de os ler e de os sentir como meios de comunicação supra-espaciais e supra-temporais, fazendo-o comungar num corpo místico da Humanidade, constituído pelos grandes autores ou os grandes temas, mas também quando uma ou outra vez na vida ensalivara ao buscar e encontrar um livro; ou quando sofrera o trespasse agudo, duma relação potencial com um livro bom, cambaleando e ficando frio, por uns momentos, quando uma pessoa amiga lho retirara das mãos e se apoderara dele pedindo rapidamente o preço ao livreiro alfarrabista e ficando com ele. Mas sabia distanciar-se do que poderia ser o ego e o instinto da posse, algo que ao longo da vida vivenciaria mais vezes, desprendendo-se de algum livro emprestado que nunca mais lhe fora devolvido ou mesmo em relação a um ou outro que desaparecia.
Embora próximo das melhoras obras do mundo na Biblioteca pública, Manuel gostava ainda assim de procurar ou encontrar para a Biblioteca ou para si edições antigas ou novas de sabedoria, e sendo suas de lê-las e anotá-las, e de dialogar com leitores ou pessoas amigas sobre tais autores e obras.
Naquele fim de tarde ventoso e frio, que ainda assim vira o Manuel a saltar o jantar e a aproveitar melhor o tempo na busca de algum sinal mais profundo do misterioso espírito na meditação, subitamente algo veio abanar duma vez por todas o ramram de Manuel.
Segurava na mão um livro já antigo, onde se recomendavam certas práticas de concentração para se conseguir imobilizar o fluxo de pensamentos e para que o olhar passasse da percepção meramente sensorial para uma dimensão interior. E pôs toda a sua determinação nesse dia: era Lua cheia, estava cansado de procurar a verdade, de admitir a existência de Deus sem o ver. Não aquela noite ou ia ou rachava. Tinha de receber a visão divina. Nada mais o satisfaria. Renunciava a todas as perguntas sobre a conferência de amanhã, sobre a namorada que queria mesmo viver consigo, sobre o dinheiro que precisava de fazer, ou as pessoas que o iriam consultar. Não, tudo isso ficaria agora à porta do seu quarto e, fechado sobre si próprio, a luz divina tinha de vir preencher a fome que o começava a apertar demais, e tinha de o iluminar sobre as prioridades do seu caminhar para a Verdade e a Divindade.
Pousando o livro e os dedos que escreviam, cobrindo melhor as suas pernas com um cobertor, Manuel fechou os olhos, procurou imobilizar-se e praticar a técnica recomendada: procurar imaginar que a cabeça se abria como uma flor a desabrochar silenciosa e graciosamente até que do Alto se fizesse ou derramasse a Luz. Tinha a noite pela sua frente, e quanto à fome, uma vez já entrada a noite, seria inglório estar a sobrecarregar o corpo com arroz integral ou sopa de legumes.
Não, Manuel queria mais do que a suave 
envelhecimento  burguês das refeições diárias a horas certas, nem queria continuar a caminhar e a ser um corpo de palavras, actos e mutáveis pensamentos, mantido por ambições e esforços mundanos, mas sem sentir mais forte ou claramente a presença espiritual, a bênção divina, ou a Luz.
Despir-se-ia de todas as afeições e desejos e lançar-se-ia decidido na travessia solitária das correntes dispersivas que o separavam dum conhecimento e estado de amor maior.
Passaram-se então cerca de três horas, ora de silêncio ora de aspiração, e por fim Manuel ergueu-se da sua meditação, consciente de que três aspectos mais iluminados destacavam-se, e o objectivo principal era estar mais consciente do espírito. E realmente se durante o dia uma pessoa não está muito auto-consciente, como o pode estar nos momentos decisivos?
Unir então a consciência pessoal ao Espírito  era o caminho. Manter mais permanentemente a identidade luminosa consciencializada, numa consciência ampliada e subtil que não se vê mas que se sente e se é.
Enviar amor para certas pessoas mais necessitadas surgira-lhe a certo momento natural e fortemente. Antes conseguira sentir e dizer interiormente: “eu sou o Espírito” e, depois de algum tempo, quando uma vaga fímbria de luz azulada atravessava a sua visão interior, sentira e intuíra algo da omnipresença ou compresença divina. Algo tão fantástico, e que a nossa mente se esquece ou se incapacita quase completamente...
Manuel sabia que tinha pela frente o lento envelhecimento do corpo, uma natural diminuição das faculdades mentais e por isso consciencializava-se de que tinha de trabalhar enquanto gerava ou recebia  a luz e tinha forças. Certamente que continuaria a trabalhar, a aconselhar livros e autores, a dialogar e a conviver humanamente, mas sentia que não podia desperdiçar tanto tempo e que era imperioso que a realização espiritual e a ligação à Divindade se acentuasse mais no íntimo da sua alma e chegasse à sua personalidade.
Continuaria pois a meditar diariamente, e a vivenciar no dia a dia essa aspiração a que Deus nascesse  nele, trazendo mais à consciência normal a consciência espiritual vertical e ampliada de estar em aspiração
-sintonia-união com a Divindade, e a sua luz e felicidade.
Manuel prometeu não se esquecer disto diariamente. Lá estava uma das razões dos votos diários e das orações e meditações matinais que abrem a janela superior nossa ao espírito, à Divindade e às suas correntes de luz, harmonia e amor, que em geral são veiculadas pelos mestres, anjos, espíritos...
Lembrou-se também dos momentos em que os sinos tocavam ao meio dia e ao fim da tarde e como eles serviam para introduzir uma lembrança vertical e prometeu estar também mais atento e aberto durante o dia, capaz de ouvir os sons subtis no ouvido espiritual, e alinhar-se antes das refeições, ou ao deitar-se, e executar verticalizações e orações rápidas mas sentidas de quando em quando. Não oravam os islâmicos seis vezes por dia, lembrando-se assim mais intensamente de Deus ou mesmo do espírito?
Chegaria o que realizara, e o que prometera?
Diz-se que o caminho conquista-se diariamente,  e que é tão difícil ou estreito como caminhar sobre o fio duma navalha. Por isso Manuel passou a ler o que escrevera nos seus diários antigos com mais frequência, para absorver e reaprofundar as suas realizações, e ganhar forças no passado para produzir um futuro frutuoso, nas suas linhas próprias de crescimento. E poder gerar diálogos, livros e conferências,  como contributos bons para a Humanidade sábia.
Um dia diremos como Manuel aos 50 anos, uma data ainda mais simbólica, se contemplou a si mesmo. Ou seja, anos mais tarde, se Manuel começou a interrogar se era o nascimento de Deus nele que acontecia, ou se era o abrir-se mais à omnipresença divina, à Unidade. Ou se devia apenas aceitar calmamente e muito grato  o que do mundo espiritual e da Divindade decidissem mostrar-lhe ou derramar
pelos seus sentidos interiores. Pelo menos por agora, Manuel aceitou na Luz caminhar, trabalhar, ser em aspiração e amor, sabedoria e desprendimento, e continuar a compartilhar convivialmente o seu amor pelos livros e a cultura sábia e fraterna aos outros.

domingo, 31 de janeiro de 2021

Best books on spirituality and mysticism, from East and West. 49 (+14), in open bibliography, with short descriptions. Bons livros sobre misticismo e espiritualidade.

Esta catalogação foi iniciada a um pedido nos finais de Janeiro de 2021 de indicações bibliográficas sobre o misticismo por Constantinos Macris, tendo-lhe enviado as referências de quarenta e oito livros. No dia 31.I.2021 publiquei neste blogue, com pequenos acrescentos, quarenta nove títulos. E continuarei a aumentar com alguma espaçada regularidade. Assim, no dia 2, entraram mais cinco obras, perfazendo 54. No dia 18, 6. Passarão  a ser sublinhados os livros acrescentados, já que serão catalogados por ordem alfabética. Que possam servir para aumentar o discernimento espiritual, a interiorização consciencial e o amor místico ou unitivo, nos seus vários níveis:
AA.VV. ANTOLOGIA DE ESPIRITUAIS PORTUGUESES. Apresentação de Maria de Lurdes Belchior, José Adriano de Carvalho e Fernando Cristóvão. Lisboa, Imprensa Nacional. 1994. 437 p. Fifteen portuguese ascetical and mystical, presented by fifteen specialists, with some of their texts. The main ones being Jorge da Silva, Luís de Granada, Hilarião Brandão, Francisco de Sousa Tavares, Gaspar Leão and Sebastião Toscano.
                                                             
AA.VV. ESPIRITUALIDADE E CORTE EM PORTUGAL (Séculos XVI a XVIII) Porto, 28 a 30 de Maio de 1992). Porto, Instituto de Cultura Portuguesa, 1993. 261 p. Quatorze contributos, destacando-se Jorge Osório (Erasmo, a cortesia e a piedade), Lurdes Fernandes (Francisco de Monzón), Isabel Morujão (Soror Tomásia Caetana de Santa Maria), Diogo Ramada Curto (A Capela Real, um espaço de conflitos), Pedro Tavares (A corte portuguesa perante a condenação de Miguel de Molinos), Adriano Carvalho (Um profeta na corte, o caso (1562-1576) de Simão Gomes, o «Sapateiro Santo (1516-1576»). 

AA.VV. NEOPLATONISM AND INDIAN THOUGHT. Edited by R. Baine Harris. Delhi, Indian Books Centre, 1992. Nineteen essays, like Plotinus and the Upanishads, Meditative states in the Abhidharma and in Pseudo-Dionysius, Union of God in Plotinus and Bayazid.

                                                             
ANVERS, Hadewijich d'. ÉCRITS MYSTIQUES DES BÉGUINES. Paris, Seuil, 1994. 222 p. Introduction, very good, of 70 pages, probably by the translator Frater J.-B. P. Very much devotional and poetic love writings from this sisters or nuns at the end of medieval times. 

ASBECK, Melline. LA MYSTIQUE DE RUYSBROECK L'ADMIRABLE. Un echo du Neoplatonisme au XIV siécle. Paris, Ernest Leroux, 1930. 310 p. The background, doctrine and mystical writings of one of the deepest spiritual seekers in the mysteries of union of spirit and God. 

ATTAR'S, Fariddin. TADHKARATHUL-AULIA or MEMORIES OF SAINTS. Delhi, 1993. In-4º 164 p. Compilação do grande místico persa Attar (1145-1220). Com boa introdução de 38 págs. Contém pequena biografia mas intensa e reveladora das metodologias de trinta santos, com citações de cada um. Oiçamos de Hadrat Abu Bakr Shibli: "Esquecer o mundo e relembrar-nos de Deus é a verdadeira devoção", "A respiração que extraímos para Deus vale tanto como todas as virtudes das pessoas no mundo". Dirá ainda que ouvir um sermão de alguém que o diz por obrigação e não do coração também faz mal a quem o ouve.
                                                                

AUBRIOT-SÉVIN, Danièle. PRIÈRE ET CONCEPTIONS RELIGIEUSES EN GRÈCE ANCIENNE jusqu'a a la fin du V siècle av. J. C. Paris, Maison d'Orient, 1992. 604 p. Excellent work. Chapters: Circunstances de la prière. Expression corporale et vocale de la prière. Questions formelles (prière et discourse). La malediction et le serment. La supplication et les demarches conciliatrices.

BALTAHSAR, Hans Ur von. PAROLE ET MYSTÈRE CHEZ ORIGÈNE. Paris, Le Cerf, 1957. 146 p. D'un theologien trés connu: Mystère et Theologie, Mystère et Incarnation, Mystère et Sacraments, mais il n'est pas trés developé sur la mystique d'Origène.

BARTHWAL, P. D. TRADITIONS OF INDIAN MYSTICISM based upon Nirguna School of Hindi Poetry. New Delhi, 1991. 314 p. Good study on Santa Panth, with chapters on Love, the basis of mystic religions, Sabdya Yoga, lower and the ultimate vision, the Experience expressed. The propagators of this school Santa Panth were Kabir, Nanak, Prananath, Baba Lal, etc.

BASU, Sobharani. MODERN INDIAN MYSTICISM. A comparative and critical Essay. Varanasi, 1974. 331 p. With 69 pages of bibliograpahy, it has chapters on Indian Mysticism, Spiritual realization and Mystic experience. The different phases of mystic experience, The mystic as a Jivanmukta. The mystic and the Mahauddharana.

BAUMANN, Émille. L'ANNEAU D'OR DES GRANDS MYSTIQUES. Paris, Grasset, 1922. 321 p. About S. Agostine, S, Claire of Assis, Dante, Angela de Foligno, Catharine of Siene, Ruysbroeck, S. John of Cross, St. Marguerite Marie, Catherine Emmerich.

BHUTIA, Lama Thinley Dorjey. BEYOND ETERNITY THROUGH MYSTICISM. Darjeeling, 1994. 315 p. Personal, original and powerful biography and vision of Budhism and Vajrayana, with experiences, by a former lama, from a family of lamas.

BOURDET, Louis. RELIGIONS ET MYSTICISME. Paris, PUF, 1959.135 p. Considers the extasis as the essential mystical phenomenon and studies also the inteligence and the sensibility, and the highers states of the mysticism.

BRANDÃO, Frei Hilarião. VOZ DO AMADO. Lisboa, Presença, 1993. 294 p. Good teachings for the spiritual path, from a portuguese mystic of the XVI century. Good presentation from Maria de Lurdes Correia Fernandes, and trancription of the text.

BRUHL, Lucien Levy- L'EXPERIENCE MYSTIQUE ET LES SYMBOLES CHEZ LES PRIMITIFS. Paris, Alcan, 1938. 314 p. A good collection of cases from "primitive people" about the ways of seeing the invisible beings and energies, with a good hermeneutic of their believes and sensibilities. A classical work, 1º part: L'Experience mystique des primitifs (Chance et Magie, L'insolite, experience mystique, Rêves et visions, La présence des morts). 2º part: Les Symboles des Primitives (Nature et function des symbols, Les modes d'actions symboliques, La préfiguration symbolique.)

CINTRA, Frei Raimundo. MERGULHO NO ABSOLUTO. A meditação através da história-integração e libertação. S. Paulo, 1982. 290 p. The meditation in different religions, by different colaborators, but mostly based in the sufism and yoga.

CORBIN, Henry. EN ISLAM IRANIEN. 4 vols. Paris, Gallimard. 1971. Each one around 400 p. Best source about the iranian masters, poets, philosophers and mystics, indeed of the best ones in the mystical, spiritual and metaphisical traditions.


COOMARASWAMY, Amanda K. 2. Selected papers. METAPHYSICS. Edited by Roger Lipsey. New Jersy, Bollingen Series, 1987. 470 p. Twenty two excelent essays, like: Paradise, Hell, Satan, the "E" at Delphi, Silence, Bhakta aspects of the Atman Doctrine, Socrates, Dante's Paradiso, Tantric doctrine of Divine Biunity. One of the best indian scholars.
                                                            
COULIANO, Ioan. EXPERIENCIAS DEL ÉXTASIS. Prefacio de Mircea Eliade. Translation. Barcelona, 1994. In-8º 218 p. Good and erudit approaches, specially on shamanism and gnostics, although often not entering in the core of the spiritual reality. A disciple of Mircea Eliade, unfortunately having died prematurely.
 
CRUZ, Frei Agostinho da. OBRAS de... Conforme a edição impressa de 1771. Com prefácio e notas de Mendes dos Remédios. Coimbra, França Amado, 1918. In-8º 467 p. Pequena biografia e a obra poética deste asceta e místico franciscano que viveu cinquenta anos na serra da Arrábida, e que muito a cantou. É um místico franciscano, naturalista, panteísta mas com forte devoção também aos santos e santos e a Maria e a Jesus. Com belíssimos sonetos intemporais. o poeta do séc. XX Sebastião da Gama, sobretudo no seu amor à Arrabida, pode considerar-se um seu discípulo.

DATTE, V. H. THE YOGA OF THE SAINTS. Delhi, Munshiram Manoharial. 1973. 252 p. How the spiritual life grows organicaly or as whole. One chapter on Nature of Spiritual experience. A friend and disciple of Gurudev Ranade.

DIAS, Sebastião Silva. CORRENTES DO SENTIMENTO RELIGIOSO EM PORTUGAL Séculos XVI a XVIII. Universidade de Coimbra, 1960. 2 vols. de 750 p. One of the best works in the history of the portuguese spirituals of the XVI and XVII, with many quotations of texts, processes, and keeping well the ambiance and fiery sensibilities at work. Uma das obras mais importantes sobre a mística e as suas correntes, influências, perseguições, obras, etc.,  em Portugal. Indispensável.


DICTIONNAIRE DES MYSTIQUES ET DES ÉCRIVAINS. Limoges, 1968. 654 p. A good dictionary. One or two mystics per page, with short biography, some quotations and sometimes photo or image.
                                                  
DÜRCKHEIM, Karlfried Graf. L'EXPERIENCE DE LA TRANSCENDANCE. Traduction de... Paris, Cerf, 1987. 181 p. Chapters on Grace, Being, Meditation, Exercise, Healing, Trancendance, by this psychoterapeut and spiritual master, who was in Japan and became a zen knower, but going much to the inner silence and center. He settled in Black Forest, Germany, and openeda kind of psycho-spiritual ashram.

EYER, Mary Anita. A SURVEY OF MYSTICAL SYMBOLISM. London, 1933. 234 p. Good chapters on Language of spiritual sense, of spiritual progress, of mystical evaluation, of the mysteries (pagan), of the mystical union. Last chapters on aspects, and of problems, of evaluations and classifications of mysticism.

FIGIER, Hugette. RECHERCHES SUR L'EXPRÉSSION DU SACRÉ DANS LA LANGUE LATINE. Paris, Belles Lettres, 1963 470 p. Excelent and deep study: Sacer et les dieux. Sacer et le numineux (et magique). Sacer et le «réel». Sanctus. Sollemis ou l'expérience de l'extase. Pietas.

GARDEIL, Le Pére. LA STRUCTURE DE L'ÂME. Paris, 1927. In-8º 2 vols. 397 e 367 p. Good intelectual research on the inner levels of being, mostly based in S. Agustine, S. Thomas Aquina and S. Theresa d'Avila. 1º vol., on the concept of mens in Agustine, formulated in tree stages: Mens, Notitia, AmorMemoria, Intelligentia, Voluntas. Memoria, Intelligentia, Amor. "The perfect image of God results from the Wisdom, meaning the direct knowledge that the soul has of God by grace, and from the charity that goes with her"

GILSON, Étienne. LA THÉOLOGIE MYSTIQUE DE SAINT BERNARD. Paris, 1931. 253 p. Classic work where this famous scholar of medieval philosophy, a neo-tomist, concludes with the primacy of love over knowdlege, as only by love we know God, and that is not in a vision but in a inner feeling and a life of charity.

GODIN, André. PSICOLOGIA DAS EXPERIÊNCIAS RELIGIOSAS. O desejo e a realidade. Lisboa, 2001. 276 p. An approach mostly psycho-analytical by a jesuit priest.

GOFFI, Tullo. SECONDIN, Bruno. PROBLEMAS E PERSPECTIVAS DE ESPIRITUALIDADE. S. Paulo, Ed. Loyola, 1992. 387 p. Interesting chapters, although not deep, also on non-christian religions.

GOVINDA, Lama Anagarika. CREATIVE MEDITATION AND MULTI-DIMENSIONAL CONSCIOUSNESS. London, 1977. In-8º 294 p. A great book on the spiritual path, specially budhist, and with emphasis on meditation and mantras, by a German budhist monk who was also a good painter, with spiritual vision. Eight paintings and also diagrames inside.

GRAHAM, John W. THE DIVINITY IN MAN. London, 1927. 316 p. Chapters on monism and dualism, subliminal man, inspiration, Plotinus, George Fox, Isaac Penington.


GRATRY, A. DE LA CONNAISSANCE DE L'AME. Tome II. Paris, 1915. 439 p. Interesting chapter on the place of immortality in us.
                                                              
GRIFFITHS, Bede. A NEW VISION OF REALITY. Western Science, Eastern Mysticism and Christian Faith, India, Harper Collins, 1992. 304 p. Last work of comparative studies made by a mystical benedictin living in India. I stay in his SatChitAnanda ashram and meet this deep and serious person, in his last works trying to make the connections between science and religion, based in Fritjof Capra, David Bohm, Rupert Sheldrake, and others.

GROCEIX, Bernard. AMIS DE DIEU EN ALEMAGNE au siècle de Maitre Eckart. Paris, Albin Michel, 1984. 302 p. Much quotations or references to Eckhart, Suso, Tauler, Ruysbroeck, Henri de Nördlingen, indeed some of the deepers mystics of western christian tradition.   

INGE, W. R. MYSTICISM IN RELIGION. London, Rider, 1969. In-4º 222 p. A classical, with a philosophical mind. 11 chapters: Authority and the Inner Light (where he doesn't speak at all of the inner light). The meaning of Mysticism. Mysticism in the New Testament. The problem of personality. Time and Eternity. Symbolism and Myth. Greek Mysticism. Plotinus. Some Medieval and English Mystics. Watchman. What of the Night. The Philosophy of Mysticism, where he mentions the psychological studies of the mystics by Evelyn Underhill, Mrs Herman, von Hugel, Bastide, Murisier, Récéjac, Boutroux, Delacroix, Janet, Poulain, Bremond, Bergson, Bréhier. And from United States, William James, Starbuck, Leuba, Coe, Hocking, Rufus Jones, P. E. More, Pratt, Royce, Bennett.

 JOUKOVSKY, Françoise. LE REGARD INTÉRIEUR. Thèmes Plotinienes chez quelques écrivains de la Renaissance Française. Pariz, Nizet, 1982. 253 p. Trés bon. La procession des hypostases, l'âme et le cosmos, itinéraire spirituel, les périls de la vie interieure, et Ficin commentateur de Plotin.

KARMAKAR, A. P. & KALAMDANI, N. B. MYSTIC TEACHINGS OF THE HARIDASAS OF KARNATAK. With an historical introduction by the Rev. H. Heras, S. J. Dharwar, 1939. XLVII-129 p. Important lineage of mystics of the South of India, from XIII to XVIII century.
                                                              
KAVIRAJ, Gopinath. SELECTED WRITINGS. Varanasi, 1990. 225 p. Eleven essays, like Nada, Bindu and Kala; The Mystic Significance of "Evam"; Some Salient Features of Mysticism. A book from one of the great indian scholars, related specially with Kashmir Shivaism and tantric non-duality.

KINGSLAND, William. AN ANTHOLOGY OF MYSTICISM AND MYSTICAL PHILOSOPHY with notes by the compiler. 2º ed. London, 1935. In-8º 305 p. Divided in many subjects upon which Kingsland, who was theosophist and lover of Blavastky, adds differente quotations, the main author being Jacob Boehme, and then Plotinus, Eckart, etc. No Muslim references, but some indian texts, and also from Hermes.                            

KIRK, Kenneth E. THE VISION OF GOD. The Christian Docrine of the Summum Bonum. Abridged Edition. London. Longmans, 1935. 207 p. A classical, based in the main christian theologians and saints.

KIRK, Kenneth E. THE VISION OF GOD The Christian Docrine of the Summum Bonum. 2º edition. London. Longmans, 1941. 583 p. The evolution of the idea in Christianity, with emphasis in the monasticism, Clement of Alexandria, Agustine and S. Bernard, the school of S. Victor, Aquinas, Loyola, Sales, Bossuet and Fenelon. Last pages of the apendix on St. Thomas and the mystical experience.

LOISY, Alfred. LES MYSTÈRES PAIENS ET LE MYSTÈRE CHRÉTIEN. Paris, Nourry, 1930. 349 p. A classical and pioneer study on the Christian and Pagan interconnections, notably on the the differents shrines and initiatic mysteries.

LOPOUKHINE, Ivan Vladimirovich  J. QUELQUES TRAITS DE L'ÉGLISE INTÉRIEUR. In-4ºXXII-144 p. With preface of the french occultist Sedir, who in last times converted to Christianity, a famous book of a russian of the end of XVIII, Ivan Lopoukhine, the path of christian devotion,  much in the line of Imitation of Christ, of Thomas Kempis, and although with so special títle he does not give any special detail on the invisible brotherhood of saints and masters.

LOPES, F. Félix. INFLUÊNCIA DE S. PEDRO DE ALCÂNTARA NA ESPIRITUALIDADE PORTUGUESA DO SEU TEMPO. Coimbra, 1964. 69 p. A very influential mystic in Portugal, specially at convent of Arrábida, where he lived some years.

MURPH, Paul E. TRIADIC MYSTICISM. The Mystical Theology of the Saivisme of Kashmir. Delhi, Motilal Banarsidass, 1986. 226 p. With comparativism with christianity.

MAGNARD, Pierre (dir.). Marsile Ficin. LES PLATONISMES À LA RENAISSANCE. Paris, Vrin, 2001. 203 p. Fourteen contributions on three subjects: Anima Lux Invisibilis, Lumen visibilis anima, Lumen umbra Dei, some of them like: "L'Âme et l'espace chez Marsile Ficin et Henry More", by René Daval. "L'Un-bien dans le commentaire de Ficin a la Mystica theologia du Pseudo-Denys", by Cesare Vasoli.

MONCADA, Luis Cabral de.  MÍSTICA E REACIONALISMO EM PORTUGAL no século XVIII. Uma página de história religiosa e política. Coimbra, Casa do Castelo, 1952. 98 p. Good study on the origins, tenets and history of this mouvement of inner reform and ascension to God, developed by the Friar Antonio da Assunção, of Agostinhos Desclaços, from the convent of Graça, in Lisboa, that created oppositions from relaxed friars, Inquisition and Marquês de Pombal.

NASR, Seyyed Hossein. SUFI ESSAYS. New York, 1977. 184 p. Eleven very good essays on Sufism and the Perenity of the Mystical quest.

NUBE (La) DEL NO SABER y otros tratados contemplativos. Traducion, estudio y notas de Luis Avantos Swan. Escorial, Swan, 1989. In-4º g. 27 p.  Obra anónima de um místico inglês do séc. XIV, muito apreciada, marcada pela Bíblia e o pseudo Dionísio Areopagita,  valorizando muito o amor a Deus por ele próprio e sem consolações. O ponto alto é sentir Deus em si, como presença constante e iluminante, seja pelo afecto seja pela razão iluminada, de tal modo " que vê e sente formosura de Deus em si mesmo.", sem dúvida um bela maneira de nos concentrarmos e perseverarmos Nele.

OSMOND, Percy H. T. THE MYSTICAL POETS OF THE ENGLISH CHURCH. London, 1919. Good chapters on Pordage, Henry More, John Norris and Traherne.

OTTO, Rudolf. MYSTICISM EAST AND WEST, a discussion of the nature of  Mysticism focusing on the smilarities and differences of its two principal types. New York, Macmillan, 1976. 282 p. Excelent book on the essence of mystical experience, the numinous, self-evident, and based in a deep understanding of Vedanta doctrines (and authors, specially Shankara), and comparing them with the ones lived and expounded by Meister Eckart. 

RANADE, R. D. MYSTICISM IN INDIA. The Poet-Saints of Maharashtra. State University of New York Press. 1983. 494 p. Ranade (1886-1957) is one of the best specialists in mysticism, being himself one, and covers the main mystics of Maharashtra.

REID, Rev. H. M. B. THE HOLY SPIRIT AND THE MYSTICS. London, Hodder, 1923. 246 p. The more interesting chapter is on Mysticism and the Spirit. 

ROOB, Alexander. ALQUIMIA E MISTICISMO. Taschen, 1997. In-8º 711 p. Magnífica escolha de imagens ligadas com alquimia, hermetismo, peregrinação, com cerca de 600 imagens, em geral com texto contextualizante, mas nem sempre. Capítulos: Macrocosmos (Astrónomos, Astros, Música das Esferas, Ovo cósmico, etc), Opus Magnum (Alquimia, Boehme, Lúlio, Sefirotes, Serpente, Androginia, Christus lapis, etc); Microcosmos (A Divina Forma Humana. Cérebro e Memória. As assinaturas. Signos e selos. Aparições). Rotação (Turbilhões e magnetes. A Divina Geometria. A Roda. A rosa dos Ventos, o Enneagrama de Gurdjieff, o Disco cromático, A Rosa, O Peregrino.). 

ROQUER, Ramón. LA PLEGARIA ETERNA. Ilustrada Pedro Pruna. Barcelona 1959. 183 p. Some pages on prayer from the Spanish mystics are included, with soft drawings. 


SABBATUCCI, Dario. ESSAI SUR LE MYSTICISME GREC. Paris, Flammarion, 1982. 270 p. Chapters on: La pratique orphique, La mythologie orphique, Les mystères d'Eleusis, La cité et le sanctuaire, Les dieux grands. Very inovative approach, with deep erudition and gnosis, to the mysticism of Greece, seen not as exercices and altered states of consciousness but mostly as a way of salvation and refusal of the society in a search for alternatives political and religious.
                                                      
SCHUON, Frithjof. SUR LES TRACES DE LA RELIGION PÉRENNE. Paris, Courrier du Livre, 1982. 115 p. Essays from a perennial philosopher, with more knowdlege on Islam and sufism, in the lines of René Guénon

SMOLEY, Richard. INNER CHRISTIANITY. A guide to the Esoteric Tradition. Boston, Shambala, 2002. 292 p. Approaches to the hidden teachings of Christianiy and related to the spiritual teachings out of the church. In three parts: History, the Vision and Expressions, with subdivisions, and the last one: Spiritual pratices, Love, Evil and Forgiveness, Symbols and Sacraments and the Secret Church.

SOPHRONY, Archimandrite. STARETS SILOUANE, Moine du Mont Athos. Vie, doctrine et écrits. Paris, Presence, 1996. In-4º g. 485 p.  1ª part: Life and Teachings of Starets Silouane ( 1866-1938). 246 pages.  2ª part: Writings of Starets Silouane. About prayer, love, spiritual fight. The author is also a monk of Athos and a disciple of Starets Silouane, and so he is describing very well this so unique place and devotional path: Athos mountains and its monasteries and monks, in a certain way immortalized in the book Philokalia, where are related the lifes and teachings of eremits and monks that were using mostly the prayer: "Lord Jesus, have mercy on me, a sinner". This prayer and pietas, were the responsable for the enlightenment of Silouane, as he writes in a autobiographic way and tells us, when looking to a icone and praying, he saw the living Jesus and received the grace of the Holy Spirit in all his soul and body. Important was also to Silouani, humbleness, because then joy and light can come more easily, and we can add also gratitude is a sister of humbleness.

STOLE, Dom Anselme. THÉOLOGIE DE LA MYSTIQUE. Éditions des Benedictines, 1947. 2º ed. 260 p. Good chapters on the paradise of God, the stair of paradise, the inefable words, the mystical experience.

TROTTMAN, Christian. LA VISION BÉATIFIQUE. Des disputes Scolastiques à sa définition par Benoit XII. École Français de Rome, 1995. 899 p. Good book, specially on contemplation and beatific vision according to the main schools and fathers.

WAITE, Arthur Edward. THEOLOGIA ESOTERICA. Intimations of the Real behind Official Doctrine. Article in The Quest. A quarterly Review edited by G. R. S. Mead. Vol. XIX January, 1928, nº 2. 20 p. Qui manet in charitate in Deo manet et Deos in eo. "There is no God but God, and the soul of man is his prophet". Good article from an occultist but also mystic on how to grow the understanding of God, and of God within us, living in His presence.

sábado, 30 de janeiro de 2021

"O Rosto e a Obra", 12ª p. e última da entrevista a Pedro Teixeira da Mota por António Paiva.

 Eis-nos na décima segunda e última parte da entrevista, primeiro em diálogo presencial e depois ampliada livremente para entrar no livro O Rosto e a Obra, Autores portugueses da Espiritualidade, 12 entrevistas, pelo António Paiva, dado à luz pela Espiral Editora, e ao ser transcrita para aqui, de novo, ampliada...

António Paiva – Estamos a chegar ao fim do nosso tempo. Obrigado por esta peregrinação. Uma pequena peregrinação por alguns aspectos da tua vida e da tua compreensão do caminho e da realização espiritual.

Pedro Teixeira da Mota – Sim, houve uma pequena partilha de certos aspectos e que foram  ampliados pela revisão posterior. Poderia ter falado mais das pessoas que me impulsionaram ou apoiaram no começo do Caminho, em Portugal e no estrangeiro, umas mais velhas outras mais companheiras fraternas ou amorosas. O Caminho é também o resultado de muitos elos que nos permitem avançar mais luminosamente pelo que  aos pais, a familiares e amigos devemos estar gratos e cultivar mesmo com regularidade alguma dedicação interior para as suas almas, onde quer que estejam. É o que se chama o corpo  místico da humanidade, ou comunidade das almas afins, e é algo que ao longo da vida deve ser consciencializado e trabalhado com gratidão.
É claro que haveria muito mais a dizer sobre os seres, grupos e locais
esotéricos ou espirituais que fui conhecendo ou dialogando ao longo do anos, dos quais alguns já partiram, outros desapareceram. O professor António Pedro, o engenheiro Manuel Lourenço, discípulo de José Racalho e de  Maria O'Neil, Marcelle Costa Pina, ligada a Salemi do grupo Ondes Vives e à cosmogonia d'Urantia, os franceses Rishi Atri e Anusuya, que ensinavam o Kriya Yoga e o ensinamento de Bô Yin Râ em França, Agostinho da Silva, Sant'Anna Dionísio, Dalila Pereira da Costa e José V. de Pina Martins (na fotografia, junto a Pico della Mirandola) são os principais, sem mencionar agora os indianos....

Muito também se poderia reflectir sobre a nova Era e a espiritualidade de Portugal, nas últimas décadas e na época que atravessamos, na qual é preciso, mais do que entrarmos em grupos exploradores e mistificadores, e agora em online,  estarmos bem alinhados psico-somática e espiritualmente, praticando com regularidade a meditação e a religação divina, e com modos de vida ecológicos e sóbrios, assentes de preferência na alimentação e agricultura biológica, para podermos resistir às forças artificiais, massificantes e alienantes do sistema mundial neo-conservador.
Os mais influentes e mais ricos do sistema capitalista neo-liberal, liderados pelo Fórum Económico Mundial,
estão a tentar implementar uma Nova Ordem Mundial cada vez mais ditatorial, com muitos políticos vendidos ao semi-secreto grupo da alta finança e às grandes empresas (das farmacêuticas e agro-química à indústria dos armamentos), de que qualquer governo da USA é em geral o principal porta-voz e opressor mundial, com aliados poderosos, como a Inglaterra, a Austrália e alguns outros. 
A misteriosa estirpe do sar corona, provavelmente saída dum laboratório sino-ocidental de Wuan, veio aguçar esta situação, sendo por vezes visíveis propósitos e métodos autoritários e opressivos de transformação e escravatura da Humanidade, aos quais deveremos saber lucidamente responder, resistir, adaptar-nos, vencermos.

                                          

Saibamos valorizar o trabalho interior, a sós e em pequenos grupos, associações e comunidades, de preservação e harmonização do planeta e da sua biodiversidade, e do ser humano na sua dignidade e liberdade, e é bom estarmos neste momento a conversar, no bom sentido que o Agostinho da Silva realçava, o de convergirmos numa unidade maior, num sítio como a Espiral, tão ligada à alimentação natural, à medicina não sintomática e às práticas psico-somáticas alternativas à sociedade mecanicista, materialista e tão manipulada que nos rodeia.
Tentarmos valorizar a potencial missão de Portugal de continuar a sua tradição cultural universalizante, iniciada nos Descobrimentos, com a realização mais profunda de uma verdadeira espiritualidade. ou seja, já não por dogmas nem mitos, nem nacionalismos, quinto-imperialismos ou sectarismos, nem mistificações de reincarnações, canalizações e quintas iniciações, mas pela fraternidade, pelo conhecimento verdadeiro e pela maior invocação, meditação, assimilação e comunhão
com o nosso espírito imortal e com os mestres, anjos e a Divindade.

                A estrela do espírito individual imortal, num ornamento de Bô Yin Râ.
Nisto me distingo da  mindfulness, uma moderna (e algo superficial e comercial) apropriação de uma técnica, de origem yogi e budista, de recolhimento e observação da transitoriedade dos conteúdos psíquicos, e que é considerada hoje uma panaceia facilmente acessível e sem efeitos colaterais e que é contextualizada e praticada sem graça nem espírito, nem abertura e ligação ao Amor, ao mundo espiritual e à Divindade. É claro que tal prática de observação pode ajudar algumas pessoas a estarem menos agitadas ou deprimidas e ser um começo de um caminhar espiritual, mas para tal é preciso uma orientação humanista e uma visão do ser humano como corpo, alma e espírito que a mindfulness não possui em geral.
Se as pessoas conseguirem viver mais fraternalmente, superando egoísmos, separatismos e assimetrias tão grandes, será possível impulsionar-se a sociedade a escolher modos de gestão e de governo sensíveis e responsáveis, nos quais não sejamos apenas marionetas de interesses estrangeiros ou da alta finança, como estamos a assistir frequentemente com as sucessivas crises, destacando-se esta última do vírus gripal de 2020, e que está talvez a ser aproveitada para destruição dos mais fracos e para o crescimento da repressão e submissão.
É necessário que haja mais procura de conhecimento harmonizador através de investigações sérias e debates construtivos e por competentes, para que decisões e medidas baseadas numa imparcial e alargada demanda da verdade e do bem comum sejam formuladas e implementadas a favor do bem dos muitos, e que sejam depois transmitidas bem pelos meios de comunicação...
Sabemos contudo que muito dificilmente o mundo dos partidos e dos políticos mudará, pelo menos rapidamente, pelo que a consciência da riqueza humana e espiritual potencial de cada ser, no meio de um património cultural valioso e duma natureza bela e fértil, como há em Portugal e em tantos países, deve por si só impulsionar-nos a desabrochar em trabalhos e criatividades valiosas a sós, em famílias e em pequenos grupos, algo indiferentes às negatividades e roubalheiras que nos rodeiam... 
Utopicamente, e vencendo as distopias, massificações alienantes e autoritarismo, poderemos admitir que tais núcleos resistentes se irão alargando, como famílias, comunidades, grupos, apoiados numa agricultura e alimentação orgânica, na saúde defendida por meios preventivos e naturais, com práticas de oração, de meditação e de contemplação, por vezes até em sintonia de celebração com estações do ano, festas dos calendários religiosos, posicionamentos astronómicos, desenvolvendo assim modos de vida mais harmoniosos e holísticos.
Disto resultará uma melhor a ligação com os eco-sistemas e espíritos da natureza, com os anjos, santos e mestres, e com a Divindade, gerando-se uma vivência maior supra-local da fraternidade ou irmandade dos seres nos seus mundos e do Espírito Divino e das Suas qualidades que nos unem e abençoam.              Sem ser V Império nenhum, um mito demasiado queimado por nacionalismos e zelotas, tanto mais que o Império do dólar e da USA ainda não terminou, nem a nova era do Aquário será provavelmente mais que uma designação esperançosa para certos ideais e tentativas de mudanças de paradigmas e que poderão ser sobretudo apenas sub-campos mais luminosos na multidiversidade da grande alma da Humanidade e de Gaia.
Eis-nos pois tanto num belo mas árduo caminho interior como numa luta exterior por ideais e realizações pelos quais vale a pena peregrinarmos e gerarmos sons e palavras, obras e livros, lutando, esforçando-nos com amor, no "talento de bem fazer".                             Mantermo-nos lúcidos e fortes e em sabedoria e amor, rumo ao mundo espiritual e à Divindade, pelo bem, eis a nossa estrela diária...

                              Aum Tat Sat...

António Paiva – Muito obrigado por esse propósito para a peregrinação da nossa vida
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Biografia de Pedro Teixeira da Mota.
Estudou em Lisboa nos Maristas, Colégio Militar e Liceu Pedro Nunes. Licenciado em Direito pela Universidade Clássica de Lisboa.
Após duas estadias de um ano e dois meses na Índia onde foi um yogi, e em que foi niciado por alguns gurus, começou a ensinar a espiritualidade indiana, yoga e, em especial, a meditação, em Évora, Porto, Guimarães, Covilhã e Lisboa, contudo dentro de uma visão do caminho espiritual perene e não
sectário nem de marketing. Tornou a estar um ano na Índia em 1995.
Em 1988 e 1989 foi co-director, com Lídia Caldeira Cabral, da Associação Waldorf de Lisboa, onde proferiu várias conferências e onde levou Agostinho da Silva a conferenciar.
Publica em 1988 e 1989, após consulta prolongada do espólio do Fernando Pessoa na Biblioteca Nacional, a Agenda do Centenário de Fernando Pessoa e o Livro da Sabedoria Portuguesa, e quatro livros de inéditos de Fernando Pessoa, comentados: Moral, Regras de Vida e Condições de Iniciação; A Grande Alma Portuguesa; A Rosea Cruz; Poesia Profética, Mágica e Espiritual.
Publica em 1998 O Livro dos Descobrimentos do Oriente e do Ocidente, de efemérides para cada dia do mês, a propósito dos Quinhentos anos do Descobrimento do caminho marítimo para a Índia. Encontra-se agora online no blogue, em doze textos, correspondentes
aos 12 meses e muitíssimo ampliado e bem ilustrado.
Entre 2003 e 2005, foi co-fundador e animador, com Sofia Costa
Quintas e Célia Costa Cabral, da Livraria e Galeria Pessoas e Saberes, em Lisboa, onde realizou várias conferências e meditações.
Em 2006, dá à luz a tradução comentada do texto sânscrito Cântico da
Consciência Suprema, Astavakra Gita, nas Publicações Maitreya.
Em 2008 faz a tradução (com Álvaro Pereira Mendes), e introduz,
comenta e anota o Modo de Orar a Deus, de Erasmo de Roterdão, nas Publicações Maitreya.
Em 2008 colabora com doze entradas de temática espiritual no Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, coordenado por Fernando Cabral Martins, da editorial Caminho.
Em 2010 participou na galeria Novo Século, de Carlos Barroco e Nadia Baggioli, na exposição colectiva de artes plásticas intitulada “O Amor é Cego”, com livros de artista manuais.
Em Maio de 2015 publica o livro de trinta e três ensaios intitulado Da Alma ao Espírito, nas publicações portuenses Maitreya e que, embora com pequenas tiragens, está na 3ª edição melhorada.
Em Junho de 2015 é co-prefaciador, com Anabela Rita, da Mensagem, de Fernando Pessoa, ilustrada por 25 artistas e editada pela Prelo Arte, e
coordenada por José Maria Ribeirinho.
Trabalhou como especialista do livro antigo, catalogand
o e comentando em alfarrabistas ou leiloeiras lisboetas, de 1994 a 2020.
Tem proferido numerosas conferências sobre a Tradição Espiritual Portuguesa, e seus principais elos, em especial Jorge Ferreira de Vasconcelos, Antero de Quental, Wenceslau de Moraes, Fernando Pessoa e Augusto de Santa Rita, mas também sobre o Humanismo, em especial Erasmo, e ainda a sabedoria espiritual de outros povos, em especial da Grécia
com Pitágoras e os pitagóricos, Índia, Irão e Japão.
Colaboração esporádica em jornais e revistas, destacando-se
Raiz e
Utopia, Arte e Opinião, Nova Renascença, Arte Ibérica, Agenda Cultural de Lisboa, Singularidades, Ar Livre, Nova Águia, Artes e Letras, Transdisciplinar, Pessoa Plural (nº 9, Oriente), Revista Portuguesa de História do Livro.
Página ou blogue: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com., e um canal no Youtube, também sob o mesmo nome, e algumas páginas culturais no Facebook.                                                                            
Investigações em curso: modos de vida para o séc. XXI, a espiritualidade mundial ou tradição perene, e mais particularmente a tradição espiritual Portuguesa, a tradição yogi indiana, a pitagórica e dos mistérios da Antiguidade, a mística iraniana e sufi, o shinto e o ensinamento de Bô Yin Râ, bem como as ligações entre ciência moderna e consciência, e a aprofundar a meditação e os mistérios do ser humano, do Cosmos subtil e da Divindade.

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Cartas de Antero de Quental a Germano Meireles, e o estoicismo, a paciência, a fé, a voz íntima e a Providência.

 Numa carta enviada de Lisboa, em 24 de Fevereiro de 1875, a Germano Vieira Meireles (1842 a 3-XII-1877),  numa tentativa de tocar no amigo íntimo e condiscípulo em Coimbra, então advogado e jornalista em Penafiel, onde com 22 anos de idade co-fundara (com o pai do comum amigo, Joaquim de Araújo), o famoso jornal O Século XIX em que tantos grandes poetas colaboraram, Antero de Quental partilha a sua visão do problema da dor, da paciência, da fé e da voz da consciência.

                                              
Já uns meses antes, a 24 de Outubro de 1874, realçara a grande ciência da paciência em outra carta a Germano Vieira Meireles, congratulando-se por ele estar a passar melhor desde que deixara a Foz do Douro: «sempre previ isso, porque a humidade é nos hostil a nós outros nervosos. Cá estou eu agora, com o detestável tempo que aqui tem durado há quinze dias, num estado de irritação nervosa insuportável. (...) A paciência (agora é que o tenha chegado a conhecer) é a chave da vida moral, a última palavra da ciência da vida. Quem chegar a alcançá-la, sem ao mesmo tempo cair na inércia e na estupidez, omne solvit punctum!». 

Oiçamos então Antero de Quental, em Fevereiro 1875, com uma fotografia desse ano, onde de facto parece mais determinado e forte que Germano Vieira Meireles.            

«Caro Germano
Saúdo o amigo! Que fazes e, sobretudo, como vais? Estará ai o Alberto, que, segundo me escreveu, faz a tenção de ir brevemente ao Porto? Se está, saúda-o por mim. Eu cá estou. Sempre na mesma: mas à doença impassível oponho uma paciência que cada vez mais luta com ela com mais vantagem. Por isso estou contente. Abençoada doença, se fizer de mim o homem impassível dos Estóicos, o Santo de Marco Aurélio. Não digo isto brincando, e para mim o livro das Máximas de Epicteto é um dos livros mais sérios que têm sido escritos. Porque não o lês? Mas talvez fora isso, infelizmente, inútil, porque não tens a Fé. A Fé não é só património do Cristão, há também a Fé da Filosofia idealista que pelo menos é tão boa. Mas tu és positivista, meu pobre Germano. Pobre Filosofia essa, e fraco apoio! Quem me dera que tu pudesses crer! Esta orgulhosa razão é preciso humilhá-la num acto de sentimento íntimo: é preciso também chorar, e amar aquilo mesmo que nos faz chorar. Então ouve-se em nós uma voz que não é a da razão, menos forte ou sonora, mas mais pura e sobretudo mais consoladora. Isto tenho feito e faço, e só desejo que o faças tu também. Pensa nisto. Se achares esta homilia muito lírica, considera que escrevo isto às seis da manhã, começando a amanhecer, e tendo eu perdido a noite – perdida para o sono, mas aproveitada para muitos pensamentos.
Adeus, querido amigo. Dá notícias ao teu do coração,
Antero.»

Realcemos apenas, primeiro, como Antero de Quental aceita as provações e dores que a sua misteriosa doença lhe provocam, pois está a sentir a sua vontade de perseverar confiante, ou seja, a dita paciência a crescer em si, desvalorizando as dores, o que significa no fundo ter Fé, a qual não é só cristã, mas do idealista, de quem acredita e ama o bem e a verdade e, aceitando ou querendo tal luta, sente e desenvolve energias para as suas demandas e batalhas.                                                                             Segundo, o apelo ao silêncio e à audição da voz interna do Espírito, algo que Antero de Quental trabalhou sob várias designações e recomendou muito em cartas a amigos, destacando-se entre eles Fernando Leal, como já tratei num artigo. E o que teria ele dito em diálogos, olhares, silêncios? 

Noutra carta a Germano, de 16 de Setembro de 1876 Antero volta, talvez algo paternalmente, ou em compaixão, à carga sobre a Fé, que ele correlaciona com a Providência, depois de justificar as poucas cartas que escreve: «a debilidade nervosa, paralisia, ou o que quer que é, invadiu-me os braços, e isto, complicado com o que já havia, obriga-me à imobilidade. De sorte que perco a esperança de poder ir aí ainda este ano (...) Paciência. A tua última carta era bem triste, meu pobre amigo. Quem me dera ver-te numa disposição plácida. A imaginação faz mal muitas vezes: é preciso amortecê-la, porque é ela que nos estimula os nossos pensamentos de revolta e nos desespera. Também entristece muito o espectáculo do mundo, como ele vai. O que convém é considerar que nada sucede no mundo, ainda o mal, sem uma razão suficiente, e que todas estas razões suficientes, encontrando-se numa região aonde não atinge o nosso entendimento, formam a ordem moral do Universo, ou, como outros dizem, a Providência. Mas tu não crês nisto, infelizmente! e perdoa-me se te impacientam estas sentimentalidades (...) »

Talvez em verdade Antero tenha sido algo sentimentalmente optimista, crendo que o mal tem sempre uma razão suficiente e que ela não só faz parte ou forma a ordem moral do Universo, como se pode incluir na Providência ou como Providência. Eu, por exemplo, não entendo assim: há o mal de clara oposição à ordem Moral do Universo e contra a Providência, divina ou cósmica. Há seres e entidades maléficas que estão contra a ordem moral do Universo, contra o Amor, o Bem, e obrigam tal Ordem ou Dharma a muitas acções e reacções que tentam compensar ou diminuir esse mal, esses seres maléficos, numa batalha que se opera tanto no universo físico visível, o tal "espectáculo do mundo entristecedor" [tanto na época como agora no séc. XXI], como também nos mundos invisíveis e subtis, todos afectados pelo mal, o egoísmo, o ódio. É só nos mundos espirituais que podemos verdadeiramente sentir plenamente a Ordem e Harmonia espiritual e divina. 

Haverá ainda algumas cartas trocadas entre os dois amigos, duas delas com Antero ainda doutrinando, amainando, pacificando Germano, tal a de Maio de 1877, apoiando-se até na "darwinística" bestialidade do ser humano: «E tu como vais? Imagino que mal, pelo menos de espírito, pois essa ferida é incurável. Meu pobre Germano! Irritas-te muito com os homens e suas misérias, para poderes conseguir a Paz. A comédia humana é ao mesmo tempo uma comédia divina, por isso não nos deve merecer indignação. Os Homens são ainda assim o melhor que podem ser, atenta a sua natureza bestial. O Darwinismo é uma grande fonte de consolação filosófica». 

 Também na penúltima carta, escrita das famosas termas francesas da Bellevue, onde Antero tratava os seus nervos com hidroterapia a conselho de Charcot, de 26-VIII-187, cerca de três meses antes de Germano morrer subitamente de um aneurisma aos 35 anos (e vindo Antero a acolher e educar as duas filhas, Beatriz e Albertina) encontramos de novo os ensinamentos de despreocupação, paciência e higiene psico-somática: «Dizes que passas agora melhor, mas sempre receoso dos funestos ataques nevrálgicos [Provavelmente já um anúncio de morte pressentido por Germano..]. Mas não convirá pôr de banda esses receios? O estado moral, a imaginação têm mais influência do que se cuida nos fenómenos corporais. Recear o mal pode às vezes ser chamar por ele, especialmente nos temperamentos nervosos. (...) A hidroterapia por ora não tem feito maravilhas. Os mestres dizem-me que se precisa bastante tempo e não posso senão dar-lhes razão; por isso espero paciente, senão esperançado. (...)»

 Acolhamos estes ensinamentos como testamento de uma amizade que por razões de distâncias se enfraquecera mas que tivera píncaros elevados na fraternidade idealista e revolucionária estudantil coimbrã,  que levaram mesmo Antero a dedicar-lhe em 1865 as Odes Modernas, com grande fraternidade, idealismo e amor, como podemos ver, ler e sentir:

                               
Escrevi ainda um artigo, com uma gravação, sobre as tão idealistas, revolucionárias e belas Odes Modernas, a que pode ter acesso em: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2018/04/antero-de-quental-as-odes-modernas-e.html
Paz, paciência e, com vigilância e luta contra o mal, mais abertura intuitiva à Providência divina, harmonizadora, curativa, libertadora... Luz, Amor e força para Germano Vieira Meireles e Antero de Quental....