domingo, 19 de janeiro de 2020

A "Utopia" de Thomas More e Pina Martins. Apresentação e gravação de uma "Introdução", de 1977.

                                        
Como sabemos Thomas More (1478-1535, em cima num desenho de Hans Holbein) foi uma tão grande alma que, destacando-se como advogado e escritor e tendo chegado a Chanceler do reino da Inglaterra, acabou por ser executado ou martirizado como cristão e humanista, ao recusar submeter-se às medidas que considerava injustas do rei Henrique VIII, seja a anulação do seu casamento com Catarina de Aragão, seja a sua separação da Igreja de Roma e passar a ser a cabeça suprema da Igreja de Inglaterra. No dizer de Pina Martins, foi a «vítima da crueldade de um abominável tirano», secundando o que escrevera na época o Cardeal Reginald Pole (1500-1558), irenista (pacifista) e erasmiano:« Meus queridos compatriotas da cidade de Londres, vós matastes, matastes o melhor dos Ingleses».
3ª edição da Utopia, impressa em Basileia, por Ioannes Froben, 1518, com moldura xilografica de Hans Holbein.
Se a santidade que lhe foi reconhecida pelo Papa Pio XI em 1935, em conjunto com outro notável humanista na mesma altura executado, John Fisher, terá auxiliado a não nos esquecermos tanto da sua alma, já a sua obra Utopia, permanecerá perenemente como um voo audacioso de uma humanidade melhor, e a palavra Utopia  avatarizou-se ao longo dos séculos em muitas das mais pioneiras visões e criatividades literárias, artísticas e sociais.
O navegador português Rafael Hitlodeu, no canto esquerdo, aponta-nos a ilha da Utopia
Entre nós Pina Martins foi desde jovem uma alma em grande busca de um ser humano e de uma sociedade melhores e rapidamente foi discernindo, por entre as leituras que foram modelando o seu ser, o filão dos humanistas e, particularmente, de três deles, Giovanni Pico della Mirandola, Erasmo e Thomas More, que acabam por se tornar os seus grandes inspiradores, a eles dedicando muitas horas e páginas, palavras e actos, que se perenizaram em publicações, hoje dispersas, talvez um dia unificadas nas obras completas de José V. de Pina  Martins (1920-2010) editadas pela Fundação Calouste Gulbenkian que ele serviu incomparavelmente bem. E que aliás já o homenageou em 2015 com um exposição, José V. de Pina Martins, uma Biblioteca Humanista. Os objectos procuram aqueles que os amam, com curadoria de Vanda Anastácio, tendo também nessa homenagem participado Silvina Pereira com um espectáculo Livros que falam.
Pina Martins, considerando a Utopia «um dos livros fundadores da cultura europeia moderna», impulsionou uma tradução portuguesa do original latino, o que foi sabiamente realizado por Aires do Nascimento e editada pela Fundação Calouste Gulbenkian em 2006, e para a qual escreveu uma valiosa introdução,  mas já publicara algumas obras morianas anteriormente,  tal o de L'Utopie,  catalogue de L'Exposition Bibliographique au Centre Culturel Portugais, Paris,  1977.In-4ºgr. de 61 págs., muito ilustrado e hoje raro de se encontrar.  Resolvemos então da sua Introduction a este catálogo lermos, traduzindo para português e gravando, a parte inicial e substancial, como se poderá ouvir no fim...
                                                   
Também deu à luz em 1979, como separata do vol. XIII dos Arquivos do Centro Cultural Português em Paris (1978) L' Utopie de Thomas More et L'Humanisme,  que fora a  comunicação apresentada à Academia de Ciências em 22 de Junho de 1978 nas comemorações do V Centenário do nascimento de Thomas More. E ainda no mesmo ano, em Lisboa, A Utopia de Thomas More como texto de Humanismo, onde destaca os três preceitos dos Utopianos: "1) Igualdade dos cidadãos no bem e no mal. 2) Amor persistente da paz social e civil (entre os cidadãos e o povos). 3) Desprezo do ouro e do dinheiro."
Em 1982, em Paris,  de novo em separata dos Arquivos do Centro Cultural Português, l'Utopie de Thomas More au Portugal (XVIº et début du XVIIº siècle), onde transcreve os ecos em Damião de Goes, Jerónimo Osório, João de Barros, Frei Heitor Pinto e Index da Inquisição (1581 e 1624) 
Publica também em 1983, em Lisboa, ,num in-4º de 93 págs., numa bela edição bem ilustrada, Thomas More au Portugal,  em parceria com Fernando de Mello Moser, dedicado a Germain March'Hadour.
E em 1998 sai à luz  A Vtopia. I de Thomas More e o Hvmanismo Vtópico 1485-1998, catálogo de uma síntese biblio-iconográfica. Lisboa, Imprensa Nacional, in-4º gr. de 168 págs., com um notável Estudo introdutório e notas bibliográficas, onde destaca alguns dos 90 cimélios expostos e descritos, nomeadamente «a minúscula jóia bibliográfica em pequenino formato [32º] (Colónia, 1629), prova evidente de que o livro circulava como vade-mecum de homens cultos...» 
As obras escolhidas para a mostra e catálogo (para cuja elaboração colaboraram Maria Valentina Sul Mendes, Maria da Graça Garcia e Margarida Cunha) faziam parte da Biblioteca Nacional e da sua Biblioteca de Estudos Humanísticos, hoje preservada no seu núcleo essencial na Faculdade de Letras de Lisboa, onde ele próprio fora professor-bibliotecário e professor catedrático.
Em 2005 dá à luz a sua grande obra moriana, num in-fólio oceânico, de XIII-475 páginas, ou como ele descreve, em "grand format, papel pergaminho Nihil Candidus", embora haja também em tamanho normal, a Utopia III, relato em diálogo sobre o modo de vida, educação, usos costumes, em finais do século XX do povo cujas leis e civilização descreveu fielmente nos inícios do século XVI o insigne Thomas More, inserindo-se assim plenamente na tradição humanista utópica. 
 Celebrando-se nestes dias o centenário do aniversário de José V. de Pina Martins, ex-Presidente da Academia das Ciências, que teve nele o seu mais brilhante humanista e presidente da Secção de Letras, e que o comemorará no dia 23, numa sessão ordinária, resolvi, como trabalhei e convivi com ele cerca de 17 anos, escrever alguns textos e hoje, dia 19, gravar a tradução, que fiz enquanto lia, da sua Introduction ao L'Utopie, catalogue de L'Exposition Bibliographique, de 1977, com alguns breves comentários.
Acrescentemos alguns outros ecos de Thomas More em Portugal, bem recenseados e comentados por Fernando de Mello Moser e José V. de Pina Martins nas obras já citadas, transcrevendo dessa obra em co-autoria as palavras do historiador  João de Barros (1496-1570), na Década III, referentes às Utopias: «porque deu a entender a verdade aos sapientes debaixo de uma nuvem de ficção poética», «Fábula moderna é a Utopia de Thomas Moro; mas nela quis doutrinar os Inglezes como se haviam de governar». 
E a homenagem poética que o sábio humanista e estrangeirado António Gouveia (1510-1566), nos seus ora cáusticos ora ternos Epigrammata dedica ao autor da Utopia:«Foi o vosso valor, Thomas More, que foi a causa da vossa perda. Mas é ela também que vos assegura uma glória  eterna. A inocência, que não serviu de qualquer socorro em vida,  protege agora as vossas cinzas»
Que esta glória eterna, doxa, em grego, e que é a luz espiritual, o tal corpo de glória, que devemos fazer renascer e intensificar-se em vida e para além da morte, esteja bem brilhante e dinâmico em Thomas More e John Fisher,  João de Barros e António Gouveia, Fernando de Mello Moser e José V. de Pina Martins, com toda a tradição imortal de filosofia perene dos Humanistas são os nossos votos finais... 
Segue-se o vídeo:
                           

sábado, 18 de janeiro de 2020

Catalogações na Biblioteca de Pina Martins e diálogos. 1ª transcrição, do Diário de 2001


Nos anos de 2001 e 2002 cataloguei abreviadamente a  Biblioteca de Pina Martins a seu pedido e em geral duas vezes por semana ia a sua casa ou subia directamente para o andar da biblioteca e durante cerca de 3 ou 4 horas desempenhava-me dessa tarefa, com ele a trabalhar na sala ao lado, ou então conversando simultaneamente com ele sobre os livros que descrevia. Como mantenho a escrita de diário desde os meus 19 ou 20 anos, frequentemente ao chegar a casa transcrevia da memória cordial alguns aspectos mais valiosos ou curiosos. E partilho agora o primeiro neste dia 18 do XI de 2020, dia em que comemoramos exactamente o 100º aniversário desta grande alma que entre nós passou como José Vitorino de Pina Martins, na fotografia já nos seus últimos tempos terrenos, sob as bênçãos de Santo Erasmo. Muita gratidão por tantos belos momentos passados em convívio bibliófilo, humanista e espiritual. Muita Luz, Amor e Presença Divina nele...
Este é um dos primeiros registos: terça-feira, 6 do XI de 2001, catalogação das 15:15  às 18:45. 
Este sábio [Pina Martins] contou-me como tendo sete anos foi levado pelo prior da sua freguesia a visitar o senhor lente e padre António Garcia Ribeiro Vasconcelos, que morava perto da sua casa natal. Lá foram pelos montes e ele recebeu-os afavelmente, tendo uma luneta astronómica apontada para além dos montes. O prior perguntou-lhe se gostava então de contemplar as estrelas, respondendo ele que sim, mas que também observava outras coisas, entre as quais umas muito curiosas, sobretudo aos fins de semana, entre os milheirais. 


                           Gravura do famoso e belo livro Sonho de Polifilo
Não chegou a Bispo, porque as más línguas queixavam-se ou denunciaram-no mesmo como tendo não só uma governanta mas duas, ao que ele respondera que eram maldades pois elas eram irmãs.
Escreveu uma gramática que se vendia para todos os seminários, liceus e escolas, mas como a Livraria Bertrand não escrevia a data da impressão na gramática latina, uma vez ao fim de alguns anos veio a Lisboa para ver se recebia algum dinheiro. Levaram-no a um armazém mostrando-lhe centenas de exemplares, das muitas edições que faziam sem declarar e assim não lhe pagavam porque não se vendiam. Abandonou a escrita...
E esta história nasceu de eu estar a catalogar uma antologia literária italiana, também não datada, e que fica como “s/d,” na ficha de catalogação... 
 Quando cheguei na estante ao livro de Robert Klein, Le Procés de Savonarola, Pina Martins mostrou-se indignado pela comparação feita por este autor protestante de Savonarola com Calvino, considerando um livro pouco científico. Preferia claramente o dominicano italiano ao reformista e embora Savonarola pregasse fortemente contra a sensualidade e as vaidades, não chegou a ser responsável pela execução de condenados por razões religiosas, tal como foi Calvino, antes sendo ele próprio queimado vivo.
Já quanto a livros críticos contou a história do livreiro italiano Doti, que uma vez ao passar uma bela rapariga italiana disse-lhe: “aquilo é que era um incunábulo”, replicando-lhe Pina Martins que ele Doti não sabia o que era um incunábulo, um livro do princípio da tipografia, pois o que ele estava a gostar era uma edição crítica, pois de facto esta estava muito bem apresentada e melhorada. Eu contestei dizendo que a jovem seria antes comparável a uma boa edição moderna ou até luxuosa.
Do catálogo que chegou anunciando próxima feira do livro antigo em Madrid reparou num livro que o interessaria, o de Pedro Ciruelo, sobre matemática, e explicou uma das razões do seu interesse: um dia seu grande amigo e investigador Eugenio Asensio dissera-lhe que Pedro Ciruelo escrevera que as três coisas mais importantes ou fantásticas da sua época eram o descobrimento dos caracteres móveis, o descobrimento do Novo Mundo e Giovanni Pico della Mirandola. 

Referiu ainda do Ribeiro Vasconcelos, que conta, na sua Utopia III, que a Bocara é a Buraca perto de Lisboa, local onde Pina Martins se encontrou depois de 1974 com o Cardeal Cerejeira, que este lhe contara como Garcia Ribeiro Vasconcelos era homem algo dado as dignidades e que um dia lhe viera provar que havia possibilidade de se reavivarem os arcediagos de Penela e de outra terra, que conviriam a ele e ao Cerejeira e que este se rira e dissera-lhe não percebo nada disso mas, se quiser, que seja. E assim foi Garcia Ribeiro nomeado  arcediago, pois tinha também o porte e os gestos adequados.
Os momentos mais sábios deste encontro de hoje foram os consagrados ao Pico della Mirandola e a Savonarola. Este último conservaria mesmo no fim da sua vida o estudo intelectual e filosófico, e não estava só numa franciscanismo e radicalismo ascético cristão, como eu admitira. E se Savonarola dissera uns dias depois de Pico morrer praticamente nos seus braços dizendo que ele era o homem mais extraordinário da época, mas que não estava no Céu, pois assim lho dissera Deus, estando apenas no Purgatório, porque não seguira a sua vocação, esta afirmação (e se quisermos intuição) de Savonarola resultava do facto de Giovanni Pico se ter recusado  sempre a entrar na ordem dominicana, preferindo manter-se um intrépido cavaleiro do amor, da filosofia perene, da ligação interior a Deus, pensei eu...  
  E quando Pina Martins realçou a importância da obra de Pico della Mirandola e dos seus efeitos ao longo dos séculos, rebatendo a minha ideia que a sua morte precoce também contribuíra para essa atracção que gerou em tanta gente, pôs a questão do quanto  poderia ele ter produzido senão morresse apenas com 30 anos mas com 70 ou mais... 
Eu disse-lhe então que se calhar a sua morte justificava-se porque ele atingira o essencial, o auto-conhecimento espiritual e a ligação com Deus e ainda que nós gostássemos que ele escrevesse, comparasse e investigasse muito mais, isso era o mais importante e por consequência já não precisava de estar na terra e tinha sido arrebatado ao convívio humano. Não valorizamos tanto esta ligação ou religação, mas é bem possível que ela seja o mais importante e quem o conseguiu pode partir do corpo humano animal para o mundo espiritual e divino com o mais importante cumprido. 

                                 Marsilio Ficino, Pico della Mirandola e Angelo Poliziano
Discutimos ainda se há penas de condenação ou danação eterna, o que Pico, na época e na linha de Orígenes, recusou, sendo tal  tese ou proposição considerada herética.  Eu preferi admitir que haja certas pessoas que pela sua oposição e rejeição de Deus e do bem, e depois fazendo tanto mal ou tornando-se tão más e cheias de ódio, se possam auto-destruir enquanto almas individualizadas, regressando o seu espírito ao Espírito original total, mas  Pina Martins acha que o Deus de Amor não pode destruir o que criou imortal, replicando eu que não é Ele que destrói, mas sim as próprias pessoas que se destroem assim como quem põe a mão no fogo se queima. 
O Y pitagórico: a  cada momento sabermos escolher que fogo, que amor, que caminho esplende em nós...

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Humanismo, Irenismo e universalismo no Renascimento e nos Humanistas Portugueses. No centenário do nascimento do prof. Pina Martins.

Com o Humanismo, nos séc. XV e XVI, houve em verdade um renascer civilizacional, graças à antiga sabedoria greco-latina ter sido reaprendida e aprofundada nos seus melhores aspectos, tendendo a afirmar a dignidade humana, o seu livre arbítrio e a cognoscibilidade e aplicabilidade, pelo estudo das Belas Letras, do bem, do belo, do verdadeiro e do Divino no ser humano e na sociedade. A De hominis dignitate, Oração ou Elogio da Dignidade Humana, de Giovanni Pico della Mirandola, unindo as mais diferentes tradições filosóficas e religiosas na exaltação do ser humano como unificador do micro e do macrocosmos, é como que a declaração programática e evangélica do Renascimento.
                                    
                            Giovanni Pico della Mirandola, na biblioteca do prof. Pina Martins.
Operava-se um retorno às fontes do pensamento Ocidental mas também do Oriental, já que a ideia de uma continuada tradição religiosa, de uma Filosofia Perene, presente em todos os povos e nos seus livros, de que Hermes Trimesgisto era a figura semi-mítica arquétipa, foi aceite e demandada por alguns dos maiores humanistas, sobretudo os do sul da Europa, como Marsilio Ficino, Pico della Mirandola, Francesco Patrizi, Eugubino Steuco, etc.
A Villa Caregi, cedida pelos Médici, a Marsilio Ficino e onde se reunia a Academia Platónica.
    A Academia Platónica florentina, e restam-nos algumas descrições por Marsilio Ficino e outros, foi nesse aspecto exemplar e fecundante pois dela participaram em diálogos e celebrações cordiais e luminosas, homens de filosofia, ciência, arquitectura, poesia, pintura, política, que irradiaram depois teórica e praticamente para a civilização Europeia e Cristã, enquanto que Portugal começava a sua metódica colaboração ou contribuição ao nível das ciências da navegação que iria congraçar tão distantes povos e lugares, unindo mais directamente o Ocidente e o Oriente, embora nem sempre irenaicamente, isto é, pacificamente.
Isto aliás foi então tema de controvérsias ou dúvidas, pois se já  os grandes humanistas europeus eram claramente pela resolução do conflitos pela razão e o diálogo e não pela força bruta, e o próprio Erasmo criticava a política de monopólio das especiarias que D. João III lançava,  já os humanistas portugueses se viam confrontados com a ideia de guerra santa, ou que fosse defensiva, contra os inimigos da fé e da expansão em que Portugal estava envolvido.
Erasmo de Roterdão, a voz da consciência da Europa humanista e irenaica
Se hoje em dia por um lado a globalização do conhecimento e dos contactos entre os povos é vertiginosamente maior, com constantes descobertas e relacionamentos na mesma comum religiosidade e filosofia humana, já os ideais éticos e de conhecimento puro e fraterno, irinaico mesmo, ou seja pacífico, do Humanismo do Renascimento tornaram-se menos estruturantes e decisivos numa civilização moderna demasiada dependente dum sistema económico financeiro ao serviço pragmatizado de uns poucos, politizada inferiormente e violentamente, regida por algumas elites dominantes extremamente conservadoras das suas posições e altamente repressivas e manipuladoras dos outros em especial dos que os desmascaram ou contestam, apoiadas nas descobertas e aplicações de ciência e da tecnologia e com muito poucas considerações éticas, estéticas, religiosas e espirituais, antes tudo violentando numa hybris ou arrogância desmesurada, que tem o seu acume no imperialismo norte-americano e todas as guerras que tem suscitado. O contrário do ideal renascentista e já afirmado nos pitagóricos, do "nada em excesso", ou do adágio erasmiano de que "a guerra só é agradável a quem não a experimentou".
As cartas de homens obscuros, lançadas por Van Hutten e outros, ironicamente e com grande suceso, contra a repressão do pensamento e livre expressão
Sendo as fontes do conhecimento na época do Renascimento ao princípio os escassos manuscritos e depois a crescente impressão e acessibilidade do livro, tais demandas e realizações de conhecimentos e valores tiveram nos seres bilingues e trilingues ou mais, os que deram melhores frutos comparativos, na época sobretudo na leitura dos textos antigos de latim e do grego, ou ainda do árabe, hebraico, caldaico e persa, para se estudarem e publicarem melhor textos religiosos e filosóficos (basicamente, por um lado a Bíblia e os primeiros padres da Igreja, por outro os ditos autores pagãos, seja de literatura na sua elegância, seja na filosofia e espiritualidade), funcionando o latim e o grego como as línguas francas do conhecimento, da investigação, da retórica, embora lentamente nos séculos XVII e XVIII começassem a ser abandonados pelas línguas nacionais, que foram assim fortificando-se para poderem abandonar as matrizes antigas e começarem a gerar comunicações novas com as ressonâncias anímicas mais susceptíveis de serem compreendidas por todas.
 Hoje em dia, embora haja muitos investigadores dominando tais línguas e outras e partilhando os seus conhecimentos em publicações internacionais e em redes alargadas da web, a grande maioria da população sofre uma certa manipulação e massificação proveniente das fontes já distorcidas e obscurecedoras de informação anglo-saxónicas e uma consequente perda das possibilidades de aprofundamento fraterno das múltiplas notícias, sabedorias, criatividades e propostas de outros países e idiomas culturais que não sejam os nacionais, frequentemente de fraca qualidade, ou alguns poucos de outro países que se destacaram por grandes sucessos e saem da zona obscura e marginalizada do mundo não submetido ao império norte-americano.
A essência humanista, a dignidade do homem, a sua universalidade, a sua autodeterminação, ainda que nos nossos dias continuem teorizadas e até por muitos filósofos e grupos cultuadas, encontra contudo por parte das classes dominantes mundiais muita recusa, menosprezo ou mesmo repressão e opressão.
Marsilio Ficino, Giovanni Pico della Mirandola e Angelo Polizano num fresco florentino.
O ideal da República das Letras, pacífica, culta e prospera, sonhado por Marsilio Ficino, Pico della Mirandola, Erasmo, Lefevre d'Étaples, Froben e outros, utopizado por Thomas More, Francis Bacon, Campanela, Valentim Andrea e outros, com alguns reis ou príncipes receptivos, se volta e meia se reanima em alguma assembleia política, em algum congresso mundial, em algum colóquio mais internacional, em algum livro como a Utopia III de Pina Martins, logo se esfuma perante a titânica luta dos Estados pelos bens dos outros, destacando-se nisto o imperialismo norte-americano e dos seus aliados contra os que não se sujeitam a ele. 
    Jacques Lefèvre d'Étaples, impulsionador do livre exame das Escrituras, animador do cenáculo de Meaux, tradutor dos Evangelhos e de textos patrísticos, comentando-os...
Uma parte substancial dos recursos ou dinheiros aplicados à demanda e partilha de conhecimento humano acaba por servir para uma competição imensa e frequentemente violenta entre os Estados e os povos, as melhores inteligências sendo compradas internacionalmente para em Universidades ou centros de investigação servirem para perpetuar domínios injustos e para serem utilizadas para descobrir como fazer o mal, ou fortificar as capacidades letais de domínio internacional ou opressão policial e militar.
                                                 
 A ciência que se desenvolveu no Renascimento tardio ou no segundo Renascimento, e fez tantas descobertas importantes, desde as dos portugueses às de Leonardo da Vinci, acabaria por vir a tornar-se uma ciência progressivamente despida do enquadramento humanista, perdendo-se o ser humano como o centro de todos os valores e fins, embora sem dúvida uma maior consciência da dignidade de todos os seres vivos, nomeadamente dos direitos dos animais tenha crescido bastante.
S. Thomas More, num santinho oferecido pelo abade Germain Marc'hadour, grande moreano amigo de Pina Martins.
Assim as utopias iniciadas por Thomas More, e logo seguidas por Campanela, Bacon e outros, com alguns líderes mundiais a tentarem realizar algo desse bem para muitos, e nem referiremos os sonhos do reino do Espírito Santo ou as mitificações do V Império português, acabaram por soçobrar quanto à aplicabilidade no decorrer dos tempos, chegando ao séc. XXI quase esmagadas pela elefantíase da civilização norte-americana e do sistema oligárquico mundial, enquanto na Europa o sonho duma União Europeia humanista se tornou uma desilusão total, sobretudo na cena internacional, vendida a grandes interesses de países ou corporações, e pouco se esforçando por fomentar e proporcionar harmonia, ecologia, justiça, felicidade, evolução e aperfeiçoamento...
O Irenismo ou Pacifismo dos Humanistas deve então ser realçado fortemente, nomeadamente nos nossos dias de ameaças de novas grande guerras, lembrando tanto a Utopia de Thomas More e o adágio Dulce bellum inexpertis,
por Erasmo desenvolvido magistralmente e vivido exemplarmente, propondo sempre o diálogo e as negociações para os conflitos seja religiosos seja políticos, como também todos os outros, tais como o nosso Damião de Goes, que quiseram e lutaram por sociedades mais educadas e livres, vivendo em respeito, paz e diálogo, deixando assim ideias, métodos, sacrifícios e exemplos futurantes, bem necessários hoje (VIII-2022) quando vemos milhares de livros da Santa Rússia a serem queimados...

                               Assinatura de Damião de Goes, um santo mártir nosso...
José V. de Pina Martins, de quem comemoramos o centenário do nascimento neste ano de 2020, foi um grande investigador, expositor e representante do Humanismo e do irenismo nos nossos dias, conseguindo até face a alguns ataques e bloqueios  sofridos em instituições a que presidiu, como me narrou, manter a sua dignidade e calma, preferindo o caminho irenista do diálogo ou mesmo da aceitação sacrificial. 
Pina Martins, com as vestes de doutorado na Sorbonne parisiense, junto a Giovanni Pico della Mirandola.
    No ano de 1986, no Colóquio Sobre Portugal e a Paz, efectuado em Lisboa na Academia das Ciências, a que tantas vezes presidiu inexcedivelmente,  José V. de Pina Martins proferiu uma notável conferência, intitulada o Conceito de Paz nos Humanistas Portugueses, na qual, mostrando como Petrarca, Lorenzo Valla, Marsilio Ficino e Pico della Mirandola foram plenamente irenistas, verberando a violência que rebaixava os seres humanos a sub-animais, já que os animais não tinham nem as vaidades nem os ódios humanos, fora com Erasmo que tal irenismo atingira o seu ponto máximo e a sua formulação mais precisa, baseada nos ensinamentos de Jesus Cristo nos Evangelhos, na patrística (particularmente  S. Agostinho), em fontes pagãs ou clássicas, e nos humanistas seus predecessores, e ainda no bom senso, escrevendo as suas cartas e adágios que se tornaram grande sucessos em toda a Cristandade, nomeadamente pedindo aos que queriam converter os turcos que se convertessem primeiro, e que dele  fortificara-se tal pacifismo em admiradores, discípulos ou confabuladores, como o catalão Luis Vives ou o nosso Damião de Goes,  exercendo-se ainda, embora mais condicionada pela missão expansiva conflituosa portuguesa,  em João de Barros, André de Resende e um pouco em Jerónimo Osório.
Ao finalizar, "em conclusão", em seis parágrafos tal valiosa conferência, começa assim:«O Humanismo renascentista, pelo que diz respeito ao seu programa ético e político, é pacífico e irénico. Os grandes humanistas de Petrarca a Erasmo, de Marsilio Ficino a Vives, de Giovanni Pico della Mirandola a Guillaume Budé, preconizam a paz como um imperativo fundamental para que, na sociedade, os homens possam encontrar, tanto quanto possível, a felicidade na sua dimensão de bem estar individual e comunitário, condições aptas à obtenção de bens materiais e espirituais. O estabelecimento de leis justas que regulem as relações entre os membros da mesma comunidade, a harmonia entre as diferentes comunidades ou Estados, tudo isso é indispensável para que a paz possa florescer e frutificar, cornucópia da abundância para todos homens, para me expressar com uma imagem erasmiana. Os humanistas portugueses estão, a esse respeito, de acordo com os humanistas europeus.
Não obstante, os humanistas portugueses compreenderam a situação histórica de Portugal na sua especificidade sobretudo em relação à expansão islâmica e não hesitaram por isso mesmo, cada um à sua maneira, exaltar empresas que, se interpretadas á luz de uma concepção moderna - o que o historiador digno deste nome não pode nem deve fazer -, não deixarão de parecer belicosas, mas que, à sua forma mentis [mentalidade], plasmada por um Humanismo europeu que não havia obliterado a sua fidelidade a uma vocação nacional, surgia numa perspectiva historicamente explicável. E isto mau-grado o seu irenismo e o seu ecumenismo, aberto não raro ao diálogo, até com as mais discutidas  figuras da Reforma, tal o exemplo de Damião de Góis.».
Damião de Goes, sem dúvida o português mais erasmista e em especial irenista, pelo seus diálogos com os humanistas católicos e protestantes já em plena Reforma mas abertos  à paz, pela sua defesa dos Lapões serem ensinados e não forçados a converterem-se, e pela valorização do cristianismo etíope dos Prestes João e de uma religião de coração e não de ritos, preceitos, intermediários e superstições. 
                        O sábio Damião de Goes, grande amigo e discípulo de Erasmo.
  Tal como Desiderio Erasmo  dissera a propósito de ser lícita a guerra ou conversão dos Turcos, na versão de Pina Martins exarada na sua importante obra Sobre o Conceito do Humanismo (p. 246) e citada nesta conferência no Colóquio sobre Portugal e a Paz: «Erasmo observa que só com as armas cristãs os cristãos poderão submeter os Turcos, e essas armas são uma vida pura, o desejo de bem fazer aos inimigos, a paciência perante as ofensas, o desprezo do dinheiro e da glória». 
Possamos nós estar mais em paz e transparência à nossa consciência e essência espiritual, abertos lúcida e amorosamente aos outros, aos mestres e anjos e ao Ser Divino, e assim Portugal ser mais um pais irenista, ecológico, de diálogo ecuménico e fraterno, e não seguidor ou acólito de imperialistas mas sim universalista. 
            A marca ou empresa, bem ascensional e espiritual, do sábio e prolífero impressor humanista Ioannes Froben, grande amigo de Erasmo.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

O poeta, o doutrinador, o ser, em Duarte Montalegre, ou José V. de Pina Martins na sua juventude. No centenário do nascimento.

Os livros do prof. José Vitorino de Pina Martins (1920-2010) escritos sob o nome literário de Duarte de Montalegre, embora nascidos na sua juventude (o primeiro com 21 anos), espraiaram-se por cerca de vinte e quatro anos até ele regressar ao seu verdadeiro nome, provavelmente por compreender melhor a sua vocação de investigador rigoroso do Livro, da Cultura e do Humanismo. 
 Quem  o viu assim também foi João Bigotte Chorão, o emérito camiliano, sempre afável nos diálogos que travava, num pequeno texto de 2011, na Revista de Estudos Italianos, sobre Pina Martins e a Literatura Italiana: «Ao despedir-se do pseudónimo, o autor dos Ensaios de literatura europeia achava que a esses e outros escritos faltava lastro cultural, erudição indispensável, bibliografia exaustiva. Eram textos de carácter divulgativo, nada mais do que isso. Mas divulgar um tema ou um autor não pressupõe conhecimento aprofundado que se expõe sem aparato crítico? Das cinzas de Duarte de Montalegre, nasce o erudito humanista, o ilustre académico Prof. Pina Martins.»
Serão razões  mas também o contacto com a intelectualidade europeia e mesmo com o Humanismo italiano terão relativizado o  fogo de militante universitário católico, em  luta com as forças dissolventes ou anti-religiosas do sensualismo e materialismo,  comunismo e até neo-realismo, algo pouco visível  na sua poesia mas bastante nos textos do jovem doutrinador. 
 Com efeito, a sua 2ª publicação, 1942, aos vinte e dois anos, Juventude e Educação, foi inicialmente uma tese apresentada na II Semana de Estudos Sociais da Juventude Universitária Católica, realizada no Porto, lida diante das autoridades religiosas e oficiais,  integrada depois nos fascículo 6-7 da revista Estudos e só em seguida brilhando autónoma como separata  impressa por Pina Martins nas oficinas da Gráfica de Coimbra. 
 E se na capa continua com a socrática e espiritual vinheta do seu primeiro livro, o afastar os véus (do olho do discernimento) para a abertura à visão do Sol nascente e íntimo,  já na contracapa são transcritas as opiniões de nove personalidades amigas que comentaram o seu 1º livro, de poesia, Pregunta de Pilatos, (neste blogue já apresentado), todas elas reconhecendo tanto o fundo sério e intelectual como a sensibilidade artística e o anseio místico. 
 Quem escolheu ele, jovem estudante, para seus padrinhos? -  Dr. Afonso Lopes Vieira, Dr. Alfredo Pimenta, Amália de Proença Norte, Aurora Jardim, Belarmino Pedro, Dario de Almeida, Eduardo dos Santos, Dr. José Gonçalves Dias, Dr. P. Urbano Duarte. Este, escreveu: «São poemas. Não trajam moda comum e fácil. Não é um coração ferido pela seta, é uma inteligência preocupada a falar ao som do ritmo e da harmonia.» Já Aurora Jardim caracteriza-o bem:«Versos que correm em busca da Verdade - sua definição e síntese - versos dum abstracionista que parte do seu intimismo para a vastidão infinita do Universo (...)».
A conferência Juventude e Educação tratava na 1ª parte da "Juventude em geral", em função da vida, a de ontem, de hoje e de sempre, sua psicologia, fé, corpo, inteligência sensibilidade e verdade, e da Juventude Universitária Católica. Já na 2ª parte, da "Educação da Juventude em função do Homem", equaciona que há «uma educação da sensibilidade, da vontade, do carácter, da imaginação, pela subordinação de todas as actividades do Homem aos imperativos morais. (...) Eis porque todas as palpitações da nossa alma, todos os movimentos volitivos e todos os desejos e todas as sensações e toda a vida em suma do Homem, devem ser norteadas pela norma. E assim, pela educação integral o homem será Homem integral, isto é, perfeito, pelo menos em vontade impertérrita de o ser, pois caminha triunfantemente para Deus. E Deus está no coração daquele que, integralmente, o procurar.» 
Eis-no com uma metodologia acertada e perene, a da unificação de todas as nossas forças instintivas e anímicas, de que pode resultar a aproximação ao íntimo coração, aonde a Divindade se pode manifestar, mistério que deveremos sempre tentar meditar e aprofundar...
Vemos então que após a primeira desvendação do seu estro poético, A Pregunta de Pilatos, Pina Martins passa a partilhar a sua vocação de pedagogo, moralista, militante católico, traduzindo ainda os livros volumosos sobre Jesus Cristo de Reynès-Monlaur e Karl Adam, e esta polaridade alternante continuará nas próximas obras já que a terceira, de poesia, intitula-se Angústia, e sairá no ano seguinte, 1943, dedicada "ao eminente jurisconsulto Dr. José Gonçalves Dias, com poemas de grande beleza e cultura, unindo sensualidade e divindade, tristeza e felicidade, angústia e força dirigida.
                                        
Estão agrupados em 12 conjuntos, o I - Poemas Homens e Deus. II - Poemetos da Hora Nostálgica. III - Sombras que descem. IV - Bailado de Karsavina. V - Cantares do Reino da Noite. VI - As Vozes do Silêncio no Reino da Noite. VII - Pequenas Tanagras do meu sonho. VIII - Cariátides do Mundo da Quimera. IX - Vertigem de Shéhérazada. X - Diário. XI - Desencontro. XII - Renúncia. Transcrevamos dois do VII, para sentirmos algo do que o jovem Pina Martins vivia animicamente na época:


«Acordo agora: agora me acordei
e lanço fora os braços, do meu leito,
Olho a janela: e olho o senhor Rei
da luz e dela aceito a vida, aceito.

O sol travesso abriu-se em riso e côr.
Ao sol eu peço a luz que já me deu.
Salto da cama: a luz faz-se maior
e numa chama abraça o corpo meu.

A luz desvaira as carnes que se dão.
No quarto paira a ânsia do meu grito
E nesse beijo eu ponho uma oração

- que o meu desejo vai rezando ao Infinito.

         II

«Tanagra  do meu sonho desta noite:
- Vem dos longes longínquos do além-sonho
tornar mais branda a sombra que me afoite
neste rebate de medo tão medonho!

Tanagra do meu sonho: és tão pequena
que na palma da mão posso apertar
o teu friso de carne mais morena
que a mais morena vaga do alto mar!

Tanagra!

Vem serenar a tempestade da alma
que se ergueu dentro de mim; e sagra
no teu encanto breve a minha noite; acalma
a borrasca  de uma ansiedade tanta!
E ri e beija e chora e chora e canta
e faz-te a carne da minha carne magra,

- Tanagra -

A obra conclui com um Posfácio auto-crítico onde defende dever «comunicar o que é relevante ao conteúdo da sua mensagem humana, ao significado dos seus dramas, fixados em poesia, à novidade dos seus processos técnicos e à razão de ser que lhes suporta o visceral fundamento (...) é que se a missão do poeta é realizar-se pela beleza, num perene esforço de perfeição ideal, ele carece de não esquecer que toda a Beleza é comunicativa, tendendo a difundir-se, por simpáticos influxos, através das sensibilidades, das almas.»
Explica ainda como muitos dos poemas nasceram nas férias grandes em 10 dias de febre e cinco de convalescença,  e outros já tinham sido publicados na revista Estudos, no Novidades de 21.V.1942, e no Ilhavense.
E se nos dá assim algumas pistas para as suas irradiações poéticas em jornais e revistas, mais à frente dá-nos uma para o seu pseudónimo de Montalegre, exigente pois: «Não quer isto dizer que os meus versos sejam rudes, naturalmente agrestes ou vigorosos, do vigor das coisas do monte. Antes tal fossem: ganhariam de excelência por verdade real, o que de requinte não poderiam ter, por verdade fictícia.»
Compara ainda os seus dois primeiros livros de poesia: «Como a Pregunta de Pilatos, Angústia é um livro de experiência psico-agónica. Só que os poemas do primeiro revestiram caracterização ascético-metafísica, de cunho acentuadamente abstractivo, onde a estrutura do segundo, muito mais transparente, reveste caracterização simbólica, de cunho nitidamente sentimental»
De vários dos poemas, entre os quais os que trancrevi, dirá: «neles palpita uma ânsia de definição tão profunda e humana, uma angústia tão sincera e fremente, que deixar de publicá-los seria - penso - quase abdicar, como artista, do mais nobre coronal do artista: o direito, senão o dever, de mostrar, aos homens e a Deus, os meandros mais escondidos do sentimento agónico», explicitando depois que «através da angústia, - a grande experiência das almas, consegue atingir-se os cumes da Graça.» É uma pedagogia de assunção das dores e dúvidas, desassossego e melancolia, culpas e tristeza, num canto e batalha de aspiração à luz, ao amor, ao Divino.
Escritas as suas primeiras obras quando lavrava o incêndio angustiante da 1ª grande Guerra, será então que o seu pseudónimo ou nome literário ecoa o nosso rei D. Duarte, tanto melancólico como doutrinador, do Leal Conselheiro, enquanto o Montalegre é como o monte rude (referido anteriormente), sincero, verdadeiro, que se ergue luminoso ou alegremente na paisagem e percurso atribulado, também espelhado por Paracelso no seu lema Ad astra per aspera?
         
A sua quarta obra publicada, em 1943, O Amor Redenção do Mundo Moderno (que posteriormente será referida, por razões conjecturáveis, sempre sem o Amor), dedicado a Virgílio Godinho, com apreciações na contracapa de Teixeira Pascoaes e de Marcelo Caetano, é de proselitismo cristão, católico e de esperança que a guerra termine brevemente e que a Humanidade renasça. Inicia com uma crítica ao messianismo de Nietzsche e à filosofia comunista, pois «há uma ética de esforço que postula essencialmente a realização humanística: a ética cristã. Faltando ela, fatalmente o humanismo falhara pela base e será, então, antropolátrico, demolátrico, estatolátrico ou qualquer coisa similar; porque não pode compreender-se o homem num quadro de isolamento individualista, sem se atentar em mais altos valores, coordenados ao seu próprio valor intrínseco e metafísico.» Estas reflexões são perenes, e com actualidade redobrada face ao terrorismo, ao neo-liberalismo individualista e globalista e à feroz repressão  por governos neo-conservadores.  O texto termina com muita fé:
«Acreditemos firmemente nas forças do homem!
Acreditemos firmemente na sua potencialidade para amar!
Acreditemos que só da caridade promana a redenção!
Acreditemos  no génio cristão e civilizador da cristã e civilizadora Europa!
Acreditamos, enfim, que sobre a ruína das nações abaladas, uma nova ordem se erguerá, em aurora, para levar a vida - a vida do amor - à velha morte do ódio.»
Todavia, a evolução histórica parece desmentir a esperança optimista sonhada por Duarte de Montalegre quanto à missão da Europa, hoje cada vez menos cristã e civilizadora, antes subjugada por tendência belicistas, globalistas ou mesmo as imperialistas da USA e da NATO...
        
Em 1945 sai em Braga a 5ª obra, apologética, Cristo no Pensamento Moderno, um trabalho valioso de investigação, no qual Pina Martins procura defender as doutrinas ou teses do catolicismo face às diferentes interpretações gnósticas, heréticas, racionalistas e modernistas, tentando provar ainda que só a revelação de Jesus e do seu amor caridade é suficiente e completa, face às antigas religiões, que vai descrevendo de forma abreviada e com as limitações do que conhecia, reservando maior apreciação para Sócrates e Platão. "Das heresias contemporâneas salientarei o socialismo, o liberalismo e a estatolatria pagã do marxismo-leninismo" e contra elas escreve as últimas páginas, antes de concluir com o apelo a seguirmos o "sulco luminoso que ele [Jesus] traçou, com o seu novo mandamento de amor; não devemos transigir com os erros grosseiros que o negam, pois negar-nos-íamos assim, nós que nos julgamos, como valores, participações da Verdade Suprema; não devemos enfim seguir outra norma de conduta, que não esteja contida na mensagem vitalista do seu Evangelho. Só por este meio nos realizaremos no Senhor, em pensamento e acção; e só por este meio, com efeito, demonstraremos a presença de Cristo em nós e no meio de nós. » 
Às sessenta e duas páginas do ensaio seguem-se cinquenta e três contendo 125 extensas anotações, ligadas a  citações de autores,  concluindo, em onze páginas, com À margem das anotações, onde critica de novo Hegel, o Comunismo e, mesmo no fim, Oliveira Martins por ter escrito no II vol. da História da República Romana (1885) que o «Cristianismo é uma alucinação fúnebre que substitui ao realismo naturalista um realismo fantasmagórico, e ao culto do Amor desenfreado o culto desvairado da Morte. S. Paulo é um António que traz nos braços o esqueleto de Cleópatra», encerrando persuasivamente: «Não se apercebeu Oliveira Martins de que para a concepção cristã, o homem só se realiza no Infinito pela superação da morte, e que, como disse George Valois (Le Père, Paris, ed. définitive, 1924. p. 122), «l'amour tue la mort», paráfrase do Amor omnia vincit, ou mesmo do soneto de Antero Quental, Mors Amor, já trabalhado neste blogue, Antero a quem Pina Martins dedicou uma tese ainda hoje inédita, pois foi só policopiada...
 E acrescenta «Não é verdade que as almas simples sentem Deus tão naturalmente, como sentem o calor do sol ou o perfume de uma flor?» (A. Carrel, A Oração, Livr. Tavares Martins, Porto, 1945. p. 17). Temos de amar a beleza da ciência e também a beleza de Deus (Idem, ib., p. 44). Se a razão pode amar, por ela mesma, a beleza da Ciência, foi Cristo que nos ensinou a amar a Beleza de Deus. E nós precisamos de Deus, como o peixe de água e o coração de amor». 
                                            
No ano seguinte, 2ª grande Guerra já terminada, 1946, Duarte Montalegre ou Pina Martins dá à luz Cântico, na colecção Poesia Nova, de Lisboa, quem sabe pela sua amizade a Miguel Trigueiros, onde manifesta a sua religiosidade intensa, da aspiração e entrega a Deus, de corajoso enfrentar da noite e isolamento, sofrimento e morte (na linha de Antero de Quental, uma das suas almas fontes na época) e, simultaneamente, de procura, sonho e entrega à amada que tanto deseja, sincera e de toda a sua alma e sangue. Tinha 26 anos...
Após uma bela Oração Matutina ao Senhor, encontramos Os Primeiros Poemas de Amor, Do Longe e do Sem Fim, Verbo e Sangue, Cântico da Saudade, Cântico do fim da Noite. Oiçamo-lo no antepenúltimo poema, Voz do Poeta para Aquela que há de vir antes do fim da noite, decerto um apelo àquela que viria a ser a sua mulher, a Primula:

"Vem, ó minha Esposa perdida para sempre
No longe e no sem fim do esquecimento!
Vem, ó Minha Irmã deixada para sempre
No rio Létis da sombra que deixei!
Vem, ó Razão que me assiste de gritar
Por aquilo que a vida me não deu!
Vem, ó Sonhada Esperança do meu beijo
E partamos para o mar de uma aventura
Antes que a noite termine onde eu termino
E desça à nossa dor o Espírito Divino
Que nos há-de ressuscitar."
 
Sugestiva e bela face duma alma luminosa ao lado do poema Aquela que há de vir...
 A ordenação neste livro das suas sucessivas obras, estaria já a preparar o desaparecimento de Duarte Montalegre? 
«Verso: Pregunta de Pilatos, 1941; Angústia, 1943; 2ª edição, com um prefácio de Plínio Salgado, 1945. Cântico, 1946.
Doutrina: Juventude e Educação, 1942.  Redenção do Mundo Moderno, 1943. Cristo no Pensamento Moderno, 1945.
Investigação: Ensaio sobre o Parnasianismo Brasileiro, 1945. Eça de Queirós - Reflexões para um ensaio sobre o seu ideário ético-estético, 1946. Apontamentos Críticos e Literários (a sair)» 
Não registou algumas das traduções realizadas, e por vezes bastante volumosas, até pelos seus prefácios, como é o caso de Últimos passos de Jesus, editado em Braga na Editorial Nós, em 1945, com CXVII páginas. O exemplar que possuo foi oferecido com dedicatória ao poeta Miguel Trigueiros, tal como, já em 1947, em Coimbra, na Casa do Castelo-Editora, o volumoso Jesus Cristo, de Karl Adam.
 Não sabemos que intuições e intenções precisas se geravam no seu caminho ascensional, mas ainda sairão alguns livros de apontamentos ou ensaios críticos e literários (mais religiosos, e sobre Pascal) sob nome o Duarte de Montalegre, bem como os seus últimos cantos poéticos, em 1950 em Itália, Soffio della Note e, finalmente, Rio Interior, escrito entre 1950-1953 e publicado em 1954, em Lisboa, quando era leitor de Língua e Literatura Portuguesa  em Roma, sentindo-se nele uma crise religiosa, numa certa linha anteriana, já que mau grado todo o diálogo, escuta interior e oração ao Deus bíblico  da sua infância (de facto, uma tão limitada concepção de Deus), Jeová não lhe respondia. 
 Todavia, o seu rio de sonhos e aspirações erguia-se matinal e optimisticamente, sublimando a sua aspiração divina nos livros e na sabedoria humanista, por onde se iria aventurar com tanto rigor e ciência quão prodigiosa fecundidade e convivialidade por toda a Europa (nomeadamente Roma, Poitiers e Paris), então bem mais humanista e irenista.
Muita Luz e Amor para José Vitorino de Pina Martins e para a Primula.