quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Francisco Peixoto Bourbon, "Como eu vi o Poeta". Tentando descrever a figura ímpar de Fernando Pessoa. 1º contributo.

                                                                

Conheci ainda Francisco Peixoto Bourbon (1908-1992), um dos admiradores e amigos de Fernando Pessoa que se reuniam no café lisboeta Montanha à volta do genial poeta nos últimos seis anos de sua vida terrena (1935). Natural de Celorico de Basto, engenheiro agrónomo, activo em alguns organismos oficiais e professor, muito culto e com boa biblioteca que já lhe vinha de família, era amigo, conterrâneo e ainda parente do meu pai, vivendo com a mulher e a filha Mafalda no seu belíssimo e antigo solar ou Casa do Melhorado, junto a Fermil,  e onde me acolheu ainda nos anos 80/90 para animados diálogos, sobre os quais escrevi alguns registos nos meus diários, além de ter conservado cartas (50), fotocópias de artigos de jornais (acima de 40) e três folhas dactilografadas e corrigidas a tinta, enviando-lhe eu algumas fotocópias de documentos do espólio pessoano inéditos que lhe interessavam.
Neste dia seguinte ao do meu aniversário, sinónimo de aproximação da morte e logo de pensamentos ou até orações sobre pessoas amigas que já partiram desta terra física, resolvi iniciar a transcrição de s documentos da correspondência com esta alma valiosa e simpática, amiga de Fernando Pessoa, e que sobre ele transmitiu muita informação desconhecida.
Anote-se que 66 arti
gos seus pessoanos, escritos entre 1972 e 1973 no Eco de Estremoz,  foram publicados em 2016 pela Câmara Municipal de Estremoz e a edições Colibri, com um prefácio do amigo José Barreto, Evocando Fernando Pessoa. A sua filha Mafalda ofereceu-me  um exemplar num encontro de família em Frades em 2017, com uma dedicatória simples mas tocante: "Do Pai para o Pedro! Mafalda", o que me levou a ler o livro, e anotá-lo até bastante, e resumi-lo em:  https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2017/07/evocando-fernando-pessoa-francisco.html.

Como prometera à Mafalda tentar avançar com a decifração e publicação de algumas  das cartas, em homenagem ao pai, e como conversando com o José Barreto lamentámos os dois não ter havido  interacção com os escritos de Peixoto Bourbon que possuía, eis o início de a lenta transcrição de alguns dos artigos e cartas, tanto mais que as informações publicadas no livro complementam-se com estas,  enriquecendo a valiosa compreensão do ambiente cultural duma época, dum grupo, de Portugal e, claro, de Fernando Pessoa.

 Eis o 1º texto, dactilografado, que primeiro intitulara Tentando descrever a figura ímpar de Fernando Pessoa, e ao enviar-me substituiu a tinta por Como eu vi o Poeta, e que complementa até a visão dada no artigo nos Ecos de Estremoz, do dia de 9 de Dezembro de 1972,  no qual partilha, como observador arguto e empático,  vários aspectos da personalidade e alma do poeta.

«Decorrido que são cinquenta anos sobre o falecimento do saudoso amigo conservo, bem viva, na memória e como se fosse ontem, a imagem de Fernando Pessoa. Era de mediania estatura, magro e mantendo sempre porte muito hirto e até quando andava, com os seus pequenos passos apressados, tinha tendência não a curvar-se mas projectar o tórax para trás.
De cor macilenta e pele fina era de notável parcimonicidade de gestos. Tinha testa muito alta e quando o conheci ainda tinha bastante cabelo, andando sempre irrepreensívelmente barbeado e penteado e usando risca do lado esquerdo, nada de risca ao meio do tempo da sua juventude e como foi retratado por certo pintor espanhol.
Mas ao longo dos seus últimos anos sofreu queda abundante de cabelo que deveras o contrariava pois, segundo dizia, o seu formato craneano não era dos mais favoráveis a suportar uma careca.
Mas o que mais impressionava em Pessoa era o olhar, apesar de andar sempre de óculos, género luneta, observava-se um olhar extraordinariamente vivo, directo e tão penetrante e profundo que chegava a quem não estivesse habituado à sua convivência, a incomodar. Mas aqueles olhos escuros e por vezes, maliciosos, emprestavam um ar aristocrático, que nãos e pode mais esquecer. Mas, não raro, e na intimidade, exprimiam uma doçura e nostalgia sobremodo comovente.
E nos dias em que declarava não estar cerebral mas medular, por virtude de noite mal passada, mais se vincava tal doçura e nostalgia. Mas mesmo quando havia nele expressão de melancolia, triste mas doce, o olhar era penetrante e revelando uma inteligência sem par.
Trajava sempre fatos de cor muito escura. O único fato claro que teria mandado executar, e que teria sido escolhido numa tarde de lusco-fusco jamais o vestiu, pois uma vez a obra acabada não se sentia à vontade com ele.
Mas o trajar, o olhar, a parcimónia de gesto, a forma de falar em tom baixo mas sempre sobremodo urbano imprimiam-lhe um ar tão aristocrático que, para a época, era já um anacronismo e que causavam respeito e admiração por parte de todos que dele se abeiravam e com ele conviviam.
E as suas mãos brancas que contratavam com a cor macilenta da face, eram quase diáfanas e acrescentando ainda uma nota favorável à sua grande elegância e maneiras, o 
que não passava desapercebida mesmo para quem não fosse dotado de espírito observador
E tudo tendo um ar tão natural e não pretensiosamente cultivado, diremos, antes, rebuscado.
Uma particularidade houv
e que então muito me chocou.
Vinha do Norte onde são mais acentuados os rigores do clima que se torna, como é sabido, bem mais benigno em Lisboa graças às duas massas de água que são o Oceano e o rio Tejo.
Ora no Norte usávamos fatos de Inverno e de Verão, que se usavam ou punham de lado, quase por determinação do calendário.
Pois nunca vi Fernando Pe
ssoa trajar um fato nitidamente de Inverno ou de Verão. Havia como que lançado a moda do fato da meia estação. Quando vinha o inverno envergava um sobretudo mas e apesar de ser um friorento, nos últimos anos como que pôs de parte o sobretudo envergando gabardine azul, mas de azul muito escuro. 

(...)» Continuarei a transcrever...  

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