terça-feira, 12 de dezembro de 2023

"Porque se matou Antero?" 1º Visc. de Carnaxide, num soneto. Fernando Pessoa, Madame Brouillard e Beatriz Delgado

O 1º Visconde de Carnaxide, António Baptista de Sousa, em 1915, pouco antes de receber o chamamento da Musa poética, ou do seu Génio...

    O 1º Visconde de Carnaxide, jurista e publicista, gerou um valioso soneto acerca da causa do suicídio de Antero de Quental, religando-o à Divindade, e incluiu-o na sua terceira obra poética, intitulada Em Pleno Inverno, publicada em Lisboa pela Parceria A. M. Pereira, em 1923, num in-8º de 323 páginas, com cinquenta e oito de prefácio, onde partilha  as críticas de jornais à sua poesia e as respostas às duas  negativas, à de Lourenço Cayola, no Diário de Noticias, o qual se recusara publicá-las no jornal. Nelas rebate as acusações de que as "composições tratam exclusivamente de assuntos frios, vulgares, sem interesse", que «não há uma nota de lirismo ou de ternura em nenhum delas para que a obra seja considerada poética» e que na «técnica havia defeitos, tais elisões abusivas». Eram de facto juízos desagradáveis para o jurista e poeta que as contestara esforçadamente em três cartas, pugnando pelo direito à resposta, mas que Augusto de Castro, director e Lourenço Cayola, redactor e crítico, se opuseram, talvez até por ser um jornal importante e que não convinha mostrar fraquezas ou parcialidades.
É possível ainda que Lourenço Ca
yola  apreciasse dar umas ferroadas à recém vocação poética de António Baptista de Sousa (1847-1935), natural de Vila Real, licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra e logo advogado e jornalista na sua terra natal, nomeadamente redactor do periódico bi-semanal Progresso do Norte (para onde escreviam os amigos bispo de Viseu e chefe do partido Reformista Alves Martins, Veiga Barão e Adriano Antero), e que veio a ser ainda funcionário judicial,  deputado de 1880 a 1890 e mesmo Par do Reino em 1894, sendo feito Visconde de Carnaxide em 1898 pelo rei Dom Carlos. Foi ainda administrador de várias empresas e Sócio da Academia das Ciências e de academias de Espanha e Venezuela.  Pois já com mais de setenta anos de idade, ainda Director da conceituada Revista do Direito e com um  tal passado, como se atrever a ser poeta? 

Que o Visconde estava ciente da admiração que causava essa nova faceta do seu génio, e o título do livro reflecte-o, Em Pleno Inverno, tal como os dois anteriores, ao intitularem-se No Outono da Vida, de 1920, e No Fim do Outono, dado à luz em 1922, este sendo o visado por Lourenço de Cayola. 

A letra do Visc. de Carnaxide, em 1920, no seu livro Outono da Vida.
 Anote-se que a veia poética, que mesmo a ele o surpreendera, continuaria com um Quarto Livro de Versos, de 1928 e, finalmente, Canto de Cisne, Quinto e Último Livro de Versos, já de 1932.  Partiria para os mundos espirituais em 1935, tal como Fernando Pessoa (com 41 anos menos de vida...) e que até o mencionou numa lista de nomes de 205 pessoas importantes às quais Fernando Pessoa enviou (ou listou para enviar...) um ou os dois  panfletos (Aviso por causa da Moral, Sobre um Manifesto de Estudantes) de protesto contra a censura e destruição de dois livros considerados imorais por uma associação de estudantes católicos e que as autoridades aprovaram.

No Fim do Outono, após esse longo prefácio de jurista poeta defendendo o Direito à Resposta, tanto mais que no meio dos vários livros jurídicos que escrevera, entre os quais o interessantíssimo As Superstições e o Crime, estava o pioneiro Tratado da Propriedade Literária e Artística (Direito interno, Comparado e Internacional), encontramos as poesias divididas em Quadros Psicológicos, com 62 poemas, e Musa Cómica, com 41, concluindo com  onze páginas de anotações da jurisprudência do Direito de Resposta, na Imprensa. Entre os sonetos destacarei os consagrados a Antero de Quental, a João de Deus e à famosa quiromante Madame Brouillard (1852-1925), transmontana como ele e benemérita, num soneto algo cómico, pois elogiando a sua sagacidade psicológica e filantropia, ao derramar os proveitos das consultas nos mais necessitados da sua terra natal, pede  que na estátua que lhe erguerem em Vila Real seja posta esta inscrição: «Grande bruxa aqui gerada, que explorou meia Lisboa». Já publiquei um artigo neste blogue que a refere, a propósito dela e de Fernando Pessoa ter registado num  diário de 1915 vontade de a consultar, e ainda, anos mais tarde, em 1941, Ramada Curto, in Do Diário de José Maria, mencionar "a saudosa Madame Brouillard":
https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2022/11/beatriz-delgado-uma-poetisa-quiromante.html

 Em geral, a poesia de Baptista de Sousa manifesta um bom discernimento psicológico, bondade e ironia, e há certamente lirismo e elevação constantes. Sirva de exemplo o soneto Telepatia Celeste, no qual considera a alegria e paz no nosso estado de consciência serem  um sinal de reconhecimento enviado do mundo divino, num valioso reconhecimento da inter-relação psico-divina no ser humano.

Passemos agora ao soneto anteriano, a causa desta ressurreição fraterna do arguto sábio Visconde de Carnaxide, João Baptista de Sousa:

                                                       

                                               Porque se matou Anthero?                                                               ------------------

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Amortalhei na fé o pensamento,
E achei a paz na inércia e esquecimento...
Só me falta saber se Deus existe!

                                                          ANTHERO - Sonetos. [Convertido]

«Nascera co' a visão para devassar
os humanos problemas transcendentes,
mas foram seus esforços impotentes,
quando os altos mistérios quis sondar.

Depois de não poder realizar
do génio os anseios mais ardentes,
o vate com os seus cantos já dolentes
par'cera todo calmo descansar.

Mas tanto o faz a dúvida sofrer,
(e sem que em dia algum ele desista
de, embora sempre em vão, a resolver);

Que ao dar-se a morte teve só em vista
partir sem mais demora p'ra saber,
se era verdade ou não que Deus existe.» 

Este soneto, de um ser formado em Direito como Antero de Quental e como ele poeta, é uma bela tentativa de compreender Antero na sua essência, demanda e morte voluntária. Que  valiosas caracterizações e intuições de Antero de Quental o Visconde Carnaxide concebe ou alcança e nos transmite?
Ter nascido com visão para os grandes mistérios. Ter-se esforçado por realizar os anseios mais ardentes do seu génio, no fundo ser fiel a si mesmo, ao seu dever intrínseco, o swadharma da Tradição indiana. O desprender-se e aquietar-se por algum tempo face ao mudo enigma da vida, tangendo menos dramaticamente. E por fim, com a dúvida continuando a desassossegá-lo, resolver matar-se para mais cedo enfrentar esse mistério maior da existência ou não de Deus.
Eis-nos diante de um raciocínio correcto e possível, mas que não é porém tão evidente. Eis-nos diante de uma explicação religiosa, ou mesmo justificação, da sua morte: foi vítima do seu anseio de conhecer Deus, ou de saber se ele existe ou não, não conseguindo aguentar a pressão da dúvida que o angustiava, ou que seja a intensidade da ânsia da verdade...
Mas será que a Ordem do Universo, Divina, o Logos spermatikoi, derramado ou substancial ao Cosmos, poderá fazer germinar nas almas humanas tal anseio de conhecimento tão forte que leve uma pessoa a matar-se ao não conseguir realizá-lo, até para se libertar dum estado de dúvida angustioso, depressivo?
Que em Antero havi
a tristeza, uma certa falta de plenitude, que poderia em parte provir da sua ignorância do mistério divino e logo de uma separação ou exclusão da correnteza energética divina, é possível, é natural, é um factor a ter em conta no seu tónus de amor à vida e de plenitude espiritual, sobretudo para quem tinha um fundo místico forte, que fora depois muito misturado com diversas correntes contraditórias mais agnósticas ou impessoais, tal até o Budismo com a sua negação pública ou corrente da Divindade...

Se perguntarmos qual era o grau de aceitação ou melhor da admissão da existência de Deus em Antero de Quental tal não será fácil de determinar. Ou qual o grau de alegria e de estímulo a viver que ele sentiria em si, em média? Seria 20%, 40%, 60%, talvez...

Ou ainda, qual o grau de capacidade e premência de resolver tal questão no líder da Geração de 70  que, após ter organizado e publicitado os seus Sonetos completos em 1886 e encerrado esse capítulo ou fase da sua vida, e já tendo dado finalmente à luz, em 1890, as suas ideias filosóficas nos números 2 e 3 da Revista de Portugal, ainda que de modo abreviado e no contexto do pensamento filosófico segunda metade do séc. XIX, e tendo ainda de novo servido de líder, da Liga Patriótica do Norte contra o imperialismo inglês,  sofria física e psiquicamente e dava-se conta que a sua tentativa de aclimatação à ilha natal falhava face ao capacete depressivo climatérico e à fatalidade de perder o contacto com as duas crianças que educara?

Embora se saiba que ainda teve boas conversas com amigos nesses meses finais, não encontramos as questões metafísicas ou mais simplesmente o mistério de Deus mencionado uma vez que seja nas suas cartas, e o que observamos mais é a sua pouca resistência a «esses ares doentios, que o Charcot tanto condenava, e que efeito me torturam, atacando-me sem descanso os centros nervosos», tal como escreve a Joaquim de Araújo no final de Julho; ou no final de Agosto a Joaquim Oliveira Martins:«Procurava o definitivo e afinal ainda agravei o instável e provisório que tanto me assustava. Paciência. Fui talvez imprudente, contei demais com as minhas forças, seduziu-me a ideia de, depois de tantos anos de excentricidade, acabar como toda a gente. Mas vejo que a excentricidade tinha de ser definitiva, submeto-me a ela, agravada por mil cuidados. Peço à minha razão que comunique aos meus nervos o estoicismo que ela tem mas de que eles não  parecem susceptíveis. (...)»
E assim fo
i, sob o peso atmosférico depressivo e desvitalizante os nervos de Antero claudicaram e levaram-no a puxar o gatilho e o disparo que o libertaria de tal sofrimento acumulado desde há muito e agravado circunstancialmente por esse anoitecer abafado e pela separação das suas discípulazinhas Beatriz e Albertina..

Mas como sabermos ao certo acerca do mistério magno da existência de Deus, que o Visconde Carnaxide ergue como causa última no soneto a Antero? Quem conseguirá intuir o conteúdo psíquico e dramáticos dessas horas finais de Antero, quando  se vai despedindo das pessoas e perambula pela pacata cidade até se sentar no banco? Que pensamentos e sentimentos o acometiam, e que ele aceitava ou rechaçava? Que seres no invisível o observavam ou acompanharam?

Sob o signo da Esperança! Como viu a sua vida, na espiral da saída do corpo?

Como um ser educado na matriz católica e cristã, e até no culto do Espírito Santo, cremos que Antero de Quental antes de se matar fisicamente, ter-se-á certamente curvado e  endereçado ao mistério supremo, chamemos-lhe Deus, Absoluto, Nirvana, Paz, Infinito, irmã Morte. Quando, com que intensidade, quanto tempo, com que força impulsionadora para a sua elevação para fora do corpo físico e entrada nos mundos subtis e espirituais, só podemos imaginar ou, que seja, meditar empaticamente. Talvez por isso ele dissera ou escrevera mais de uma vez (e já abordámos no blogue), na linha da tradição grega dos mistérios: Morrer é ser Iniciado

Joaquim de Araújo (Penafiel, 16-VI-1858 - Sintra, 11-V-1917)
Poucos dias depois desse 11 de Setembro, Joaquim de Araújo, um dos seus mais entusiastas discípulos, consagrava-lhe em livrinho um belíssimo poema ao seu destino de caminhante no além ou céu, Na Morte de Antero, tomando como epígrafe, e interrogando e meditando, o Morrer é ser Iniciado
 (https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2017/09/na-morte-de-antero-joaquim-de-araujo.html)

Que nós saibamos ir morrendo em vida e ressuscitando, com  Antero de Quental e Joaquim de Araújo, o Visconde de Carnaxide e Fernando Pessoa, ou ainda a Madame Brouillard-Beatriz Delgado, para sermos todos cada vez mais iniciados, abençoados e conviventes no Espírito Divino em liberdade, sabedoria, amor... 

Como ps e no soneto O Trato na Outra Vida, do seu No Outono da Vida, o Visc. de Carnaxide interrogava-se sobre tal convivencia...,  

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