«Sangra-me o coração. Tudo que penso
A emoção mo tomou. Sofro esta mágoa
Que é o mundo imoral, regrado e imenso,
No qual o bem é só como um incenso
Que cerca a vida, como a terra a água.
Todos os dias, oiça ou veja, dão
Misérias, males, injustiças — quanto
Pode afligir o estéril coração.
E todo anseio pelo bem é vão,
E a vontade tão vã como é o pranto.
Que Deus duplo nos pôs na alma sensível
Ao mesmo tempo os dons de conhecer
Que o mal é a norma, o natural possível,
E de querer o bem, inútil nível,
Que nunca assenta regular no ser?
Com que fria esquadria e vão compasso
Que invisível Geómetra regrou
As marés deste mar de mau sargaço —
O mundo fluido, com seu tempo e espaço,
Que ele mesmo não sabe quem criou?
Mas, seja como for, nesta descida
De Deus ao ser, o mal teve alma e azo;
E o Bem, justiça espiritual da vida,
É perdida palavra, substituída
Por bens obscuros, fórmulas do acaso.
Que plano extinto, antes de conseguido,
Ficou só mundo, norma e desmazelo?
Mundo imperfeito, porque foi erguido?
Como acabá-lo, templo inconcluído,
Se nos falta o segredo com que erguê-lo?
O mundo é Deus que é morto, e a alma aquele
Que, esse Deus exumado, reflectiu
A morte e a exumação que houveram dele.
Mas está perdido o selo com que sele
Seu pacto com o vivo que caiu.
Por isso, em sombra e natural desgraça,
Tem que buscar aquilo que perdeu —
Não ela, mas a morte que a repassa,
E vem achar no Verbo a fé e a graça —
A nova vida do que já morreu.
Porque o Verbo é quem Deus era primeiro,
Antes que a morte, que o tornou o mundo,
Corrompesse de mal o mundo inteiro:
E assim no Verbo, que é o Deus terceiro,
A alma volve ao Bem que é o seu fundo.»
Este poema é muito belo e profundo, e como a maioria dos poemas espirituais de Fernando Pessoa não teve ainda os seus comentadores habilitados e sensíveis. Um pequeno contributo darei, e assinalarei nos primeiros quintetos a utilização da simbologia maçónica, seja da Divindade, como o Geómetra, o grande Arquitecto do Universo seja dos seus instrumentos, tal o nível ou a régua que em alguns textos inéditos ou pouco conhecidos Fernando Pessoa explicará.
Após os lamentos, o misere inicial, Fernando Pessoa interna-se numa revisitação da visão gnóstica do mundo, da queda e como ficamos privados do estado primordial, paradisíaco ou da comunhão com o Bem, o Mestre, o Espírito e como podemos aproximar-nos dele pela Verdade e o Belo, e nesse sentido um dos melhores meios de recuperarmos tal estado é cultivarmos tais qualidades.
A tradição templária, a rosacruz e a maçónica afloram na demanda da Luz e da reconstrução da ligação ao, ou mesmo construção, do Templo espiritual. Aliás Fernando Pessoa tem dezenas de textos ocultistas e espirituais que glosam o que sepulta, tapa ou mata o Mestre, Palavra, Verbo ou o Bem em nós, um dos veios mais bebidos pela sua musa ocultista, sendo tal ungido ser ou nível o vencedor dos três inimigos da alma, tipificados em geral como o mundo, a carne e o diabo, ou seja os desejos dos outros, de si ou de mais que si....
Assim talvez o mais significativo e desafiante registado no poema seja a busca da Palavra ou Verbo, do Bem, ou seja, da nossa capacidade pelo Verbo, pelo Logos, pela comunhão com o Plano e a Inteligência divina, reassumirmos a nossa comunhão e dimensão espiritual e logo religação divina...
Certamente importante e misterioso é quem é o Ser ou a Palavra ou a doutrina-prática, que religa ao Divino, ou seja quem é que Fernando Pessoa via e considerava ser o Verbo, o Mestre, o laço entre a humanidade e a Divindade...
Se formos para uma visão cristã normal o Verbo é Jesus Cristo e então poderíamos dizer que Fernando Pessoa apesar das suas críticas fortes à Igreja de Roma ou aos meios católicos conservadores dos jornais que o atacaram aquando da polémica do Projecto da proibição das Associações Secretas, continuava um cristão, ou tornara-se um cristão, algo que os adeptos do Pessoa mistificador, fingidor ou que seja pagão não gostam muito de admitir e pensar. Mas talvez seja esta a verdade. Aliás confirmada por alguns textos e sobretudo pelo seu final selo de autenticação que é a sua nota biográfica de 30 de Março de 1935, sem dúvida o seu testamento, ainda que certamente o que se passou evolutivamente na sua alma até ao seu último pensamento e momento na Terra seja um mistério, tal como era para ele próprio, astrólogo de tantos milhares de horas e horóscopos, ao confessar umas horas antes de morrer: I don't know what tomorrow will bring.
Saibamos então concluir o templo da nossa alma talhando o corpo espiritual pelo Bem e pelo Mestre, pela palavra e a acção justa e verdadeira, de modo a que a Divindade ressuscite mais em nós, na Humanidade, e em Fernando Pessoa....