terça-feira, 10 de junho de 2025

10 de Junho, dia de Portugal e da amizade perene com a Rússia. O tratado de 1798, em parte transcrito e contextualizado na história desta amizade ígnea ou de corações.

 Os testemunhos de relações directas entre Portugal e a Rússia começam no século XVIII, com os contactos entre a Academia das Ciências de Lisboa e a de São Petersburgo, bem como os de alguns portugueses que estiveram na Rússia. Segundo  o livro e a exposição Relações entre Portugal e a Rússia, séculos XVIII a XX, Lisboa, 1999, o primeiro documento que se preserva é de 1720, de A. De Vieira, agente do czar Pedro o Grande (1672-1725). O segundo é do Abade Tomás da Silva Avelar, de 1724, enviado a Paris e daí a Moscovo, para a coroação da Rainha Catarina I. O terceiro do médico e filósofo Ribeiro Sanches, de 1735. O quarto, do envio da Academia das Ciências de Petersburgo de dez volumes de obras  para o conde da Ericeira, presidente da Academia das Ciências. O estabelecimento das relações diplomáticas começa em 1770 e concretiza-se em 1779 com a nomeação tanto do primeiro ministro plenipotenciário na corte de S. Petersburgo, Francisco José Horta de Machado (1746-1817) como do ministro plenipotenciário da Rússia em Portugal, Guilherme Nesselro.

Francisco José Horta de Machado. Pintura da família dos Condes de Alte e de Marin. 

Alexandre, Príncipe de Bezborodko, Chanceler, o lider diplomático russo.
 Do contacto diplomático presencial e estável e das necessidades de dois povos dinâmicos e navegantes nasceu o Tratado de Amizade, Navegação e de Comércio entre as duas monarquias da Rússia e Portugal, assinado em Lisboa e Pavlesk em Dezembro de 1798, e dado à luz em Lisboa em 1800 na Régia Oficina Tipográfica, num in-4º de 65 páginas, bilingue Português e Francês.

Ora nestes tempos de cegueira e inveja russófoba da direcção da União Europeia e da NATO convém homenageá-lo e relembrá-lo no seu pioneirismo, tanto mais que ao longo do tempo houve valiosos negócios e diálogos entre os dois povos irmãos, com vários portugueses viajando até à Rússia ou interessando-se pela sua civilização, arte (por exemplo, Bilibin e Nicholai Roerich), ciência e literatura (em especial Tolstoi e Dostoievsky), e deles mencionaremos José Silvestre Ribeiro, Jaime de Magalhães Lima, Jaime Batalha Reis, Visconde de Figanière, César Porto (A Rússia, hoje e amanhã, 1929: "Ó Rússia como não te hei-de amar") Alfredo Apell, Leonardo Coimbra, Raul Fontes, Fernando Namora e Rómulo de Carvalho.
                                            
Nestes tempos em que a União Europeia, a NATO e os USA procuram
 vencer e desagregar a Rússia à custa do trágico conflito na Ucrânia, e com a maioria dos portugueses televisivamente amilhazados e governamentalmente manipulados e escravizados, é bem possível que a 3º grande Guerra aconteça, pois tal é o desígnio da oligarquia infrahumanista e dos seus tentáculos de instituições (o denominado Deep State) e grupos de pressão, que tentam alienar e sujeitar os cidadãos. Fica o aviso nestes tempos de decadência ética, cultural, civilizacional e de discernimento, que falta em tanta gente boa mas amilhazada e alienada violentamente contra a Rússia e a sua luta contra os extremistas ucranianos e a expansão da NATO e do globalismo neoliberal infrahumanista do Fórum Económico Mundial e &.
                                                  
       T
RATADO DE AMIZADE, NAVEGAÇÃO, E COMÉRCIO      renovado entre PORTUGAL e a RÚSSIA, e assinado em Petersburgo aos 16/27 de dezembro de 1798.
                                          
                                           
NÓS DONA
 MARIA, Por graça de Deus Rainha de Portugal, e dos Algarves, d'aquém, e d'além mar, em África Senhora, de Guiné, e da Conquista, Navegação, e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia, e da Índia, etc. Fazemos saber a todos os que a presente Carta de Renovação, Confirmação, Aprovação e Ratificação virem: Que em 16/27 de Dezembro do ano de mil setecentos noventa e oito próximo precedente se concluiu, e assinou em São Petersburgo a renovação do Tratado de Amizade, de Navegação e de Comércio de 9 de Dezembro do ano de mil setecentos oitenta e sete entre Nós, e o Sereníssimo, e Potentíssimo Senhor Paulo I, Imperador, e Autocrator de Todas as Rússias, Irmão Nosso Caríssimo; sendo Plenipotenciários para este efeito da Nossa parte, Francisco José de Horta Machado, do Nosso Conselho, Nosso Ministro Plenipotenciário junto a Sua Majestade Imperial de Todas as Rússias, e Comendador da Ordem de Cristo; e por parte de Sua Majestade o Imperador de Todas as Rússias, Alexandre Príncipe de Bezborodko, Chanceler, Conselheiro Privado actual, Senador, Director Geral das Postas [Correios], e Cavaleiro das Ordens de Santo André, de Santo Alexandre Newsky, e de Santa Ana, e Grão Cruz das de São João de Jerusalém, e de São Vladimir da Primeira Classe; Victor de Kotschoubey, Vice-Chanceler, Conselheiro Privado actual, Camarista actual, Cavaleiro de Santo Alexandre Newsky e Grão-cruz de de São Vladimir da segunda Classe; Theodoro de RostopinConselheiro Privado actual, Membro do Colégio dos Negócios Estrangeiros,  Cavaleiro da Ordem  de São Alexandre Newsky, e da de Santa Ana da primeira Classe; e Pedro de Soimonnoff, Conselheiro Privado actual, Senador Presidente do Colégio de Comércio, Cavaleiro da Ordem  de São Alexandre Newsky, e de Santa Ana da primeira Classe, e Grão da Cruz da de São Vladimir da segunda Classe, da qual renovação do Tratado o teor é o seguinte:

           Em nome da Santíssima, e Indivisível Trindade.

Sua Majestade Fidelíssima a Rainha de Portugal e sua Majestade o Imperador de Todas as Rússias, vendo com grande satisfação que o Tratado da Amizade, de Navegação e de Comércio concluído entre Elas, seus Vassalos, Estados, e Domínios respectivos a 9/20 de Dezembro de 1787, começou a aumentar os vínculos mercantis entre Portugal, e a Rússia; e igualmente animados do desejo de continuarem a promover a Indústria, o Comércio e a Navegação directa dos seus Vassalos, Estados, e resolveram renovar o sobredito Tratado. E nesta Consideração, elegeram, e nomearam por seus Plenipotenciários, a saber: Sua Majestade Fidelíssima a Rainha de Portugal, ao Senhor Francisco José de Horta Machado, do seu Conselho, seu Ministro Plenipotenciário junto a Sua Majestade e o Imperador de todas as Rússias, e Comendador da Ordem de Cristo, e Sua Majestade o Imperador de todas as Rússias ao Senhor Alexandre Príncipe de BezborodkoChanceler, Conselheiro Privado actual, Senador, Director Geral das Postas, e Cavaleiro das Ordens de Santo André, de Santo Alexandre Newsky, de Santa Anna, e Grã Cruz das de S.João de Jerusalém, e de São Vladimir da primeira classe; Senhor Victor de Kotschoubey, Vice-Chanceler, Conselheiro Privado actual, Camarista actual, Cavaleiro de Santo Alexandre Newsky, e Grão Cruz da de São Vladimir de segunda classe; e ao Senhor Pedro de Soimonoff, Conselheiro Privado actual; Senador Presidente do Colégio do Comércio,  Cavaleiro de Santo Alexandre Newsky, e Grão Cruz da de São Vladimir de segunda classe; os quais Plenipotenciários depois de se haverem respectivamente comunicado os seus plenos poderes, entraram em conferência; e tendo maduramente deliberado sobre a matéria, concluíram e ajustaram os Artigos seguintes.

 ARTIGO I. 

«Haverá entre Suas Majestades a Rainha de Portugal, e o Imperador de todas as Rússias, seus Herdeiros, e Sucessores, de uma, e outra parte, assim como entre seus Vassalos, uma paz perpétua, boa inteligência, e perfeita amizade, para o que as  Partes Contratantes se obrigam tanto por si, como por todos os seus Vassalos, sem excepção, a tratar-se reciprocamente como bons amigos em todas as ocasiões, tanto por mar, como por terra,  e águas doces; e não só a evitar tudo o que possa redundar em prejuízo  de uns, e de outros, mas a ajudar-se mutuamente por todas as sortes de bons Ofícios, sobre tudo no que toca à Navegação e ao Comércio.»

ARTIGO II.

«Os Vassalos Portugueses gozarão na Rússia de uma perfeita liberdade de consciência, segundo os princípios da absoluta tolerância que ali se concede a todas as religiões, podendo livremente satisfazer aos deveres, e dar-se ao Culto da sua Religião tanto em suas própria casas, como nas Igreja públicas que ali se acham estabelecidas, sem experimentar jamais a este respeito a menor dificuldade.
Os Vassalos
Russianos não serão do mesmo modo jamais perturbados, nem inquietados em Portugal, pelo que toca à sua Religião; e observar-se-á para com eles a este respeito o que se pratica com os Vassalos das outras Nações de uma Comunhão diferente, sobre tudo com os Súbditos da Grã Bretanha.»

ARTIGO III. 

 «Suas ditas Majestades se obrigam mutuamente a procurar aos Vassalos respectivos de uma, e de Outra todas as facilidades, assistência, e protecção necessárias para o progresso do seu Comércio recíproco, e sobretudo da Navegação directa entre os dois Estados em todos os lugares dos seus Domínios, em que a Navegação, e o Comércio forem para o futuro permitidos a outras nações.»

ARTIGO VI, diminui o valor dos  impostos para os vinhos de produção de Portugal, das Ilhas da Madeira e dos Açores, bem como do sal.

ARTIGO VII, diminui as tarifas para «as produções da Rússia em baixo especificadas, quando elas forem transportadas directamente em Navios Portugueses ou Russianos e por conta dos Vassalos portugueses ou Russianos; a saber o cânhamo, a linhaça, o óleo de cânhamo, e de linho, o ferro de toda a sorte de dimensões, em que se compreende o ferro delgado, entrando também os arcos de ferro, as âncoras, as peças de artilharia, as balas e as bombas.»

ARTIGO VIII. Beneficiam de diminuição de impostos o azeite de oliveiras, O anil do Brasil, o tabaco do Brasil, em rolo, folha ou pó, bem como da exportação russa os brins, lonas e as mais fazendas de linho próprias para o velame do navios.

ARTIGO XV. «As embarcações de Guerra das duas Potências Aliadas acharão igualmente nos Estados respectivos as Enseadas, Rios, Barras e Portos livres, e abertos para entrar, ou sair, e ficar ancoradas o tempo que lhes for preciso, sem sujeição a visita alguma, conformando-se igualmente com as Lei gerais de Polícia, e com as dos Tribunais da Saúde, estabelecidas nos Estados respectivos.
Nos Portos
 grandes não poderão entrar por cada vez mais do seis de Embarcações de Guerra, e nos pequenos mais do que três, a não se haver pedido, e alcançado licença para maior número...»

ARTIGO XXIII. «Será permitido aos Comerciantes Portugueses estabelecidos na Rússia, edificar, comprar, vender e alugar casas em todas as cidades deste Império, que não tiverem privilégios municipais, ou Forais particulares que se oponham as estas aquisições. Todas as casas que forem possuídas e habitadas por Comerciantes Portugueses em São Petersburgo, Moscovo e Archangel serão isentas de todo e qualquer aquartelamento, em quanto lhes pertencerem, ou eles mesmo as habitarem.»

ARTIGO XXXIV. «Os Vassalos de um ou outra Potencia contratante poderão livremente retirar-se dos Estados respectivos quando lhes bem parecer, sem experimentar o menor obstáculo da parte do Governo, que conceder-lhe-á com as cautelas prescritas em cada lugar os Passaportes do costume, para poderem sair do país, e levar livremente os bens que ali houverem trazido, ou adquirido, depois de constar que satisfizeram todas as suas dívidas, assim como os direitos estabelecidos pelas Leis, Estatutos e Ordenações do País donde quiserem sair.»

ARTIGO XXXVI. «No caso que venha a paz romper-se entre as duas Altas Partes Contratantes (o que Deus não permita) não se confiscarão os Navios, nem os bens dos respectivos Vassalos comerciantes, nem se apreenderão as suas pessoas, mas antes conceder-lhe-á ao menos o espaço de um ano para vender, alhear, ou transportar os seus efeitos, e para com este fim passar a toda a parte que lhes parecer conveniente, depois de ter contudo  pago as suas dívidas: o que se entenderá semelhantemente dos Vassalos respectivos que estiverem ao serviço de uma, ou de outra das Potências inimigas, sendo permitido a uns e a outros antes da sua partida, dispor, segundo bem lhes parecer, e convier, daqueles efeitos de que se não houverem podido desfazer, assim como das dividas a que tiverem que pretender; e serão os seus devedores obrigados a pagar-lhes, como se tal rompimento não tivesse havido.»

De Nicholai Roerich...

Do texto escrito em francês, do prefácio escrito ou aprovado pelo imperador Paulo I ao Tratado, transcrevemos a parte inicial pelo seu brilho histórico e geográfico, bastante exemplar para os nossos dias...

NOUS PAUL PREMIER, Par la grace de Dieu Empereur & Autocrateur de Toutes les Russies, de Moscovie, Kiovie, Vladi- mirie Novogorod, Czar, de Gasan  Czar d'Astracan, Czar de Siberie, Czar de la Chersonese Taurique, Seigneur de Plescau, & Grand-Duc de Smolensco, de Lituanie, Volhynie, & Podolie, Duc d' Estonie, de Livome, de Courlande, & Semigalle, de Samogitie, Carélie, Twer, Jugorie, Permie, Wiatka, Bolgarie & d'autres; Seigneur, & Grand-Duc de Novogorod inferieur, de Gzernicovie, Resan, Polock, Rostow, Jaroslaw, Belo Oserie, Udorie, Obdorie, Gondinie, Vitepsk, Mitis-law, Dominateur de tout le coté du Nord, Seigneur d'Ivérie, & Prince Héréditaire, & Souverain des Czars de Cartalinie, & Georgie , comme aussi de Cabardinie, des Princes de Gzircassie, de Gorsk, & d'autres. Successeur de Norwége, Duc de Shleswic-Holstein, de Stormarie, de Dithimarsen, & d'Oldenbourg, Seigneur de Jever, & Grand Maitre de l' ordre Souverain de Saint Jean de Jérusalem, &c. &c. &c. Faisons favoir par les présentes qu' en conféquence de Notre désir conforme á celui de Sa Majesté Trés Fidelle la Reine de Portugal, concernant le renouvellement du Traité d'amitié, de Navigation, & de Commerce, conclu entre Nos deux Etats le 9/20 Decembre 1787, Nos Plenipotentiaires respectifs, munis d' instructions , & plein-pouvoirs nécéssaires, ont arrêté, & Signé á S Petersbourg le 16/7 Decembre de l'année passée 1798 un nouveau Traité, qui est mot a mot de la teneur suivante: (...) 

Que a amizade de Portugal e a Rússia, e dos seus espíritos celestiais e humanos,  se mantenha sempre viva, luminosa, frutífera. E, quando os governos se desviarem deste amor fraterno, que os cidadãos saibam honrar e perseverar as ligações históricas e de coração das duas grandes Almas e povos, mesmo que sujeitos a censuras e perseguições, mantendo assim sempre o fogo do Amor e a luz do Logos entre as almas russas e portuguesas.

A luz divina, das montanhas sagradas do Este, por Nicholai Roerich. Que ela nos ilumine! 

segunda-feira, 9 de junho de 2025

Mandala crística multireligiosa, multipolar, iniciática. Desenhada a lápis de cor e mantrizada.


 Respira o prana, isto é, a energia subtil do Sol, do Logos.

Flameja o teu coração, isto é, acolhe e irradia o Amor divino.

Sê o Espírito íntimo, subtil, centelha de origem divina.

Alegra-te em Deus e na multipolaridade fraterna: age bem.

Morre-renasce, avança-sê. Criativa, destemida e perseverante.

Quem poder fazer o Bem, que o faça, aqui e agora, já... 

sábado, 7 de junho de 2025

Mandala pluridimensional do coração e do espírito. Desenhada a lápis de cor em 30 de Maio de 2025

                                          

Da pluridimensionalidade do coração e do espírito
e da dificuldade de discernirmos o que é harmonioso
para eles e para os outros no caminho da Vida.

Ó coração espiritual e divino brilha mais em nós,
inspira-nos a agirmos e pensarmos a Verdade e o Amor 
´a estarmos auto-conscientes e vivos na Luz do Espírito! 
Aum, Amen, Hum... 

sexta-feira, 6 de junho de 2025

Mandala da Estrela do Espírito, desenhada a lápis de cor, a 29 de Maio de 2025.

                                       

 Por entre as ondulações coloridas
sucessivas na visão espiritual
descortinamos ao longe o espírito,
a centelha divina, a estrela pentagonal
Demos graças!    Aum...
 

domingo, 25 de maio de 2025

Da desincarnação de uma alma muito amada.

                                       
Uma grande alma, que amei muito e com quem trabalhei bem espiritualmente e pitagoricamente, a Sandra Pinheiro, formada em Línguas e Literatura Clássicas, professora, leitora de Português na Áustria e harpista, partiu hoje dia 25 de Maio para os mundos subtis, pelas 4 horas e tal da madrugada, sincronicamente com a maior explosão solar registada neste ano. Acompanhara-a no hospital fortemente (tal como a sua amiga Susana) umas horas antes, e depois tive sinal disso num sonho. Escrevera  reflexões quando fora informado do seu estado na véspera, depois da visita antes de me deitar e de manhã por causa dos sonhos e, finalmente, estas já de tarde e agora à noite:
- Quando alguém que conhecemos e amamos sofre muito, também sofremos e quando ela morre sentimos muita tristeza por terem terminado os seus projectos na vida, seja criativa, profissional, relacional, familiar, maternal e psico-espiritual. E sentimos um certo e vazio, como se também morresse uma parte nossa ou os fios de ligação que tínhamos, ou mesmo a confiança de que ela iria vencer a dificuldades.
Quando o corpo está mesmo no fim e as dores são muitas a morte é uma libertação e devemos consolar-nos que pelo menos esse aspecto tão difícil da dor terminou. E se a pessoa era alma luminosa e benéfica, mais nos deveremos desprender da tristeza, e darmos graças (mesmo que dolorosamente ou quase chorando) por ela estar agora em transição no seu caminho ascensional, que apenas conseguimos ao de leve imaginar ou intuir.
Mesmo assim o nosso coração permanece tocado e só deseja sintonizar com o coração da alma que partiu, pois ela, se já está desperta no além, pode até desejar ou realizar tal ligação-comunicação.  Frequentemente ela tem os seus guias ou antepassados a ajudarem-na, mas ignoramos muito quanto ao que ela está mais receptiva, embora nas primeiros tempos esteja mais perto do corpo e do plano físico
Podemos lamentar as circunstâncias diversas que nos afastaram, e não seguimos então a ideia de que foi o karma ou que já estava predestinado, e antes atribuímos a causalidades diversas os caminhos divergentes e que agora terminaram para ela com uma morte aparentemente precoce, pois fazemos escolhas e enveredamos por caminhos, de facto independentes e por isso difíceis de conciliar, e assim cada um acaba por fazer a sua vida profissional, relacional ou familiar com outros e abrir a sua própria via para o além. Por isso o preceito de Garcia Resende com que ele conclui a descrição da vida e morte de Inês e de Pedro, na sua Miscelânea, é tão valioso e actual face à morte e às amizades: "Quem poder fazer o bem, que o faça". Apoia ao máximo os que mais te apreciam, necessitam, amam...
Assim, quando alguém está para partir despede-te bem dela, dando o máximo de ti, e depois encontra-a nos mundo subtis, tal como os sonhos te darão imagens ou vivências, e comunga uns dias mais recolhido com a sua alma no subtil processo do desprendimento do corpo e identidade física e recuperação da identidade espiritual e funcionamento no seu corpo de luz ou glória.
Essa transição opera-se naturalmente podendo ser mais demorado o desprender dos efeitos no corpo sofridos ou a desidentificação com ele, dependendo ainda do desenvolvimento consciencial, ético, compassivo e espiritual realizado em vida, e assentará (nos seus níveis mais elevados) na identificação à estrela pentagonal do espírito e no eclodir da crisálida em borboleta, ou seja o desabrochamento das asas luminosas e da capacidade de mover-se, de voar. Certamente tal pode ser auxiliado externamente pelas energias de mestres, anjos, pessoas amigas e as bênções divinas.
Quanto ao amor, ou à potencialidade e capacidade de amor, de interesse, de envolvimento na vida, quanto morre alguém diferentes resultados ou consequência podem acontecer, embora as pessoas não se deem conta dos aumentos ou diminuições, pois não há uma regra geral e tudo depende das interelações das pessoas e dos seus envolvimentos, idades, trabalhos e projectos e da nossa capacidade de auto-gnose.
Assim quando alguém de quem estamos próximos na vida exterior ou na alma e amor parte, recebemos forças subtis ora estimulantes do nosso trabalho na Terra, ora o contrário, como se o nosso envolvimento na vida terrena diminuísse e uma parte substancial da nossa capacidade de amor ou se evola com ela ou então se concentra inicialmente mais no vazio ou na dor interior e tenta comunicar o seu amor com ela, orando, meditando, ouvindo os leves toques vibratórios, ou intuindo fugazes imagens ou pensamentos, e logo evitando dispersar-se e distrair-se com o mundo, as noticias, as redes sociais, as conversas superficiais. A morte de alguém é um corte na ilusão da vida mais permanente e um aviso da sua fugacidade, pelo que é natural  cortarmos ou desligar-nos de certos envolvimento externos menos importantes.
O processo de transição demora dias e nunca se sabe bem os resultados, e assim em certos momentos a nossa alma ergue-se e comunica com a alma amada já partida, seja nos pôr do sol rosados, seja no caminhar, seja em lembranças, por vezes materializadas em objectos ou escritos, seja sobretudo na escuta interior que brota por entre os momentos de oração e meditação. Mas a partir de certo momento são intuições de pensamentos ou vozes internas que assinalam a nossa relação comunicação com uma alma bem luminosa e agora mais ágil no seu caminho e missão.
- Musa, que tanto pairas sobre nós como te
 recolhes e elevas, que os raios de luz e amor divinos estejam contigo. Avança luminosamente no teu caminho de criatividade e alegria, harmonia e amor, e inspira-nos:
- Quem segura a Lua?
              Concluamos ainda com Luís Camões, um Cavaleiro e Fiel do Amor, tal como ela,  ecoando a ideia de que há pessoas que pela sua grande sensibilidade e amor a Vida humana terrena não as consegue merecer por muito tempo, na elegia iniciada, "Chorai Ninfas, os Fados  Poderosos (...)

''Mas o mundo não era digno dela,
Por isso mais na terra não esteve;
Ao Céu subiu, que já lhe devia.''

sábado, 24 de maio de 2025

Alexandre Seabra, poeta do "Nadas" e da geração de Fernando Pessoa, tece o elogio de Coimbra e invoca os que nela mais amaram.

 Alexandre Seabra, foi um pensador e poeta do começo do séc. XX, que acabou por não entrar, ou ficar lembrado, na história da Literatura portuguesa, pese o seu valor. Um mero acaso, ou uma atração subtil, fez-me há anos adquirir um livrinho seu Nadas (Lisboa, Empresa de Publicidade A Tribuna, 1924), com uma dedicatória ou acrescento forte ao livro.
Procurando informação sobre ele,
deparei-me  na correspondência de Fernando Pessoa,  carta de 7-8-1923 para o seu amigo  Joaquim Pantoja, a quem Seabra entregara um conjunto de poemas manuscritas para apreciação ou quem sabe prefácio, com o recado que informasse Alexandre Seabra que não valia a pena publicar para já, que amadurecesse, que fundisse mais o pensamento e a emoção, e não sentisse ou se emocionasse tanto: «Toda a gente sente. Toda a gente pensa. Nem toda a gente, porém, sente com pensamento ou pensa com emoção...  Qualquer que seja a idade dele, ele tem um cérebro demasiado juvenil; e a arte – ao contrário do que se julga – é trabalho para velhos, ou para envelhecidos», que seria o seu caso, pois Fernando Pessoa tinha então 35 anos.

E contudo o livro Nadas (in-4º gr. de 22 páginas), e já publicara  Crepúsculos de alma (Vila Nova de Gaia,1921),  além de ser raro pois não está na PORBASE, é valioso e faz-nos até lembrar Mário de Saa, Ultra Machado ou mesmo Fernando Pessoa, ao manifestar grande sensibilidade panteísta, e não só sensacionista mas também moral e espiritual. Transcreverei então alguns dos seus textos e antes de mais a dedicatória manuscrita, com letra firme e intensa, pois é um testemunho inédito  original até na hermenêutica da mitologia coimbrã,   e valioso já que desconhecemos outras informações sobre a sua vida, e até se o conteúdo do Nadas, publicado uns meses depois do parecer de Fernando Pessoa, teria feito parte do manuscrito que este leu e não aprovou...

Frontispício: 
                                    Alexandre Seabra

«Pedindo uma esmola
      NADAS
Sobre uma campa uma flor sorri!...

Jesus por amar e sofrer subiu até Deus. O mesmo sucedeu a mim...

                                     

1ª folha branca, ou verso da capa frontispício:
   Invocando:
Camões esteve em Coimbra,
Anthero também.
D. Pedro amou em Coimbra,
Ignez de Castro aqui morreu por amor.
Em Coimbra Santa Izabel andou, serena, e santíssima, derramando a bondade do seu semblante e dando aos pobres e doentes carinho e pão que Deus transformou em flores.
Estas flores são o símbolo eterno que estimula na psicologia de Coimbra o sentido do bem.
Coimbra é um terra santa. Eu devo ter nascido em Coimbra, senão não podia ser portuguez!
                Alexandre Seabra» 

  Oiçamos agora os seus textos, numa prosa muito poética, manifestando uma ora ousada (acima do bem e mal, e das conveniências) ora profunda comunhão com a alma dos seres, das coisas, da Natureza e uma boa abertura ao Infinito, à Unidade Divina, e conseguindo-a partilhar artisticamente, bela e elevadamente, na base de que os aparentemente nadas são na sua pluridimensionalidade riquísimos, imensos, sublimes para quem tem a empatia suficiente para os sentir e sondar. A epígrafe, na folha branca inicial, é justificada: "Vós que tendes sede de ventura entrai...", pois em trinta e cinco apontamentos partilha a sua excelente sensibilidade pluridimensional, concluindo geralmente por "... Quem sente a felicidade!... Silêncio..."

«A felicidade! Sorriso passageiro da vida, correr sobre seda do espírito, sufocação de surpresa, um ah, que se prolonga, um beijo que se distende, um sonho que não se evola, uma carícia que vincula simpatia, uma alegria faz correr uma lágrima, um morrer-se com esperança, um sentir-se com fé...
Um poente se rosa, um rega
to se aveluda, um colo se confrange, uma alma crê, uma ave passa, chuva de estrelas, revoltas de oceano, cânticos de alvorada, trinados em crepúsculo: em cavalgada olímpica, vem a nós todo o sublime por intermédio subtil...»

«Sobre um longe de água e céu: O infinito,  azul marinho, o azul celeste! Pontos esvoaçam - gaivotas. Seu descer sobre a água, seu subir para o azul, é lento carinhoso. Procuram a vida, sentem a vida, voam! O mar ruge, o mar murmura, o mar embate. A altivez, a ternura, o puro! Os pontos afagam, as afagam. A alegria alada como um olhar terno! Desliza sem percalços, serena; voa, pura: azul é meigo, seu voo meigo,o mar meigo, brisa é terna, a vida grande!
O mar vasto, dominante, orgulhoso, é terno.... A onda sente o pousar da ave, seu dorso estremece, baixa, ondula, acarinha o peso de nada, não vexa, não desdenha o leve, afaga-o, acarinha-o, só esbofeteia a rocha bruta! O mar esbofeteia a rocha bruta. A ave procura a sardinha, beija o mar; o mar a envolve num carícia de seda, numa carícia de seda, numa carícia de azul, num veludo de onda! O mar é meigo, o monstro é meigo...
Longe um ponto branco. Fenda no infinito! A audácia, o espírito sobre o mar, sob o azul! É o brigue sulcando as águas, Perde-se, diminui, mas branco, esperançoso! As almas o escoltam - Gamas, Albuquerques, Magalhães; do nosso passado, a carreira da audácia, do aspirar infinito, do devaneio do longe.
Aquela linha lhes disse, vinde: O profundo, o azul tem fim, vinde... e a outra terra surgiu, o mundo surgiu, o esférico se fixou. O espírito é infinito, voa para o infinito!
O ponto se perdeu, o branco se perdeu!
A alma dos navegantes também perdeu a terra. Uma nuvem se arrasta além, onde se perdeu o brigue: Navegantes que prazer não é perder-se na terra. A alma deita-se no azul, cobre-se no azul. O puro imenso! Que prazer o dos navegantes. Quem se
nte felicidade! Silêncio...»

                                

Fragmentos: "Tarde de chuva: com que resignação as árvores não recebem o espargir do céu! Religioso êxtase.
A humidade escorre, os cabelos do infinito, as lágrimas do infinito.
Traços d'água, pontos d'água, beijos d'água.
A relva pelo chão esverdece, a seiva é mais cálida, aflui à água.
A vida aflui à agua! A terra bebe, o arbusto bebe, a clorofila bebe. O saciar da sede. Nossa alma bebe. O saciar da sede! (...)

Nas poças d'água os pingos d'água provocam um arrepio de riso. O frisson dum beijo. A água tem nervos, estremece sob os pingos de água. Vede o estremecer da água. Suas moléculas ondeiam. Uma poça contém um mar, revela um infinito. As vibrações, a coesão, a adesão, os princípios do equilíbrio, o respeito pela atração. É o infinito! Uma poça contém o infinito. O sol a evaporou, o frio a condensou, o ar a espargiu, a atração a depôs; uma gota de água contém uma filosofia. Amai a gota d'água. A lágrima é a imagem da gota d'água. Uma lágrima é a imagem do sentimento (...)"

sexta-feira, 23 de maio de 2025

Os sentimentos dum palhaço. Um conto sobre a vida e a morte, a tristeza e a alegria no Circo da vida, escrito há muito tempo...

 Lá fora chovia imenso. Vinha de lá um som esquisito: os barulhos da cidade, as buzinadelas dos carros, berros de pessoas, tudo misturado com os relâmpagos e trovões daquela noite chuvosa. Lá dentro o palhaço no seu minúsculo camarim sentia-se muito triste enquanto ia refazendo vagarosamente as pinturas da sua cara. Lá fora continuava a chover e o palhaço sentia-se ainda mais só. Aproximava-se o momento em que ele entraria em cena, altura em que esqueceria os seus desgosto e seria o que todos exigiam dele, um clown, um palhaço.
Olhou-se ao esp
elho, e viu vagamente reflectido, pois o espelho era tão velho, um sujeito imensamente cómico com um nariz muito grande e muito encarnado. Os sapatos eram tão grandes que pareciam os de um gigante, enorme de certeza. E as calças e os suspensórios tão divertidos. E ao mesmo tempo que ia pensando nisto a sua cara ficava mais alegre, os olhos brilhavam muito mais e as cores da cara ficavam muito agradáveis. Bateram à porta muito ao de leve, não o fossem incomodar. Era só para ele saber que... já faltava pouco. Os aplausos entraram um bocadinho pelas frinchas da porta e ele ainda se sentiu mais feliz. Ficou um bocado parado sorrindo ao mesmo tempo que uma sensação óptima lhe aquecia o corpo. Depois abriu a porta devagar e deslizou lentamente para o corredor compridíssimo que terminava no palco ou arena. Reinava um silêncio de morte, só se via uma luz lá muito ao fundo. A tristeza começou a apoderar-se de novo do palhaço pobre enquanto ele avançava lentamente por aquele túnel enorme, horrível, arrastando os sapatos, pensando em imensas coisas más ou tristes, ele que só queria não pensar em nada. Aquela caminhada custava-lhe imenso fazê-la sozinho. Nos tempos do Augusto era outra a disposição. Iam a contar histórias, a fazer números, riam-se imenso e chegavam lá ao fundo num instante. Espreitavam pela nesga do veludo vermelho que fazia de porta e suspiravam fundo: tudo corria bem, a casa estava cheia e havia imensas crianças nas primeiras filas. Mas Augusto, numa noite parecida com esta, despedira-se, cansado e feliz. Foi-se embora. Lembrava-se perfeitamente, era num número que ele tinha inventado e que era muito conhecido. Segurava numas escadas altíssimas e o Augusto começava a subir os degraus até ao alto, enquanto deixava atrás de si um rasto de sol, de luz de imensas cores, e lá em cima de tudo via-se uma estrela que brilhava imenso e que estendia as mãos para Augusto. Ele tentava abraçá-la mas nunca o conseguira fazer talvez por nunca ter subido todos os degraus, mesmo os mais altos. Mas naquela noite, após alguns números de grande sucesso, Augusto começara a subir os degraus da escada e nunca mais parara. Rompera o tecto, passou ao lado das estrelas e continuou a subir porque as escadas também subiam. Cresciam imenso  e depressa ele estava altíssimo, quase que já não se via e de repente a estrela que balouçava algo tristemente começou a subir também iluminando a escada e depressa alcançou Augusto que subiu para cima dela e foram para um céu que a custo se descortinava, onde só deviam estar crianças e palhaços a brincar e a rir sempre... sempre...
Abanaram o clown, que sorria feliz; ele entrava na cena a seguir, mas o palhaço não acordava e continuava com riso feliz na cara. Tiveram que o abanar com mais força, mas o palhaço já não lá estava. Tinha partido a juntar-se a Augusto e aos outros palhaços e crianças que lá em cima, nos mundos subtis, brincavam felizes e espargiam sobre a Terra alegria. Por isso ele tinha um sorriso enorme na cara. Estava a fazer um número giríssimo com Augusto, e as crianças todas e os palhaços riam-se imenso... imenso...»

Saibamos estar mais alegres, sobretudo com as crianças, hoje mais frequentemente atemorizadas com a insensibilidade e violência que reinam. Saibamos transmitir-lhes sorrisos, amor, para que se descontraiam, se abram e deixem o seu coração e íntimo irradiar confiantemente.
Saibamos es
tar mais em amor e disponibilidade com os que nos rodeiam, com os que mais nos amam, pois nunca sabemos bem quando partiremos pela escada, pelo que devemos trabalhar e realizar a injunção iniciática com que Garcia de Resende concluiu a sua aproximação ao mistério do amor trágico mas imortal de Inês e de Pedro: "Quem puder fazer bem, que o faça"...

Um alma boa e luminosa sendo chamada para os mundos da Luz Divina, seja ela Inês, Sandra ou outra...