domingo, 10 de novembro de 2024

Colóquio internacional “𝗨𝗺 𝗢𝗹𝗲𝗶𝗿𝗲𝗻𝘀𝗲 𝗻𝗼 𝗧𝗲𝗰𝘁𝗼 𝗱𝗼 𝗠𝘂𝗻𝗱𝗼”, o Padre António de Andrade no Tibete. Imagens do encontro e das visitas. Organização excelente da Câmara Municipal de Oleiros.

Uma tanka com Sidharta Gautama o Buddha, as bandeiras de Oleiros, Portugal e União Europeia, o retrato do Padre António de Andrade e a oração tibetana Om Mani Padme Hum Hri, que o Padre António de Andrade comentou, bordada numa faixa avermelhada. Oleiros, 9.XI.2024, quatrocentos anos desde a sua 1ª carta-relação do Descobrimento do Tibete.
Miguel Marques, presidente da Câmara Municipal de Oleiros, que tem manifestado notável dinamismo no apoio  ao património cultural e humano de Oleiros e particularmente à vida e obra do P. António de Andrade, abre o Colóquio, vende-se ainda o co-organizador Joaquim Magalhães de Castro, e Maria Manso.       
À esquerda, Marco Serote Roos, que proferiu a 1ª comunicação sobre as viagens terrestres e marítimas anteriores à descoberta do Tibete, intitulada "Os Descobrimentos na Ásia Central: antecedentes da missão de António Andrade", e à direita Maria de Deus Manso,  proferindo a segunda comunicação sobre a devassa à morte por envenenamento do mártir Padre António de Andrade, intitulada: "Além dos limites: a Viagem ao Tibete do Padre António de Andrade e as controvérsias em torno da sua morte em Goa"
                                                              
O último dos três oradores da manhã, o sacerdote jesuíta António Trigueiros, apresenta a sua comunicação: "O Padre António de Andrade na documentação jesuíta romana", acerca das cartas e assinaturas de António Andrade, partir do fundo ou arquivo da Companhia de Jesus, hoje disponível online na sede da revista Brotéria, e ainda as avaliações que lhe foram feitas internamente na Ordem, sobre os seus aspectos psicosomáticos,
A assistência interessada, que chegou a ser de 80 pessoas no início, destacando-se na primeira fila o Presidente da Câmara Miguel Marques, o vereador da Cultura Paulo Urbano e a co-organizadora do colóquio Inês Martins, sempre presente na sua claridade. 

O homenageado, o heróico e santo missionário António de Andrade, nascido em Oleiros em 1580 e desencarnado em 1634, em Goa, pioneiro da ligação entre Portugal e a Europa e o Tibete.
O excelente pavilhão Multiusos em que decorreu o colóquio, numa arquitectura fortemente assente nos dons naturais de Oleiros: a madeira e o xisto. 
Parte da tarde: Maria João Coutinho profere a sua comunicação acerca da "Arte e Cultura na Assistência portuguesa no tempo de António de Andrade, s.J." , Joaquim Magalhães de Castro e António Graça de Abreu.
O Padre António de Andrade, e a Maria João Coutinho. 

Pedro Teixeira da Mota, o encontro ecuménico e as qualidades do P. António de Andrade

António Graça de Abreu, mostrando algumas fotografias captadas no Tibete, após a sua palestra "O P. António de Andrade na prosa exuberante de Aquilino Ribeiro."
Os anfitriões e organizadores,  e os conferencistas do 1º dia. 

Dia 10, Domingo, manhã, após a palestra de José Raimundo Noras, "António de Andrade e as cartas do Tibete -  urgência da Redescoberta", em que abordou as cartas no seu conjunto e a sua recepção, a Inês Martins tece algumas considerações antes de subirem ao estrado os outros comunicantes presentes, Maria João Coutinho, António Graça Abreu, Marco Serote Roos e Pedro Teixeira da Mota, que tiveram oportunidade para realizarem uma última intervenção conclusiva e valiosa.

Alguns dos objectos sagrados tibetanos expostos na homenagem ao encontro do Padre António de Andrade com o Tibete e com a sua diversificada tradição cultural, artística, religiosa e espiritual.
O cartaz do programa do Colóquio recria bem o encontro fabuloso do Padre António de Andrade com a civilização Tibetana, perenizado pelas suas tão valiosas quão emocionantes cartas.
 

 

No espaço galeria da Câmara Municipal de Oleiros a exposição temporária de esculturas em pedra de Luís Alenquer, com algumas peças de grande beleza.
Luís Alenquer e a instalação de um portal.
Início da visita guiada por uma das animadoras do Colóquio, Anabela Silva.

A forte representação do Padre António de Andrade realizada por José Leitão de Paula e inaugurada e benzida em 2020, no centro da Vila de Oleiros evocando bem o seu mais ilustre conterrâneo.
Um dos conferencistas, sobre a espiritualidade ecuménica das missões da corte mogol e do Tibete, sentindo grato o coração espiritual, sob a invocação ou sintonia do heróico e santo padre António de Andrade.
Símbolos religiosos comuns: a mitra tibetana, e o pendente do rosário cristão.

A casa onde viveu o P. António de Andrade, e que se encontra bastante degradada à espera de se tornar a casa museu e centro Padre António de Andrade, talvez para ser inaugurada no quarto centenário da sua morte em 1534.
A guardiã e dona da casa, que ouviu muito interessada as comunicações, conversa com dois dos participantes do colóquio e da visita guiada, um deles muito feliz por ter-se mudado para Oleiro há dois anos, e participar nas múltiplas actividades organizadas pelo Município, onde destacou as da Universidade Sénior de Oleiros.

Nave da matriz dedicada a Nossa Senhora da Conceição e onde o Padre António de Andrade foi baptizado em 1580. Começada construir-se em 1532 e já terminada no século XVIII, tem belas esculturas, talha e azulejaria.
O tecto da nave central, bem ornado de caixotões, pintados no séc. XVIII com  frases das Escrituras e seus símbolos alusivos aos predicados da Maternidade Divina....

A Inês Martins, a co-organizadora e coordenadora do Colóquio interrogando qual a melhor designação da tão bela quão invulgar escultura em pedra de ançã, ainda do séc. XV. se Nossa Senhora do Rosário, se Senhora da Rosa, mística.
A belíssima imagem de Nossa Senhora do Rosário, ou da Rosa irradiando a admiração como via de aproximação ao Divino, tendo ao lado um S. João Baptista (séc. XVII-XVIII), de excelente lavor.
Bela imagem de Santa Margarida, domadora do dragão, padroeira de Oleiros, num dos altares laterais e junto a S. Miguel.
A cruz da Ordem de Malta, a quem foi entregue a área de Oleiros no início do seu desenvolvimento urbano, no tecto da nave central.
No adro da Igreja, junto a uma pintura recente de Nossa Senhora da Conceição, e ao Freixo recentemente datado com seiscentos anos, Daniela Hengeller, Inês Martins, José Luís Santos e José Raimundo Noras em conversas.
Meias faces no Freixo multicentenário, sob o qual certamente a criança António de Andrade brincou.
Junto ao curso de um riacho, a um quilómetro da vila, o belo espaço rústico dos "Refúgios do Pinhal" que acolhe excelentemente os seus hóspedes.
O co-organizador e moderador do Colóquio, Joaquim Magalhães de Castro, notável expedicionário moderno do Tibete, de manhã, no Refúgio do Pinhal, e com uma pilha de livros sobre o Tibete que o António Graça de Abreu trouxe para a biblioteca de Oleiros e quem sabe se para a futura casa-museu e centro Padre António de Andrade.
A bela vista sobre a serra do Muradal, de um dos bons restaurantes que acolheram os participantes, o Apalaches Trail House, avistando-se ainda o Miradouro do Zebro traçado por Siza Vieira e recentemente inaugurado no 25 de Abril.
Uma pequena tanka, com Sidharta Gautama, o Buddha, perfumada pelas belas rosas de Oleiros...
Nam mk'a, um amuleto protector de ameaças a vários níveis, cruciforme, em fio de lã colorido, trazido de um mosteiro tibetano já há uns anos, mas ainda vivo e que esteve em exposição, e que prova algumas das afinidades que o Padre António de Andrade observou entre o imaginário religioso himalaico e cristão. Rodeia-o um rosário com a particularidade de conter ainda algumas contas com pedaços de ossos, que o Padre António de Andrade refere nas suas Cartas perenes e que merecem ainda ser bem aprofundadas e divulgadas.

sexta-feira, 8 de novembro de 2024

O P. António de Andrade e a descoberta do Tibete. Reflexões introdutórias ao colóquio "Um Oleirense no Tecto do Mundo.", 9-10-Novembro, em Oleiros.

                                                                   

O Padre António de Andrade e o Tibete.
Ensaios de caracterização, de compreensão psíquica, deste português nascido em Oleiros em 1580 e que peregrinou até até às nascentes do Ganges e ao Tecto do Mundo, por entre dificuldades pasmosas, são valiosos de realizarmos, para compreendermos melhor que forças físicas, psíquicas e espirituais detinha ele para ter triunfado durante os seus 54 nos de vida, partindo do centro de Portugal, de Oleiros, formando-se em Coimbra, Lisboa e Goa, missionando na corte mogol em Agra durante quatro anos e lançando-se ao Tibete em duas viagens audaciosas, a segunda numa permanência de mais de quatro anos.
                                              
Sabemos pouco dos seus pais (Margarida Andrade e Bartolomeu Gonçalves), das suas características físicas e da educação inicial, apenas que era de família importante na vila, já que o jurisconsulto e conjurado de 1640 Francisco de Andrade Leitão, o confirmaria anos depois como seu parente, nem com quem conviveu e aprendeu e terá ser pelas descrições das suas viagens que poderemos deduzir a sua constituição psico-somática e o que tinha ou levava consigo para arrostar tantos perigos movido por uma aspiração religiosa imensa, bem patente sobretudo na 1ª carta que o tornará mais famoso, escrita em 1624, já com vinte e quatro anos de permanência na Índia, e publicada em Lisboa, em 1626, num folheto de 16 páginas, onde descreve a sua arrojada exploração missionária ao Tibete Ocidental, ao reino de Guge e a sua estadia na capital Chaparangue.

                                                         
Noviço em Coimbra desde os 15 anos, formado depois em Lisboa como irmão jesuíta, chegado em Outubro de 1600, com mais companheiros, a cidade de Cochim, na nau S. Valentim, numa das armadas enviadas regularmente de Lisboa para a Índia, António de Andrade sabia bem ao que ia e o que deveria contar: esforços, sacrifícios, sofrimentos, na esperança de apostalizar, de salvar almas, de servir Jesus Cristo e a Igreja.
Este aspecto de dedicação religiosa e abnegação era comum nos arrojados missionários, que por si mesmos, ou porque sentiam que participavam na gesta portuguesa dos Descobrimentos, se ofereciam e lançavam mares a fora para evangelizar, assim talvez justificando melhor a empresa dos Descobrimentos como missão religiosa portuguesa. Haveria portanto bastante patriotismo em alguns, e menos noutros, até porque vários jesuítas estrangeiros lançaram-se também na gesta, e certamente não será fácil equacionarmos em termos percentuais de intensidade as motivações vibrantes em cada um dos missionários, nomeadamente em António de Andrade: como e quando lhe nascera a vocação e com que causas principais?
A carta-relação datada de 8 de Novembro de 1624, de Agra, e portanto já da missão dos Portugueses na corte mogol do imperador Jahangir, onde regressara após cerca de sete meses da 1ª viagem ao Tibete, é antecedida de um prefácio do editor  Mateus Pinheiro, muito patriota e atento ao que se passava na gesta mundial portuguesa, afirmando contudo que a razão mais elevada dela era o serviço de Deus.
Tal fé na missão divina da evangelização, comum a quase todos os missionários, é plenamente partilhada pelo P. António de Andrade na sua carta e este acreditar num Deus, numa doutrina, numa religião quando estamos entre fiéis e amigos é fácil, mas em viagem em terras estrangeiras, com religiões diferentes, pode ocasionar choques, despiques violentos e mesmo perigos de prisão e de morte.

Muito dependia do tacto, empatia-amor e sabedoria do missionário, mas também da sorte ou azar das circunstâncias, da bondade ou maldade dos actores que os rodeavam, do espírito da época, mas observaremos como o P. Andrade era dotado de um sentido arguto dos perigos e de um bom tacto diplomático, embora se mantivesse firme nas suas doutrinas e decisões, sabendo contudo adaptar-se.

Akbar no diálogo ecuménico em busca da religião da Verdade, Din-I-Ilahi.
Aconteceram contudo momentos de grande diálogo intereligioso como ele sabia na própria corte Mogol desde 1579, ao tempo do genial imperador Akbar (1556-1605), uns anos antes de ele chegar a tal corte esplendorosa em 1612, também como missionário enviado de Goa, e algo desse ambiente dialogante ainda sobrevivia no seu filho Jahanguir, com quem o P. Andrade dialogou e depois em Shah Jahan e finalmente com Dara Shikoh, o malogrado místico e aproximador da filosofia Yoga Vedanta e do Islão.
A segunda viagem, descrita em carta enviada do Tibete com a data de 15 de Agosto de 1626, relata bem os diálogos e discussões com os lamas e partilha o começo da Tibetologia ocidental (e em especial o Om Mani Padme Hum), certamente com as limitações do pouco domínio da língua e da cultura tibetana. Fora enviada para os seus superiores, mas só será publicada entre nós e algo modificada pelo P. António Franco em 1717, em 24 páginas da sua obra Imagem da Virtude no Noviciado da Companhia de Jesus na corte de Lisboa. É porém só em 1921, quando Francisco Esteves Pereira  publica as duas cartas e as contextualiza, que se patenteia publicamente o grande valor do Padre António de Andrade.
Após a sua vida abnegada, sábia e heróica, seja na corte mogol, seja nas duas árduas viagens e estadias em Chaparangue no Tibete Ocidental, seja nos vários anos como sacerdote, professor e Provincial da Companhia de Jesus em Salcete, Rachol e Goa, quando se preparava em 1634 para partir de novo para o Tibete, acabará, ao apoiar a investigação de suspeição de judaísmo num irmão jesuíta, por morrer envenenado, mas com tal aura de santidade que a breve trecho o seu túmulo foi considerado miraculoso, bem como a sua imagem. Mas não foi canonizado, apesar das várias atestações da sua virtude e santidade em curas.

Será apenas agora 400 anos exactos depois da redacção da sua primeira carta, 8 de Novembro de 1624, que a Câmara Municipal da sua terra natal, Oleiros, organiza um colóquio, com bons participantes e moderado pelo experiente viajante do Oriente e do Tibete, Joaquim Magalhães de Castro, nos próximos dias 9 e 10 de Novembro, no qual se homenageará e aprofundará o seu espírito e obra de diálogo, tanto missionário como ecuménico, com o povo e a civilização tibetana, numa intereligiosidade pioneira entre o Ocidente e o Oriente, que certamente de novo frutificará...

Símbolo ou amuleto protector, cruciforme e em losango, no meio do rosário com que se pronunciava o famoso mantra Om Mani Padme Hum Hri, ao qual o P. António Andrade ousadamente acrescentou nova hermenêutica: Deus, separa-nos e purifica-nos dos nossos pecados ou faltas...

terça-feira, 29 de outubro de 2024

Desidério Erasmo, mestre espiritual de Portugal, da Europa e da Humanidade, perenemente. Nas comemorações em 2024 do seu aniversário.

A afirmação de que Erasmo é um mestre espiritual de Portugal, da Europa e da Humanidade assenta em várias razões, das quais enumeramos algumas:
Entendeu que a paz e a concórdia eram a base fundacional da humanidade e da cristandade europeia e procurou educar as pessoas para se aperfeiçoarem e estarem em paz.
Foi um defensor e propugnador da não-violência e da tolerância, bem com do livre arbítrio, dos estudos e publicações livres, da procura da verdade, e da sabedoria e vivência ecuménica, de modos fortes e pioneiros (que levaram algumas das suas obras a serem censuradas ou proibidas), pondo por exemplo em causa tanto a conversão dos infiéis quando os missionários ainda não se tinham verdadeiramente convertido, para além de que os turcos podiam ser mais religiosos que os cristãos, como ainda os monopólios que o rei de Portugal tentava introduzir no comércio das especiarias, no que prefigurava de certo modo as actuais sanções desmesuradas da oligarquia ocidental sobre as economias emergentes ou mais socialistas. Ou o monopólio das edições, metodologias e hermenêuticas com que algumas universidades e teólogos se arrogavam.
Um sofista sorbónico, por Hans Holbein, para o Elogio da Loucura.
Realçou o trabalho a realizar-se sobre os instintos e desejos, hábitos, preconceitos e medos, e exemplificou-o na sua vida, realçando a pureza, a sinceridade, a sobriedade.
Foi bastante crítico (bem ironicamente no Elogio da Loucura), do ego, do egoísmo, das superstições, da vaidade, sede do poder, dogmatismo e mostrou tal desprendimento egóico e das presunções e riquezas na sua vida de studium, isto é, estudo e esforço, que dizia lhe ter evitado vícios ou fraquezas,
Valorizou muito a piedade, a pietas docta, o amor, a compaixão, a fraternidade, nas suas obras e nas suas convivências com amigos e pessoas, para os quais foi tanto um companheiro como um mestre, tal como vivenciou durante alguns meses que viveu com ele o principal representante de Portugal dos Descobrimentos na Europa, o seu confabulator Damião de Goes, corajoso defensor dos lapões e etíopes numa precoce multipolaridade de costumes, povos e religiões. 
Valorizou bastante a palavra, o Sermo, o Logos, a sinceridade, o efeito das palavras e sons, e o seu uso nas conversas, discursos e orações e várias das suas obras iniciais foram meios de ensinar a saber escolher e usar as palavras e exemplos, com elegância e propriedade, para além de terem sido o seu ganha pão inicial como estudante, preceptor e humanista.
Foi um mestre do controle dos pensamentos e imaginação, da meditação e da oração, deixando-nos várias orações e meditações, várias delas incluídas no seu Modo de Orar a Deus que publiquei em 2009.
Capa de Maria de Lurdes Oliveira, a Lucha, que ilustrou ainda a obra com um desenho.
 Valorizou o canto, o êxtase, o rapto como estados intensificados de energia-consciência e de unificação e de aproximação à união com Deus, tal como quando escreve no Modo de Orar  a Deus «Há um hino quando o ânimo, tendo considerado (considerata) a sublimidade de Deus, é arrebatado (rapitur) no louvor daquele, a quem somente é devida  toda a glória». Ou ainda: «quem com o olhar do espírito, contempla do interior a glória da filha do Rei, diz com o profeta: "a minha alma aspira aos átrios do senhor, ela desfalece aí". Ekleipen (desfalece) é próprio dos que desejam de um modo supra-humano intensíssimo".
Esteve sempre consciente do corpo psico-espirital e da necessidade de trabalharmos com ele, tal como  este dito bem realça: «a luz da fé agudiza o olho espiritual e permite-lhe distinguir mais coisas que não podem os olhos do corpo.» Da concórdia amável da Igreja, 1536.
Realçava a importância fundamental da religação da alma humana à Divindade e por muitíssimos modos a expressou e ensinou, usando palavras das Escrituras, da Patrística ou suas, e podemos resumi-la, , assim: -"Há um corpo espiritual, há um coração puro que Deus cria em nós e há um espírito direito que ele recria de novo nas nossas entranhas." 
A empresa tipográfica de Fröben, de Basileia, grande amigo de Erasmo.
Valorizava o trabalho em grupo, seja social, seja literário e editorial (e assim trabalhou nas tipografias de Aldo Manutio e de Froben), seja religioso, como um acto harmonizador e gerador de boas emanações no Universo, tal como quando escreve: "cada vez que as pessoas se reúnem no respeito das leis e para um objectivo honesto, o seu gesto comporta uma certa dignidade e é mesmo criador de alegria, logo com que respeito não se deve envolver uma assembleia de pessoas piedosas agrupada para prestar culto ao Deus vivo, tanto mais que se liberta uma tal força do coro formado por aqueles a quem confiança em Deus une intimamente, que mesmo os profanos sentem admiração."
Se na época foi por muitos reconhecido como mestre e com o decorrer dos anos as suas obras não deixaram de ser lidas com proveito, e a rainha D. Catarina da Áustria chegou a Portugal em 1525 para se casar com D. João III trazendo já algumas obras de Erasmo, contudo poderemos pensar que Erasmo quando morreu em 1536, algo em bolandas entre cidades ora protestantes ora católicas por causa das lutas da Reforma, estaria frustrado quanto a um dos seus objectivos, o da unidade da Cristandade?
Provavelmente não, pois o objectivo ou dharma de cada um de nós é fazer o que pode, transmitir as energias que tem para o universo de acordo com o que recebeu, assimilou e gera, e os resultados não são tanto da sua conta, não estão em seu poder, devendo estar equânime perante as críticas ou ataques que recebe, tal como Erasmo bem demonstrou enfrentando tantos adversários das suas ideias em polémicas fortes, sem desanimar e perseverando fiel do Amor e da Verdade, tal como também ensina a sabedoria indiana na Bhagavad Gita, 2, 47, tens o dever da acção justa mas não o direito aos frutos.
 Os seus objectivos principais foram aprender bem o latim e o grego, contribuir para a união da cultura clássica com a cristã e inserindo-a na contemporaneidade para a melhoria da Humanidade. E assim procurou manuscritos, mergulhou neles e recuperou o conhecimento das belas letras antigas e da sua elegância e sabedoria, traduziu-a e transmitiu-a aos seus alunos e depois leitores.
Atraído pela fonte viva religiosa do Cristianismo que é o Novo Testamento lançou-se na recuperação, clarificação, actualização da mensagem de Jesus e gerou dezenas de obras, seja originais seja de tradução e anotação, seja de comentários e paráfrases. O que fez também com grande qualidade com os primeiros padres da igreja traduzindo, anotando, comentando S. Jerónimo, S. Agostinho, S. Hilário, S. Crisóstomo, Orígenes e outros.
Para além do seu trabalho literário e religioso houve as várias obras de pedagogia, que influenciaram gerações e gerações, e na quais podemos de certo modo incluir as mortais obras primas dos Colóquios e do Elogio da Loucura, com o lúcido desmascarar do que era exagerado, limitado, negativo, contrapondo as vias correctas ou mais harmoniosas e felizes.
Sancte Erasme, ora pro nobis, ora cum nobis!
Em todos estes labores conseguiu dar à luz milhares de páginas, impressas em biliões, alcançando milhões leitores não só na época como ao longo dos séculos, que se alegraram com efeitos luminosos, que lhe agradarão até hoje no além, nos mundo espirituais, onde certamente é um guia, um mestre, com quem podemos sintonizar.
 Entre os portugueses do seu tempo que tinham  coração e o olho espiritual suficientemente abertos para reconhecerem o seu valor deveremos mencionar o seu grande amigo Damião de Góis, escrevendo no prefácio à tradução de Catão, de Cícero): «aquele prudentíssimo e gravíssimo Erasmo Roterodamo, neste nosso áureo e doutíssimo século, príncipe de toda a doutrina e eloquência», André de Resende,  em 1531 no Erasmi encomium, impresso por Froben: «homem de juízo acérrimo, considerado entre os escritores, o Aristarco do nosso tempo», sendo de se realçar que Aristarco fora um gramático e retórico de Alexandria, que restabelecera os textos de Homero, e inspirara a exegética espiritualizante de Orígenes, mestre de Erasmo, que por sua vez restabelecera os textos de Jesus. E quando Erasmo desencarna, André de Resende, a Damião de Góis, exclama: «extinguiu-se para o mundo aquele que era o ornamento que os séculos nuca chorarão suficiente». E apela: «aqueles que profanaram a sua reputação acusando-o de heresia, aprendam agora a moderar as suas sevícias e deixem ao menos intactas as suas obras que a posterioridade grata poderá venerar e honrar». Também Diogo Pires expressa em 1545 quanto o amava, em belos poemas e num epitáfio: «Aqui jaz um homem divino, Erasmo, do amor exemplo. Quanto à sua alma, essa tem morada no Olimpo, entre os bem-aventurados», isto é, os santos, mestres, sábios e guias da Humanidade. 
Erasmo num Graal e Olimpo português.
  Se é verdade que com a sua douta piedade e irenismo (pacifismo) quis que houvesse uma reforma moderada da Igreja, e a conseguiu interiormente em si e em muita gente amiga - e foi um dos centros de força de tolerância e concórdia durante a época da Reforma, do Protestantismo e da Contra-reforma papal -, se a Igreja Católica veio a ficar cindida, a culpa não foi sua, tal como alguns disseram ("Erasmo pôs os ovos, Lutero chocou-os"), mas sim porque isso tinha de acontecer, seja por ganâncias e nacionalismos, seja por caracterologias e equilíbrios e desequilíbrios de forças. E ressalve-se que a sua batalha pela unidade e concórdia numa Igreja purificada, piedosa e douta não morreu com ele, pois entre protestantes e católicos nos anos a seguir ainda houve encontros (Leipzig, Worms, Ratisbonna) promovidos por Carlos V e as alas moderadas adeptas das ideias de Erasmo, para se chegar a acordos que evitassem a divisão no cristianismo, consumada contudo, com perdas importantes quanto aos aspectos devocionais com santos e santos, anjos e arcanjos e suas imagens, ainda que amenizada nos nossos dias, ressalvando-se terem nas últimas décadas surgido muitas seitas evangélicas e dos últimos dias altamente manipuladoras da mensagem de Jesus ou dos Evangelhos, exploradoras dos fiéis, e fanáticas ou mesmo diabólicas. Quanta falta faz a esses pastores os estudos bíblicos, comparativos e erasmianos, para além da docta pietas?
Ao deixar-nos 3.000 cartas, algumas cotejáveis com as que lhe enviaram e que reunidas todas já no séc. XX por Allan em 12 volumes - o uma fonte monumental e extraordinária de informações interactivas e dialogantes históricas e psicológicas, e plenas de ensinamentos éticos, religiosos e espirituais -, mais ainda se comprova o valor de Erasmo como mestre perene da Humanidade.

Sabermos também nós bater à porta do reino dos céus interior, pedir e receber.

Tal como o seu amigo e sábio platónico John Colet, deão da escola da catedral de S. Paulo em Londres, onde a tão bela imagem de Jesus a bater à porta, do pre-rafaelita Holmam Hunt,  se encontra, profetizou o Nomen Erasmi nunquam peribit, "O nome [e espírito] de Erasmo nunca perecerá…",  assim ainda hoje Desidério Erasmo toca, ilumina e inflama animicamente  os que o leem, estudam, editam e meditam, pelo que sempre renascerão testemunhos e frutos dos seus estudos e criatividades, amizades e ligações, tal como nós laboramos neste anel de graças em que lhe retornamos o amor sábio que ele tanto manifestou, 557 anos depois de ele ter vindo à Terra sulcá-la tão estudiosa quão fecundamente com o seu espírito divino, de acordo com o que escreveu no seu tratado Da Educação das Crianças, o De Pueris: “Um homem não nasce homem, torna-se”.

Estudos das mãos de Erasmo, por Hans Holbein.

segunda-feira, 28 de outubro de 2024

Nos 557 anos de Erasmo, um estudioso e amoroso da Divindade e da verdade religiosa ou religante a Ela. Alguns aspectos perenes da sua demanda.

                                                

Ao longo dos anos tenho cultivado uma amizade com Erasmo que embora tenha frutificado num livro em 2008, muito mais gerou de pensamentos, meditações e escritos (sobretudo na época), além de uma vontade de dialogar com ele e o compartilhar, para maior lucidez e sabedoria das almas que hoje em geral pouco ou nada o conhecem, já que sem a memória do passado luminoso o presente é mais manipulável e o futuro menos promissor, amplo e conducente a uma vida post-mortem luminosa.

Perfazendo-se a 28 de Outubro o seu aniversário, e de 1467 (que pode ser 1466) a 2024 já são 557 anos, resolvi revisitá-lo, seja nos seus textos, seja no que já escrevi sobre ele, melhorando-o e partilhando-o...
Como sabemos Desidério Erasmo foi filho de um clérigo, e foi também ele a partir dos 17 anos um religioso, embora cedo tenha recebido um estatuto especial devido aos seus excelentes dotes de sensibilidade e inteligência e à pouca vocação para estar limitado pela rotina do mosteiro dos Agostinhos em Steyn, onde tivera de entrar pela morte dos pais, sendo ordenado sacerdote em 1492 e entrando para secretário do bispo Hendrik van Bergen, o que lhe permitiu viajar pela Europa durante dois anos e encontrar-se e conviver com humanistas e religiosos, dedicados às letras, à religião, à sabedoria perene.
Estudando em Paris, ao mesmo tempo que já ensinava jovens, mas desiludindo-se co
m a metodologia escolástica meramente formal, tortuosa e insípida, virá após diversas viagens e trabalhos, a doutorar-se em Turin, apenas em 1506, mas independentemente disso as suas edições anotadas, as traduções e obras sucessivas granjeiam-lhe uma grande reputação seja pela inteligência compreensiva do latim e da civilidade e literatura clássica, traduzindo Terêncio, Eurípedes, Luciano, Plauto, Juvenal,  e a capacidade de a ensinar, como pela ironia com que criticava os defeitos da época e apontava para as qualidades valiosas,  e ainda pela coragem de enfrentar e dialogar com os meios e agentes  mais conservadores. E sobretudo pelo seu grande amor ao conhecimento e à mensagem de Jesus, a philosophia Christi, que palpita nos Evangelhos e  corre nos escritos dos primeiros padres da Igreja que ele mais tarde virá a traduzir do grego em latim e a comentar, tornando assim acessíveis os grandes mestres do cristianismo inicial, tais como Clemente de Alexandria, Orígenes, S. João Crisóstemo, S. Hilário e outros.
Escrevendo tantos livros sobre a educação, a ética, a religião, tais como os dedicados à morte, ao casamento, à aprendizagem de línguas, à conversa  e à elegância do estilo, à guerra e à paz, à oração, Erasmo tornou-se um farol de grande luz no Renascimento. As obras que tiveram mais sucesso foram sem dúvida o Manual do Cavaleiro Cristão, o Elogio da Loucura, os Colóquios e os Adágios, e com eles alcançou milhares de pessoas e criou uma reputação imensa, que originou tanto críticas dos meios mais ortodoxos e reacionários como a criação de um círculo de amigos, correspondentes e confabuladores sólidos, onde se destacaram Thomas More, John Colet, Beatus Rhenanus, os Froben, e até o nosso Damião de Goes e logo a manutenção de uma correspondência com dezenas de estudiosos, humanistas e sábios, que sobreviveu em grande parte, com mais de 3.000 cartas, mostrando por dentro da sodalidade ou irmandade humanista o pulsar cultural, sócio-político e religioso europeu durante cerca de quarenta anos importantíssimos, antes e durante a Reforma fracturante da unidade cristã.
Ao  publicar em 1515, e com a aprovação do papa Leão X, um culto Medici, uma nova versão do Novo Testamento e que teve a ousadia de chamar Novo Instrumento, na qual, baseando-se em vários manuscritos até então não conhecidos, e mais científico na análise filológica, corrigiu a versão corrente, a Vulgata, em mais de 600 casos, Erasmo suscitou fortes clamores contrários, nomeadamente de dois ou três teólogos mais fanaticamente conservadores, obrigando-o a grandes polémicas e sendo posto no Índice dos autores de livros proibidos, nomeadamente pelas Universidades de Paris, a Sorbonne, e de Lovaina. Na segunda edição, em 1519, Erasmo, com mais modéstia, retirou o título de Novo Instrumento e passou a ser apenas Novo Testamento. E se as modificações e anotações eram de início mais de ordem filológica, com as polémicas  as sucessivas edições (1519, na qual usou vários manuscritos gregos e latinos não utilizados até então, 1522, 1527, 1535) passaram nas anotações a incluir  aspectos teológicos, morais e espirituais, e nelas Erasmo, reformista da Igreja e clarificador sincero e ardente da mensagem e espírito de Jesus, brilha. 
Exemplos instrutivos das anotações aos Evangelhos: Mateus, 3. "fazer penitência", para Erasmo voltar aos seus sentidos, a si mesmo, ou seja, fazer a metanóia, a transformação em relação ao passado. Actos, 19, acerca da "confissão", Erasmo considerava-a pública, não instituída por Cristo e não obrigatória, desejando que todos vivêssemos sem necessidade dela. Mateus 5, o "jurar, ou não". Para Erasmo Jesus não proibira o jurar, e apenas dissera que o cristão devia ter um carácter que lhe permitiria dizer  apenas "sim ou não" e não ter que recorrer ao juramento como qualquer pessoa comum fazia correntemente. Lucas, 3, "fazer guerra ou não". Erasmo propunha que um religioso não devia fazer guerra e que um cristão só a deveria fazer por "grande necessidade e honesta  utilidade", e que Cristo não a tinha recomendado, e como S. Ambrósio dissera "as armas da Igreja são a fé e as orações, pois são elas que vencem os inimigos." Lucas 1, "A saudação do Anjo" (ou arcanjo Gabriel) a Maria. Erasmo traduziu o grego kecharismene, por gratiosa em vez do gratia plena da versão corrente ou Vulgata. Ou seja, o Anjo chamara-a "graciosa" e não "cheia de graça", o que para os mais ortodoxos parecia um diminutivo da condição de imaculada de Maria. Também o considerar a saudação do anjo como "amatória" foi considerada ofensiva pelos seus contraditores, obrigando-o na 2ª edição a diminuir o seu afecto para "gentil". Marcos 14, Mateus, 2 e Eucaristia. 1 Coríntios, 11. Eucaristia. Na consagração, que Erasmo considerava difícil saberem-se as palavras usadas, pelo que seria melhor que houvesse menos dogmatismo da parte dos teólogo sobre elas, preferindo o frangere, "quebrar" ou "dividir" o meu corpo, em vez de tradere "dar", e pensando que não teria sido o verbo no futuro mas no presente utilizado. Após vários ataques nomeadamente, os da Junta de Vallodolid em 1527, submeteu-se ou amoldou-se mais à autoridade eclesiástica aceitando o valor dos decretos da Igreja já que a razão humana não podia saber ao certo o que fora dito no momento da última Ceia. Em relação à transubstanciação, acusado por Noël Beda e Leo Jud de a estar a negar, considerando o pão e o vinho como meramente simbólicos, o que era grave, Erasmo respondeu que apenas questionara se Cristo estaria presente sempre que se partisse o pão, e na edição de 1527, já depois da Junta de Valladolid, onde participaram teólogos portugueses para decidir da ortodoxia ou não de Erasmo, ele acabou por afirmar que o pão "era o seu verdadeiro corpo e não o símbolo do seu corpo, porque o corpo era transformado de uma maneira misteriosa". 
Erasmo não foi um grande frequentador da Eucaristia, talvez pela sua itinerância e porque a sua religação com o mestre Jesus e a Divindade estava activa a tempo inteiro, no que ele chamava a oração incessante e que tinha como base íntima o que afirmou no Modo de Orar a Deus: "O peito do cristão é o próprio templo de Deus, leva consigo o seu altar, contém Deus presente". Ou ainda,  e tão valiosamente: "Tanto mais é entrado o íntimo sagrado, e Deus feito próximo, quanto mais te recolheres em ti próprio."
Muito importante na dimensão do mundo cristão, alem das edições anotadas do Novo Testamento, foram, pelo seu sucesso em toda a Europa e em especial em Espanha, onde fora rapidamente traduzida (e muito bem estudada por Marcel Bataillon), as sucessivas edições do Enchiridion ou Manual do Cavaleiro cristão. E depois as suas paráfrases dos Evangelhos, que acabaram por ser adoptadas pela igreja Anglicana, tentando Erasmo  apresentar um cristianismo não supersticioso nem dogmático ou ritualista, mas puro, simples, directo, do coração e  baseado no amor a Deus e ao próximo, e vivenciável no dia a dia de cada um.
Consideraram contudo alguns que o interesse principal de Erasmo     seria apenas a religião ou religação interior, e uma religiosidade consciente, assente na liberdade ou livre arbítrio e responsabilidade individual, e que tal era um perigo para a Igreja, pois o seu relativismo e cepticismo em relação a certos aspectos ou dogmas abriam brechas na fé monolítica e total que alguns desejavam, e lembremo-nos de S. Inácio de Loiola (1491-1566), uns anos mais novo que Erasmo e que estudou no mesmo colégio religioso de Montaigu em Paris, desaconselhando os seus discípulos "jesuítas" de lerem Erasmo, pois esfriava a fé.
Todavia foi em defesa do livre arbítrio que Erasmo acedeu ao pedido do Papa de entrar em combate com Lutero e a sua excessiva predestinação e assim, ao obedecer ao pedido do chefe da Igreja, pôs em causa o fanatismo protestante, "derrotando" e enfurecendo Lutero. E talvez fosse também por isso  que Erasmo recusou o barrete cardinalício oferecido pelo papa Paulo III já quase no fim da sua vida, em Agosto de 1535, após tantas perseguições e polémicas com os sectores mais conservadores da Igreja, explicando coloquial e ironicamente que já era um burro demasiado velho para enfiar tal carapuça. 
Sua era mais a liberdade que os que demandam a verdade experimentam e que expressou em duas magníficas declarações  e que eu escolhi até para epigrafe inicial da tradução e edição que gerei em 2008 do Modo de Orar a Deus: "Eu desejo ser cidadão do mundo, comum a todos ou mesmo mais  peregrino."   ---   "Não nego que procuro a paz sempre que possível. Sou a favor de ouvir os lados com ouvidos abertos. Amo a liberdade. Não servirei, nem posso servir, nenhum partido.", afirmações tão exemplares e actuais para um mundo ainda tão partido ou dividido pelos partidos...
Concluamos então com a sua semente de meditação: "O peito do cristão é o próprio templo de Deus, leva consigo o seu altar, contém em si Deus presente".