quarta-feira, 24 de maio de 2023

Vladimir Soloviev. Vida e iluminações, a santa Sophia. Com gravação de leitura sobre Soloviev da "Alma da Rússia", por Helen Iswolsky.

Vladimir Sergueïevitch Soloviev, 16.I.1853 a 31.VII.1900.
Teillard Chardin, Helena Iswolsky e a poetisa Marina Tsvetaeva, finais dos anos 30.

 Helena Iswolsky, tradutora, jornalista e escritora russa (1896-1975), nascida na Alemanha, onde o pai, antigo ministro do Czar, era diplomata, e de  mãe alemã, com quem emigrou para Paris no começo da 1ª grande Guerra, conviveu com Jacques Maritain, Teillard Chardin e outros intelectuais e padres católicos e ortodoxos,  que circulavam à volta do movimento do personalismo da Action Catholique e da revista Esprit, significativamente aonde a nossa Dalila Pereira da Costa publicou o seu primeiro ensaio em 1970, Expérience de l'extase, já abordado neste blogue. Helena Iswolsky conheceu e colaborou mesmo com Nicolas Berdiaev (1874-1948),  na época o principal filósofo russo emigrado em França, expulso da Mátria em 1922 com outros intelectuais considerados inimigos ideológicos do comunismo pelas autoridades soviéticas. A sua obra como jornalista e escritora foi vasta, pois as vicissitudes da Fortuna abatendo-se sobre a família obrigaram-na a ganhar a vida pela escrita, o que não foi difícil porque era uma boa poliglota, cristã e de coração vivo no amor.
                                         
O seu li
vro Soul of Russia, Alma da Rússia, publicado em Londres, em 1944, pois no dealbar da 2º grande Guerra, em 1941, emigrara da França para os  USA, está dedicado a sua mãe e dividido em dezasseis capítulos, oferecendo-nos uma boa visão da evolução histórica da religião e da espiritualidade russa, sintética nas suas 159 páginas, acrescentadas de uma razoável bibliografia para cada capítulo, nos quais destacamos o XIII, A Procura de Deus, onde se acerca de Dostoievsky e de Tolstoi, e o XIV, o Profeta da Universalidade, onde partilha a sua compreensão da vida e obra de Vladimir Soloviev, grande amigo de Dostoievsky e de certo modo o mestre de Nicolas Berdiaev, Pavel Florensky e Sergei Bulgakov, estes dois últimos profundos filósofos, isto é, amantes da Sabedoria, como foi bem captado pelo pintor Mikahil Nesterov:
                                       
O capítulo dedicado
 ao genial filósofo e teólogo Vladimir Soloviev (1853 a 1900), em dez páginas, partilha resumidamente o essencial do percurso da sua vida e alma, tendo eu lido as três primeiras páginas, comentando-as, tal como pode ouvir na gravação vídeo, destacando-se nelas a sua visão e compreensão da Sabedoria Divina, a Hagia Sophia, a alma Divina do Mundo e que ele tanto aprofundara em vida, com grande originalidade, tal como fez em relação à Trindade, sendo reconhecido mesmo por cristãos católicos (tal Osvaldo Lira, no seu prólogo à Rusia y la Iglesia Universal, 1946), já que Soloviev, após uma evolução abrangente e investigadora de vários caminhos,  reafirmou o pensamento religioso ortodoxo e tradicional da Rússia, aberto ou fundado pelos primeiros padres do Oriente mas por ele exponenciado magnificamente, profeticamente mesmo,  na sua visão da missão universal da grande alma russa.

V. Soloviev, S. Trubetskoy, N. Grot e L. Lopatin, em 1893
 O seu famoso discurso em 1881 contra a pena de morte foi  muito fracturante na sociedade russa, mas embora amigo de Tolstoi e discutindo bastante com ele a sua religiosidade descrente de certos aspectos do catolicismo, não apoiava o princípio da não-violência na sua radicalidade, ou seja, a não resistência ao mal. Foi  ainda um crítico fundamentado  do Positivismo de Augusto Comte, conforme a tese defendida brilhantemente, com vinte e um anos,  em 1874 na Universidade de S. Petersburg, e do Darwinismo, mas também do nacionalismo exagerado dos Eslavófilos, a que chamava um nacionalismo zoológico. Quanto a afinidades de fontes de inspiração,  apreciava muito os poetas simbólicos Alexander Bloc, místico, e Andrei Biely.
No famoso e veemente discurso contra a pena de morte, de 1881, face ao assassinato do czar Alexandre II,  pediu ao filho Alexandre III clemência, e afirmou  a sua visão espiritual: «A natureza tende para a unidade absoluta; a natureza humana e o mundo externo têm a mesma alma, e esta alma procura dar à luz o Divino».

Helena Iswolsky resume bem alguns aspectos da teodiceia e aspiração espiritual de Soloviev: «A encarnação da Palavra [Sermo, Logos ou Verbo] aconteceu na Pessoa de Jesus Cristo, mas há uma encarnação de Deus em cada ser humano, criado à sua imagem. Cada pessoa é um homem-Deus, um membro do Corpo Místico. Deus está também incarnado na sociedade Cristã, reflectindo a justiça Divina.
Soloviev descreveu Deus como um absoluto e perfeito todo. O mundo é a expressão do pensamento e amor Divino. Há uma plenitude, uma totalidade do ser: a pluralidade dos seres criados mergulha numa suprema unidade. A unidade do mundo é a sua alma. Soloviev chama-a também Sabedoria Divina (Sophia na Grécia) que é descrita no Livro dos Provérbios.»
Mais misteriosa e profética é a su
a visão de que as várias igrejas se unirão na luta contra o Antecristo e que a Rússia tinha ou tem "a sua palavra por dizer" (ideia também de Dostoievsky) na impulsão ou mesmo liderança na missão de universalidade religiosa e espiritual, justa e fraterna, da Humanidade. Ora se a luta contra o Antecristo, que foi mesmo a sua última obra é discutível, já a ideia da missão universal da Rússia continua muito presente, metamorfoseada ou adaptada  ao século XXI, sobretudo na sua terceira década, face ao confronto do Ocidente com a Rússia, em filósofos como  Daria Dugina, já martirizada, e Alexandre Dugin...

Visão da Mãe do Mundo e Hagia Sophia protectora nossa, por Nicholas Roerich
Anote-se em português  dada à luz pela Guimarães Editora, como de costume sem data, A Verdade do Amor, traduzida do francês e prefaciada sobriamente em dezassete páginas  por Álvaro Ribeiro, um dos mestres da escola da Filosofia Portuguesa, enraízada em parte em Leonardo Coimbra, também ele autor dum valioso ensaio onde Soloviev e Berdiaef estão bem presentes, a Rússia de Hoje e o Homem de Sempre, 1935. Noutra linha da nossa tradição espiritual temos a tradução prefaciada que José V. de Pina Martins, ainda com o nome de Duarte Montalegre, fez de Nicolas Berdiaeff, O Marxismo e a Religião, Coimbra, 1948, [já comentado no blogue] Esperamos acercar-nos ainda de parte da extensa obra de Vladimir Soloviev...
Oiçamos então agora a descrição, com pathos, ou emoção,  feita por Helen Iswolsky da vida e visões iluminativas de Vladimir Soloviev, lida e comentada por mim:

                        

terça-feira, 23 de maio de 2023

Alastair Crooke: A UE está demasiado investida no projeto de guerra ucraniano, 22.V.23. Via António Gil.

                                         

Alastair Crooke nasceu na Irlanda em 1949 e veio a tornar-se um diplomata agente dos serviços secretos ingleses, o MI16,  cerca de 30 anos, retirando-se depois para formar o Fórum dos Conflitos, sediado em Beirute, Líbano, sendo uma das vozes mais lúcidas, sábias e cordatas dos Ocidentais, em especial dos ainda capaz de apreciarem e dialogarem com conhecimento de causa os conflitos mundiais, e em especial com o Oriente e o Médio Oriente. Os seus artigos são sempre bons e muito certeiros e apreciados, embora por vezes longos para o tempo disponível dos leitores. O António Gil costuma divulgá-lo nas redes sociais, o que sucedeu quanto a este texto partilhado no Vk.com, (que recomendo pois não há as censuras e bloqueios do Facebook) e resolvi ecoá-lo no blogue, para abrir um pouco mais a consciência e o discernimento de alguns e porque que a direcção da União Europeia, inepta e vendida, está não só a desgraçar o futuro dos cidadãos que vivem na União Europeia, como a contribuir para a hecatombe eslava no conflito no Donbas e, por este andar, para destruição de grande parte da Ucrânia. Para estes insensíveis e vaidosos que dirigem a UE, USA e NATO, a morte, os ferimentos e os sofrimentos de milhões de seres não contam. Apenas as aparências de estarem no topo do poder político e viverem na ribalta  da elite oligárquica, à qual servem contra os interesses e fins últimos dos cidadãos e do planeta.

George Soros e Klaus Schawb, duas das maiores sombras opressivas, e os seus "avençados"

 Segue o texto; as imagens não existiam no texto original.

 A União Europeia está demasiado investida  no projeto de guerra Ucraniano.

por Alastair Crooke, 22 de Maio de 2023. Via António Gil, no Vk.com, com pequenas modificações; e os acrescentos em colchetes.
«A Ucrânia não é uma questão autónoma de política externa, mas sim o pivô em torno do qual as perspectivas económicas da Europa irão girar. 

 "Ursula no seu romance com Zelensky", e o padrinho espanhol embevecido.

A União Europeia, por qualquer padrão, está super-investida no projeto de guerra ucraniano – e também no seu romance com Zelensky. No início deste ano, a narrativa ocidental (e da UE) era de que a próxima ofensiva pós-inverno da Ucrânia "quebraria" a Rússia e daria um "golpe de misericórdia" na guerra. As manchetes do MSM [Main stream media, a corrente principal ou dominadora dos media]] contaram uma história regular da Rússia que estaria já na sua última perna. Agora, no entanto, as mensagens do Establishment [Sistema estabelecido, oligárquico] deram uma volta de 180°. A Rússia não está 'na sua última perna'...
Dois meios de comunicação anglo-americanos do establishment no Reino Unido (nos quais as mensagens do establishment americano frequentemente vêm à tona) final e amargamente admitiram: ' Falharam as sanções contra a Rússia '. The Telegraph lamenta : Elas “são uma piada”; “A Rússia já deveria ter entrado em colapso ”.
Tardiamente também, vem surgindo em toda a Europa a percepção de que as ofensivas da Ucrânia não serão decisivas, como era esperado semanas antes.
Foreign Affairs, num artigo de Kofman e Lee, argumenta que, dada uma ofensiva ucraniana inconclusiva, a única maneira de seguir em frente – sem sofrer uma derrota historicamente humilhante – é 'pontapear a lata no caminho' e focar na construção de uma coligação profissional de guerra para o futuro, que possa igualar o potencial de sustentação económico-militar de longo prazo da [santa] Rússia.
“Kofman-Lee constrói lentamente o caso de que qualquer tipo de sucesso dramático ou decisivo não deve ser esperado e que, em vez disso, a narrativa precisa de mudar para a construção de infraestrutura de sustentação de longo prazo para a Ucrânia ser capaz de combater o que agora provavelmente será um conflito muito longo e prolongado”, observa o comentador independente Simplicus.
Simplificando, os líderes europeus enterraram-se num buraco muito fundo. Os estados europeus, esvaziando o que restava nos seus arsenais de armas antigas para Kiev, esperavam sombriamente que a próxima ofensiva da primavera/verão resolveria tudo, e eles não teriam mais que lidar com o problema – a guerra na Ucrânia. Errado de novo: eles estão a ser convidados a "ir ainda mais fundo". 



Kofman-Lee não aborda a questão de saber se evitar a humilhação (NATO e EUA) vale um 'conflito prolongado'. Os EUA 'sobreviveram' à retirada de Cabul [tanto mais que se abotoaram, como já é costume, com milhões de dólares do Afeganistão e que não querem devolver, tal como com a Venezuela e Irão].
No entanto, os líderes europeus não parecem ver que os próximos meses na Ucrânia serão um ponto de inflexão chave; caso a UE não recuse firmemente o "escalonamento da missão" agora, haverá uma série de consequências económicas [ainda mais] adversas. A Ucrânia não é uma questão autónoma de política externa, mas sim o pivô em torno do qual as perspectivas económicas da Europa irão girar.
A blitz [viagem rápida] do F-16 de Zelensky pela Europa na semana passada é indicativa de que, enquanto alguns líderes europeus querem que Zelensky acabe com a guerra, ele – inversamente – quer (literalmente) levar a guerra para a Rússia (e provavelmente para toda a Europa).
                                       
“Até agora”, relatou Seymour Hersh, “[segundo um funcionário dos EUA], “Zelensky rejeitou o conselho [para
 acabar com a guerra]; e ignorou ofertas de grandes somas de dinheiro para facilitar a sua retirada para uma propriedade [bilionária]que possui na Itália. Não há apoio no governo Biden para qualquer acordo que envolva a saída de Zelensky, e a liderança política na França e na Inglaterra “está muito agradecida” a Biden por contemplar tal cenário”.
                                         
“E Zelensky quer ainda mais”, disse o func
ionário. “Zelensky está a dizer-nos que se queremos ganhar a guerra, temos que lhe dar mais dinheiro e mais coisas: “Eu tenho que pagar aos generais”. Ele diz-nos, segundo o funcionário, se ele for forçado a deixar o cargo, “ele vai para o lance mais alto. Ele prefere ir para a Itália do que ficar e possivelmente ser morto por seu próprio povo”.
Os líderes europeus vão recebendo coincidentemente – segundo Kofman-Lee – uma mensagem que ecoa a de Zelensky: a Europa deve atender às necessidades de sustentação de longo prazo da Ucrânia, reconfigurando a sua indústria para produzir as armas necessárias para apoiar o esforço de guerra – muito além de 2023 (para igualar a formidável capacidade de fabricação de armas logísticas da Rússia) e evitar depositar as suas esperanças em qualquer esforço ofensivo isolado.
A guerra está agora, desta forma, projectada como uma escolha binária: 'Terminar a guerra' versus 'Ganhar a guerra'. A Europa vem interagindo, parada na encruzilhada: começando hesitantemente por uma estrada, apenas para reverter e indecisamente dar alguns passos cautelosos na outra. A UE treinará ucranianos para pilotar F-16; e ainda é tímida quanto a fornecer os aviões. Cheira a tokenismo [aproveitamento disfarçado de minorias]; mas o tokenismo costuma ser o pai da invasão da missão.
                                        
Tendo-se aliado sob o gove
rno Biden, a liderança irreflectida da UE abraçou avidamente a guerra financeira contra a Rússia. Também abraçou irrefletidamente uma guerra da NATO contra a Rússia. Agora, os líderes europeus podem-se sentir pressionados a abraçar uma corrida pela linha de suprimentos para equiparar a 'logística' com a da Rússia. Ou seja, Bruxelas foi instada a comprometer-se novamente a 'vencer a guerra', em vez de 'terminá-la' (como vários Estados desejam).
Esses últimos Estados da UE agora estão a ficar desesperados por uma saída do buraco que cavaram. E se os EUA cortassem o financiamento da Ucrânia? E se a equipa de Biden mudar [o seu warmongerismo] rapidamente para a China? O Político publicou uma manchete: O fim da ajuda à Ucrânia vem-se aproximando rapidamente. Recuperá-lo não será fácil. A UE pode ter de financiar um “conflito eterno” e o pesadelo de uma nova inundação de refugiados – esgotando os recursos da UE e exacerbando a crise de imigração que já perturba os eleitorados da UE.
Os Estados-Membros parecem ainda pensar novamente, acreditando parcialmente nas histórias de divisões em Moscovo; acreditando nas 'omeletes mentais' de Prigojine (líder do reputado exército Wagner] ; acreditando que o cozimento lento russo de Bakhmut é um sinal de exaustão de força [já terminado a 21, embora a 23 Kiev continue a dizer que não], em vez de uma parte da paciente degradação incremental realizada pelos russos  sobre as capacidades ucranianas e que está em andamento, em todo o espectro.
Esses Estados cépticos da guerra, fazendo a sua parte simbólica do 'pró-ucranianismo', para evitarem ser castigados pela nomenclatura de Bruxelas [e esta por Biden e os USA], apostam na improvável noção de que a Rússia aceitará algum acordo negociado - e mais do que isso, um acordo que seja favorável à Ucrânia. Por que razão eles acreditariam nisso?
“O problema da Europa”, diz a fonte de Seymour Hersh [notável investigador independente], em termos de um acordo rápido para a guerra, “é que a Casa Branca quer que Zelensky sobreviva”; e 'sim', Zelensky também tem seu quadro de columbófilos de Bruxelas.
A dupla de Relações Exteriores prevê que uma corrida armamentista seria - novamente - bem, 'slam dunk' [boa tacada no basebol]:
“A Rússia não parece bem posicionada para uma guerra eterna. A capacidade da Rússia de consertar e restaurar equipamentos armazenados parece tão limitada que o país depende cada vez mais dos equipamentos soviéticos das décadas de 1950 e 1960 para preencher os regimentos mobilizados. À medida que a Ucrânia adquire melhores equipamentos ocidentais, os militares russos assemelham-se cada vez mais a um museu do início da Guerra Fria”.
Realmente? Esses jornalistas americanos alguma vez conferiram os fatos? Parece que não. Mais tanques foram produzidos na Rússia no primeiro trimestre de 2023 do que em todo o ano de 2022. Extrapolando, a Rússia já tinha fabricado mais de 150-250 tanques por ano, com Medvedev prometendo aumentar isso para 1600+. Embora esse número inclua tanques reformados e atualizados (que na verdade constituem a maior parte), ainda é indicativo de vastas produções industriais.
A UE não discute publicamente essas decisões cruciais que afectam o papel da Europa na guerra. Todos os assuntos delicados são debatidos à porta fechada na UE. O problema com esse déficit de democracia é que as sequelas dessas questões relacionadas à Rússia afectam quase todos os aspectos da vida económica e social europeia. Muitas questões são colocadas; pouca ou nenhuma discussão se segue.
Onde e quais são as “linhas vermelhas” da Europa? Os líderes da UE realmente 'acreditam' em fornecer a Zelensky os aviões F-16 que ele procura? Ou eles estão a apostar nas próprias 'linhas vermelhas' de Washington – deixando-os fora de perigo? Questionado na segunda-feira se os EUA mudaram sua posição sobre o fornecimento de F16s para a Ucrânia, o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca, John Kirby, disse: “Não”. Esta edição do F-16 não muda o jogo; no entanto, pode-se tornar a fronteira fina da 'guerra eterna'. Também poderia ser a fina fronteira para a 3ª Guerra Mundial.
A UE encerrará militarmente o apoio ao projecto da Ucrânia (de acordo com as advertências anteriores dos EUA a Zelensky), à medida que a ofensiva ucraniana se esgota – sem quaisquer ganhos?
Qual será a resposta da UE, se convidada pelos EUA a entrar em uma corrida de fornecimento de munições contra a Rússia? Só para esclarecer: reestruturar a infraestrutura europeia para uma economia voltada para a guerra traz enormes consequências (e custos).
A infra-estrutura competitiva existente teria que ser redirecionada de manufacturas para exportação para armas. Existe mão de obra qualificada hoje para isso? Construir novas linhas de abastecimento de armas é um processo técnico lento e complicado. E isso seria um acréscimo à Europa trocando infra-estrutura de energia eficiente por novas estruturas Verdes que são menos eficientes, menos fiáveis ​​e mais caras.
Existe uma saída para o 'buraco' que a UE cavou para si mesma?
Sim – chama-se 'honestidade'. Se a UE deseja um fim rápido para a guerra, deve entender que existem duas opções disponíveis: a capitulação da Ucrânia e um acordo nos termos de Moscovo; ou a continuação do desgaste total da capacidade da Ucrânia de travar a guerra, até que as suas forças sejam ultrapassadas pela entropia.
A honestidade exigiria que a UE abandonasse a postura delirante de que Moscovo negociaria um acordo nos termos de Zelensky. Não haverá solução seguindo este último caminho.
E a honestidade exigiria que a UE admitisse que entrar na guerra financeira contra a Rússia foi um erro que deve ser corrigido.»

domingo, 21 de maio de 2023

Imagens e extratos em vídeo de intervenções na manifestação internacional "We are ready", de unidade anti-Bilderberg, 20-5-23, com destaque para Fernando Nobre.

Fernando Nobre, conhecedor e destemido, transmite o seu verbo e logos.
A manifestação, organizada internacionalmente em mais de 250 locais no planeta, "We are Ready", contra o globalismo nocivo do grupo  Bilderberg (reunido em Lisboa a 20 e 21 de Maio), realizou-se pela tarde de 20-V, nas imediações da Torre de Belém, palco já de tantos eventos valiosos, e teve sem dúvida uma intervenção muita madura, fundamentada, incisiva, realista e utópica, a de Fernando Nobre, um persistente no destemor da defesa cívica da verdade. Nela pôs em causa tanto a ganância e maldade dos líderes políticos e financeiros do Ocidente na pandemia como ainda na geo-engenharia climática, com as "fumigações" (chemtrails) dos jactos e que secam as terras e destroem culturas, acentuando a hubris anti-natural e anti-divina que os rege e os desfigura animicamente, para quem ainda sabe discernir a verdade sob as aparências e luzes artificiais da ribalta e dos media...
 Infelizmente, por falta de bateria, faltaram os dez minutos finais da sua excelente intervenção, que  encontrará certamente noutros vídeos no youtube.   
Destacaram-se também nas suas intervenções de apresentação os  organizadores portugueses, bem como a entusiasta australiana Monique, de quem se podem ouvir no vídeo os minutos finais. Ainda ouvi a valiosa intervenção do grupo espanhol de Direitos Humanos, Liberium, lançado por alguns advogados e que têm realizado uma obra importante de desmascararem as ilegalidades e os crimes cometidos aquando da recente pandemia, pelo governo espanhol e as farmacêuticas, tendo tido oportunidade de ouvir de um deles, particularmente, muitas das causas da mortandade inicial em Espanha e Itália, bem como os pormenores da provável corrupção de Ursula von der Leyder, a quem puseram recentemente um processo em tribunal. 
César Augusto Moniz, o director e realizador do canal Conversas d Alma, falou também bem, transmitndo a sua visão mais de ciclicidade histórica quanto a esta tentativa de nova Ordem global, já que teria existido na Atlântida, chamando mesmo às figuras mais conhecidas ligadas ao Fórum Económico Mundial e ao clube de Bilderberg, seres reptilianos, apanhados por forças das trevas, numa linguagem algo esotérica e de conhecedor das dimensões (sempre algo nebulosas) dos extraterrestres (que estão certamente muito acima dos pretensos controles de humanos), que mesmo assim colheu bastantes aplausos. Estudioso das descobertas cinetificas actuais, Contrapôs ainda a dimensão do campo unificado de energia consciência, bem como a importância do quase omnipresente ADN e que está sob ameaças de controle e manipulação pelos novos aprendizes de feiticeiros da pretensa Nova Ordem, com as suas vigilâncias, controles e manipulações digitais e orgânicas.  Terminou optimisticamente, tal como Fernando Nobre, apelando à nossa dimensão espiritual e divina invencível e que está no nosso coração, com o qual devemos sintonizar mais.
Estiveram presentes cerca de 400 pessoas, e entre algumas poucas pessoas conhecidas e amigas encontrei um casal amigo antroposófico, resistente às manipulações vacinais e transgêndricas,  e à  narrativa oficial parolada por Milhazes, Rogeiro e Mendes, discernindo o papel fundamental da Rússia na defesa da natural e verdadeira civilização humana. As intervenções seguintes já não ouvi.
Seguem-se algumas fotografias e o pequeno vídeo, recomendando ouvir-se por inteira a intervenção de Fernando Nobre, que ainda cumprimentei no fim da intervenção...
 
Chegar mais cedo, e presenciar  a preparação e a afluência moderada...






Monica, australiana, co-organizadora...

Um dos organizadores portugueses, ambos com bons discursos...


                        











Duas grandes almas, uma já mártir, John Lennon, e outra em vias de se tornar, numa crucificação lenta em prisão inglesa, Julian Assange. É um dos mais evidentes sinais e provas da maldade opressiva do imperialismo anglo-americano e dos seus aliados e comparsas... Vergonhoso... E ainda falam de democracia e liberdade de jornalismo... Lutemos nós corajosamente por elas!

sábado, 20 de maio de 2023

Antero de Quental, morte e imortalidade. Mais uma aproximação ao mistério do seu suicídio.

Antero de Quental, e um poema de Matias Lima (ver no blogue) sobre a sua odisseia.

É possível cogitar-se que Antero de Quental, em 11 de Setembro de 1891, pela noitinha, com 49 anos bem cruzados, ter-se-ia matado pela falta de Amor, que não recebera ou recebia, e talvez até por não o ter manifestado suficientemente, pois era um ser de coração, um cavaleiro do Amor, como em alguns poemas bem manifestou, nomeadamente no mais famoso Mors-Amor

Ao longo da vida, as amizades de um bacharel revolucionário e poeta  foram porém muitas e compensavam ou sublimavam a falta   da entrega amorosa e recíproca com a mulher, e o que de tal se pode gerar afectiva e espiritualmente, nessa união amorosa que na sua adolescência ele tanto poetisara e cristalizara, nomeadamente com o seu livro Beatrice, onde a alma de Dante e Beatriz e dos Fedeli d'Amore paira, e que ele até expressamente nomeia. Todavia, chegado a uma idade já avançada, sem amada, e em que  a desilusão social e política era grande, nomeadamente com a frustrante presidência da Liga Patriótica do Norte, contra o Ultimato do imperialismo inglês, em 1891,  e quando a felicidade de ter as duas filhas adoptivas consigo como realidade se esfumou, a solidão agigantou-se,  e a ferida da falta do amor plenificante ter-se-á aberto demasiado em chaga do coração, intensificando a lancinante nostalgia ou ânsia de libertação da Terra e de partida para o além.
As doenças físicas, ou um suicídio, são frequentemente consequências de problemas psíquicos e a fonte principal destes são a falta de amor e a falta de plenitude de felicidade criativa.
Antero intelectualmente, criativamente, conseguira ainda assim nos dois últimos anos de vida gerar e partilhar na Revista de Portugal o principal do seu sistema filosófico, sob o título Tendências gerais da Filosofia na segunda metade do séc. XIX, já que abandonara a poesia, algo drasticamente, ao considerar que ela estava morta para o futuro.
Nativo do signo do Carneiro, algo explosivo, se isso poderia ter sido um trunfo enquanto líder de estudantes e agitador de ideias, chegado ao tempo da velhice poderia ser-lhe fatal: e assim a contrariedade de última hora, face ao seu projecto de estabilizar nos Açores tutelando as duas pequenas, e o confronto com o regressar a Lisboa ao divã-casa de Oliveira Martins, geraram desilusão e repulsa e reactivaram  o impulso de encontro com a morte, amiga, amada, misteriosa, libertadora.
Se escrevera em epígrafe de um  poema "morrer é ser iniciado", porquê recear e adiar esse momento ou mesmo passagem, já que havia partes em si  que acreditariam até numa vida post-mortem, se uma bala faz em segundos o trabalho sofrido de meses e anos de envelhecimento e agonia?
E assim foi: sentou-se no banco, ao anoitecer, olhou o largo e o mundo e oceano pela última vez, terá invocado apenas a Morte, ou quem sabe algo do Absoluto, e desfechou o primeiro tiro. Mas não tendo acertado muito bem, disparou um segundo. Não lhe estava porém destinada a morte rápida, e esteve de experimentar um ou duas horas de forte sofrimento antes de morrer. O que terá pensado no seu cérebro e olhar tão tingidos de sangue e dor, sombra e noite?
Só quando um dia encontrarmos Antero de Quental no além é que poderemos saber. Terá pensado: "O que eu fui fazer.." ou antes, abrindo-se-lhe a visão espiritual, disse: "Avancemos"?
Todavia, quando o corpo falece e a alma se liberta, que consciência tinha ele, ou seja, estava Antero mesmo auto-consciente e desperto no seu corpo espiritual, ou não?
Pela sua demanda de gnose tão grande em toda a vida, deveria estar bastante ou suficientemente consciente, embora o choque psíquico dos últimos momentos fosse certamente intenso, avassalador,  talvez como o abrir duma comporta para que a enxurrada se solte e passe. E assim tristeza, cansaço, angústia, desilusão terão abatido a chama da sua consciência para um estado de semi-adormecimento, que provavelmente terá durado nesse além subtil algum tempo (mas quem o sabe cronometrar?), antes que acordasse e compreendesse onde estava e logo fosse certamente ajudado de novo (e por quem?) a caminhar.
Mesmo hoje, passados mais de 110 anos, orarmos por ele, enviar os raios possíveis de Luz e Amor do nosso coração para o seu coração espiritual, será certamente bom, invocando as bênçãos dos seres espirituais (mestres e anjos) e da Divindade, sob que forma for...
                                                     

sexta-feira, 19 de maio de 2023

Os Homens (e Mulheres) de Fogo.... Texto escrito já há bastante tempo, mas perene...

  De Nicholas Roerich, 1932: Hagia Sophia... A santa Sabedoria Divina, flamejante...
Continuando a transcrever de diários antigos, eis o segundo, com leves acrescentos, de uma série de nove textos, intitulados então: O Dharma, Os Homens de Fogo, A Aura Portuguesa, Da Trindade Santíssima, Da Meditação, A Meditação como actividade interna, Portugal e a Demanda do Graal, Meditação supramental, Escrito para a revista Nova Era.  Acabara de fazer trinta anos de idade, e escrevi-os num caderno de papel reciclado.

                                 Os Homens (e Mulheres) de Fogo.

Há seres que são portadores da criatividade ígnea do Sol. Aonde pousam os olhos, aonde comunicam a voz, aonde se encontram, transmitem uma presença ardente, aspirante, ascensional, como uma chama,
São como velas acessas, sempre a dispersar as trevas e, se pagadas, logo de imediato se acenderão, como torrente impetuosa aparecendo sempre tão forte e clamorosa no seu caminho.
Homens do fogo primordial. Capazes de despertar o fogo interior de cada ser, a aspiração ao belo, ao sublime, ao amor e que jaz adormecido e ignorado, como leito da corrente turva da vida que contém contudo em si grãos de ouro, potenciais anímicos, prontos a serem fundidos na forja quente do amor vivificador.
Homens de fogo sempre os houve nos povos. E suas mensagens e exemplos atravessam a escuridão da noite dos tempos, da memória histórica perdida na névoa das lendas e dos contos, para se erguerem aos olhos clarividentes como assunções dramáticas de luta pela perfeição e de vitória do Espírito sobre o caos elementar.
São os criadores das harmonias teodiceicas e das empresas ardorosas, os buriladores da matéria,  os tribunos da Verdade, as almas piedosas e cheias de uma Unidade Amorosa, que vão semeando seus grãos, suas ideias, seus impulsos ígneos nas pessoas e ambientes que os contactam ou acolhem.
É como uma fraternidade de corações ardentes da Radiação Sublime que se vai construindo acima das divisões, separações, dores, quedas e que aponta sempre o caminho da montanha, a subida rumo ao Todo e à sua fonte que é a Divindade.
São assim almas a tomarem consciência de si própria, envoltas nas vestes de puro fogo e que através  das suas eçtéricas radiações, pressentidas por uns poucos mais sensitivos, aquecem e iluminam telepaticamente e à distância suas épocas.
São clarões fugazes da intensidade do Espírito criador lançando do nada potencial as bases de vindouras revelações de futuros templos ou lares onde nasçam nos corações as aspirações e realizações ígneas do Cristo, da consciência Divina na matéria, essa Alma espiritual Omnipresente em que temos o nosso ser e que nos faz aspirar e exclamar, por maiores que sejam os sofrimentos, "Eu e o Pai somos um".
Possamos nós, qualquer que seja o nosso posicionamento religioso, auto-conhecer-nos interior e profundamente e, desta nossa sagrada imanência ígnea, através das nossas afinidades ou opções de acção, expressão ou palavra, partilharmos e comungarmos com os outros seres espirituais e a Divindade...

terça-feira, 16 de maio de 2023

"ARTE. Da Índia e do Eterno Oriente". Texto para a revista Arteopinião, da Escola de Belas Artes de Lisboa. 1981.

    Ordenando papéis, diários e revistas, reencontrei numa delas o texto publicado para o nº 16 da Arteopinião, Revista da Associação de Estudantes de Artes Plásticas e Design da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, em 1981, quando era dirigida e co-coordenada por dois amigos e companheiros de estudos liceais e universitário, o Filipe Rocha da Silva e o meu irmão Francisco, e escrito quando chegara há pouco de peregrinações no Oriente e na Índia, onde estivera, por exemplo, e porque refiro no texto, a meditar em cima da cabeça de uma das famosas estátuas gigantes (então em reparações) de Budha em Bamyan no Afeganistão, como sabemos lastimavelmente destruída em Março de 2001 pelo fanatismo de alguns talibans (ditos estudantes...) mais ignorantes, insensíveis e iconoclastas. Uma tragédia para o património cultural da Humanidade mas que tornamos a sofrer no Iraque e na Síria mais recentemente. A falta de uma boa educação e com uma vertente ecuménica...
                                         
A mesma revista contém uma notável entrevista de Afonso Cautela, pelo António Correia Teles e o Francisco Teixeira da Mota, e inclui  uma bela fotografia do Afonso Cautela, com 50 anos, e que já inseri na biografia que o homenageia neste blogue: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2018/07/afonso-cautela-vida-e-obra-com-um-video.html... Muita luz e amor na sua alma!
   O meu texto sobre a Índia é mais aforístico, ou de pensamentos ígneos ou espirituais, e levou agora uns leves acrescentos, que poderá até comparar se quiser.
A imagem muito bela e ondulante do deus Shiva, patrono dos Yogis, foi a escolhida, pois foi nessa qualidade que peregrinei e vivi na Índia e ensinei depois Agni Raj Yoga em Portugal por uma dúzia e pouco de anos. 
Boas inspirações e realizações na religação ou yoga com a Natureza e a Anima Mundi, com o Espírito e a Divindade, para que a sabedoria, a ecologia (do nosso grande amigo Afonso...), o amor, a verdade e a Divindade vivam cada vez mais em muitos...
                                   
                                                        ARTE
                           DA ÍNDIA, DO ETERNO ORIENTE..
"As cores desgastadas pelo tempo conseguem ainda, na geometria do seu desenho, estabilizar a nossa alma e lançá-la no horizonte mais vasto da própria Natureza, Mãe primordial de toda a arte".

Comentário: Por detrás de forma que o artista modela encontra-se a vida que sustenta todo o seu processo criativo. Fazer da obra um reencontro possível a qualquer momento da história com a Realidade é uma das visões e intenções do autor ou do futuro espectador desta recriação ecológica e anímica que é criar e contemplar a arte.

"Tão alto como o cimo da cabeça em pirâmide de Buda, pináculo da natureza humana, ou como as montanhas geladas de Bamyan, onde por entre grutas inumeráveis as mais altas estátuas cavadas na rocha se erguem imponentes, num desafio ao poder do tempo e à fragilidade dos corpos, está a obra de arte no que ela é de eterno, de plasmação no sensível das harmonias subtis intuídas ou desvendadas".

Como o corredor que nos leva ao tholos das nossas antas já cobertas, ou aquele que mais profundo faz-nos penetrar no interior da terra ou do coração, para reinvenção das ocultas lápides descobertas, assim a arte existe como raiz do passado, tronco do presente e certeza desabrochante do futuro.

A arte, o meio vindouro da paz, o abraço da fraternidade lançado pelos artistas na sua entrega ao que é condição humana, terrestre e cósmica, representa-se numa progressão sem limites de cores, materiais, técnicas, significados e propósitos até à grande síntese do concreto e do abstracto, do racional e do irracional, do demoníaco e do angélico, do ser humano e o seu ambiente, até às intuições do divino.
Desafio perene a todos os criadores de harmonias figuradas, para  saberem desempenhar bem o seu papel de descobridores da beleza e reveladores dos acordes perdidos de momentos conscienciais claros, intuitivos e unitivos. Como nas cores do nascer e do pôr do sol, ou no ritmo das estações naturais, ou mesmo dos comboios do metropolitano numa urbe, a mesma constante: sempre o movimento, o ritmo e a unidade subjacente...
E na base de tudo o desejo, quase sempre alimentado do egoísmo, apegando-o aos corpos, às posses, aos prazeres, às ideias e criando obstruções ao livre fluxo de energias, donde as doenças e desequilíbrios - expoente máximo: o ódio e a guerra.

Arte - reorientação, - flecha de paz que acerta no alvo do nosso coração, abrindo a flor que jaz em cada ser à espera do ser encantado cujo beijo a fará despertar.
  Arte:
          - Uma janela ou estrada aberta sobre a eternidade
          - As asas bem abertas na inspiração
          - O círculo traçado, mesmo quadrado
          - O raio da harmonia... »
Pedro T. Mota

segunda-feira, 15 de maio de 2023

Leonel Costa, " Introdução à Numerologia", manuscrito inédito dum astrólogo e numerólogo do Bairro Alto. Com acrescento sobre Subud e Reiki.

                                                                                     Creio ter conhecido o Leonel Costa em alguma conferência que proferi ou a que assisti, ou quando trabalhava na livraria antiquária do Calhariz, no Bairro Alto lisboeta, onde ele costumava aparecer. Como tínhamos amigos e interesses comuns dialogámos, por vezes enquanto eu descrevia alguma raridade bibliográfica ou decifrava um manuscrito, o que o dono da livraria, o Zé Manuel Rodrigues, não apreciava tanto. O Ocultismo e o Esoterismo, Fernando Pessoa, a Espiritualidade, as fraudes da nova Era, eram os temas, já que ele era grande leitor, além de sensitivo, embora sendo discreto era eu que fazia as perguntas. O que o Leonel conhecia mais era porém a astrologia e embora só o conhecesse provavelmente no final de 80, ele já era  astrólogo desde os meados da década de 70, dando consultas para ajudar pessoas e talvez ainda porque o que ganhava como funcionário administrativo, e depois reformado, do Ministério dos Negócios Estrangeiros, não fosse tanto como necessitaria para comprar constantemente livros para si ou para quem oferecia, já que era bastante abnegado e divulgador.

O reverso da medalha era ele, volta e meia, aparecer para vender livros da sua grande biblioteca de astrologia, numerologia, ocultismo, teosofia, religiões, auto-ajuda, nova Era, os quais não sendo apreciados pelo livreiro alfarrabista, acabavam alguns por ser adquiridos por mim, a um preço equilibrado. Vivia num andar muito pequeno típico do Bairro Alto, na rua Luz Soriano, a que se acedia por umas escadas de madeira muito empinadas e apertadas e onde nada mais podia ter do que a sua mãe e muitos, muitos livros que ocupavam quase tudo. Foi amigo de algumas pessoas, como a Maria Ferreira da Silva, o meu irmão João que trabalhou no mesmo Ministério, e que ainda o consultou por indicação da comum amiga Vera Fuscher Pereira que morava também no Bairro Alto, para lhe fazer o horóscopo, tendo-lhe então dito que a interpretação do horóscopo era como uma poalha subtil que lançava na sua alma para ele ir depois desenvolvendo. No seu caminho espiritual deverá ter ido à Sociedade Teosófica algumas vezes e entrou na Subud, nas fases iniciais deste movimento do mestre Bapak ou Pak Subuh [1901-1987] em Portugal, onde recebeu o nome de Ricardo e se destacou pela sua solidariedade dinâmica.
Encontrávamo-nos como já disse na livraria do largo do Calhariz, mas também na galeria Matos Ferreira, na sua rua, onde fiz algumas conferências, outras vezes ao acaso na zona e creio que duas ou três vezes em sua casa onde fui ver os livros que ele bem amava e onde, curiosamente, inseria no interior  folhas brancas quase transparentes. Um dia desafiei-o a escrever um pequeno texto sobre a astrologia, numerologia, os fenómenos psíquicos, a espiritualidade, o que quisesse, para eu vir a publicar mais tarde. Algum tempo depois, entrou na livraria, com aquele seu andar discreto e rápido e o olhar de quem está semi-fora da visualidade física, e passou-me o texto seguinte, desculpando-se de ser apenas uma introdução leve. Mas fica na sua modéstia como um testemunho da passagem pela Terra e das suas leituras e reflexões, crenças e visões, já que era um sensitivo, com intuições ocasionais. Quando partiu do corpo e plano físico, não sei bem (embora possa vir a saber por alguma anotação num diário, onde pelo menos no de Abril de 2006 registo um duplo encontro em três dias), mas certamente desejamos-lhe muita luz, amor e sabedoria na sua alma espiritual onde quer que esteja, quem sabe se nas vizinhanças da estrela super-gigante branca Deneb, na constelação Cisne, e a 19º mais brilhante do céu, já que assinou com tal nome cósmico...  
Post-scriptum. Anos mais tarde, deste artigo em sua homenagem, em  8/9/25 encontrei num diário uma referência maior a ele. Ei-la: & de Fevereiro de 1999. «10 e 10 da noite. Conversa com Leonel astrólogo, quase duas horas, da sua vida, relação de amizade com Maria, o Subud e o Reiki, tendo iniciado Maria no Subud. Admirando a Flávia Monsaraz na astrologia  foi-lhe pedir agora a 3 iniciação do Reiki e esta quis que a andasse a servir. Acha que o amor dela não vem do eu, que o seu comportamento é a partir duma imagem ideal e não dela própria. Considera ambos os movimentos, Subud e Reiki, como vindos de grandes devas em planos superiores, passando por guias e por fim nos humanos, melhores ou piores.» Passemos ao texto de numerologia:
                                                       
                                         Introdução à Numerologia
«Tudo indica que a Numerologia remonta à mais alta Antiguidade. Começando pela menção dos 7 dias da Criação nas Escrituras, havia um ditado antiquíssimo de que a Numerologia, “tinha começado quando o homem caminhava na companhia de Deus” - o que é um modo delicado de expressão, antes de adoptarmos o nosso horário moderno, extremamente comercial e tecnológico.
Não se conhece a origem exacta da Numerologia, existindo, no entanto, fortes indícios, acerca disso.
As escolas de numerologia mais usadas são a pitagórica e a caldaica. Esta última é mais antiga, sendo a pitagórica a mais usual.
Pitágoras foi um grande matemático. Nasceu na Grécia no sexto século A. C., demonstrando possuir um grande talento para os números, sendo conhecidos, pela maioria das pessoas, os seus teoremas de geometria.
É também considerado o pai da Numerologia moderna [ou uma das fontes mais consagradas a que se filiam os numerólogos, nomeadamente o irlandês Cheiro].
Existem registos de que passou [ou referências a ter passado] muito tempo no Egipto e noutras partes do mundo, aprendendo a antiga ciência dos números [entre outras], tendo levado mais tarde esse ensinamento para a Grécia onde ensinou durante cerca de quarenta anos [alguns anos apenas, já que emigrou por volta de 535 a.C., para Crotona, no sul da Itália, onde desenvolveu o seu ensinamento científico e espiritual], além de criar uma faculdade [escola] e uma filosofia dos números, que ficou com o seu nome até aos nossos dias [é completamente hipotética a origem nele de tais especulações ou doutrinas quanto às associações de números e letras do alfabeto para caracterização ou adivinhação, já que os números eram sobretudo princípios e símbolos]. 
                                                                 
Diz-se que Pitágoras ensinava secretamente. Que cada aluno, escolhido com cuidado, tinha que passar por um período de cinco anos de contemplação em total silêncio, para desenvolver uma fé profunda [ou ainda uma capacidade de escuta e compreensão, receptividade e intuição mais profunda].
Além disso, os discípulos tinham de decorar os seus ensinamentos, pois era proibido escrevê-los [ensinamento acromático, oral e esotérico, entre nós mencionado e de algum modo realizado por Sant'Anna Dionísio, discípulo de Leonardo Coimbra, conforme já escrevi neste blogue.] Somente depois da sua morte, por volta do ano 500 A. C., os seus fiéis seguidores romperam essa tradição. [Sabe-se que Platão (428-348) esteve em Crotona para comprar os manuscritos pitagóricos que Filolau (475-385) escrevera e passara a Dion.]
 O Sistema numérico Caldeu – mais conhecido como Numerologia Mística [designação arbitrária] – oferece uma pista, bastante interessante, para determinar a idade da Numerologia. 
A Astrologia, a Numerologia e outros estudos ocultos eram considerados como religião mas não de maneira como a consideramos actualmente. Muitos sacerdotes caldeus também foram astrólogos famosos. Acreditaram que todas as coisas faziam parte da Providência Divina e que todos os planetas eram simplesmente interpretes celestiais. Na época de Alexandre, o Grande, por volta de 356 A.C., os caldeus acreditavam que o seu conhecimento de Numerologia e Astrologia, já existia há pelo menos 473. 000 [datação proveniente da tradição indiana, de um tratado de astrologia solar, e que o Leonel deve ter recebido do astrólogo Cheiro]. Talvez não tenha sido por acaso que com o tempo os Caldeus e as ciências ocultas se tornaram sinónimos [e no Renascimento a publicação dos Oráculos Caldaicos, do II e III d.C. e constituídos de frases dos neoplatónicos, relançou-os]. Ainda se usa actualmente o sistema caldeu de numerologia.
Também existem outras escolas de numerologia, e todas reflectem seus locais de origem, assim como a aplicação. Existiram por exemplo os antigos bramânes na Índia. Cheiro [1866-1936, ocultista e teósofo irlandês, e que esteve na Índia], quiromante famoso, numerologista e estudante dos fenómenos psíquicos dessa época, atribui grande parte do que sabia a esses místicos do Oriente. 
 Havia no Japão antigo um sistema que se baseava em determinados padrões numéricos encontrados na data do nascimento das pessoas. Existe ainda o sistema sagrado de Numerologia hebraica, mais conhecido como cabala, que se fundamenta no significado das letras e sons. E há ainda outro sistema originário da África, que emprega os números na arte da adivinhação (lançar os búzios, ossos, etc.)
Não importa para que região voltemos a nossa atenção, lá existirá um sistema de Numerologia que teve a sua origem no início dos tempos [mais reflectivos ou intuitivos...]»
22:59 de 31/07/2001
             Deneb.... [
nome místico-astronómico escolhido por Leonel...]

A estrela super-gigante branca Deneb, na constelação Cisne, e a 19º mais brilhante do céu. Lux!