Vamos terminar a aproximação aos ensinamentos de Sohrawardi transmitidos no 1º capítulo n seu Kitab Hikmat a-Ishrâq, o Livro da Sabedoria Oriental, traduzindo da versão dada por Henry Corbin, e retomando o parágrafo 127, no artigo anterior referido abreviadamente:
«127. Outro esclarecimento: Como foi posto em evidência que a realidade do teu Eu pessoal (ana'îya) é uma Luz imaterial conhecendo-se a si mesma e que as Luzes imateriais não se diferenciam entre elas quanto à essência, é preciso então que todas se conheçam, pois o que é necessário a uma coisa é igualmente a tudo o que participa com ela na mesma essência. Isto é uma outra via [provavelmente a intuição-visão da interdependência unitária de todas as luzes imateriais ou espirituais]. Mas porque aprendeste há pouco o que a procedia, podes dispensar esta via ou método.
IX. Sobre a Luz das Luzes.
129 - Admitindo que a Luz imaterial comporta algum tipo de indigência na sua quidade [ou essência, ou coisa em si], o que postularia esta indigência não poderia ser a substância nictifora [ou obscura] privada de vida. Esta, com efeito não tem qualquer aptidão para conferir a existência a algo que seja mais nobre e mais perfeita que ela própria e que não tenha dimensão subtil. Como é que quem leva em si mesmo a noite poderia conferir a Luz? Se a Luz imaterial [ou espiritual] tem necessidade de algo para se tornar realizada será duma Luz subsistente por si mesma.
131 - Como a primeira explicação geral, nós diremos isto: se a qualidade tenebrosa fosse imanente à Luz das Luzes, teria de se concluir que, na sua própria essência, há uma dimensão tenebrosa que ela mesmo implicaria. Desde então [ou se assim fosse], ela seria composta, e ela não seria Luz pura (...)
134 (...) Assim, encontra-se estabelecido que a Luz das Luzes está separada de tudo o que é outro que ela própria. Nada lhe pode ser anexada. E não se pode representar que exista algo mais belo do que ela. Enfim, como o conhecimento que uma coisa tem de si volta, no fim de contas, ao facto que ela seja ela mesma revelada a si, e como a Luz das Luzes é a luminescência pura da qual a epifania não é devida a nada mais do que ela mesma, desde então, nem a vida, nem o conhecimento que a Luz das Luzes tem de si, não são algo que se acrescenta à sua essência. Assim também te foi dada precedentemente a prova [de não serem necessários acrescentos] a propósito de toda a Luz imaterial [ou seja espiritual, menor na intensidade luminosa que a Luz das Luzes, mas a ela se abrindo como sua Fonte]
Embora ao seleccionar apenas alguns parágrafos do Livro da Sabedoria Oriental, esteja a fragmentar o pensamento e ensinamento de Sohrawardi, cremos ainda assim ser visível e compreensível a sua linha de valorização da Divindade enquanto a Luz das Luzes, sem qualquer indigência ou necessidade em si, bem como a impossibilidade de que qualquer e todo tipo de Luz ou de ser, nas suas series, não provenha da Luz das Luzes, a sua fonte. Há ainda uma expressa crítica como absurda da manifestação cósmica provir das trevas, do caos, da noite, dum infinito sem Fonte Primordial.
Importante ainda a afirmação de que o Eu íntimo ou ipsidade nossa é Luz imaterial ou espiritual que deve autoconhecer-se a si mesma como Luz própria e não recebida do exterior, ainda que deve verticalmente conecatr-se ou ligar-se com a Luz das Luzes. O que em geral implicará a mediação da face divina, ou do anjo da guarda, ou do Imam, ou da Inteligência arcangélica.
Possamos afirmar-nos ou reconhecermo-nos como Luz e ser abençoados pela sagradíssima Luz das Luzes, e participarmos sábia ou luminosamente na harmoniosa interdependência da unidade do género humano, pela fraternidade espiritual e a multipolaridade política, tal como o sagrado Irão tanto aspira e luta resilientemente contra as forças da inveja e do ódio.
Que a Luz do Logos e Amor divino brilhe vitoriosamente em nós e nos iranianos, nos russos, nos chineses, nos que lutam pelo bem da Humanidade. Ou como ecoam milenáriamente as palavras de Shihab al-din Sohrawardi: - Que a Luz Sacro-santa (al-muqaddas), a Sublime e suprema Luz (al-a'zam al-'a'la), a Luz toda Vitoriosa (al-qahhar), brilhem invencíveis no Irão e nos Ishraqis, os que na multipolaridade sã do mundo demandam a Luz mais íntima do Oriente Divino e a sua manifestação no polo, eixo ou qutb do Bem e da Verdade.

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