sexta-feira, 22 de maio de 2026

Os Mestres do Irão eterno (2): Sohrawardi, o sheikh Ishraqi, ou o sábio da Luz iluminante. Extractos do Kitab Hikmat a-Ishrâq, o Livro da Sabedoria Oriental.

                                                         

Vamos terminar a aproximação aos ensinamentos de Sohrawardi transmitidos no 1º capítulo n seu Kitab Hikmat a-Ishrâq, o Livro da Sabedoria Oriental, traduzindo da versão dada por Henry Corbin, e retomando o  parágrafo 127, no artigo anterior referido abreviadamente:

«127. Outro esclarecimento: Como foi posto em evidência que a realidade do teu Eu pessoal (ana'îya) é uma Luz imaterial conhecendo-se a si mesma e que as Luzes imateriais não se diferenciam entre elas quanto à essência, é preciso então que todas se conheçam, pois o que é necessário a uma coisa é igualmente a tudo o que participa com ela na mesma essência. Isto é uma outra via [provavelmente a intuição-visão da interdependência unitária de todas as luzes imateriais ou espirituais]. Mas porque aprendeste há pouco o que a procedia, podes dispensar esta via ou método.

128 - Tese: Que o existenciador  dos barazkhs (ou espaços intermediários) é um ser [provavelmente a Inteligência celestial que os anima]conhecendo-se a si mesmo.
Pois o que dá à totalidade dos barzakhs a sua Luz e o seu existir é uma Luz Imaterial, pelo que este existenciador é um [ser] Vivo, conhecendo-se a si mesmo, pois ele é uma Luz para si mesmo.

 IX. Sobre a Luz das Luzes.

129 - Admitindo que a Luz imaterial comporta algum tipo de indigência na sua quidade [ou essência, ou coisa em si], o que postularia esta indigência não poderia ser a substância nictifora [ou obscura] privada de vida. Esta, com efeito não tem qualquer aptidão para conferir a existência a algo que seja mais nobre e mais perfeita que ela própria e que não tenha dimensão subtil. Como é que quem leva em si mesmo a noite poderia conferir a Luz? Se a Luz imaterial [ou espiritual] tem necessidade de algo para se tornar realizada será duma Luz subsistente por si mesma.

Isto estando adquirido, a série de Luzes subsistentes (al anwar al-qa'ima) que formam uma hierarquia de graus, não se perde no infinito. Uma prova demonstrativa já te instruiu  de que todo o conjunto serial simultâneo implica um limite. Assim é necessário que o conjunto das Luzes, a Luz subsistente e a Luz adveniente, forme um conjunto finito, e chegue assim tal como os barzakhs e as suas qualidades a uma Luz para além da qual não há uma outra Luz. É esta Luz que é a Luz das Luzes.
Ela é Luz englobante (muhit). Ela é a Luz (substantiadora), eternamente-subsistente (al-qayyûm). A Luz sacro-santa (al-muqaddas), a sublime e suprema Luz (al-a'zam al-'a'la), ela é a Luz toda vitoriosa (al-qahhar).
Esta Luz das Luzes é aquela que se basta ou se satisfaz absolutamente a si mesma, pois para além dela não há nada. (...)

Eis porque a Luz imaterial, autarcica é única, e ela é a Luz das Luzes.  Tudo o que está abaixo dela e tem necessidade dela e recebe dela é a sua existência. A Luz das Luzes não tem igual nem semelhante. Ela reina vitoriosamente sobre todas as coisas. Em troca, nada a pode vencer nem resistir-lhe, pois toda a imperialidade (qahr), toda a força, toda a perfeição, são um dom que provém dele. (...)

130. Por uma outra via: (nenhuma coisa) não postula o seu próprio não ser, senão ela não se realizaria mesmo. A Luz das Luzes é uma e única (wahdani), a sua essência não está submetida a qualquer condição e tudo o que é outro que ela está sob a sua dependência. Pois ela não está submetida a qualquer condição e já que ela não tem contrário, não há nada que possa impedir o seu ser (mubtil) Ela é portanto subsistente e eterna (da'îm).
Além disso, nenhuma qualificação adere à Luz das Luzes, quer seja uma qualidade luminosa ou uma qualidade tenebrosa; não é mesmo possível, de qualquer maneira que seja, que ela possua um atributo (sifa). [É possível que esta afirmação tão radical ou absoluta da Luz, que não suporta sequer atributos, possa ter chocado os clérigos mais racionalistas e ortodoxos, valorizando muito a ideia dos atributos divinos.]

131 - Como a primeira explicação geral, nós diremos isto: se a qualidade tenebrosa fosse imanente à Luz das Luzes, teria de se concluir que, na sua própria essência, há uma dimensão tenebrosa que ela mesmo implicaria. Desde então [ou se assim fosse], ela seria composta, e ela não seria Luz pura (...)

134  (...) Assim, encontra-se estabelecido que a Luz das Luzes está separada de tudo o que é outro que ela própria. Nada lhe pode ser anexada. E não se pode representar que exista algo mais belo do que ela. Enfim, como o conhecimento que uma coisa tem de si volta, no fim de contas, ao facto que ela seja ela mesma revelada a si, e como a Luz das Luzes é a luminescência pura da qual a epifania não é devida a nada mais do que ela mesma, desde então, nem a vida, nem o conhecimento que a Luz das Luzes tem de si, não são algo que se acrescenta à sua essência. Assim também te foi dada precedentemente a prova [de não serem necessários acrescentos] a propósito de toda a  Luz imaterial [ou seja espiritual, menor na intensidade luminosa que a Luz das Luzes, mas a ela se abrindo como sua Fonte]

Embora ao seleccionar apenas alguns parágrafos do Livro da Sabedoria Oriental, esteja a fragmentar o pensamento e ensinamento de Sohrawardi, cremos ainda assim ser visível e compreensível a sua linha de valorização da Divindade enquanto a Luz das Luzes, sem qualquer indigência ou necessidade em si, bem como a impossibilidade de que qualquer e todo tipo de Luz ou de ser, nas suas series, não provenha da Luz das Luzes, a sua fonte. Há ainda uma expressa crítica como absurda da manifestação cósmica provir das trevas, do caos, da noite, dum infinito sem Fonte Primordial.

Importante ainda a afirmação de que o Eu íntimo ou ipsidade nossa é Luz imaterial ou espiritual que deve autoconhecer-se a si mesma como Luz própria e não recebida do exterior, ainda que deve verticalmente conecatr-se ou ligar-se com a Luz das Luzes. O que em geral implicará a mediação da face divina, ou do anjo da guarda, ou do Imam, ou da Inteligência arcangélica.

Possamos afirmar-nos ou reconhecermo-nos como Luz e ser abençoados pela sagradíssima Luz das Luzes, e participarmos sábia ou luminosamente na harmoniosa interdependência da unidade do género humano, pela fraternidade espiritual e a multipolaridade política, tal como o sagrado Irão tanto aspira e luta resilientemente contra as forças da inveja e do ódio. 

Que a Luz do Logos e Amor divino brilhe vitoriosamente em nós e nos iranianos, nos russos, nos chineses, nos que lutam pelo bem da Humanidade. Ou como ecoam milenáriamente as palavras de Shihab al-din  Sohrawardi: - Que a Luz Sacro-santa (al-muqaddas), a Sublime e suprema Luz (al-a'zam al-'a'la), a Luz toda Vitoriosa (al-qahhar), brilhem invencíveis no Irão e nos Ishraqis, os que na multipolaridade sã do mundo  demandam a Luz mais íntima do Oriente Divino e a sua manifestação no polo, eixo ou qutb do Bem e da Verdade

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