terça-feira, 19 de maio de 2026

Firdousi e a Introdução ao Shah nameh. O Elogio de Deus, da Inteligência, da Sabedoria. As versões do preâmbulo, por Mohl e Warners.

                            
Comemorando-se, qual o dia de Camões entre nós, o dia   da língua Persa e de Ferdousi, - Abou Laksim Ferdousi, ou Abu’l Qāsem Ferdowsi -, natural de Tus, actualmente Meshad, no Khorassan, c.939-1020], a dia 15 de Maio,  o actual Imam ou guia espiritual do Irão Ayatollah Seyyed Mojtaba Khamenei transmitiu uma mensagem (publicada neste blogue) sobre o valor da obra de Ferdousi, o Shah-Nameh, ou Livro dos Reis, escrito em 50.000 dísticos (estrofes de dois versos) onde as antigas histórias épicas, mitos e tradições do Irão pré-zoroastriano e zoroastriano (especialmente do Zamyad Yasht, o XIX), já em parte postas em verso em pehlavi 
por outros autoresapós a islamização do país iniciada em 642, elas foram expandidas e concluídas com genialidade no persa do séc. XI, fortificando a memória identitária da nação ao serem assim preservadas e gravadas para sempre com tanta sensibilidade e qualidade na grande alma colectiva e hierohistórica do Irão. Seyyed Mojtaba Khamenei apelou mesmo a que se erguessem novos Firdausis e escrevessem sobre as lutas recentes travadas contra os traiçoeiros agressores dos USA, Israel e UAE.

Esses mitos, feitos e lutas do Livro dos Reis, transmitidos oralmente, antes de se fixarem pela perseverante labor genial de Firdouzi,   vieram a dar origem a muitas obras de arte, especialmente em livros ilustrados, mas também em relatos e representações dramáticas, onde sucessivos  reis e heróis brilham, tal como por exemplo, Jamshid (o antigo Yima, do Avesta), com seu reino de trezentos anos de harmonia,  o possuidor do mítico Graal ou, mais evidentemente, de Xvarnah, a força ou Glória de Luz Divina, ou ainda Thraetaona, Ferēydūn, Kaved e sobretudo Rustam (com o seu cavalo Rakhsh, e o pássaro protetor Simourgh, que Attar glosará também na sua Conferência das Aves), em dilemas, provas e aventuras contra os demônios, as forças interiores e exteriores do mal ou Ahriman.

Decidi transcrever o início dessa extraordinária saga da civilização milenar iraniana e da luta entre o bem e o mal, e das escolhas que fazemos, pelo seu valor de glorificação e invocação da Divindade e do seu Logos,  Inteligência e Sabedoria, no cosmos, na obra e em nós, e porque hoje novamente o Irão enfrenta as forças ahrimânicas atuais, os americanos e israelitas, tão cheios de insensibilidade, de hubris e de criminalidade... Oremos para que o Irão vença, triunfe...   

Utilizei a tradução francesa de Julien Mohl, de 1877, (e publiquei-a independentemente em francês no blogue),  cotejando-a com a de Arthur e Edmond Warner, de 1925, e fazendo uma certa hermenêutica ou leitura interior do sentido espiritual que poderia ressaltar de ambas as versões, a dos Warner claramente mais sensível e transparente à Sabedoria, Hikmat, tão cultivada pelos filósofos e místicos do Irão, tal como Henry Corbin demonstrou com grande abrangência e originalidade, comparatividade e profundidade de hermenêutica.

                        Bismillāhi r-Raḥmāni r-Raḥīmi.

                  Em nome de Deus Clemente e Misericordioso.

                                   
«Em nome do mestre  da mente (alma) e da sabedoria (inteligência, além do qual o pensamento não pode ir, do mestre da luz da Glória (Xvarnah), do mestre do mundo, do mestre da fortuna, daquele que envia os profetas, do mestre de Saturno e da rotação das esferas, que acendeu a lua e a estrela da manhã, e o sol; que está acima de todo nome, de todo sinal, de toda ideia, que pintou as estrelas no firmamento. 
 «Se não podes ver com teus próprios olhos o Criador, não te irrites com eles, pois o próprio pensamento não pode alcançar aquele que está além de todo lugar e de todo nome, e tudo o que se eleva acima deste mundo ultrapassa o alcance do pensamento e da inteligência. Se o espírito escolhe palavras, ele só pode escolhê-las para as coisas que vê; mas ninguém pode apreciar Deus tal como ele é: resta-te apenas cingir-te de obediência. Deus pesa a alma e o pensamento; mas  como poderá Ele ser contido num pensamento audacioso? Como poderemos celebrar o Criador neste estado, com estes meios, com esta alma e esta língua? 
 Só te resta contentares-te em crer na Sua existência, e absteres-te de vãs palavras. Adora, e busca o verdadeiro caminho, e está atento para  obedeceres aos seus mandamentos. 
 Poderoso é quem conhece Deus, e seu conhecimento harmoniza o coração dos jovens e velhos; mas a palavra não pode penetrar esse véu, e o pensamento não pode penetrar o Ser Divino.

  Versão de Arthur George Warner e Edmond Warner, Londres, 1925: 
«Em nome do Senhor da sabedoria e da mente, a que nada de mais sublime pode ser aplicado o pensamento, o Senhor de tudo ao qual é nomeado ou designado um lugar, o Sustentador e o Guia de tudo, o Senhor de Saturno e do céu em movimento, que faz Vênus, Sol e Lua brilharem, que está acima de concepção, nome ou sinal, o Artista das joias do céu!» 
A Ele não podes ver, embora esforces a vista, Pois o próprio pensamento lutará em vão Para alcançar Aquele que está acima de todo nome e lugar, Já que a mente e a sabedoria falham em penetrar Além dos nossos elementos, mas operam Em materiais que os sentidos tornam claros.
Ninguém, então, pode louvar a Deus como Ele é. Observa o teu dever: é cingires-te a ti próprio para servir. Ele pesa ou avalia a mente e a sabedoria; Deverá Ele ser Envolto por um pensamento que Ele pesou? Pode Ele ser louvado por tal maquinaria como esta, com a ajuda da mente, da alma ou da razão?» 
 Confessa o Seu ser, mas não afirmes mais, adora-O e ignora todos os outros meios, observando os Seus mandamentos. A tua fonte de poder é o conhecimento; assim, os corações velhos rejuvenescem novamente, Mas as coisas acima do Véu superam em altura todas as palavras: a essência de Deus está para além do nosso entendimento.»

                II Parte. Versão de Julien Mohl, traduzida por mim:
                                         Louvor da Sabedoria
«É aqui, ó sábio, o lugar onde convém falar sobre o valor da sabedoria (Hikmat). Fala e extrai da tua sabedoria e inteligência o que sabes, para que o ouvido daquele que te escuta se alimente disso. A sabedoria é o maior de todos os dons de Deus, e celebrá-la é a melhor das ações. A sabedoria é o guia na vida, ela alegra o coração, ela é o teu auxílio neste mundo e no outro. A sabedoria é a fonte das tuas alegrias e das tuas tristezas, dos teus lucros e das tuas perdas. Se ela se obscurece, o homem de alma brilhante não pode mais conhecer o contentamento. 
 Assim fala um homem, virtuoso e inteligente, cujas palavras alimentam o sábio: «Aquele que não obedece à razão-sabedoria,  despedaçar-se-á a si mesmo pelas suas ações; o sábio chama-o de insensato, e os seus  próximos consideram-no um estrangeiro.» 
 É pela inteligência-sabedoria que tens valor neste mundo e no outro, e aquele cuja razão está partida cai na escravidão. A sabedoria é o olho da alma, e se refletires, verás que, sem os olhos da alma, não se poderá governar este mundo. Compreende que a sabedoria-intelecto é a primeira coisa criada. Ela é a guardiã da alma; é a ela que se deve a acção de graças, graças que deves prestar-lhe pela língua, pelos olhos e pelos ouvidos. É dela que vêm para ti os bens e os males sem número. Quem poderia celebrar suficientemente a sabedoria e a alma? E se eu pudesse, quem poderia ouvir? Mas como ninguém pode falar disso adequadamente, fala-nos tu, ó sábio, da criação do mundo. 
Tu és a criatura do Autor do mundo, conheces o que é manifesto e o que é secreto. Toma sempre a razão como guia, ela te ajudará a  manteres-te longe do que é mau; busca o teu caminho segundo as palavras dos que sabem, percorre o mundo, fala com todos; e quando tiveres ouvido a palavra de todos os sábios, não te afastes um instante do ensinamento. Quando tiveres conseguido lançar os teus olhares sobre os ramos da árvore da palavra, reconhecerás que o saber não penetra até à sua raiz.»

                 Versão de Arthur George Warner e Edmond Warner
     II parte:           Discurso em Louvor à Sabedoria
«Pronuncia, ó sábio, o louvor da sabedoria e alegra Os corações daqueles que ouvem a tua voz,
Como o melhor presente de Deus para ti, exalta o valor da sabedoria, que te confortará e guiará, e conduzir-te-á pela mão no céu e na terra. Tanto a alegria quanto a tristeza, o ganho e a perda, ocorrem  e portanto quando tal desaparece a pessoa sã  não conhece (ou encontra) mais a felicidade. Assim diz o homem sábio e virtuoso da tradição antiga, para que os sábios não busquem em vão frutos nas suas palavras:—"Qualquer pessoa que despreze o conselho da Sabedoria,  ao agir assim, fará o seu próprio coração sangrar. O prudente fala dele como alguém possuído, e "ele não é dos nossos" protestam os seus próximos."
Em ambos os mundos, a Sabedoria recomenda-te, quando as algemas estão nos tornozelos dos loucos; é o olhar da mente. Se não o vires  a tua jornada por este mundo será triste. [Bem desafiante discernimento...]
[A sabedoria] foi a primeira coisa criada, e ainda preside sobre a mente e a faculdade de louvor—louvor oferecido pela língua, ouvido e olho, e todas as causas podem ser de bem ou de mal.
Louvar tanto a mente quanto a sabedoria, quem se atreverá? E se eu ousar, quem me ouvirá mesmo? 
 Portanto, ó homem de sabedoria!  não podes fazer o bem pelas palavras que prossigam, declarem o processo da Criação. Deus  criou-te para conhecer a aparência e a realidade.
Que a sabedoria seja o teu ministro (ou guia)  para proteger a tua mente de tudo que o auto-respeito deve evitar.
Aprende pelas palavras dos sábios como trilhares o teu caminho, percorreres a terra, conversares com todos. E quando ouvires qualquer pessoa de discurso sábio, não durmas, aumenta o tesouro da tua sabedoria. Mas, repara, enquanto contemplas os ramos da palavra, quão longe estão as raízes dela de serem alcançadas.» 
Eis Firdousi humilde ou apofaticamente apelando no fim ao silêncio e à demanda interna dos níveis subtis e profundos da realidade e do Ser.

Como vemos duas traduções, bastantes diferentes, a francesa, de Moly bem mais limitada do que a dos  Warner. Esperemos que um dia possamos traduzir com alguém que domine o persa, para discernirmos a realidade que se oculta por detrás das aparências das palavras e traduções, e suas imperfeições, para que a corrente divina que inspirou Firdousi seja mais intuída e assimilada por nós.... 
Firdousi, de uma nobreza rural que mantinha as ligações com as tradições antigas, numa região onde o zoroastrismo e o shiismo predominavam, transpareceu isso aqui e acolá na sua obra, e alguns comentadores justificaram com tal a menor  aceitação da sua obra pelo emir a quem a dedicara, bem como um certo ocultamento dela durante dois séculos, aliás algo no padrão de ocultação do imamat, dos Imams ou polos da luz, shiia ou xiitas, que de modo discreto Firdousi era. Contudo a sua obra prima literária de maestria de ritmos, estilos, formas, e nutrida por grandes valores éticos e imenso amor à pátria e língua (impedindo que a arabização sufocasse o persa), bem como de grande sinceridade, espírito de historiador e preservador de tradições e feitos, mestre do diálogo, justiça e amor, venceria todos os obstáculos e, embora fosse recusado o seu enterro no cemitério sunita, pelas suas ligações zoroástricas e shiias, o seu corpo foi depositado no seu jardim, erguendo-se um mausoléu que desafiará os séculos, tais como as montanhas e as gentes heroicas do Irão tem realizado ao longo da sua história e presentemente contra   adversários tão mentirosos e traiçoeiros como os do eixo do mal que o atacam. Que a República Islâmica do Irão e o seu povo vençam, na luz (Nur) e na glória divina (Xvarnah).

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