quinta-feira, 14 de maio de 2026

Maurice Barrès, o escritor académico e o político tradicionalista, peregrina a Konia, a Mevlana Rumi e aos derviches em 1914

A  última obra publicada pelo notável escritor e político nacionalista  Maurice Barrès (1862-1923), que nos seus anos juvenis foi grande amigo do ocultista Stanislau de Guaita, é o registo de uma viagem em 1914, Une enquête aux Pays du Levant. Homs-Alep-LEuphrate-Antioche-Le Taurus-Les danseurs mystiques de Konia-Chez le Grand Tchéleri-Constantinople-Le Sarcophage d'Alexandre, mas que só foi editada após a I grande Guerra, em 1923, num in-octavo de 239 páginas onde, além de descrever as visitas às missões católicas francesas, tais as de Antióquia e Constantinopla e outras, consagra um capítulo de cem páginas, pois era "o fim último e mais elevado da viagem", a Konya, aos dervishes ou sufis. Nele mostra a sua admiração e conhecimento dos místicos persas (tal Shams e Attar) e presta grandes elogios a Djelal-Eddin Roumi, e à sua vida e realização, obra e missão, descrevendo com beleza e sentimento as histórias de Rumi, que um dervishe e depois o Tchélébi, mestre da ordem ou tariqa Mevlevi e descendente de Rumi, lhe contaram, além do que lera na obra de Clément Huard, Les saints des derviches tourneurs, 1918, e o que vai visitando de mesquitas e túmulos de santos, tais Chems-eddin (ou Shamz Tabrizi), Cadr-eddin.  Assistiu finalmente à tão desejada sessão de sama, a dança rodopiante, que descreve bastante bem,  conversando após a sessão de novo com o superior, que lhe ofereceu até uma fotografia assinada e com poesia. Chegará a dizer que o diálogo com este sheikh, foi o momento mais sublime da sua vida, a par de um com o escritor Paul Mercier, grande amigo de Victor Hugo, pouco antes de ele morrer
Maurice Barrès concluirá o capítulo com uma defesa das ordens religiosas (daí o título de Inquérito), mas não só católicas mas também islâmicas, mostrando um universalismo bem pioneiro que os missionários assuncionistas (fundados pelo Pe. Emmanuel d'Alzon em 1850 na França), não apreciavam assim tanto, como nos conta: «Eis, diz o Assuncionista, o senhor Barrès está encantado: passa a tarde com o derviche e o anoitecer com o missionário!
É verdade, meu Padre, eu vou do Tchelebi ao Assuncionista e da dervisharia ao convento; eu vejo uns animados por um pensamento antigo da Pérsia, e os outros por pensamentos antigos que vêm também do Oriente, mas clarificados, santificados, orquestrados, organizados por uma longa tradição entre nós». E depois de defender o seu interesse pela ordem religiosa dos dervisches, pois pode defender melhor a causa dos religiosos assuncionistas, pede ainda assim «Queira perdoar-me, meu Padre, um pouco de exaltação romântica que me inspira o Tchelebi, pois fatalmente esta exaltação girará para magnificar com mais competência as nossas grandes ordens cristãs e latinas». Logo imediato conclui com o sub-capítulo de seis notas, Konia e o Assuncionista obrigam-me a filosofar, onde se interroga donde vêm as divinas coisas da religião e da inspiração, e quais são os meios para nos elevarmos a elas e ainda os meios de fixar tais minutos sublimes de uma vida. 
Contudo, algo constrangido provavelmente pelo peso da tradição católica, questionará por fim os dervisches pois, ainda que atingindo estados expandidos de consciência, ou estados místicos, ou captações da eletricidade e fogo do céu, não manifestariam depois (Maurice Barrès desconhece, por exemplo, que desde o séc. XVIII circulavam imagens dos derviches a praticarem caridade? Viu tal mas não considerou suficiente?) "a renúncia, o sacrifício e o amor activo", tão bem realizados pelos missionários, e que "olham para as crianças que educam com o olhar da Igreja". 
                SAKA, Charitable Dervice qui porte de l'eau par la ville et la donne par charité.      Recueil de cent estampes représentant différentes nations du Levant (1714/1715)
"Misticismo sem caridade, é o maior dos perigos" escreverá e concluirá o capítulo, lembrando como a Igreja sempre esteve desconfiada e prudente quanto aos "métodos de predispor a inspiração imprevista, e que excitam os nervos", tal a dança rodopiante, "só permitindo doses homeopáticas"... Aqui tocamos na história das relações da Igreja com os místicos, o mais belo capítulo talvez da história comparada do Ocidente e do Oriente...
Glória às nossas raças do Ocidente, à sua grande tradição religiosa e histórica.» Ora, embora mística seja sem dúvida o mais belo capítulo do Livro da Religão Católica, perguntaremos contudo: e as outras religiões, sobretudo a islâmica e as indianas não têm também tanta ou mais, embora as suas Igrejas ou Hierarquias tenham sido muito menos centralizadas e dirigidas?
Na parte final do livro tanto há críticas a Rabindranath Tagore, e aos "seus balbuciares de fakir", e aos Alemães, por Keyserling, por Freud e pelo apoios que estavam a dar a Tagore e à sua Universidade da Floresta (onde eu estive em peregrinação). Mas é provável que tenha sido escrita já nos anos 20 e depois da I grande Guerra. Anotese que a propósito da sua visita a Alepo, citará extensamente Al Ghazali, e elogiará o papel da França na proteção dos cristãos da Síria, os Alawitas, que infelizmente foram agora aos milhares trucidados pelos terroristas de Al-Jalani e dos USA, Israel, UE e França. O que diria Maurice Barrès dos monstruosos governantes destes países?
Do que escreveu das conversas com o sheik da ordem Mevlana, ou do que lhe contaram ou leu sobre os persas Mevlana Rumi e o seu amigo Shams de Tabriz, há algumas partes bem valiosas que ainda acrescentarei, mas provavelmente noutro texto...

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