sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Humanismo, Irenismo e universalismo no Renascimento e nos Humanistas Portugueses. No centenário do nascimento do prof. Pina Martins.

Com o Humanismo, nos séc. XV e XVI, houve em verdade um renascer civilizacional, graças à antiga sabedoria greco-latina ter sido reaprendida e aprofundada nos seus melhores aspectos, tendendo a afirmar a dignidade humana, o seu livre arbítrio e a cognoscibilidade e aplicabilidade, pelo estudo das Belas Letras, do bem, do belo, do verdadeiro e do Divino no ser humano e na sociedade. A De hominis dignitate, Oração ou Elogio da Dignidade Humana, de Giovanni Pico della Mirandola, unindo as mais diferentes tradições filosóficas e religiosas na exaltação do ser humano como unificador do micro e do macrocosmos, é como que a declaração programática e evangélica do Renascimento.
                                    
                            Giovanni Pico della Mirandola, na biblioteca do prof. Pina Martins.
Operava-se um retorno às fontes do pensamento Ocidental mas também do Oriental, já que a ideia de uma continuada tradição religiosa, de uma Filosofia Perene, presente em todos os povos e nos seus livros, de que Hermes Trimesgisto era a figura semi-mítica arquétipa, foi aceite e demandada por alguns dos maiores humanistas, sobretudo os do sul da Europa, como Marsilio Ficino, Pico della Mirandola, Francesco Patrizi, Eugubino Steuco, etc.
A Villa Caregi, cedida pelos Médici, a Marsilio Ficino e onde se reunia a Academia Platónica.
    A Academia Platónica florentina, e restam-nos algumas descrições por Marsilio Ficino e outros, foi nesse aspecto exemplar e fecundante pois dela participaram em diálogos e celebrações cordiais e luminosas, homens de filosofia, ciência, arquitectura, poesia, pintura, política, que irradiaram depois teórica e praticamente para a civilização Europeia e Cristã, enquanto que Portugal começava a sua metódica colaboração ou contribuição ao nível das ciências da navegação que iria congraçar tão distantes povos e lugares, unindo mais directamente o Ocidente e o Oriente, embora nem sempre irenaicamente, isto é, pacificamente.
Isto aliás foi então tema de controvérsias ou dúvidas, pois se já  os grandes humanistas europeus eram claramente pela resolução do conflitos pela razão e o diálogo e não pela força bruta, e o próprio Erasmo criticava a política de monopólio das especiarias que D. João III lançava,  já os humanistas portugueses se viam confrontados com a ideia de guerra santa, ou que fosse defensiva, contra os inimigos da fé e da expansão em que Portugal estava envolvido.
Erasmo de Roterdão, a voz da consciência da Europa humanista e irenaica
Se hoje em dia por um lado a globalização do conhecimento e dos contactos entre os povos é vertiginosamente maior, com constantes descobertas e relacionamentos na mesma comum religiosidade e filosofia humana, já os ideais éticos e de conhecimento puro e fraterno, irinaico mesmo, ou seja pacífico, do Humanismo do Renascimento tornaram-se menos estruturantes e decisivos numa civilização moderna demasiada dependente dum sistema económico financeiro ao serviço pragmatizado de uns poucos, politizada inferiormente e violentamente, regida por algumas elites dominantes extremamente conservadoras das suas posições e altamente repressivas e manipuladoras dos outros em especial dos que os desmascaram ou contestam, apoiadas nas descobertas e aplicações de ciência e da tecnologia e com muito poucas considerações éticas, estéticas, religiosas e espirituais, antes tudo violentando numa hybris ou arrogância desmesurada, que tem o seu acume no imperialismo norte-americano e todas as guerras que tem suscitado. O contrário do ideal renascentista e já afirmado nos pitagóricos, do "nada em excesso", ou do adágio erasmiano de que "a guerra só é agradável a quem não a experimentou".
As cartas de homens obscuros, lançadas por Van Hutten e outros, ironicamente e com grande suceso, contra a repressão do pensamento e livre expressão
Sendo as fontes do conhecimento na época do Renascimento ao princípio os escassos manuscritos e depois a crescente impressão e acessibilidade do livro, tais demandas e realizações de conhecimentos e valores tiveram nos seres bilingues e trilingues ou mais, os que deram melhores frutos comparativos, na época sobretudo na leitura dos textos antigos de latim e do grego, ou ainda do árabe, hebraico, caldaico e persa, para se estudarem e publicarem melhor textos religiosos e filosóficos (basicamente, por um lado a Bíblia e os primeiros padres da Igreja, por outro os ditos autores pagãos, seja de literatura na sua elegância, seja na filosofia e espiritualidade), funcionando o latim e o grego como as línguas francas do conhecimento, da investigação, da retórica, embora lentamente nos séculos XVII e XVIII começassem a ser abandonados pelas línguas nacionais, que foram assim fortificando-se para poderem abandonar as matrizes antigas e começarem a gerar comunicações novas com as ressonâncias anímicas mais susceptíveis de serem compreendidas por todas.
 Hoje em dia, embora haja muitos investigadores dominando tais línguas e outras e partilhando os seus conhecimentos em publicações internacionais e em redes alargadas da web, a grande maioria da população sofre uma certa manipulação e massificação proveniente das fontes já distorcidas e obscurecedoras de informação anglo-saxónicas e uma consequente perda das possibilidades de aprofundamento fraterno das múltiplas notícias, sabedorias, criatividades e propostas de outros países e idiomas culturais que não sejam os nacionais, frequentemente de fraca qualidade, ou alguns poucos de outro países que se destacaram por grandes sucessos e saem da zona obscura e marginalizada do mundo não submetido ao império norte-americano.
A essência humanista, a dignidade do homem, a sua universalidade, a sua autodeterminação, ainda que nos nossos dias continuem teorizadas e até por muitos filósofos e grupos cultuadas, encontra contudo por parte das classes dominantes mundiais muita recusa, menosprezo ou mesmo repressão e opressão.
Marsilio Ficino, Giovanni Pico della Mirandola e Angelo Polizano num fresco florentino.
O ideal da República das Letras, pacífica, culta e prospera, sonhado por Marsilio Ficino, Pico della Mirandola, Erasmo, Lefevre d'Étaples, Froben e outros, utopizado por Thomas More, Francis Bacon, Campanela, Valentim Andrea e outros, com alguns reis ou príncipes receptivos, se volta e meia se reanima em alguma assembleia política, em algum congresso mundial, em algum colóquio mais internacional, em algum livro como a Utopia III de Pina Martins, logo se esfuma perante a titânica luta dos Estados pelos bens dos outros, destacando-se nisto o imperialismo norte-americano e dos seus aliados contra os que não se sujeitam a ele. 
    Jacques Lefèvre d'Étaples, impulsionador do livre exame das Escrituras, animador do cenáculo de Meaux, tradutor dos Evangelhos e de textos patrísticos, comentando-os...
Uma parte substancial dos recursos ou dinheiros aplicados à demanda e partilha de conhecimento humano acaba por servir para uma competição imensa e frequentemente violenta entre os Estados e os povos, as melhores inteligências sendo compradas internacionalmente para em Universidades ou centros de investigação servirem para perpetuar domínios injustos e para serem utilizadas para descobrir como fazer o mal, ou fortificar as capacidades letais de domínio internacional ou opressão policial e militar.
                                                 
 A ciência que se desenvolveu no Renascimento tardio ou no segundo Renascimento, e fez tantas descobertas importantes, desde as dos portugueses às de Leonardo da Vinci, acabaria por vir a tornar-se uma ciência progressivamente despida do enquadramento humanista, perdendo-se o ser humano como o centro de todos os valores e fins, embora sem dúvida uma maior consciência da dignidade de todos os seres vivos, nomeadamente dos direitos dos animais tenha crescido bastante.
S. Thomas More, num santinho oferecido pelo abade Germain Marc'hadour, grande moreano amigo de Pina Martins.
Assim as utopias iniciadas por Thomas More, e logo seguidas por Campanela, Bacon e outros, com alguns líderes mundiais a tentarem realizar algo desse bem para muitos, e nem referiremos os sonhos do reino do Espírito Santo ou as mitificações do V Império português, acabaram por soçobrar quanto à aplicabilidade no decorrer dos tempos, chegando ao séc. XXI quase esmagadas pela elefantíase da civilização norte-americana e do sistema oligárquico mundial, enquanto na Europa o sonho duma União Europeia humanista se tornou uma desilusão total, sobretudo na cena internacional, vendida a grandes interesses de países ou corporações, e pouco se esforçando por fomentar e proporcionar harmonia, ecologia, justiça, felicidade, evolução e aperfeiçoamento...
O Irenismo ou Pacifismo dos Humanistas deve então ser realçado fortemente, nomeadamente nos nossos dias de ameaças de novas grande guerras, lembrando tanto a Utopia de Thomas More e o adágio Dulce bellum inexpertis,
por Erasmo desenvolvido magistralmente e vivido exemplarmente, propondo sempre o diálogo e as negociações para os conflitos seja religiosos seja políticos, como também todos os outros, tais como o nosso Damião de Goes, que quiseram e lutaram por sociedades mais educadas e livres, vivendo em respeito, paz e diálogo, deixando assim ideias, métodos, sacrifícios e exemplos futurantes, bem necessários hoje (VIII-2022) quando vemos milhares de livros da Santa Rússia a serem queimados...

                               Assinatura de Damião de Goes, um santo mártir nosso...
José V. de Pina Martins, de quem comemoramos o centenário do nascimento neste ano de 2020, foi um grande investigador, expositor e representante do Humanismo e do irenismo nos nossos dias, conseguindo até face a alguns ataques e bloqueios  sofridos em instituições a que presidiu, como me narrou, manter a sua dignidade e calma, preferindo o caminho irenista do diálogo ou mesmo da aceitação sacrificial. 
Pina Martins, com as vestes de doutorado na Sorbonne parisiense, junto a Giovanni Pico della Mirandola.
    No ano de 1986, no Colóquio Sobre Portugal e a Paz, efectuado em Lisboa na Academia das Ciências, a que tantas vezes presidiu inexcedivelmente,  José V. de Pina Martins proferiu uma notável conferência, intitulada o Conceito de Paz nos Humanistas Portugueses, na qual, mostrando como Petrarca, Lorenzo Valla, Marsilio Ficino e Pico della Mirandola foram plenamente irenistas, verberando a violência que rebaixava os seres humanos a sub-animais, já que os animais não tinham nem as vaidades nem os ódios humanos, fora com Erasmo que tal irenismo atingira o seu ponto máximo e a sua formulação mais precisa, baseada nos ensinamentos de Jesus Cristo nos Evangelhos, na patrística (particularmente  S. Agostinho), em fontes pagãs ou clássicas, e nos humanistas seus predecessores, e ainda no bom senso, escrevendo as suas cartas e adágios que se tornaram grande sucessos em toda a Cristandade, nomeadamente pedindo aos que queriam converter os turcos que se convertessem primeiro, e que dele  fortificara-se tal pacifismo em admiradores, discípulos ou confabuladores, como o catalão Luis Vives ou o nosso Damião de Goes,  exercendo-se ainda, embora mais condicionada pela missão expansiva conflituosa portuguesa,  em João de Barros, André de Resende e um pouco em Jerónimo Osório.
Ao finalizar, "em conclusão", em seis parágrafos tal valiosa conferência, começa assim:«O Humanismo renascentista, pelo que diz respeito ao seu programa ético e político, é pacífico e irénico. Os grandes humanistas de Petrarca a Erasmo, de Marsilio Ficino a Vives, de Giovanni Pico della Mirandola a Guillaume Budé, preconizam a paz como um imperativo fundamental para que, na sociedade, os homens possam encontrar, tanto quanto possível, a felicidade na sua dimensão de bem estar individual e comunitário, condições aptas à obtenção de bens materiais e espirituais. O estabelecimento de leis justas que regulem as relações entre os membros da mesma comunidade, a harmonia entre as diferentes comunidades ou Estados, tudo isso é indispensável para que a paz possa florescer e frutificar, cornucópia da abundância para todos homens, para me expressar com uma imagem erasmiana. Os humanistas portugueses estão, a esse respeito, de acordo com os humanistas europeus.
Não obstante, os humanistas portugueses compreenderam a situação histórica de Portugal na sua especificidade sobretudo em relação à expansão islâmica e não hesitaram por isso mesmo, cada um à sua maneira, exaltar empresas que, se interpretadas á luz de uma concepção moderna - o que o historiador digno deste nome não pode nem deve fazer -, não deixarão de parecer belicosas, mas que, à sua forma mentis [mentalidade], plasmada por um Humanismo europeu que não havia obliterado a sua fidelidade a uma vocação nacional, surgia numa perspectiva historicamente explicável. E isto mau-grado o seu irenismo e o seu ecumenismo, aberto não raro ao diálogo, até com as mais discutidas  figuras da Reforma, tal o exemplo de Damião de Góis.».
Damião de Goes, sem dúvida o português mais erasmista e em especial irenista, pelo seus diálogos com os humanistas católicos e protestantes já em plena Reforma mas abertos  à paz, pela sua defesa dos Lapões serem ensinados e não forçados a converterem-se, e pela valorização do cristianismo etíope dos Prestes João e de uma religião de coração e não de ritos, preceitos, intermediários e superstições. 
                        O sábio Damião de Goes, grande amigo e discípulo de Erasmo.
  Tal como Desiderio Erasmo  dissera a propósito de ser lícita a guerra ou conversão dos Turcos, na versão de Pina Martins exarada na sua importante obra Sobre o Conceito do Humanismo (p. 246) e citada nesta conferência no Colóquio sobre Portugal e a Paz: «Erasmo observa que só com as armas cristãs os cristãos poderão submeter os Turcos, e essas armas são uma vida pura, o desejo de bem fazer aos inimigos, a paciência perante as ofensas, o desprezo do dinheiro e da glória». 
Possamos nós estar mais em paz e transparência à nossa consciência e essência espiritual, abertos lúcida e amorosamente aos outros, aos mestres e anjos e ao Ser Divino, e assim Portugal ser mais um pais irenista, ecológico, de diálogo ecuménico e fraterno, e não seguidor ou acólito de imperialistas mas sim universalista. 
            A marca ou empresa, bem ascensional e espiritual, do sábio e prolífero impressor humanista Ioannes Froben, grande amigo de Erasmo.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

O poeta, o doutrinador, o ser, em Duarte Montalegre, ou José V. de Pina Martins na sua juventude. No centenário do nascimento.

Os livros do prof. José Vitorino de Pina Martins (1920-2010) escritos sob o nome literário de Duarte de Montalegre, embora nascidos na sua juventude (o primeiro com 21 anos), espraiaram-se por cerca de vinte e quatro anos até ele regressar ao seu verdadeiro nome, provavelmente por compreender melhor a sua vocação de investigador rigoroso do Livro, da Cultura e do Humanismo. 
 Quem  o viu assim também foi João Bigotte Chorão, o emérito camiliano, sempre afável nos diálogos que travava, num pequeno texto de 2011, na Revista de Estudos Italianos, sobre Pina Martins e a Literatura Italiana: «Ao despedir-se do pseudónimo, o autor dos Ensaios de literatura europeia achava que a esses e outros escritos faltava lastro cultural, erudição indispensável, bibliografia exaustiva. Eram textos de carácter divulgativo, nada mais do que isso. Mas divulgar um tema ou um autor não pressupõe conhecimento aprofundado que se expõe sem aparato crítico? Das cinzas de Duarte de Montalegre, nasce o erudito humanista, o ilustre académico Prof. Pina Martins.»
Serão razões  mas também o contacto com a intelectualidade europeia e mesmo com o Humanismo italiano terão relativizado o  fogo de militante universitário católico, em  luta com as forças dissolventes ou anti-religiosas do sensualismo e materialismo,  comunismo e até neo-realismo, algo pouco visível  na sua poesia mas bastante nos textos do jovem doutrinador. 
 Com efeito, a sua 2ª publicação, 1942, aos vinte e dois anos, Juventude e Educação, foi inicialmente uma tese apresentada na II Semana de Estudos Sociais da Juventude Universitária Católica, realizada no Porto, lida diante das autoridades religiosas e oficiais,  integrada depois nos fascículo 6-7 da revista Estudos e só em seguida brilhando autónoma como separata  impressa por Pina Martins nas oficinas da Gráfica de Coimbra. 
 E se na capa continua com a socrática e espiritual vinheta do seu primeiro livro, o afastar os véus (do olho do discernimento) para a abertura à visão do Sol nascente e íntimo,  já na contracapa são transcritas as opiniões de nove personalidades amigas que comentaram o seu 1º livro, de poesia, Pregunta de Pilatos, (neste blogue já apresentado), todas elas reconhecendo tanto o fundo sério e intelectual como a sensibilidade artística e o anseio místico. 
 Quem escolheu ele, jovem estudante, para seus padrinhos? -  Dr. Afonso Lopes Vieira, Dr. Alfredo Pimenta, Amália de Proença Norte, Aurora Jardim, Belarmino Pedro, Dario de Almeida, Eduardo dos Santos, Dr. José Gonçalves Dias, Dr. P. Urbano Duarte. Este, escreveu: «São poemas. Não trajam moda comum e fácil. Não é um coração ferido pela seta, é uma inteligência preocupada a falar ao som do ritmo e da harmonia.» Já Aurora Jardim caracteriza-o bem:«Versos que correm em busca da Verdade - sua definição e síntese - versos dum abstracionista que parte do seu intimismo para a vastidão infinita do Universo (...)».
A conferência Juventude e Educação tratava na 1ª parte da "Juventude em geral", em função da vida, a de ontem, de hoje e de sempre, sua psicologia, fé, corpo, inteligência sensibilidade e verdade, e da Juventude Universitária Católica. Já na 2ª parte, da "Educação da Juventude em função do Homem", equaciona que há «uma educação da sensibilidade, da vontade, do carácter, da imaginação, pela subordinação de todas as actividades do Homem aos imperativos morais. (...) Eis porque todas as palpitações da nossa alma, todos os movimentos volitivos e todos os desejos e todas as sensações e toda a vida em suma do Homem, devem ser norteadas pela norma. E assim, pela educação integral o homem será Homem integral, isto é, perfeito, pelo menos em vontade impertérrita de o ser, pois caminha triunfantemente para Deus. E Deus está no coração daquele que, integralmente, o procurar.» 
Eis-no com uma metodologia acertada e perene, a da unificação de todas as nossas forças instintivas e anímicas, de que pode resultar a aproximação ao íntimo coração, aonde a Divindade se pode manifestar, mistério que deveremos sempre tentar meditar e aprofundar...
Vemos então que após a primeira desvendação do seu estro poético, A Pregunta de Pilatos, Pina Martins passa a partilhar a sua vocação de pedagogo, moralista, militante católico, traduzindo ainda os livros volumosos sobre Jesus Cristo de Reynès-Monlaur e Karl Adam, e esta polaridade alternante continuará nas próximas obras já que a terceira, de poesia, intitula-se Angústia, e sairá no ano seguinte, 1943, dedicada "ao eminente jurisconsulto Dr. José Gonçalves Dias, com poemas de grande beleza e cultura, unindo sensualidade e divindade, tristeza e felicidade, angústia e força dirigida.
                                        
Estão agrupados em 12 conjuntos, o I - Poemas Homens e Deus. II - Poemetos da Hora Nostálgica. III - Sombras que descem. IV - Bailado de Karsavina. V - Cantares do Reino da Noite. VI - As Vozes do Silêncio no Reino da Noite. VII - Pequenas Tanagras do meu sonho. VIII - Cariátides do Mundo da Quimera. IX - Vertigem de Shéhérazada. X - Diário. XI - Desencontro. XII - Renúncia. Transcrevamos dois do VII, para sentirmos algo do que o jovem Pina Martins vivia animicamente na época:


«Acordo agora: agora me acordei
e lanço fora os braços, do meu leito,
Olho a janela: e olho o senhor Rei
da luz e dela aceito a vida, aceito.

O sol travesso abriu-se em riso e côr.
Ao sol eu peço a luz que já me deu.
Salto da cama: a luz faz-se maior
e numa chama abraça o corpo meu.

A luz desvaira as carnes que se dão.
No quarto paira a ânsia do meu grito
E nesse beijo eu ponho uma oração

- que o meu desejo vai rezando ao Infinito.

         II

«Tanagra  do meu sonho desta noite:
- Vem dos longes longínquos do além-sonho
tornar mais branda a sombra que me afoite
neste rebate de medo tão medonho!

Tanagra do meu sonho: és tão pequena
que na palma da mão posso apertar
o teu friso de carne mais morena
que a mais morena vaga do alto mar!

Tanagra!

Vem serenar a tempestade da alma
que se ergueu dentro de mim; e sagra
no teu encanto breve a minha noite; acalma
a borrasca  de uma ansiedade tanta!
E ri e beija e chora e chora e canta
e faz-te a carne da minha carne magra,

- Tanagra -

A obra conclui com um Posfácio auto-crítico onde defende dever «comunicar o que é relevante ao conteúdo da sua mensagem humana, ao significado dos seus dramas, fixados em poesia, à novidade dos seus processos técnicos e à razão de ser que lhes suporta o visceral fundamento (...) é que se a missão do poeta é realizar-se pela beleza, num perene esforço de perfeição ideal, ele carece de não esquecer que toda a Beleza é comunicativa, tendendo a difundir-se, por simpáticos influxos, através das sensibilidades, das almas.»
Explica ainda como muitos dos poemas nasceram nas férias grandes em 10 dias de febre e cinco de convalescença,  e outros já tinham sido publicados na revista Estudos, no Novidades de 21.V.1942, e no Ilhavense.
E se nos dá assim algumas pistas para as suas irradiações poéticas em jornais e revistas, mais à frente dá-nos uma para o seu pseudónimo de Montalegre, exigente pois: «Não quer isto dizer que os meus versos sejam rudes, naturalmente agrestes ou vigorosos, do vigor das coisas do monte. Antes tal fossem: ganhariam de excelência por verdade real, o que de requinte não poderiam ter, por verdade fictícia.»
Compara ainda os seus dois primeiros livros de poesia: «Como a Pregunta de Pilatos, Angústia é um livro de experiência psico-agónica. Só que os poemas do primeiro revestiram caracterização ascético-metafísica, de cunho acentuadamente abstractivo, onde a estrutura do segundo, muito mais transparente, reveste caracterização simbólica, de cunho nitidamente sentimental»
De vários dos poemas, entre os quais os que trancrevi, dirá: «neles palpita uma ânsia de definição tão profunda e humana, uma angústia tão sincera e fremente, que deixar de publicá-los seria - penso - quase abdicar, como artista, do mais nobre coronal do artista: o direito, senão o dever, de mostrar, aos homens e a Deus, os meandros mais escondidos do sentimento agónico», explicitando depois que «através da angústia, - a grande experiência das almas, consegue atingir-se os cumes da Graça.» É uma pedagogia de assunção das dores e dúvidas, desassossego e melancolia, culpas e tristeza, num canto e batalha de aspiração à luz, ao amor, ao Divino.
Escritas as suas primeiras obras quando lavrava o incêndio angustiante da 1ª grande Guerra, será então que o seu pseudónimo ou nome literário ecoa o nosso rei D. Duarte, tanto melancólico como doutrinador, do Leal Conselheiro, enquanto o Montalegre é como o monte rude (referido anteriormente), sincero, verdadeiro, que se ergue luminoso ou alegremente na paisagem e percurso atribulado, também espelhado por Paracelso no seu lema Ad astra per aspera?
         
A sua quarta obra publicada, em 1943, O Amor Redenção do Mundo Moderno (que posteriormente será referida, por razões conjecturáveis, sempre sem o Amor), dedicado a Virgílio Godinho, com apreciações na contracapa de Teixeira Pascoaes e de Marcelo Caetano, é de proselitismo cristão, católico e de esperança que a guerra termine brevemente e que a Humanidade renasça. Inicia com uma crítica ao messianismo de Nietzsche e à filosofia comunista, pois «há uma ética de esforço que postula essencialmente a realização humanística: a ética cristã. Faltando ela, fatalmente o humanismo falhara pela base e será, então, antropolátrico, demolátrico, estatolátrico ou qualquer coisa similar; porque não pode compreender-se o homem num quadro de isolamento individualista, sem se atentar em mais altos valores, coordenados ao seu próprio valor intrínseco e metafísico.» Estas reflexões são perenes, e com actualidade redobrada face ao terrorismo, ao neo-liberalismo individualista e globalista e à feroz repressão  por governos neo-conservadores.  O texto termina com muita fé:
«Acreditemos firmemente nas forças do homem!
Acreditemos firmemente na sua potencialidade para amar!
Acreditemos que só da caridade promana a redenção!
Acreditemos  no génio cristão e civilizador da cristã e civilizadora Europa!
Acreditamos, enfim, que sobre a ruína das nações abaladas, uma nova ordem se erguerá, em aurora, para levar a vida - a vida do amor - à velha morte do ódio.»
Todavia, a evolução histórica parece desmentir a esperança optimista sonhada por Duarte de Montalegre quanto à missão da Europa, hoje cada vez menos cristã e civilizadora, antes subjugada por tendência belicistas, globalistas ou mesmo as imperialistas da USA e da NATO...
        
Em 1945 sai em Braga a 5ª obra, apologética, Cristo no Pensamento Moderno, um trabalho valioso de investigação, no qual Pina Martins procura defender as doutrinas ou teses do catolicismo face às diferentes interpretações gnósticas, heréticas, racionalistas e modernistas, tentando provar ainda que só a revelação de Jesus e do seu amor caridade é suficiente e completa, face às antigas religiões, que vai descrevendo de forma abreviada e com as limitações do que conhecia, reservando maior apreciação para Sócrates e Platão. "Das heresias contemporâneas salientarei o socialismo, o liberalismo e a estatolatria pagã do marxismo-leninismo" e contra elas escreve as últimas páginas, antes de concluir com o apelo a seguirmos o "sulco luminoso que ele [Jesus] traçou, com o seu novo mandamento de amor; não devemos transigir com os erros grosseiros que o negam, pois negar-nos-íamos assim, nós que nos julgamos, como valores, participações da Verdade Suprema; não devemos enfim seguir outra norma de conduta, que não esteja contida na mensagem vitalista do seu Evangelho. Só por este meio nos realizaremos no Senhor, em pensamento e acção; e só por este meio, com efeito, demonstraremos a presença de Cristo em nós e no meio de nós. » 
Às sessenta e duas páginas do ensaio seguem-se cinquenta e três contendo 125 extensas anotações, ligadas a  citações de autores,  concluindo, em onze páginas, com À margem das anotações, onde critica de novo Hegel, o Comunismo e, mesmo no fim, Oliveira Martins por ter escrito no II vol. da História da República Romana (1885) que o «Cristianismo é uma alucinação fúnebre que substitui ao realismo naturalista um realismo fantasmagórico, e ao culto do Amor desenfreado o culto desvairado da Morte. S. Paulo é um António que traz nos braços o esqueleto de Cleópatra», encerrando persuasivamente: «Não se apercebeu Oliveira Martins de que para a concepção cristã, o homem só se realiza no Infinito pela superação da morte, e que, como disse George Valois (Le Père, Paris, ed. définitive, 1924. p. 122), «l'amour tue la mort», paráfrase do Amor omnia vincit, ou mesmo do soneto de Antero Quental, Mors Amor, já trabalhado neste blogue, Antero a quem Pina Martins dedicou uma tese ainda hoje inédita, pois foi só policopiada...
 E acrescenta «Não é verdade que as almas simples sentem Deus tão naturalmente, como sentem o calor do sol ou o perfume de uma flor?» (A. Carrel, A Oração, Livr. Tavares Martins, Porto, 1945. p. 17). Temos de amar a beleza da ciência e também a beleza de Deus (Idem, ib., p. 44). Se a razão pode amar, por ela mesma, a beleza da Ciência, foi Cristo que nos ensinou a amar a Beleza de Deus. E nós precisamos de Deus, como o peixe de água e o coração de amor». 
                                            
No ano seguinte, 2ª grande Guerra já terminada, 1946, Duarte Montalegre ou Pina Martins dá à luz Cântico, na colecção Poesia Nova, de Lisboa, quem sabe pela sua amizade a Miguel Trigueiros, onde manifesta a sua religiosidade intensa, da aspiração e entrega a Deus, de corajoso enfrentar da noite e isolamento, sofrimento e morte (na linha de Antero de Quental, uma das suas almas fontes na época) e, simultaneamente, de procura, sonho e entrega à amada que tanto deseja, sincera e de toda a sua alma e sangue. Tinha 26 anos...
Após uma bela Oração Matutina ao Senhor, encontramos Os Primeiros Poemas de Amor, Do Longe e do Sem Fim, Verbo e Sangue, Cântico da Saudade, Cântico do fim da Noite. Oiçamo-lo no antepenúltimo poema, Voz do Poeta para Aquela que há de vir antes do fim da noite, decerto um apelo àquela que viria a ser a sua mulher, a Primula:

"Vem, ó minha Esposa perdida para sempre
No longe e no sem fim do esquecimento!
Vem, ó Minha Irmã deixada para sempre
No rio Létis da sombra que deixei!
Vem, ó Razão que me assiste de gritar
Por aquilo que a vida me não deu!
Vem, ó Sonhada Esperança do meu beijo
E partamos para o mar de uma aventura
Antes que a noite termine onde eu termino
E desça à nossa dor o Espírito Divino
Que nos há-de ressuscitar."
 
Sugestiva e bela face duma alma luminosa ao lado do poema Aquela que há de vir...
 A ordenação neste livro das suas sucessivas obras, estaria já a preparar o desaparecimento de Duarte Montalegre? 
«Verso: Pregunta de Pilatos, 1941; Angústia, 1943; 2ª edição, com um prefácio de Plínio Salgado, 1945. Cântico, 1946.
Doutrina: Juventude e Educação, 1942.  Redenção do Mundo Moderno, 1943. Cristo no Pensamento Moderno, 1945.
Investigação: Ensaio sobre o Parnasianismo Brasileiro, 1945. Eça de Queirós - Reflexões para um ensaio sobre o seu ideário ético-estético, 1946. Apontamentos Críticos e Literários (a sair)» 
Não registou algumas das traduções realizadas, e por vezes bastante volumosas, até pelos seus prefácios, como é o caso de Últimos passos de Jesus, editado em Braga na Editorial Nós, em 1945, com CXVII páginas. O exemplar que possuo foi oferecido com dedicatória ao poeta Miguel Trigueiros, tal como, já em 1947, em Coimbra, na Casa do Castelo-Editora, o volumoso Jesus Cristo, de Karl Adam.
 Não sabemos que intuições e intenções precisas se geravam no seu caminho ascensional, mas ainda sairão alguns livros de apontamentos ou ensaios críticos e literários (mais religiosos, e sobre Pascal) sob nome o Duarte de Montalegre, bem como os seus últimos cantos poéticos, em 1950 em Itália, Soffio della Note e, finalmente, Rio Interior, escrito entre 1950-1953 e publicado em 1954, em Lisboa, quando era leitor de Língua e Literatura Portuguesa  em Roma, sentindo-se nele uma crise religiosa, numa certa linha anteriana, já que mau grado todo o diálogo, escuta interior e oração ao Deus bíblico  da sua infância (de facto, uma tão limitada concepção de Deus), Jeová não lhe respondia. 
 Todavia, o seu rio de sonhos e aspirações erguia-se matinal e optimisticamente, sublimando a sua aspiração divina nos livros e na sabedoria humanista, por onde se iria aventurar com tanto rigor e ciência quão prodigiosa fecundidade e convivialidade por toda a Europa (nomeadamente Roma, Poitiers e Paris), então bem mais humanista e irenista.
Muita Luz e Amor para José Vitorino de Pina Martins e para a Primula.

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Biografia do prof. Jose V. da Pina Martins, sucinta e cronológica. No centenário do seu nascimento, 1920-2020.

Dois notáveis erasmianos, à esquerda, Marcel Bataillon e à direita Pina Martins.
O prof. José Vitorino de Pina Martins nasceu em 18 de Janeiro de 1920, começo da noite, em Penalva de Alva, concelho de Oliveira do Hospital, distrito de Coimbra,  filho de António Vitorino de Abrantes Martins e de Maria Olímpia Faria de Pina. Educado num ambiente cristão católico e culto, desde muito novo, aos 4 anos, sentiu o amor pelos livros graças à biblioteca familiar, onde uma edição minúscula dos Lusíadas o encantou, começando depois a ler Connan Doyle e Júlio Verne. 
Na instrução primária recebeu o magistério inspirador  da professora D. Felicina Guilherme Hall, residente na aldeia das Dez, que o estimulou no amor e compreensão da leitura, além de memorização de passagens mais belas dos Lusíadas, desde a proposição à batalha do Salado e à formossíma Inês de Castro.
Frequentou o Seminário de Coimbra, "foi uma boa escola", dirá, onde aprendeu latim e literatura, não chegando à filosofia. Só depois entrou na escola Secundária, no Colégio de Brás Garcia Mascarenhas, em Oliveira do Hospital, "uma excelente instituição e ensino". Os exames de 3º, 6º e 7º anos foram prestados no Liceu D. João III em Coimbra, tendo a nota mais alta, 20, em Latim.
Em 1941 publica o seu primeiro livro sob o pseudónimo de Duarte de Montalegre, A Pregunta de Pilatos. Poemas ascético-filosóficos, a que se seguem em 1942, ano em que entra na Faculdade de Letras Juventude e Educação, e em 1943 duas obras: Angústia, poemas,  e o ensaio O Amor redenção do mundo moderno.  Alguns deles tinham sido publicados na conimbricense revista de cultura e formação católica Estudos, 1942.
A apreciação por carta de Teixeira de Pascoaes à sua primeira obra é elogiosa: «Li os seus poemas com o maior prazer espiritual. São cantos nascidos e não feitos, denunciando o ímpeto espontâneo da inspiração, que é, julgo eu,  a característica dos poetas autênticos...». Serão ainda vários os livros que publicará sob o pseudónimo de Duarte Montalegre, talvez custeados pela orientação  prestadas nas disciplinas de Latim, Filosofia e Literatura Portuguesa em alguns colégios de Coimbra.
Participou no movimento estudantil Coimbra que gravitava à volta da revista de cultura e formação católica Estudos, onde além dos artigos que publicou podemos ler por exemplo que na semana de estudos da Juventude Universitária Católica, realizada de 19 a 23 em Coimbra,  com nomes que se tornarão bem conhecidos como Francisco Sousa Tavares, Barrilaro Ruas (então presidente do C.A.D.C.) e Rui Cinati. Pina Martins intervém em três das sessões.
Em 1946, o prof. Joaquim de Carvalho convida-o a assistir na Universidade a uma conferência de Marcel Bataillon sobre Erasmo e fica muito impressionado com a qualidade do autor e do tema; quase trinta anos mais tarde, em 29-6-1973, em Paris, na avenue Jena, retomará essa amizade. Quanto a Erasmo e os Humanistas a semente também floresceu...

Em 1947 licencia-se em Filologia Românica na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra com a tese Miséria e Grandeza do Homem em "Les Pensées" de Blaise Pascal. Algumas publicações posteriores ecoarão a simpatia pelo existencialismo cristão e a fé de Pascal. 

Destacará, nos "excelentes" professores, Joaquim de Carvalho (certamente o seu principal iniciador), Rebelo Gonçalves, Damião Peres, Lopes de Almeida, Costa Pimpão, Paulo Quintela. Nos investigadores, Mário Brandão e Torquato de Sousa Soares.  Entre os condiscípulos havia os alunos exemplares destinados a professores, tais Américo Ramalho, Maria Helena Rocha Pereira e José de Castro Nunes, e os que pela sua cultura e talento literário prometiam, tais como Virgílio Ferreira, Fernando Namora, Carlos de Oliveira, Dario Martins de Almeida. Ou ainda Joaquim Veríssimo Serrão, João Antunes Varela, Gonçalves Rodrigues e Magalhães Vilhena. 
Dos amigos mais próximos referirá primeiro Amândio César, "um verdadeiro devorador de livros, e de textos poéticos modernos", e que "como poeta afirmava-se na sinceridade e autenticidade", sendo "profundamente religioso". Este por sua vez corresponderá numa dedicatória dum livro, em 1951: «Para o Duarte Montalegre - ao Querido amigo e ao Intelectual mais alto da minha geração, com um xi do Amândio». E, depois, seus bons amigo também, Dario Martins de Almeida, Henrique Barrilaro Ruas e Eduardo Lourenço.
De 1948 a 1955 foi leitor de Português em Itália, na Universidade de Roma La Sapienza, tendo frequentado o curso de Biblioteconomia do Vaticano,  seguindo  na disciplina de Storia del Libro as lições de Lamberto Donati um grande conhecedor do livro ilustrado do Renascimento. Na Universidade de Bolonha estudou as relações históricas entre Itália e Portugal no século XVIII (à volta de Ludovico Antonio Muratori), sob o magistério de Carlo Calcaterra. 
Em 30.III.54, aos microfones da Radio Vaticano, faz um sábio apelo em prol da libertação de Ezra Pound, detido há oito anos pelos norte-americanos, que será publicado por Leo Magnino (que fora leitor de Italiano em Coimbra), na versão inglesa de Olivia Rosseti Agreste, e no qual põe em causa  os Estados Unidos da América quanto a seguirem o que apregoam:«os princípios da liberdade humana e dignidade, e a supremacia dos valores espirituais». A História dar-lhe-á razão, tanto na altura, já que o Parlamento Italiano fez então mais pressão para a sua libertação (de um manicómio e conseguiu-a), como hoje em que a opressão dos direitos humanos e da dignidade humana é a política corrente ou vigente do império norte-americano.
Publica em Braga em 1954, sob o nome de Duarte Montalegre, o  livro de poesia Rio Interior, "dedicado a memória de Teixeira de Pascoaes", com uma ilustração de Martins da Costa, contendo no interior um poema dedicado à Primula, a sua mulher, italiana.  
Em 1955 é transferido para o leitorado de português da Universidade de Poitiers, em França, onde trabalhou com Raymond Cantel. 
Em 1957 inscreveu na Universidade de Paris III (Sorbonne Nouvelle) as suas teses de doutoramento, nas quais trabalhou sob orientação de Léon Bourdon e Robert Ricard. 
Em 1961 foi convidado para assistente da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, regressando em 1962, e rege as cadeiras de História da Cultura Moderna (1962), de História da Cultura Clássica (1962-1963), de História da Literatura Portuguesa II (1963-1964) e de Literatura Italiana (1963-1972), valorizando o estudo da história do livro e das fontes antigas.
São desta época (1964) os seus Ensaios de Literatura Europeia, publicados nas Edições Panorama, ainda sob o pseudónimo de Duarte Montalegre, e onde escreve sobre  S. Francisco, Marco Polo, Leopardi, André Gide, Bernanos, Jacques Maritain, Giovanni Papini, Ezra Pound, Endre Ady, Luigi Salvini, Jose Maria Valverde, Ribeiro Couto (poeta brasileiro a quem dedicará outros estudos), Jorge de Lima, Werner Bergengreuen, Giusuppe Ungaretti, Luigi Fantappié, Raffaele Spinelli, a este autor tendo dedicado também publicações individuais.
Em 1965 com Paulo Quintela, Vitorino Nemésio e Justino Mendes de Almeida dirige as celebrações universitárias do centenário de Gil Vicente. 
Em 1970 conclui uma das suas magníficas obras, que publicará em 1972, Sá de Miranda e a Cultura do Renascimento. I. Bibliografia, catalogando e comentando cerca de 1300 livros ou documentos mirandianos, muito deles reproduzidos. Das várias pessoas que de algum modo o ajudaram avultam investigadores como Gonçalves Rodrigues, Eugenio Asensio, Victor Buescu, Martim de Albuquerque, José Adriano Carvalho, e os livreiros Alfonso Cassuto, Américo F. Marques, António Tavares Carvalho, Ernesto Martins, Almarjão, João Rodrigues Pires e José Telles da Silva, a quem agradece.
Autógrafo de Sá de Miranda, e gravura a água forte e ponta seca de Martins da Costa.
Em 1972 dirige na Biblioteca Nacional a Exposição acerca d' Os Lusíadas,  sendo o responsável de Os Lusíadas (1572-1972). Catálogo da Exposição Bibliográfica, Iconográfica e Medalhística de Camões.  Prefácio de Manuel Lopes de Almeida. Introdução, selecção e notas bibliográficas de J. V. de Pina Martins. Lisboa, Imprensa Nacional, 1972. Cerca de 800 páginas, um trabalho gigantesco.
De 1972 a 1983 é Director do Centro Cultural Português, da Fundação Calouste Gulbenkian, em Paris, onde além de receber, com grande hospitalidade,  com a sua mulher Primula, os investigadores,  publicou mais de uma centena de edições de carácter científico no campo das letras humanas, num mecenato muito valioso, promovendo e participando em numerosas conferências, exposições e colóquios. Na colecção
Civilização Portuguesa começa a editar livros de grande sabedoria humanista, os dois primeiros sendo de Marcel Bataillon, Études sur le Portugal au temps de l'Humanisme, e de Eugenio Asensio, Estudios Portugueses, ambos no ano de 1974 e prefaciados por ele. Nos Arquivos do Centro Cultural Português de Paris organizará e publicará doze grossos volumes de alto valor cultural, três deles de homenagem a três grandes almas da "lusofilia universitária": Marcel Bataillon (em 1975), Leon Bourdon (em 1982) e Raymond Cantel (em 1983).
Viu contudo gorado o seu projecto de publicação em francês de uma biblioteca essencial da literatura portuguesa que a UNESCO e a Fundação Gulbenkian queriam publicar, por oposição da engenheira Lurdes Pintassilgo, então a representante Portuguesa,  perda  da divulgação da tradição cultural portuguesa algo  que sempre  lamentará. Já  em boa cooperação com a Universidade de Paris VIII instituiu cursos de Língua e Cultura Portuguesas no Centro  Cultural Português, em Paris, da Fundação Calouste Gulbenkian, que em 1983  tinham 178 alunos. 
Em 1973 identifica, estuda e publica o Tratado de Confissom (Chaves, 8 de Agosto de 1489), com "fac-símile, leitura diplomática e estudo bibliográfico", do primeiro livro impresso em português com caracteres góticos provindos de Espanha, a partir da descoberta que um livreiro alfarrabista, Tarcísio Trindade, fizera no norte de Portugal, em 1965.
Em 19 de Dezembro de 1974 defende durante seis horas as  teses de Doctorat d'État na Universidade de Paris III (Sorbonne Nouvelle), perante um júri presidido por Marcel Bataillon, do Collège de France, composto por Eugenio Asensio, Robert Ricard, Paul Teyssier, Raymond Cantel e André Saint-Lu, tendo alcançado com unanimidade a mais alta classificação. Será em 1976 que sairão nas Presses Universitaires de France, sob o título: Jean Pic de la Mirandole, un portrait inconu de l'humaniste. Une édition très rare de ses Conclusiones.
De 1974 a 1983 fundou e dirigiu com Jean Aubin o Centre de Recherches sur le Portugal de La Renaissance, na École pratique des Hautes Études (IVe section - Études historiques et philologiques), onde ensinou durante nove anos, dirigindo a cadeira de Civilização Portuguesa como chargé de conférences. 
Em 1975, a partir da ideia da então leitora de português em Roma, Elsa Gonçalves, coordenou, em Roma, sob a égide da Accademia Nazionale dei Lincei, do Instituto de Alta Cultura e da Fundação Calouste Gulbenkian a mostra bibliográfica sobre Camões e il Rinascimento Italiano para a qual redigiu igualmente o  catálogo, co-prefaciado com Luciana Stegagno Picchio, e no qual estavam descritos os 64 incunábulos e quinhentistas italianos expostos e considerados como fontes da poesia de Camões, «uomo del Rinascimento, formato dall'Umanesimo e attento a tutti gli interessi culturali e storici di un'epoca in cui l'uomo guarda alla realtà concreta del mundo», que «non esalta solo la storia del Portogallo, glorificando la scoperta della via marittima per le Indie: esalta sopratutto l'uomo capace di trionfare di ciò che la leggenda gli presentava come ostacole insuperabile, come prospettiva catastrofica».
Em 1976 esteve a pronunciar conferências no King's College de Londres e a dirigir um seminário em Oxford sobre o Humanismo português e sobre Giovanni Pico della Mirandola.
Em 1980 viaja ao México com seu grande amigo Eugenio Asensio, onde proferem conferências camonianas no Colégio do México, e peregrinam tanto Teotihuacan como o santuário de Nossa Senhora de Guadalupe. De tal resultará a publicação em 1982, com Asensio, do Luis de Camões. El Humanismo en su obra poética. Los Lusiadas y las Rimas en la Poesia Española (1580-1660), onde a dado momento afirma: «Por lo que toca al neoplatonismo, aunque los poemas de Camões especialmente los poemas líricos, no dejan lugar a duda, el mismo poeta nos dejó un testimonio claro en el monologo del personaje central de una de sus piezas, el Auto llamado Filomeno. En él, se habla de Platón, del Bembo, de Garcilaso, de Laura y de sonetos». 
Regressa a Portugal em 1983, já que fora convidado a ocupar o lugar de professor da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e a ser  Director do Serviço de Educação da Fundação Calouste Gulbenkian, actividade em que se exerce um mecenato cultural de teor social e humanista inigualável na história da Fundação e das múltiplas entidades culturais que necessitavam de apoios.
De 1985 a 1990 foi o Professor-Bibliotecário da Biblioteca Central da Faculdade de Letras, enriquecendo-a em vários aspectos. Em 1990, a Bibliotecária Assessora principal Lydia Pimentel elabora a bibliografia do seu antecessor, expondo 99 obras na Biblioteca: 16 de estudos bibliográficos, 59 de estudos críticos, 15 prefácios, 6 testemunhos e 3 traduções. Após algumas peripécias virá a ser esta  Biblioteca da Faculdade de Letras a possuidora dos livros antigos do prof. Pina Martins. Já em 1998, para uma pequena exposição na Biblioteca Nacional, Manuel Cadafaz de Matos cataloga, prefacia e descreve 129 Trabalhos Científicos de um grande investigador, José Vitorino de Pina Martins.
 Pertenceu à Academia das Ciências de Lisboa como académico associado desde Abril de 1977, proferindo a sua primeira comunicação nas comemorações sobre Thomas More, em Junho do mesmo ano. E foi eleito sócio efectivo em 1985, nesse ano sendo o Secretário geral do 1º Simpósio Nacional sobre O Humanismo Português 1500-1600 (de que sairão as notáveis comunicações,  em 700 páginas em 1988, a sua sendo sobre Sá de Miranda e a recepção no século XVI de um Dolce still nuovo renovado), tendo sido várias vezes eleito para exercer magistralmente os cargos de Presidente e Vice-Presidente da sua Classe de Letras, e de Presidente e Vice-Presidente da própria Academia, além de Inspector da magnífica Biblioteca, que bastante protegeu e valorizou, tendo publicado comunicações suas e de outros académicos.
 A época que mais o atraiu e investigou foi o  Renascimento, mas tanto recuando nas raízes como prolongando-o nas  frutificações, caracterizando-o na sua 1ª fase, a do auge do Humanismo, como «a reinvidicação da dignidade da humanitas e o primado do homem na cidade terrena, e a descoberta dos valores essenciais que o interessam através das letras humanas e o estudo das fontes antigas»,  a qual termina com o Concílio de Trento; já a sua segunda fase é mais naturalista, utópica e científica, representada respectivamente por Giordano Bruno, Tommaso Campanela e Galileu Galilei, "o último dos grandes pensadores do Renascimento".
Em 1987 orienta uma exposição do qual sairá um catálogo bibliográfico bem ilustrado, onde são descritos 335 cimélios, escrevendo a introdução e as  notas, intitulado Erasmo na Biblioteca Nacional séc. XVI.

Os principais autores que amou, investigou e ensinou foram Giovanni Pico della Mirandola, Thomas More, Erasmo, Damião de Góis, Sá de Miranda, e tinha deles imagens nas paredes da sua biblioteca. E em seguida, dos italianos antigos, Dante, Petrarca (estes dois bastante), Bocacio, Lorenzo Valla, Marsilio Ficino, Angelo Poliziano, Cristoforo Landino, Girolamo Benivieni, Sadoleto, Doni, Baldassar Castiglioni e Tommaso Campanela. Dos mais recentes Giacommo Leopardi (1789-1837), «porventura, depois de Dante e Petrarca, a maior figura da poesia italiana de todos os tempos». 
Já dos outros europeus nomeemos John Collet, John Fisher, Guillaume Budé, Lefèvre D'Étaples, Étienne Dolet, Reuchlin, Nebrija, Arias Montano, Garcilaso de La Vega (da qual noticiou a descoberta de uma edição desconhecida adquirida na olisiponense Livraria Antiquária do Calhariz) e já no séc. XVII, Pascal.  Dos portugueses, além de Sá de Miranda (1481-1558) e Camões (1525-1580), destacaram-se Gil Vicente (1465-1536) João de Barros (1496-1570), André de Resende (1500-1573), Bernardim Ribeiro (1482-1552), D. Jerónimo Osório (1506-1580), Frei Heitor Pinto (1528-1584), D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666), Luís António Verney (1713-1792), Almeida Garret (1799-1854) e Antero de Quental (1842-1891).
Dos seus contemporâneos homenageou vários com textos, nomeadamente Joaquim de Carvalho, Vitorino Nemésio, Victor Buesco, Fernando de Mello Moser (grande amigo e co-autor de um catálogo e exposição dedicada a Thomas More), Jacinto do Prado Coelho, Rómulo de Carvalho, Joaquim Veríssimo Serrão, Maria de Lourdes Belchior, Delfim Santos,  Félix A. Ribeiro e  seu mais querido amigo Eugenio Asensio (com quem convive desde 1965, em peripatéticas conversas e animadas buscas e trocas de livros raros), o notável descobridor em bibliotecas de exemplares de edições perdidas de Jorge Ferreira de Vasconcelos e D. Gaspar de Leão e que tão bem as estudou e partilhou. Publica mesmo em 1990, em 110 páginas uma sucinta biografia e encómio: Eugenio Assensio doutor Honoris Causa pela Universidade de Lisboa.

Eugenio Asensio, notável investigador e seu íntimo amigo...

Orientou vários seminários e conferências públicas e apresentou comunicações em numerosos congressos em Universidades da Europa e da América e em encontros internacionais que tiveram lugar em Portugal, Espanha, França, Inglaterra, Itália, Alemanha, Bélgica, Holanda, Suíça, Polônia, Hungria, Canadá, EUA, México e Brasil. 
Entre as suas principais obras, e mais volumosas, destacaremos Humanismo e Erasmismo na cultura Portuguesa do séc. XVI. Estudo e e textos. Paris, Fundação Calouste Gulbenkian, 1973 e Humanisme et Renaissance. De L'Italie au Portugal. Les deux regards de Janus, 2 vols., impressos pela Fundação Calouste Gulbenkian em Paris, 1989, contendo 25 anos de estudos sobre os principais autores e obras de humanistas italianos e portugueses, em 1000 páginas muito bem ilustradas e anotadas.
Nesse mesmo ano de 1989 levava a Chaves "vinte e dois livros antigos de espiritualidade (1502-1592)" imprimindo a Câmara Municipal de Chaves um catálogo prefaciado e anotado por Pina Martins, Mostra Bibliográfica Comemorativa do Quinte Centenário do Tratado de Confissão (Chaves, 8 de Agosto de 1489), e concluía o seu estudo introdutório assim: «Portugal tem mais de oito séculos de existência. A sua unidade como Nação define-se como comunidade viva através da consciência colectiva da sua identidade histórica. É indispensável que todo o país saiba que a macrocefalia cultural pode vir a ser nociva para o equilíbrio moral da Pátria, como Francisco Sá de Miranda reconhecia, cerca de quatro décadas depois do aparecimento do Tratado de Confissom: Ao Reino cumpre ele/Ter a quem o seu mal [e bem] doa,/ Não passar tudo a Lisboa,/Que é grande o peso, e com ele/ Mete o barco na água a proa».
Em 1994, comemorando o V Centenário da morte de Giovanni Pico della Mirandola cria uma Exposição bibliográfica na Biblioteca Nacional, com 80 obras, saindo o Catálogo com prefácio, catalogação e nota bibliográfica de Pina Martins e os índices por Margarida Cunha, tendo eu contribuído com duas edições modernas de Pico, como ele assinala na dedicatória: "Ao Dr. Pedro Teixeira da Mota, como homenagem à sua cultura, oferece Giovanni Pico..., catálogo onde também figuram obra suas, com um abraço afectuoso, Lisboa, 25.III.95, José V. de Pina Martins.»
Em Março de 1998 é o responsável pela exposição na Biblioteca Nacional das comemorações dos 500 anos da melhor edição (a 3ª) latina da Utopia, publicando A Utopia de Thomas More, e o Humanismo Utópico 1485-1998. Catálogo de ums síntese biblio-iconográfica, onde descreve sóbria e judiciosamente 112 cimélios da Biblioteca Nacional e da sua Biblioteca de Estudos Humanísticos. Foi coadjuvado pelas suas discípulas Maria Valentina Sul Mendes, especialista em incunábulos, e Margarida Cunha, especialista em encadernações antigas e manuelinas.
Em 1999 publica em homenagem a Maria de Lurdes Belchior e à cultura Hispânica uma descrição bibliográfica de 25 Livros  do século XVI impressos em Espanha da Biblioteca de Estudos Humanísticos de Lisboa.
 Numa linha de doutrinador futurante, contendo propostas para os nossos dias, publicou em 2005 a Utopia IIIrelato em diálogo sobre o modo de vida educação usos costumes em finais do século XX do povo cujas leis e civilização descreveu fielmente nos inícios do século XVI o insigne Thomas More. Em 2006 escreve um Estudo introdutório à Utopia Moriana, na Utopia de Thomas Morus,   na edição (bilingue)  crítica, tradução e notas de comentário por Aires de Nascimento (um dos nossos melhores humanistas contemporâneos). E em 2007,  como historiador do livro e das mentalidades, bibliófilo e memorialista, as Histórias de Livros para a História do Livro, onde relata as peripécias da sua vida itinerante de amante da Cultura e do Livro, suas descobertas bibliográficas e seus encontros e diálogos com alguns dos melhores investigadores, livreiros e bibliófilos europeus, dos quais nomearemos apenas dois dos investigadores do Humanismo que mais apreciou e com quem conviveu tão agradavelmente, Marcel Bataillon e Eugenio Asensio.
Na realidade a sua casa era uma biblioteca viva, com livros sempre a entrarem ou a saírem, no fundo um museu ou casa de musas, onde alguns mestres pontificavam pelas pinturas, gravuras e medalhas, e pelos livros que tinham escrito, publicado ou sobre quem outros tinham  escrito. Com efeito, não era onde vivia com a sua querida Primula (e durante alguns anos com sua filha Eva Maria), no 2º andar na  Rua Marquês da Fronteira, também ele com as paredes cheias de livros menos antigos, que estava a sua biblioteca, mas sim no  5º andar, transformado em templo de livros, e que aí se oferecia aos olhares ou mesmo manuseio de investigadores, bibliófilos e amigos, no fundo todos frágeis peregrinos face aos mais de seiscentos quinhentistas que habitavam nas duas amplas salas.
Na oriental pontificava uma grande pintura de Thomas More, com centenas de obras moreanas, e de outros humanistas ingleses, tais como John Fischer e  John Colet, bem como de  humanistas europeus; na parede a norte desta sala estavam as mais volumosas obras, de religião (tal como a Bíblia Poliglota Complutense, obra prima da tipografia espanhola, sob a protecção do cardeal Cisneros, ou alguns volumes da Bíblia Poliglota Plantiniana, de Arias Montano), de bibliografia, dicionários e outras de referência, enquanto a sul uma vasta e cheia secretária tinha as costas ao sol que entrava forte quando as persianas não eram baixadas.
 Já  na sala a Ocidente brilhava a belíssima pintura seiscentista de Giovanni Pico della Mirandola, rodeada de inúmeros cimélios quinhentistas raros do humanismo italiano e em particular de cerca de cem impressos por Aldo Manuzio, o sábio impressor onde Erasmo estagiou na sua aprendizagem do grego e que foi o inventor da letra itálica, que fez diminuir o tamanho dos livros, o que  agradou a Erasmo, pois por vezes os livros viajavam pesando dentro de barricas ou tonéis de vinhos. Pina Martins, em 1994, coadjuvado por duas suas valiosas discípulas e amigas da Biblioteca Nacional, Maria Valentina Sul Mendes e Margarida Cunha editou o Catálogo Edições Aldinas, Séculos XVI e XVI.
A norte desta sala ocidental estavam os livros portugueses dos séculos XVI, XVII e XVII, de humanismo e de história, com alguns de poesia peninsular, nomeadamente Sá de Miranda, Garcilaso de La Vega, Francisco de Sotto Mayor.
Tinha ainda uma espécie de andar superior com livros de estudo humanístico e literário não muito antigos,   acima destas duas salas nobre da sua biblioteca que desaguavam ainda para a cozinha e a dispensa  com livros que não lhe interessavam e que trocava ou vendia.
Era nestas duas salas   bem ornada das pinturas e guarnecida de duas boas secretárias e sofás que recebia Pina Martins afavelmente os que o procuravam para receber seus conselhos, para admirar os seus cimélios ou aqueles que ele convidava. 
Lembro-me neste sentido de uma celebração em pequeno grupo do dia de nascimento e morte de Platão, na linha do que a Academia Platónica florentina de Marsilio Ficino realizava todos os anos, realizada em 1996, pois a dedicatória de um livro assinala: «Ao Dr. Pedro Teixeira da Mota, como lembrança deste dia ficiano de 7.XI.99 em que dialogámos sobre o pensamento platónico na Biblioteca de Estudos Humanísticos, oferece Livros Quinhentistas sobre o Amor o seu amigo e colega de pesquisas bibliográficas, José V. de Pina Martins». 
Nesta apostilha bibliográfica considera o comentário de Marsilio Ficino Sopra lo Amore o ver'Convito di Platone, como a grande fonte dos tratados de Amor renascentistas, nomeadamente nos Dialoghi di Amore de Leão Hebreu (o que prova bastante neste livro), Gli Asolani, de Bembo,  Natura di Amore de Mario Equicola e  Cortegiano de Castiglione. O Amor em Marsilio Ficino surge-nos então como o meio da alma dotada da Verdade passar a estar formada de Verdade, e assim consciente e cosmicamente imortalizada e à Divindade religada... Assim seja...
Desencarnou no dia 28.IV.2010, em Lisboa, já com 90 anos, libertando-se na sua própria casa, a três metros das estantes de uma das divisões da sua biblioteca, do corpo físico já enfraquecido, partindo luminosamente para o mundo espiritual, como de algum modo foi dado a ver dois dias depois, no enterro, nas maravilhosas nuvens que se manifestaram no céu, coroando e infinitizando o zimbório e Basílica da Estrela.
Recentemente, no ano de 2021, Manuel Cadafaz de Matos deu há luz mais um número da sua valiosa Revista Portuguesa de História do Livro, dedicada em grande parte a ele e em que contribuímos os dois, publicando ainda o catálogo da sua biblioteca, hoje na Faculdade de Letras de Lisboa.