quarta-feira, 24 de julho de 2019

Uma Peregrinação Portuguesa ao Irão, 2013, (9º cap.), por Pedro Teixeira da Mota.

3 de Maio, Sexta, 21:53. Chegar a casa e dar mil graças por tanta beleza e espiritualidade neste dia de visita ao jardim ou pequena quinta nos arredores de Terão da família da Nasrin, dialogando com ela, as suas sobrinhas e o cunhado, porque falam inglês, e recebendo uma refeição fabulosa com ash, kuko, vegetais em creme-pasta, salada, legumes cozidos, iogurte e, à sobremesa, duas variedades de subtis intensificações da doçura do trigo germinado, parece que tradicionalmente pisado em almofariz e cozido prolongadamente.
 
 
 
 Sexta-feira é o dia santo e de descanso na Pérsia e assim aproveitamos para sair dos afazeres de Teerão e desfrutar um pouco do ambiente rural dos arredores, numa convivência familiar muito agradável. Logo de manhã fomos a uma padaria comprar o pão típico iraniano para levar e o seu processo de manufactura faz lembrar o da Índia
 
Li as linhas das mãos das três filhas e do pai e do que vejo e intuo, algo é confirmado, pois a mais nova tem uma linha de afectividade e amor imensa, bem como uma grande interioridade, vivendo para o seu mundo íntimo, o que foi bem visível sobretudo na infância. O pai confirma. A que estuda psicologia é também muito sensível e de grande interioridade, e foi com ela que senti mais afinidade de alma e de coração; a mais velha é mais enérgica ou dinâmica, criativa nas artes e webs, e tirou também várias fotografias às árvores e flores, em especial as rosas. 
 
 
  Cozinharam nas brasas umas beringelas, serviram antes uns aperitivos na eira, sentados no chão sobre tapetes, com o jardim em frente, mas para almoçarmos entramos para dentro da pequena casa térrea e eu escolhi a posição da cabeceira, donde podia ver e falar mais à vontade, tirando algumas fotografias da variedade de pratos. A irmã da Nasrin afadigava-se e a mãe também ajudou, mas também eu ajudei a levar os pratos e a transportar um sofá.
 
 Acompanhei as orações ao lado do cunhado de Nasrin, e pronunciei também uma minha, inspiradamente.
 
                                         
Depois do almoço discutimos e esclarecemos traduções possíveis de poemas do Gulistan com as duas irmãs e a Nasrin. Dei uma volta ao jardim e estive a explicar ao pai das três jovens como se devia podar as videiras, plantadas há dois anos, pois não o tinham sido, lembrando que a altura certa era Janeiro, Fevereiro. Arranquei várias vergônteas e expliquei a famosa arte “da poda”, que o Francisco do Gilde, Guimarães e depois um vizinho no Vale da Figueira, Agroal, Tomar, me ensinaram nos meus tempos de agricultor. Por fim, já na tarde, no terraço, ainda vieram uns pratos com morangos, servidos dentro de meloas cortadas ao meio e de forma ondulada, além de kiwis, laranjas e pepinos, tudo disposto muito artísticamente
 
 
 

                                       
À saída colhi umas rosas que estavam já muito desenvolvidas e ofereci às três filhas e à Nasrin, a mais velha delas oferecendo-me-a depois e por fim também a mais nova, dada a minha apreciação delas. Eram perfumadíssimas. A psicóloga segurou na rosa e aspirou a sua fragrância com delicadeza ou sentidamente, retendo-a depois consigo de um modo que me tocou como imagem e como estado de ser interior.
                                        
Deixada a mãe (com quem devia ter falado mais) e o irmão na casa de Nasrin (e que devia ter visitado, já que me perguntou se queria mas como já era tarde não senti tanta vontade), ela leva-me a visitar o monumento aos mortos ou mártires da guerra do Irão e do Iraque, junto a uma armação em ferro que serve para celebrações. 
                           Um povo marcado pela guerra, e com um culto aos mártires único no mundo
No centro desse espaço ajardinado, situado numa zona alta da cidade, estão cinco túmulos, sobre uma vasta plataforma de mármore, dedicados aos mártires desconhecidos.
 Algumas pessoas vão chegando e oram por eles a Deus, tocando com um ou com os dedos na tumba, algumas vezes, talvez como a transmitir-lhes energia, ou quem sabe testemunhando por eles perante Deus. É um gesto invulgar para a tradição ocidental, embora o gosto de tocar em tudo o que é sagrado seja uma constante no género humano.
 Será sobretudo um toque de amor, um sinal para o outro lado, um simples transmitir amoroso, assente sempre na ideia da comunicabilidade das forças anímicas, sobretudo entre seres que se amam, não importa as distâncias e intensificando-se com certos objectos ou relíquias?
         
Outras pessoas lêem orações, certamente do Alcorão. Uma jovem dos seus vinte e tal anos sai a chorar, provavelmente filha de um dos mártires. Ofereço uma das rosas perfumadas que recebera do jardim da Nasrin e medito e oro em seiza, sobre o mármore, diante de uma das lápides aos soldados desconhecidos. Sinto bastante força espiritual, um local sagrado, com certa comoção do heroísmo perpassando.
         Com a rosa, prestando a minha homenagem e enviando sentimentos-pensamentos luminosos..
 
Fotografo a cidade espraiada pelo horizonte, e um jovem vem ter connosco, talvez nos seus 40 anos, um ar fino e de certo sofrimento.
                    

 Entabula conversa com a Nasrin e eu aproximo-me, fotografo-o e pergunto o que diz e se esteve na guerra. Sim, e a sua grande tristeza é não ter morrido como mártir. Esteve um ano na guerra, mas queria morrer. Respondo-lhe que se Deus não o deixou morrer é porque queria que ele continuasse vivo.
 
 Ele persiste na sua lamentação e tristeza, tanto mais que morreram muitos amigos, mas eu explico-lhe que ele tem de aproveitar enquanto está vivo para crescer no seu coração espiritual e na sua compreensão do Universo e na sua consciência de ser um espírito luminoso. 
Incha-allah, Deus queira, replicar-me-á. Oferece-nos ainda duas notas comemorativas da guerra, emitidas por um banco, em estado novo, belas, de valor diminuto ou simbólico, que guardo.
 
 
Depois subimos ao cimo do monte perto da casa de Nasrin e com uma bela vista sobre a imensa Teerão, ao anoitecer. Sentamo-nos num banquinho com os pés no ar, junto a uma jovem que pergunta de que país sou. No caminho há ainda algumas fogueiras a acenderem-se para umas espetadas ou churrascadas, num ambiente alegre que atrasa a chegada da noite e envia belas vibrações de convivialidade até às estrelas que começam a despontar...  
Mas não nos detemos muito e seguimos para uma mesquita vizinha...
                                   Entradas purificadoras, sacralizadoras.... Amor a Deus, Allah...
 
 É a do Madhi, a daquele que virá e que é o 12º Imam (líder), oculto até agora. Bela, e ao anoitecer ainda mais sugestiva, separamo-nos à entrada, e eu fico pela zona posterior do interior, seguindo o ritmo de um fiel que adora à minha direita. Depois vem um homem, que se apresenta como tendo sido avisado da minha presença, e faz-me avançar mesmo na altura em que vão começar a oração, para as filas mais da frente.
                                 
                                 
Pego um selo-moeda de argila que estava no chão e aí vou eu fazer duas sessões de oração e ouvir a leitura de uma página do Alcorão, aconchegado na continuidade dos fiéis que por fim se apertam a mão e sorriem.
Alguns momentos belos, estes de comungarmos o Divino, em unidade com os outros, sentindo-se um pouco a milícia dos homens crentes tementes ou amantes de Deus…
                                       
À tarde recebera uma rosa da filha mais velha, e que depois foi oferecida por mim para os mártires da guerra. A segunda está comigo, deu-me a mais nova e tem um perfume fabuloso. Dozes vezes o aspiro ou respiro, na última vez já a oferecer a fragrância aos pais e antepassados, tal como no caminho de Santiago que fiz há alguns anos, nos seus 700 e tal quilómetros em 28 dias, e em que ao fim de alguns dias de peregrinarmos oramos já pelos antepassados mais antigos e as origens…
Ofereci às três irmãs três rosas do jardim encantado delas, fiquei com uma e uma delas ficou com outra, e contudo as rosas são eternas pelo menos enquanto houver Terra e Humanidade e continuarão a inspirar-nos e suavizar-nos… Não foi dito pelo profeta que a rosa é a flor de Deus? 
O coração humano é uma rosa divina, menos ou mais aberta...
 Assim vou-me preparando para deitar, pois amanhã começa um novo dia e bem cedo para poder visitar alguns aspectos da arquitectura antiga dos bazares, com umas pessoas de arquitectura. Já fiz agora sob as estrelas alguns exercícios e movimentos dinâmicos no terraço com vista sobre Teerão, bebi o chá de ervas iranianas e melhorei um pouco o artigo acerca de Saadi. Mas preferia falar na palestra sem ler o papel…
Já 1:02. Meditei com a revisão do dia, como recomendara às jovens irmãs, e relembro ainda ontem, no santuário Emamzade Davood, o fiel que veio ter comigo para mostrar-me, com a ajuda da tradução de Nadar Agahi, a árvore de descendência de Adão, que se encontrava esquematizada e afixada num desenho na parede, e apertar-me a mão sentidamente, não sei se também como pedindo-me desculpa de se socorrer de crença tão mítica e desajeitada para os nossos dias, para comunicar comigo e trocarmos as nossas vibrações no apertar ou cruzar as mãos com alma...
Lembrei-me então do aperto de mão que eu hoje fiz ao antigo combatente, com a alma semi-perdida na bruma dolorosa dos companheiros mortos, tentando passar-lhe certa correnteza espiritual e a mensagem: - Ergue-te, arranca-te do passado, sê criativo e feliz…
Um grande povo e país, que desejamos que se afirme luminosamente…

Uma Peregrinação Portuguesa ao Irão, 2013, (8º cap.), por Pedro Teixeira da Mota.

2 de Maio, 2013, Quinta-feira.Teerão.
Nader Agahi, o engenheiro agrónomo, chega de manhã a esta residência para investigadores onde estou instalado e, pouco depois, Nasrin Fagih, a professora universitária de Literatura que me convidou a vir ao Irão conferenciar sobre os poetas persas Hafiz e Saadi.
                           


Ele leva-nos no seu carro, ao santuário do Emamzadeh Davood, nas montanhas, a cerca de 80 quilómetros de Teerão, numa bela viagem com algumas paragens para desfrutarmos das vistas das montanhas e vales, povoações e neves e finalmente de um fabuloso e perfumado cerejal em flor. 
                                                 
                          
                  
Já dentro do santuário, que é antecedido por escadarias e um grande terraço, depois de termos admirado a profusão de espelhos ou vidros reflectores nas paredes e tectos escavados ou em abóbadas talhadas em degraus da mesquita a qual, albergando no seu santuário os restos mortais do santo, recebe ainda hoje muita veneração e pedidos dos fiéis, oramos, meditamos.





Nader Agahi explica-me junto ao mausoléu do santo (Pir Davoud, um neto de Ali e de Fátima), a zona mais sagrada desta mesquita, que segundo o Alcorão há três tipos de pessoas, conforme o modo com recebem as orientações religiosas: os primeiros procedem harmoniosamente com elas. Os segundos são os fanáticos de qualquer religião, que se tornam violentos com elas; e os terceiros são os que não acreditam e as menosprezam.
                         
Depois de considerar que as orações e prosternações islâmicas são uma forma compacta de se fazer exercício físico, adoração e meditação, diz-me em persa e em inglês as pequenas orações principais e ensina-me que as pessoas fazem pedidos e prometem como agradecimento o pagamento de cinco refeições a cinco pessoas que encontrarem no santuário, ou mesmo o sacrifício de um carneiro.
 Como ele me andou a industriar que é fundamental uma pessoa casar-se, mesmo com a minha idade, eu acabo por fazer dois pedidos, atando a fitinha verde ao túmulo: evolução espiritual e casar-me, de preferência com uma iraniana… 
Ele também ata de verde e faz o seu pedido, mas já está casado, e ainda mais feliz por estar para unir o seu filho com uma mulher muito apropriada (suitable) para ele, após a preparação que lhe ministrou nesse sentido, já que ele estava algo renitente…
Agahi tem uma grande fé neste Imam Zadeh Davood, que é um descendente do segundo filho de Fátima, e que foi martirizado com o seu escravo pelos adversários dos descendentes de Fátima e Ali. Explica-me que ele não foi tanto um homem santo mas sim um homem iluminado, com uma santidade activa e participando na vida social não de acordo com o seu querer mas com o da Vontade de Deus.
                                   
Como ele costuma vir todas sextas-feiras orar a este santuário, não foi preciso pagar numa espécie de controlo na estrada para parqueamento à chegada à aldeia, onde se viam algumas camionetas, com peregrinos, uns mesmo vindo do Afeganistão. Nasrin entrou pela porta das mulheres e teve outro acesso ao templo, enquanto eu e ele estivemos na outra zona.
                                               
A saída, vendo a caixa com os selos em argila ou terra terra com inscrições ou desenhos religiosos para serem usados nas orações, de modo a que a cabeça de quem se prosterne toque nele em vez de se apoiar no chão, perguntei a Agahi se podia escolher e levar um e dar uma esmola e ele achou bem. O que me disse mais pela sua forma e talvez mensagem foi um redonda com a caligrafia simples dos nomes de Fátima, Ali, Hasan e Husayn,(1), a família fundadora dos Shiitas, denominada os da Casa do Profeta. Virá comigo para Portugal e irradiará o que tiver de ser…                                              
                       
                       
Tirei algumas fotografias belas no interior da mesquita e no terraço à volta às pessoas, decorações e túmulo do santo, onde oramos.
                           
Atravessamos depois o resto da pequena aldeia montanhosa de uma só rua debruada de lojas, restaurantes e produtores de iogurtes, mel e biscoitos para subirmos um pouco pela montanha e podermos comer ao ar livre, com vista tanto para a montanha nevada e como para para o aglomerado de casas e o santuário, onde outros peregrinos abancados no chão do amplo átrio também convivem e comem. Ainda vimos passar dois homens regressando da montanha com uma colheita de alhos silvestres…
                                                   
                            
                            
                        
Ao descermos, sugeri atravessarmos de novo a bela mesquita, fotografando-a melhor, e no regresso a Teerão passamos ainda pela casa de Agahi, onde tomamos uma bebida quente e algumas bênçãos, seja da sua sala com tapetes e imagens religiosas, seja já no seu quarto com bastantes  livros religiosos de várias tradições, entre os quais, extâse dos extâses, os Upanishads mandados traduzir do sânscrito para persa pelo príncipe mogol Dara Shikoh, numa reimpressão de 1978, de Teerão, (2), que levei mais de uma vez à testa (para sorriso deles…), tal como o avô de Dara Shikoh, o grande imperador mogol Akbar, fizera quando os padres enviados da Goa portuguesa lhe ofereceram uma edição monumental bela da Bíblia, a Plantiniana, realizada em Antuérpia pelo sábio humanista espanhol Benito Arias Montano. E fotografei algumas das imagens de pinturas e gravuras antigas de Dara Shikoh, contidas no livro, já com a máquina de fotografar da Nasrin, pois na minha acabara a bateria.
Muitos calmos e prestáveis, Nader e Nasrin levaram-me ainda a um centro comercial moderno já em Teerão, igual aos do Ocidente, onde comprei uma camisa por cerca de dois euros e umas calças de fazenda por três. Mas quanto ao casaco acabei por ter de ir a um alfaiate e, após ter gostado de um já pronto, escolhi ainda um tecido azul condizente para as calças, comprometendo-se ele a talhar ou acertar o conjunto em três dias, ficando tudo muito barato. Assim já poderei apresentar-me em Shiraz e palestrar com melhor aspecto… 
 Foi um dia com bons momentos com a Natureza, em que pedi para pararmos uma ou outra vez para poder  admirar e fotografar as linhas de perspectiva de sucessivas montanhas e horizontes. 
 
 
 
 E além dos diálogos tanto divertidos como sérios com Nader e Nasrin, houve bons momentos de comunhão com o sagrado, mais forte quando encostei a cabeça e testa às grades de metal do santuário uns minutos, pensando nos pedidos e aspirando à ligação maior com Deus...
                     
 Notas:
1 - Do grande amor de Maomé e de Deus por   dirigido a Ali, Fátima, Hasan e Husayn, escorre um dito do profeta, ou hadit: “Eu estou em guerra com aqueles com quem vós estais em guerra e eu estou em paz com aqueles com quem estiverdes em paz.” Citado por al-Tirmidhi, no seu Kitab al-Manaqib, nº 3805.
2 - Eu poderia ter-lhe comprado os Upanishads e pagar-lhe um preço razoável, o que para ele deveria ser bom. Mas não me passou tal pela cabeça na altura, seja pelo tamanho volumoso seja por não o querer ofender, já que ele depois  provavelmente poderia até querer oferecê-lo.

terça-feira, 23 de julho de 2019

Uma Peregrinação Portuguesa ao Irão, 2013, (7º cap.), por Pedro Teixeira da Mota.

1 de Maio. Quarta-feira. Dia muito activo, agora passando mesmo já uma hora da meia noite. No Irão, foi o dia da Mãe e da Professora.  
Recebi de manhã pelas 11:15 a visita de Nader Agahi, engenheiro agrónomo que viveu profissionalmente 27 anos na Índia tendo participado na trágica guerra do Irão-Iraque (1980-1988). Conversamos bastante, em especial à volta da religião e do Alcorão e presenteou-me com um livrinho contendo a sua explicação dele.
 Agahi é um grande devoto das Escrituras Sagradas de todos os povos, que vê originadas ou enviadas por Deus através dos profetas. Deus falou em todos os tempos a todos os povos, e por isso devemos ler todas as Escrituras para termos a informação completa em vez de ficarmos acantonados, limitados ou até fanatizados numa só. Cita-me Buda, Confúcio, Rama, Krishna e Jesus, confessando a maravilha que foi para ele a descoberta e leitura dos Evangelhos, onde Jesus e o Amor surgem tão forte e claramente. 
                   
Diz-me isto com uma tal expressão na face e nos olhos que sinto bem como Jesus, ou o Amor divino, terá tocado este ser de outra seara ou mansão , a islâmica, mas tão aberto à verdade, bem de acordo com o que o mestre da Palestina declarou nos Evangelhos que recolheram partes do seu ensinamento: “onde dois ou três se reunirem em meu nome, eu estarei no meio deles.”
Gravei uma parte da conversa e ele dedicou-me o seu livro, The Last Sripture, a theocratic translation, que é uma teocrática tradução (acrescentada…) dos dois primeiros capítulos do Alcorão e em cujo prefácio vem as fotografias de três lutadores pela libertação do homem: o russo Karl Marx, o indiano Swami Vivekananda e o iraniano Ayatolah Khomeini, cada uma delas com uma citação significativa, sendo a do Imam Khomeini a de que “sempre que encontremos um problema vejamos qual é a palavra de Deus e ajamos de acordo”. E, esta “palavra”, Nader Agahi explica-a como sendo a de qualquer Escritura sagrada de qualquer religião, algo que alguns seguidores do autor da frase, o Imam Khomeini, não entenderão ou interpretarão tão alargadamente…
É por isso que Agahi publicou o seu livro do Alcorão alargado ou explicado, independentemente de receber autorização de um departamento oficial da religião e cultura, considerando mesmo que embora a democracia seja frequentemente um “demoniocracia”, também a “sacerdoteocracia” reinante em alguns povos ou áreas de religiões não é verdadeiramente a Teocracia que deveria orientar os povos, sendo esta assente ou dependente da leitura, conhecimento e valorização de todas as Escrituras e Religiões. Agahi considera o Islão a última e portanto a mais perfeita e completa.
Crê ainda que virá ou emergir do seu ocultamento o Madhi, o 12º e último Imam,(1) para limpar a atmosfera terrestre e purificar a Humanidade, abrindo caminho para Jesus vir instaurar o Reino dos Céus na Terra.
Porei em causa alguns aspectos das suas crenças e discursos, aceitando o amor, o bom senso, o sermos práticos e úteis, mas desvalorizando as escrituras tão cheias de patranhas e visões limitadas do Divino. Realização espiritual interna e maior abertura do olho espiritual são indispensáveis para o despertar interior e a melhoria da humanidade.
                      
Transcrevo para este diário, para maior fidelidade ao diálogo, uma parte da gravação realizada: 
N- A aproximação às religiões deve ser o que está expresso numa palavra: Bayena.
P. - Em que Sura do Alcorão está? - Está em todo o Alcorão. Deus diz lá, “Dei Bahena através de Jesus. “
P- Significa então bençãos? 
N- Vou dar uma história, para compreender Bayena.
 E mostra-a em Jesus quando ele quebra a lei de Moisés de não se poder trabalhar ao Sábado, para curar um doente, dizendo-lhe: “Vai, estás curado”. Os judeus zangados questionam-no “como é que és um profeta e seguidor de Moisés e não respeitas a Lei?” Jesus replica-lhes: Bayena”, e interpela então os que o criticam: “Quem é que tendo um burro e caindo ele a um poço ao Sábado vai esperar pelo dia de amanhã?” Sim, Jesus trouxe Bayena, o ensinamento de como utilizar o bom senso.
P- Então significa bom senso, ou seja, amar num modo prático e justo? - 
N - Sim, lógica básica.
P. - Logicamente, com compaixão, com justiça. E aspiração à fraternidade com os outros seres. E penso que isto, a irmandade, é também muito forte no Alcorão.
N- Oh, sim, Deus ensina muito no Alcorão. Se o começar a ler entusiasmar-se-á para lê-lo.
P- Tem razão, já li algumas partes mas tenho de o ler todo. Então qual é a sua ideia acerca do futuro ou como vê a evolução da Humanidade? - É um processo natural…
P. - Haverá mais gente mais pura, que lê o Alcorão ou os Evangelhos e torna-se melhor, ou haverá tanta confusão que as pessoas não sabem o que fazer? Qual é a sua expectativa?
N. - Também noutras Escrituras sagradas, além do Alcorão, tal como o Mahabharata indiano se encontra muita sabedoria [interrupção da gravação, mas conhecia a Bhagavad Gita, lera-a, achava excelente e ainda citou uma frase] (….) Jesus era um homem de mente aberta a Deus e não era uma pessoa dogmática.
P. - Então é um optimista quanto ao processo da humanidade. Tem esperança que Deus terá algumas pessoas a receber as suas bênçãos?
N.- Temos de ser realistas e não optimistas… Realista é ver que a humanidade segue os processos naturais. O homem nasce, vive e morre de um modo natural. E porque na Natureza não há orientação (guidance), Deus envia orientação, para a humanidade viver não só de um modo natural mas também de um modo sensível e civilizado. Similarmente, as Escrituras são dadas por Deus.
P - Lê todos os dias as Escrituras? 
N - Sim. Leio e li muito, estudo-as e estou a trabalhar nelas.
P - Então para si, mais importante do que orar, ou adorar ou meditar é ler as Escrituras e meditá-las? - 
N - Deus manda orar mas um pouco e não estar todo o dia. Ele quer que gaste o dia, não para orar, mas para manter a sua vida. Manter uma vida dignificada, uma vida justa e de serviço para os outros, resolver os seus problemas e os problemas dos outros. Isto é o que Deus gosta.
P - Então para ter força e ter discernimento para tal, é bom, como o Imam Komeini diz, quando tivermos dúvidas, ver qual é a palavra de Deus e agir.
N - Quando estamos num beco sem saída, ou um dilema, deve-se procurar qual é a palavra de Deus. E agir de acordo. E estar certo ou seguro que é correcto.
P - Então, de tempos a tempos devemos ir às Escrituras, para procurar a solução para os nossos problemas? 
N - Como é que podemos saber qual é a palavra de Deus? Porque nesse momento não podemos consultar todas as Escrituras. A nossa fraqueza não consegue descobrir a palavra de Deus. Então, em cada dia deve-se ler um pouco, seja uma página ou um verso. Mas façamos disso um hábito diário. Se é um cristão leia os Evangelhos, se é um islâmico leia o Alcorão, se for…
P. – Se for uma pessoa universal, leia o que quiser!
N. - Não, não, se é Cristão deve ler primeiro os Evangelhos, depois as outras. Se é um Islâmico lê primeiro o Alcorão. E depois as outras. Porque Deus diz: “Não és um crente senão lês as outras Escrituras.” E Jesus no Evangelho de S. João diz:”Tenho muito mais coisas para vos dizer, mas vós não tendes capacidade para comprendê-las. Alguém virá depois que vos explicará tudo o que eu não vos disse.” Os Cristãos têm de ler as outras Escrituras, tal como os Islâmicos têm de ler os Livros anteriores. Isto dará bom senso, e o seguir-se a religião de um modo correcto, construtivo e lógico  e não destrutiva e dogmaticamente.
P. – Certo. Quando eu estiver a ler o Alcorão lembrar-me-ei de si…»
Depois virá Nasrin buscar-me para darmos uma volta de carro por Teerão e almoçarmos. E seguimos para Book City Institute, onde converso um pouco na sala do director Mohammadkhani com um poeta que apresentará um seu livro com outras pessoas.
 
 
 
 
  E regresso a casa cedo, vendo sempre novos aspectos do belo  e arrojado urbanismo de Teerão, cidade "resguardada" a norte pela vasta e elevada mítica montanha de Alburz, ainda tão bela e purificadora com a neve em Maio:
 
Nota:
1- A partir de Ali, o marido de Fatimah, a filha do profeta Maomé, houve mais 11 Imãs (líderes escolhidos por Deus), que foram sendo conhecidos como os seguidores ou a família de Ali, donde vem o nome de Shiitas, os quais foram sendo assassinados pelos califas sunitas ou outros opositores. O 12º, Al-Madhi, para evitar ser morto, desapareceu, enviando algumas mensagens durante alguns anos e, por fim, ficou oculto. Crê-se, a partir de uns hadith, ou ditos, do Profeta Maomé, que virá no mítico  fim dos tempos ou, segundo alguns místicos e visionários, a qualquer momento para os fiéis que o invocam e merecem. Ao longo dos séculos houve alguns seres que se proclamaram o Madhi, outros apenas afirmaram que a qualidade do Imanato ou que a liderança divina estava neles. 
Em Portugal, no tempo do Al-Andaluz e de D. Afonso Henriques, houve um, o famoso governador de Silves Abû al-Kâsim Ahmad Ibn Qasî, que morreu em 1151 durante a sua luta contra a dinastia violenta almorávida, já depois de se ter proclamado Imam e Madhi, e ter gerado um movimento sufi e guerreiro, os Muridinos, ao estilo templário, sendo talvez por isso aliado de D. Afonso Henriques. Fora um dos mestres  de Ibn Arabi, um dos maiores místicos de sempre do Islão, o qual relata alguns aspectos da sua vida em livros, tais como As Iluminações de Meca, o Fusûs al-Hikam e num Comentário ao Descalçar das Sandálias, a obra sufi de Abû al-Kâsim Ahmad Ibn Qasî que lhe sobreviveu, autor que em Portugal tem sido  bem estudado e divulgado por Adalberto Alves.