quarta-feira, 24 de julho de 2019

Uma Peregrinação Portuguesa ao Irão, 2013, (8º cap.), por Pedro Teixeira da Mota.

2 de Maio, 2013, Quinta-feira.Teerão.
Nader Agahi, o engenheiro agrónomo, chega de manhã a esta residência para investigadores onde estou instalado e, pouco depois, Nasrin Fagih, a professora universitária de Literatura que me convidou a vir ao Irão conferenciar sobre os poetas persas Hafiz e Saadi.
                           


Ele leva-nos no seu carro, ao santuário do Emamzadeh Davood, nas montanhas, a cerca de 80 quilómetros de Teerão, numa bela viagem com algumas paragens para desfrutarmos das vistas das montanhas e vales, povoações e neves e finalmente de um fabuloso e perfumado cerejal em flor. 
                                                 
                          
                  
Já dentro do santuário, que é antecedido por escadarias e um grande terraço, depois de termos admirado a profusão de espelhos ou vidros reflectores nas paredes e tectos escavados ou em abóbadas talhadas em degraus da mesquita a qual, albergando no seu santuário os restos mortais do santo, recebe ainda hoje muita veneração e pedidos dos fiéis, oramos, meditamos.





Nader Agahi explica-me junto ao mausoléu do santo (Pir Davoud, um neto de Ali e de Fátima), a zona mais sagrada desta mesquita, que segundo o Alcorão há três tipos de pessoas, conforme o modo com recebem as orientações religiosas: os primeiros procedem harmoniosamente com elas. Os segundos são os fanáticos de qualquer religião, que se tornam violentos com elas; e os terceiros são os que não acreditam e as menosprezam.
                         
Depois de considerar que as orações e prosternações islâmicas são uma forma compacta de se fazer exercício físico, adoração e meditação, diz-me em persa e em inglês as pequenas orações principais e ensina-me que as pessoas fazem pedidos e prometem como agradecimento o pagamento de cinco refeições a cinco pessoas que encontrarem no santuário, ou mesmo o sacrifício de um carneiro.
 Como ele me andou a industriar que é fundamental uma pessoa casar-se, mesmo com a minha idade, eu acabo por fazer dois pedidos, atando a fitinha verde ao túmulo: evolução espiritual e casar-me, de preferência com uma iraniana… 
Ele também ata de verde e faz o seu pedido, mas já está casado, e ainda mais feliz por estar para unir o seu filho com uma mulher muito apropriada (suitable) para ele, após a preparação que lhe ministrou nesse sentido, já que ele estava algo renitente…
Agahi tem uma grande fé neste Imam Zadeh Davood, que é um descendente do segundo filho de Fátima, e que foi martirizado com o seu escravo pelos adversários dos descendentes de Fátima e Ali. Explica-me que ele não foi tanto um homem santo mas sim um homem iluminado, com uma santidade activa e participando na vida social não de acordo com o seu querer mas com o da Vontade de Deus.
                                   
Como ele costuma vir todas sextas-feiras orar a este santuário, não foi preciso pagar numa espécie de controlo na estrada para parqueamento à chegada à aldeia, onde se viam algumas camionetas, com peregrinos, uns mesmo vindo do Afeganistão. Nasrin entrou pela porta das mulheres e teve outro acesso ao templo, enquanto eu e ele estivemos na outra zona.
                                               
A saída, vendo a caixa com os selos em argila ou terra terra com inscrições ou desenhos religiosos para serem usados nas orações, de modo a que a cabeça de quem se prosterne toque nele em vez de se apoiar no chão, perguntei a Agahi se podia escolher e levar um e dar uma esmola e ele achou bem. O que me disse mais pela sua forma e talvez mensagem foi um redonda com a caligrafia simples dos nomes de Fátima, Ali, Hasan e Husayn,(1), a família fundadora dos Shiitas, denominada os da Casa do Profeta. Virá comigo para Portugal e irradiará o que tiver de ser…                                              
                       
                       
Tirei algumas fotografias belas no interior da mesquita e no terraço à volta às pessoas, decorações e túmulo do santo, onde oramos.
                           
Atravessamos depois o resto da pequena aldeia montanhosa de uma só rua debruada de lojas, restaurantes e produtores de iogurtes, mel e biscoitos para subirmos um pouco pela montanha e podermos comer ao ar livre, com vista tanto para a montanha nevada e como para para o aglomerado de casas e o santuário, onde outros peregrinos abancados no chão do amplo átrio também convivem e comem. Ainda vimos passar dois homens regressando da montanha com uma colheita de alhos silvestres…
                                                   
                            
                            
                        
Ao descermos, sugeri atravessarmos de novo a bela mesquita, fotografando-a melhor, e no regresso a Teerão passamos ainda pela casa de Agahi, onde tomamos uma bebida quente e algumas bênçãos, seja da sua sala com tapetes e imagens religiosas, seja já no seu quarto com bastantes  livros religiosos de várias tradições, entre os quais, extâse dos extâses, os Upanishads mandados traduzir do sânscrito para persa pelo príncipe mogol Dara Shikoh, numa reimpressão de 1978, de Teerão, (2), que levei mais de uma vez à testa (para sorriso deles…), tal como o avô de Dara Shikoh, o grande imperador mogol Akbar, fizera quando os padres enviados da Goa portuguesa lhe ofereceram uma edição monumental bela da Bíblia, a Plantiniana, realizada em Antuérpia pelo sábio humanista espanhol Benito Arias Montano. E fotografei algumas das imagens de pinturas e gravuras antigas de Dara Shikoh, contidas no livro, já com a máquina de fotografar da Nasrin, pois na minha acabara a bateria.
Muitos calmos e prestáveis, Nader e Nasrin levaram-me ainda a um centro comercial moderno já em Teerão, igual aos do Ocidente, onde comprei uma camisa por cerca de dois euros e umas calças de fazenda por três. Mas quanto ao casaco acabei por ter de ir a um alfaiate e, após ter gostado de um já pronto, escolhi ainda um tecido azul condizente para as calças, comprometendo-se ele a talhar ou acertar o conjunto em três dias, ficando tudo muito barato. Assim já poderei apresentar-me em Shiraz e palestrar com melhor aspecto… 
 Foi um dia com bons momentos com a Natureza, em que pedi para pararmos uma ou outra vez para poder  admirar e fotografar as linhas de perspectiva de sucessivas montanhas e horizontes. 
 
 
 
 E além dos diálogos tanto divertidos como sérios com Nader e Nasrin, houve bons momentos de comunhão com o sagrado, mais forte quando encostei a cabeça e testa às grades de metal do santuário uns minutos, pensando nos pedidos e aspirando à ligação maior com Deus...
                     
 Notas:
1 - Do grande amor de Maomé e de Deus por   dirigido a Ali, Fátima, Hasan e Husayn, escorre um dito do profeta, ou hadit: “Eu estou em guerra com aqueles com quem vós estais em guerra e eu estou em paz com aqueles com quem estiverdes em paz.” Citado por al-Tirmidhi, no seu Kitab al-Manaqib, nº 3805.
2 - Eu poderia ter-lhe comprado os Upanishads e pagar-lhe um preço razoável, o que para ele deveria ser bom. Mas não me passou tal pela cabeça na altura, seja pelo tamanho volumoso seja por não o querer ofender, já que ele depois  provavelmente poderia até querer oferecê-lo.

terça-feira, 23 de julho de 2019

Uma Peregrinação Portuguesa ao Irão, 2013, (7º cap.), por Pedro Teixeira da Mota.

1 de Maio. Quarta-feira. Dia muito activo, agora passando mesmo já uma hora da meia noite. No Irão, foi o dia da Mãe e da Professora.  
Recebi de manhã pelas 11:15 a visita de Nader Agahi, engenheiro agrónomo que viveu profissionalmente 27 anos na Índia tendo participado na trágica guerra do Irão-Iraque (1980-1988). Conversamos bastante, em especial à volta da religião e do Alcorão e presenteou-me com um livrinho contendo a sua explicação dele.
 Agahi é um grande devoto das Escrituras Sagradas de todos os povos, que vê originadas ou enviadas por Deus através dos profetas. Deus falou em todos os tempos a todos os povos, e por isso devemos ler todas as Escrituras para termos a informação completa em vez de ficarmos acantonados, limitados ou até fanatizados numa só. Cita-me Buda, Confúcio, Rama, Krishna e Jesus, confessando a maravilha que foi para ele a descoberta e leitura dos Evangelhos, onde Jesus e o Amor surgem tão forte e claramente. 
                   
Diz-me isto com uma tal expressão na face e nos olhos que sinto bem como Jesus, ou o Amor divino, terá tocado este ser de outra seara ou mansão , a islâmica, mas tão aberto à verdade, bem de acordo com o que o mestre da Palestina declarou nos Evangelhos que recolheram partes do seu ensinamento: “onde dois ou três se reunirem em meu nome, eu estarei no meio deles.”
Gravei uma parte da conversa e ele dedicou-me o seu livro, The Last Sripture, a theocratic translation, que é uma teocrática tradução (acrescentada…) dos dois primeiros capítulos do Alcorão e em cujo prefácio vem as fotografias de três lutadores pela libertação do homem: o russo Karl Marx, o indiano Swami Vivekananda e o iraniano Ayatolah Khomeini, cada uma delas com uma citação significativa, sendo a do Imam Khomeini a de que “sempre que encontremos um problema vejamos qual é a palavra de Deus e ajamos de acordo”. E, esta “palavra”, Nader Agahi explica-a como sendo a de qualquer Escritura sagrada de qualquer religião, algo que alguns seguidores do autor da frase, o Imam Khomeini, não entenderão ou interpretarão tão alargadamente…
É por isso que Agahi publicou o seu livro do Alcorão alargado ou explicado, independentemente de receber autorização de um departamento oficial da religião e cultura, considerando mesmo que embora a democracia seja frequentemente um “demoniocracia”, também a “sacerdoteocracia” reinante em alguns povos ou áreas de religiões não é verdadeiramente a Teocracia que deveria orientar os povos, sendo esta assente ou dependente da leitura, conhecimento e valorização de todas as Escrituras e Religiões. Agahi considera o Islão a última e portanto a mais perfeita e completa.
Crê ainda que virá ou emergir do seu ocultamento o Madhi, o 12º e último Imam,(1) para limpar a atmosfera terrestre e purificar a Humanidade, abrindo caminho para Jesus vir instaurar o Reino dos Céus na Terra.
Porei em causa alguns aspectos das suas crenças e discursos, aceitando o amor, o bom senso, o sermos práticos e úteis, mas desvalorizando as escrituras tão cheias de patranhas e visões limitadas do Divino. Realização espiritual interna e maior abertura do olho espiritual são indispensáveis para o despertar interior e a melhoria da humanidade.
                      
Transcrevo para este diário, para maior fidelidade ao diálogo, uma parte da gravação realizada: 
N- A aproximação às religiões deve ser o que está expresso numa palavra: Bayena.
P. - Em que Sura do Alcorão está? - Está em todo o Alcorão. Deus diz lá, “Dei Bahena através de Jesus. “
P- Significa então bençãos? 
N- Vou dar uma história, para compreender Bayena.
 E mostra-a em Jesus quando ele quebra a lei de Moisés de não se poder trabalhar ao Sábado, para curar um doente, dizendo-lhe: “Vai, estás curado”. Os judeus zangados questionam-no “como é que és um profeta e seguidor de Moisés e não respeitas a Lei?” Jesus replica-lhes: Bayena”, e interpela então os que o criticam: “Quem é que tendo um burro e caindo ele a um poço ao Sábado vai esperar pelo dia de amanhã?” Sim, Jesus trouxe Bayena, o ensinamento de como utilizar o bom senso.
P- Então significa bom senso, ou seja, amar num modo prático e justo? - 
N - Sim, lógica básica.
P. - Logicamente, com compaixão, com justiça. E aspiração à fraternidade com os outros seres. E penso que isto, a irmandade, é também muito forte no Alcorão.
N- Oh, sim, Deus ensina muito no Alcorão. Se o começar a ler entusiasmar-se-á para lê-lo.
P- Tem razão, já li algumas partes mas tenho de o ler todo. Então qual é a sua ideia acerca do futuro ou como vê a evolução da Humanidade? - É um processo natural…
P. - Haverá mais gente mais pura, que lê o Alcorão ou os Evangelhos e torna-se melhor, ou haverá tanta confusão que as pessoas não sabem o que fazer? Qual é a sua expectativa?
N. - Também noutras Escrituras sagradas, além do Alcorão, tal como o Mahabharata indiano se encontra muita sabedoria [interrupção da gravação, mas conhecia a Bhagavad Gita, lera-a, achava excelente e ainda citou uma frase] (….) Jesus era um homem de mente aberta a Deus e não era uma pessoa dogmática.
P. - Então é um optimista quanto ao processo da humanidade. Tem esperança que Deus terá algumas pessoas a receber as suas bênçãos?
N.- Temos de ser realistas e não optimistas… Realista é ver que a humanidade segue os processos naturais. O homem nasce, vive e morre de um modo natural. E porque na Natureza não há orientação (guidance), Deus envia orientação, para a humanidade viver não só de um modo natural mas também de um modo sensível e civilizado. Similarmente, as Escrituras são dadas por Deus.
P - Lê todos os dias as Escrituras? 
N - Sim. Leio e li muito, estudo-as e estou a trabalhar nelas.
P - Então para si, mais importante do que orar, ou adorar ou meditar é ler as Escrituras e meditá-las? - 
N - Deus manda orar mas um pouco e não estar todo o dia. Ele quer que gaste o dia, não para orar, mas para manter a sua vida. Manter uma vida dignificada, uma vida justa e de serviço para os outros, resolver os seus problemas e os problemas dos outros. Isto é o que Deus gosta.
P - Então para ter força e ter discernimento para tal, é bom, como o Imam Komeini diz, quando tivermos dúvidas, ver qual é a palavra de Deus e agir.
N - Quando estamos num beco sem saída, ou um dilema, deve-se procurar qual é a palavra de Deus. E agir de acordo. E estar certo ou seguro que é correcto.
P - Então, de tempos a tempos devemos ir às Escrituras, para procurar a solução para os nossos problemas? 
N - Como é que podemos saber qual é a palavra de Deus? Porque nesse momento não podemos consultar todas as Escrituras. A nossa fraqueza não consegue descobrir a palavra de Deus. Então, em cada dia deve-se ler um pouco, seja uma página ou um verso. Mas façamos disso um hábito diário. Se é um cristão leia os Evangelhos, se é um islâmico leia o Alcorão, se for…
P. – Se for uma pessoa universal, leia o que quiser!
N. - Não, não, se é Cristão deve ler primeiro os Evangelhos, depois as outras. Se é um Islâmico lê primeiro o Alcorão. E depois as outras. Porque Deus diz: “Não és um crente senão lês as outras Escrituras.” E Jesus no Evangelho de S. João diz:”Tenho muito mais coisas para vos dizer, mas vós não tendes capacidade para comprendê-las. Alguém virá depois que vos explicará tudo o que eu não vos disse.” Os Cristãos têm de ler as outras Escrituras, tal como os Islâmicos têm de ler os Livros anteriores. Isto dará bom senso, e o seguir-se a religião de um modo correcto, construtivo e lógico  e não destrutiva e dogmaticamente.
P. – Certo. Quando eu estiver a ler o Alcorão lembrar-me-ei de si…»
Depois virá Nasrin buscar-me para darmos uma volta de carro por Teerão e almoçarmos. E seguimos para Book City Institute, onde converso um pouco na sala do director Mohammadkhani com um poeta que apresentará um seu livro com outras pessoas.
 
 
 
 
  E regresso a casa cedo, vendo sempre novos aspectos do belo  e arrojado urbanismo de Teerão, cidade "resguardada" a norte pela vasta e elevada mítica montanha de Alburz, ainda tão bela e purificadora com a neve em Maio:
 
Nota:
1- A partir de Ali, o marido de Fatimah, a filha do profeta Maomé, houve mais 11 Imãs (líderes escolhidos por Deus), que foram sendo conhecidos como os seguidores ou a família de Ali, donde vem o nome de Shiitas, os quais foram sendo assassinados pelos califas sunitas ou outros opositores. O 12º, Al-Madhi, para evitar ser morto, desapareceu, enviando algumas mensagens durante alguns anos e, por fim, ficou oculto. Crê-se, a partir de uns hadith, ou ditos, do Profeta Maomé, que virá no mítico  fim dos tempos ou, segundo alguns místicos e visionários, a qualquer momento para os fiéis que o invocam e merecem. Ao longo dos séculos houve alguns seres que se proclamaram o Madhi, outros apenas afirmaram que a qualidade do Imanato ou que a liderança divina estava neles. 
Em Portugal, no tempo do Al-Andaluz e de D. Afonso Henriques, houve um, o famoso governador de Silves Abû al-Kâsim Ahmad Ibn Qasî, que morreu em 1151 durante a sua luta contra a dinastia violenta almorávida, já depois de se ter proclamado Imam e Madhi, e ter gerado um movimento sufi e guerreiro, os Muridinos, ao estilo templário, sendo talvez por isso aliado de D. Afonso Henriques. Fora um dos mestres  de Ibn Arabi, um dos maiores místicos de sempre do Islão, o qual relata alguns aspectos da sua vida em livros, tais como As Iluminações de Meca, o Fusûs al-Hikam e num Comentário ao Descalçar das Sandálias, a obra sufi de Abû al-Kâsim Ahmad Ibn Qasî que lhe sobreviveu, autor que em Portugal tem sido  bem estudado e divulgado por Adalberto Alves.

Uma Peregrinação Portuguesa ao Irão, 2013, (6º cap.), por Pedro Teixeira da Mota.

Dia 30. Terça-feira. 9:19. Sinto que o tempo passa mais lenta ou proveitosamente, ou dura mais, pois começara a meditar às 9:07 e agora pensei que já seria mais tarde, mas vejo que não foi tanto tempo fisicamente, embora psico-espiritualmente fosse bem mais longo [ou profundamente sentido], com a repetição dos nomes sagrados islâmicos, a respiração profunda e retenção do ar e, por fim, com o sentir a experiência ou descrição de Saadi, no início do Gulistão,  da "expiração como alegria sobre a nossa alma".
De noite despertei algumas vezes e tive vários sonhos; o primeiro, algo pesado, e em que pusera de novo (em relação aos dias anteriores) a cabeça na direcção sul, fez-me mudar para o norte e assim dormi melhor. Acordei às 4:33, para meditar bem numa hora auspiciosa segundo a tradição indiana, e depois às 7:44 e finalmente às 8:44, para me levantar definitivamente.
São 9:41. Na meditação, um fogacho de luz, uns dois palmos acima da cabeça, quando pensei na “Bem amada” dos ghazal de Hafiz como sendo a alma-gémea, e mandei-lhe alguns pensamentos de amor.
Novo dia pela frente, com sol e a temperatura a irem subindo (26,6%) e a humidade descendo (26%).
 A professora Shokoh Hoseyni vem e lemos do livro Gulistão de Saadi os poemas que eu escolhi como mais importantes para serem sondados e trabalhados.
Almoçamos em casa a lata de feijões com cogumelos que Nasrin e Kani ofereceram à chegada, com pão biológico integral lisboeta. 

Saímos às 15:15 de autocarro para o centro cultural Book City a fim de assistirmos a um colóquio, onde encontramos no gabinete do seu deputado director Ali-Asghar Mohammadkhani algumas pessoas conhecedoras e ligadas ao Irfan ou Sufismo, conversando com dois deles, um dos quais professor universitário e de olhar bem vivo, antes de se iniciar a primeira conferência, à qual assisto ao lado de Shokoh Hoseyni e da jovem estudante Nassim. 
Nassim fora avisada por mim de véspera e, ao aparecer, convidei-a para se sentar à minha esquerda, pelo que me traduzirá partes das intervenções, tanto mais que o seu inglês é melhor do que o de Shokoh, a qual provavelmente quis nestes dias, além de ajudar Nasrin e a mim, treiná-lo inglês. Shokoh, a meio, teve de sair e pude assim receber mais à vontade as breves traduções de Nassim.  
                      
          Mohammadkhani, director deste Book City Institute, e também ele autor, abre a sessão
                      
Falaram Mohammadkhani, o autor turco da obra sobre o Sufismo na Turquia e o tradutor para persa e mais três iranianos, um deles defendendo que o sufismo devia ligar-se ao poder político e influenciá-lo. Estranhei falarem tanto de sufismo e seu activismo quando no Irão oficial se valoriza mais apenas de Irfan, gnose, mística ou sobretudo como filosofia espiritual ou metafísica, já que o sufismo está associado a algum desprendimento dos deveres sociais, hoje mais fortes no Irão, até por defesa contra o bullying norte-americano, e tal diálogo e propostas foi um bom sinal do pluralismo religioso..
                        
No final, aberto o diálogo, a jovem Nassim sentada ao meu lado lança duas perguntas em iraniano, um homem outra e eu uma, em inglês, em duas partes: “Para si, que é verdadeiramente um conhecedor do Irfan, a gnose mística islâmica com mais de 1300 anos, e que tanto encontrou muitos mestres (pirs) como leu muitas obras, quais sãos melhores místicos, ou dervishes, ou pirs das tariqas, os autores que têm mais valor universal e não apenas dentro de um contexto de uma época, de uma cultura ou mesmo de uma subjectividade visionária. Ou se quisermos, tendo em conta que esteve a dizer que Irfan, ou  sufismo pode ser uma ponte entre as religiões, e que está presente em todas a religiões, as quais por vezes ficam algo limitadas e fechadas nos seus conceitos e práticas, quais  serão então os que pertencendo à mística islâmica podem ser mais facilmente aceites e compreendidos por todos?
A segunda pergunta é esta: como sabemos, os ensinamentos de Irfan, ou Taswaud, ou Sufismo têm como objectivo principais sermos bons e estarmos em amor com os outros, e sobretudo conhecermos e amarmos Deus. Ora conhecermos e amarmos Deus, ou estarmos mais próximos Dele, sabemos quão difícil é e por isso muitos mestres propuseram métodos de meditação e de respiração. A questão que eu lhe ponho será então a seguinte: de acordo com a sua experiência quais serão as mais importantes ou valiosas práticas? 
Por exemplo estou-me a lembrar do príncipe mogol do séc. XVII Dara Shukoh, que foi um importante mestre, e que realizou pioneiramente o encontro entre a mística islâmica e hindu, e que dava muito valor ao sultan-al-aksar, a meditação no som interior. Portanto, quais serão as metodologias ou técnicas vindas do Irfan e do Alcorão mais valiosas e praticáveis de modo a podermos estar mais próximos de Haquiqa, a Verdade e de Deus?
Retorquiu-me ele então: Para responder à sua questão muito valiosa, teríamos de estar uma ou duas horas para a respondermos em detalhe, mas quanto à primeira parte da pergunta, qual o meu escritor sufi favorito, dentro do contexto do diálogo das civilizações, culturas e religiões podemos encontrar muitos mas para mim é Rumi. Se traduzirmos ou lermos Rumi, não apenas como poeta, já que ele a usa como simbolismo, mas com os comentários que explicam o Masnavi, e as suas histórias. O meu segundo autor preferido é Hafiz, de Shiraz.
    Sheik Jalaloddin com outros sufis.  Masnavi-ye de Mowlana Jalal al-Din Rumi,     manuscrito iluminado de Tabriz, época Safavid, circa 1530. British Library.
 Quanto à  segunda parte da sua questão, acerca das técnicas de alguns sufis para conhecermos Deus, os sufis dizem “se te conheceres a ti próprio, poderás conhecer Deus”. Para ir para o conhecer Deus é preciso ir através do conhecer o homem. Insan-e-kamil é o Homem Perfeito e é um espelho de Deus. Ninguém viu Deus, ninguém, nem Moisés o viu. Ele viu Deus através do homem. Se vires o Homem Perfeito, então podes realizar quem é Deus. Não deves procurar primeiro técnicas, o que será errado, mas sim encontrar um Insan-e-kamil, um Homem Perfeito, um mestre vivo, que pode ensinar as metodologias correctas.
Há diferentes tipos delas. Eles olham para si e dizem: “precisas de tais nomes de Deus. Deve recitá-los (?) diariamente”. Mas tal não servirá para aquela pessoa ou aquela outra. Há um certo emendar, cortar, ou tecer especial para cada um, de acordo com a sua estrutura base. Não procure por uma tariqa ou confraria, tais como a Kalandaryya (originada no Al-Andaluz peninsular), a Mevlevi (de Mevlana Rumi) ou a 
Shattariyya (do sheikh persa Shattar). por exemplo. Não. Deve encontrar um Homem Perfeito e então sim, pergunte a que ordem, a que caminho ele pertence. Isso são apenas nomes, não é o que importa mais; o mais importante é a essência, a qual o Homem Perfeito já tem realizada e viva em si.
Três dos oradores no final, na livraria; ao centro, o autor do livro apresentado
                              
Já na livraria desta dependência ou filial da instituição cultural Book City, na sessão de assinatura de exemplares da sua obra sobre o Sufismo na Turquia e as suas influências políticas, apresentei-lhe a Nassim, que aproveitou bem a minha sugestão de vir assistir e que pode de novo interrogá-lo sobre o tema que mais lhe interessa, Pir-e-Mogen, o mago da taberna, o mestre zoroastriano, uma figura do sagrado não islâmico dentro da tão especial religião mística islâmica da Pérsia, e que fornece o vinho, ou o amor-sabedoria, o qual provoca o extâse ou a comunhão com o ser Amado, seja humano, espiritual ou Divino, tão desenvolvido ou citado  por Hafiz e Saadi...
Pergunto-lhe ainda: - Quantos Homens Perfeitos julga haver nos nossos dias, uns cinco a dez? E ele responde-me: - Talvez uns seis ou sete homens, já muito idosos. E Pergunto-lhe
então se tinha encontrado ou se estava ligado a algum, e ele replicou, sem se abrir demasiado, que tentava merecer tal…
O autor  é uma pessoa simpática, de boa aparência e consistência mental, ainda que haja um leve ego. É o representante mundial de uma série de grupos sufis. O tradutor, de camisa de xadrez, também denotava bastante paz interior, ou calma, discrição. 
Ao findar ainda pensei passear um pouco e conversar com Nassim, mas o táxi para me levar já estava contratado e eis-me a fazer uma viagem de regresso a casa passando por belos exemplares de arquitectura moderna iraniana, um deles bem flamejante com o pôr do sol, sinalizando e irradiando para quem estiver atento e sensível a tal.
 
 Chegar a casa e ir ao supermercado próximo comprar pão-tosta de sésamo e girasol, uma embalagem de ervilhas e outra de sementes de alfavaca germinadas, além de uma garrafinha de azeite e um pequeno chocolate em promoção, algo que num país com tanta tâmara e fruto seco senti depois ser errado…
Aproveito o tempo em casa para aperfeiçoar o artigo de Saadi, e para ler. Tenho de comprar um casaco pois toda a gente estava bem vestida menos eu, apenas de camisa azul. Sem internet desde que saí de Lisboa, eis-me afectivamente mais solitário, por vezes sentindo o amor a Deus ardendo e movendo-me em rotas peripatéticas pelo quarto.
Foi uma boa conversa a da manhã, com Shokoh Hoseyni, sobre Saadi, a situação actual no mundo e a resistência unida da nação, no Irão.
Já são 1:50 da madrugada e estive a trabalhar o texto sobre Saadi que partilharei na próxima conferência já marcada, numa Universidade em Shiraz. Tomo um chuveiro, e estou pronto para adorar Deus e envolver-me mais na sua Unidade, a qual, englobando todos os seres, obriga-nos a sermos mais diligentes…
Nota:

1 Insan-e-Kamil, o Homem Perfeito, ou o Mestre vivo, palavra persa e turca, um conceito e estado de perfeição explicado e glosado ao longo dos séculos por muitos místicos e sufis. Nur Ali Shah, que morreu em 1800, foi um deles, e no excelente livro que Michel de Miras lhe dedicou em 1974, com um prefácio de Henry Corbin, La méthode spirituelle d’un maître du Soufisme iranien Nur Ali-Shah, há um capítulo acerca do Insan-e-Kamil, onde Nur Ali Shah (via Michel de Miras) transmite a sua visão do ser que através da gnose e da visão se une ao Nome Total Divino e se identifica a Ele unificando ou reunindo em si os pares de opostos como rigor e misericórdia, pluralidade e unidade, não-ser e ser, ou fana (extinção) e baqa (permanência) em Deus. Assim o Homem Perfeito é tanto Profeta como Imam, participa dos Atributos divinos, em especial da Ciência (Ilm), o Poder (Qudrat) e Perfeição (Kamal) e age sem intenções egoístas mas pela Presença divina em si.