quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Tarot, arcano XIX, o Sol. Iconografia, psicomorfismos, significados, iluminações, realizações...


O Sol, XIX arcano, embora já presente em várias cartas de modo indirecto, emerge finalmente, após o arcano XVIII da Lua, na sua plenitude, dardejando raios, ritmos e frequências, gotas, partículas e prana  no Cosmos, na Natureza e em especial sobre dois seres, parecidos ou gémeos, que estão interligados num campo de maior incidência do influxo solar, qual alambique alquímico, recinto ou jardim delimitado, sacro.
É natural a relação com a constelação do signo dos Gémeos, por onde o Sol visto da Terra passa no mês de Junho, época anual em que a luz e o calor, com as suas funções intensificadoras e vitalizadoras são maiores. As poucas roupas, apenas um pano azul à volta da cintura, do par de jovens, quais crianças, parecem indicar não só a exaltação do calor como também a nudez e um estado de pureza, fraternidade e desprendimento. Ou ainda de inocência e graça irradiante: seres com o Sol vivo neles irradiante.
Poderá simbolizar ainda este par a nossa essência polarizada ou dual (masculina-feminina), impulsionando-nos a estarmos mais conscientes dos estados conscienciais de religação e união, dos quais teremos  vindo primordialmente e aos que podemos chegar, tanto interiormente como na vivência em sociedade  do amor inteligente, não-violento, fraterno e mais cooperativo do que o competitivo.
Nas numerosas versões do Tarot que foram surgindo este par, embora representado em geral por gémeos, também o é por um jovem e uma jovem bem diferenciados, esta com os dois seios à vista, na linha do arcano da Estrela e antecipando o arcano final, a mulher nua do arcano do Mundo, mostrando mais claramente a necessidade e importância da harmonia ou mesmo unidade entre as duas polaridades, feminina e masculina, tanto interna como externamente. Ora se a externa quase toda a gente procura, com maior ou menor empenho,  virtude e  fortuna,  já a harmonia interna, e nos seus níveis mais elevados, poucas pessoas chegam a demandar, intuir e realizar,  algo que até a própria relação amorosa deveria facilitar.
                                        
Nas versões do Tarot de Marselha, as que mais tempo vigoraran no imaginário europeu com pequenas diferenças, como a que já apontámos, vemos então quase sempre um ser com a mão direita sobre o ombro do outro, o qual tem a mão esquerda sobre o plexo (ou chacrasignificativamente denominado  solar, numa troca de energias e numa caracterização de um ser mais activo e emissor e outro mais receptivo, embora tal não seja a única leitura possível do fluir das energias entre eles e dentro deles. Podemos ver tal contacto entre os dois como um toque e circuito de cura prânica, de prana, em sânscrito, a energia vital do Sol e cósmica, considerando-se nas darshanas indianas e no Raja yoga de Patanjali ter  ele cinco diferenciações ou vayus no organismo humano: prana, apana, samana, udana e vyana, activas em certas partes e funções. 
 Em termos da linguagem alquímica simbolizará o equilíbrio do volátil mercúrio feminino com o seco e fixo enxofre masculino. Ou, mais simples e directamente, o amor solar e divino que une o homem e a mulher, e que nessa irradiação cardíaca e solar nos pode intensificar animicamente, de modo  a alcançarmos a percepção-intuição interna da unidade, do  espírito ou mesmo da luz da Divindade.
No culminar do avanço da alma por uma sucessão de dezoito arquétipos,  de certo modo num percurso heróico de individuação ou iniciático,  após a Lua, que já expressava  dualidades mais instintivas e inconscientes, chegamos ao XIX, Sol, que nos mostra de novo a dualidade, embora os dois seres já não sejam os animais sublunares que uivam mas seres humanos dotados da centelha solar, fraternos, numa dualidade mais unida, complementarizada, iluminada, seja exterior seja interiormente.
Indica este arcano a necessidade de meditarmos mais a questão da polaridade e até da polaridade divina inicial, de contemplarmos  os dois seres ou aspectos do Ser: masculino e  feminino,  yin e yang, activo e passivo, anima e animus, dentro de nós e fora de nós, para serem harmonizados, intensificados alquimizados pelo Sol Divino e seu fogo de Amor, o que exige  aspiração e virtude, esforço e suor...
Poderemos discernir neste arcano a metamorfose do sucessivo par ou dupla de polaridades, a que seguia ou obedecia ao Papa ou à Religião (arcano V), a dos Namorados ou da opção a fazer-se (arcano VI), a dualidade que era controlada pelo dinamismo  do Conquistador (VII), os opostos  presos pelo Diabo (XV), enquanto que agora no Sol (XIX) o par ou dupla finalmente despe-se de todas as roupagens, máscaras e seguidismos e reencontra e unifica-se, seja consigo mesmo seja com outro, tal o ser  amado, a alma-gémea ou mais afim, o Anjo, o Mestre, a Divindade interna...
O Tarot não foi desenhado e formulado para dar indicações ou significações taxativas, definitivas, como algumas pessoas pensam ou abusam na suas consultas, que complicam ainda pelas numerosas cartas que tiram,  mas sim para  transmitir símbolos, arquétipos e ensinamentos psico-espirituais que deveremos estudar, sentir, contemplar, meditar e vivenciar melhor. 
Quem quer aprofundar a riqueza ou as potencialidades do Tarot reveladoras de dinamismos psíquicos evolutivos  deve comparar as versões actuais com as mais antigas, para compreender melhor como é que o Sol ou o Espírito e as suas forças, funções e essência, foram assinalados e evocados na suas relações com a dualidade, com dois seres abraçados ou que se tocam e fortalecem, desejam ou amam.
Esta representação, quase que primordial em termos da genealogia dos arcanos, do Tarocchi Visconti-Sforza, mostra-nos um jovem anjo ou um génio sem vestes, apenas com um lenço grinalda a  envolvê-lo, sobre as nuvens e levando em cima da cabeça uma face flamejante, ou seja, o disco solar em forma de face Divina, remetendo-nos tanto para o espírito como sobretudo para a ideia de que o Sol é um Ser Divino, ou que o Sol é uma perfeita imagem da Divindade, como vemos nos cultos através de diferentes seres e nomes divinos do Sol ao longo dos tempos: Surya, Aton, Apollon, Helios, Febo, Mitra, Sol Invicto (bem trabalhado recentemente por Daria Dugina, a propósito do imperador Juliano, e que publiquei no blogue), Baco, ou no Japão, Amaterasu, certamente a divindade solar ainda hoje mais viva e cultuada...
Não encontramos nesta antiga versão do arcano do Sol a noção da dualidade ou do par de seres; ou a haver é apenas no ser representado,  enquanto corporal e celestial, já que a pessoa-anjo tem duas asas.  Todavia também na sua  relação com o Sol, podemos ver a dualidade do ser humano para com o Espírito,  o Sol, o  Logos ou regente  solar,  o Divino, com o qual se deverá unificar.
Outro ensinamento possível: o teu anjo da Guarda é o teu Sol interior, se olhares com amor para a Divindade e para ele poderás receber mais a luz divina ou mesmo contemplares o resplendor solar.
Com o Tarot de Marselha, e depois com os posteriores, passou a representar-se quase sempre (já que nas modernices actuais tudo se inventa) dois seres que se tocam sob o Sol, expostos às suas energias. Para além do  estado de Amor da harmonização da polaridade interior, deveremos  realçar  que o par de jovens diz-nos que qualquer encontro entre pessoas deve estar ligado à Luz e Amor do Sol e, para pessoas com consciência espiritual mais desenvolvida ou irradiante, tal conversa convergente ou relação unitiva luminosa é importante  de ser consciencializada e assumida.
Mas talvez o mais valioso encontro (ou a aspiração iniciática a ele) seja de facto entre a alma humana e o Sol Divino, o Espírito Divino Solar Primordial... 
                                                                 
No Tarot de Estensi, muito próximo do paradigma usado nas representações lunares da Idade Média e iniciais, é uma mulher que fia, que está sob o Sol. Fia lã ou linho, ou fia o fino fio seja da sua veste nupcial seja do destino da alma, o que se designava na Índia como sutratma, o tal fio ou cordão que liga e une os nossos veículos subtis através dos vários planos, tal como o mítico fio de Ariane no labirinto da vida, os mundos e níveis de Ser, os humanos e os Anjos, Mestres e a Divindade...
Noutra das versões mais antigas do Tarot, a de Ercole d'Este, encontramos um par,  um ancião e um jovem, em diálogo, numa clara imagem de ensinamento ou iniciação. Pode ser que a fonte seja o encontro de Alexandre com Diógenes, tão valorizado e trabalhado na Antiguidade e posterioridade, mas claramente assinala-se uma transmissão, unificação e circulação energético-consciencial que abrange o nível ético, psíquico e o espiritual, a qual apela ou atrai o Sol do Bem e da Verdade, ou que o manifesta e se realiza sob os seus auspícios.
A frase de Jesus, "onde dois ou três se reunirem em meu nome, eu estarei no meio deles", pode sentir-se fortemente nesta versão, o Sol da Verdade, do Espírito, da Divindade podendo ser invocado pelo diálogo ou abraço filosófico e iniciático de Fiéis do Amor, dos Cavaleiros do Amor, que entre nós na Tradição Espiritual Portuguesa, por exemplo, escritores como Damião de Góis, Jorge Ferreira de Vasconcelos, Manuel Faria e Sousa, Bocage, Antero de Quental, Jaime de Magalhães Lima, Leonardo Coimbra, Fernando Pessoa, Miguel Torga, Armando Martins Janeira Agostinho da Silva, Natália Correia e Dalila Pereira da Costa e outros e outras, de algum modo mais substancialmente foram e referiram.
Encontramos ainda outro paradigma da representação do arcano XIX, o mais simples e directo: o Sol, só, com oito raios...
     
                             Uma transmissão seca ou flamejante e directa: sê ou adora o Espírito solar.
Mas também vamos encontrar o Sol só, mas dardejando ou irradiando mais visivelmente sobre a Natureza, as árvores vivas. Com uma face solar, qual Apolo, Mitra ou Febo, derramando os seus raios e influxos luminosos sobre um jardim de quatro árvores, símbolo talvez dos seus efeitos benéficos na Natureza e da completude dos quatro elementos e quatro direcções, ou seja, o quaternário da matéria vivificado pelo Sol Divino...

                                                                

Imagem que nos relembra a importância da Natureza, toda ela dependente do Sol e transmitindo-nos as forças solares que recebeu e transmutou como alimentos, mezinhas, tão necessários de serem harmoniosos para fortalecerem o nosso sistema imunitário face   a industrialização exagerada, agricultura não biológica, os mísseis e guerras, os combustíveis fósseis, o aquecimento global e  o covid e as suas vacinas, na sua maioria muito pouco fiáveis quanto a inexistência de efeitos adversos, como tanto se pode ver em relatórios científicos publicados nos sites independentes do apertado e opressivo senão mesmo criminoso controle dos media e redes sociais, em que se destacam twitter e facebook...
Esta consciência é  muito importante nestes  dias da segunda década do séc. XXI, quando vemos várias autarquias municipais, começando na de Lisboa, e indo até à de Ansião, passando por Viana do Castelo, Figueira da Foz, Sintra, numa senha insensível de mata-árvores, por vezes centenárias. Ou os incêndios fatais (dado o desleixo no cuidar da floresta e a crónica falta de meios de prevenção, vigilância e combate, para além da mortífera eucaliptização do país, que deveria ser muito controlada),  e em que morreram já demasiadas pessoas. Outrora não era assim e os guardas florestais tinham um papel bem importante. Mas hoje parece que a prioridade são quase só urbanas e as polícias municipais dos grandes centros servem mais para proteger as obras, os parquímetros e as multas.
                                                          
         Celebrações, de há cem anos, de Festa da Árvore eram a primeira página nos principais jornais. 
A nossa demanda de esclarecimentos sobre o par de seres que se enlaça, comunica ou une sob os raios e glóbulos vivificantes do Sol e do Amor, as partículas e raios unitivos que o Sol do Amor Divino irradia permanentemente (ainda que tão pouco reconhecido) leva-nos a reconhecer que é uma carta arcano que impele-nos a  fazer a Aurora (a deusa Ushas, védica) em nós, nomeadamente nos momentos do nascer do-Sol oriental e do pôr-do-Sol ocidental (ou os solstícios e equinócios, com as suas danças e cantos) pois são ocasiões cósmicas de culto,  e comunhão energética e intelectual, espiritual  e divina, por vezes tão magnificadas pelas nuvens. No Japão, Kurozumi Munetada, um fundador de uma variante ou seita de Shinto, como na Europa os mestres búlgaros Peter Deunov e Omraam Mikael Aivanhov foram seres que desenvolveram  muito o culto solar espiritual, e transmitiram exercícios ligados ao Sol.
Uma versão do Tarot (na seguinte imagem, do Tarot parisiense de Noblet, de meados do séc. XVII) parece testemunhar bem a energetização poderosa do Sol no ser humano, pois vemos um jovem nu montando um cavalo branco, qual Kalki avatar da tradição indiana, quem sabe se já uma das fontes de ideias ressoantes ou psicomorfismos que circulavam no começo do Renascimento na bacia do Mediterrâneo, já então bastante mundializada desde a época de Alexandria, e que teriam sido foram recolhidas e sintetizadas no Tarot.
                                                              
A face mais guerreira e por vezes "façanhuda" do Sol, reflectida iconograficamente diremos até  no S. Jorge e na Cavalaria Andante, tão cultuada na Tradição Espiritual Portuguesa, nomeadamente por Jorge de Montemor e Jorge Ferreira de Vasconcelos e muitos heróis,  permite-nos equacionar diferentes níveis, frequências, qualidades e seres que se encontram simbolizados ou contidos potencialmente dentro da mesma imagem do arcano XIX do disco Solar e dos que sob ela estão expostos às suas influências e que nós, pelas nossas observações, assimilações e acções, poderemos então assimilar e coalescer.... 
O Tarot do ocultista, de final do séc. XIX, Arthur E. Waite, cuja desenhadora teve acesso ao Sola Busca italiano renascentista,vê no no Sol, e bem, a Luz supernal do Oriente Espiritual que guia a humanidade, e segue a linha do cavalo da alma natural guiado pela pureza da criança, numa imagem próxima da Tradição Espiritual Portuguesa, com a criança imperatriz do Mundo, tão desenvolvida por exemplo por Agostinho da Silva, no seu visionarismo utópico. Empunha a criança uma espécie de bandeira do Amor ou do Espírito Santo, a qual ainda, na versão acoriana,  no Congresso do Espírito Santo de Setembro 2016 presidiu às sessões em Alenquer no auditório do Damião de Goes, sábio humanista e erasmiano.
Em diálogo em tal colóquio soube mesmo que em algumas das localidades do culto no Brasil, para onde ele foi levado em força, a tradição das Cavalhadas ou do cavalo "avatárico" está ainda viva e que é ainda a bandeira um objecto muito sacro e a chave de transmissão dos eflúvios espirituais aos devotos, que a beijam ou se envolvem nela. E, provavelmente, alguns levá-la-ão depois ao vento do Espírito em si....
Sendo o Sol o centro do Sistema solar, numa mandala perfeita, e reflectindo-se tanto no microcosmos terrestre e humano, tal como vemos nesta versão do girassol heliotrópico, é bom ver, desenhar e contemplar tais mandalas solares.  E podemos adivinhar que algumas versões do Tarot mais modernas, e não tão tradicionais, terão desenhado e descrito ou intuído mais a riqueza imensa do Sol.
Procuremos então alguns desenhos ou pinturas recentes de arcanos atentos a tal e também aos destinatários ou recipientes dos seus raios ou energias, seja um par ou não, . 
Observemos o Tarot de Aleister Crowley, um mago inglês de extremos e bastante complexo e algo violento na gestão das energias, muitas vezes sem referência ou alinhamento voluntário ao "bem" e "mal" («ninguém sabe que coisa quer, ninguém conhece que alma tem, nem o que é o mal nem o que é o bem», lamentava-se Fernando Pessoa,  nos versos finais da Mensagem) e à Divindade, mas senhor de muita força e ironia, inteligência e conhecimento, e que bem impressionou e influenciou Fernando Pessoa aquando da sua passagem e estadia em 1932 por Lisboa.
O arcano do Tarot desenhado segundo os ensinamentos de Alesteir Crowley, um inteligente e audacioso mago e mistificador, e um tântrico da via esquerda e sem submissão à Divindade senão aos seus deuses (ou espíritos) mágicos e à sua própria vontade, conforme o seu voto Do what thou will shall be whole of the Law. Love is the law, love under will, está cheio de brilho e dinamismo e as duas crianças mais tradicionais estão  substituídas por duas jovens, quiçá em função dele próprio como sol-profeta-aeon dos grupos e ordens que animava. 
Mas a ideia das duas mulheres surge também noutros Tarots, até como reacção ao machismo e à dependência de representações de gémeos ou afinidades apenas sob forma masculina, algo que não tinha tanto sentido, tanto mais que na antiguidade as sacerdotisas existiam e que certamente no culto ainda mais antigo da Grande Deusa predominavam. 
Mais simples e directa esta versão moderna do Sol do Amor recebido em Graal por dois seres (e as faces poderiam estar melhor...) que se amam plenamente e que, na interioridade de um e do outro conseguem, mergulhar através dos seus vários chakras e olhos, numa solaridade unitiva sacralizante.
Esta versão moderna do Tarot  é das melhores quanto à apresentação do Sol de um modo mandálico e, portanto, mais pronto a propiciar na contemplação  efeitos valiosos dentro de nós. Escrevi sobre tal um artigo numa boa revista brasileira online, a Transdisciplinar, a pedido da terapeuta de arte e de mandalas Celeste Carneiro. E mais recentemente a artista Luama Sócio redigiu também um bom texto na sua revista digital Katawixi.
Os vários raios e cores do Sol, a sugestão que o Sol é um ser divino, aliás tão cultuado na Índia com tantos nomes e orações, em mantras, ritos e mudras, tais como os nomes solares de Surya, Ravi e Sundari,  e a oração Gayatri, e ainda a famosa Suryaya namaskar, a saudação ao Sol do Hatha Yoga, são outros meios de trabalharmos o arcano XIX podendo vermos a flor de lótus, tanto como  alma individual ou como os vários chakras ou centros de força abertos ao Sol espiritual.
Todo este conjunto de simbolizações tornam esta versão uma das melhores representações modernas mas seguindo linhas tradicionais.
Quem gosta da Astrologia,  trabalha com o Sol no horóscopo e suas casas, no Leão, e no fundo e meio do céu, certamente que sentirá também boas inspirações na contemplação e meditação deste versão, em que o Sol, como centro, irradia através das doze constelações. 
Assinala-se ainda a Árvore Cósmica e microcósmica como eixo do mundo (axis mundi), atingida e trabalhada pelos Gémeos, par ou casal. Uma boa imagem, arcanica,  para os seres em alquimia interior, em amor ou casados, meditarem e assimilarem e, ao longo dos meses, irem sintonizando e trabalhando, no interior e no exterior.
A versão designada como Sacred India Tarot é também luminosa, na sua simplicidade e inocência, com as crianças da polaridades brincando em espirais complementares, emergindo a relação tradicional do Sol com o ouro e sobretudo o ouro filosofal do Amor Divino, bem irradiado pelo fulgor sereno da face divina do astro-rei.
O Sol físico, subtil, espiritual e divino, e que é em nós tanto o Amor no coração como a Inteligência divina, nesta versão de muito difícil leitura, convida-nos a meditar e a aprofundar os enigmas dos sonhos, dos símbolos e do interior das pessoas, e é a esta procura da Verdade, bem como ao despertar desta luz dissipadora das trevas, dos medos e das ignorâncias que o Sol do Espírito, santo ou universalizante, apela e realiza em nós, por vezes mesmo como daimon ou  voz de consciência  que Antero de Quental tanto valorizava e recomendava a seus amigos mais espirituais, tais como Fernando Leal e Jaime de Magalhães Lima, numa tradição pitagórica  e socrática, pois o mundo anda bastante ameaçado por obra e desgraça de muitos seres e governos egoístas e insensíveis, mentirosos e destrutivos, cujo paradigma parecem-nos ser os Estados Unidos da América, Israel, a Ucrânia  e até já a própria direcção da União Europeia nazificando-se no seu ódio à Rússia 
Lutar pelo Verdade, pela Justiça, pelo Bem, nos vários níveis da vida é então dever e missão, Dharma nosso (swadharma), quando assumimos mais a ligação e natureza solar e espiritual, algo que todas estes trunfos ou imagens querem, ainda que nos avisem que o devemos fazer com conta peso e medida, sem hubris, e por isso algumas versões do Sol, nomeadamente a bela de Andrea Mantegna, mostravam Ícaro caindo do carro do Sol conduzido por Febo.
Terminemos com a nossa profunda reverência ao Logos Solar, à Divindade do Sol, sem podermos acercar-nos (pelas limitações de linhas do texto...) das iconografias solares masculinas de Apolo, Hélios, Baco e Mitra, tão belas, ou as egípcias e cristãs, mas partilhando uma rara, a da Divindade feminina do Sol, Amaterasu Omikami, do Japão. Que ela possa enriquecer os psicomorfismos solares das mulheres portuguesas e outras, e dos homens, na busca da unidade...
Certamente que uma das melhores forma de terminarmos esta nossa demanda-oração-meditação-escrito sobre o Sol do Tarot, e que nas tiragens significa sempre luz e  força, será ainda apresentá-lo tal como ele é fisicamente embora não o vejamos assim, para que tenhamos, com humildade, mais aspiração de contemplar os seus níveis espirituais e divinos, nas suas energias e seres celestiais, que de novo saudamos e cultuamos com nosso coração e ser...
Se  quisermosestar mais em sintonia com o Sol, o Espírito, a Divindade e a Tradição Espiritual Portuguesa,  porque não interrogar-nos sobre o sempre e misterioso e arcano do Espírito Santo, do qual foi dito que era ou é o Amor que une a Fonte e a manifestação, o Pai (ou Pai-Mãe) e os Filhos e as Filhas, espíritos celestiais e espíritos humanos, mas que é também o Espírito, divino, em nós?
Talvez então sintamos e reconheçamos mais o Sol como Fonte de Vida (e da vitamina D, tão essencial) e de Amor, e um meio e  sacramento (qual arquétipo da hóstia ou do sopro)  a ser comungado ou sintonizado  diariamente para nos fortificarmos ou harmonizarmos nas forças químicas, vitais e espirituais que dele descem sobre o corpo, alma, Espírito e ambiente ou campo...
Seja mais o Sol, face a todas as oposições à luz, ao amor e à harmonia justa e multipolar!
Seja hoje mesmo, muito, um Sol da verdade corajosa e amorosamente!
Quantas vezes irradiará mais conscientemente o sol do espírito ou do amor no dia de hoje? 

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Tarot, Arcano XVIII, a Lua. Vídeo, ou breve Satsang, improvisado em 18/10/2016

Contributo gravado em vídeo, para o estudo e sintonização dos ensinamentos e realizações do arcano XVIII, a Lua. Anote-se que no blogue está um estudo bem maior consagrado a  este arcano.
A Lua renascentista, Diana caçadora, é também a anima ou alma destemida, ou seja, com animus...

      "O que está em cima é como está em baixo", ou a contemplação do Cosmos no interior.
A mulher, a sensibilidade, como Alma do Mundo, tudo unindo amorosamente. 
        Por entre a variedade do que tudo acontece, discerne as fases da Lua, ou dos sentimentos que passam através de ti, e imagina e age unido a ela enquanto reflectora da sabedoria e do amor do Espírito e da Divindade.
Se queres aprofundar a tua alma sintoniza-a mais com a Lua nas suas faces de mais ou menos luz e que o teu caminho seja, mesmo nos minguantes e nas trevas da vida, sob uma noite luminosa e sempre harmonizante...

                                                 Vídeo...
                   

Arcano XVIII - A Lua. Versões, significados, inspirações, ensinamentos.

                                 
Nas representações mais antigas do Tarot, tal como nesta imagem proveneiente do baralho Visconti Sforza, contemplamos uma mulher que segura uma Lua em quarto crescente numa mão e, na outra, uma corda ou rédeas, provavelmente sugerindo ser Diana, a controladora dos animais selvagens e da seiva da natureza, tal como podemos ver noutra versão antiga,  talvez para impulsionar a mulher a ser mesmo anima, alma animada e com ânimo, o animus do espírito... :
Em verdade a Lua, sendo um satélite da Terra, embora  à distância de 384.400 km,  com o ciclo de rotação de 28, 29 dias e a  sua esfera de influência gravitacional, exerce influências fortes em especial sobre a água, os líquidos, os ritmos de crescimento, a fecundidade, a vitalidade, a emotividade, a criatividade e a religiosidade, gerando por exemplo a inspiração exaltante da Lua Cheia, quando o máximo de luz solar-lunar chega por ela à terra e aos seus seres...
Mas também é símbolo da Mulher em si mesma (o Sol, que virá na carta seguinte XIX, sendo o Homem),  e também da Deusa, a Face Feminina da Divindade sentida próxima, adorável e epifanizada numa série de Deusas ao longo dos tempo, das quais, nomearemos apenas, e cada uma com as suas especificidades, Ísis, Cibele, Selene, Artémis, Hécate, Diana, Luna ou ainda a Chandra, indiana e a  Atégina nossa, lusitana, e a Ceridween e a Arianrhod, celtas.
                             
Como a acção do Sol e da Lua na Natureza foi sentida desde cedo pelos agricultores, e os astrónomos e astrólogos assinalaram as suas influências possíveis, um saber arcaico chegou até aos tempos do começo da impressão tipográfica, surgindo de modos simples em vários almanaques, tais como os famosos Calendários dos Pastores franceses, e entrando também em algumas versões do Tarot. A capacidade da Lua influenciar a Terra nos processos naturais  era  reconhecida e tida em conta não só para as sementeiras e diversas actividades agrícolas e rurais mas também pelas pessoas quanto à inspiração, menstruação, tratamentos e cura de doenças,  crescimento, projectos e começos de viagens.
                             
Também os poetas e poetizas, trovadores, artistas, amantes e Fiéis do Amor - que todos nós somos, já que somos dele (Amor Divino) provenientes e à sua maior plenitude aspiramos - souberam fazer sair as suas águas-energias das estagnações e incandesceram-nas e elevaram-nas,  nomeadamente na Lua cheia, em  criatividades, dialogantes amores e  busca da Unidade mítica e íntima do homem e da mulher, do Sol e da Lua, da alma individual e da Anima Mundi, e do ser humano com as influências espirituais e divinas...
                           
Nos aspectos mais subtis sentiu-se a sua influência nos sonhos, e até nas possíveis viagens astrais,  quando a consciência energético-espiritual se expande ou sai e, mais ou menos desperta em relação ao corpo físico adormecido, interage com impressões, memórias, energias, campos de forças e outros seres, o que pode acontecer nas noites mais intensas, movimentadas ou profundas da Lua Cheia, em especial para as pessoas mais sensíveis ou mesmo as femininas. Mas está pouco estudada e divulgada a influência das fases da lua nos sonhos...
                         
Esta relação da Lua com o inconsciente e subconsciente (até por contraposição ao Sol racional do consciente), ou seja, com a sensibilidade mais íntima, com as energias e águas do passado, que podem ser vistas como movidas por pás de moinho subtis e lentas e  pouco consciencializadas, se for mais trabalhada pela atenção e o culto dos sonhos,  a meditação, estudos e diálogos convergentes, pode permitir a emergência de informações ou conteúdos psíquicos que desconhecíamos e que afloram então em sonhos ou visões. Sabemos como Carl G. Jung deu bastante importância a essa via de exploração do inconsciente, com um objectivo terapêutico e de individuação pessoal.  Algo disto foi assinalado na imagem deste arcano XVIII do Tarot que foi até denominado "Vidas Passadas", uma afirmação que devemos tomar com cautela pois quase sempre são apenas forças anímicas a que temos acesso e que, tendo estado presentes noutras épocas da Humanidade, estão agora em nós, e não sendo portanto vidas passadas individuais nossas, como muitas mistificadoras e dispendiosas regressões tendem a fazer crer...
                            
Nesta versão antiga dos Tarot de Marselha, o que se tornou o mais clássico e de certo modo arquétipo no inconsciente colectivo da Humanidade e dos estudiosos e consultantes do Tarot, vemos os raios do Sol, partículas, gotas ou lágrimas  (até interpretadas como de Ísis), ou ainda pérolas, da Lua a derramarem-se e a estimularem a Natureza a movimentar-se e a comunicar, influxos que penetram  nas águas,  e   está representado um lago com água de cor azul e nela um caranguejo a nadar ou com as patas para a Lua. Estas águas são também as do interior  e profundezas do seres, e os raios lunares podem trazer ao de cima aspectos instintivos intensos ou ainda conteúdos menos agradáveis, conhecidos, reprimidos ou controlados, tais como traumatismos, medos e  identificações limitadoras, mas que devemos enfrentar e ultrapassar sentindo-os nos sonhos e clarificando-os ainda pelas meditações, catarses e consciencializações adequadas. 
 
A progressão dos planos na carta é significativa: no mais baixo e fundo, a água azulada, com o caranguejo, depois a terra com dois tipos de animais próximos dos cães e que tem a boca aberta, com as línguas esticadas para captar certamente algumas das gotas pintadas em três cores (e estão 19 desenhadas talvez em relação ao arcano 19, o Sol), emanadas da Lua. No  horizonte da terra, erguem-se duas torres, que podem ter também relação com a torre do arcano XVI, e sugerindo que os ritmos e ondulações naturais são verdadeiramente a melhor forma de harmonização e de reconstrução. E estes ritmos estão patentes na parte superior e celestial, com as gotas raios e a Lua cheia, com uma face humana no interior saindo de uma lua crescente...
                                    
Houve alguns exegetas do Tarot que pensaram serem as gotas mais das energias vitais que a Lua absorveria de nós, atribuindo assim a este arcano XVIII qualidades negativas, ilusivas e maléficas, associando-a por exemplo à deusa grega Hécate, uma filha dos Titans, que com o tempo, a partir da sua participação no mito de Perséfone, teve múltiplas  associações com a noite, os mundos dos mortos, o psiquismo semiconsciente e sombrio, os caminhos nocturnos, algo que esta carta de certo modo poderia aludir. Este Tarot apresenta a Lua trifronte, imagem tradicional na Antiguidade e na sua mitologia, nomeadamente pelas suas fases de crescimento, plenitude e diminuição ou envelhecimento,
                              
O possível aluamento do ser, o andar algo aluado por entre o quotidiano dispersivo ou opressivo, esta osmose maior de quem contempla a Lua e cultiva a sua poesis, a sua dicção sentida e profunda, órfica nos efeitos interiores e nos céus dos sentimentos e sonhos, surge então bem retratado nesta imagem da nossa Dona Lua voadora, seja ela própria, seja algum de nós mais "lunificado"...
A Lua no Tarot de Ercole I d'Este
Esta  atenção maior às fases e progressões da Lua nos quadrantes celestiais foi então cultivada, pois, após estudos aturados e já antigos,  verificavam-se influências na Terra, que podemos registar inconscientemente na alma ou mais conscientemente, como nesta versão dos Tarot primordiais do séc. XV, em que o receptáculo ou reflector da Lua é já o astrólogo-astrónomo.
                                 
 Foram-se desvendando então melhor os efeitos das fases da Lua  nos processos orgânicos da Natureza, nas plantas e nos seres humanos, cabendo destacar neste sentido os contributos enriquecedores já no séc. XX da medicina antroposófica e da agricultura biodinâmica, desenvolvidas por Rudolfo Steiner e seus companheiros, tais Wilhelm Pelikan, autor de um importantíssimo livro sobre as plantas e seus aspectos subtis, L'Homme et les Plantes, ilustrado, ou ainda Franz Lippert.
                         
 Estes efeitos intercomunicantes entre todos os corpos e seres terrenos e celestiais  podem ser vistos de facto subtilmente ainda  no  reino dos espíritos da Natureza, das fadas, gnomos, duendes, elfos, sílfides  e ondinas, os seres elementais, e com quem pouco conseguimos interrelacionar-nos conscientemente, certamente por razões da Ordem evolutiva...
                            
 O reconhecimento da natureza reflexiva da Lua perante o Sol, ou ainda o do cérebro humano perante o mundo subtil e espiritual, convida-nos a meditar e contemplar  as amplas esferas ou orbes celestiais, interna ou externamente, onde Dona Lua é a mais próxima da Terra e simpatizável, embora pela sua mobilidade, dentro dessa correspondência psico-cósmica, nos possa iludir nos sentimentos e crenças que geramos já que quase sempre não sentimos ou vemos o interior, a verdade, a essência mas apenas reflexos mutáveis...
                    
Quem não sentiu já o amor por Dona Luna, aqui assinalada na sua tradicional ligação ao maternal, sentimental e doméstico signo de Água, o Caranguejo, abrindo-se à sua aura nas noites mais planetárias, ou seja quando brilha plena e belamente?
Ou já nesta versão, tanto mais que na tradição popular espiritual
Portuguesa o animal que mais se avistava imaginativa e popularmente na Lua era o prolífero e pacífico Coelho ou Lebre, com ela em simpatia...
                        
Terminemos esta nossa aproximação menos detalhada e alongada (já que fizemos uma gravação, audível no Youtube: http://pedroteixeiradamota.blogspot.pt/2016/10/tarot-arcano-xviii-lua-breve-satsang.html) a uma série de imagens e sentidos do arcano XVIII da Lua, com duas lâminas e imagens, uma que apela a mantermos a nossa aura sempre em conexões sensíveis, artísticas e luminosas com Dona Luna, tanto no alto como no fundo potencial da nossa alma-aura, na sua capacidade de brancura e pureza, reflectora do Sol do Espírito e espelho transparente e comungante com os outros seres e a realidade.
                             
Esta outra versão estimula-nos a avançarmos desprendidos de tudo, nus como o vento (tais como os antiquíssimos shramanas e os digambaras na Índia), por entre as sombras e crepúsculos (e lembrarei, com este título http://pedroteixeiradamota.blogspot.pt/2017/07/o-mais-belo-poema-de-amor-de-antero-de.html:), e a tentarmos estar e ser conscientes do nosso Ser na sua identidade de Espírito, seja em si mesmo seja já nas ligações superiores, no caminho ascendente, tal o de Dante guiado por sua mestra e amada Beatriz até ao centro do sistema solar e do Amor Divino...
                               
Avance então por entre as mutabilidades, ilusões e desilusões, firme na aspiração à Luz, reflectida ou directa, cultivando os fios e ligações superiores e certamente a Dona Luna, Face Feminina com mil Faces (entre as quais por vezes até por momentos a sua...) da Divindade, a inspirará e fortificará sempre, pela Natureza ou pelo seu mundo anímico interno...
E para quem gosta de consultar o Tarot com tiragens, tente aumentar o grau de probabilidade de fiabilidade da consulta, sintonia, intuição ou recebimento tirando poucas cartas, uma ou quatro (a tradicional, em cruz) no máximo, não em superficial "comercialice" mas após certa concentração e oração, sagradamente, amorosamente, capaz de atingir uma certa abrangência consciencial do passado-presente e futuro, ou seja, uma entrada maior no Campo unificado de consciência energia informação, numa aspiração a conhecermos e a fazermos melhor a Vontade do Bem Comum e da Divindade...

domingo, 16 de outubro de 2016

Tarot XVII. A Estrela. Significados do arcano, consciencializações energético-espirituais.

                                                                  
O arcano XVII da Estrela foi e é compreendido e desenhado na simbólica do Tarot como um dos mais benéficos ou inspiradores sendo representado em geral por uma mulher desnuda, ou semi-nua, derramando através de dois vasos (em geral de cores diferentes) energias ou água para um rio ou lago, com uma ou mais estrelas brilhando sobre si, num céu aberto e brilhante. Se o derramar na natureza  exterior é simbólico de uma correspondente operação no domínio anímico interior parece natural, pois os arcanos do Tarot visam sempre um trabalho interior e baseiam-se nas correspondências dos vários planos ou níveis da vida humana e do Universo... 
Encontra-se vizinha de vegetação verdejante e de uma ave, no caso uma coruja ou mocho (ou ainda o orientador corvo alquímico, presente até no S. Vicente moçárabe e lisboeta), associada desde tempos imemoriais à sensibilidade intuitiva oculta, nocturna e silenciosa; e os misté, os iniciados dos mistérios greco-romanos, eram os que sabiam aprofundar o silêncio, em especial da noite, ligando-se ao mundo interior e espiritual e eventualmente colhendo o orvalho dos sinais e das bênçãos divinas. Coruja (ou mocho) associada à deusa grega, Atena,  a da Sabedoria, e da qual derivou, ou corresponde, a Minerva romana. 
Apesar das raízes greco-romanas, além das cristãs, do Tarot, que foi uma criação de artistas humanistas no começo do Renascimento na zona italiana,  na maioria  das versões não vemos a coruja da deusa Atena mas simplesmente uma ave, talvez  até como símbolo da alma-espírito e da sua capacidade tanto de voar como de inspirar,   pousada sobre um florescimento vegetal, arbusto ou árvore, indicando a necessidade de uma constante  harmonização da alma na sua aspiração evolutiva, ou seja, de melhoria de realização espiritual, tarefa por vezes difícil quando as pressões profissionais, os meios de informação, a oligarquia e os ambientes e as pessoas não ajudam e antes manipulam, desequilibram ou mesmo oprimem  a capacidade de visão justa e discernimento...
Através da simbologia do arcano da Estrela intuímos e evocamos a  participação ascensional humana na primacial dimensão benéfica e amorosa da Vida no Cosmos manifestada por uma mulher benfazeja interagindo tanto com os elementos da Terra e da Água, derramando e partilhando as energias vitais e fertilizadoras, como com o  Ar cálido e ainda o Céu ígneo de estrelas ou sóis de diferentes dimensões, projectando-nos para o Infinito das galáxias e para os mundos subtis e espirituais, com os seus seres, influxos e bênçãos celestiais. Hoje conhecem-se bem melhor as extensões e agregações macrocósmicas e microcósmicas materiais, energéticas e quânticas  do que as dimensões interiores psico-conscienciais, apesar dos progressos da união das neuro-ciências e as práticas meditativas e de  haver tanta gente   a escrever sobre tal e a ensinar, embora frequentemente com insuficiente experiência real sobre tais aspectos esotéricos ou mais interiores e subtis do ser humano...
Este arcano relembra-nos então que somos um pequeno Microcosmos do grande Macrocosmos,  em unidade ou num campo unificado de energia-consciência, e com responsabilidades de intermediarização, mormente a mulher, mais dotada de sensibilidade e de amor, quando mãe quase incondicional nessa potencialidade unitiva e abnegada, e por isso escolhida  para simbolizar a transmissão harmonizadora, nela tanto inata como voluntária,  de energias e ondas, sentimentos e forças do Amor. Para que num mundo demasiado oprimido por  elites e corporações tão egoístas e criminosas, as sementes luminosas da Paz, do Amor e da Esperança não esmoreçam e se apaguem, mas antes floresçam e frutifiquem pela nossa acção persistente, corajosa e criativa, e em especial quando conflitos fortes deflagram e nos envolvem subtilmente a todos....
                                         
Como os arcanos do Tarot devem ser contemplados ou lidos também na relação com os outros arcanos e nos seus vários planos de manifestação, nomeadamente no literal ou físico, no energético, no psíquico ou mental, no espiritual e no divino (numa classificação quinária, embora também se possa fazer a tripla: corpo, alma e espírito, - e a septenária, como entre nós Fernando Pessoa mencionou), podemos dizer que este arcano XVII está mais relacionado com o XIV da Temperança e a sua Mulher-Anjo-Deusa, em ambos se apontando para uma harmonia nos vários níveis do nosso ser.
Mostra-nos a Estrela que, mais consciencializados e caldeados os tradicionais Cinco Elementos, atingida certa maturidade pelo confronto da alma luminosa e alada com os instintos, a dor corporal e sentimental, a ascese, o mal e a adversidade, o ser está mais purificado, espiritualizado e unificado no seu interior, nomeadamente quanto às suas polaridades e conflitos, e pronto tanto para ver e receber como para irradiar e derramar  energias luminosas, seja físicas, psíquicas, espirituais e celestiais para os outros seres em múltiplos níveis ambientais...
Isto acontece no fertilizar e harmonizar, desde a Natureza e os seus eco-sistemas (hoje a precisarem tanto de protecção ecológica,  da agricultura biológica e da biodinâmica, como de admiração e amor), até às pessoas, grupos e sociedades, também frequentemente carentes de valores e de energias saudáveis e iluminativas, tão submersas pelas lavagens aos cérebros de governos, grupos de pressão e "medias", o que se tem acentuado muito a partir do vírus de 2020, com a sua carga inaudita de atemorização, sofrimento, desânimo, falências e mortes (e mais recentemente com o conflito  entre a Rússia e a NATO, USA, Ucrânia e UE, ou entre os povos do Médio Oriente e Israel e Ocidente, que todos desejamos que terminem rapidamente e a contento justo de todos) e a não menos grave lesão cerebral e anímica causada pelos noticiários televisivos na sua impressionante quantidade de informação-desinformação-formatação-aniquilação  debitada, em muito ultrapassando já a distracção, juvenilização ou mesmo alienação da bola, do exagerado culto do futebol.

                                        
                         Vasos, bilhas,  chakras bem abertos ao alto, à Estrela, ao Cosmos... 
Interiormente ou psiquicamente podemos ver nesta mulher transparente e benéfica tanto  a Deusa, a Sacerdotisa, a Mestra, a Musa, a Amada, a Curadora, a Trabalhadora, a Esperança,  mesmo a Natureza Feminina e sensível em cada um de nós, e é então importante trabalharmos para que a nossa pessoa,  ou personalidade, a "per-sona", por onde soa e ressoa o mundo e o nosso verdadeiro eu espiritual, seja uma intermediária bem mais vertical, pura e nua, despida de roupagens desnecessárias e preconceitos limitadores, tornando-se uma auto-consciente harmonizadora de si própria e uma servidora desinteressada do Dharma ou Ordem do Mundo e não do Imundo, como o imperialismo e neo-liberalismo ditatorial ideológico, financeiro, corporativo e digital têm tanto desenvolvido e explorado, criando conflitos e guerras em tanta parte...
E ao sermos um tal canal e centro energético-consciencial limpo, verdadeiro e transparente,   podem-se derramar ou desenvolver através de nós as melhores energias e potencialidades do Kosmos (em grego, um Todo ordenado e belo) e dos seus níveis e seres espirituais e angélicos, nomeadamente as que se manifestam pela nossa aspiração, investigação e acção, através de uma luta ora interna ora ambiental e internacional, para que haja mais saúde e prosperidade,  paz e  justiça,  liberdade e responsabilidade ecológica,  diálogo e compreensão internacional,  fraternidade  universal e Amor... 
Ao nível mais sagrado, a Mulher-Estrela é um símbolo e uma janela da Face Feminina da Divindade e das suas revivificadoras e fertilizantes Deusas, Ninfas e Naíades (tão cultuadas entre nós na época romana, ou mais tarde por poetas e escritores nossos, tais como Luís de Camões, Jorge Ferreira de Vasconcelos e Bocage),  sacerdotisas e sibilas, bacantes amorosas e sábias, jardineiras e curadoras, etc., desde sempre existentes e que não podemos deixar fenecer.... 
Poderemos referir dessas faces femininas da Divindade a Inanna da Suméria, a Ishtar da Babilónia, a Astarte da Assíria, a Anahita da Pérsia, ou ainda a Ísis Egípcia e as amorosas Afrodite e Vénus greco-romanas (e provavelmente esta foi a fonte primordial deste arcano, sendo a estrela da tarde), para além de termos já referido as sábias Athena e Minerva, ou agora Kuan Yin e Amaterasu Omikami, Maria e Fátima Zahra (mulher de Ali), em todas se realçando a sensibilidade e a força do Amor e Harmonia, bem incarnadas em fecundidade e geração, abnegação e inspiração.
 
Mostra e demonstra o Caminho...
Nas representações mais antigas do Tarot, certo ênfase foi dado mais à imagem de uma estrela, que tanto simbolizava as luminárias do Céu como em especial tanto Sírius como Vénus, a quem se atribuía o influxo do Amor, pois reconhecia-se ou considerava-se que tal estrela ou planeta, com sua radiância atractiva amorosa, era buscada, recebida e transmitida mais pela mulher, ou pela alma sensível e receptiva, na sua demanda de plenitude e de se tornar um vaso feliz, qual Graal do Divino e, logo, de poder ser mais musa, inspiradora, curadora, amada, amante...
A imagem que vemos em seguida, das cartas do Tarot Visconti Sforza, mostra-nos uma estrela de oito pontas, que representaria o planeta Vénus, segurada ou talvez melhor sintonizada e recebida por uma mulher vestida de azul e com um casaco vermelho, representando a alma calma e luminosa que se abre à estrela e ao caminho ascensional rumo a Deus. A representação de Vénus na série dos planetas nas cartas ou emblemas atribuídos a Mantegna, sensivelmente da mesma data, confirma esta hipótese venusiana.
                                          
Estrela que é ainda a da intuição-visão do Espírito, e que era buscada, ou  que, segundo a narrativa lendária e simbólica evangélica, guiava os Magos da Pérsia, ou Mestres do Oriente, representantes da Tradição Primordial da ligação ao Espírito, também denominada  Filosofia Perene ou Prisca Teologia no Renascimento italiano, que unia e une, agora e sempre, as almas mais despertas na Terra e que emerge algo misteriosamente, na redacção do Evangelho segundo S. Mateus, com os três Magos Reis "vindos do Oriente" a seguirem-na, numa descrição algo materializada (e daí a sua voga com astrólogos e astrónomos...), mas com sucesso, pois foi grande a fortuna que este episódio semi-mítico teve no Cristianismo, com as festas dos Reis, as reizadas, e a magia da prenda solar e da fava subterrânea ou nefasta no bolo-Rei, ou hoje ainda, mais saudavelmente, no Bolo-Rainha e biológico, tal como, numa referência regional, a Próvida e outras empresas têm conseguido produzir...
A Estrela é também representada em alguns Tarots a ser estudada pelos magos da Pérsia, ou astrónomos-astrólogos, pois historicamente, através de cálculos ou observações, calendarizavam o tempo, discernindo as posições equinociais ou planetárias que anunciariam tanto as melhores épocas  de  fertilidade dos campos, com as suas espécies e trabalhos, como também os momentos mais auspiciosos para o acesso ou melhor realização do génio ou missão, destino ou estrela dos povos, reis e seres. Com o tempo, tais aplicações alcançaram cada vez mais seres pois todos temos  a nossas tarefas, frutificações, missões, as quais pelos estudos, auto-exames, meditações, diálogos e acções devemos discernir, melhorar e realizar. 
É claro que qualquer astrologia de jornal ou revista pouco vale nas suas indicações, a não ser nos estímulos positivos nos que acreditarem, e mesmo as feitas com a hora do nascimentos são mais convenções psíquicas, com possíveis abordagens clarificadoras ou inspiradoras, do que realidades objectivas e muito menos predeterminantes e, já agora diga-se de passagem, nunca justificativas da exploração monetária e manipulação anímica que vários astrólogas e astrólogos fazem, frequentemente apenas com certo dom da palavra e alguns conhecimentos psicológicos, mas com pouca realização interior e intuição, a que por vezes se juntam  técnicas algo enganadoras e até perigosas,  tais como as regressões... 
                                             
Representava-se ainda sozinha ou isolada a Estrela com oito pontas, talvez em analogia no Ocidente  com as oito Bem-aventuranças ou beatitudes, pelas quais no ensinamento de Jesus o espírito divino ou santificado se manifestava bem-aventurando os discípulos e discípulas no caminho da auto-realização e do Amor. E  mais tarde de novo se destacando no culto denodado e corajoso dos cavaleiros Templários, ou ainda nos espirituais do culto do Espírito Santo, entre nós bem trabalhado em Alenquer com a rainha Santa Isabel, em Tomar da Ordem de Cristo e da festa dos Tabuleiros, e nos Açores e na Madeira dos bodos fraternos, das procissões e das cantigas ao desafio, que tanta poesia e amor nas almas inspiraram, tal como a criança açoriana Antero de Quental sentiu e exclamou, ao ouvi-las ecoar criativamente  em si, "também eu sou poeta...", num claro despertar consciencial e, de algum modo, abertura ao espírito iluminante, que ele cumprirá abnegadamente muitos anos, seja na poesia de amor, na revolucionária como na filosófica até sentir que tal fonte secara e, anos depois, em 1891, após dar à luz o seu testamento filosófico em prosa, que chegara a hora de deixar a Terra, sob uma conjunção cósmica que ainda não foi discernida...
                                                
A Estrela, sem a mulher  representada, tal como surge na representação em cima de um dos Tarots mais antigos, com vasos de destilação, ou retortas (athanor) de boca para cima e para baixo, recebendo e derramando energias espirituais, com triângulos de fogo nas suas bordaduras, numa simbologia da Alquimia, na sua procura de destilar a Quinta-Essência ou atingir a Pedra Filosofal, a qual se anunciava como Estrela, faz-nos vibrar com associações que vão desde o peregrinante caminho (que se faz caminhando e diariamente) para Compostela, o Campo ou o composto da Estrela, Stella, à Estrela do Espírito, a qual pode manifestar-se em nós quando o equilíbrio da vida passiva e activa é aprofundado na meditação. 
Tais práticas e estados de consciência visam que ela brilhe unida a nós e seja  mais benfazeja, criativa e harmonizadora no campo unificado de energias-consciências, ou Anima Mundi que nos emaranha ou envolve. Estrela do espírito que nos pode inspirar subtilmente nos sonhos e meditações, actos e pensamentos, telepatias e sincronias, fortificando-nos, alinhando-nos e espalhando luz sobre tanta agitação, confusão, manipulação, receios, niilismos, fatalismos, medos, como recentemente as galinhas tolas da comunicação social tanto se especializam em fazer, levando os mais discretos, prudentes ou sábios a deixarem de ter ou ver televisão e seus telejornais e comentadores amilhazantes em especial...
Realização estelar ou espiritual que implica o trabalho árduo e persistente do ora et labora, a contemplação e acção, de modo a que se vá polindo a pedra ou pedras da matéria e do caminho, o desanuviar do espelhos e janelas da alma, ou da lente do telescópio vidente (e quão difícil tal é, com tanta informação e lixo que as pessoas apanham e acumulam no seu interior), a fim de que o seu brilho, orientação e bênçãos estejam mais plenamente em nós, aqui e agora...
                                              
No nível psicológico elevado, este arcano mostra-nos a anima feminina da Mulher, ou ainda a que no Homem há, mais liberta, plena e irradiante, significando sua unificação e ligação ao Anjo, ao Espírito, à estrela, ao cosmos, ao mundo espiritual e divino. 
Pode-se mesmo dizer-se que uma pessoa, ao conseguir assumir mais a sua identidade espiritual ou supra-consciente, "psicoformiza" uma imagem e ideia de si própria mais benéfica, jovial e optimista, qual molde ou matriz, que influenciará as suas energias anímicas (nomeadamente o seu inconsciente) e o seu corpo físico e etérico.
Ou seja, o sugestivo psicomorfismo activo e belo da Estrela, do Tarot, passa a ser vivido e partilhado mais plena e harmoniosamente em todo o nosso ser e logo com os outros, dinamizando-se mais luminosamente os Cinco (terra, água, ar, fogo, éter) ou Sete (psíquico e consciencial) Elementos do Campo Unificado das energias e seres, visível e invisivelmente, algo que só lentamente, ou ocasionalmente, vemos e consciencializamos.
                                           
Que estrela e que estrelas são mais precisamente estas, em termos do Cosmos físico, poderemos ainda de novo interrogar-nos. Court de Gebelin, um dos pioneiros, embora algo fantasioso, do estudo do Tarot, ainda no séc. XVIII, considerou ser Sírius, ou a Canícula, que se levantava nos céus do Egipto quando começavam as inundações do rio Nilo, sendo estas simbolizadas na imagem de Ísis a derramar as águas que regeneram a fecundidade da Terra e alegram as famílias e campos. Sírius, a estrela alfa da constelação do Cão, talvez por ser a mais brilhante do céu multicolorida, foi por alguns povos muito cultuada,  e até nas excessivamente iluminadas cidades de hoje conseguimos alcançar com a vista, ou mesmo receber no nosso cérebro e alma, temperando energias e limpando de cinzentismo, os seus raios coloridos, compreensíveis por ser 40 vezes mais luminosa que o Sol, mas situada a 8,6 anos de luz da Terra.
                                              
Outros comentadores  interpretaram como as Plêiades, ou ainda  os sete Planetas, com o Sol ao centro. Mas identificou-se mais a estrela com Vénus e Sírius,  na ideia de forças benéficas divinas do Cosmos derramando-se sobre a Terra e de facto no Egipto marcando o começo do ano no calendário de Menfis.
                                    
Todavia são tantas as analogias ou identificações possíveis da Estrela, dada a polisemia ou multidimensionalidade dos símbolos, que mais vale deixarmos a obra (interpretativa) em aberto, cada um escrevendo na página final em branco do seu Evangelho Eterno o que o seu espírito ou intuição lhe poderá mostrar ou inspirar, tal como queriam, disseram e escreveram entre nós, por exemplo, Antero de Quental, Agostinho da Silva e Natália Correia.  Claro que certamente pode sempre identificar-se e ligá-la, nos seus níveis mais elevados, ao Espírito, ao Sol, à Verdade, à Divindade,
Talvez a imagem feminina deste arcano possa então sentir-se como Vénus, como Minerva, como Ninfa ou Deusa das águas e da geração, como a sacerdotisa dos mistérios e do amor ecológico, orgânico, da permacultura ou da Natureza pura, como a Mulher que sabe trabalhar com a água, com a terra, com as crianças, com os frágeis, com as energias do amor, sabiamente...
E Estrela que pode ser ainda  a Esperança e em especial, no caminho iniciático e do Tarot interiorizado, como a Alma de cada um de nós ao assumir com mais plenitude, felicidade e fluidez a sua natureza espiritual, contemplando-a interiormente  na estrela ou centelha, ouvindo-a na linguagem melódica ou mântrica, vendo-a na levitante ascensionalidade das aves e nuvens, trabalhando-a na terra e nos elementos, admirando-a nos cristais e flores.
E sentindo-a na fluidez do derramamento misericordioso e harmonioso das energias naturais e divinas, tal e qual Ganimedes, do signo do Aquário, com os seus dois jarros de harmonizar-unificar as dualidades, ou o bodhisatva Maitreya, o do Discernimento e Compaixão, irradiando através de nós, para um mundo tão necessitado face a governos imperialistas ou corruptos, a terrorismos mais do que desumanos e a religiões e cultos de seitas ultrapassadas em vários aspectos. Planeta tão necessitado ainda de mais ligação à Estrela  face a tantos hábitos, desportos e distracções inúteis e violentos que impedem a consciência espiritual e fraterna de desenvolver-se mais na Humanidade, hoje tão oprimida pelos projectos da Nova Ordem Mundial, ameaça que exige de nós muita atenção e discernimento, com um modo de vida e de alimentação (física, psíquica e espiritual) que fortifique o sistema imunitário e não permita que tanta desinformação e aterrorizaçãoafecte corpos e almas.
                                       
Quanto às águas, forças, energias ondas ou partículas que ela e eventualmente nós derramamos dos dois vasos e recipientes, das duas taças de comunhão e partilha, de duas naturezas ou polaridades em nós, com que nomes as podemos denominar? 
Consciência-Energia, Água-Vinho, Força-Doçura, Ida-Pingala, Yin-Yang, Shiva-Shakti, Ouro Solar-Prata Lunar, a correnteza das polaridades do Amor, fluxo ascendente e descendente da respiração, inspiração e expiração irradiante, Águas da Vida eterna, dons do Espírito Santo, Mel venusiano?
Comparando os arcanos XIV e o XVII, vemos que os dois cântaros ou bilhas apresentam duas diferenças principais: na Temperança do arcano XIV manifestam a polaridade nas cores e há como que uma corrente passando de um para o outro, seja reciprocamente seja alternadamente, parecendo até mais um fluxo subtil electro- magnético, espiritual. Já na Estrela do arcano XVII os dois cântaros  têm a mesma cor (na versão de Marselha) e estão ambos a derramar as energias sobre um rio ou riacho da Terra, e a  mulher ou sacerdotisa está nua e com um joelho sobre a terra.
Parece que estamos a ver um processo iniciático: na Temperança, XIIII, o contacto espiritual, interior, que pode ser mesmo com o Anjo da guarda e que harmoniza as nossas energias duais; e na Estrela,  XVII, quando a alma passa à acção na Terra derramando o Amor e Sabedoria que realizou ou que passa através dela, no caso um vaso estando próximo da zona geracional, sexual e do fim da coluna. Certamente haveria mais  a dizer-se ou mesmo a intuir-se sobre os ritos de passagem, de energias...
                                           
Com humildade e pureza, subindo as energias aos níveis internos e espirituais, tal como a ave que canta na copa do arvoredo, mantendo o olhar e alma determinados na Estrela interna, no Infinito e na Divindade em que temos o nosso ser, não receando a noite, as trevas, as ameaças, a indiferença, o cansaço ou fragilidade humana, as pandemias de vírus e de medos, saibamos receber e logo transmitir, pelo cântaro do Graal (ou na comunhão com o Espírito divino), o Amor Sabedoria que, infundido nos nossos actos e gestos, mãos e palavras, pensamentos, sentimentos e intenções, ajuda a harmonizar, curar e plenificar os seres e a Natureza, dissipando as manipulações e falsas afirmações de todo o género... 
Esta prática perseverante e auto-consciência permite a inspiração e ligação com os mundos espirituais e seus psicomorfismos ou arquétipos operativos, e  com as estrelas e raios do fogo cómico, os Deuses e Deusas, os Mestres subtis, os Anjos e Arcanjos e, finalmente, a Divindade, para desabrochamento maior da Justiça, da Paz e do  Bem da Terra e da Humanidade, do Cosmos e da criativa Unidade panpsíquica, Ekamkar Omkar, como se diz e canta numa tradição indiana...
                                         
Consciencialize-se, contemple, seja e viva mais a Estrela,  luminosa, corajosa e alegremente, em Unidade, a sós, em grupo ou família, ou com a sua alma mais complementar ou amada...
                                     
E, na continuidade da perenidade do Conhecimento e seus símbolos, saltemos uns milénios, do Egipto antigo para uma fotografia recente do telescópio espacial Hubble mostrando o nascimento de uma Estrela no Cosmos Divino e demos graças na Unidade das Estrelas...
                                                      
E estude, medite ou trabalhe mais neste dia para gerar ou recolher no seu cântaro ou vaso alquímico as melhores energias do Cosmos, do Espírito Divino, e da Estrela-Sol Primordial Divino, de modo a partilhá-las criativa, sábia, amorosa e maravilhosamente...

 
                                Desenho da estrela do espírito pelo notável mestre alemão Bô Yin Râ.
                       Esteja mais em Amor sábio, criativo e corajoso!