terça-feira, 18 de outubro de 2016

Arcano XVIII - A Lua. Versões, significados, inspirações, ensinamentos.

                                 
Em algumas das representações mais antigas do Tarot, a Lua é ora a Mulher em si mesma ora a Deusa,  a Face Feminina da Divindade que sentida próxima e adorável é por isso incarnada ou epifanizada numa série de Deusas, das quais, das mais conhecidas, nomearemos Ísis, Selene, Artémis, Diana, Luna ou ainda a Chandra, indiana e a  Atégina nossa, lusitana...
                           
Tal como a acção do Sol também a da Lua na Natureza foi sentida desde cedo pelos agricultores, e os astrónomos e astrólogos assinalaram as suas influências possíveis e esse saber antigo chegou até aos tempos do começo da impressão, surgindo em vários almanaques, tais como os famosos Calendários dos Pastores franceses. A capacidade da Lua influenciar a Terra nos processos naturais  era  reconhecida e tida em conta não só para as sementeiras e diversas actividades agrícolas e rurais  mas também pelas pessoas  quanto à inspiração, menstruação, tratamentos e cura de doenças,  crescimento, projectos e começos de viagens.
                           
Assim os poetas e poetizas, trovadores, artistas, amantes e Fiéis do Amor, esses e essas (que todos nós somos) souberam fazer sair as suas águas-energias das estagnações e incandesceram-nas e elevaram-nas em coloridas criatividades, em dialogantes amores e na busca da Unidade mítica e íntima do Sol e da Lua...
                           
Sentiu-se a sua influência nos sonhos, e até nas possíveis viagens astrais,  quando o corpo energético-espiritual se expande ou sai com a consciência mais ou menos desperta para fora do corpo físico adormecido, e sobretudo nas noites mais intensas, movimentadas ou profundas da Lua Cheia, sobretudo para pessoas mais sensíveis ou femininas.
                         
Esta relação da Lua com o inconsciente e subconsciente (até por contraposição ao Sol racional do consciente), com a sensibilidade mais íntima, com as energias e águas do passado, as quais são movidas por certas pás de moinho subtis e lentas e que pouco consciencializamos, se for mais trabalhada, pela atenção e culto aos sonhos,  meditação, estudos e diálogos convergentes, pode permitir a emergência de informações ou conteúdos psíquicos que desconhecíamos e que afloram então em sonhos ou visões. Algo disto foi assinalado na versão deste arcano XVIII do Tarot sob o qual escrevemos e denominado "Vidas Passadas", uma afirmação que devemos sempre tomar com muita cautela pois quase sempre são apenas forças anímicas a que temos acesso e que estiveram presentes noutras épocas da Humanidade.

                         
Nesta versão antiga dos Tarot de Marselha, a que se tornou mais clássica, vemos os raios do Sol e as lágrimas  (até interpretadas como de Ísis) ou pérolas da Lua a derramarem-se e estimularem a Natureza a movimentar-se e a dialogar, influxos que penetram  nas águas e profundezas do seres, trazendo ao de cima por vezes instintos ou conteúdos menos agradáveis, conhecidos, reprimidos ou controlados mas que devemos enfrentar e ultrapassar, seja medos seja  identificações limitadoras, pelas meditações e consciencializações adequadas. 
                                    
Há contudo interpretes que consideram que as gotas são mais de energias vitais que a Lua absorveria, atribuindo assim a este arcano XVIII qualidades negativos, ilusivas e maléficas, associando-a por exemplo à deusa grega Hécate, uma filha de Titans, que com o tempo, a partir da sua participação no mito de Perséfone, teve múltiplas  associações com a noite, os mundos dos mortos, o psiquismo semiconsciente e sombrio, os caminhos nocturnos, algo que esta carta de certo modo pode aludir.
                          
O possível aluamento do ser, o andar algo aluado por entre o quotidiano dispersivo ou opressivo, esta osmose maior de quem contempla a Lua e cultiva a sua poesis, a sua dicção sentida e profunda, órfica nos céus dos sentimentos e sonhos, surge então bem retratado nesta imagem da nossa Dona Lua voadora, seja ela própria, seja algum de nós mais "lunificado"...
                              
  Esta  atenção maior às fases e progressões da Lua nos quadrantes celestiais, foi então praticada pois após estudos bem aturados e já antigos se verificavam algumas influencias na Terra, que podemos registar inconscientemente na alma ou mais conscientemente como nesta versão do Tarot muito antiga, e da Lua com o astrólogo-astrónomo.
                                 
 Foram-se desvendando então melhor os efeitos das fases da Lua  nos processos orgânicos da Natureza, nas plantas e nos seres humanos, cabendo destacar neste sentido os contributos enriquecedores já no séc. XX da agricultura biodinâmica, desenvolvida por Rudolfo Steiner e seus seguidores.
                         
 Estes efeitos intercomunicantes entre todos os corpos e seres terrenos e celestiais  podem ser vistos subtilmente ainda  no maravilhoso reino dos Espíritos da Natureza, das fadas, gnomos, duendes, elfos, sílfides  e ondinas e com quem tão pouco conseguimos interrelacionar-nos conscientemente, certamente por razões da Ordem evolutiva...
                            
 O reconhecimento da natureza reflexiva da Lua perante o Sol, ou ainda o do cérebro humano perante o mundo subtil e espiritual, convida-nos a meditar e contemplar  as amplas esferas ou orbes celestiais, interna ou externamente, onde Dona Lua é a mais próxima e simpatizável embora pela sua mobilidade seja capaz de nos iludir nos sentimentos e crenças que geramos já que estamos frequentemente a ver não a essência mas apenas reflexos mutáveis...
                    
Quem não sentirá amor por Dona Luna, aqui assinalada na sua tradicional ligação ao maternal, sentimental e doméstico signo de Água, o Caranguejo, abrindo-se à sua aura sobre as noites planetárias?                       
Ou já nesta versão, tanto mais que na Tradição popular Espiritual Portuguesa o animal que mais se avistava imaginativamente na Lua era o prolífero e pacífico, e com ela em simpatia, Coelho ou Lebre...
                        
Terminemos esta nossa aproximação menos detalhada e alongada (já que fizemos uma gravação, audível no Youtube: http://pedroteixeiradamota.blogspot.pt/2016/10/tarot-arcano-xviii-lua-breve-satsang.html) a uma série de imagens e sentidos do arcano XVIII da Lua, com duas lâminas e imagens, uma que apela a mantermos a nossa aura sempre em conexões sensíveis, artísticas e luminosas com Dona Luna, tanto no alto como no fundo potencial da nossa alma-aura, na sua capacidade de brancura e pureza, reflectora do Sol do Espírito e espelho comungante com o outro.
                             
A outra versão estimula-nos a avançarmos desprendidos de tudo, nus como o vento, por entre as sombras e crepúsculos (e lembrarei, com este título http://pedroteixeiradamota.blogspot.pt/2017/07/o-mais-belo-poema-de-amor-de-antero-de.html:), tentando estar e ser conscientes do nosso Ser na sua identidade de Espírito, seja em si mesmo seja já nas ligações superiores, no caminho ascendente, tal como o de Dante guiado por sua mestra Beatriz até ao centro do sistema solar e do Amor Divino...
                               
Avance então por entre as mutabilidades, ilusões e desilusões, firme na aspiração à Luz, reflectida ou directa, cultivando os fios e ligações superiores e certamente a Dona Luna, Face Feminina com mil Faces (entre as quais por vezes até a sua...) da Divindade, a inspirará e fortificará sempre, pela Natureza ou pelo seu mundo anímico interno...
E para quem gosta de consultar o Tarot com tiragens, tente aumentar o grau de probabilidade de fiabilidade da consulta, sintonia, intuição ou recebimento tirando poucas cartas, uma ou quatro (a tradicional, em cruz) no máximo, não em superficial "comercialice" mas após certa concentração e oração, sagradamente, amorosamente, capaz de atingir uma certa abrangência consciencial do passado-presente e futuro, ou seja, uma entrada maior no Campo unificado de consciência energia informação.

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