segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Sintra mágica, com suas casas e monumentos, jardins, pedras e Espíritos da Natureza, 29/2/2016.

 Uma ida a Sintra é sempre mágica, pois nunca sabemos onde vamos sentir mais as energias ou mesmo espíritos da Natureza, nem como está vestida a Nossa Dama Natureza.
Hoje tive de ir ao dentista, diga-se de passagem, certamente um dos melhores e mais espirituais da nossa nação, o Octávio Veiga Santos, com quem dialoguei ainda sobre o caminho espiritual, os pseudo-gurus e as verdadeiras características da iluminação...
A saída do seu consultório veio o primeiro aroma e beijo da Natureza pelas Frésias, as primeiras do ano vistas, tocadas e apreciadas...



Depois o mergulho no jardim natural e não podado, pleno de matizes verdes e conúbios de árvores e arbustos, aves e insectos...

Pinheiro manso que nos dizes que a costa oceânica não está longe..
A casa do casal Jones, em que a Adriana é livreira e ecologista e o filho Vitor cantor, desfruta duma proximidade maravilhosa com o palácio e a serra, sempre verdejante e fresca.
A mulher é tanto a Natureza como o Jardim, tanto o ventre aquático do Futuro como o fogo do Amor do Presente...
Vem, adentra-te, caminha em comunhão viva com o que te rodeia...
Gritos perfumados de Jasmid, o Jasmim Persa, que outrora possuía a taça do santo Graal, a taça de Jasmid, Jam-e-Jam, e que agora no seu perfume respirado ainda nos encanta e eleva
Ervas medicinais, os remédios mais cordiais...
Serra de Sintra, com seus segredos oculta ergue-nos em planos sucessivos, desde a voz do canavial até à musica das esferas azuladas...
Minha alma, como uma flauta ao vento do Espírito, cantou os hinos do Amor e da Paz

O Sol que se escondia e a árvore que sorria...
O palácio encantado, já vindo dos mouros e passando por templários e reis, e que tem tanto para contar, tantos momentos de amor e de brilho para nos fortificar.
Agulhas que captam e que irradiam, assim deveríamos ser nós todos em harmonioso concerto de nações e povos. se não houvesse o capitalismo feroz e os imperialismos opressivos. Pax! Lux!
Sol que se oculta mas deixa a sua aura multicolorida, lembrando-nos que somos seres dotados de corpos espirituais maravilhosos e não apenas o físico tão manipulado por uma agricultura agro-quimíca e toda uma sociedade de alienação e massificação consumista baixa..
Ah, a liberdade das árvores não podadas, beijadas pelas brisas do mar ou as neblinas do Olimpo sintrense...

Para ti, Para Ti, nosso Amor, gratidão e beleza..
                         Água que corres humilde e eterna, leva as minhas desilusões e refresca-me

Folhas em formas subtis que dialogam e que nos despem e atraiem ao curso rápido do riacho
Gate, Gate, Paragate, Parasangate, Bodhi Svaha...
Vai, vai, para além do ego e das limitações, atravessa a margem, brilha, sê.

Passadas as águas purificadoras da cegueira e da surdez podemos encontrar este plátano, povoado de duendes e de espíritos da Natureza que nos surgem em faces...
Sou um duende bem antigo...

Uma árvore Kami que bem merecia ser abraçada...

    Os chorões crescem junto a um curso de água que escorre da montanha e gostam de pentear e acariciar as mouras e bruxas do palácio da vila e seus jardins. Mas não é fácil vê-las...

Nas faldas da montanha sagrada, no parque da Liberdade há ainda alguns monólitos graníticos que tem alma e seres subtis. Gostam de subitamente emergirem do mundo eterico e tornarem-se visíveis nos contornos das pedras ou dos seus cortes, em geral como faces sorridentes, mas também meditativas, firmes, extáticas, sonhadoras, amorosas...

Este pataru socializou e mostrou alguma apetecência de humanidade, ou pelo menos de diálogo com ela...
Tcheis, tcheis...
Musicas de amor primaveril já brotando de mansinho...
Ser poderoso que te ocultas, nós te saudamos e invocamos e comungamos
Diálogos subtis nos mundos superiores e que exigem meditações mais prolongadas para nos inspirarem...
Um granito algo búdico...
Faces que subitamente emergem e comunicam o puer eternus...
Bem expressiva
Seio, monte ou vulcão, assim cada ser contem em si toda a Natureza..
Pedras altares abundam muito e todos nós as podemos consagrar e apreciar...


Janelas que queremos abrir na alma, e elevar a consciência
Nos eixos do mundo há sempre almas que trepam por eles
Horizontes de luz distantes...
As humildes e ferruginosas urtigas oferecem-se
Japoneiras dos jardins nipónicos e de Gagos que por Sintra incarnastes, desabrochai o vosso amor no nosso coração e uni-nos com Deus...
Um ramo de verdura para o pato ou pata, que será apreciado e subitamente levado
Caminhos inesperados, sonhos ou visões, "ichi go ichi e" nipónico, sabemos receber o imprevisível ou gerar a disponibilidade grata...
Sabermos controlar os apetites, sabermos levar connosco as memórias e cultivar os melhores momentos, eis uma arte que mesmo a pataria trilha
Da Mulher Árvore e Amante, pelo mestre Anjos Teixeira
Da Mulher Mãe e ensinante
Quando o mito vela a visão da alma e só ficam os símbolos
Água pura repetidamente bebida, e depois cantada e por fim, por ela, a face lavada, Sintra Mourisca, Noras e Fontes vivas da Água eterna do ardente Amor
O Espírito bem poderoso desta árvore espreita-nos...
Saudações com muito Amor aos Espíritos da Natureza!
Aspiração, benção e irradiação ou a comunicação subtil entre a terra e o céu, a Humanidade e a Divindade, para que a maravilha da Unidade se desvende e nos harmonize mais...
Que as bênçãos dos Anjos e do Arcanjo de Portugal, e dos antigos cavaleiros e fiéis do Amor, sejam acolhidas por todos os seres e ardentemente cultivadas...

sábado, 20 de fevereiro de 2016

Antero de Quental e o soneto "O Inconsciente", comentado. Com ilustração de Maria Keil.

José Régio (1901-1969), notável poeta e escritor, da geração da revista Presença, seleccionou para a editora Artis, em 1966, trinta e um sonetos de Antero de Quental, pedindo ainda a quatro amigos artistas que ilustrassem um à escolha, considerando-os como os mais belos, tal como outras almas já tinham realizado, embora indigitando outros  sonetos. Não está ainda contabilizado, seja nos registos de selecções e antologias, seja na expressão escrita e testemunhal dos preferidos e menos ainda no interior dos seres que os leram, gostaram e acolheram, quais eram mesmo os melhores sonetos.
Talvez nestes nossos dias se deva fazer um novo inquérito e valorização, mas para já aceitemos a escolha de José Régio e, seleccionando um, dos ilustrados, por Maria Keil, O Inconsciente, comentemo-lo ao de leve e na intenção de maior Luz Divina em Antero de Quental e em nós...
Um poema de certo modo trágico, pois Antero de Quental identifica a sombra ou fantasma, guardião do umbral ou inconsciente que vê dentro de si, e que deve ser interrogado e vencido, como sendo Deus, quando ele é apenas a sombra da Divindade, provinda do Deus do Antigo Testamento e que fica como um fantasma opressivo em quem não  invoca,  medita,  conhece e ama a verdadeira Divindade ou Deus.
Dessa falta de trabalho de ligação superior com a Divindade e portanto do seu estado gnóstico mais limitado, obscurecido e ignorante resulta a sua projecção ou criação poética de um Deus fantasma que nem sabe quem é ou como se chama...
Certamente que há que contextualizar esta criatividade de Antero seja como simples poesia seja como uma reacção natural ao Deus do Antigo Testamento que embora se chamando "Eu sou aquele que é", IHVH, era tão violento e opressivo que de certo modo Antero o vê ou torna um espectro semi-ignorante projectado pelos seres humanos.
Será que ele quis reduzir esse Deus a um mero fantasma ou espectro familiar, ou para ele esse Deus da religião católica em que fora educado era apenas um fantasma, desconhecendo-se a si próprio, quase que como Jeová tivesse sido criado apenas pela imaginação humana mitificante ou, como ele e "Deus" caracterizam, vã?
De realçar, algo menos coerentemente com a sua constante valorização da voz da Consciência, Antero começar aparentemente de modo socrático, pois de certo modo apresenta o espectro na linha do daimon ou génio interior de Sócrates, que anda consigo e que ele tanto receia como ama, e acabar no fim por o desvendar como um fantasma, um ser ilusório e não auto-conhecedor de si mesmo...
Estará Antero a reflectir algumas posições filosóficas então em moda e que caracterizavam o Absoluto ou o Divino como Inconsciente, ou está antes a reconhecer que uma certa forma de consciência moral, ou voz da Consciência, derivada da religião católica e do Deus Jehova e seus mandamentos, pode ser ilusória e incorrecta, por exemplo aguçando remorsos e problemas de consciência em casos insignificantes?
É bem natural, e poderá tal  comentário ter sido feito por  algum anteriano, mas talvez o mais importante a termos em conta desta incursão de Antero de Quental no Divino e até, de alguns modos mas não nos melhores, no daimon, ou nosso génio-anjo, é a necessidade de tentarmos despertar e assimilar mais a nossa auto-consciência de sermos um espírito ou centelha de origem divina, e não só para uma  identidade e vivência terrena mais luminosa mas para que após a morte não sejamos apenas fantasmas ou seres semi-adormecidos no tal umbral que faz fronteira com os mundos mais subtis.
Quanto à Divindade, esqueçamos, ou aprofundamos, os ensinamentos exteriores de tantas Escrituras,  meditando-a e invocando-a mais dentro de nós, e pela união do coração e da cabeça, e numa vida esperançosa e generosa, de trabalho e meditação, amor e sabedoria...
Em 30 de Maio de 2023 escrevi no blogue  outro texto sobre o soneto Inconsciente, só vindo a reler este no fim de o ter escrito, para assim se erguerem, e logo complementarem, mais integralmente.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Antero de Quental. "Hino à Razão". Soneto de 1873. Hermenêutica dum exemplar e do seu conteúdo perene.

Os Sonetos completos de Antero de Quental, prefaciados por Oliveira Martins, após a 1ª tiragem portuense em 1886, e a 2ª  em 1890,  saíram numa 3ª edição no ano de 1918, de novo no Porto, na Companhia Portuguesa Editora. Ora tendo há pouco adquirido um exemplar na livraria alfarrabista do Bernardo Trindade, à rua do Alecrim [agora já no Lg. Academia Nacional das Belas Artes], partilho-o pois não é vulgar encontrá-lo numa encadernação em "pano de chita", que não vem dos místicos e corajosos Shia ou Shitas da Pérsia e do Iraque (e noutros países) mas do sânscrito chitra, tecido de algodão (também denominado chin), e que em Portugal foi bastante estampado, com as suas flores e outros belos motivos, em oficinas artesanais bem criativas da zona de Alcobaça.
    
Alcobaça, a terra natal do pai do Bernardo Trindade, Tarcísio, poeta e sábio bibliófilo durante décadas na sua mirífica livraria no nº 44 da r. do Alecrim, mas também munícipe ilustre e filantropo (dos bombeiros) de Alcobaça e que, embora já nos mundo subtis, tem no seu filho Bernardo um digno continuador, tal como nos irmãos e primos também dedicados às artes, antiguidades e livros, embora agora ameaçados pela invasão turística e a venda retalho de Portugal, e em especial das lojas na Lisboa central, numa descaracterização fatal e mais de terceiro mundo de que dum país com tão rica história, tradição e logo responsabilidade de não se deixar massificar...
Este exemplar tem ainda a particularidade de apresentar assinaturas, carimbos e ex-libris de posse dos usufrutuários que se abeiraram do Logos, o mundo das Ideias, servido por Antero neste belo cálice, que ostenta agora também, embora a lápis, a pertença, ou se quisermos a ligação, desta hora: Antero de Quental, escritor, nome da página criada por mim no Facebook dedicada a ele.
Ora o ex-libris, criado pelo, e para o, último dono Carlos J. Vieira, é bastante simbólico, e nele mencionarei apenas o oceano, a montanha que se ergue para o Sol e, no mais alto, a vieira ou concha das bênçãos divinas para os peregrinos da Verdade, certamente bem apropriada para um livro de Antero de Quental, um ser sempre em demanda.
Aníbal Antunes Graça terá sido o seu segundo possuidor, o que originou a encadernação que ostenta ainda o seu carimbo, tendo o senão de ter riscado no frontispício o nome do anterior possuidor, que fica assim privado da relativa "imortalização" neste texto...                                             
                                            
Apresentamos, depois destes pormenores bibliófilos, um soneto, dos mais belos e luminosos, um daqueles em que Antero de Quental aspira e canta mais ao alto, à Razão, irmã do Amor e da Justiça e, confiante, se entrega a ela: -  o Hino à Razão.
                                
Disposto nos Sonetos como sendo o último da série redigida entre 1864 a 1874, a fase de razão mais crítica, dinâmica e revolucionária de Antero, presumindo-se  escrito em 1873, já que no princípio de 1874 o enviou para um Bouquet de Sonetos publicado pela Sociedade Filantrópica Académica do Porto, deveremos destacar e invocar em nós o que o jovem de trinta anos canta, conjura ou apura em si: uma alma livre e a nada submissa senão à Razão, certamente um ideal pelo qual todos devemos lutar, pois ora pelos instintos, emoções, preferências e pensamentos incorrectos, ora pelas manipulações exteriores, medos e atracções, afastamo-nos do que seria o Verdadeiro e o Justo, a Ordem Inteligente, o Logos, e utilizamos esta palavra sem a reduzirmos a racional e a lógico, pois o verdadeiro conceito de Razão ou Logos, hoje no séc. XXI  bastante  diminuído na capacidade de abranger os fenómenos da Vida na sua subtileza, infinidade e unidade, ou ainda os fenómenos e capacidades da psique humana, é bem mais vasto e profundo.
Em verdade, o Logos dos gregos, pesquisado desde Heráclito, e que inicialmente significava discurso, palavra, ordem e Inteligência-razão,  com os filósofos neoplatónicos e o cristianismo do Evangelho segundo S. João, I.1. (En arche en o logos, kai o logos em pros tos Theon, Kai o logos en Theos, "Ao princípio era o Logos [Verbo, Sermo ou Palavra], e o Logos estava com Deus e o Logos era Deus)",  seria erguido a sinónimo da Divindade, ou pelo menos ao seu Filho.
Portanto, esta Razão, Inteligência, Logos, mais do que dever reduzir-se apenas àquilo que é pensado ou raciocinado cerebralmente, deve ser visto, sentido e trabalhado como a substância inteligente que subjaz o Universo, ou ainda como a dimensão ordenada e inteligente do Universo, e que desperta e desenvolvida em nós permite compreensão e unificação da multiplicidade dos polos contrários em luta, tais como sentimento-pensamento, egoísmo-altruísmo,  bem-mal, eu-tu, sendo portanto tanto racional como supra-racional ou supra-mental, e desenvolvendo-se em nós pela empatia, aspiração, a coragem, a sensibilidade artística, o estudo, a reflexão, a meditação e a intuição. 
Tal é  o que Antero de Quental desde muito cedo valorizou e foi entendendo por Razão, com auxílio dos pensadores e filósofos que o antecediam, sobretudo da França e da Alemanha, de Kant e Hegel a Michelet, Quinet e Proudh'on, a que juntou depois, numa linha mais de inconsciente e panteísta, Hartmann e Schopenhauer, e que nós hoje poderemos tentar compreender melhor ainda com o conhecimento mais completo tanto das cosmovisões e filosofias orientais como dos autores clássicos greco-romanos e sucessivos  iniciados, gnósticos e herméticos, que realizaram de um modo ou outro tal dimensão mais profunda,  universal e espiritual da Razão ou Logos.
Para tal tarefa de assunção (ou assimilação) maior do Logos em nós, e portanto de uma vivência mais racional, justa, profunda e harmoniosa na vida, Antero de Quental ergue ou discerne duas colunas suas irmãs, o Amor e a Justiça, constituindo uma Trindade, como que três faces do Absoluto, da Ideia, ou, como poderemos nós dizer, da manifestação Divina.
Tal ideia já estava em construção nos sonetos anteriores deste ciclo, num dos quais a concepção normal de Deus é considerada ultrapassada, Palavras dum certo Morto, e noutro, Justitia Mater, a Justiça é erguida a Mãe, tal como faz com a Razão, reconhecendo em tais arquétipos ou ideias,  qualidades que nos nutrem, nos fazem crescer e realizar-nos:
«Há mais alta missão, mais alta glória:
O combater, à grande luz da história,
Os combates eternos da Justiça.»

Esta Razão é então uma com o Amor e a Justiça, é Divina, e é para ela que Antero ergue a voz do coração, ou seja, o seu apelo e prece, mostrando-nos assim que a oração ou aspiração deve brotar do íntimo do peito, do coração, da nossa alma ou psique individual rumo ao universal, ao impessoal, ao espiritual, algo que Antero de Quental desenvolveu e transmitiu bastante na sua correspondência, valorizando tal posição, missão e revolução moral (vencer-se o egoísmo) como a mais importante de todas.
O que tinge e  caracteriza o nosso coração, o que deseja ele, apetece, aspira, ama, sonha, reza, quer? Há uma harmonia ou uma luta grande entre o coração-fé-sentimentos-aspirações e a razão crítica e prática?
 Em Antero de Quental houve desde cedo, ao chegar e mergulhar na demanda juvenil universitária conimbricense,   tal conflito, que foi bastante consciencializado e referido ao longo da vida, nomeadamente, embora mais tarde, numa carta a Oliveira Martins, provavelmente de 1880, acerca da poesia própria do seu génio natural:«É incrível a desarmonia que há entre a minha razão e o meu sentimento, e este, por mais que faça, nunca chega a afinar pelo tom grave e claro daquela. Que fazer? É evidente que a poesia sai do sentimento e não da razão. Aceitemo-nos tais como nos fez a natureza. Não se pode exigir do pinheiro que dê laranjas. Os poetas são como as mulheres: hão-de se tomar tais e quais, com os defeitos e as qualidades que na sua fatal natureza são inseparáveis»...
Ora Antero de Quental escolhe neste hino a palavra-ideia Razão como o seu maior destino do coração,  por opção determinada e consciente, abandonando o Deus judaico-cristão e preferindo a Razão universal, ou primordial, ou absoluta, o Logos. Todavia, num soneto da época, intitulado exactamente de Logos, enviado numa carta de Setembro de 1875 a Jaime Batalha Reis e publicado nos Sonetos como redigido entre 1880 e 1884, a Razão ou Logos é sentida duplamente como ser e como qualidade: como «um nimbo de afecto e de ideias que são meu princípio, meio e fim», e também como um pai, um irmão, um tirano (por exemplo, quando o criticasse por estar a agir mal...), mas a quem ama, numa linha de diálogo interior  como uma Razão ou Voz dinâmica da Consciência, de origem supra-individual, ou pelo menos acima da sua personalidade normal. E esta  personalidade bem precisando do seu impulso superior, nomeadamente quando estava mais por baixo, mais desanimada ou apenas indecisa. Daí as cartas a Fernando Leal (já trabalhadas neste blogue) em que Antero aconselha o seu amigo a ouvir a sua voz da consciência, íntima, para ganhar forças e avançar, no fundo recomendando-lhe: -Fernando,  recolha-se, silencie, medite e receberá a inspiração que necessita...
Auxiliar-nos-á a compreender o alto conceito que Antero de Quental alcançara na sua alma da Razão, a Razão Eterna, a fortíssima carta escrita a Bulhão Pato, a 25 de Julho desse ano de 1873, onde o apoia e intensifica a crítica aos pseudo-filósofos, republicanos e revolucionários mais descabeçados ou extremistas que no fundo perturbavam a expansão das ideias  socialistas e revolucionárias, comparando-os ao fanáticos religiosos, aos terroristas seja do Corão, da Torah, ou do Evangelho: «Em verdade te digo: ninguém hoje faz tanto mal à Ideia Nova como esses, que se nos impõem como apóstolos dela, charlatães uns, fanáticos de cérebro estreito e coração encorreado! Estão para a Ideia Nova, como estavam para o Cristianismo aqueles mentecaptos exaltados da Tebaida [que significa tanto zona do Egipto, como retiro, eremitério], extravagantes, lúgubres, que só sabiam, além dos nomes dum misticismo idiota, destruir estupidamente as mais belas coisas da arte egípcia e grega, amaldiçoar o que não compreendiam, e atirar-se como bestas feras àquela sublime Hipácia, suplício que seria a desonra do Cristianismo, se a estupidez humana pudesse desonrar o que tem em si um raio da Razão eterna!... A Razão eterna, que está no fundo da ciência e da filosofia moderna não será também desonrada por estes Pacómios e Hilariões [dois conhecidos eremitas da época], que pretendem fazer dela uma coisa selvática e abstrusa, uma Tebaida intelectual (...) O que te digo é que a revolução na sua marcha triunfante e silenciosa, não precisa destes tenebrosos aliados».
Neste Hino à Razão Antero de Quental intui ou poetisa como feminina a Razão eterna e universal que tudo penetra, o Logos Divino omnipresente já referido, Razão que é mãe e protectora dos que robustamente meditam, lutam e aspiram a ela. É invulgar tal polarização feminina, mas Antero sentiu-a, algo em sincronia até temporal com culto da Santa Sofia ou Santa Sabedoria, do filósofo russo Soloviev (1853-1900), para além de  sempre teve grande amor à sua mãe, de tal modo que com a morte dela sofreu e manifestou-o em cartas 
É evidente que o seu amor em jovem pela Mulher foi muito elevado e intenso, mas os seus relacionamentos não avançaram, o Destino não o quis como pater familias mas poeta revolucionário e filósofo do Absoluto. Talvez por isso tenha conseguido dar uma face feminina à Razão, e até de acordo com o género que a rege em português. Aliás já o mesmo se passara com a Justiça, e, por fim, também com a Morte, para ele uma mulher e por quem quase se apaixona. 
A imagem fotografia que apresentamos de Antero, no meio de um belo bordado de uma mulher ou mãe portuguesa anónima, é uma homenagem tanto à Mulher como à Mãe, como ao Logos ou Razão, esta podendo dizer-se, numa metáfora, como sendo tanto a tecedeira inteligente como a tela substracto e a ordem em que os desenhos das nossas vidas são entretecidos pelo esforço heróico e a razão crítica, lúcida e corajosa que temos de ir desentranhando de nós próprios, por entre dificuldades e doenças, na luta pela verdade e a justiça, o amor e a liberdade, tão bem assinalados no soneto.
 Oiçamos então Antero de Quental neste seu poema filosófico  tingido de devoção, fortificando-nos ou impulsionando-nos na consagração ao Logos, à Inteligência omnipenetrante e substante do universo,  à Verdade e, portanto, em termos práticos, à palavra e pensamento, sentimento e acto justos e harmoniosos, os quais, segundo Antero de Quental, a filosofia de Kant e Hegel e a Tradição Perene, originam ou permitem a virtude prevalecer sobre o egoísmo e o heroísmo florescer, de modo que tanto a Ideia verdadeira, a Presença espiritual e divina e a Fraternidade (a vivência de tais Ideias na prática) vêm mais ao de cima, passam do virtual ao real, sob a égide ou bênção do Logos ou Razão, o qual foi também realizado e descrito como o Amor Inteligente que permeia ou fecunda o Universo, nomeadamente pelos estóicos, com quem Antero sempre se identificou um pouco.
 Numa valiosa carta do final de 1865 ao seu grande amigo Germano Meireles, pai das duas crianças que Antero pela sua morte  adoptará, discerne acerca de si mesmo e da sua doença, três níveis da Razão (a absoluta ou universal, a especulativa ou filosófica e a prática ou própria de cada um) e o seu estoicismo:«Isto às vezes chega a um estado agudo, que de tudo me faz esquecer quanto não seja aquele lutar comigo mesmo, com a rebeldia do organismo que se quer emancipar da razão. É como tenho passado estes últimos 15 dias, e aí tens porque te deixei tanto tempo sem notícias minhas. Vão agora estas, que não são boas, mas podiam ser piores, se a estes males eu não juntasse uma fé crescente em cada dia no poder da vontade e da razão. Tenho fé em que hei-de por elas dominar todos os fenómenos da doença, produzindo não uma cura no sentido médico, mas uma eliminação do mal para a consciência. Sou estóico em teoria e espero chegar a sê-lo na prática. Mas vejo diante de mim ainda muito caminho que andar e caminho aspérrimo. Embora!, o único, grande e verdadeiro triunfo é o triunfo da liberdade. Quando penso nisto chego até a abençoar a doença que me dá ocasião para exercer a virtude por excelência dos fortes, e se não me abandono a um tal sentimento é só por me parecer orgulho demasiado, quando é certo que a frequência das misérias morais me adverte da nativa fraqueza. Mas pôr os olhos num grande alvo não é já, num certo sentido, merecê-los? Não lastimes pois o teu amigo, que está talvez nesta hora entrando no período mais nobre da sua vida moral. Será isto também ilusão, como tantas teorias, tantos sistemas pretensiosos? Não posso crê-lo. A razão especulativa é um terreno movediço e são precários os sistemas que nele assentam. Mas a razão prática (como diz Kant), a consciência imediata que temos do nosso ser moral, da natureza livre e racional que em nós existe, é uma verdade de intuição, um facto de consciência, é a expressão da nossa mesma realidade. Conformarmo-nos com ela é pois estar (se não na verdade do Universo) com certeza na verdade da nossa natureza.» Eis uma excelente elevação anímica de Antero à luta pela liberdade através da superação estóica das fraquezas, doenças, misérias, acompanhada da consciência moral em harmonia com o Universo...
Sondemos então de novo o Hino à Razão
                                      
                                    HINO À RAZÃO
       
      "Razão, irmã do Amor e da Justiça, 
      Mais uma vez escuta a minha prece, 
      É a voz dum coração que te apetece,
      Duma alma livre, só a ti submissa.
Por ti é que a poeira movediça
De astros e sóis e mundos permanece;
E é por ti que a virtude prevalece,
E a flor do heroísmo medra e viça.
       Por ti, na arena trágica, as nações  
       Buscam a liberdade, entre clarões;  
       E os que olham o futuro e cismam, mudos,
Por ti, podem sofrer e não se abatem,
Mãe de filhos robustos, que combatem
Tendo o teu nome escrito em seus escudos!"
Realcemos, finalmente, até pela sua actualidade, o duplo aspecto da luta pela Razão-Justiça-Verdade: as nações, que em clarões lutam pela sua liberdade (e pensaremos em especial no Médio Oriente, tão dilacerados pelo imperialismo norte-americano e dos seus coligados, ou na América do Sul), e as pessoas, que cogitam um futuro melhor e lutam robustas protegidas pelo escudo de terem razão, ambas sabendo e tentando não se deixarem oprimir demasiado ou abater... 
                                             
Terminemos com um plano do pano de chita ou chitra, que também podia ser do Japão, com sua tão amada flor de cerejeira, sakura, e com a qual podemos imaginar a comunhão com Antero de Quental, a Razão e a  Divindade, sentidas estas tanto no nosso coração, voz e prece como também no abrir-nos, sintonizarmos e regermo-nos cada vez mais pela Razão, a Ordem, a Beleza, o Bem da Humanidade e  do Cosmos. 
E nisto movidos pela aspiração à Justiça e à evolução da Humanidade  e não por instintos ou medos, frustrações ou desejos. E assim, lúcidos, nos robustecemos para florescer e frutificar as nossas vidas em Amor, Justiça, Logos, Verdade, Fraternidade e Liberdade, bens tão menosprezados e ameaçados nos nossos dias e sendo tão essenciais e sagrados na perenidade da dignidade humana e da sua religação ao Logos Divino, tão demandado e cultivado por "santo Antero"...

domingo, 14 de fevereiro de 2016

Leonor Beltrán expõe pela 1ª vez, na sala das Conferências do Casino, ao Chiado lisboeta.

Leonor Beltrán, pedagoga e coreógrafa, inaugurou no dia 13 de Fevereiro (de 2016) a sua 1ª exposição artística, com 12 desenhos a tinta da china, de grande trabalho e qualidade.
Poderá vê-los ou interagir com eles durante mais três semanas na galeria da Livraria Sá Costa, à Rua Garrett, e estão numa sala muito histórica de Lisboa, pois neste edifício e talvez andar se realizaram em 1871 duas das famosas conferências do Casino Lisbonense, a de Eça de Queirós, A Literatura Nova. - O Realismo como nova expressão de arte e a famosíssima e tão reimpressa e estudada de Antero de Quental, Causas da Decadência dos Povos Peninsulares.
Neste manifesto contra as forças mais conservadoras ou opressivas, sempre actual, Antero clama para que se desenvolva «a ardente afirmação da alma nova, a consciência livre, a contemplação directa do divino pelo humano, (isto é, a fusão do divino e do humano), a filosofia, a ciência, e a crença no progresso, na renovação incessante da Humanidade pelos recursos inesgotáveis do seu pensamento sempre inspirado».
Estiveram presentes algumas pessoas que de algum modo ou outro são lídimas continuadoras de tal luta pela Verdade, Liberdade, Beleza, Amor e Justiça e os diálogos aconteceram, à boa maneira de Agostinho da Silva («A palavra conversa tem a mesma origem etimológica que converter, o que está implicado quando um homem conversa com outro, é uma conversão de qualquer deles ou dos dois ao mesmo tempo – é converter-se aqui, converter-se a qualquer coisa que entenda os dois como as duas partes, as metades de uma certa unidade. Quando conversamos com uma pessoa, no fim de contas queremos converter-nos ou converter a nossa dualidade numa unidade superior»), Agostinho da Silva que neste dia fazia 110 anos.
Seguem-se algumas fotografias, e faltam as de muitas pessoas, tais como as do João Rebolo,  Carmo Póvoa, Vasco Croft, Susana Borges, sendo já do final da exposição...
A Leonor, pedagoga e bailarina, coreógrafa e professora e, desde agora, pintora..
A Paula Oliveira, soprano e de jazz, mais uma sua amiga, e com quem tivemos um bom diálogo sobre a Palavra, Verbo ou Lira de Orpheu...
Juventude que aspira à beleza, ao bem e ao conhecimento...
O vento do Espírito Santo soprando na artista...
Últimos momentos: A Leonor, Mário Azevedo, Joana Consiglieri, Ana Calém, a Filomena Ricciardi, o Zé Sousa Machado. Faltou o Vasco Croft, vindo de Ponte Lima..
Loco tempore... Novas exposições esperam-se...

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Agostinho da Silva e a biografia de Tolstoi, nos 110 anos de nascimento de Agostinho, um divulgador de Tolstoi.

    Em 1941, Agostinho da Silva, na sua meritória tarefa de pedagogo, ou de educador popular com qualidade, dava à luz na sua vasta colecção, iniciada em 1940, Antologia, Introdução aos Grandes Autores, um número (como habitualmente de 24 páginas) dedicado a Tolstoi, com uma pequena biografia e um belo conto, certamente traduzido do francês, A Terra de que precisa um Homem.
Hoje, 13 de Fevereiro de 2016, quando Agostinho da Silva "faz" 110 anos, eis uma pequena homenagem as dois espirituais e pensadores, sábios no bom sentido da palavra e activistas éticos exemplares para os nossos dias de tanta subtil manipulação e violenta opressão...
Realcemos apenas na curta biografia que Agostinho traça de Tolstoi os valores que atribui aos seus pais de "vida pura, amor ao próximo e actividade social justa ou frutuosa", tão característicos da alma russa, bem como a forte aspiração ao Amor universal que Tolstoi teria recebido (ou melhor, intensificado...) de Jean-Jacques Rousseau, e que Eduardo Lourenço discerniu também no optimismo naturalista de Agostinho; e como Tolstoi se debateu numa luta grande contra os seus aspectos instintivos, egoístas e violentos, a qual durará toda a vida, dada a sua grande vitalidade, e na qual soube com grande arte na obra literária e religiosa genial mostrar que, apesar dos piores defeitos, os seres tinham sempre um potencial de transformação, de desenvolvimento, de amor, gerador de beleza, justiça e harmonia, valores tão necessários e valiosos então como agora.
Como sabemos,  Tolstoi tornou-se com o tempo cada vez mais não-violento, austero e desprendido da sociedade, irradiando para todo o mundo a sua espiritualidade simples e fraterna, atraindo a si, na sua ancestral propriedade Iasnaia Poliana, por correspondência ou visita (tal a do nosso sábio vegetariano Jaime de Magalhães Lima, que dele recebeu a missão de trabalhar com as mãos, o que se plasmará na sua modelar quinta em Vagos, Aveiro). Ora Agostinho da Silva, que também viveu bastante a simplicidade e tentou fomentar comunidades descentralizadas, rurais, destacará e lúcida mente e empática alma de Tolstoi, capaz de ver os erros e dogmatismos de si e dos outros, transmitindo com eloquência, coerência e paixão o seu ideal de sociedades mais abertas à fraternidade, ao amor, à vida natural harmoniosa e simples...
Os paralelos entre Lev Tolstoi e Agostinho da Silva estão ainda parte por fazer-se e nestes tempos conturbados, que apelam tanto à comunhão com as grandes almas individuais e nacionais, saibamos trabalhá-los e erguer o santo "Graal, Graal, Rússia, Índia e Portugal"...
Agostinho da Silva com um gorro russo, tão actual face à russofobia da classe política tonta...
Leiamos então a visão que Agostinho da Silva tinha de Tolstoi, ou a que expôs nesse prefácio em 1941, jovem de 35 anos, realçando-se ou transcrevendo-se apenas esta parte:«atacou os sacerdotes que traíam Cristo e os revolucionários que não tinham a menor vibração de generosidade e de amor; apontou como inimigos da felicidade comum os literatos para quem a arte vale mais que o homem, e os sábios que se fecham, por comodidade e egoísmo, nos seus casulos científicos»... 
Saibamos despertar mais o Amor todo poderoso e generoso, na comunhão anímico-espiritual com Agostinho e Tolstoi, a Rússia e Portugal, e irradiando luz e paz para a Eurásia e o Mundo...
Post Scriptum: em 2021 resolvi transcrever a biografia toda e pode lê-la em no blogspot, com este título:Tolstoi e a sua obra vistos com mestria crítica por Agostinho da Silva, em 1942. Comemorações dos 193 anos do nascimento de Tolstoi, que contudo o opressivo e vendido Google não lhe apresentará, nem sequer com o link do blogue: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2021/09/tolstoi-e-sua-obra-vistos-com-mestria.html   Terá mesmo de ir ao blogue e digitar Agostinho da Silva ou Tolstoi, ou então ir ao ano de 2021, ao mês de Setembro, e ao dia 9... Provavelmente censura miserável do globalismo oligárquico googliano a Tolstoi, à Rússia...