quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Antero de Quental. Hino à Razão. Soneto.

Os Sonetos completos de Antero de Quental, prefaciados por Oliveira Martins, saíram numa terceira edição no ano de 1918, no Porto, na Companhia Portuguesa Editora, e tendo há poucas horas adquirido um exemplar na livraria alfarrabista do Bernardo Trindade, à rua do Alecrim, partilho o exemplar pois não é vulgar nesta edição encadernada em "pano de chita", que não  vem dos místicos e corajosos Shiias ou Shitas da Pérsia e do Iraque (sobretudo) mas do sânscrito chitra, tecido de algodão, e que em Portugal foi bastante estampado na zona de Alcobaça.

 Alcobaça, a terra natal do pai do Bernardo Trindade, Tarcísio, poeta e sábio bibliófilo durante décadas na sua mrífica livraria no nº 44 da rua do Alecrim mas também munícipe ilustre e filantropo de Alcobaça e que, embora já nos mundo subtis, tem no seu filho Bernardo um digno continuador, tal como nos irmãos e primos também dedicados às artes, antiguidades e livros, embora agora ameaçados pela invasão turística e a venda retalho de Portugal
Este exemplar tem ainda a particularidade de apresentar várias assinaturas, carimbos e ex-libris de posse de antigos usufrutuários que se abeiraram do Logos, o mundo das Ideias, servido por Antero neste belo cálice, que ostenta agora também, embora a lápis, a pertença ou se quisermos a ligação desta hora: "Antero de Quental, escritor." 
Ora o ex-libris,  criado pelo e para o último dono Carlos J. Vieira, é bastante simbólico, e nele mencionarei apenas o oceano, a montanha que se ergue para o Sol e, no mais alto, a vieira ou concha das bênçãos divinas para os peregrinos da Verdade, certamente bem apropriada para um livro de Antero.
Aníbal Antunes Graça terá sido o seu 2º possuidor, o que fez a encadernação que ostenta ainda o seu carimbo, tendo o senão de ter riscado no frontispício o nome do anterior possuidor, que fica assim privado da imortalização neste texto e na internet...






Apresentamos, depois destes pormenores bibliófilos, um soneto, dos mais belos e luminosos, um daqueles em que Antero aspira mais ao alto, à luz da razão e confia nela: o Hino à Razão.

Posto como sendo o último da série dos sonetos escritos entre 1864 a 1874 deveremos destacar e invocar em nós o que Antero conjura ou apura em si: alma livre e a nada submissa senão à Razão, certamente um ideal pelo qual devemos lutar, pois ora pelos instintos, emoções ou pensamentos incorrectos, ora pelas manipulações exteriores, afastamo-nos do que seria o "Verdadeiro", o Logos, e utilizamos esta palavra para não usarmos "Racional" ou "Lógico", hoje no séc. XXI bastante mais diminuídas das suas dimensões de suficiência para a vida ou ainda de importância na psique humana. 
Com efeito o Logos dos gregos, que era discurso, palavra e razão mais do que reduzido ao racional cerebral  deve ser visto, sentido e trabalhado como a visão e dimensão universal,  como a unificadora dos contrários,  e portanto supraracional e supramental. Aliás a isto está intimamente ligado o que Antero entendeu por Razão,  e que nós hoje poderemos tentar compreender melhor com tanta abertura seja às cosmovisões orientais como aos clássicos gregos e sucessivos gnósticos e iniciados, que realizaram de uma modo ou outro tal dimensão universal e espiritual da Razão ou Logos.
Para tal tarefa de assunção maior do Logos, e portanto de uma vivência mais profunda e harmoniosa na vida, já Antero de Quental carreou duas  colunas suas irmãs, o Amor e a Justiça.
Esta Razão é então uma com o Amor e a Justiça, é Divina, e é para ela que Antero ergue a voz do coração, ou seja a sua prece, mostrando-nos assim que a oração deve brotar do íntimo do peito, do coração, da nossa essência amorosa, consciencial, espiritual...
O que faz o nosso coração e que o tinge e o caracteriza? 
O que deseja, apetece, aspira, ama, sonha, quer?
Antero fez a sua escolha neste poema, não por rima mas por opção determinada e consciente, cremos...
Intui ou acredita  que a Razão Universal tudo penetra, o tal Logos Divino omnipresente, e é mãe dos que robustamente lutam por ela, aspiram a ela, meditam nela.

Oiçamos então Antero neste seu poema filosófico, fortificando-nos na nossa consagração ao Logos, à Verdade, isto é, à palavra e pensamento, sentimento e acto justos e harmoniosos, os quais, segundo Antero e tanto a Filosofia de Kant e Hegel como a Tradição Perene, originam ou permitem que a virtude prevaleça sobre o egoísmo e o heroísmo floresça de modo que tanto a Presença espiritual e divina como a Fraternidade venham mais ao de cima...

                                          HINO À RAZÃO       
        
        "Razão, irmã do Amor e da Justiça,
       Mais uma vez escuta a minha prece,
       É a voz dum coração que te apetece,
       Duma alma livre, só a ti submissa.


       Por ti é que a poeira movediça
       De astros e sóis e mundos permanece;
       E é por ti que a virtude prevalece,
       E a flor do heroísmo medra e viça.


       Por ti, na arena trágica, as nações
       Buscam a liberdade, entre clarões;
       E os que olham o futuro e cismam, mudos,


       Por ti, podem sofrer e não se abatem,
       Mãe de filhos robustos, que combatem
       Tendo o teu nome escrito em seus escudos!"

Pano de chita ou chitra, que também podia ser do Japão, flor de cerejeira Sakura, e onde pode palpitar mais visivelmente a comunhão com Antero e a  Divindade, sentida tanto no nosso coração, voz e prece como também na omnipresença de nos regermos cada vez mais pela Razão Cósmica e a aspiração à Felicidade Divina e não por instintos ou medos, frustrações ou desejos e assim, lúcidos, nos robustecermos no florescer e frutificar em Amor, Justiça e Verdade...

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