Imagens do mandir ou pequeno templo dedicado a Gurudev Ranade, com ele ao centro, e os seus mestres
Foi a 3 de Julho de 1886, da mesma geração mundial que os génios portugueses Leonardo Coimbra e Fernando Pessoa, que nasceu em Jamkhandi, na Índia, Gurudev Ranade, um dos mais brilhantes yogis e filósofos indianos do século XX, no verdadeiro sentido da palavra, pois juntava ao trabalho intelectivo, um modo de vida harmonioso e uma prática e experiência espiritual, assente na devoção a Deus. Foi professor de Filosofia e chegou a vice-Chanceler na Universidade de Allahabad, desincarnando em 1957. Consagrámos-lhe já uma biografia: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2020/07/guru-ranade-um-verdadeiro-yogi-e.html . Dentre os seus ensinamentos escolhemos alguns para esta breve apresentação. «A minha filosofia não é diferente da minha vida... As dores e as misérias que possa vivenciar ajudarão a purgar a mente das suas impurezas... Uma vez gerada a devoção, a qualidade torna-se mais importante que a quantidade... A miséria pode ser suportada; os ataques de tentação, o ódio, podem ser tolerados; mas a dor física torna-se insuportável a partir de certo limite. Em tais ocasiões a única via que permanece aberta é orar a Deus para nos permitir meditar...».
Valorizava pois o suportar as dores e as provações e ainda muito a aspiração e a determinação dos yogis, considerando porém indispensável a ligação com um mestre: «A forma (subtil, vista no olho espiritual) de Deus deve descer sobre nós, e para isso acontecer deve haver um instrutor ou mestre de elevado nível espiritual. Só então ele pode fazer descer tal [visão de forma pessoal da Divindade] para o nível inferior do discípulo. Se o mestre nada tem, o discípulo nada recebe. Por vezes pode acontecer o discípulo receber algo, mesmo que o professor nada tenha. Mas havendo um limite para isso, o discípulo pode deixar de fazer progressos», se continuar ligado a esse instrutor, o que sucede frequentemente ao criarem-se laços nos grupos e em relação ao instrutor os quais tendem a prender as pessoas neles.
Para o gurudev Ranade, o brâmane [o membro da casta religiosa] é quem realizou Brahman, a Divindade, ou seja, aquele que conseguiu estabelecer uma comunicação fácil com Deus e para quem nada é mais querido ou amado que a forma com que Deus se lhe manifesta. A sua sadhana, ou caminho de prática espiritual, assentava sobretudo na devoção ou sentimento amoroso (bhava) para com Deus e depois na meditação no nome (nama) de Deus e na sua forma (rupa). E nessa prática desenvolveu notável sensibilidade e profundidade, fazendo a dança da mente cessar (conforme os Yoga sutras, I-2: Yoga citta vritti nirodha), e chegando ou estabilizando na atmaswarupa, a sua forma espiritual (conforme Yoga sutras, I-3 Tada drashtuh svarup evasthanam), e discernindo até particularidades da fisiologia subtil, tal a necessidade de abrir a abertura existente no ventrículo do coração espiritual, algo que já o poeta santo Kabir cantara. Ou que o pôr em movimento simultaneamente os oito chakras ou centros-órgãos do corpo subtil, era um bom sinal de avanço no caminho para Deus. Numa das suas cartas, quando doente, dizia ao seu guruShri Bhausaheb of Umadi: «Estou a tentar praticar a sadhana o mais possível. Muito raramente tenho a visão suprasensorial da lua crescente em luz azul. Se recuperar a saúde praticarei a repetição do nome de Deus pelo menos uma hora duas vezes por dia», referindo assim cores e formas típicas da meditação.
Muito era o seu amor por Deus, e pela iluminação das almas, alegrando-se quando sabia que elas avançavam na devoção e assim, uma vez, começou a chorar ao pensar que eram tantas as almas que desperdiçavam o seu tempo terreno sem tentarem conhecer ou ligar-se a Deus, exclamando: «O que sucederá a esses pobres seres?» Vemos bem como gurudev Ranade se diferenciava dos que pensam que as pessoas logo que morrem são encaminhadas por um túnel de luz para planos elevados e são recebidas por familiares ou guias.
Crítico era também da ilusão da Ciência como nova religião, apontando o exemplo de Descartes pois, apesar dos seus conhecimentos científicos e matemáticos, duvidava ainda da existência de Deus, que para Ranade era e é a única Realidade verdadeira e perene, e com a qual comungava diariamente nas suas meditações silenciosas, por vezes bem longas.
Sadaguru Bhausahib Maharaj (1843-1914), o mestre de Guru Ranade.
A sua compreensão dos avataras, ou incarnações de Deus, não era a tradicional (tal como é expressa na Bhagavad Gita, IV.7), segundo a qual Deus avatariza ou desce num corpo físico para proteger os bons e os seus devotos e derrotar os inimigos, mas uma mais subtil: o avatar é uma visão de Deus que desce do alto e manifesta-se diante de alguém numa forma específica, sem ser num corpo físico, sugerindo mesmo que tal se pode considerar análogo ao Espírito, o Atman, que assume luminosamente a forma do corpo do indivíduo. E é pelo fogo da aspiração devocional que o discípulo consegue receber do guru, do espírito ou da Divindade a percepção beatifica da unidade, ou da presença unitiva divina, entre eles.
É a repetição do nome da Divindade o meio principal que fará aumentar a visão da luz divina e diminuir a identificação ilusória à personalidade, permitindo que a unidade da alma espiritual com Deus seja sentida e realizada.
Acerca desta repetição do nome de Deus, Ranade deixou alguns ensinamentos valiosos, tal o de dizê-lo e simultaneamente ouvi-lo, primeiro em voz alta e depois só silenciosamente, conseguindo ao fim de algum tempo que o nome Divino se pronunciasse interiormente sem esforço da sua parte.
Mas outro nível mais completo da meditação acontecia quando a luz, a cor e a forma do seu Atman, a sua swarupa, também chamado o Antaryamin, eram por ele vistas no olho espiritual, conforme até o ensinamento dos dois primeiros sutras de Patanjali já referidos, ou quando olhava para o vasto espaço de dia ou de noite, e unia o seu Antaryamin (o habitante ou regente interior) com Bahiryamin (o transcendente, Brahman, a Divindade), crescendo por essas percepções meditativas interiores (por vezes bem prolongadas e acima de fomes e dores) a devoção (bhava), o amor (prema), a adoração, a beatitude (ananda), a unificação divina.
Possamos nós persistir mais nas meditações, nas repetições devotas dos nomes sagrados, e estabilizar mais na harmonia e paz do nosso ser espiritual, atman, na unidade divina. E possam o guru Ranade ou outros mestres, santos e santas guiarem-nos na intensificação relacional sábia e amorosa com o espírito, a Divindade e a Humanidade harmoniosa.
A recente e meritória publicação da obra poética completa de Afonso Cautela, realizada por José Carlos Marques, sob o título Lama e Alvorada, em dois volumes, permite-nos conhecer dezenas de poemas inéditos, a maioria datados, e discernir melhor as múltiplas tendências e fases no seu percurso poético criativo lírico, crítico, irónico e realista-idealista, e assim encontrar na sua época mais juvenil, aos 13, 14 anos, os veios e sopros baptismais inspiradores de Luís de Camões e Antero de Quental. A recente participação no IX encontro do círculo de poesia do Montado do Freixo do Meio, organizado pelo Manuel Calado, Cassandra Querido e Fátima Sequeira Remédios, e dedicado a Afonso Cautela (com a presença da sua filha Cristina), na qual mencionei tais dois veios, como ainda os de Walt Whitman e de Álvaro de Campos-Fernando Pessoa, impulsionou-me a escrever este artigo, provando tais asserções com três sonetos. No Soneto III, escrito em Beja a 13-3-1946, Afonso Cautela inicia-se com mais juvenil doçura e esperança no Amor e, seguindo a linha platónica de reconhecimento do Bem, do Belo e do Verdadeiro primordiais ou arquétipos, glosa o famoso soneto de Camões:
«Amor é um fogo que arde sem se ver, é ferida que dói, e não se sente; é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer; é um andar solitário entre a gente; é nunca contentar-se de contente; é um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade; é servir a quem vence, o vencedor; é ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor nos corações humanos amizade, se tão contrário a si é o mesmo Amor?»
Eis como o glosou Afonso Cautela, menino de treze anos:
«Amor é fogo que arde que ilumina As trevas desta vida descontente. Como um bem guiará eternamente No caminho feliz a nossa sina.
Puro como a rosa amena e fina Terno o seu calor manso e dolente. Como eterna verdade que não mente A saudade o amor sempre confina.
E mesmo sendo assim todo o alento, Da vida o mais doce e belo encanto, Em suas garras somos fraco vime...
Abate, esmaga e fere com crueza Sem atender ao mal de tal vileza, - ele o belo imenso, o bem sublime».
Poderemos observar como Afonso Cautela, a partir do seu contacto puro com a terra e o céu alentejano e com a sua aspiração optimista juvenil, sente e vê o Amor como a força de realização dos arquétipos fundamentais do Belo e do Bem, como a estrelinha do
caminho, como o Anjo da Guarda da vida, ora exigente ora doce na sua
modelação da nossa alma imortalizável. Já com ecos de Antero de Quental, seja de temática ideológica, de sentimentos ou de imagens, encontramos dois poemas: primeiro o Soneto V no qual a aspiração a um estado de sonho fantástico é afirmada, embora em Antero houvesse em geral mais o encontro com ilusão do mundo e a meta ou aspiração ao Não-ser, ou simplesmente a irmã Morte, tal como encontramos por exemplo nos sonetos Nirvana ou no VI do Elogio da Morte.
O original manuscrito do poema de Afonso com 4 anos na contracapa do II volume da Lama e Alvorada.
Sonhei a fantasia inanimada, Sonhei a vã quimera, um louco ideal. Sonhei o tudo imenso, o tudo nada. Sonhei da vida a morte, o bem, o mal.
Vivi na bruma escura quão cerrada Desse sonhar imenso, desse irreal. Vivi a vida triste e desesperada, Eu só, só terra e pó, fui imortal.
E perco o gosto amargo de viver, Perco o receio, o medo de morrer, Imploro da vida a morte que não vejo.
Quero viver num sonho de incerteza, Trocar da vida o peso e a vileza Por um sonhar eterno, é meu desejo!
Beja, 20-1-1947
Já mais claro como de matriz de inspiração é o soneto seguinte de Antero de Quental dedicado piamente à Virgem Santíssima, mas que Afonso Cautela, no seu soneto VII, sem se quedar na entrega piedosa a Maria divinizada, o glosará projectando o seu amor e unção do Eterno Feminino para uma mulher amada. Oiçamos Antero, primeiro:
À Virgem Santíssima,
Cheia de Graça,Mãe de Misericórdia
N'um sonho todo feito de incerteza, De nocturna e indizível ansiedade, É que eu vi teu olhar de piedade E (mais que piedade) de tristeza...
Não era o vulgar brilho da beleza, Nem o ardor banal da mocidade... Era outra luz, era outra suavidade, Que até nem sei se as há na natureza...
Um místico sofrer... uma ventura Feita só do perdão, só da ternura E da paz da nossa hora derradeira...
Ó visão, visão triste e piedosa! Fita-me assim calada, assim chorosa... E deixa-me sonhar a vida inteira!»
Oiçamos agora o Soneto VI, do Afonso Cautela:
Sonhei num sonho imenso de amargura
De ti somente ser eterno amante.
Fui sonho de uma noite já distante
Desejo louco que ainda em mim perdura.
E esse louco desejo foi ventura
Que vi brilhar imensa e fulgurante.
Da minha vida estrela radiante,
Foi ambição amarga, negra e dura.
Para quê acalentar este desejo
E querer o teu amor que em vão bosquejo,
Sofrer, um dia tarde, ao recordar?!
Deixa-me sempre ver a tua imagem,
Idolatrar-te a ti grata miragem,
Em ti eternamente quero sonhar.
Beja, 15-4-1948
Saudemos estas três grandes almas universais mas de raiz lusitana, três elos da Tradição poética e espiritual portuguesa, agora nos mundos espirituais. Que se possam comunicar e inspirar-nos!
George Bernanos (20-2-1888 a 5-VII-1948), o lutador heróico na 1ª grande guerra, o escritor católico de grande sucesso após 1926, o notável homem de acção anti-fascista na guerra civil espanhola, pois após as suas vivências pró-humanas e anti-franquistas na guerra de Espanha e sendo crítico de Hitler e Mussolini, preferiu emigrar para o Brasil onde, pouco depois de chegado, em 1939, conheceu Jorge de Lima e, lendo a sua poesia e ficando encantado com ela, resolveu pagar o seu reconhecimento com um valioso prefácio escrito e publicado em francês no livro Poemas, no qual descreve a sua desilusão da pátria francesa e o seu encanto com a poesia de Jorge de Lima, levando-o a dissertar com grande sensibilidade sobre a Poesia, arte que ele não desenvolvera na sua obra literária mas que manifesta conhecer muito bem, valorizando-a como a voz da aspiração humana, por entre as suas dores e lamentos, à liberdade, ao amor, aos céus, à religação divina.
A obra contém nas suas cento e trinta e sete páginas, as sete do prefácio que li e gravei, e cerca de sessenta poemas traduzidos para espanhol, dos quais lemos um, o V, Espíritu Paráclito, e saiu nas oficinas gráficas de A Noite, no Rio de Janeiro.
Da excelente relação por mais de três anos que George Bernanos conseguiu com a terra, o povo e os intelectuais brasileiros, pois além de Jorge de Lima deu-se com Álvaro Lins, Alceu Amoroso Lima, Frederico Schmidt, Virgílio de Mello Franco, Hélio Pelegrino e vários outros, podemos saber por vários testemunhos, livros e estudos (vários on-line) existindo mesmo um museu George Bernanos, em Barbacena, onde ele estabilizara antes de ser chamado para a França pelo general de Gaulle, após a derrota do nazismo alemão, e onde, não sentindo o ambiente afim do seu idealismo, poderá ter pensado com saudades no fabuloso mundo emergente brasileiro que deixara...
O exemplar que utilizamos tem a particularidade de ter uma dedicatória agradecida de Jorge de Lima a Luís Forjaz Trigueiro (que conheci e ainda o visitei em sua casa) escrita em português, tornando a obra de certo modo trilingue.
Como George Bernanos foi um escritor bastante valioso, seja pelos romances (tal os Sob o Sol de Satan e o Diário de um Pároco de aldeia), seja pelos seus ensaios e manifestos, seja pelo seu texto para o filme que sairá como o Dialogues des Carmelites (on-line) e que recusou até entrar na Academia Francesa, e é hoje quase desconhecido em Portugal, e ainda porque não lera o prefácio e me pareceu valioso, resolvi traduzi-lo gravando-o, e creio que valeu a pena, tanto mais que ainda houve tempo para ler, desta vez na tradução espanhola, o poema Espíritu Paráclito, sem dúvida forte e inspirador.
De realçar a sua noção dos ciclos dos estados e impérios, muito actual (adveniat BRICS), e a forte e bela valorização da poesia expressa por Bernanos e que para mim, após ter participado no IX encontro do círculo de Poesia no Montado do Freixo do Meio dedicado a Afonso Cautela, outro militante da liberdade e poeta, veio mesmo em sincronia inspiradora de almas, como acabei de referir até em nota da leitura.
Jorge de Lima (23-4-1893 a 15-XI-1953)
Boa audição, e que estas almas poéticas e luminosas, Georges Bernanos, Jorge de Lima, Luís Forjaz Trigueiros e Afonso Cautela brilhem no Empireu, no Parnaso, no mundo espiritual e nos inspirem...
Frontispício ou portada do misterioso Contraveneno...
Uma alma discreta, que escondeu o seu nome abreviando-o como J. P. de B. B. M., publicou em 1838, no Porto, numa pequena tiragem, na "saudosa" Imprensa Constitucional, o Unico Contraveneno da Incerteza Moral, ou real, verdadeiro e unico Elemento Moral, num in-8º de 43 páginas, e na castiça e inteligente justificação, ou Motivo, diz-nos que no seu opúsculo juntou, para os que não podem ler livros volumosos, muita informação, na ambição de ser útil. Temos nós esta ambição, ou aspiração, ou vontade perseverante de sermos úteis, sempre renascendo como uma fénix das cinzas das suas desilusões, doenças e mortes... Vejamos então o que ele leu (a que ele chama "um plagiariato"), cogitou e descobriu, num bom esforço, bem como as perguntas e impulsões lançadas aos seus futuros leitores, tais nós já no séc. XXI:
«Este opúsculo que ofereço à Multidão, é fraco no crédito que me dá, por ser um plagiariato; mas forte e de colossal utilidade, para os impossibilitados de ler obras volumosas. Num Professor de ciências positivas seria julgado um grande atrevimento, ou um roubo indecoroso; mas em mim que não sou Facultativo [ou vinculado por formação a uma ciência], é uma curiosidade desculpável pela ambição de ser útil. Muitas coisas úteis deixam de o ser, por não serem acomodadas à capacidade popular [e muitos exploram tais incapacidades, ou são tidos por superiores graças a elas], (...) Arruinadas iam as oficinas [tipografias] Literárias, decorreriam séculos em trabalharem, se as invenções novas com exclusão das cópias das traduções, e dos resumos, somente vissem a luz. Se um povo se enganou, deverá ele marchar eternamente na estrada do erro, a perdição e da infelicidade? Todo o homem deseja ser feliz. Se não o é com a verdade, não o pode conseguir com o erro. Se a opinião pública é errada, a culpa não é do povo, nem do filósofo que destruiu o erro; mas do legislador que não faz uso da verdade. Se os melhores projetos se quebram contra a opinião popular, ou a multidão, é porque esta é abandonada à influência das trevas.»
O problema, diremos nós, é que há vários níveis de felicidade - a qual é alegria, sentir-se bem, ter prazer, sentir-se que se está a cumprir a sua missão ou o seu dever, ou ainda a fazer o bem. Por vários níveis causais poderemos sentir felicidade pelo que pode até não ser o verdadeiro bem o que acreditamos e procuramos, ou ser até no erro que nos sentimos bem, justos, deliciados, pelo que há que discernir muito bem o que nos faz verdadeiramente felizes, individual ou coletivamente. Ora as pessoas abandonadas às trevas que (actualmente) os meios de informação manipuladores, consumistas e sensacionalistas lhes ditam, não conseguem deslindar o que é a verdade nem o melhor para elas, nem conseguem perceber o que deveriam desenvolver da sua própria personalidade e capacidade intelectual e anímica, a qual depende sobretudo «em se lembrar das ideias adquiridas, adquirir outras novas», e assenta na capacidade de atenção, clareza do discernimento, exactidão da memória, vivacidade de imaginação», para cujo desenvolvimento ou educação tão importantes são a firmeza de alma e a perseverança. Face ao imediatismo, ou à atração do poder do prazer imediato, o melhor é sabermos cogitar, equacionar prazeres actuais e prazeres ou dores que virão como consequências no futuro, e portanto saber sacrificar prazeres imediatos por maiores satisfações futuras, ou sofrer penas ou dores actuais para evitar outras ou piores no futuro, conselho ou regra esta que devemos equacionar com regularidade... J. P. de B. B. M., considera, por exemplo, que em certas pessoas o amor pode ocasionar inveja, ódio, antipatia contra os que podem colher a fruição do objecto agradável no lugar delas, sendo tal posicionamento uma forma errada do sentimento do amor exagerado se erigir em regra da utilidade ou justiça dos nossos sentimentos e actos. Ora a Utilidade é o poder ou tendência duma qualquer coisa para evitar dor ou conseguir algum bem para nós, sendo o bem o prazer, ou o que o motiva, e o mal a pena, a dor, ou o que a causa. Discernir onde está o que tem maior valor de utilidade, através da comparação dos bens e males que resultam, é a verdadeira base do que é virtuoso, do que gera o melhor bem pessoal e colectivo. Porque é que as pessoas não conseguem discernir (ou aplicar e implementar) nas suas vidas e caminhos o que lhes é mais útil e logo mais gerador de felicidade? Porque as pessoas não se conseguem reger por tal racionalidade e discernimento da utilidade e valor e são influenciadas pelos seus desejos, tendências, vícios e influências exteriores. Nesses factores estão os falsos princípios, filosóficos, religiosos ou morais que as pessoas estabelecem e que as levam a repudiar o que seria o equilibrado e o justo, ou o mais útil, pensando que assim se valorizam ou glorificam nesta ou noutra vida. O básico dum princípio arbitrário é a pessoa persuadir-se do que o que gosta ou não gosta, deve ser a sua regra e que pode propor os seus sentimentos ou opiniões, como a regra, aos outros. O anónimo mas benemérito ou útil autor, numa obra rara pois não encontramos qualquer referência a ele e a ela na bibliografia geral nem no catálogo online das bibliotecas públicas (Porbase), tenta no fundo despertar as pessoas para se autonomizarem de ideias feitas provindas do exterior e de sentimentos e pensamentos subjectivos e antes racionalmente ponderarem onde está a maior utilidade, para si e para os outros, e aplicá-la. Embora o fim da moral e da lei sejam o mesmo, têm campos de aplicação ou órbitas diferentes, pois é na interioridade pessoal que se registam os valores e utilidades, sendo difícil regê-los por leis, nomeadamente quanto aos sentimentos e actos, tais os negativos de ingratidão e de perfídia, mas mesmo assim conseguiremos discernir três regras de Moral privada: a Prudência, para não se fazer mal a si mesmo, ou não faltar ao seu interesse; a Probidade para se gozar confiança e se poder inter-relacionar com felicidade recíproca; e a Beneficência com os mais desfavorecido ou os seres da natureza, obtida pelo desenvolvimento da benevolência. Saibamos pois discernir constantemente o que de mais útil a nós e aos outros podemos sentir, pensar e realizar, e perseverar no que pensamos poder ser mais útil ao nosso ser eterno e ao dos outros seres...
Como e quando se resolverá o enigma do nome, verbo ou palavra do autor?
Um dos bons livreiros alfarrabistas de
Lisboa, José António de Lencastre Teixeira da Mota, acabou de deixar o seu posto
de conselheiro de almas e cuidador e transmissor de livros, funções
que exerceu com grande sensibilidade e disponibilidade, gosto e
erudição, desde 1990, quanto tomou conta da antiga Livraria Moreira & Almeida, sita na Rua Anchieta, nº7, perto da centenária Livraria da
Bertrand e, acrescentando-lhe o nome de Livraria Antiquário do Chiado e devolvendo-a à sua traça setecentista, a metamorfoseou luminosamente num espaço acolhedor e harmonizador, com gravuras, mapas, obras de arte, manuscritos, folhetos de cordel, e naturalmente bons livros de
Literatura, nomeadamente séc. XX e modernistas e surrealistas, História, África,
Oriente, Viagens, Estrangeiros sobre Portugal, Etnografia, Religião e
outros temas. Em
simultâneo à actividade de livreiro, na qual publicou oito catálogos
de notável qualidade de obras, descrições e grafismo, e em que participou em Bienais e exposições, fez
investigação histórico-genealógica, editando um Brasonário da Nobreza de Portugal, inédito, do século XVII, e elaborou um precioso catálogo (ainda por
publicar) das edições ao longo dos séculos do mítico Livro das
Sete Partidas do Infante D. Pedro.
Foral de Vila Verde (dos Francos), dado por D. Manuel em 1513 e assinado por Fernão de Pina
Este catálogo de Outubro de 2008 continha algumas obras extraordinárias, tais documentos reais dos séc. XIV e XV, dois manuscritos de Almada Negreiros e José Régio e uma Iluminura excepcional, assim descrita: «Estêvão Gonçalves. Iluminura sobre pergaminho de 14,9 x 10,0 cm. Assinado "Stepha Gonçalves". Estêvão Gonçalves foi Abade de Serem e capelão do Bispo de Viseu. Nasceu no século XVI e morreu em 1627, como diz Taborda nas Regras da Arte da Pintura. Foi o célebre artista que executou as iluminuras do notável Missal de Estêvão Gonçalves, que se guarda na Biblioteca da Academia das Ciências em Lisboa. Nas palavras de Esteves Pereira, falando deste missal, "Este primoroso manuscrito iluminado, com quanto já pertença ao século XVII, merece o lugar mais distinto, o mais eminente entre os manuscritos iluminados". Era sobre o missal de Estêvão Gonçalves que juravam os nossos reis quando eram aclamados. Do nosso conhecimento é o único [grande] iluminador português que assinava por vezes as suas miniaturas. Muito raro e de grande beleza.» Quem será o feliz custódio?
Já no catálogo de Setembro de 2009, a apresentação dizia: «Cada uma das obras que faz parte deste catálogo, foi cuidadosamente escolhida pelo seu interesse, raridade, estado de conservação. Gostaria de partilhar a sua história, a sua iconografia, ou a beleza da sua composição ou encadernação com todos os verdadeiros bibliófilos. Quero aproveitar também para agradecer aos meus clientes, colegas e amigos, todos os encorajamentos recebidos, que me incitam a continuar o trabalho começado, esforçando-me sempre por melhorá-lo. Não me esquecendo que somos todos muito solicitados pelos numerosos catálogos que recebemos, dei maior realce à representação gráfica das obras, tendo voluntariamente restringido a descrição das mesmas com apenas um pequeno comentário», mesmo assim razoável e bem esclarecedor...
De destacar foi também sempre a qualidade das suas montras, e no ano de 2013 foi mesmo considerada como a melhor montra livreira do Natal, bem se diferenciando, por exemplo, dos livros cor de rosa, ou romances históricos ou outros repetitivos, presentes em todos os aeroportos e bookstores do mundo. Consagrei-lhe um artigo neste blogue: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2013/12/melhor-montra-de-natal-alfarrabista.html
O ambiente antigo e estético da
livraria, os livros e obras nela contidos e a sua sensibilidade e boa bagagem de conhecimentos
sobre antiguidades (já que fora antiquário, com a sua mulher, na Clepsidra), livros, manuscritos, cartas pré-filatélicas, cédulas
antigas, gravuras e mapas, permitiu-lhe ser um excelente descobridor de obras boas e raras e um valioso conselheiro
para investigadores, colecionadores, bibliófilos e colegas de profissão,
que o visitavam e conversavam, e ora lhe compravam ora lhe pediam a
opinião (nomeadamente sobre mapas antigos, e gravuras de Lisboa), havendo ainda a registar o convívio durante uma certa época num almoço semanal com alguns dos livreiros.
Destacar nomes dos que passaram mais tempo em convivência é sempre melindroso, mas
António Barreiros (Cardoso), Sigismundo Bragança, Almeida Dias, João
Alarcão, Jorge Brito e Abreu, Lourenço de Sousa, Daniel Pires, João Esteves, Filipe Loulé e Sérgio Moreno foram dos que mais apreciaram e desfrutaram a sua alma e livraria. Mas como amigos, visitantes, compradores e dialogantes, houve
muitos desde José V. de Pina Martins, Jorge Preto, Mariano Gago, Martim de Albuquerque, Carlos Monjardino, D.
Diogo de Bragança, José Simões-Ferreira, Paul Hugo Thiran, Miguel Faria, José Castelo Branco (Fornes), Eng. Melo Mendes, Perry Vidal, Gustavo Andersen, Ricardo Sá Fernandes, Paulo Falcão Tavares, Silvina Pereira, José Francisco de Noronha, Paulo
Waschman, Nuno Rízio e Celestino, aos confrades Isabel Maiorca, Margarida Teles da Silva, Margarida Rebelo, Luís Burnay, Alfredo Gonçalves, Ernesto Martins, Richard Ramer, Comandante Palma, Luís Gomes, Nuno Franco, Carlos Bobone, Freitas e o já mencionado Lourenço de Sousa, e perdoem-me os que
esqueço, tanto mais que na rua e quase à porta da livraria realizava-se (e realiza-se) aos Sábados a Feira dos Alfarrabistas. Do livreiro e leiloeiro José Manuel Rodrigues ouvimos
hoje a sua afirmação sentida: «era um joia de pessoa. Quantas
vezes me ajudou em certas identificações ou descrições mais
difíceis...»
Luís, José, Pedro e Francisco, há uns bons anos, aquando dum casamento.
Sendo irmão mais novo, ele o quarto e
eu o sétimo, duma família de nove irmãos e irmãs, e de pais e
antepassados ligados à cultura e ao amor de livros, logo com boas
bibliotecas, dele não poderia deixar de referir como como nos
apoiou, seja em estadia na sua casa, já que esteve alguns anos em
França, seja ainda em livros e conselhos, tanto mais que trabalhei
para ele em algumas feiras de livros ou mesmo na livraria. Do seu
grande amor pelos livros falam ainda eles próprios, agradecendo as
muitas encadernações boas com que os revestiu, preservou e
embelezou, nomeadamente através dos encadernadores Vasco Antunes e Império
Graça, este também o preferido do prof. José V. de Pina Martins, que visitava com regularidade as livrarias do Manuscrito Histórico, Biblarte, Olisipo, Arte e Letras, a Campos Trindade e Antiquária do Chiado, referindo o meu irmão, nomeadamente por adquirir-lhe um dos primeiros manuscritos sobre a livraria real em Portugal, na sua tão erudita quão divertida obra Histórias de Livros para a História do Livro, editada pela Fundação Calouste Gulbenkian, onde o prof. Pina Martins trabalhou vários anos, marcando a época mais humanista desta tão valiosa e histórica Fundação.
A mulher Margarida Teixeira da Mota,
notável antiquária e empreendedora, foi uma excelente e amorosa
companheira, praticamente toda a vida, tal como os dinâmicos quatro
filhas e filhos, Maria e Teresa, Filipe e Tomás, e nos últimos anos com os netos e netas. O Zé era basicamente um pater familias, e os seus melhores momentos eram com eles, tendo-lhes dado muito de alegria e lucidez, exemplos e valores. Muita amizade dinâmica e bem disposta viveu ainda com
primos, primas e amigos nas casas do Outeiro em Mondim e na casa da Cruz Gagos, nas Terras de
Basto dos seus avoengos paternos, e com amigos e amigas em Vila de Conde, Lisboa e Paris, tais os pintores Luiz da Rocha, Cargaleiro, Rodrigo Ferreira e a poetisa Merícia de Lemos, ou muitos dos atrás referidos.
Neste catálogo realçou, num caderno manuscrito de 94 p, intitulado Exterminio da Inglaterra. Trovas alegres por Camilo Castelo Branco, Visconde de Correa Botelho, «a muito comovente descrição da morte de Camilo Castelo Branco narrada pelo seu filho Nuno», e «as duas maquetas de António Pedro para o Nº3 da revista Variante, mostrando as ligações deste ao surrealismo internacional».
O que se poderá mais dizer senão que
o José Teixeira da Mota foi mais um amante e sábio dos livros que
ilustrou e beneficiou a pátria e a gente lusa e que partiu rumo ao mundo Espiritual, onde já se encontra, no plano de luz e de amor e
com a consciência que lhe corresponde e que só os desígnios da
Providência Divina conhecem plenamente, restando-nos desejar-lhe ou
orar para que a sua alma espiritual esteja numa luminosa ascensão,
tal como eu fiz, durante dez minutos e gravei em vídeo, neste
interim entre a sua desincarnação física - que foi calma e
desprendida, diante da estante dos seus livros preferidos e da qual
peguei na altura num do Herberto Hélder, um dos seus autores preferidos e abri
à sorte, o istixara persa, uma página lendo-lhe o início dum poema
que referencia um dos míticos antepassados de muitos portugueses,
Carlos Magno -, e a velada a realizar-se Quarta-feira, 26
de Junho, a partir das 18 horas, e missa a 27, às 15 horas, na Basílica da Estrela, consagrada
ao sagrado coração de Jesus, e que encontrará num barro português
também no vídeo-áudio (pois é na realidade para se ouvir e sentir), e que desejamos que esteja bem aceso na sua e nossa alma...
Ps.Acrescente-se que na noite anterior à sua partida, recebendo a extrema unção do padre Vasco Magalhães, primo direito da mulher, a propósito deste lhe falar em "descansar na mão de Deus", o Zé recitou de cor o belo soneto de Antero, Na mão de Deus, capacidade que ninguém da família sabia, e que manifesta a sua inserção na tradição anteriana e espiritual portuguesa, tal como eu já referira quanto a este poema: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2016/07/antero-de-quental-e-nos-na-mao-de-deus.html, e na sua utilização como bom encaminhar em: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2022/11/antero-de-quental-um-bardo-thodol-um.html.
Da Lua escorre leite levemente. Todo o céu é um mar de suavidade. Uma ligeira neblina, como um véu, religa-nos levemente ao Cosmos e a Lua parece um planeta misterioso.
As nuvens encavalitam-se sentindo-se atraídas para a Lua e desenham raios, réguas, esquadrias que tingem a Lua ao pôr do sol dum rosa amarelado tão belo que parece mesmo a aura lunar.
O céu-se abre-se subitamente e parece uma imensa vastidão fecundada por uma fraterna rainha presidindo a toda a vida e movimento na esfera lunar, terrestre e sub-terrestre.
Os pássaros chilreiam felizes enquanto as árvores não abanadas pelo vento contemplam a acção da Lua nelas próprias extasiadas com a seiva e o crescimento fortes.
Momentos tão calmos e sossegantes que todas as dificuldades e limites atenuam. Parece trazer neve nos seus seios, dona Lua, e um frio veste a terra ainda nua do Inverno.
Nuvens cinzentas da chuva e da electricidade transmutam-se em homenagem à Lua em alvas montanhas ao longe num desfile vagaroso e majestoso, conduzido por algum Anjo silencioso.
João Baptista Amâncio Graciasnasceu em Loutolin, Salsete, Índia, em 8-IV-1872, e veio a ser director da Fazenda do Estado da Índia e um dos grandes homens (tal como o seu irmão José António Ismael Gracias) da investigação histórica, arqueológica e etnográfica na Índia Portuguesa, pertencendo a agremiações científicas nacionais e estrangeiras, e deixando
uma vasta obra
destacando-se as investigações e publicações sobre os portugueses na Índia, tais Vasco da Gama, Afonso de Albuquerque, D. João de Castro, Jean Begun, mas também Almeida Garret, Akbar, Rabindranath Tagore e vários goeses ilustres, com uma muito extensa semeadura em jornais e
revistas, tais como Era Nova, Horas Vagas, Evolução, Revista Colonial, Boletim da
Sociedade de Geografia, o Mundo Português, e sobretudo O Oriente Português e o Boletim do Instituto Vasco da Gama. Viverá até 1950.
Ao escrever o Esboço Biografico do historiador Filipe Nery Xavier, e de quem foi um dos sucessores, no início da reedição doseu Bosquejo Histórico das Comunidades das aldeas dos Concelhos das Ilhas, Salsete e Bardez dada à luz em
1903 (já que a 1ª era de 1842), em três volumes, J. B. Amâncio Gracias testemunhou a sua grande cultura e amor à Índia e valorizou bastante o culto das efemérides históricas e da celebração
dos centenários das grandes almas da humanidade, pois optimisticamente
acreditava que o tempo das guerras e das armas findara e que seriam os princípios da Revolução Francesa - Igualdade, Liberdade e Fraternidade -, os livros, os exemplos e a sabedoria a reger os povos. A propósito do dito "só depois de mortos é que os grande seres são reconhecidos", escreve num belo português: «Sucede isso sempre com os homens de valor. A justiça é para eles tardia, parecendo que é nas trevas do túmulo, como num fundo negro uma projeção de luz, que destacam mais nítidas as irradiações dos espíritos de eleição, cuja obra se engrandece com o tempo, penetrando-os num dilúculo [romper do dia] da aurora da imortalidade e deslumbrando com os sulcos nitentíssimos [de niteo, brilhar] que deixam após si os olhares atónitos das gerações, rendidas de admiração e de respeito, podendo à justa aplicar-se-lhes a sublime frase que nos seus derradeiros momentos proferiu Hércules, quando, não podendo suportar o tormentos da túnica que trazia no corpo, se arrojou à fogueira: Sinto que me vou tornando um Deus.
Sim, a morte tem este condão, o de avultar e purificar tudo quanto é grande, transfigurar a personalidade e ser condição duma apoteose.
É por isso que a religião do saber, de longe a longe decreta as suas gratulações, do mesmo modo como a da Fé sagra, com hinos festivais, os apóstolos da virtude, os que martirizando o corpo conseguem opulentar a sua alma das mais lídimas alegrias.»
Traçando depois uma evolução da humanidade, talvez algo influenciado pela religião positivista de Augusto Comte, de uma 1ª época de valorização dos mais idosos, a que se seguiu a dos mais fortes, e depois a da realeza e o nascimento nobre, acreditou finalmente estar-se a entrar numa época em que os dirigentes ou governantes são «aqueles que não sacrificando as suas convicções às conveniências do momento enveredaram pela estrada real do dever inspirando-se nos princípios da justiça, orientando os seus actos pelo norte da honradez e rectidão.
É assim que se observa em toda a parte, nas grandes terras, como em pequenas agremiações políticas, uma nevrose de esforço, uma impaciência extraordinária em consagrar o merecimento, erguer altares ao génio, porque nem a idade, nem a força, nem o nascimento podem guiar o baixel dos nossos destinos no mar proceloso da vida a salvo dos escolhos que lhe embaraçam a rota.
É assim que se celebram os centenários dos granes vultos que exerceram a sua energia, a sua afectividade e a sua inteligência em proveito não só próprio senão também dos seus semelhantes.
O sentimento de veneração é inato ao homem, é uma das forças coordenadoras da sociedade e sem ele a ordem seria uma violência material e nunca um acordo harmónico das vontades.
Venera-se o objecto que nos vibra de moção a nossa afectividade; venera-se o que nos inspira sentimentos de medo [? Jehova, provavelmente] ou de amor, mas nada se nos impõe mais ao culto do que o génio e a virtude, a majestade da inteligência e a pureza da alma.»
Apoiando-se ainda na profecia de Augusto Comte escrita em carta de 20 de Maio de 1842, a Stuart Mil, a de que se iria dar uma crescente comemoração dos centenários dos grandes seres da humanidade «para acelerar o desenvolvimento moderno, conjuntamente mental e moral», considera que não será da indústria dos armamentos, mas sim «fundindo balas e canhões para estátuas do saber, da virtude, do altruísmo e da filosofia, demolindo mitos e lendas, abrindo de par em par as portas dos claustros e cenóbios em que o arrogante egoísmo clerical da meia-idades procurava monopolizar a instrução. O livro substituiu já as armas, é no gabinete do pensador, na cela do sábio, no studio do artista, que não no quartel da milícia ou nos arraiais dos generais que se dita hoje a formula para governar os povos. É por isso que se vai generalizando o culto dos homens que engrandecera a pátria, engrandecendo-se a si, que universalizaram as ideias e imprimiram à vida social uma acção construtiva, que dinamizaram a energia e o esforço dos seus conterrâneos, que, finalmente, contribuíram para o bem estar social por uma ideia, uma conquista, por uma intervenção oportuna, por qualquer sacrifício.» Bosquejo Histórico das Comunidades, 1903, 5-7 pp.
O Esboço Biographico de Filipe Nery Xavier, escrito por Amâncio Gracias, abrange cinquenta e cinco páginas valiosas, dos quais transcrevemos esse breves excertos iniciais, e nelas sumaria a historiografia portuguesa (e goesa, tais Bernardo Peres da Silva, Francisco Luís Gomes e Bernardo Francisco da Costa) da Índia e descreve os importantes trabalhos de Filipe Nery Xavier, pela «opulência da erudição» e «a cópia de documentos», mencionando ele ter trabalhado lúcida infatigavelmente até à morte ocorrida em 26 de maio de 1875, com 74 anos de vida fecundíssima. Anote-se por fim que o extenso e texto de José Maria de Sá, que são as Notas Preliminares, complementa e corrige, ao ser escrito 50 anos depois, o trabalho de Nery Xavier, fazendo até referências (p. 94) aos livros dos dez munis e dos sete rishis, bemcomo aos Vedas e à Purana Suta Sanhita. Encontra o Bosquejo Histórico das Comunidades das aldeas dos Concelhos das Ilhas, Salsete e Bardez em linha, no Internet Archive.