terça-feira, 30 de abril de 2024

Imagens de arte sacra da abadia de Santa Maria de Bouro, Amares, aquando do I Congresso Internacional de Espiritualidade e Mística. Abril 2024.

 A abadia de Santa Maria de Bouro, dos primórdios da nacionalidade e que pertenceu à Ordem de Cister, no concelho de Amares, encontra-se, sobretudo a igreja e sacristia, em restauro, estando parte do convento já a funcionar como Pousada. As treze fotografias iniciais são da sacristia, onde se destacam azulejos do séc. XVIII (época da quase totalidade do edifício) descrevendo a vida de S. Bento, algumas imagens de Jesus, Maria e uma santa e ainda frases simbólicas das qualidades divinas pintadas em caixotões belamente coloridos  no tecto. As restantes fotografias são do corpo da Igreja onde brilha um majestoso cadeiral, bastante talha dourada, belos altares e algumas pinturas capazes ainda hoje de suscitar devoção ao divino...


O mafarrico lançado às águas debaixo da ponte




Que Cristo ressuscite, ou brilhe mais em nós...


Sorores ou irmãs nossas, inspirai-nos...

Qual alma levitando na aspiração à fonte Divina

Lembrem-se mais de nós e do mundo espiritual segredam os Anjos pelos cantos das casas.

Uma fonte bem original, talvez com um anjo temperante controlando o animal do inconsciente


S. Bento exercendo a lectio divina, sobre o cadeiral, tão suave ao tacto, de pau santo. Quantos monges cistercienses se inspiraram no seu exemplo durante os ofícios? 

Um dos participantes no Congresso, e amigo de longa data, o psiquiatra transpessoal Mário Simões





Vive mais em ressurreição....

Belas imagens de arte sacra do Museu Pio XII, em Braga, tomadas aquando do I Congresso Internacional de Espiritualidade e Mística, Abril 2024.

Arcanjo Gabriel abençoando, painel de uma Anunciação, do séc. XVI.

Anjos adorantes da Natividade

    

Bela escultura de uma Natividade quinhentista, sugestiva da piedade materna e douta.

 Uma poderosa Nossa Senhora românica em posição bem unificadora e orante à Divindade.

Um Menino Jesus bom pastor dos corações e do Amor.

Uma poderosa Nossa Senhora românica...

Uma suave Nossa Senhora já gótica...

Jesus menino rei, imperador ou salvador do Mundo...

Maria Madalena, séc. XV-XVI.

Jesus, o ungido, ressuscitado da morte do corpo físico e visível no seu corpo espiritual abençoador

Cruzes processionais românicas e góticas. Em que cerimónias elevaram as almas ao alto?




Belos rosários de sincretismo indo-cristão em marfim e sementes...

Maria Madalena na arte indo-portuguesa como asceta ou yogini atenta à Palavra-vibração divina

Maria Madalena, boa pastora e recolhida asceta..

Um Calvário do séc. XVIII, muito cultuado em oratórios...

Morte ou dormição de Maria, mãe de Jesus, e sua ressurreição ou elevação em corpo de glória ao mundo espiritual, com Anjos de grande qualidade expressiva, num todo belamente colorido e devotamente muito impactante.  

Um ângulo excelente de visão sobre dois seres de grande paz...




Um S. Sebastião mártir, provavelmente do séc. XVI, muito invocado ao longo dos séculos, nomeadamente através registos, como protector ou curador de doenças contagiosas.




 Ide em paz e com o coração profundo e divino mais presente.      

segunda-feira, 29 de abril de 2024

Dara Shikoh, um sufi e mártir portador do Graal da ligação Divina e do comparativismo orientalista e ecuménico.

                           Dara Shikoh, um portador do santo Graal ecuménico.
                                                                 
 O príncipe mogol Dara Shikoh, filho primogénito do herdeiro ao trono mogol Shah Jahan (1592-1666) e da formosa persa Arjumand Banu, ou Mumtaz Mahal  (27 Abril 1593 – 17 Junho 1631), nasceu a 20 de Março, numa segunda-feira, em 1615, junto ao lago de Sagartal, perto de Ajmer, na Índia, então em grande parte sob o domínio do seu avô, o imperador mogol Jahangir (1569-1627), recebendo o nome Muhammad Dara Shikoh,  o qual o estimará muito até  deixar a Terra quando ele era um jovem de 12 anos, passando depois a  ser um valioso tutor, Mulla Abdul Latif Saharanpuri
Fora muito desejado, pois o  pai Shah Jahan ainda não tivera varão, e logo sucessor ou herdeiro, e a sua mãe, a mirífica Mumtaz Mahal, deu-o à luz em Ajmer, onde se instalara o  casal a fim de se propiciar um nascimento abençoado, tal como de alguns modos sucedeu, pois era uma cidade santificada, por nela ter morrido e vivido, e estando lá o túmulo, o grande mestre persa Moinuddin Chisti ou Mu'in al-Din Chishti (1143-1230), diante do qual oraram pelo nascimento de Dara, tivessem ou não já tal nome na mente. 
Veio a ter vários irmãos e irmãs, já que Mumtaz Mahal (29.10.1593 a 17.3.1631) gerou tanta descendência, quatorze crianças, que veio a morrer mártir de parto mas, pelo imenso amor que Shah Jahan sentia por ela, ficou imortalizada numa das sete maravilhas do mundo, o Taj Mahal.  Dara Shikok por sua vez teve grande amor pela sua mulher Nadira Banu Begum, filha do sultão Parvez Mizra (2º filho de Akbar, a quem não sucedera) e ainda sua prima, com quem casou em 1-II-1633 para sempre e unicamente, ao contrário dos seus antepassados que tiveram muitas mulheres, desconhecendo-se que influências ou génio pessoal se exerceu em tal escolha de fidelidade.
Nadira desenhada pelo seu amado Dara.
Entre as  irmãs e irmãos de Dara destacou-se a mais velha, Jahanara Begum (23/3/1614-6/9/1681), também alma mística, muito amiga de Dara e autora de uma biografia do mestre fundador da ordem Qadiria, o persa Abdul Qadir Al Gilani (23/3/1078 - 21/2/1166). 
Jahanara Begum 1641, she was'nt allowed to rule
Jahanara Begun, a irmã mais velha de Dara
 Nesta fraternidade ou Ordem Qadria ou Qadiriyya, Dara Shikoh foi iniciado pelo mestre  Mian ou Miyan Mir (11/8/1550 a 11/8/1635), em 1640,  e depois recebeu ainda ensinamentos e bênçãos do seu sucessor Mullahi Shah Badakshi (1591 a 10/10/1661).   Eles davam bastante importância ao desapego do mundo e ao amor a Deus através da meditação e oração, através da repetição duma fórmula, o zikr, a respiração (por exemplo, com a associação na expiração a La Illaha, e na inspiração a Illalah), a concentração interior e a audição do silêncio ou do som interno, prática esta desenvolvida por alguns yogis e sufis, e por Dara Shikoh, que a elogiou como o "Sultão das práticas".
Dara Shikoh, de cor de laranja, dialoga com Mian Mir e Mulla Shah
Dara Shikoh, ardente proponente da Unidade divina (tawid), num direcção até algo pancósmica, e da religião e via iniciática como meios de religação a Ela, grande leitor, praticante meditativo e agraciado místico, teria de gerar obras e assim em 164o dava a luz a sua primeira,  a Safinat-ul-Auliya, onde juntou as vidas e os melhores ditos de 33 mestres sufis da ordem Qadaria em que fora iniciado. O prefácio dela é uma preciosidade e traduzimos o início num artigo deste blogue, https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2023/03/dara-shikoh-um-principe-mogol-e-faquir.html. 
Seguiram-se mais quatro livros de vidas de santos e de conceitos e ensinamentos  do Islão, o Sakinat-ul-Auliya  em 1643, o Risala’i Haq Numa, em 1647,   o Tariqat-ul-Haqiqat, o Caminho para a Verdade, e o Hasanat-ul-Arifin, os Aforismos dos Santos,  em 1653, no qual ainda que consagrada ainda só aos santos e mestres do Islão, Dara Shikoh mostra o seu lado ecuménico ao citar uma verdade perene, e que devia ser sempre relembrada, do mestre indiano Sri Bawa Lal Das Bairagi com quem então dialogava: «Bawa Lal Mandiya é um perfeito Arif (místico);  não vi ninguém na comunidade hindu que seja igual a ele em majestade e firmeza. Ele disse-me: "Em cada comunidade há arifs e seres perfeitos (insan-i-kamil) através dos quais Deus partilha o conhecimento libertador ou salvífico".»
 Tal como seu bisavô Akbar (1542-1605), que encetara desde 1567 na Idabat Khan, a Casa da Adoração, em Fatepur Shikri, com os padres jesuítas vindos de Goa,  valiosos diálogos  ou mesmo debates acalorados, tal como os cronistas jesuítas e persas relatam, em que participavam jainas, zoroastros, sunis, shias e cristãos, Dara Shikoh deu-se  com mestres sufis, yogis indianos e o padre flamengo Henrique Busée, sendo realmente um ecuménico,  pioneiro do comparativismo religioso não só textual mas também frutificador internamente e nisto a sua lembrança será eternamente louvada e acolhida.  
Será em 1653 que a linha pioneira de comparativismo entre sufismo e yoga surge à luz com o seu diálogo com o Yogi Bawa Lal Das Bairagi, publicado no Mukalima-i-Dara Shikuh wa Baba Lal, onde relata os sete encontros que tiveram e as conclusões a que chegaram. 
                                           
   Dara Shikoh, pintor e poeta, deixou-nos o seu próprio Diwan, antologia de quartetos e ghazals,  que andou bastante tempo perdido, mas que hoje inspira almas no Caminho, tal como foi o meu caso em dois poemas que estão neste blogue. (https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2020/10/do-diwan-de-dara-shikoh-em-portugal-ii.html). 
        Oiçamos três dos seus quartetos:
 
                     «Não vimos um átomo separado do Sol,
                    cada gota de agua é o mar em si mesmo.
                    Com que nome se deve chamar a Verdade?
                - Cada nome que existe é um dos nomes de Deus.
 
Os que veem Deus no mundo espiritual,
deves saber, vêm-no primeiro neste mundo.
A visão de Deus é uniforme em ambos os mundos,
em cada momento o veem no visível e no íntimo.
 
O rosário falou-me numa língua estranha!
Disse: - Porque fazes a minha cabeça rolar?
Se fizesses em vez disso atenção ao teu coração,
conhecerias o objectivo subjacente à vida humana.»

                                                    Dara Shikoh - Wikipedia
Numa valiosa nota autobiográfica sobre o seu avanço no caminho interior, confessa-nos: «Este Dara Shikoh pertence à classe de devotos que são atraídos naturalmente para Deus, sem a realização de quaisquer austeridades. Ele veio a conhecer os mistérios da Divindade, através da graça dos santos e amigos de Deus. Beneficiou da sociedade desses Mestres, e investigou a verdade dos seus ensinamentos».
Dara Shikoh com sábios sufis...
 Bibliófilo bem diligente viajou e adquiriu muitos livros em persa,  árabe e  sânscrito ligados ao caminho espiritual e religioso, ao científico e poético, tendo mesmo fundado três bibliotecas em Srinagar (com um jardim especial, uma arte muito desenvolvida pelo seu avô), Delhi e Agra, esta com a parede em vidro e servindo de janela para o rio Yamuna. 
 Também o médico italiano, que esteve algumas vezes em Goa, Niccolao Manuci (1638-1717), deixou na sua Storia do Moghor, já que fora o médico particular de Shah Jahan e de Dara Shikoh, bastantes dados sobre a época e as duas grandes almas que eles eram, as quais liam muito tanto os poetas persas antigos e contemporâneos como os indianos, já que sabiam hindi, conhecendo-se alguns dos nomes dos indianos que mais privaram com eles, tais como Sundara Das, Acharya Kavindra e Chintamani.
Na sua linha pioneira de orientalista espiritual, Dara Shikoh fez traduzir em 1650 para persa, as principais pérolas da tradição indiana, o Yogavasistha, e a seguir a Bhagavad Gita, o Prabodha Chandrdhaya, a Lua Nascente do Conhecimento, de Krishna Misra, por Banvali Das, e o Ramayana por Ibn Har Karan. 
E ordenou e coordenou em 1657 a primeira  tradução de 50 das 108 Upanishads, denominada Sirr-i-Akbar (O Grande Segredo)  do sânscrito para persa, a qual veio a ser traduzida  na Índia para o latim pelo francês  Anquetil-Duperront (1731-1805), sendo impressa finalmente em Paris em 1801, tradução  que permitiu ao Ocidente conhecer esses textos mais profundos da espiritualidade indiana, sendo então admirados e comentados entusiasticamente por Schopenhauer, Schlegel e outros. 
 A tradução do Yoga Vasistha, um dos ensinamentos mais fortes de Yoga Advaita Vedanta, denominada em persa Jug Bashist, foi realizada por Dara Shikoh ter uma noite sonhado com o rishi (poeta vidente)  Vasistha e o avatar Ram Chandra (os dois dialogantes do poema), com Vasistha a pedir a Ram Chandra que abraçasse Dara Shikoh, o que ele fez, pedindo depois Vasistha que Sri Rama (ou Ram Chandra) desse algum prasad, ou doces abençoados, o que este ofereceu a Dara, que os comeu. Tratou-se duma "clara" iniciação yoguica recebida nos planos subtis por Dara Shikoh, que sentiu então que deveria traduzir a principal obra do grande e lendário Vasistha, o Ramayana.
Dara Shikoh escreveu ainda a Bússola da Verdade, de ensinamentos iniciáticos e, finalmente, em 1656, o Majma' ul-Bahrain, Acerca da Junção dos dois Oceanos, uma das primeiras obras de religiões comparadas, no caso sufismo islâmico e yoga vedanta indiano, que traduzi do inglês e comentei em vídeos no Youtube.
Entre os sábios ou pandits indianos que acompanhavam Dara na sua meritória tarefa de aproximar Islão e Sanatana Dharma, tais como Jaganath Mishra, Pandit Kavindracharya  Banwali Das, houve um  que quando ele morreu foi contratado pelo famoso viajante François Bernier (1620-1688), e peregrinou com este três anos, apresentando-o a outros brâmanes, de que Bernier dá testemunhos  na sua famosa obra publicada em 1659 Voyages (...) , no fundo continuando a missão ecuménica do seu senhor Dara Shikoh e na qual de certo modo François Bernier colaborou.
Na luta pela sucessão ao trono mogol de Shah Jahan, quando este adoece em 1657,  desencadeada pelos irmãos Shah Sahuja e Murad,  Dara Shikuh manteve-se calmo, embora fosse  o legítimo herdeiro, tal como seu pai queria, mas após escaramuças e movimentações viria a ser derrotado em 30-V-1658, na batalha Samargad, perto de Agra, pelo irmão Aurangzeb, auxiliado por  Murad,  os quais conquistando Agra, a riquíssima capital,  depuseram o pai, tomando o poder Aurangzeb, em 8-VI-1658. Shaj Jahan recuperará a saúde e viverá preso num pequeno palácio com vista para o sublime Taj Mahal, que se construía em memória da sua mulher, até deixar a Terra a 22 de Janeiro de 1666.
Aurangzeb era
um ambicioso e criminoso, ortodoxo fanático e  cruel, e desde 1652 acusava  de infidelidade ao Islão Dara Shikoh devido ao seu interesse pelo hinduísmo e pelos textos de outras religiões, que de facto ele estudava e valorizava. Após mais batalhas, Dara, o seu filho Sipihr Shikoh e duas filhas e os seus fiéis, já em fuga, foram atraiçoados por um chefe afegão Junaid Khan Barozai (Jiwad Khan), que os entregou ao exército de Aurangzeb em 10/6/1659. Depois de ser humilhado desfilando com grilhetas em Agra, embora com Jiwad Khan a ser apupado e apedrejado já que povo amava Dara, foi assassinado por quatro dos seus esbirros e mutilada a sua cabeça em seguida pelo próprio Aurangzeb, na noite de 30 de Agosto, terminando assim a sua peregrinação como um mártir... Muita luz e amor para Dara! Séculos depois na Rússia, outra alma mística seria também martirizada pelas forças do mal, Daria Dugina. Que se possam encontra e dialogar! 
 
Fiquemos com este ensinamento do  luminoso Dara Shikoh extraído do Acerca da Junção dos Dois Oceanos, que traduzi e li, encontrando-se no Youtube: 
«Todo o que adormece, e vagueia pelo mundo de Malakut (o mundo subtil ou imaginal), quer esteja consciente dos seus ambientes, ou inconsciente, faz isso porque a sua alma assume um corpo muito refinado, que é a exacta contra-parte do corpo físico, com olhos, ouvidos, língua e todos os órgãos de sentidos e órgãos funcionais internos, sem contudo ter os órgãos físicos externos de carne e sangue. 
Quem quer que tenha o seu coração refinado, e despertou, vê neste mundo subtil ou imagina, Malakut, formas refinadas e belas, ouve música maravilhosa e come deliciosos alimentos. Mas aquele cujo coração está carregado de grosseria e não está desperto, vê formas horrorosas e ouve sons desagradáveis, durante os seus devaneios no sonho. 
 Portanto, ó amigo! Se praticares com diligência e perseverança, os métodos de meditação descritos mais à frente, a ferrugem do teu coração será removida, e o espelho da tua alma tornar-se-à brilhante, e verás reflectido nele as formas dos profetas, santos e anjos. (...)». 
E eis-nos com uma boa descrição da meditação e da vida onírica alcançad, quando diminuídos ou dissipados os véus, poeira, dureza ou ferrugem do coração  os olhos e espelhos da alma se abrem às visões, visitações e locuções luminosas, que tanto abençoam seja os místicos persas e mogóis, seja as sorores místicas portuguesas, certamente conforme o mundo imaginal e os santos ou mestres a que estão ligados.
 Concluamos com alguns ensinamentos resumidos do seu concentrado manual acerca de várias doutrinas do Islão, o  Tariqat-ul-Haqiqat: 
 «Como o mundo é transiente e ilusório, o desapego ou desprendimento é fundamental. Mas como a vida terrena é curta é importante a boa utilização do tempo, para se vencer a ignorância e atingir-se o conhecimento e a felicidade. 
Para que a fonte do coração seja preservada das ambições e ilusões mundanas, convém que a mente e alma  não estejam sempre desassossegadas mas que sejam antes espelhos calmos e puros.
Para se chegar ou estar mais no Eu verdadeiro há que renunciar-se aos impulsos e obstáculos egoístas, às hipocrisias e dúvidas e ser-se o mais sincero possível de modo a ver-nos e aos outros como seres de luz, seres iluminados.»

 
                                          

segunda-feira, 22 de abril de 2024

Místicas portuguesas dos séc. XVI a XVIII: contextos e ensinamentos. Resumo (ampliado) da comunicação ao I Congresso Internacional de Espiritualidade e Mística, 24-27 de Abril, no Bom Jesus do Monte.

            

"Místicas portuguesas dos séc. XVI a XVIII: contextos e ensinamentos." A comunicação de Pedro Teixeira da Mota, será no dia 26, à tarde.

«Nas raízes etimológicas, gregas, da nossa palavra mística, encontraremos os mistés, os iniciados ou iniciadas, que praticavam o silêncio não só receptivo preparatório como até posterior,  às elevadas e íntimas experiências, quase indizíveis, obtidas no decurso da preparação e celebração dos Mistérios.

A realização mística implica que, para além do corpo físico, ou do que vemos e experienciamos com os cinco sentidos e o cérebro-mente, existem outros níveis de ser e dimensões que alcançam ou chegam até às profundezas, alturas e extensões ilimitadas do Divino, as quais exigem contudo, para se  revelarem parcialmente e se  tornarem compreensíveis, que adoptemos modos de vida e práticas psico-espirituais correctas que nos permitam merecer as graças desses estados de auto-consciência, discernimento, desprendimento, paz, expansão e união, que poderemos denominar místicos, iniciáticos, santificadores, iluminativos, unitivos...

O místico é pois quem experienciou  de uma forma ou outra o que poderemos designar por sagrado, em sentido lato oposto ao profano e, em sentidos mais precisos, a alma subtil, o espírito, o mundo espiritual, o divino, a Divindade. Mas pode designar ainda quem tem apenas a tendência, aspiração e sensibilidade para tal religação espiritual, harmonizadora, aperfeiçoadora, amorosa, unitiva.

No Ocidente Cristão Português, a tradição mística é muito antiga e ininterrupta, e vem desde os eremitas da serra de Ossa até às milhares  e milhares de sorores e almas religiosas que se protegeram em mosteiros e conventos e aí puderam soltar a ave-balão do seu coração e alma, sem os pesos dos envolvimentos e preocupações mundanas, rumo às alturas ora devocionais e piedosas ora mesmo às místicas e visionárias de que tantos testemunhos nos ficaram: doutrinários, auto-biográficos, hagiográficos, literários, históricos, artísticos.

Esta comunicação contextualiza o ambiente espiritual europeu e português e baseia-se no estudo das vidas e ensinamentos de algumas místicas portuguesas dos séculos XVI a XVIII, e em especial da época do Barroco, sorores de diversas ordens, que se destacaram  qualitativamente na sua vivência e magistério conventual pela ascese, virtudes, práticas devocionais,  caridade e amor,  graças, visões, uniões e êxtases, ou ainda pela poesia, escrita e doutrina, por vezes com forte influência na sociedade e assenta no que elas realizaram, ou assim se fez crer. A fonte documental principal são doze livros dos séc. XVII-XVIII  publicados sobre elas, e mais um ou dois pequenos manuscritos de relações das suas vidas, bem como alguns dos livros de espiritualidade desses tempos áureos de tanta alma consagrada em comum ao trabalho e realização religiosa e espiritual.

Espera-se que se avalie melhor a qualidade da sabedoria, do amor e da dádiva ao sagrado e ao Divino, bem como da operatividade actual das vias e metodologias, em especial na interiorização e religação espiritual e divina, que tais místicas portugueses seguiram em vidas tão abnegadas, luminosas e exemplares, e das quais partilharemos e comentaremos alguns  ensinamentos mais luminosos.

Uma das místicas que evocaremos: Soror Isabel do Menino Jesus, (1673- 1752) natural do Marvão, professa e abadessa  no mosteiro da Ordem de Sta. Clara em Portalegre.