Dara Shikoh, um portador do santo Graal ecuménico.
O
príncipe mogol Dara Shikoh, filho primogénito do herdeiro ao trono mogol Shah Jahan
(1592-1666) e da formosa persa Arjumand Banu, ou Mumtaz Mahal (27 Abril 1593 – 17 Junho 1631),
nasceu a 20 de Março, numa segunda-feira, em 1615, junto ao lago de Sagartal, perto de Ajmer, na
Índia, então em grande parte sob o domínio do seu avô, o imperador mogol Jahangir (1569-1627), recebendo o nome Muhammad Dara Shikoh, o qual
o estimará muito até deixar a Terra quando ele era um jovem de 12 anos, passando depois a ser um valioso tutor, Mulla Abdul Latif Saharanpuri.
Fora muito desejado, pois o pai Shah Jahan ainda não tivera varão, e logo sucessor ou herdeiro, e a sua mãe, a mirífica Mumtaz Mahal, deu-o à luz em Ajmer, onde se instalara o casal a fim de se propiciar um nascimento abençoado, tal como de alguns modos sucedeu, pois era uma cidade santificada, por nela ter morrido e vivido, e estando lá o túmulo, o grande mestre persa Moinuddin Chisti ou Mu'in al-Din Chishti (1143-1230), diante do qual oraram pelo nascimento de Dara, tivessem ou não já tal nome na mente.
Veio a ter vários irmãos e irmãs,
já que Mumtaz Mahal (29.10.1593 a 17.3.1631) gerou tanta descendência, quatorze crianças, que veio a morrer mártir de parto mas, pelo imenso amor que Shah Jahan sentia por ela, ficou imortalizada numa das sete maravilhas do mundo, o Taj Mahal. Dara Shikok por sua vez teve grande amor pela sua mulher Nadira
Banu Begum, filha do sultão Parvez Mizra (2º filho de Akbar, a quem não
sucedera) e ainda sua prima, com quem casou em
1-II-1633 para sempre e unicamente, ao contrário dos seus antepassados que tiveram muitas mulheres, desconhecendo-se que influências ou génio pessoal se exerceu em tal escolha de fidelidade.
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| Nadira desenhada pelo seu amado Dara. |
| Jahanara Begun, a irmã mais velha de Dara |
Nesta fraternidade ou Ordem Qadria ou Qadiriyya, Dara Shikoh foi iniciado pelo mestre Mian ou Miyan Mir (11/8/1550 a
11/8/1635), em 1640, e
depois recebeu ainda ensinamentos e bênçãos do seu sucessor Mullahi
Shah Badakshi (1591 a 10/10/1661). Eles davam bastante
importância ao desapego do mundo e ao amor a Deus através da meditação e oração, através da repetição duma fórmula, o zikr, a respiração (por exemplo, com a associação
na expiração a La Illaha, e na inspiração a Illalah), a
concentração interior e a audição do silêncio ou do som interno,
prática esta desenvolvida por alguns yogis e sufis, e por Dara Shikoh, que a elogiou como o "Sultão das práticas".
Dara Shikoh,
ardente proponente da Unidade divina (tawid), num direcção até algo pancósmica, e da religião e via iniciática
como meios de religação a Ela, grande leitor, praticante meditativo
e agraciado místico, teria de gerar obras e assim em 164o dava a luz a sua primeira, a Safinat-ul-Auliya, onde juntou as vidas e os melhores ditos de 33
mestres sufis da ordem Qadaria em que fora iniciado. O prefácio dela é uma preciosidade e traduzimos o início num artigo deste blogue,
https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2023/03/dara-shikoh-um-principe-mogol-e-faquir.html.
Seguiram-se mais quatro livros de vidas de santos e de conceitos e ensinamentos do Islão, o Sakinat-ul-Auliya em 1643, o
Risala’i Haq Numa, em 1647, o Tariqat-ul-Haqiqat, o Caminho para a Verdade, e o
Hasanat-ul-Arifin, os Aforismos dos Santos, em 1653, no qual ainda que consagrada ainda só aos santos e mestres do Islão, Dara Shikoh mostra o seu lado ecuménico ao citar uma verdade perene, e que devia ser sempre relembrada, do mestre indiano Sri Bawa Lal Das Bairagi com quem então dialogava: «Bawa Lal Mandiya é um
perfeito Arif (místico); não vi ninguém na comunidade hindu que seja igual a ele em majestade e firmeza. Ele disse-me: "Em cada comunidade há arifs e seres perfeitos (insan-i-kamil) através dos quais Deus partilha o conhecimento libertador ou salvífico".»
Tal como seu
bisavô Akbar (1542-1605), que encetara desde 1567 na Idabat Khan, a Casa da Adoração, em Fatepur Shikri, com os padres jesuítas vindos de Goa, valiosos diálogos ou mesmo debates acalorados, tal como os cronistas jesuítas e persas relatam, em que participavam jainas, zoroastros, sunis, shias
e cristãos, Dara Shikoh deu-se com mestres sufis, yogis
indianos e o padre flamengo Henrique Busée, sendo realmente um
ecuménico, pioneiro do comparativismo religioso não só textual mas
também frutificador
internamente e nisto a sua lembrança será eternamente louvada e acolhida.
Será em 1653 que a linha pioneira de comparativismo entre sufismo e yoga surge à luz com o seu diálogo com o Yogi Bawa Lal Das Bairagi, publicado no Mukalima-i-Dara Shikuh wa Baba Lal, onde relata os sete encontros que tiveram e as conclusões a que chegaram.

Dara Shikoh, pintor e poeta, deixou-nos o seu
próprio Diwan, antologia de quartetos e ghazals, que andou
bastante tempo perdido, mas que hoje inspira almas no Caminho, tal como
foi o meu caso em dois poemas que estão neste blogue. (https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2020/10/do-diwan-de-dara-shikoh-em-portugal-ii.html).
Oiçamos três dos seus quartetos:
«Não vimos um átomo separado do Sol,
cada gota de agua é o mar em si mesmo.
Com que nome se deve chamar a Verdade?
- Cada nome que existe é um dos nomes de Deus.
cada gota de agua é o mar em si mesmo.
Com que nome se deve chamar a Verdade?
- Cada nome que existe é um dos nomes de Deus.
Os que veem Deus no mundo espiritual,
deves saber, vêm-no primeiro neste mundo.
A visão de Deus é uniforme em ambos os mundos,
em cada momento o veem no visível e no íntimo.
A visão de Deus é uniforme em ambos os mundos,
em cada momento o veem no visível e no íntimo.
O rosário falou-me numa língua estranha!
Disse: - Porque fazes a minha cabeça rolar?
Se fizesses em vez disso atenção ao teu coração,
conhecerias o objectivo subjacente à vida humana.»

Numa valiosa nota autobiográfica sobre o seu avanço no caminho interior, confessa-nos: «Este Dara Shikoh pertence à classe
de devotos que são atraídos naturalmente para Deus, sem a realização de
quaisquer austeridades. Ele veio a conhecer os mistérios da Divindade,
através da graça dos santos e amigos de Deus. Beneficiou da sociedade
desses Mestres, e investigou a verdade dos seus ensinamentos».
Bibliófilo bem diligente viajou e adquiriu muitos livros em persa, árabe e sânscrito ligados ao caminho espiritual e religioso, ao científico e poético, tendo mesmo fundado três bibliotecas em Srinagar (com um jardim especial, uma arte muito desenvolvida pelo seu avô), Delhi e Agra, esta com a parede em vidro e servindo de janela para o rio Yamuna.
Também o médico italiano, que esteve algumas vezes em Goa, Niccolao Manuci (1638-1717), deixou na sua Storia do Moghor,
já que fora o médico particular de Shah Jahan e de Dara Shikoh, bastantes
dados sobre a época e as duas grandes almas que eles eram, as quais liam muito tanto os poetas persas antigos e
contemporâneos como os indianos, já que sabiam hindi, conhecendo-se
alguns dos nomes dos indianos que mais privaram com eles, tais como
Sundara Das, Acharya Kavindra e Chintamani.
Na sua linha pioneira de orientalista espiritual, Dara Shikoh fez traduzir em 1650 para persa, as principais pérolas da tradição indiana, o Yogavasistha, e a seguir a Bhagavad Gita, o Prabodha Chandrdhaya, a Lua Nascente do Conhecimento, de Krishna Misra, por Banvali Das, e o Ramayana por Ibn Har Karan.
E ordenou e coordenou em 1657 a primeira tradução de 50 das 108 Upanishads, denominada Sirr-i-Akbar
(O Grande Segredo) do sânscrito para persa, a qual veio a ser traduzida na Índia para o latim pelo francês
Anquetil-Duperront (1731-1805), sendo impressa finalmente em Paris em 1801, tradução que permitiu ao Ocidente conhecer esses textos mais profundos da espiritualidade indiana, sendo então admirados
e comentados entusiasticamente por Schopenhauer, Schlegel e outros.
A tradução do Yoga Vasistha, um dos ensinamentos mais fortes de Yoga Advaita Vedanta, denominada em persa Jug Bashist,
foi realizada por Dara Shikoh ter uma noite sonhado com o rishi (poeta
vidente) Vasistha e o avatar Ram Chandra (os dois dialogantes do
poema), com Vasistha a pedir a Ram Chandra que abraçasse Dara
Shikoh, o que ele fez, pedindo depois Vasistha que Sri Rama (ou Ram Chandra) desse algum prasad,
ou doces abençoados, o que este ofereceu a Dara, que os comeu. Tratou-se duma "clara" iniciação yoguica recebida nos planos subtis por Dara Shikoh, que sentiu então que deveria traduzir a principal obra do grande e lendário Vasistha, o Ramayana.
Dara Shikoh escreveu ainda a Bússola da Verdade, de ensinamentos iniciáticos e, finalmente, em 1656, o Majma' ul-Bahrain, Acerca da Junção dos dois Oceanos, uma das primeiras obras de religiões comparadas, no caso sufismo islâmico e yoga vedanta indiano, que traduzi do inglês e comentei em vídeos no Youtube.
Entre os sábios ou pandits indianos que acompanhavam Dara na sua meritória tarefa de aproximar Islão e Sanatana Dharma, tais como Jaganath Mishra, Pandit Kavindracharya Banwali Das, houve um que quando ele morreu foi contratado
pelo famoso viajante François Bernier (1620-1688), e peregrinou com este três anos,
apresentando-o a outros brâmanes, de que Bernier dá testemunhos na sua
famosa obra publicada em 1659 Voyages (...) , no fundo continuando a missão ecuménica do seu senhor Dara Shikoh e na qual de certo modo François Bernier colaborou.
Na
luta pela
sucessão ao trono mogol de Shah Jahan, quando este adoece em 1657, desencadeada pelos irmãos Shah Sahuja e Murad, Dara Shikuh manteve-se calmo,
embora fosse o legítimo herdeiro, tal como seu pai queria, mas após escaramuças e movimentações viria a ser derrotado em 30-V-1658,
na batalha Samargad, perto de Agra, pelo irmão Aurangzeb,
auxiliado por Murad, os quais conquistando Agra, a riquíssima capital, depuseram o pai, tomando o poder Aurangzeb,
em 8-VI-1658. Shaj Jahan recuperará a saúde e viverá preso num pequeno
palácio com vista para o sublime Taj Mahal, que se construía em memória da sua mulher, até deixar a Terra a 22 de
Janeiro de 1666.
Aurangzeb era um
ambicioso e criminoso, ortodoxo fanático e cruel, e desde 1652
acusava de infidelidade ao Islão Dara Shikoh devido ao seu interesse pelo hinduísmo e pelos textos de outras religiões, que de facto ele estudava
e valorizava. Após mais batalhas, Dara, o seu filho Sipihr
Shikoh e duas filhas e os seus fiéis, já em fuga, foram atraiçoados por
um chefe afegão Junaid Khan Barozai (Jiwad Khan),
que os entregou ao exército de Aurangzeb em 10/6/1659. Depois
de ser humilhado desfilando com grilhetas em Agra, embora com Jiwad Khan a ser
apupado e apedrejado já que povo amava Dara, foi assassinado por
quatro dos seus esbirros e mutilada a sua cabeça em seguida pelo próprio
Aurangzeb, na noite de 30 de Agosto, terminando assim a sua
peregrinação como um mártir... Muita luz e amor para Dara! Séculos depois na Rússia, outra alma mística seria também martirizada pelas forças do mal, Daria Dugina. Que se possam encontra e dialogar!
Fiquemos com este ensinamento do luminoso Dara Shikoh extraído do Acerca da Junção dos Dois Oceanos, que traduzi e li, encontrando-se no Youtube:
«Todo o que adormece, e vagueia pelo mundo de Malakut (o
mundo subtil ou imaginal), quer esteja consciente dos seus ambientes, ou
inconsciente, faz isso porque a sua alma assume um corpo muito refinado,
que é a exacta contra-parte do corpo físico, com olhos, ouvidos, língua
e todos os órgãos de sentidos e órgãos funcionais internos, sem contudo
ter os órgãos físicos externos de carne e sangue.
Quem quer que tenha o seu coração refinado, e despertou, vê neste mundo subtil ou imagina, Malakut,
formas refinadas e belas, ouve música maravilhosa e come deliciosos
alimentos. Mas aquele cujo coração está carregado de grosseria e não
está desperto, vê formas horrorosas e ouve sons desagradáveis, durante
os seus devaneios no sonho.
Portanto,
ó amigo! Se praticares com diligência e perseverança, os métodos de
meditação descritos mais à frente, a ferrugem do teu coração será
removida, e o espelho da tua alma tornar-se-à brilhante, e verás
reflectido nele as formas dos profetas, santos e anjos. (...)».
E eis-nos com uma boa descrição da meditação e da vida onírica alcançad, quando diminuídos ou dissipados os véus, poeira, dureza ou ferrugem do coração os olhos e espelhos da alma se abrem às visões, visitações e locuções luminosas, que tanto abençoam seja os místicos persas e mogóis, seja as sorores místicas portuguesas, certamente conforme o mundo imaginal e os santos ou mestres a que estão ligados.
Concluamos com alguns ensinamentos resumidos do seu concentrado manual acerca de várias doutrinas do Islão, o Tariqat-ul-Haqiqat:
«Como o mundo é transiente e ilusório, o desapego ou desprendimento é fundamental. Mas como a vida terrena é curta é importante a boa utilização do tempo, para se vencer a ignorância e atingir-se o conhecimento e a felicidade.
«Como o mundo é transiente e ilusório, o desapego ou desprendimento é fundamental. Mas como a vida terrena é curta é importante a boa utilização do tempo, para se vencer a ignorância e atingir-se o conhecimento e a felicidade.
Para que a fonte do coração seja preservada das ambições e ilusões
mundanas, convém que a mente e alma não estejam sempre desassossegadas mas que sejam antes espelhos calmos e puros.
Para se chegar ou estar mais no Eu verdadeiro há que renunciar-se aos impulsos e obstáculos egoístas, às hipocrisias e dúvidas e ser-se o mais sincero possível de modo a ver-nos e aos outros como seres de luz, seres iluminados.»
Para se chegar ou estar mais no Eu verdadeiro há que renunciar-se aos impulsos e obstáculos egoístas, às hipocrisias e dúvidas e ser-se o mais sincero possível de modo a ver-nos e aos outros como seres de luz, seres iluminados.»







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