segunda-feira, 8 de março de 2021

Uma invocação da deusa grega da saúde, Hygia: "O Templo de Hygia ou a saúde publica influída pelos governos", de Pedro Nolasco da Cunha. Da sua actualidade...

 Hygia ou Higeia é o nome de uma deusa grega pouco conhecida mas que até mereceria hoje ser mais cultuada, pois era e de certos modos é um nome de invocação dos poderes iluminativos e curativos da consciência e da providência Divina,  que estão acima e dentro de nós e aos quais podemos aceder pela oração, a fé, a meditação, a contemplação, o esforço e, sobretudo, se apoiados na sabedoria da ordem da natureza e da higiene correspondente.

Hygia, Hygea ou Hygeia era a deusa da saúde, de certo modo a contraparte feminina do deus Esculápio, e tanto ligada com a prevenção como com as mezinhas, os medicamentos da natureza, as ervas medicinais e poções, vindo a tornar-se no Ocidente a patrona da farmácia, representada em geral com um vaso ou graal e a serpente da energia vital.

 Não podemos pois estranhar que ela ao longo dos séculos se mantivesse reverenciada, invocada e cultuada, com belas estátuas clássicas e, mesmo após a extinção da religiosidade greco-romana,  ei-la, por exemplo, representada no mosteiro beneditino de Melk, Áustria, numa bela escultura em madeira do começo do séc. XVIII, presidindo ou abençoando na biblioteca, que é em si na realidade uma casa de saúde onde se exerce a biblioterapia.

Sobreviveu Hygia também em alguns nomes, tal como Higierna, que por acaso foi o da minha mãe, ou em Higino, que era o pai da minha avó materna, um artista (ver Higino da Costa Paulino, no blogue), ou até, mantricamente, nas Lígias, e para estas almas invoco as bênçãos da Deusa e da Divindade, da qual ela é uma sua face feminina.

Sobreviveu também na palavra hoje tão falada, ou por vezes manipulada, de higiene. A higiene pública, a higiene individual: como nos devemos cuidar em termos gerais e naturais para estarmos em saúde e logo em paz, e logo sermos seres harmonizando-se e harmonizadores,  capazes de nos relacionarmos correctamente e de nos religarmos salutarmente, espiritualmente e divinamente.

Quantos milhares de teorias e de propostas de higiene existem, quantas são as que praticamos, quais as que devemos ainda aprender e experimentar, eis questões que nos desafiam, e mais do que nunca nestes tempos em que o nosso sistema imunitário tem de estar bem fluido e forte para resistir aos vírus e a tanta onda artificial, emocional e mental perturbadora, manipuladora, aterrorizadora...

Não vamos agora  apresentar receitas de ervas e mezinhas da farmacopeia tradicional, que em certos casos nasceram sob a égide da Hygia, embora haja indicações valiosas da nossa sabedoria popular galaico-portuguesa nesse sentido, e trabalhadas ainda nos nossos dias com bons resultados. Vamos sim  recuar uns anos a um elo da Tradição espiritual portuguesa, para receber forças do passado, para agirmos bem no presente e gerarmos e colhermos um futuro melhor.

De Vicente Pedro Nolasco  da Cunha (Caldas da Rainha, 1777-Lisboa, 1844), formado em Ciências na Universidade de Coimbra, um liberal amigo de Bocage, que andou emigrado pela Europa e foi o principal redactor e fundador em Londres, em 1811, do jornal literário e político O Investigador português em Inglaterra, vamos apresentar ou transcrever  uma obra sua dada amorosamente à luz, porém anonimamente em Lisboa, em 1837, consagrada a Hygia, a deusa da saúde, e intitulada O Templo de Hygia, ou a saúde publica influida pelos governos, um título muito actual pois todos temos visto a importância das decisões dos governos na saúde dos  seus cidadãos, sobretudo nestes tempos de crises e de medidas de tão díspares intencionalidades. O exemplar é um in-8º de 26 págs., e tem a nota de posse de Faustino de Paiva Sá Nogueira, e foi envolto num papel rosa...

                                        

Publico-o no dia 8 de Março de 2021, no dia da Mulher, pois Hygia é ainda um arquétipo activo para a mulher da natureza, a conhecedora das ervas e mezinhas, a bruxa, feiticeira, meiga ou curadora, ou ainda a pitonisa e a sibila, mas também para a mãe de família, a enfermeira, a médica, a trabalhadora, a lutadora e amante, em suma, a Mulher. 

Com as suas aspirações e ensinamentos, com mantras ou orações, mostrando um conhecimento científico, um discernimento do bem e do mal, e  uma inspiração anímica da harmonia do microcosmo com o macrocosmos segundo os ensinamentos ou a fala de Hygia, a obra é como um  livrinho revelado: 

                                  

                                       

 «Nos quícios d'ouro as bronzeas portas rangem.    

E o tempo se abre consagrado ao Numem 

Custódio da Saúde - Eis já patente

O venerando, excelso Santuário,

Que dos seus mais recônditos arcanos

Nenhum veda a meus olhos. - Corro às aras,

A Deusa me apresento; e com profundo, 

E nobre acatamento assim suplico:

Celeste  Hygia, da Saúde Guarda,

Que não só a mantens, mas que a restauras,

Escuta os votos meus, teu sacro influxo

A mim, e ao meu país benigna outorga. 


     - Sacerdote das Musas, pois que Vate

És também meu Ministro; me responde

A voz do Santuário - Eu te concedo

O que tu pedes justo - Ouve, e publica

Segredos, que a Verdade aqui revela

Aos sinceros mortais, que ouvi-la prezam.

Mas primeiro que tudo advertir deves

Que tempo, e esforço perdes, se pretendes

Moléstias corrigir que têm por causa

Vão saber, sistemática ignorância.

Erros o vão saber somente gera,

Que o lume da Razão jamais dissipa.

Contumaz a Ignorância, e capricho

Todo o socorro enjeita das Ciências.

Os Homens são perversos, porque ignoram

Seus grandes interesses, que a Verdade

Só lhes pode mostrar, pois não desune

O bem particular da geral dita.

Sabe isto o mundo; e de segui-lo foge.

Já disse antigo Vate em grande metro

- Louva-se a probidade, e ela arrefece. -

Porque assim - Vou dizer-te - Atende um pouco.

O mal físico existe - A dor o mostra.

Existe o mal moral - Crimes o atestam.

O mal tem pois duas nascentes certas.

A origem do primeiro examinemos,

E os meios de extingui-lo, ou mitigá-lo.

As causas do segundo investigando

O remédio melhor lhe apresentemos.

Mortal, antes de tudo, olha onde habitas.

Da terra albergue teu, mede as distâncias,

Suas diversas índoles observa.

Nos trópicos calor, frio nos pólos

A tempérie do ar, e as zonas formam.

Que da orgânica vida o curso regem,

Altas montanhas, e profundos vales,

Lentos regatos, caudalosos rios

Campestres plainos, densos arvoredos, 

Eléctrica fluxão, que a chuva, o raio

Dos ares desenvolve, os meteoros.

Dos pólos a magnética torrente,

Vizinhanças do mar, distâncias dele

Tudo influi em teu corpo, e seu tecido

E a sua vária condição produzem».

Acerca da galvanoplastia pré-natal:

«Cumpre portanto não turbar o estado

Da vida incipiente com movimentos

Estranhos, com paixões veementes de alma.

Por isso outrora os Magos do Oriente

As grávidas mulheres entretinham

Com música, e passeios pelo campo,

Com gratas sensações, que as distraiam

De vivas dores, reflexões acerbas...»

Apelo de Hygia à amamentação:

«Tágides belas, Lisbonenses damas,

Eu me dirijo a vós, não por taxar-vos

De falta de ternura - Se de Hygia

Faltais ao melhor culto, aos Céus mais grato

Ao doce emprego de criar um filho,

Culpa vossa não é, culpa é dos vossos

Avós, que a vossa têmpera amoleceram

De um cego luxo pelo falso encanto.-»

E face à dificuldade, apela à solidariedade:

«Se não vos move a simpatia humana

De Hygia o culto vos persuada ao menos.»

Dos malefícios e benefícios das águas e ares: 

«Doutra parte prazeres nos fornece,

Conduzindo as suavíssimas fragrâncias

Das balsâmicas plantas florescentes

Que os sentidos alentam, que os refrescam

Aromas tão somente, que o princípio

Tem acidificante. Exemplo - O Cravo

das flores rei; sua rainha a Rosa.

E do norte o Alecrim; mas não dos cheiros

Em que vem disfarçado o Gás nocivo

Produtor de histerismo, e cefalgia

Qual Jasmim, Mangerona, ou Bergamota,

Alfazema, ou pastilhas odorantes.

Damas Francesas, desterrai perfumes

Que tão caros vendei à insânia alheia;

Do Tejo as Ninfas têm do pátrio rio

Os cristais, que banhar seus membros devem.

De vossos arrebiques não carecem

Para a cultura das nativas graças»

Em seguida avança Hygia, pela voz de Pedro  Nolasco da Cunha, um cavaleiro do Amor e da sabedoria, a ensinar a arte de bem viver, examinando e enaltecendo a música,  a palavra  verdadeira, a democracia e o governo justo das cidades etc., mas, como já vai longo o texto, ficará para uma segunda parte...


 Oremos de novo, ou por fim, à Divindade nesta sua face:

"Celeste  Hygia, da Saúde Guarda,

Que não só a manténs, mas que a restauras,

Escuta os votos meus, teu sacro influxo

                        A mim, e ao meu país benigna outorga."

quinta-feira, 4 de março de 2021

"Orpheu Portugal, e o Homem do Futuro." Uma carta para Dalila Pereira da Costa, reencontrada e agora enviada no dia do seu aniversário.

 Tendo encontrado entre os meus papéis uma carta para a Dalila Pereira da Costa,  escrita na quinta do Gilde, S. Torcato, Guimarães, após ter lido o seu folheto que me enviara, Orpheu Portugal e o Homem do Futuro, de 1978, resolvi agora transcrevê-la e assim enviar-lha, no seu aniversário, para os planos espirituais, com muito amor e aspiração de realização espiritual e divina!   Vai com uma fotografia inédita da Dalila, já com 91 anos fabulosos, de 2009, com a Sandra Pinheiro, três anos antes de deixar a terra e regressar aos mundos espirituais, em 2 de Março de 2012.  Que ela nos inspire...

Orpheu Portugal e o Homem do Futuro é um pequeno texto escrito para Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, em 1977, no qual Dalila aborda o movimento sensacionista da revista Orpheu e do seu grupo, com uma hermenêutica altamente idealista e espiritual, assumindo que Fernando Pessoa fala como um profeta e apela à iniciação de Portugal e da Europa, a qual se faria pela busca ardente da imortalidade, assente na desintegração da individualidade, numa linha de Super-homem de Nietzche, e que dois poemas exprimem mais: «Desde a busca da alma borboleta de Para Além Doutro Oceano, até à proclamação final no Ultimatum do advento do Super-homem, se processará uma ascese individual, nacional e universal, como atingimento duma personalidade, seguida do seu ultrapassamento, ou negação, como estado vivido de suprema sabedoria»;  algo que na realidade pouquíssimos portugueses terão conseguido ao longo dos tempos, mas que Dalila na época algo mistagogicamente imaginou em Fernando Pessoa e nos poetas do Orpheu, apesar de terem «no consenso dos seus contemporâneos e conterrâneos, merecido a definição de cocainómanos, morfinómanos, loucos varridos», pois «esta aventura do Orpheu e supremamente de Pessoa surgindo-nos agora como uma das formas mais altas que tomou a aventura espiritual europeia do nosso século, e justamente entre nós.» 

Exagerou, e enganou-se também na nova Europa (quem poderia prever então a funesta União Europeia dos globalistas trans-infrahumanistas que destruiria nações e géneros, almas e tradições?) que nasceria graças ao contributo português, mesmo que unido ao Brasil, ou seja: «E assim nesta esperança profética, se seguirá a reapossesão da alma europeia. Esta sendo realizada pela alma atlântica. Por isso tudo se fará, a partir das margens marítimas de Portugal, virando as costas à Europa.

E será esse dom da civilização lusitana, de que Orpheu por si solitário e continuador da Renascença Portuguesa (de Teixeira Pascoaes, Leonardo Coimbra e Jaime Cortesão, com a sua revista Águia), se vê incumbido. Civilização que, por ela, será agora, não mais unicamente nacional, como nos saudosistas [algum exagero, pois leia-se o tão valioso O Homem Universal, de Pascoaes], mas universal, detendo e simultaneamente ultrapassando, uma personalidade nacional. Porque nascida das suas raízes primeiras, mas vivificada pela seiva duma cultura cosmopolita.» Uma miragem já que  o cosmopolita tornou-se globalista, e já não tanto de cultura como mais de informação e manipulação.

«Querida e estimada Eu (Self)
Já encontrou a melhor
designação para a conceptualização de tão subtil e elevada realidade,  ou acha que a palavra Espírito serve bem?
Acabo de chegar hoje ao Gilde [S. Torcato, Guimarães] e se de manhã, ao passar pelo Porto, pensara em visitá-la [mas não pude], recebi-a agora ao encontrar e ler o seu pequeno folheto Orpheu Portugal.
Orfeu tornou-se o deus dos sonhos, [pois por eles acedemos aos mundos subtis]. Desde os tempos medievais [com o desenvolvimento do intelecto escolástico], perdemos repetidamente o que nos estava a sorrir. Agora que já está quase tudo perdido poderemos encontrar a pérola sem preço?
A sua expressão "Portugal Brasil
" [No Orpheu, no Ultimatum e em certos escritos de prosa de Pessoa, haverá por certo, um dos mais altos pontos de apelo à missão incumbida a Portugal e Brasil, na criação duma nova civilização atlântica»] faz-me lembrar uma ponte para a liberdade. Um movimento que existe até por acaso com este nome, inspirados por quem eles chamam [mistagogicamente] os mestres ascensionados. Saberemos desenvolver tal com justiça, ecologia e plenitude do ser humano?
Estou escrevendo e pensando qu
e talvez já não lhe chegue a carta às mãos. Desde o cansaço, à doença, à má alimentação, à falta de tempo [que me envolvem e me dificultarão a ida ao correio.]
São meios que o inimigo secreto ou forças adversárias utilizam para nos afastar da claridade luminosa, do Amor/Justiça que a tudo inclui e transcende, bem visto no panteísmo lusitano das forças da natureza, das porcas de Murça e das pedras de bazar. E agora o português está num bazar de consumo, ponte entre a natureza e a técnica, entre a entreajuda e os partidos, entre a destruição e a harmonização.
Estamos todos a viajar. Diariamente zarpamos rumo à Índia, [espiritual e simbólica...]
Ex Oriente Lux, e assim os antigos dem
andavam essa luz e morriam mesmo virados ora para o Leste ora o Oeste. Saberão os intelectuais, os artistas, os mais despertos, silenciarem as suas mentes, descerem às suas profundezas e deixarem-se penetrar pelos ritmos cósmicos e as correntes espirituais?
Cosmopolitismo, tal como realça, também já não nos falta. Agora sim, invocar tudo [o que nos possa impulsionar ou harmonizar], que o nada é para quem quer seguir o Deus dará...
Alguns artigos da Fi
ama [Hasse Pais] Brandão, outros da Yvette [K. Centeno] fazem-nos crer que o espiritualismo começa a sair das limitações da religião católica ou das seitas. Será tempo de se começar a pensar como concretizar mais os arquétipos deste todo e como poderemos contribuir directamente no processo iniciático.
À volta para Lisboa,
se passar a horas, visitá-la-ei, talvez na sexta-feira do 25 de Abril, se não partir quinta à noite. Diga para aqui, para o Gilde (42875) se houver algo em contrário. 25 de Abril que vem das antigas festas pagãs das flores e que simboliza também a abertura ao povo do átrio do templo.
Aqui tudo vibra intensamente, só os nossos corpos é que são mais ou menos perfeitos como canais da Harmonia Cósmica, e como caixas de ressonância do espírito em nós.
Saudações respeitosas e
calorosas na Fraternidade, Pedro. »

O que realçar desta carta escrita já há tanto tempo para a querida amiga Dalila? O debate entre a melhor designação para o espírito em nós, o nosso verdadeiro eu: o jivataman indiano, o Self, em inglês, ou o Soi, francês, o Si, o Eu, com letra grande, já que nós não temos com tanta facilidade de uso a diferenciação do Eu normal da personalidade e o Eu espiritual, o Si, preferindo eu até mais a designação de Espírito, do qual o nosso eu é um reflexo instável e alargado pela alma e o corpo que envolvem o espírito e frequentemente o ignoram. Mas se queremos acabar com o eu ou por outro lado recusar e negar o espírito, como certas linhas espirituais fazem, já nos desviamos e perdemos.
Como recuperar a
identificação ao espírito, ao verdadeiro eu, que é de origem divina, eis a questão, eis o caminho, a sadhana, como se diz na Índia, terra lúcida bastante referida na carta pois a Dalila apreciava bastante a sabedoria espiritual que eu a partir da minha estadia de um ano na Índia, com vários mestres, dialogava com ela (ainda que com oposições fortes do seu amigo Paulo Samuel], embora procurasse sempre ressuscitar ou aprofundar os melhores veios da tradição espiritual ocidental, seja pagã, e a Dalila era-o muito atavicamente, sibilinicamente, seja cristã.
Realçarei ainda o desejo ou aspiração a que pessoas consigam interiorizar-se, silenciar-se e abrirem-se às melhores correntes espirituais e divinas...
Embora deva ter na
minha vasta biblioteca o opúsculo Orpheu, não está contudo junto aos livros da Dalila, pelo que um comentário mais fiel à carta e ao livrinho fica prometido para quando o reencontrar, se não é que o emprestei e perdi como tantas vezes sucede. [Em 2023 consegui comprar um exemplar e pude assim melhorar e introduzir os comentários e transcrições iniciais que encontra no princípio deste artigo e sua carta.]

Fiquemo-nos para terminar nestes tempos de tanta artificialidade com um estado de harmonia com a natureza campestre, sentido em Gilde, S. Torcato, e expressado na carta de então: «Aqui tudo vibra intensamente, só os nossos corpos é que são mais ou menos perfeitos como canais da Harmonia Cósmica, e como caixas de ressonância do espírito em nós.»

Invoquemos mais o espírito no silêncio e mergulho interior, e estejamos mais conscientes e harmonizadores do que estamos pensando, sentindo ou fazendo   e comunguemos agora em comunhão vertical e interior com a alma luminosa da Dalila, tão amante das flores e árvores, do rio Douro e da serra do Marão, do Porto e de Portugal, dos mestres, dos Anjos e da Divindade...
Que eles nos inspirem e abençoem nas nossas acções e orações-meditações...
Imagem final de outra fotografia inédita do
seu hortus conclusus ou jardim encantado portuense, tão compenetrado do seu amor e cuidado. Que os perfumes dourados nos religuem a todos nós com o mundo espiritual e a Divindade!

quarta-feira, 3 de março de 2021

Ensinamentos perenes de Teixeira de Pascoaes, o poeta do génio e religião Lusitana, onde a saudade é desejo de religação espiritual e divina.

Joaquim Teixeira de Pascoaes (1877-1952) viveu sempre para a escrita poética, numa expansão tremenda de sentimentos, imaginação e consciência, animando fantasticamente a natureza visível e invisível, sentindo em tudo instintos, emoções e princípios, numa Unidade universal que ele tentou conhecer e teorizar. Poeta de inspiração cósmico-telúrica, foi fundador e mestre (com Leonardo Coimbra e Jaime Cortesão) do movimento portuense da Renascença Portuguesa (e de sua revista Águia, 1910-1932) e do saudosismo panteísta, e mesmo de uma certa religião do génio Lusitano, como desenvolveu em conferências e livros, artigos e diálogos.
Leonardo Coimbra (1883-1936) e Teixeira de Pascoaes
 
Esta procura de não deixar limitada ou petrificada cada coisa ou ser, mas antes de intuir, ou fazer desabrochar e crescer, sentimentos e emanações, foi realizada perseverantemente com originalidade e sensibilidade, facilitada por uma vida mergulhada numa Natureza ainda bem pura, a partir da casa de família (povoada de memórias espectrais, livros e cruzes da Ordem de Cristo) na freguesia de Gatão, Amarante, junto à montanha do Marão e ao rio Tâmega, na zona do Minho e Trás-os-Montes onde, depois de se ter licenciado em Direito em Coimbra e exercido uns anos a advocacia, a partir de 1913 se consagra ao seu dom poético e de escritor, manifestando-se plenamente como vera “ave metafísica”, na feliz designação de um dos seus conviventes, Sant’Anna Dionísio, em quem, ainda nos anos 80 no Porto, pude recolher dos seus sussurrantes lábios, em inspiradores diálogos, os murmúrios e ecos perenes da Renascença Portuguesa, tanto mais que fora ainda discípulo especial de Leonardo Coimbra, o outro mestre do movimento e da revista Águia, e mesmo director, com Agostinho da Silva, da revista nos seus derradeiros números.
 Ora quando a Natureza planetária e humana está em tantos aspectos cada vez mais afectada pelas consequências da ignorância, egoísmo e da sede de poder e de domínio excepcionalista de alguns grupos e seres à escala global, é bem importante relermos Teixeira de Pascoaes não só porque mergulhamos nas raízes da Alma Mundi, e da nossa Alma Portuguesa profunda, presente tanto na natureza, dos penedos aos rios, como no povo e na sua literatura e pensamento, como também porque sintonizando com o que ele viu, sentiu e pensou dela podemos hoje cem anos depois irmos mais longe e mais fundo na gnose e no amor.
Em tal tarefa nos exercitamos na reactualização de uma mensagem que por várias causas não é fácil de ser dinamizada ou aprofundada, nos seus tesouros e arcanos, contidos em obras literárias por vezes avassaladoras, sensíveis, ricas de dialécticas de contrários, capazes até de serem vistos como contraditórias na sua fluída espontaneidade genésica. Reflectir o que Teixeira Pascoaes pensou ou intuiu de mais valioso, e aperfeiçoá-lo e comunicá-lo para os nossos dias, tem a sua razão de ser, sobretudo para os estudiosos ou cultores da Tradição cultural e espiritual portuguesa nas suas diferentes faces, face a tantas forças e ideologias anti-tradicionais poderosamente veiculadas pelos meios informação a elas avençados...
Sabemos como o Saudosismo Panteísta foi uma das expressões escolhidas por Teixeira de Pascoaes para caracterizar o Génio Lusitano, enquanto feliz união entre o Espírito e a Matéria, entre Jesus e Pan e, como na época, após uma adesão de parte da intelectualidade portuguesa consubstanciada no envio de colaborações para  revista Águia, os embates com António Sérgio e Raul Proença, as revistas lisboetas Orpheu e Seara Nova e o próprio afastamento de Fernando Pessoa (após uma aprovação entusiástica inicial do «transcendentalismo panteísta» de Pascoaes; embora no fim da sua vida, na Mensagem, se mostrasse tão impregnado de saudosismo messiânico), fizeram com que lentamente os eixos do Saudosismo e da Palavra-Verbo de Teixeira de Pascoaes se tornassem menos ouvidos e cultivados na cultura e sociedade portuguesa, cada vez mais pragmaticamente positivista-racionalista, seja de modo conservador seja socialista ou revolucionário, mas incapaz, à parte uns poucos que sempre consubstanciam a heterodoxia do ser livre ("homem sem partido" se disse de Pascoaes, como antes de Erasmo…), de alcançar o respeito e amor da Natureza, o abraço do mundo invisível, ou de inscrever no cubo da matéria o círculo do espírito divino, que  tem o seu centro em toda a parte e a circunferência em parte alguma… 
 Teixeira de Pascoaes foi um bardo vidente (qual kavi ou rishi védico) ou, pelo menos,  poeta comovido imaginativo-intuitivo das subtilezas da Natureza infinita e dos seus entes, desde os mais cósmicos como as estrelas, o luar e a luz solar, até aos mais humildes, do aldeão ao burro e ao penedo. Através de todos intuiu a Unidade e sentiu-os ou animou-os com grandes sentimentos, transfigurando a dor, a solidão, a morte, a saudade, e por isso não é de admirar que fossem outros poetas e pensadores nortenhos, de grande empatia, telúricos ou ígneos, como Raul Brandão, Guerra Junqueiro e Leonardo Coimbra, os que mais o apreciavam e recomendavam. E assim as traduções dos seus livros chegaram bem mais cedo à Europa do que as de Fernando Pessoa, aliás então quase inédito.
O que poderemos então hoje mais realçar dentro da sua vasta obra, com os seus três ciclos: o da poesia; o da poesia, prosa, doutrinação e direcção da Águia; e o final das maratonas electrizadas das quatro biografias histórico-poético-filosóficos e de algumas novelas? 
O que retomar e aprofundar do seu legado na nossa demanda da continuidade das especificidades da alma e da cultura portuguesa no séc. XXI? O que partilhar com a Europa e com o Mundo, em fraterna comunhão e procura, e que inverta a tendência opressiva e manipuladora dos meios de informação completamente vendidos ao Estados Unidos da América, à União Europeia e a outras grandes organizações globalistas, tais as de Klaus Schwab e George Soros? Mais concretamente até, o que deveremos aceitar na pujante obra de Pascoaes, já não apenas como o resultado de mera animação imaginada do olhar lúcido-alucinado e prescrutante do asceta do Marão (talvez intensificada pelo isolamento sexual e os constantes cigarrinhos rolados e café) mas também como vera experiência espiritual, vidência ou intuição funda e valiosa?
Face a obra tão fulgurante e vasta (embora desigual, dada uma certa verbosidade ainda mais presente em Guerra Junqueiro, mais discípulo de Victor Hugo), que hoje em dia terá apenas um ou outro conhecedor mais profundo (que eu conheça pessoalmente), tal o Manuel Ferreira Patrício (que aliás no Verão de 2021, tendo-o eu entrevistado, ou com ele dialogado ainda uns meses antes, conforme pode ver no Youtube, acabou por partir para o além) e o António Cândido Franco, entraremos em alguns dos seus livros, e
ousaremos sondar certas forças valiosas de auto-conhecimento humano, telúrico e cósmico que o animavam.   
Podemos iniciar-nos no princípio fecundante que é a Palavra, e ouvi-lo segredar-nos na Senhora da Noite: «Aí vem a Meia Noite, erma donzela…/ Vou contar-lhe, baixinho, o meu segredo…/ Minha voz, sê murmúrio ou luz de estrela/ Ou sussurro de arvoredo…/Pois só assim te ouve e compreende,/ Em puro amor;/ Que a pobre voz humana, quem na entende/ Se perdeu todo o viço e a cor?»
Esta capacidade de tornarmos ou preservarmos a nossa voz, murmúrio, sussurro da natureza ou luz de estrela, em puro amor e cor, é um dos desafios contemporâneos, sobretudo para os que reflectem, escrevem, poetizam, meditam e silenciam e tentam não ser submergidos pelo aluvião da informação mental moderna digital, para tal Pascoaes guiando-nos não só com o exemplar distanciamento da "leviandade" citadina e a riqueza da sua vivência telúrica e leitura simbólica da vida, mas também recomendando à triste voz dos nossos lábios que se retempere na Natureza e seja ora rasteira e humilde, ora dotada de asas, «verbo ressuscitado, voz em brasa», pois há palavras «que representam as supremas cristalizações da alma universal» e é pela escrita, na abertura à Palavra, que as pessoas mais se conhecem e libertam. E assim, já no fim da sua vida, caracterizará mesmo a sua obra como revelação ou confissão.
Realidade bem profunda também em Pascoaes são as Sombras, título até de um conjunto de poemas publicado em 1907. Ao ouvirmos a Senhora da Noite considerar «sombra irradiante, tudo o que és em espírito e em desejo», compreendemos que o mar das forças anímicas de Pascoaes era tão grande, e tão nutrido pela Natureza, o Marão e o culto dos simples, dos heróis e dos poetas, acerca dos quais afirma magistralmente «entre a Humanidade e a Divindade existe aquela região em que habitam os Heróis e os Poetas. São eles que forçam as portas do Cárcere onde o demónio aprisiona as almas divinas», in Os Poetas Lusíadas, (um dos seus melhores livros), que não podia deixar de transbordar e investir ou impressionar comovidamente tudo o que rodeava. 
 Mas sabermos, enquanto espíritos individuais e imortais, discernir quais os desejos e imaginações, impulsões e realizações que deveremos vivenciar e irradiar como sombra, corpo espiritual ou voz «que, de eco em eco, vá repercutir-se/ pela formosa imperfeição da Terra…», é de facto uma demanda ou teste difícil diário de atenção plena, verdadeiramente obra órfica e de “Fiéis de Amor”: «Sou a Imaginação fecunda e santa;/ A suprema e divina Criadora/…/ E a própria rocha anima-se e cintila/ Se ela lhe deita os olhos com amor!»
Este recado de olhar com amor, com imaginação fecunda e santificante, de transformar ou comover seja as partículas da matéria, seja as partículas e ondas quânticas e energéticas, seja as consciências que se ocultam por detrás ou dentro das formas, faz hoje parte da grande dança do conhecimento moderno, com contributos valiosos a estimularem-nos, como os da física quântica com a sua interpenetração do observador e o observado, os da inteligência emocional das neurociências ou ainda os dos mestres espirituais que, na linha de uma sabedoria perene de que Orfeu foi um dos primeiros avatares conhecidos, afirmam como a Palavra, Verbo, ou Sermo (tal como Erasmo traduzia a palavra grega Logos, nomeadamente no prólogo do Evangelho de S. João), é mágica,  criativa e divina, e logo a exercem bem na cogitação, na fala e na escrita. 
Desiderio Erasmo, 1466-1536. Sancte, Ora pro nobis
Haveria pois razões para uma harmonia maior, não fora a crise agónica do sistema capitalista ou neloliberalista autoritário aactual, a guerra biológica em que nos vemos envolvidos e a incapacidade dos povos expulsarem os vendilhões do templo da Utopia da não-violência, da partilha mundial, ou multipolaridade, e de uma moeda justa. Como consequência «o Deus Pan, nas florestas geme» e poucos conseguem o riso que, «na boca divina e consagrada, seja o corpo de um Anjo, o Paraíso, / Uma expressão da Luz não revelada./ Um riso que deixava adivinhar/ o talhe do seu corpo/… /Alto sorriso lúcido! Escultura/ de luz de mármore!/ O Sonho real e vivo; a Creatura,/A Estrela, a Árvore!»
São pois a metanóia ou conversão das consciências e a transfiguração constante “auroral” os 
caminhos apontados para o Regresso ao Paraíso (título de uma das suas obras mais apreciadas) ao "saudoso" estado Primordial, presente ou melhor referido em várias Tradições, e que é imaginado panteisticamente como captável por aquelas «Nereides, junto às águas que murmuram,/ Inclinam suas frontes pensativas;/ E seus olhos extáticos procuram/ Idades d’ Oiro, as Eras Primitivas…».
Esta vivência amorosa e contemplativa, constatada também frequentemente por Teixeira de Pascoaes nas oraculares Sibilas, é mais sensível e transmissível pela «ternura espiritual que aflui/ À flor da minha voz… silêncio em flor…» e perpassa o poeta, o diálogo e a nossa sábia utilização da Palavra, pelo que devemos trabalhar sem desânimos numa Europa tão centrifugada, tão manipulada, tão a ficar escravizada, de modo a que saibamos seja discernir na voz o que vai de verdade ou mentira ( observar tal nos comentadores e políticos é bom exercício) , seja a proferi-la de forma amorosa, instrutora, curativa e libertadora, algo tão necessário nos nossos dias de "aterrorização" e de lavagem ao cérebro que lideres e locutores exercem satisfeitos da sua importância e aparência, pedestal e autoridade. Temos de ter os nossos mantras e tempos de antena interior, para contrabalançarmos os slogans e as propagandas daninhas com que eles, algo viciadamente e bem pagos para enganarem e manipularem, afectam ou infestam os ares, tímpanos, almas e discernimento...
Ora entre os textos doutrinários de Teixeira Pascoaes, alguns resultantes de conferências que, não sendo tão flamejantes como as de Leonardo Coimbra mesmo assim despertavam aspirações, fundavam comoções e iluminavam, O Génio português na sua expressão filosófica, poética e religiosa, de 1912-13 (bem aprofundado em 1918-19 com Os Poetas Lusíadas) é um dos mais transmissores  das qualidades contributivas da alma lusitana e sua língua e poetas na Europa e no Mundo. 
                                                           
Aí expõe a sua «concepção saudosista da alma portuguesa. O desejo é a parte material e a lembrança a parte espiritual da Saudade» e, no trilho de uma citação de Luís de Camões: «Não é logo a saudade/ Das terras onde nasceu/ A carne, - mas é do céu,/ Daquela santa cidade/ Donde esta alma descendeu» e, numa linha pitagórica, gnóstica e priscilianista, caracteriza «a saudade do céu, como a lembrança de uma remota Perfeição, vivida talvez em outro mundo animada pelo desejo de uma nova Perfeição», comprovando até numa quadra popular a vivência paciente e amorosa de tal realidade: «De qualquer modo que existas, / És a mesma divindade:/ Ventura, quando te vejo,/ Se te não vejo, Saudade!». E são sem dúvidas recomendações valiosas, em especial a de tentarmos sentir ou intuir a nossa origem espiritual (algo que a Dalila Pereira da Costa sentia e tentava partilhar na sua obra), ou pelo menos aspirar a ela e concomitantemente, no plano humano terreno físico, não sofrermos pelo distanciamento das pessoas amadas, pois subtilmente estamos em ligação ou ressonância subtil...
Dalila Pereira da Costa (1918-2012). Muita luz e amor na sua alma e dela para nós!
 Esta conferência contém afirmações bem importantes, algumas suplicando a nossa revisitação, tal como aliás a observação lúcida auto-consciencial de Teixeira Pascoaes em nota final, considerando tais páginas escritas com ligeireza ou com deficiências e apelando a que se venha a escrever um dia «a história espiritual» do povo português, algo ainda apenas parcelarmente e moderadamente realizado e pouco consciencializado ou assumido pelos portugueses, pese o grande contributo, mas pouco divulgado, de Dalila Pereira da Costa nas últimas décadas: «Estudemos o homem transcendente, o além homem, que o Português encerra. Estudemos o Português do Cosmo oculto no Português do extremo ocidental da Ibéria», sem dúvida um desafio ainda por cumprir pois embora haja já muitos trabalhos sobre as correntes religiosas e espirituais com valor, os contributos esotéricos ou de ocultismo em geral são apenas intelectuais ou de semi-erudição senão mesmo de mero compiladores, e frequentemente sectarizados, de modo algum atingindo a visão imparcial e a comunhão com o mundo psico-espiritual, que contudo Agostinho da Silva e sobretudo Dalila Pereira da Costa conseguiram por vezes...
Agostinho da Silva (1906-1994). Muita luz e amor na sua alma!
 Oiçamos então Teixeira de Pascoaes num seguimento de três parágrafos bem originais acerca da supervivência face à morte: «Quem vai e deixa saudades fica a viver nas almas, porque, em sua vida, amou. O amor em acção gera a saudade, isto é, reproduz-nos espiritualmente na alma de outra criatura, onde ficamos a viver. Ao baixarmos ao sepulcro, o nosso Fantasma, em contacto com as almas bem amadas, toma presença viva e perfeita; é um ser espiritual e, por isso, eterno».
Poderemos realçar que na expressão “o nosso Fantasma”, mais do que uma entidade imaginativo-saudosa gerada por nós nos outros (e seria interessante discernir nas amizades tais intencionalidades de reprodução mnemónica imortalizantes, como por exemplo, momentos de criação a dois de pontes para a eternidade…), deveríamos conseguir ver o nosso ser em corpo espiritual, em interacção graças à  ligação das almas e o qual se pode tornar presença viva e perfeita, se existir mesmo essa intensidade de amor entre dois seres a qual acontece subitamente  em certos momentos de devoção-lembrança-esperança-comunhão. 
Estas ligações mágicas entre a memória saudosa, mais do que a avatarização ou descida do espírito que Pascoaes sugere ou a sua perdurabilidade pela memória, apontam para a simples comunhão de almas pelo coração, os sonhos e as visões, bem presentes em alguns dos sonetos de Antero de Quental, e são certamente de se valorizar muito ao longo da vida com as pessoas que mais nos sentimos afins ou amamos reciprocamente, tanto mais que indiciam a realidade do chamado corpo místico da Igreja e da Humanidade, ou ainda o campo unificado de energia consciência em que as psiques estão entretecidas, como o cientista e espiritual Dean Radin, com quem dialoguei, tem comprovado e divulgado
Bem mais discutível será o parágrafo seguinte: «Uma Criatura não pode criar a sua própria forma anímica, porque a força que opera a transformação misteriosa da matéria em espírito, é o amor; e o nosso amor só se torna fecundo, quando incide sobre as outras criaturas que se eternizam em nós. De resto, o ser animal é um meio e não um fim. O homem cria espírito, mas não é o espírito».
Pintura de Bô Yin Râ
Porque, e nos parece em verdade, estamos constantemente a aumentar, a absorver, e a criar ou então a diminuir e a destruir as nossas forças anímicas, pelos desejos, impulsões, actos e pensamentos. E o nosso amor torna-se fecundo não só sobre os outros mas também incidindo sobre nós próprios, não só aceitando-nos mas sobretudo tentando entrar mais no nosso interior, para nos aproximarmos tanto do nosso espírito próprio como do Ser Divino, a quem nos devemos entregar ou abrir para que renasça mais em nós, num trabalho diário grande.
Neste sentido é bem mais correcto dizer-se que o homem ou a mulher é um espírito e que deve criar a manifestação plena do Espírito em si, o que aliás perpassa ocultamente na nossa tradição no culto do sempre enigmático ou arcânico do Espírito Santo, que em geral fica apenas no exterior e em crenças e costumes festivos, embora a solidariedade fraterna sentida e manifestada toque ou possa tocar sensivelmente várias dimensões das pessoas...
No parágrafo final temos uma daquelas afirmações fulgurantes de Teixeira de Pascoaes: «”Onde quer que estejais reunidos em meu nome, eu serei convosco”, disse Jesus, referindo-se à sua presença de saudade…»
Este dito profundo do mestre Jesus, que muita tinta criativa fez correr e que normalmente é interpretado no sentido de confessar-se a crença na sua presença ressuscitada, ou, por vezes, mais intimamente, como a auto-consciencialização que os discípulos conseguem do estado de ungimento ou de ligação Divina alcançado por Jesus e que eles actualizam então em certo grau, é interpretado valiosamente por Pascoaes como núpcias da alma humana com o que, pelo amor saudoso, se imortaliza em nós como: ser, presença, ou mesmo sopro e corrente viva, seja de Jesus seja de um ser mais normal ou não tão iluminado espiritualmente ou mesmo ligado divinamente.
Talvez acrescentemos que a corrente ígnea do desejo-esperança faz com que as distâncias do tempo e do espaço diminuam e em certos casos sejam abolidas, e se entre numa dimensão mais elevada, e que o Mestre possa surgir enquanto princípio e energia divina e aperfeiçoadora nos discípulos. E que nos cenáculos, grupos e conversas presenciais ou virtuais (ou mesmo na relação escritor-leitor), em que é a consciência ou a abertura à verdade a presidir ou a circular, então o Logos, o Cristo, a Inteligência Sabedoria divina (ou «essa nuvem de emoção que envolve e trespassa o Cosmos», no dizer pascoalino), tão bem manifestada em Jesus, torna-se mais presente ou animante.
Eis linhas de força que cada um de nós, ou em pequenos grupos, deve aprofundar e vivenciar, contribuindo para uma melhor epifania ou descida do espírito e da sua universalidade, bem como para um ressurgimento da grande Alma Portuguesa, à qual Teixeira Pascoaes (tal como depois Agostinho da Silva) associa o génio aventureiro, com a sua capacidade de iniciativa, e o temperamento messiânico, enquanto confiança num destino superior.
Aqui, a sincronia ou mesmo uma certa anterioridade de Pascoaes em relação a Fernando Pessoa (este mesmo assim desde 1912 colaborando com os seus proféticos artigos na revista Águia) é evidente, tanto mais que Fernando Pessoa reconheceu em alguns apontamentos soltos, sobretudo com afirmações que no séc. XXI se pensariam ser dele mas que provém de Teixeira de Pascoaes: nessa busca do «Atlântico etéreo além do qual existe uma outra Índia…» e, «rasgando o nevoeiro da manhã sebastianista», a tristeza, a lembrança do Passado, iluminada de Esperança, prometendo a nova Era Lusitana… 
Natália Correia (1923-1993) Muita luz e amor na sua alma!
Se alguns dos aspectos que o amor da Pátria-Mátria (como queria a Natália Correia,  admiradora e intérprete de Pascoaes) nas gerações de Teixeira de Pascoaes e de Fernando Pessoa assumiu, em projecções valorativas de Portugal e do seu futuro, aspectos ou conexões nacionalistas estaduais e são hoje claramente irreais e inexequíveis, o mesmo já não se terá de dizer do que em ambos é despertar gnóstico e valorização da língua portuguesa (bem aprofundada e proferida…), nomeadamente no seu papel na sinfonia europeia e do mundo, com Pascoaes a enfatizar: «que cada Pátria tem o seu Verbo, e uma alma inconfundível, portanto. Ora, ter uma alma própria, original, corresponde a ter um modo especial de compreender a vida, o amor, a piedade, a fraternidade, a justiça. Cada Pátria criará a sua justiça futura, assim como criou a sua língua, o seu aspecto moral, etc.»
Só que esta potencialidade criadora individual ou nacional, hoje bastante sepultada pela União Europeia e o globalismo desequilibrado, anti-natural, uniformizador, massificante ou escravizante que domina os meios de comunicação e os governos, para existir razoavelmente ou minimamente implica sempre e cada vez mais o trabalho iluminativo, gnóstico, de auto-conhecimento que Pascoaes realça bem (como aliás Fernando Pessoa), considerando-o mesmo, na linha de um dos últimos mestres português, Antero de Quental, como "trabalho para a nova geração": 
Antero de Quental (1842-1891). Muita Luz e Amor em si!
«Ora, numa Nação ainda atrasada espiritualmente, como a nossa, parece-me também patriótico chamar a atenção do Povo para a sua alma revelada, a fim de que ele encontre, em si próprio, uma luz guiadora dos seus actos e a energia que os provoque e lhes garanta o sucesso.
«Dar à Pátria portuguesa a consciência do seu ser espiritual, é dar mais relevo, nitidez e vida à sua presença entre outras nações e prepará-las, sobre tudo, para o cumprimento de um alto destino.
«Nosce te ipsum, diziam os latinos, referindo-se ao homem; a mesma frase se deve aplicar à vida colectiva de um Povo. A criatura que se não conhece, procede sempre ao acaso; o seu labor hesitante; os seus passos vacilam sobre a terra; os seus gestos não se imprimem no ar; as suas atitudes não se desenham e a sua alma é incaracterística, amorfa, trabalhada em névoa.
«É preciso, antes de tudo, que o País se conheça, para saber quem é e o que deseja.
«Eis o trabalho da nova geração, cujo aparecimento corresponde à renascença espiritual da Raça [leia-se hoje povo ou nação]. Atravessamos um período genésico, de criação anímica, a que há-de suceder fatalmente um período de realidades fecundas.»
Se é verdade que algumas ideias-forças de Teixeira de Pascoaes, dependentes da época, tal como "raça", hoje posta de parte, ou mesmo "saudosismo", tinham limitações e perigos em si, e logo pouca eficácia, «para embebedar a nação desse sonho», por exemplo, dum V. Império, como afirmou Fernando Pessoa, um ano antes de morrer, ao jornalista Augusto Costa, no seu Inquérito Literário, todavia, resistirmos a um globalismo uniformizador e aspirarmos aos níveis espirituais a partir dos nossos psicomorfismos, ou linhas de força próprios ou tradicionais, é bem importante face à perda de referências passadas para que tendem, e provavelmente intencionalmente, a informação e a desinformação dos meios de comunicação e de muitos dos agentes das plataformas digitais. 
Fernando Pessoa (1888-1935) e Augusto Costa. Muita luz e amor nas suas almas!
 
A confirmar tal valor temos, por exemplo, o esforço do aprofundamento da memória e os trabalhos práticos dos pesquisadores das neuro-ciências e da psicologia transpessoal que apontam para o valor da reminiscência, da concentração e do despertar de conhecimentos normalmente tidos por perdidos ou impossíveis, algo que se aplica à emoção saudosa quando esta origina uma vivência propiciadora da religação à origem, ao divino, ao todo. Neste sentido são ensinamentos válidos os que conjugam o dinamismo amoroso e a meditação receptiva saudosa: «Eu chamei Saudosismo ao culto do nosso espírito sintetizado na Saudade.
«A Saudade é a essência do Cosmos, o Fiat, o Verbo, a Alma do mundo, a forma lusitana da Criação, para me servir de uma bela frase de Leonardo Coimbra.
«É por simpatia cósmica que a nossa alma transborda de nós, inundando de amor as coisas mortas que ficam a viver». E até talvez possamos dizer de que não há coisas mortas, tudo está interligado numa dança das partículas e da informação e até da misteriosa consciência…
Tendo eu realçado a necessidade da passagem do paradigma competitivo das religiões para o da convergência, em várias ocasiões, tal como no nº 3 da Nova Águia, constato que que a unidade intuída ou buscada de uma Religião Universal, que teve alguns afloramentos mais visíveis (tal o da época de Alexandria, ou na Índia a tentativa do imperador mogol Akbar, ou mais modernamente e levemente na harmonia das religiões de Ramakrishna), perpassa também forte em Pascoaes (e virá a desenvolver-se mais em Agostinho da Silva), o qual tece no Génio Português considerações e antevisões dignas de serem aprofundadas e escutadas como a voz de um dos vates da Tradição Espiritual Portuguesa falando à Europa, e com uma actualidade tremenda face à organização União Europeia, cada vez mais materialista, artificializada, hipócrita e vendida a infrahumanismos opressivos, disfarçados sob o slogan de uma Nova Ordem mundial transhumanista, e que no fundo é anti-natural, anti- tradicional, anti-divina: 
«Nestes ressequidos tempos de egoísmo materialista, de cientismo estreito, superficial, que se imagina a própria Verdade indiscutível, o sentimento religioso, que ora aparece na Europa, anuncia uma próxima reacção do Espírito contra a Matéria usurpadora. Eis o motivo do grande interesse que adquire a feição mística do génio português. Claro que esta feição é-lhe dada pela Saudade, a Virgem descendente de Cristo e de Apolo.
A palavra Religião, como se vê, toma novo sentido. O Paganismo, o Judaísmo, o Cristianismo e as suas variantes, afastam-se, envoltos já na névoa do Passado, da concepção religiosa contida no Saudosismo».
Mas esta clarividência da desvalorização das religiões antigas ou mesmo do Jeová que definha, não corresponde apenas a uma valorização do Saudosismo mas também à consciência e vivência da unidade evolutiva do género humano e planetário, o que, se bem estudado, aprofundado e vivido (e quão insuficientes são ainda as aulas de moral ou as de educação cívica ecuménicas e universalistas…), evitaria muitas das causas dos conflitos e guerras, crises e sofrimentos da humanidade:
«A atitude de uma alma perante outra alma, é sempre religiosa, embora pareçam hostis os corpos que as separam. As palavras que se dizem, são orações, os beijos que se trocam, são estrelas… É que se reconhecem umas nas outras, como duas Aparições da mesma figura.
«Compete ao progresso moral, fomentado pelo verdadeiro sentimento religioso, revelar, exteriorizar, cada vez mais, esse íntimo e divino estado das almas.»… 
Eis os trabalhos da nova geração, para uma educação e vivência maior da aceitação do outro, no bem, no amor, na unidade…
Sant'Anna Dionísio, Jaime Cortesão e Teixeira de Pascoaes. Lux!
 Claro que Teixeira de Pascoaes não podia conhecer ainda o forte desenvolvimento da História Comparada das Religiões que iria acontecer nas últimas décadas da sociedade global actual, nomeadamente ao nível das Universidades e Espiritualidades, e assim a sua visão de uma Religião universal não era ainda bem intuída na Unidade subjacente à aceitação ecuménica das várias religiões e filosofias do Oriente e do Ocidente, pensando-a Pascoaes mais em termos da Europa e do Ocidente (nomeadamente via alguns filósofos e esotéricos, citados abaixo), e de uma reformulação do Cristianismo (seja numa Igreja lusitana, seja num Novíssimo Testamento, mas ainda muito crente e dependente da Bíblia), baseada numa unidade do panteísmo e da gnose iniciática de Jesus, como afirmará: «A Saudade ressuscita Jesus e Pan, e tira da combinação amorosa das duas Divindades, um novo Credo religioso que será talvez o futuro Credo religioso, concebido no seio da alma lusitana». 
E tais transformações anímicas, portuguesas e europeias, para Teixeira de Pascoaes, teriam de ser acompanhadas de uma consciencialização espiritual, admitindo mesmo algo ingenuamente que um novo Ungido, um novo Messias ou Cristo surgisse para liderar como mestre tal processo purificador e iluminativo, e que  exigia uma metanóia ou conversão dos humanos, de modo a se desprenderem e deixarem o pensar dualista e conflituoso e passarem a viver menos sectariamente e mais fraterna e integradamente no Todo:
«Sente-se, na verdade, que o espírito humano está desejoso de se libertar do cárcere estreito, escuro, asfixiante, em que o materialismo o enclausurou. A alma entorpecida reanima-se. Somos à beira de uma novo período genésico que vai dar ao mundo uma nova fisionomia.
«Eu creio que as forças a operarem a próxima transformação do mundo serão religiosas, de natureza espiritual, talvez reencarnadas num novo Cristo. Se esta transformação fosse efectuada pelas forças da matéria, teríamos sempre as más paixões, os brutos instintos, o feroz egoísmo a dominar.
«É preciso que o poder, mudando de mãos, se transcendentalize. A Humanidade nada lucraria em que a Justiça mudasse apenas de local, passando do primeiro andar para o rés do chão.
«É essencial que ela exista em todos os andares.
«Felizmente, o renascimento religioso é inegável. Encontra-se bem claro, não só na obra de Édouard Schuré, como nas obras dos modernos Filósofos, William James, [Rudolf] Steiner, [Henry] Bergson, [Emille] Boutroux, etc., e ainda no progresso das várias sociedades esotéricas espalhadas.
Estas sociedades são também um dos sinais dos tempos. Correspondem, nos dias de hoje, às antigas associações filosóficas da Palestina e do norte de África, entre as quais se contava a dos essénios, donde saiu Jesus Cristo…».
Atento observador dos sinais que anunciavam ou testemunhavam a rotura dos paradigmas materialistas ou dogmáticos exclusivistas, o crescimento tremendo da procura da verdade, o desabrochamento de uma gnose ou espiritualidade livre e o desenvolvimento imparável da tecnologia (de que foi um pioneiro no uso do automóvel, como relata no seu trepidante livro A Beira (num relâmpago), certamente com todas as limitações que a primeira metade do século XX herdara do XIX e dos seus ocultistas mistificadores e que levaram-no a considerar ter Jesus Cristo saído da seita essénia, provavelmente influenciado pelo seu amigo Édouard Schuré (1841-1929), Teixeira de Pascoaes era um optimista quanto a uma nova Era numinosa, para a qual contribuiria o renascimento da espiritualidade portuguesa, ou a força da saudade divina: 
«Uma nova escada de Jacob prende a terra ao céu. A Divindade volta a estar em correspondência directa com criatura humana.»
  No seu último texto, a Minha Cartilha, já de 1951 e com toda a sua evolução realizada, pois liberta-se da Terra um ano depois com 75 anos, e que li, comentei e gravei e se encontra no Youtube e neste blogue, Teixeira de Pascoaes reafirma:
«Salvamo-nos em esperança ou em lembrança, que a lembrança também incide sobre o futuro na poesia camoniana. E que é a lembrança incidindo sobre o passado e o futuro? É a alma lusíada, a Saudade».
Perguntemos por fim, de coração, como poderemos nós orar e meditar algo no veio da saudade-esperança e de Pascoaes? Talvez entrando na nossa alma e, sob o subtil  espírito
irradiante, no íntimo, e sentirmos silenciosa e em aspiração algo que poderemos exprimir orando: - “Oh Divindade, Oh Espírito primordial, Oh Fonte Divina, sede por nós mais conciencializada e manifestada”, assim nos abrindo   uma maior sintonização e religação amorosa e logo beatífica  com o mundo Espiritual e a Divindade.
Que os mestres e discípulos, sibilas e poetizas da Tradição Espiritual Portuguesa nos inspirem

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

Laura Wake Marques. "Almas (Deducções psicológicas)". 1937. E uma canção sua cantada por Lia Altavilla.

Os livros escritos por mulheres são sempre uma mais valia de sensibilidade em relação aos dos homens, oferecendo visões complementares, e se a partir da segunda metade do século XX as autoras foram crescendo em número, deixando de ser invulgares, as dos séculos anteriores muitas vezes quase que estão mortes na memória colectiva ou na lembrança das pessoas, à excepção de uma dúzia de mais famosas que são reeditadas ou estudadas, e sobrevivem em prateleiras de bibliotecas públicas ou particulares pouco consultadas ou manuseadas, sentidas ou amadas.
Ora tais livros, para além do que nos narram ou ensinam, têm por detrás deles ou na sua origem um espírito feminino humano único, que percorreu a Terra, vivenciando uma série de circunstâncias e especificidades, absorvendo influências e leituras, desenvolvendo qualidades, compreensões e mestrias, e que deixou esse seu contributo para os tempos vindouros, como os nossos... Com que amor, esforço, trabalho e sacrifício eles nasceram não será porém fácil discernirmos se não houver indicações expressas ou investigação...
Quem foi essa alma, como eram os seus traços fisionómicos e psíquicos, pode ser uma demanda deveras difícil, embora por vezes haja apresentações, fotografias ou desenhos incluídos. As biografias, as referências de contemporâneos ou conhecidos ajudam a descortinar melhor a autora, e também algumas vezes a marginália do livro contém fontes preciosas, tais como dedicatórias, anotações e recortes de jornais apensos.
 
Tendo comigo alguns desses livros de autoria feminina, nomeadamente  anteriores a 1950 resolvi partilhar alguns para trazer ao de cima certas almas e seus ensinamentos. E o primeiro é Almas (Deduções Psicológicas) por Laura Wake Marques, impresso em Lisboa, na Sociedade Nacional de Tipografia, na rua do Século, em 1936, num livrinho de 111 páginas, com uma bela capa, bem artística, com um desenho quem sabe se da Laura, e realizado por ela ou por algum amigo. Provavelmente será dela, tanto mais por parecer ter a sua mãe nas costas ou fundo do desenho em unissono com o grande elogio que lhe faz...
No fim deste texto está uma ligação a uma música dela, que poderá ir ouvindo desde já...
Nascida em 1897, filha do musicógrafo Joaquim José Marques, que perderá quando tinha 4 anos (caracterizando-o como "dotado de uma lhaneza, altruísmo e lealdade pouco vulgares") e de Laura Wake Marques, com quem viverá numa relação de profundo amor e de quem agradecerá a educação de lucidez e pureza, será pianista, aluna de Amélia Rey Colaço e Ruy Coelho, e cantora, publicando ainda várias obras, algumas delas com letras dos poetas Afonso Lopes Vieira e Alberto Monsaraz. É o caso dos Cantos Portugueses. Música impressa. Livro primeiro. Música de Laura Wake Marques; poesias de Afonso Lopes Vieira. Lisboa, 1920, a que se seguiu o Segundo e Terceiro Livro. Além de outras obras musicais, tal como O Canto em Portugal, dado à luz em Lisboa em 1932, publicará ainda dois pequenos livros de impressões, reflexões, meditações: Do Meu Lar... (Reflexões). Lisboa, Ferin, 1929, e as Almas (Deduções Psicológicas), 1936, de que vamos transcrever algumas partes mais valiosas. nas quais derrama, aos 39 anos, uma destilação de sabedoria já bem arguta, profunda e perene, que agradecemos, desejando muita luz e amor na sua alma...
A obra está dividida em vários capítulos: Almas Simples, as Almas são como as Flores, Almas inocentes, Almas Desamparadas, e assim sucessivamente Almas Apaixonadas, Femininas, Ressuscitadas, Superiores , Humildes, Tenebrosas, Heróicas, etc., e mostram uma alma muito sensível e sábia, partilhando em pequenos capítulos as suas reflexões e deduções sobre as pessoas, as paixões, o amor, os valores, os perigos, o caminho da integridade, da harmonia e da felicidade.
Este exemplar está animado magneticamente pela dedicatória manuscrita: «À querida Maria Teresa de Andrade Santos e ao seu excepcional talento de compositora...», datada de 5-VI-1937.

Depois de no 1º capítulo agradecer aos seus pais, pelo amor e exemplos e aos médicos que trataram da mãe, no 2º capítulo, o único que não tem Almas no título, e só Sugestões, diz-nos: «Evitemos o contacto com pessoas cujo predomínio, consciente ou inconsciente, nos possa ser prejudicial. Quem seja psicólogo pode, não só fugir ao perigo das sugestões malévolas, como humanitariamente utilizar as benéficas.
Para que tal se consiga, é necessário reagir energicamente contras tendências que, em cada ser, reclamam a sua parte na vida e recorrer à auto-sugestão, numa reeducação disciplinada, de cuja influência alguém possa aproveitar.
De longe vem o ditado: «Diz-me com quem lidas... dir-te-ei quem és».
A irresistível atracção que sentimos por determinadas pessoas, com evidente preponderância sobre o nosso espírito, vem, certamente, da reciprocidade de qualidades ou defeitos, cujas vibrações, já desenvolvidas na pessoa que domina estão apenas em embrião na pessoa que se deixa dominar.
Por muito superiores que as almas sejam, não lhes será fácil eximir-se ao poder de sugestão que as vai alterando para melhor ou pior.
Todos censuram desapiedadamente as pessoas revoltadas ou azedas, sem se lembrarem de que é a própria humanidade a culpada desse irritabilidade tão desagradável no trato».
Destacaremos o apelo a que saibamos controlar as atracções que nos serão funestas, através da auto-sugestão, ou talvez a meditação e consciencialização. Como Laura de dedicava à musica e ao canto é possível que a auto-sugestão, ou certos mantras cantados, lhe tivessem aflorado. Valioso também o apelo a que reconheçamos no revoltado alguém traumatizado pela sociedade.
Dos outros capítulos, eis alguns pensamentos valiosos da Laura (a bem amada de Petrarca): «Defendamos as crianças das impurezas que as possam contaminar,e, despertando-lhes a sensibilidade com que Deus as dotou, insinuemos-lhe ideias sadias e proveitosas.
Toda a criança normal tem uma clara intuição para ajuizar da justiça de quem a dirige e aborrece aqueles que a não sabem guiar com critério.
Não fujamos pois à canseira de aconselhar e educar com tenacidade e rectidão».
«Quem aspira a suavizar os males de uma alma dolorida, deve acompanhar-lhe o sofrimento em vez de pretender afastar-lho.
É um erro o supor que se podem abreviar as dores morais, por meio de distracções impróprias ou extemporâneas.
Só quem ainda não sofreu ainda desconhece a avidez, com que as almas torturadas gozam a angústia da sua dor e saudade infinda que as punge.
E apesar de pertencer só ao «Tempo» o grande poder de cansar e adormecer estas aflitivas apoquentações, diligenciemos, no entanto, amparar os desgraçados que abandonados ao convívio com indiferentes ou amigos inexperientes, mais sofreriam ainda.
É evidente que a doçura da voz amiga que lhes fala numa carícia persuasiva as acalma rapidamente, bastado mesmo um suave sorriso de quem lhe sente as mágoas para emprestar coragem a que melhor suportem a sua Cruz...».
Realcemos o falar órfico, em carícia sugestionante, bem natural nela. E daqui para frente apenas sublinharemos as partes mais fortes ou valiosas...
Do capítulo Almas Superiores, também há grande sabedoria de alma amadurecida: «Seria um benefício para a humanidade se, em vez de egoisticamente nos ocuparmos só da nossa alma, ajudássemos a desprender das inferioridades desta Vida aquelas que estão sob a nossa alçada. Diligenciemos fazê-las subir a um estado de perfeição a que não cheguem os tormentos mesquinhos, criados pelos espíritos acanhados e maus, pungindo apenas a Saudade e a Recordação de perdidos «Bens» em que palpitaram sentimentos nobres e puros.
Não é só, recolhendo-se a um convento que conseguimos afastar-nos do bulício estonteante das tentações humanas.
A calma está na limpidez da consciência e não no rigor dos preceitos religiosos a cumprir.
Essa paz incomparável, vem da humildade com que nos vamos despojando das pequenas misérias humanas, que tanto nos apoucam, e, sobretudo, da obediência com que nos formos resignando à Vontade de Deus, pedindo-lhe com sincera fé, nos dê forças e coragem para dominarmos as aspirações a que vamos perdendo o direito, por não termos conseguido realizá-las oportunamente».
«Ninguém tem o direito (homem ou mulher) de levianamente fazer nascer a esperança de um afecto, sem estar plenamente na convicção de que o sente.»
«Desculpemos também certas almas bondosas que, tendo a fraqueza de ser tão gulosas de doçura afectiva, como de doces delicados, não resistem à tentação de colher impressões nas que, ingenuamente, se lhes oferecem, supondo ser as eleitas, e, esperançadas em realizar o sonhado ideal, imaginam trazer consigo a magia amorosa que há-de merecer a constância que tanto se tem feito esperar...»
«Os opressores, além de atraírem sobre si as más vontades dos que lhes estão sob a alçada, vão inadvertidamente criando uma atmosfera de simpatia em torno daqueles que oprimem».
«As almas humildes gozam de uma bem-aventurança que as compensa largamente do prazer do luxo, de que a sua condição, naturalmente as priva.
A modéstia, de que são dotadas, leva-as a crer que são imerecedoras duma graça especial, razão por que apreciam e agradecem infinitamente a Deus a concessão de qualquer pequeno bem que passaria despercebido a quem, por sua vaidade e orgulho, se considerasse digno de melhor sorte».
«Suave cativeiro é o da alma que, tendo encontrado a sua metade, se completa deixando-se absorver pelo encantamento do seu irresistível domínio.
Tão raramente duas almas que se abraçam, ficam bem unidas, que, esse Bem excepcional, deveria ser sofregamente saboreado, por aqueles que o possuem.
Quem não se sacrifica, não ama; estima-se egoisticamente».
«Todo aquele que não tem carácter para manter as suas opiniões e defender os seus ideais, é indigno de poder ser considerado um cidadão conscientes dos seus deveres e dos seus direitos.
A neutralidade, embora admissível em certos casos, determina sempre comodidade, cobardia, ou insuficiência de espírito, quando não envolve falsidade».
«Exemplos de heroísmo e de bravura temos bastantes na História de Portugal para atestarem sobejamente o valor da nossa raça em vencer os seus adversários.
Porém, não menos para admirar são as almas, modestamente obscuras, que conseguem vencer-se a si próprias dominando o ímpeto das suas paixões, ou sufocando o despeito das suas mágoas». 
Quanto à questão se "o amor verdadeiro se sente uma só vez na vida", diz Laura Wake Marques que depende, pois «tem-se visto recomeçar muitas existências que se suponham completamente aniquiladas, talvez porque no coração humano, subsistam ignoradas cordas sensíveis, emudecidas por ainda não terem sido despertadas», e no meio desta dedução descreve a sua percepção do amor pleno ou verdadeiro, que poderá então voltar: «A pessoa que teve a suprema e raríssima ventura de encontrar no mundo - a outra metade do seu ser, o eco da sua alma, amou real e perfeitamente, completando a sua personalidade numa comunhão de ideais e sentimentos; sentiu  a luz quente do sol e admirou-lhe o brilho, gozando-o em toda a sua intensidade».
Possam as pessoas chegar a esta comunhão de ideais e sentimentos, pensamentos e aspirações, que a Laura parece ter atingido,  e sentirem o espírito que cada uma é, e que as une, e simultaneamente o fogo do Sol do Amor que as aquece, alegre e transfigura...
Segue-se uma bela canção, a única no Youtube, da qual pelo menos a música é da Laura e a voz, maravilhosa, é da Lia Altavilla, notável cantora e amiga, uma coincidência feliz e que me fez escrever este artigo ouvindo vezes sem conta a canção. Ao piano, tão bem, Fernando Domingos...  Na unidade do espírito divino, muita luz e amor em todos!