sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Tarot. Arcano XXI, o Mundo. Imagens, significados, impulsos, realizações.

    Quando se chega ao fim da  peregrinação do 0 ao XXI Arcanos  do Tarot (que também pode ser lido como I a XXII), encontramo-nos com uma representação dum ser perfeito, seja humano seja celestial, no eixo e centro do Mundo, palavra esta de origem latina, Mundus, significando tanto limpo, asseado, puro e, logo, oposta ao imundo, como também  os ornatos e jóias das mulheres (mundo sobre mundo...). Corresponde ao Kosmos dos gregos, que é um todo, ou o Todo, belo, ornado e ordenado, e estamos pois dentro de uma cosmovisão reconhecedora e elogiosa da dignidade do ser humano...
 Com a palavra, também possível de se utilizar, Universus realça-se  a Unidade (Uni) substante e coesiva na diversidade (Verso), que está manifestada ou subjacente ao Todo, Cósmico, unidade esta que foi e é vista e sentida consciencialmente, por alguns seres mais despertos, ou mais persistentes na suas meditações, como a vida inteligente divina omnipresente, sendo conceptualizada  como a Anima Mundi, ou o Logos e, cientificamente, nos nossos dias, como o Campo (the Field, e Rupert Sheldrake tem trabalhado bem acerca dele) de Energia Informação Consciência que constitui e articula o Cosmos em infinitas relações, emaranhamentos (no dizer de outro valioso investigador Dean Radin), sinapses, afinidades...
 Poderemos dizer então que nesta estação final do percurso ou caminho no Tarot, o ser humano está mais expandido consciencialmente, mais alinhado, justo, intuitivo, ético, unificado e assim neste arcano contemplamo-lo numa mandala, ou seja, numa configuração pictográfica de plena ressonância psico-mórfica (a psique-alma nas formas), ou seja, desenhando como pode o ser humano na sua dimensão de ser divino, cósmico, de espírito consciente e  dotado de livre arbítrio, participando valiosamente no devir do Cosmos visível e invisível, e seus seres, especialmente na Terra...
A imagética utilizada tenta transmitir símbolos correspondentes a tal elevado estado de consciência,  harmonia e unidade, no tempo e espaço da Manifestação,  também chamada pelas religiões criacionistas  Criação, e escolheram-se então Anjos no princípio da história do Tarot (séc. XV), neste artigo sendo o caso da primeira imagem ou lâmina aqui apresentada (patrocinada na sua feitura pela família milanesa dos Visconti),  espíritos celestiais que são tanto representações da nossa própria identidade celestial, como de entidades da Providência divina, e mais especificamente dos Querubins, aos quais se atribuía a função de sustentarem a esfera mais elevada do cosmos, o Primum Mobile. Mas também podem ser apenas os Anjos, na hierarquia celestial mais simples e próximos companheiros de inspiração, de guarda e de preservação da Ordem do Universo, pelo menos em nós e com quem nos relacionamos.
É posterior na evolução dos Tarots a valorização e introdução na lâmina dos quatro ou cinco elementos (terra, água, fogo, ar e éter) considerados os materiais qualitativos constitutivos do Macro e do Microcosmos terreno e humano, e que a alma peregrinante no caminho espiritual terá mais harmonizado em si, ao fim da meditação e passagem pelos 22 arcanos, já que o Joker ou Louco é tanto 0 como 22. Neste sentido de perfeição e fim, esta carta última ou de acume, a XXI, foi  chamada em algumas versões do Tarot como a Coroa dos Magos...
Nos primeiros Tarots houve pois variações em relação aos seres que foram escolhidos para incarnar nas lâminas a manifestação da harmonia humana, não só com os quatro ou cinco Elementos mas com os três níveis ou planos do mundo: 1º- natural físico, 2º- astral,  subtil e psíquico, 3º - causal, arquétipo e espiritual, considerando-se que o mundo Divino tanto os penetra como vida como está acima deles, nomeadamente num plano mais elevado e no Ser Primordial transcendente.
Ora esta Harmonia com os Cinco Elementos, consagrada na carta mais perfeita ou final do Tarot e logo poderemos dizer recomendada, é um trabalho diário constante e criativo de ligação e contacto, por exemplo, 1º, com a terra, o campo, os jardins, a argila ou barro, as flores e plantas em casa; 2º com os rios, o oceano, o lavar-nos e banhar-nos conscientemente,  a água e os chás que bebemos, os sentimentos e emoções que desenvolvemos; 3º, com o vento, a dança, o ar, e como respiramos mais conscientemente o prana, palavra sânscrita para as partículas de energia solar e vital; 4º, com o fogo, a vela, a lareira, o sol (nomeadamente com o nascer e o pôr), contemplado e acolhido, a energia ígnea cósmica subtil; 5º, com as nuvens, o éter, os horizontes, a noite estrelada ou os seus planetas e cosmos, contemplações estas que tanta admiração, expansão, gratidão e portanto harmonização causam. 
Ao harmonizar-nos fortalecemos então o nosso ser, dos neurónios e do sistema imunitário aos corpos subtis e podemos tornar-nos a imagem central deste auspicioso arcano XXI, num trabalho criativo muito necessário em tempos de crise como estamos a atravessar com as gripes, vírus e vacina, as atemorizações mediáticas, as explorações das farmacêuticas (a que a própria presidente da União Europeia cedeu e consta que corruptamente) e logo as desilusões políticas: tantos casos corruptos de alinhamentos e narrativas oficiais contra  a justiça, a verdade e mesmo a saúde...
Ao contemplarmos algumas versões das cartas,  com a intenção de nos abrirmos a elas e de despertarmos a nossa sensibilidade e níveis interiores,  intuiremos e poderemos mesmo recolher ideias e energias   actuantes em nós, ou seja, que serão psico-mórficas, isto é,  modeladoras ou influenciadoras das nossas energias e formas físicas e subtis, harmonizando-nos e religando-nos mais aos níveis superiores de nós e do Universo, dentro do Campo unificado já referido e que por exemplo nos sonhos temos bastante acesso, já que mergulhamos nele semi-conscientemente e com menos defesas da personalidade e do ego interagimos ora a sós ora com os ambientes e seres a que tivemos ou temos acesso ou que nos acessam.
O uso adivinhatório ou oracular, frequentemente superficial e comercial, hoje predominante na utilização do Tarot,  sendo uma compreensível auscultação ou consulta de intuição futurante, explicitada depois no aconselhamento psicológico, sob a maior ou menor intuição das duas partes (consultante e consulente), não nos deve fazer esquecer a função essencial de auto-conhecimento, consciencialização, transmutação e expansão, ou seja, fortificação e religação da consciência humana com a sua dimensão sábia, fraterna, espiritual e divina, mais consciente da unidade de tudo e  todos, e que podemos desenvolver contemplando e meditando as lâminas tão carregadas de simbolismo e de ressonâncias multidimensionais.
O Tarot de Visconti Sforza, provavelmente o primordial, gerado por volta de 1450, apresenta-nos então, dentro da forma perfeita circular, o Mundo,  a Terra e a cidade acastelada, o Castelo interior, ou ainda a mítica Cidade santa celeste, nas mãos sustentadoras ou tenentes de dois Anjos, talvez Querubins, e, portanto, da Providência Divina (lembrando o dito "o que está cima é como o que está em baixo"), talvez para fazer-nos intuir e contemplar a cidade arquétipa, o modelo a seguir, erguida segundo os princípios da Geometria sagrada, entre os mares verdes, os céus azuis e a flamejante estrela, num todo irradiante de paz e harmonia, e impulsionando-nos à consciencialização de tais potenciais nossos e da natureza na socialização das aldeias e cidades e perante todas as adversidades naturais e artificiais, pandemias, repressões e guerras. Face ao que se está a passar nos algo dramáticos últimos anos, sem dúvida grande discernimento e luta se pede às pessoas mais sensíveis, artistas, criativas, conscientes e conhecedoras, para manter este arquétipo operativo e não desanimarem nem se confinarem nem se deixarem açaimar e manipular demasiado, sendo aconselhável rejeitarem-se televisões, noticiários e narrativas oficiais (sobretudo as ocidentais oligarquizadas) dos conflitos e acontecimentos mundiais.
Algumas intuições e criações religiosas e literárias apresentaram descrições e imagens que se tornaram míticas das forças, formas, locais  e estados conscienciais arquétipos ou potenciais, tais como  a ilha de Avalon dos Celtas, a nova Jerusalém (do Apocalipse do pseudo-João), a ilha da Utopia de Thomas Moore, a cidade do Sol, de Campanela, a Cosmopolis do fundador dos Rosacruzes, Joahannes Valentin Andreae ou, já nos nossos dias, a nova Lísia, na Utopia III, de José V. de Pina Martins. Os contrastes do livro de George Orwel, 1984, e os estados actuais de manipulação, degradação ética, ditaduras, destruições da Natureza e artificialização da Vida, nomeadamente com os ditos ciborg,  são de ponderar já que assinalam o distanciamento crescente dos ideais antigos de modos de viver harmoniosos que o neoliberalismo consumista, destrutivo e cada vez mais autoritário e repressivo, e o insensível e opressivo imperialismo norte-americano e dos seus coligados, causam, a que se deve acrescentar o exagerado controle da vida das pessoas em alguns países e que a Nova Ordem Mundial desejaria aplicar a todos. Nos anos de 2020 e 2021 a pandemia do corona vírus veio pôr em causa muito da antiga ordem mundial bem mais livre, e como as tentações de domínio e sujeição da humanidade são grandes para alguns, talvez algo diabólicas, houve muita gente a deixar-se levar, perdendo o seu discernimento ou orientação e o amor corajoso, muitas pagando com efeitos secundários as doses prescritas que enriqueceram muitos...
Em 2022 o embate entre a Rússia e a Nato-USA via Ucrânia veio travar o progresso da nova Ordem Mundial bem como a destruição dos valores tradicionais que estavam a conseguir, numa batalha que se tem prolongado e que tem deixado bastante destruída e dizimada a Ucrânia, que deveria ter a coragem de parar a luta (como se estava a negociar na Turquia no início, mas que Boris Johnson e a NATO impediram), e deixar as zonas russas reintegrarem-se na mátria russa, antes que venha a perder ainda mais territórios, tal Odessa. Em 2025, a reeleição de uma admnistração norte-americana republicana, mais conservadora no bom sentido e menos vendido ao infrahumanismo da direcção da União Europeia e do Fórum Economico Mundial pode ser um factor importante na cessação das hostilidades e expansionismo ou mesmo existência da NATO ou OTAN, tão divisiva da unidade planetária
Ora neste pacífico arcano observamos que um dos Anjos, na versão do Tarot de Visconti-Sforza, aponta com a mão para o peito, indicando que é na interioridade do coração e da alma em busca ou em sintonização do espírito divino, da Divindade e do Amor, ou em amor, que recebemos ou sentimos mais a presença espiritual e as protecções, intuições e graças do mundo espiritual e Divino. 
Em verdade é no peito, no coração, no sentir interior, na aspiração de amor ao Espírito e ao mundo espiritual que estes mais se desvendam e se sentem, proporcionando intuições, harmonizações, comunhão, felicidade e consequentemente acção justa, comportamento ético e harmonizador ambiental. Algo bem mais simples e directo, que não necessita de tanta exploração, canalização, mestres e exercícios, tal como abundam e  tanta gente desnorteiam e prendem...
O Mundo (embora ainda não o dos noticiários) surge ou desvenda-se conforme o que cultivamos, vibramos e amamos, conforme o que o campo forte electro-magnético do coração irradia, algo  que a interdisciplinariedade científica moderna vai provando no mundo dos quanta e da psique, tanto ao medir a importância do campo electro-magnético do coração, como também ao confirmar que o observador influencia as partículas observadas e que os nossos pensamentos e sentimentos modificam muito imperceptivelmente as nossas hormonas, e afectam órgãos cerebrais e neurónios e logo sistema imunitário, órgãos, células e partículas, certamente sem a facilidade com que algumas comercialices de curas e máquinas quânticas, ou mesmo de ensinamentos em livros e seminários de neurocientistas feitos gurus  pretendem. 
Deverá assim alertar-se para os efeitos do receio e medo no coração e no sistema imunitário, que deve antes ser fortificado com bons livros, pensamentos e diálogos, ou seja, boa alimentação física, idealmente de agricultura biólogica, com realce para o miso, o gengibre, o louro, as folhas verdes,  e bons estados psíquicos e espirituais.
E como muitos media, jornalistas, locutores, comentadores, gestores e políticos se especializaram no  irradiar constante de ondas de pensamento nocivas, atemorizadoras ou mesmo destrutivas, é necessária uma selecção muito criteriosa quanto aos locutores, comentadores ou políticos que deixamos entrar na nossa aura ou alma, através do que vemos e ouvimos. Isto é  fundamental, se queremos evitar toda a sugestibilidade, hipnose e lavagem ao cérebro que ocorre ou é transmitida pelas televisões, declarações, jornais ou rádios. E em tempos de crise pandémica e de quase forçadas vacinas,  algumas das quais (em especial as da Pfizer) enfraquecem ou afectam  demasiado as pessoas, isto é ainda mais gritante e indignante. Logo, se conseguir deixar mesmo de ver a televisão, e fazer, gerar, seleccionar a sua própria internética televisão-jornal, bem melhor...
Na versão (e da qual chegaram até aos nossos dias apenas dezasseis das cartas), denominada Cary Yale Visconti-Sforza, está representada a Mulher como a Alma do Mundo ou então a Deusa (talvez Vénus), ou ainda a Providência Divina, com a trombeta axial na mão direita activa e uma coroa na esquerda receptiva, coroando ou regendo o Mundo, a Terra, a qual surge debaixo dela com cidades, oceanos, rios e uma embarcação, com um barqueiro (qual Siddharta, do belo romance de Herman Hess) ajudando a atravessar alguém para a outra margem....
Talvez o mantra Gate, gate, paragate, parasamgate, Bodhi swa! "Passou, passou, completamente para além, viva a sabedoria iluminante", de um dos sutras mais belos do Budismo Mahayana,  possa prestar-se à analogia com tal passagem, embora o Budismo (ao não conseguir na sua evolução histórica fixar e conservar no seu ensinamento o espírito individual nem a Divindade) tenha remetido salvificamente as pessoas, ou os seus agregados energéticos, através dos subjectivos planos, os "bardos" ou egrégoras, para níveis sem forma ou ditos vazios e onde finalmente o nirvana dissolutivo ou desnorteante esperava ou poderá esperar os ingénuos candidatos a ele...
Na outra margem, no outro plano, podemos observar um cavaleiro andante de bandeira erguida, certamente um sustentador do Dharma, palavra em sânscrito que significa  Dever e Ordem cósmica. Na Tradição espiritual ocidental diríamos um Cavaleiro ou Fiel do Amor, capaz de assumir os aspectos mais heroicos ou virtuosos, isto é, o dharma, missão ou dever, sendo o seu próprio denominado o swadharma, um desafio ou cavalaria constante por vezes dolorosamente intensificado, tal como vemos nos países desvastados por guerras, sanções e pandemias. Sabermos então ressoar e assimilar na nossa alma os mantras ou frases de poder salvíficos adequados, dharmicos, será bem necessário para ganharmos forças e resistência psico-somáticas e uma maior dimensionalidade espiritual e religação aos mundos e seres espirituais e da Divindade...
Já em duas outras versões italianas antigas
de dois Tarots iniciais, encontramos primeiro numa versão ecoante do valor do Princípio Eterno Feminino Divino, da Mãe Terra ou, quem sabe, da Hagia Sophia, Santa Sofia-Sabedoria, uma jovem regente do Mundo, com a vara do poder na mão direita e o globo da Terra, do Cosmos ou da esfera da Divindade na esquerda, estando de pé sobre a esfera ou mandala da Terra, a qual assenta sobre nuvens ou planos de energia... 
Na segunda versão é um Anjo assente em nuvens que está sobre a esfera (mandala) da Terra, a mão esquerda segurando o ceptro ou vara de ligação e de comando, na direita oferecendo uma coroa de flores e jóias, ou seja, da riqueza, beleza e reconhecimento que a Terra e o trabalho humano podem gerar e merecer.
Uma ave, entre a pomba e a águia, símbolo levitante e potente do espírito individual e do Espírito divino santo cósmico, suporta a esfera da Terra como se esta fosse o espelho mágico, tão presente em várias tradições, nomeadamente no Shinto onde é Yata no Kagami. uma das três insígnias ou objectos sagrados da  deusa solar Amaterasu Omi Kami, tanto espelho exterior como estado mental equânime, silencioso, através do qual o ser no "caminho do espírito", shin-do, leva a sua mente a entrar em maior acalmia da sucessão de pensamentos e das frequências rítmicas orgânicas, podendo por fim sentir o seu espírito divino em si, e o Amor e, eventualmente, contemplar e discernir sinais e seres, seja, os guias ou mestres, Anjos e Arcanjos, ou então receber algumas formas e energias dos níveis espirituais.
Há nas quatro versões uma  importância relativa ou menor do ser humano: ele é apenas um pequeno ser na Terra e na cidade, e deve inserir-se na Providência Divina, Angélica e dos Mestres e Fiéis do Amor, a qual o pode ajudar e guiar no labirinto por vezes tão conflituoso dos instintos, actos, intencionalidades e potencialidades interactivas de tantos seres, grupos de pressão e  Estados, luta também de egrégoras, ou seja, de entidades individuais ou grupais invisíveis, as negativas alimentando-se do medo e do ódio e que tanta gente e meios de informação destilam e causam...
O Mundo  não surge representado nestas versões já tanto como dinamismo activo do ser humano harmonizado e pleno, ou como os seus estados conscienciais iluminados e expandidos, mas é mais a Terra, a sociedade, a cidade, um colectivo, e corresponde e concretiza ou actualiza um modelo de perfeição social transmitido ou infundido, regido ou inspirado pela Providência Divina e Angélica, a qual na Idade Média e no Renascimento muito mais se sentia e acolhia (até como Alma do Mundo ou vontade Divina), do que nos dias de hoje tão massificados na superficialização e dispersão sensorial e no voluntarismo egoísta de pessoas, grupos, empresas, governos e imperialismos, dos quais o mais violento e inepto é dos Estados Unidos da América e dos aliados da sua famigerada NATO, da Comunidade Britânica, sauditas e israelitas, causadores de tanta mortandade e sofrimento no Médio Oriente e, por fim, frequentemente a reboque, a tão inepta quão vendida direcção da União Europeia.
Quando entramos nas versões do Tarot das manufacturas francesas de Marselha, Besançon e outras, as quais a partir do começo do séc. XVII dominam o mercado das cartas de jogar de grande parte da Europa, quando o Tarot era ainda tanto um jogo como um ensinamento humanista, transmissor de aspectos individuantes e iniciáticos, já que é posterior a sua utilização para adivinhação, vamos encontrar nelas um mesmo paradigma ou tipo simbólico: ao centro um ser, em geral um ser feminino nu, seja uma Deusa seja uma Mulher, apenas com  um leve lenço ou écharpe, em plenitude, envolta numa grinalda em forma de mandorla ou oval, algo que já vinha de religiões antigas, empunhando  à vontade a vara do poder, que manipulada pelo Mago no arcano I, numa bela imagem que vigorará durante séculos e que sob uma aparente simplicidade de plenitude encerra algumas variantes e mistérios quanto às suas fontes inspiradoras e arcanos...
Nestas versões contemplamos na figura central a Providência Divina ou  a Alma do Mundo, ou o Mitra cosmocrator (e ele era representado com tal grinalda e os 12 signos astrológicos), ou o Cristo, no fundo as avatarizações (descida) do Espírito divino,  a alma iluminada e livre,  o misté ou  alma iniciada em Eleusis, os iniciados dos mistérios dionisíacos (bacoi), no final do percurso de auto-conhecimento e realização,  no centro da carta-arcano, no meio de uma coroa entrançada e florida, na forma significativa da vesica pisces, que é também a da vulva ou yoni, apontando para a aura do corpo glorioso ou espiritual. 
Nestas versões do Tarot nos cantos da carta dardejam os símbolos dos quatro Elementos e Signos (Terra-Touro, Fogo-Leão, Ar-Anjo, Água-Escorpião) e animais sagrados (cujos poderes foram simbolizados por tantas formas e deificações ao longo dos séculos, com origem na Assíria) e que são ainda símbolos das estações do ano e dos temperamentos humanos: -  fleumático ou linfático, sanguíneo, bilioso e nervoso.
Mais tarde, na simbólica cristã, aplicou-se ainda tal esquema quadripartido com os quatro Evangelistas (e assim os encontramos, por exemplo, pintados no arco manuelino com que se abriu no séc. XVI a Charola Templária do convento de Cristo de Tomar),  cristianizando-se o quartenário básico e o seu centro: a quinta-essência, o espírito, a  Divindade em nós, ou seja, o ser humano mais plenamente desabrochado espiritualmente e em harmonia com o Universo.
Um ser humano mais desperto, consciente, responsável e em comunhão com o Campo Unificado de energia informação consciência, diríamos hoje, nível ao qual pouca gente acede conscientemente, em especial pela muita alienação ou ocultamento que os meios de informação, de entretenimento e redes sociais causam poderosamente, nem que seja com o ruído, futilidade, transitoriedade e lixo com que enchem as mentes e almas humanas, para não falarmos das manipulações, opressões e crimes que ocultam e apoiam, ou do exagero de medos que derramam...
     
Devemos realçar a nudez,  a faixa, lenço ou écharpe, o movimento das pernas, e das mãos e os instrumentos que leva (varinha ou tirso e címbalo). Há uma alegria natural ecoando  cultos e iniciações pagãs, onde as Deusas, provavelmente do Amor, a energia primordial da vida, eram cultuadas, com danças, naturais nas festividades e convívios, e que a sábia Isadore Duncan, por exemplo, recuperou e relançou no começo do séc. XX, com a Dança do Futuro, a qual entre nós foi por Teixeira de Pascoaes bem enaltecida em A Minha Cartilha, como pode ler no blogue.  As sacerdotisas, as almas em fluidez e dança iluminada e inspirada, surgem-nos então como estados conscienciais a assumirmos no nosso dia a dia..
Nesta versão do séc. XVII há uma clara correspondência com o arcano I, o Mago, empunhando a varinha, que surge então no XXI, como a Mulher ou ainda a Criança Divina quinta-essenciada, como se o objectivo da peregrinação da Vida, simbolizado no Tarot, fosse o emergir do Espírito divino em nós numa forma pura, franca, alegre e de graça natural, algo que a  tradição portuguesa do culto do Espírito Santo apresentou bastante, tendo tanto Agostinho da Silva na sua fala-conversa e na dinâmica inter-relacional de amigos e povos, como Dalila Pereira da Costa, num dos seus últimos livros Entre o Desengano e a Esperança, aprofundado,  universalizado e actualizado tal filão. Dalila, uma escritora que bem conheci e que  recuava tal filão pré-cristão aos Celtas, vendo-o depois prosseguir no Amadis de Gaula, e considerando-o até num dos seus aspectos como a união da alma pessoal com a da pátria.
 
Um Tarot bem moderno intuiu algo disto: A alma  harmonizada em relação aos quaternários terrenos, tais como os quatro Elementos e as quatro estações do ano, e quintessenciada,  aberta   mais consciente do espírito nela ou mesmo (mais difícil e raro)  da Divindade, dá à luz, manifesta, avatariza (em sânscrito significando a descida manifestada do Divino) o Puer eternus, a Criança eterna, o Filho ou a Filha, o Espírito, o Homem ou a Mulher (conforme a polarização primordial e segundo consta definitiva...) Universal.
Um espelho mágico bem feminino e amoroso, o Mundo como Beleza,  fluindo desde a eternidade da árvore cósmica em volutas evolutivas maravilhosas, da tartaruga à crisálida.
Avancemos agora por versões mais modernas do Tarot, observando se elas conseguiram ir mais longe, seja nas representações das harmonias cósmicas entre o alto e o baixo, o visível e o invisível (tal como a da última imagem), seja nas entidades ou seres que dinamizam ou "protegem" o Campo Unificado no qual os seres têm o seu ser e vivem, seja ainda no ser humano como peregrino do caminho da vida representado no Tarot e que está no centro deste arcano, o último, já que o arcano seguinte não estando numerado é mais o 0, indicando o constante recomeço e ciclicidade dos processos naturais ou vitais.
Num Tarot bastante simples mas bem fundamentado, no meio dos quatro elementos e da circulação e renovação perene da Vida e do Tempo,  simbolizada pela serpente egípcia que engole a sua cauda, Oroborus, e estando substituída  a grinalda florida, sem deixar de se realçar a circulação energética e a causalidade, quem contemplamos é o Andrógino, o Rebis alquímico (a coisa-res, bis ou dupla), os dois num só,  por certos mestres afirmado como estado original e que devemos recuperar, reactualizar, seja na união dos opostos interiores seja na dos exteriores e até, idealmente, nos dois, perenemente no caso das hipotéticas almas gémeas. Aprofundarmos tais hipóteses com alguém, ou com o nosso par, é certamente uma grande graça...
No meio das nuvens das alturas ou dos planos subtis realiza-se então tanto o encontro das duas almas afins, como a harmonização  e unificação das polaridades internas  e o Ser está mais pleno e comunga em dança e criatividade com o Mundo na sua multidimensionalidade e, já não carente e sofredor, está bem, alegre e inspira, ilumina e ajuda, em suma, ama, e confronta o mundo envolvente e conflituoso com um optimismo escatológico. 
Esta versão bem poderosa do arcano do Mundo denota um bom conhecimento simbólico, com os motivos tradicionais conservados e aperfeiçoados: os quatro elementos e estações do ano continuam a fazer o quaternário envolvente e fundador, unidos e cruzados pela cruz aberta e branca por onde se faz a subida e descida das energias axiais dos mundos e da coluna vertebral humana, surgindo a esfera ou mandala (deste modo sugerindo-se a expansão da consciência e da visão espiritual) traçada  pela serpente do Tempo-Espaço Consciencial Perene, propondo-se talvez até o sentir-se a ritmicidade das frequências e batidas do coração magnético e espiritual, o orarmos com o coração e o irradiarmos consciente e determinadamente Amor para  Terra,  e os  países, zonas e seres que  mais precisam...
Sobre este coração, ou dentro da sua influência, encontra-se uma figura feminina mercuriana ou afim de Hermes, pois tem as asas nos pés, segura o caduceu na mão esquerda, com as duas serpentes enlaçadas até se encontrarem ou beijarem sob as asas superiores, e empunha ou desabrocha na mão direita a rosa humanizada do Amor-Sabedoria proveniente da fonte Divina.  
Talvez nos diga: não deixes bloquearem-se as tuas energias subtis e psíquicas, nomeadamente nos planos inferiores das carências, fraquezas e medos (algo exacerbadas nos tempos que correm..), mas sobe-as na activação do amor, compaixão, aspiração,  criatividade,  vida sóbria e ética, optimismo escatológico e  adoração...
No eixo central, e que é o dos mundos físico, subtil e espiritual, vemos  ao alto a rosa de cinco pétalas, o espírito, e na base a gota do sangue vital e veículo da alma, que pode ser sacrificial, redentor ao ser doado amorosamente pelos outros e vemos isso hoje tão fortemente em todos os que lutam contra a mentira, a opressão e a injustiça, tal  como o exemplificaram dois dos últimos grandes seres martirizados, o general iraniano Qassem Soleimani e a filósofa russa Daria Platonova Duguina. Que a nossa Shakti brilhe imortalmente...
Saibamos então no dia 21 de cada mês, ou de vez quando, contemplar, aprofundar, assimilar e dinamizar os poderosos psicomorfismos contidos e transmissíveis neste arcano, para dinamizar as nossas melhores potencialidades e auto-realizações e a fim de que o Mundo humano, sub-humano e supra-humano melhorem em saúde, paz, ética, harmonia e felicidade, e que tanto a Alma divina do Mundo como o coração Divino cheguem, ressoem, fluam e se sintam mais no centro de todos nós.
Sorri, e irradia mais o Amor Divino através de ti e do Coração
Se quiser continuar ainda esta leitura, algo longa, então contemplemos ainda, com um tapete de oração servindo de moldura e onde está tecida uma imagem do Espírito descendo,  as duas versões mais clássicas e conhecidas do Tarot, a de Marselha e a ocultista de Arthur Edward Waite, assim se sugerindo que é necessário constantemente infundir e mover as auras e coroas floridas dos nossos seres no Campo unificado de Energia Consciência do Cosmos, e que a Natureza tão maravilhosamente manifesta, e  que precisa de ser tratado bem melhor pois a cáfila dos políticos, financeiros e militares muito o têm rasgado e destruído e assim parecem querer continuar, só interessados em negócios de armamentos ou em ganhos de multinacionais egoístas, ou no domínio de estados racistas e imperialistas, tão daninhos em relação à harmonia, saúde e preservação do planeta e dos seus eco-sistemas, recursos, pessoas, comunidades, como no Chile e na Bolívia assistimos dramaticamente no final de 2019 sob apoio   da USA e a aprovação da tonta direcção da União Europeia, ou presentemente no conflito na Ucrânia e em Gaza. Graças a Deus e à comunhão dos espíritos pois tal como Bolívia social e livre conseguiu vencer após alguns meses de opressão, também findará a luta contra os russos e os palestinianos. 
Quanto  ao corona virus, houve ora pobreza e mesquinhez, para não dizer malvadez, nas atitudes dos que dificultaram ou bloquearam a livre circulação e o acesso aos meios de saúde e especificamente de prevenção e apoio aos afectados, através de sanções, mas também houve esbanjamento quando Ursula van der Leyden comprou uma quantidade astronómica de vacinas à farmacêutica onde o seu marido é um importante dirigente, a Pfizer (além de subvencionar milionariamente a sua companhia Orgenesis), famigerada Pfizer que produziu uma vacina com a molécula mnra e que contém a  proteína spike  que afecta  o corpo humano.
Paz justa e não opressiva no Mundo, e auto-realização livre, e não oprimida, afectiva, artística, profissional e espiritual nas pessoas é o que todos desejamos e aspiramos, e muitos lutamos...
  E para concluirmos com uma visão mais moderna e poderosa da alma em maior plenitude de comunhão energético-espiritual contemplemos a versão de um Tarot mais moderno, o de Frown Strong, em que a mulher, ou a anima na sua nudez e verticalidade, ou ainda a shakti da tradição indiana, ou o ser que sente o seu ser espiritual, ou ainda o cavaleiro-cavaleira do Amor, está a unir a Terra e o Céu numa continuidade harmoniosa. Possam a natureza, a sociedade, e muitas famílias e seres humanos ressurgirm mais puros e harmoniosos após as actuais provações e desafios, pois o estudo, o diálogo e a meditação fazem com que aumente o discernimento das alienações, manipulações e inutilidades que devemos abandonar, e em contrapartida afluam energias superiores ou divinas.
O poder da shakti, da anima, do ser feminino, ligando a terra e o céu. 
Resumamos então o Arcano (e dia, para quem trabalhar ao longo dos dias do mês o correspondente arcano) XXI, o Mundo, como o Tempo e Espaço harmoniosamente vividos e nas suas limitações e desafios vencidos, o ser humano na sua nudez e autenticidade pura e aberta à Divindade, a coroa  florida pela higiene (da deusa Hygeia, das mezinhas e mais tarde da farmácia), a magia e a beleza da alma peregrina criativamente ligada ao Espírito Divino e manifestando-o.
O ser humano consciente do seu corpo espiritual, em amor, numa ligação mais viva com os seus antepassados e mestres, o Anjo, o Arcanjo de Portugal, o Espírito, a Divindade, e logo com a Alma do Mundo mais reconhecida e aprofundada para  harmoniosa e abnegadamente interagirmos mais multipolarmente com os seres, a Humanidade, a Natureza, o Cosmos divino...
Esta versão ecológica do arcano do Mundo lembra-nos dolorosamente a enorme destruição das árvores e  eco-sistemas ( 2017 e 2018 e de novo 2019 e 2022), tão desleixada, inepta e trágica que se vive recorrentemente em Portugal), pelo que devemos em pequenos grupos e associações lutar para que eles estejam mais nas nossas mãos e orações, e não dos lobies dos eucaliptais, madeireiros e políticos insensíveis à agricultura e à sua bio-diversidade, a qual deveria ser até biológica, no meio de uma reflorestação tradicional ou, melhor ainda, em agro-floresta, como por exemplo a Herdade ou Montado do Freixo do Meio desenvolve junto a Montemor-o-novo. 
 
The Arcane XXI of the Tarot. The World, or the Crown of the Magi, asks us to work on achievement, harmony, love, illumination, "eschatological optimism", as Daria Dugina developed. 
Let us be that fullness of the spiritual Self, in the Divine omnipresent Spirit, or in its Unified Field or Anima Mundi, and share that in Brotherhood and Love, and our worlds, nations, groups and ecosystems will be much better...
 
Numa derradeira aproximação a este arcano XXI, na qual  em mandorla ou mandala vivemos  com Mundo-Natureza-Todo, podemos ver nesta última imagem um chamamento a não ficarmos tão bloqueados em hábitos sub-animais, consumistas, alienantes e poluentes, ou nas limitações e véus  de partidos, nacionalismos, doutrinas e religiões sectárias, mas antes a erguermos a nossa alma livre, amorosa e universal,  comungando mais alegre e criativamente com os outros seres na Alma do Mundo Divina ou Campo Unificado, ou ainda na interconectividade quântica, e multipolar.
Cuidando e cultivando mais biologicamente a Natureza (qual arco-íris, na pintura do notável mestre Bô Yin Râ) e não envenenando-a explorando-a e destruindo-a,   apoiando a luta libertadora da Humanidade multipolar que está a ser dinamizada pela Rússia e o BRICS, e sendo mais criativos, justos, solidários e meditativos, penetraremos clarividentemente nas dimensões subtis do Mundo a fim de agirmos com mais ecologia e sabedoria,  fazendo desabrochar  a quinta-essência, o ser em corpo e luz de Glória ou imortalidade, o Amor e a Divindade vivos em nós....

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Será nuvens, será gente? Gente não é certamente e as nuvens por quem serão assim? 19/10/2016. Lisboa.

                                                   NUVENS SOPRADAS BELAMENTE
           Finalmente começaram a surgir nuvens especiais, com ar de serem modeladas por devas....















Tarot, Arcano XX, o Julgamento. Significados históricos, psicológicos, religiosos, conscienciais e iniciáticos.

O arcano XX, intitulado o Julgamento, ou ainda a Ressurreição, fecha o ciclo de duas vezes 10, e podemos dizer que a Roda da Vida (arcano X) rodou plenamente e chegou a hora dum balanço, ou mesmo de uma morte e possível ressurreição espiritual. 
Assim se passa  com  os seres ao longo da vida e embora os símbolos escolhidos nas imagens do arcano XX do Tarot para representarem tal realidade pareçam ser exclusivamente cristãos tal impressão tem de ser relativizada, já que a percepção avaliadora ou julgamento e a crença ou intuição da sobrevivência anímica ou imortalidade e, portanto, de uma vida post mortem de acordo com o que é merecido, está presente em quase todas as religiões e tradições. 
Já os antigos egípcios, desde o III milénio a. C. consideravam que, nos mundos do Além (Duat), o primeiro acto após a morte era a "Pesagem do Coração (ib)", de acordo com a vivência maior ou menor da Verdade e Justiça, que eram os princípios ou qualidades principais da deusa alada Ma'at, que presidia a tal exame, coadjuvada por Anúbis. Se o coração pesava menos ou igual à pena de avestruz da deusa da Verdade e da Ética, então a alma estava pura e podia ascender para planos mais luminosos...
                                   
A concepção do Universo ser justo, de estar dentro duma ordem implícita, de haver uma balança ou equilíbrio a reger as vidas, as quais estão assim dentro de um vasto campo cósmico ordenado e que, além das concepções e avaliações que façamos, ou que humanamente nos façam, das nossas acções e intenções como mais ou menos justas, e que além disso há ainda seres espirituais, deuses ou anjos, encarregados de avaliar mais veridica e justamente e, deste modo, dinamizar tal harmonia na peregrinação seja apenas terrena seja já pelos vários planos de existência e do além, perpassa pela maioria dos povos e tradições.
                                              
O que vinha das religiões antigas do Mediterrâneo e do Médio Oriente, e em especial  do Egipto, acabou no Cristianismo por se cristalizar quanto ao julgamento das almas nas ideias visionárias e  terrenas dos crentes e  que  se manifestaram e foram intensificadas pelos zelotas e messiânicos que redigiram o fantasioso Apocalipse, que não é de S. João, e pelo evangelho segundo S. Mateus, XXV, 31, onde se descreve a vinda gloriosa do Filho do Homem para o julgamento final (algo que muito provavelmente Jesus não ensinou), passando também por alguns dos primeiros padres da Igreja, e tal vai emergir na idade Média em centenas de reproduções em pinturas e esculturas nos tímpanos das igrejas românicas e catedrais góticas e depois na iconografia do Tarot nas linhas de força que se encontram desde as primeiras versões italianas, e que tentaremos compreender numa hermenêutica espiritualizante:
Um Anjo ou Arcanjo, vindo das nuvens, em azul celestial, por vezes sob ou obedecendo às ordens da imagem-crença gerada, bastante derivada de Mateus e do Apocalipse, de Deus Pai com uma espada e o globo nas mãos,  outras vezes Jesus ou mesmo Anjos ou Arcanjos, substituindo-o, soprando um som, mais ou menos audível, que ressoa e ressuscita do campo terreno dos túmulos as delimitações individualizadas de almas, agora purificadas pelas águas-energias, as quais se erguem como seres nus e despertos, que oram ou dão graças. 
Nada de misterioso haveria então a indagar neste arcano XX: as almas mortas ou adormecidas são despertadas ou ressuscitadas pelo som-vibração ou apelo que vem do alto e dos Espíritos Celestiais, os quais as vão, como se vê pelo aspecto geral lavado ou luminoso dos ressuscitados, impulsionar para os mundos espirituais adequados, ou para um estado de liberdade e graça mais plena, em geral considerado de maior proximidade a Deus, nas imaginações optimistas e paradisíacas que se geraram para os crentes bons ou justos, o que, tendo alguma realidade, não deixa de constituir provavelmente encaminhamentos e estadias para paraísos limitados no tempo, mais do que uma nova terra dos ressuscitados e salvos, após o julgamento final, como o Apocalipse sugeriu, mas ques e compreende dentro da tendência de materialização e terrestrização do subtil, espiritual e Divino
                                        
Na observação  das diferentes imagens deste arcano do Tarot, nomeadamente na versão mais trabalhada e que se tornou a clássica, a de Marselha, vemos uma só pessoa a sair da espécie de túmulo ou tanque de água e que as outras, também nuas, parecem estar a orar ou a pedir por essa. Observamos também  que o homem e a mulher com os cabelos soltos  erguem os braços e mãos ao peito em oração e que o ser que ressuscita está no meio deles e de costas para nós, tendo uma espécie de tonsura ou círculo espiralizado no  alto do cabelo, indicando seja a passagem seja a activação de energias subtis, seja pela vida e iniciação seja pelo chamado do anjo aureolado que sopra a trombeta com um estandarte crucífero sobre a sua cabeça e chacra de cima...
Esta intermediação de dois seres também nus permite-nos alguma especulação sobre a possibilidade de estar representada uma iniciação antiga e dentro da mesma linha do morrer é ser iniciado (entre nós literariamente proclamada e algo vivida sacrificialmente  por Antero de Quental, Joaquim de Araújo e Fernando Pessoa), nomeadamente provinda de até algum ritual  dos mistérios gregos e romanos.
                                      
O Tarot do ocultista e maçon Arthur E. Waite, dos começos do séc. XX,  neste arcano nada acrescentou em relação à iconografia normal. O padrão que vinha do começo do Renascimento italiano, com pequenas variantes, reina quase uniformemente: ainda aparecem nos iniciais das cortes palacianas italianas  o Pai ou Jesus julgadores, mas depois são os Anjos ou Arcanjos, ora um ora dois, e os ressuscitados são um ou mais, e tudo parecendo acontecer num evento exterior, no tal final dos tempos, tão devedor do messianismo apocalíptico. Ora se A. E. Waite nem sequer conservou o um, o iniciado, a ressuscitar, todavia, se lermos o pequeno texto de Waite escrito para a versão que orientou vemos que ele quis realçar o «maravilhamento, adoração e graças» que vários seres testemunham por terem «realizado a grande obra de transformação em resposta aos apelos do Supernal - cuja injunção é ouvida e respondida interiormente», de certo modo assim diminuindo a exterioridade e temporalidade apocalíptica da visão corrente da Ressurreição e Julgamento dos mortos, e apontando para um fenómeno anímico interior...
                                      
Poderemos considerar que visão cristã do Último Julgamento e da Ressurreição final não terá a mesma veracidade e acuidade que a cosmovisão egípcia, já que esta é individual e imediata (logo que se morre), ou as da Grécia, visíveis na  metodologia maiêutica (ou parturiense) de Sócrates e ainda na psicostasis (auto-exame) dos discípulos ou adeptos pitagóricos que assim se preparavam para ascenderem aos planos luminosos. Ora o Julgamento foi entendido pelo Cristianismo e depois Islão mais como uma ressurreição de todos no final dos tempos, quando o messianicamente esperado dia do Senhor vier, em parte tendo como fontes os evangelistas Mateus (cap. 25) e Marcos (cap.13) e o Apocalipse, atribuído a S. João mas que sabemos bem, apesar da fortuna que teve, ser um texto posterior a S. João e num dos estilos imaginativo-visionários do Judaísmo, os Apocalipses...
Naturalmente surgiram as dúvidas, as hesitações e que resultavam da questão: o que estavam a fazer as almas até este momento? A descansar em paz ou semi-adormecidas, ou já com o Senhor, ou já levadas ou entradas no Céu, Purgatório ou o Inferno, como também se acreditava?
                                         
Quanto aos destinos no Além pouco se afirmou com certeza, para além de haver muitas mansões no reino dos Céus, e  que os felizes eleitos  gozariam a visão de Deus (qualquer que fosse o modo dela), enquanto outros iriam para o fogo do Inferno, eternamente, algo que alguns cristãos mais generosos e lúcidos não aceitavam, tal Orígenes. Há promessas no Novo Testamento, talvez interpoladas, que garantem um juro elevado de recompensa pelos actos e sacrifícios  praticados na Terra, em especial para os que renunciaram a tudo para seguir Jesus Cristo. Serão mais as Epístolas dos apóstolos e o Apocalipse a fornecerem as sugestões da operação da lei do karma (ou causalidade) no além, e de modos imaginativos curiosos, nomeadamente com a mítica Jerusalém celestial. Na mesma linha virão de certo modo as visões islâmicas do Paraíso, com as houris, jardins e prazeres. Entre nós, estas linhas ressoarão bastante na literatura religiosa e até visionária, não se pretendendo com isto negar a existência de uma geografia dos mundos subtis espirituais, mas antes provavelmente demonstrar criativamente a sua relatividade e subjectividade.
O que se poderia ter intuído, transmitido e especulado de modo diferente (e veiculado nas cartas-arcanos do Tarot, nos séc. XV e XVI) e que talvez tivesse tido outro impacto mais luminoso no desenvolvimento consciencial e arquétipa dos ocidentais?
Antes de mais pensamos que poderia-se ter valorizado o auto-julgamento individual e imediato, e descartado a aceitação ou dependência da ideia messiânica de um julgamento final de todos, a acontecer um dia na história, com o regresso nas nuvens do Juiz Divino (seja o Filho seja o Pai, e que, por exemplo, de formas limitadoras e ameaçadoras, as Testemunhas de Jeová, Mormons, Igreja do Reino de Deus e outras continuam a pregar, a cobrar e a alienar...), algo que mesmo assim o Tarot de Marselha fez em parte desaparecer com a escolha apenas do Anjo ou, mais correctamente, Arcanjo, como as quatro asas indicam, embora, como saibamos, o Anjo pode ser visto tanto como a mensagem como o mensageiro e as diferenças entre anjo e arcanjo se desvanecem frequentemente na falta de vivência verdadeira deles, embora tal acontecimento de modo geral e planetário certamente não caberia ao anjo da guarda ou simples anjo, pois senão teríamos um concerto fabuloso de biliões e biliões de anjos...
                                       
Para a interioridade, no arcano XX do Julgamento ou da Ressurreição, além das fontes escriturais, sejam elas transcrições verdadeiras, interpoladas ou fantasiosas,  o que mais importa é psicologicamente a prática da arte de saber bem avaliar-se, de sentir a voz da consciência e até de saber morrer em vida, nomeadamente no ego, para se renascer e, com essa obtenção de uma centralização no Ser essencial e  até de uma visão-realização do espírito, que é luz-sabedora  calor-amor, se estar mais seguro do viver bem e do caminhar luminoso no  post-mortem.
                                          
Ora na Arte de bem morrer, a Ars moriendis, bem tratada por alguns religiosos e humanistas (entre os quais Erasmo, de quem publiquei em português o Modo de Orar a Deus), realçaremos primeiro o podermos morrer a qualquer momento (algo cada vez mais corrente no séc. XXI tai as violências a que as pessoas estão expostas em alguns países), e no seu mais alto nível ficar despidos, nus, tal como Fernando Pessoa especula no seu famoso poema Iniciação, ou seja, teremos de partir da dimensão terrena, quando chegar a hora do Anjo soprar a trombeta (ou de nós a ouvirmos...) que nos avisa ou eleva a planos de existência mais subtis. 
Em segundo lugar, devemos estar preparados ou prontos para tal evento luminoso ou  aprender a morrer em vida sabendo tanto desprender-nos do exterior como unificar-nos  psiquicamente no espírito, no Eu aberto e ligado a Deus, para conseguirmos realizar o dito grego "Morrer é ser iniciado" na dimensão subtil e espiritual, que como já dissemos entre nós tanto Antero de Quental, sobretudo na sua imortal epistolografia, como Joaquim de Araújo e Fernando Pessoa reafirmaram ou adoptaram.
                                          
A preparação iniciática que cultivarmos, numa vida justa, com desidentificação ao mero corpo-cérebro e ego, e seus instintos e hábitos (mais controlados), e com o alinhamento e identificação maior com o espírito imortal e a sua interacção com o Campo unificado de energia-informação, outrora denominado Alma mundi, será então a via correcta e mais profunda. 
Nela se inclui ainda, por exemplo, um exame de consciência ao fim de cada dia, por alguns de nós até escrito num caderno diário nos seus aspectos mais importante, algo que se projectou mesmo para os Anjos registadores dos nossos actos,   desenvolvidos mais pelos Islâmicos, com os dois Anjos que registam tal súmula do dia no Livro da Vida, como vemos neste desenho do séc. XIII proveniente de um artista do martirizado Iraque (a Paz Divina esteja nele...).
                                     
Esta prática de pesar o dia ou a consciência no coração, a   psicostasia, antes de adormecer foi pelos pitagóricos e neo-pitagóricos muito valorizada e perpassará também por muitos religiosos e Fiéis do Amor e está ligada com um propósito de vida luminosa, generosa e não-violenta, apresentado de diversas formas e assumido por muitos, preparando a pessoa para o adormecimento do corpo já com a mente e aura emocional reordenada.
Talvez o que tenha faltado mais no caminho da civilização cristã e europeia tenha sido a visão correcta do post-mortem e a assunção dum corpo espiritual, ou de glória, denominado Xvarnat na tradição iraniana, a ser trabalhado, talhado ou ressuscitado já na vida terrena dos cinco sentidos ou do quotidiano, com todas as suas dificuldades  testes que devemos perseverantemente aguentar, transmutar e suplantar
Esta sucessão de três versões modernas do arcano XX do Julgamento e Ressurreição tem algo de progressiva, pois a última versão com mulher que sai do caldeirão é, embora pioneira, a que melhor simboliza o "desejado" renascer espiritual intenso e pleno, tendo por detrás de si a Fénix, que mítica e simbolicamente renascia do fogo em que se consumia.
É uma versão que sai do padrão vulgar da fonte cristã e se assume mais espiritualmente, directamente, sem se  manter encerrada nas limitadas visões ou doutrinas do despertar, do que é ser religioso ou religar-se, e o que é o post-mortem... 
Com efeito o mantra ou injunção libertadora  "Eu sou o caminho, a verdade e a vida" transmitido por Jesus aos  seus discípulos não foi bem acolhido ou assumido em relação à morte e ressurreição do mestre, projectada que foi para um corpo físico que ressuscitaria imortal e erguendo-se Jesus a filho único de Deus.
E, com o decorrer do tempo, a profissionalização hierárquica sacerdotal e papal, por vezes imerecida ou injusta, a dependência dos sacramentos exteriores e de um formalismo ritualístico da Eucaristia sem se chegar muito à compreensão e vivência espiritual do que nele se evoca e invoca, acabou por criar milhões de crentes que esperam um ressuscitar qualquer no além, sem estarem a despertar mais para a sua essência espiritual, sem se tornarem espirituais, renascidos de novo em sua identidade espiritual e ligação interna à Divindade. 
                                              
          
Ó belo Anjo da Guarda, acompanha-nos e inspira-nos sempre. Que não percamos o contacto contigo. E que haja mais paz e amor no mundo!  Amen.
Certamente que até a iconografia normal cristã do arcano do Julgamento pode ser lida e interpretada de modo mais espiritual e teremos então a ligação do nosso ser purificado, renascido e iniciado, ao Anjo, ao mundo espiritual, à Divindade, e sabemos que frequentemente é pelo Anjo que nos é dada ou intensificada tal vivência e ligação, e como ela nos alegra e satisfaz...
A imagem não será então significadora de um julgamento ou juízo final, mas sim da ligação ao Anjo, ao Daimon ou Genius, que é também o Espírito, a Voz da Consciência, como tanto realçaram Pitágoras e Sócrates, Antero de Quental e Fernando Pessoa, e que é no fundo na sua desvendação um dos objectivos principais dos mistérios e iniciações, e que deveria ser uma prática diária enquanto aspiração e auscultação de uma orientação interna própria, para qualquer pessoa, realizável em momentos de auto-conhecimento meditativo.
Daí ser bom que nesta imagem última que partilhamos, do belo Anjo da Guarda, não estar a bandeira com a cruz nem um ar atroador da trompa (subtil ou final...) mas um belo Anjo, significativamente muito grande e verde, que se desvenda e atrai a si a alma que está pronta para despertar e ressuscitar, e que se foi preparando ao longo da sua vida (e das suas desilusões, dores, mortes, conversões, meditações e renascimentos constantes) e até no seu percurso do Tarot, para atingir então  a ligação e ressurreição mais plena, seja para continuar ainda na vida terrena,  seja para viver ou realizar melhor que "morrer é ser iniciado"...

                                        
Já esta versão, ainda que para alguns será eventualmente algo puritana, asséptica ou demasiado branca,  ilustra  que o despertar ou ressuscitar envolve o ser masculino e o ser feminino, separados e unidos, ou dentro de cada um, e que o despertar ou ressuscitar é para a dimensão, mundo e ser espiritual, versão algo inspirada na tradição Jungiana e apresentada individuadamente, sem asas embora com a trombeta apelante do som despertante, e mais androginamente, com um fundo de sucessivos planos vibratórios, que é no fundo um meio de representar (estimulantemente para quem contempla) a pluridimensionalidade e a profundidade da vida.
                                          
Esta versão moderna do Julgamento está também razoavelmente conseguida pois aponta para o caminho do meio, para o encontro de descida e subida de energias na árvore cósmica e individual, a qual se intensifica no cálice de amor que as duas polaridades em nós, ou que os dois seres harmonizados e em amor, erguem, enchem e iluminam, qual santo Graal, permitindo assim a ligação com a luz espiritual, o anjo, o espírito, o mestre, e logo a sobrevivência ressuscitada nos planos subtis e espirituais, mais ligada à Divindade.
É uma recriação moderna e boa do psicomorfismo do Julgamento ou Juízo-Ressurreição-Iniciação-Libertação, acentuando o ressuscitar no ser que tem as sua polaridades internas em amor, ou que vive a polaridade externa em amor e paz, em relação espiritual e profunda, a qual nos liberta das ignorâncias e medos, e liga ao Espírito, nosso e Santo, ao Cosmos, à Divindade.
Talvez nem precisemos de mais imagens do arcano XX, nem explicações, para compreender que "os dois tornados um", ou a personalidade e a individualidade espiritual unificadas, é um dos psicomorfismos essenciais do Tarot onde, depois de atravessarmos ou peregrinarmos pelas várias estações e arcanos, nomeadamente a Estrela, a Lua e o Sol, atingimos esta subtilização e perfeição que permite o desabrochar maior da consciência da Unidade da Vida e da comunhão com a Hagia Sophia, Santa Sabedoria, tão enaltecida pelos místicos ortodoxos gregos e russos, seja monges seja escritores tais como Soloviev, Berdiaev, Florensky  e Bulgakov, também reconhecida ou denominada, como Filosofia Perene e Iniciática, ou mesmo Espírito Santo, rumo à carta final, a XXI, a Coroa florida ou o Mundo, mais justo, fraterno e pacífico.
"Dia 20, Arcano XX. Saiba-se avaliar bem e discernir que vontade está a seguir ou a assumir e assuma-se como ser espiritual e, ligado às Fontes divinas, lute para renascer na luz e amor perseverantemente..."