Francisco Peixoto Bourbon, natural de Celorico de Basto, engenheiro agrónomo, activo em alguns organismos oficiais e professor, muito culto e com boa biblioteca que já lhe vinha de família, era amigo, conterrâneo e ainda parente do meu pai, vivendo com a mulher e a filha Mafalda no seu belíssimo (como se vê na fotografia), solar ou Casa do Melhorado, junto a Fermil, e onde me acolheu nos anos 80/90 para animados diálogos, sobre os quais escrevi alguns registos nos meus diários, além de ter conservado cartas (50), fotocópias de artigos de jornais (acima de 40) e três folhas dactilografadas e corrigidas a tinta, enviando-lhe eu algumas fotocópias de documentos do espólio pessoano inéditos que lhe interessavam, já que na época trabalhava os manuscritos na Biblioteca Nacional, a partir dos quais editaria quatro livros.
Embora tenha comigo as cartas, frequentemente com letra de difícil decifração, bem como fotocopias de artigos nos jornais, por vezes emendados a tinta, e que são documentos objectivos ou fidedignos das memórias de Peixoto Bourbon, o que partilho é um registo de duas páginas, redigido em Agosto de 1990 ou 1991, quando estive instalado na casa do Outeiro dos primos Teixeira Coelho em Fermil, de Basto, muito próximo da Casa do Melhorado onde vivia e dialogámos:
«Regresso à casa do Outeiro, em Fermil. Dou graças a Deus. Tentar escrever alguns dos tópicos das conversas com o estimado Francisco Peixoto Bourbon será o tema destas páginas:
Fez revelações por vezes inéditas de acontecimentos da vida de Fernando Pessoa e por vezes a associação de ideias suscitada pelas perguntas revelou-lhe novos panoramas, tal como ele dizia entusiasmado
Sobre os livros, diz-me que ele gostava muito de ler, tratando-os com muito cuidado, encadernava-os por vezes, não sublinhando se lhe eram emprestados, e que costumava levar jornais ou às vezes livros para os cafés e perguntava o que os outros levavam e tecia as suas apreciações. Admirava bastante George Sorel, gostava de Malheiro Dias, nomeadamente a sua História da Colonização do Brasil e após grande defesa de Alexandre Herculano feita uma vez pelo Gualdino Gomes na tertúlia, afirmou ser o P. António Vieira o nosso maior historiador, porque previa até o futuro.
Acerca dos livros, via sempre se faltavam folhas quando os comprava nos alfarrabistas que visitava amiúde. Foram também até à Feira da Ladra e uma vez Fernando Pessoa achou muito barato, dizendo que não sabiam o que valem, uns aventais maçónicos. Mas dizia que não pertencia à maçonaria, antes afirmava ser um rosacruz, e também um gnóstico. Não usava porém o termo gnóstico cristão. E dos rosacruzes dava a entender que tinha um contacto qualquer que era com níveis superiores ou subtis. Falava mais destas coisas quando eram dois ou três, porque na Tertúlia eram doze os que se e reuniam às quinta-feiras, a partir das cinco horas, se bem que Bourbon e os outros o procurassem noutros cafés onde não houvesse música, pois Fernando Pessoa não apreciava muito, tal como também não trauteava qualquer música.
Gostava também, quando cortava o cabelo, de ir com a sua maleta até ao (ou a um) café e dizer para esperarem, enquanto ele tomava o seu banho nas termas ou banhos públicos [provavelmente os de S. Paulo, ou Alfama], donde vinha visivelmente satisfeito e rejuvenescido, pois não suportava os restos do cabelo no corpo. Era pois de uma limpeza e meticulosidade grande, andando sempre impecavelmente bem vestido, sem nódoas, ainda que em roupas um pouco já coçadas.
Os seus melhores amigos eram o Marquês de Penafiel e Manuel de Menezes e Vasconcelos, se bem que à sua direita ficasse sempre o Mário de Saa e à esquerda o Da Cunha Dias. Na tertúlia, a ala da esquerda era constituída por Alfredo Guizado e os agricultores alentejanos. Falando-se um dia que seria bom terem médicos militares na tertúlia, Fernando Pessoa retorquiu: - Metam-me tudo menos um militar, e sugeriu que se convidassem médicos ou especialistas de assuntos que se debatessem na tertúlia, em geral à volta dum tema, cada um expressando a sua opinião, e Fernando Pessoa sintetizando no fim.
Na página detrás, escrevi, mais á pressa e mais fragmentariamente a parte final dela, certamente pelo adiantado da hora e o esforço de recuperar a memória do diálogo havido horas antes e de qual o registo só dá uma pálida ou esbatida ressurreição:
«Pessoa foi para Bourbon um verdadeiro Mestre estimulando-o a corrigir a letra, a ler certos filósofos, criticando o esbanjamento do tempo em revistas inúteis, louvando atitudes valorosas, como o ele ter deixado de fumar.
Havia assim um certo magistério e Fernando Pessoa tinha a noção que estava a criar uma imagem para o futuro, se bem que pedisse a Deus que lhe desse mais dez anos de vida. A morte inesperada de vulvo [um dos diagnósticos médicos] sem ser por beber vinho [como pensava Peixoto Bourbon ] pois julgava não ser de grande relevância tal hábito..
[Dirá ainda, corroborando outros testemunhos relativos às suas crenças religiosas e receios atmosféricos], que Fernando Pessoa era supersticioso. Um dia resolveram levarem-no à Tapada da Ajuda, para visitar a quinta, após um bom almoço ali perto para compensarem Fernando Pessoa de não o terem avisado a tempo de ir a um concerto dos carrilhões de Mafra. Ora ao aperceberem-se repentinamente duma cobra, Fernando Pessoa considerou ser um pressentimento funesto, algo de negativo, e decidiu terminar logo ali o passeio. Serpente do mal, portanto. Mas já pouco tempo depois ....
Eis pois mais alguns dados para a biografia de Fernando de Pessoa e para um melhor conhecimento da sua época e ambiente. Espero ainda vir a transcrever mais textos e cartas, prestando uma homenagem grata às terras de Basto e suas gentes, a Francisco Peixoto Bourbon e a Fernando Pessoa. Muita Luz e Amor Divinos nos seus espíritos e corpos de luz ou glória.

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