Entre os muitos portugueses que demandaram o espírito, o sentido da vida, os mistérios da alma e do Universo, Carlos [Alfredo dos] Santos, médico-radiologista, foi um deles e embora hoje quase ignorado, publicou em 1942 um livro valioso Et Lux in Tenebras Lucet, constituído por conferências feitas nos anos 30, onde apresenta uma concepção de vida espiritualista, inusitada nos nossos meios. Nascido a 15 de Janeiro de 1899, concluiu o curso da Escola Médico-Cirúrgica em 1911, em Lisboa, vindo a tornar-se um pioneiro do rastreio da tuberculose e a dirigir o sanatório do Caramulo, onde tanta gente foi em busca de ares mais puros para debelarem as crónicas epidemias de tuberculoses. Espero brevemente concluir aqui um resumo da sua biografia...
Em 1928, a Revista de Espiritismo, órgão da Federação Espírita Portuguesa, noticiava no seu nº 3 de Maio-Junho, sob o título Conferências Neo-espiritualistas. - «Na sala do Algarve, da Sociedade de Geografia de Lisboa, perante uma assistência selecta, que a enchia por completo, ter realizou o sr. Dr. Carlos Santos, filho, médico distinto nesta capital, uma série de três brilhantes conferências subordinadas aos títulos: Rudolfo Steiner e a Antroposofia, Uma nova forma de arte: a Euritmia e a extensão da obra de Steiner, e O próximo Congresso de Londres, que encantaram o seu auditório pela clareza, erudição e beleza com que a obra deste eminente e profundo fílósofo austríaco foi descrita nas suas principais directrizes».
O autor do artigo, num sinal de como os anos vinte do séc. XX foram uma época excepcional de liberdade e criatividade em todas as regiões de Portugal, como se confirma por outras noticias dos meios neo-espiritualistas contidos na revista (tal a fundação, a 5 de Junho de 1927, da Sociedade Portuense de Investigações Psíquicas, onde o presidente e vice-presidente da "notável" Comissão Revisora de todas as publicações eram o juiz Barros e Sousa e o filósofo Leonardo Coimbra), continuava assim: «É nos grato verificar como vão achando eco no grande público as concepções espiritualistas da vida, todas elas baseadas na grande lei da evolução espiritual através da imortalidade e baseada nas leis subsidiárias da reincarnação e da causalidade (karma) tendo com vértice a Perfeição Absoluta - Deus.»
Acrescentava ainda depois «que as teorias de Steiner têm inúmeros pontos de contacto com o Espiritismo. Todas estas leis são comuns aos dois sistemas neo-espiritualistas», e concluía com mais dois parágrafos de francos elogios ao médico Carlos Santos por «romper galhardamente com inveterados e anacrónicos preconceitos sociais», estimulando-o a continuar «nesta gloriosa jornada de propaganda tão necessária para levantar o nível espiritual da nossa sociedade pervertida pelo mais nefasto ateísmo e negativismo, onde se radica o feroz egoísmo contemporâneo», esta última conclusão não sendo assim tão evidente, pois há muito ateu, ou agnóstico, que é boa pessoa e há muito crento, ou dito crente que só faz mal ao próximo, ou é de um egoísmo imenso
Foi nas suas viagens científicas pela Holanda e Alemanha que certamente contactou com concepções espiritualistas ou esotéricas em certos aspectos mais profundas ou avançada que as que o simples cristianismo, que o nutriu certamente, providencia. Na leitura do livro, depreende-se que pode te tido alguma vivencia ou mesmo formação nos ensinamentos de Rudolfo Steiner, o fundador da Antroposofia e da pedagogia Waldorf, que cita de tempos a tempos
No livro Et Lux in Tenebris Lucet, fala-nos da sua vontade de provar a existência de Deus e do mundo espiritual por indução do que passa em relação aos nossos componente materiais para com o universo: assim a trindade vontade, inteligência e sentimento seriam reflexo de tais qualidades em Deus, bem como os nossos esforços pela Justiça e beleza, seriam tentativas de reflectir esses grandes atributos de Deus.
Esta tripartição das faculdades humanas é muito corrente tanto no Ocidente como no Oriente, embora variem as correspondências com elas em termos de corpos ou princípios subtis, algo que no Orientes se desenvolveu mais, cabendo a nós optarmos por alguma classificação que permita dinamizarmos mais a harmonia delas no nosso psico-somatismo tantas vezes carenciado num dos aspectos. Assim para uns convirá trabalhar mais o amor que se expressa nos sentimentos, na devoção, na adoração, e outros o pensar, ou ainda o agir pela vontade bem determinada e perseverante.
Para Carlos Santos os pensamentos, qualidades e paixões irradiam para o cosmos e podem ser mesmo os causadores de catástrofes naturais, uma teoria que custou a vida ou prisão aos que no tempo de Pombal se atreveram a considerar o terramoto de 1755 como um castigo de Deus, nomeadamente pela decadência moral de Portugal. Hoje em dia tal linha de pensamento, a de pensar-se que os fenómenos naturais possam ter causas espirituais, está posta de parte na sociedade mas não em certos meios ora demasiado religiosos ou esotéricos, um caso em que os extremos se tocam. Mas como há pouca clarividência sobre os seres subtis ou angélicos que podem influenciar os fenómenos da Natureza, o silêncio que observamos é até o mais recomendado.
Carlos Santos como discípulo que era no caminho do conhecimento ou gnose, sugere então, para a reforma da moral e como terapêutica dos nossos desequilíbrios, a observação interior do nosso reservatório pessoal livre, no mais fundo de nós, o Eu, o Espírito, e caracterizand-o com alguma originalidade: o «foco livre da parcela divina que em nós se encarnou». Esta descrição é valiosa de ser meditado, pois aponta para a centelha espiritual, e parcela divina, como foco livre...que se manifesta em nós na vontade do Eu, e sugere talvez ainda o fogo do amor que podemos focalizar livremente e irradiar como raios de energia psíquica. Se ele meditou deste modo, ou mesmo se recomendou faze-lo não sabemos
Parece-nos que a sua percepção, comum a outros instrutores espirituais, com pequenas diferenças, é a da existência em nós de um receptor subtil, ou de nós sermos um receptor subtil, capaz de vibrar em uníssono com o mundo espiritual ou, talvez melhor. com uma faixa vibratória ou subplano subtil do pluridimensional universo em que estamos todos entretecidos.
Precisamos de encontrar, de sintonizar tal parcela divina, que é simultaneamente emissor e receptor, e de controlar o mais possível ou «eliminar inteiramente as ondas parasitas que provêm das nossas paixões, nossos hábitos inconscientes, e mil contingências da vida de todos os dias. Quando conseguirmos, porem, a sintonização perfeita, quando libertarmos o nosso Eu central, veremos que ele é susceptível de vibrar em concordância com as leis universais, captá-las inteiramente e sentiremos a certeza profunda de encontrarmos Deus em nós e nós n’Ele.»
Esta linha meditativa de descoberta interior e de sintonia metafisica é também valiosa de ser considerada, pois caracteriza-a primeiro como aquietação ou superação da agitação mental, segundo como ligação com o Eu Central, terceiro como contemplação dos princípios, leis, qualidades, arquétipos a que temos acesso do Universo, e quarto, e finalmente, como saber certo e profundo da ligação divina. Eis-nos com uma boa sabedoria de realização ou iluminação interior.
Dirá e explicitará ainda melhor que «só quando a mesma inteligência dos seres humanos, esclarecida e nítida, compreender que a sua missão é de Amor e não de violência, é que será possível viver sobre a Terra no equilíbrio e na Paz. E os seres só terão a Paz por que todos anseiam quando merecerem a Paz.», o que se consegue conformando-nos pelas «verdadeiras leis Divinas da Verdade, do Amor e da Justiça.»
Dir-se-á nos nossos dias e para os mais exigentes, que não apresenta grandes novidades nem claros sinais de clarividência. Transmitiu porém linhas de gnose e de meditação valiosas em língua portuguesa, e nos anos 20 e 40 pioneiras. Talvez pudesse ter aprofundado a natureza e o processo de irradiação das nossas emanações para o mundo espiritual e os seus seres. Bem ainda a repercussão de tais emissões ou emanações nossas luminosas sobre nós e a Terra; podemos porém continuá-lo para que de tão agitada, manipulada e infrahumanizada, ela passe mais, e em mais seres e locais, para Terra Lucida justa e fraterna, multipolar e sagrada.

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