quinta-feira, 4 de junho de 2026

Os Mestres do Irão eterno (3ª p.): Sohrawardi, o sheikh Ishraqi, ou o sábio da Luz iluminante. Extractos do Kitab Hikmat a-Ishrâq, o Livro da Sabedoria Oriental.

Página inicial do manuscrito do Hikmat al-ʿIshraq por al-Suhrawardi, transcrito  por Sayyid Muhammad Munshi. Istanbul, 1477-8. 

Invocando o sheik iraniano Sohrawardi (1154-1191), vamos continuar na senda do seu Hikmat al-ʿIshraq, Livro da Sabedoria Oriental (a partir da tradução de Henry Corbin, publicada na editora Verdier, em 1986, estabelecida e introduzida por Christian Jambet), entrando no Livro II, Do Sistema do Ser, do qual vamos traduzir algumas das partes mais valiosas dos seis primeiros capítulos. Certamente está-se  sempre a trair ao traduzir e sobretudo fragmentadamente e ainda por cima sobre e sob níveis de realidade, especulação e visão bastante elevados. 

Mesmo assim penso que justifica-se porque há uma selecção do que me pareceu mais importante, seja doutrinariamente seja em indicações mais interiores e meditativas e, ainda que não entendamos tudo, muito fica em nós e pode fermentar, ou vir à superfície inesperadamente, numa associação ou aplicação qualquer. Acrescentei uns breves sinónimos entre [...] e uns breves comentários em prol duma actualidade mais despertante nossa. São bem vindos comentários e críticas...

Que a Luz das Luzes, que Bhaman, a Luz mais próxima, e que as Inteligências Arcangélicas e do sistema Solar, e Sohravardi e Henry Corbin, nos inspirem e iluminem.

                  Livro II, Do Sistema do Ser. 

Cap. I.  Que do Um essencial enquanto tal não pode emanar mais do que Um único causado.

135- «É impossível que da Luz das Luzes procedam uma Luz e uma Treva oposta à Luz, e que esta Treva seja substância de Treva, ou simplesmente uma qualidade tenebrosa. Com efeito, a exigência [ou integridade] que movimenta a Luz (iqtida al-nur) é diferente da exigência que causa a Treva. Seguir-se-ia que a essência da Luz das Luzes fosse composta de algo que exige a Luz [e de algo] que exige a Treva. A impossibilidade de tal é desde já plenamente evidente.
Ou talvez mais, a Treva não pode proceder da Luz das Luzes sem um wâsita, intermediário [ou mediador, e o termo será aplicado ao Imam e ao mestre ou sheikh]  (...)

Cap. II.  - Que o primeiro ser que procede da Luz das Luzes é uma Luz imaterial única.

136. - (...) Mas se da Luz das Luzes emanasse uma Treva, ela seria única. Nenhuma das Luzes existiria, nem qualquer Treva. Wujud, o universo do ser, [ou a existência-presença da Luz das Luzes ou Ser Divino] testemunha ser vã tal hipótese.
Como é inconcebível que da Luz das Luzes, pela razão da sua unidade, proceda uma multiplicidade, e como não há possibilidade, de poder emanar uma Treva (seja uma substância nictifora [ou nocturna] ou uma qualidade tenebrosa) nem para que emanem duas Luzes, já que a Primeira que emana dela é uma luz imaterial única.

138  - (...) Encontra-se agora bem estabelecido que o Primeiro (Ser) produzido pela Luz das Luzes é único. É a Luz mais próxima, a sublime Luz, aquela que alguns dos antigos persas (ba'd al-fahlawija) chamam de Bahman. Mas esta Luz mais próxima é por si mesma indigente. É somente pela Primeira que ela tem suficientemente de que ser.
Ora, a existência de uma Luz emanando da Luz das Luzes não consiste em que qualquer coisa se separa dela. Já aprendeste que a disjunção (infisâl) e a conjunção (ittisâl) são propriedade dos corpos, mas a Luz das Luzes é-lhes transcendente.
Tal também não consiste  em que qualquer coisa seja transferida para fora da Luz das Luzes, pois as qualidades não se transferem. Também já foste informado da impossibilidade de se atribuir qualidades à Luz das Luzes, e remetemos à tua memória um capítulo que implica [ou que demonstra] que a irradiação produzida pelo sol não é outra que a maneira própria em que ele existe, e nada mais.

Cap. III Sobre a constituição dos corpos (barzaakhs).

(Christian Jambet anota bem: «Trata-se dos barzakhs, ou seja intervalos. H. Corbin aproxima este termo do conceito aristotélico de diastema, que é um lugar, ou um intervalo espacial. Por extensão, barzakh designa um corpo, ou seja uma porção do espaço  ocupada por um composto material.»)

Cap. IV Onde se explica que o movimento das esferas celestes é um movimento voluntário e como o múltiplo emana da Luz das Luzes.

141 (...) Assim o movimento diurno - no qual participa em comum o conjunto dos corpos celestes -, não provém que duma esfera englobante, pois cada um tem o seu movimento (próprio e essencial).
O motor de cada um destes corpos [celestiais] é um vivo que tem a vida por si mesmo - é portanto uma Luz imaterial.
Em consequência, deve ser claro para ti que os barzakhs são [ou devem ser] dominados pelas Luzes. As esferas são salvaguardadas da corrupção, das paixões carnais e da ira, o seu movimento não se produz portanto tendo em vista um propósito material (barzakhi); ele têm por razão [ou causa] um fim de Luz.
Aos sete planetas foram atribuídos movimentos multiplos. È portanto necessário que eles disponham de corpos múltiplos. Ora nenhum deles se basta a si próprio. Ele tem necessidade, tanto para a sua tahaqquq, realização, que para as suas perfeições, duma Luz imaterial.»

Comentário: Shorawardi, o Shaykh al-Ishraq, após esta iniciação à unicidade do Ser Divino, Luz das Luzes, que não tem dualidade, que não gera as trevas,  desenvolve a ideia de que a Luz Próxima emanada da Luz das Luzes, Bahman,  a 1ª Inteligência Arcangélica em si mesma, ao contemplar a Luz da Luz, sente ter em si uma treva e uma indigência de ser derivada dela, e portanto disso emana uma sombra, um véu, um barzakk, a esfera englobante, um espaço, um corpo. Poderemos talvez lembrar que no conto gnóstico e iniciático da Pisthis Sophia vemos algo desta aspiração a mais Luz por parte de Sophia, que se vê depois atacada ou envolvida pelas trevas que não a querem deixar elevar-se ou receber mais Luz. Christian Jambet anota e explica bem: «O título do capítulo IV esboça uma estrutura: os movimentos das esferas são voluntários e o múltiplo emana do Um. Este segundo ponto postula o primeiro. Com efeito a processão das Inteligências [celestiais ou Arcangélicas] é paralela à cosmogonia, à génese mesma dos céus.»

142   (...)  Mas, por outra parte, enquanto que o seu ser é necessário para a Luz das Luzes e que ela pode ser suficiente no ser, enquanto contempla a sua própria majestade e sublimidade, emana dela uma outra luz imaterial. Assim o barzakh é a sua sombra, enquanto que (nova) Luz subsistente é uma irradiação que emana dela. A sua sombra tem por razão a Treva que constitui a sua indigência. Nós não entendemos aqui, por Treva, nada de outro senão o que não é em si mesmo ou por si mesmo um ser de Luz»   

Comentário: Sohrawardi aprofunda no capítulo o estado da Luz mais próximo que tanto sofre da indigência de ser derivada como desfruta em si da sublimidade da Luz das Luzes nela. E dá-nos como que uma espécie de injunção iniciática: se não estás no ser de Luz, caíste ou estás nas trevas, nos corpos e espaços obscurecedores dele.

143 - Tese sobre a modalidade da multiplicação 

(...) Quanto à iluminação (shuruq, nascer do sol) da Luz das Luzes sobre a Luz mais próxima, ela tem por causa, tanto a aptidão desse receptáculo, como o seu amor por essa Luz e a ausência de véu. É aqui que parecem dimensões múltiplas, uma causa receptiva e certas condições

144 - Tese sobre a generosidade da Luz das Luzes.

A generosidade consiste a preencher um desejo, sem esperar nada em retorno. O que procura glória e recompensa é apenas um mercenário. O mesmo para aquele que através dela escapar à critica ou a qualquer de tal. Nada é mais generoso que o que é Luz, na realidade constitutiva do seu ser, pois a Luz epifaniza-se e infunde-se por si mesma  sobre todo o receptáculo (que se oferece). O rei no sentido verdadeiro, é aquele que possui a essência de toda a coisa, mas portanto a essência não pertence a qualquer algum, e é a Luz das Luzes.

145 Tese sobre a visão

146 Última tese oriental: Que a visão da luz é outra coisa que iluminação da irradiação desta luzsobre aquele que a contempla.

Sabe que há, para o teu olho, um acto de visão e o elevar duma irradiação diferente do acto da visão. A irradiação, com efeito, tomba sobre o olho, lá onde ele está, enquanto que a visão do sol [por exemplo] não contempla o sol onde ele está senão pelo intervalo pelo qual o olho se encontra a uma distância considerável do local do sol.
A supor que a pálpebra fosse luminosa, ou que o sol estivesse numa proximidade tal e qual a da pálpebra, a irradiação aumentaria e a visão igualmente.

Cap. V. Que cada luz superior subjuga a luz inferior e que esta tem amor pela luz superior. 

[Algo que bem falta faz aos humanos nas relações tão competitivas entre si, pois deveria haver sobretudo admiração, emulação e amor por sermos mais ou menos portadores ou reflectores da luz...]

147 - A Luz inferior não contém a Luz mais elevada, pois a Luz mais elevada domina-a. Contudo, a Luz inferior não deixa de a contemplar. Quando as Luzes se multiplicam, cada Luz mais elevada exerce uma dominação  sobre a Luz inferior, enquanto que cada Luz inferior vivencia desejo e amor (shawq wa ishq) pela Luz dum nível mais elevado. É porque a Luz das Luzes é dominadora em relação a todos os outros seres; ela não tem qualquer amor por um outro que ela mesma. Ela ama-se a si mesma, porque a sua própria perfeição lhe é manifesta e que ela é o mais belo, o mais perfeito dos seres; ao mesmo tempo a sua manifestação a si mesmo sobrepassa não importa que manifestação dum ser, seja na relação com outro ser  seja em relação a si mesmo. Ora a ladhdha, o prazer ou delícia, não é nada mais do que a consciência duma perfeição existente em acto, enquanto ela é perfeição e que ela é em acto.
Eis porque aquele que está ghafil, inconsciente da realidade actual duma perfeição não experimenta ou sente qualquer prazer dela. E todo o prazer é, para aquele que o prova, proporcional à perfeição dela e à percepção que ele pode ter da sua perfeição. Ora nada é mais perfeito nem mais belo que a Luz das Luzes. É por isso que nada é mais delicioso que Ela, para si mesma e para o outro.
É assim que a Luz das Luzes é amante de si mesma, sem mais; mas ela é por sua vez amada de si mesma e dos outros. 
(...) Também não são comparáveis o amor que os seres conseguem experimentar por algo que não seja a Luz das Luzes e a felicidade ou prazer que eles possam retirar, com o amor que podem sentir por Ela. e a felicidade que extraem.
Assim a totalidade de ser ordena-se segundo o amor (mahabba) e segundo a dominação (qahr, que significa vir à cabeça, começar, exercer autoridade) [da Luz das Luzes]. (...)
[Comentário: Muito importante esta nossa capacidade de percepcionarmos a perfeição da Divindade ou a relativa dos seres e das coisas, e nela nos deliciarmos.]

Cap. VI. O Amor que cada luz inferior experimenta por si é subjugado por aquela que ela experimenta pela Luz superior.  

148 -Nur al-aqrab (A Luz mais próxima, ou do mais alto grau, ou a Iª Inteligência, Bahman) contempla a Luz das Luzes; desta uma iluminação eleva-se incessantemente sobre ela, e ela experimenta simultaneamente amor pela Luz das Luzes e por si mesma.
O seu amor por si mesmo é subjugado pela dominação [ou subjugação] do seu amor pela Luz das Luzes.
Comentário: Lastimavelmente, no mundo actual a dominação ou subjugação é pela força, o terror, a opressão, o assassinato e poucos seres se deixam subjugar ou pôr-se no jugo, no yoga, na união, na unidade com a Divindade, a Luz das Luzes.

Cap. VII - As iluminações que a Luzes imateriais irradiam umas sobre as outras e não consistem numa fragmentação

149. A iluminação da Luz da Luz sobre as Luzes imateriais não consiste em que um fragmento se separa dela, tal como já te foi explicado. Não, é uma luz irradiada, que se produz da Luz das Luzes na Luz imaterial, tal como no exemplo descrito precedentemente das iluminações do sol sobre o que é o receptáculo.
A contemplação é outra coisa, tal como já exemplificamos
A Luz actualizada na Luz imaterial a partir da Luz das Luzes  é ao que é dado o nome Al-nur al-sanih, sanaha, de Luz sobrevinda (ou que se apresenta espontaneamente). É uma luz acidental (não faz parte da sua essência); pois a luz acidental compreende duas categorias: há a que advém aos corpos materiais e há que advém às Luzes imateriais.»

E assim terminamos a meio do II Livro, no fim do VII capítulo, dos XII capítulos. 

                                                             

Que a Luz das Luzes, a Luz mais próxima, as Inteligências Arcangélicas e do sistema Solar, e Shihâboddin Yahya Sohravardî e Henry Corbin nos inspirem e iluminem.

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