Sendo a Fé, uma tão misteriosa quão importante, e por vezes decisiva, qualidade ou virtude teologal, ao longo dos séculos foi sentida, vivida, descrita, definida ou interpretada de tantos modos, que devemos com regularidade tentar sondá-la em nós, o que é ela e como estamos nela em relação a certos aspectos nossos ou da Vida, e assim meditá-la e estudá-la, consciencializando-nos mesmo de outras visões ou compreensões dela.
A Fé é basicamente um acreditar e um querer dinâmicos e impulsionadores perante o desconhecido, o sagrado, as dificuldades, os resultados dos nossos esforços ou crenças e o futuro
Tipos de Fé que poderemos meditar: estamos com uma fé forte de andarmos a trilhar o caminho certo?
Como está a nossa Fé em Deus, ou na Ordem do Universo, ou na Providência Divina, ou nos Anjos, Santos e Santas, guias e antepassados?
Temos verdadeira ou forte fé em nós próprios e na capacidade de realizarmos as nossas aspirações?
Há Fé no nosso espírito? Como a sentimos e como se manifesta ou diagnostica?
Há Fé no amor divino em si e manifestando-se em nós e no Universo?
Temos fé de atrairmos do Universo, o que precisamos para realizar os nossos melhores planos, seja pessoas, seja dinheiro, seja saúde e cura, seja livros, seja páginas de livros?
Há fé nos outros, em especial em amigos? Em quais acreditamos mais? E também na fraternidade humana de origem divina?
| Camões: "À constância se deve toda a glória" (xvarnah, farrah, no Irão. Que ele sobreviva e vença!) |
« A melhor versão desta palavra fé, encontra-se na seguinte passagem do P. António Vieira: «Enquanto Portugal teve homens de havemos de fazer (que sempre os teve) não tivemos liberdade de, não tivemos reino, não tivemos coroa. Mas tanto que tivemos homens de façamos, logo tivemos tudo. Homens que nas suas resoluções são de pedra e cal e que quando haviam de aparecer conselhos aparecem muralhas; guarde-se o mundo, guarde-se o céu, guardem-se os anjos e (se é lícito dizê-lo) guarde-se o mesmo Deus de tais homens.»
Esta citação de Vieira apelando a decisão e acção firme é inegavelmente valiosa, para não procrastinarmos tanto, e encontra-se inclusa nos Incompletos que é o que ficou de uma dissertação pedagógica, realizada após a ida semi-fracassada ao estrangeiro para recolher sementes e de contribuir para a melhoria educativa do seu país. Nela se encontram tanto as suas ideias e conclusões como numerosas citações bastante dinâmicas, ou plenas de fé viva, de pedagogos e pensadores portugueses do começo do séc. XX, ligados mais com correntes tradicionalistas, conservadoras, integralistas, por vezes contra-revolucionárias, tais Agostinho de Campos, Adolfo Coelho, Carneiro de Moura, Alfredo Pimenta, Trindade Coelho, mas que valem em si como propedêuticas da fé, da vontade, do entusiasmo.
A Nota com que conclui o prefácio é instrutiva da sua visão educativa e convivial, fazendo-nos sentir a sua bela alma: «Da minha dissertação queria eu fazer um documento pedagógico partindo do princípio de que o homem é em cada momento uma síntese do seu passado, fazendo transparecer bem visivelmente a acção dos diferentes agentes educativos que acompanham o homem desde a tenra infância até à quase estéril e maninha velhice.
Queria realçar a influência da família na formação próxima do carácter, a da escola nos seus esforços aperfeiçoadores, a dos amigos, desse invólucro superfamiliar e íntimo, no rolar contínuo dos anos, na segredação das conversas que se dilatam por horas e horas, no esquecimento completo do tempo, na confraternização silenciosa das almas. Que pais, mestres e amigos são o que poderemos chamar a trindade educativa....»
Alves Oliveira valoriza bastante o desenvolvimento intelectual assente na memória, pelo que considera que o trabalho educativo deve ser dirigido para o desenvolvimento cerebral, tendo em conta que o cérebro é o depositário geral de todos os conhecimentos, movimentos e acções, "e a repetição conduz à facilitação e à inconscientização em hábito do que se ouviu, leu ou se fez, algo bem trágico nos nossos dias de tanta alienação e manipulação da informação (e excessiva desinformação) pública e das redes sociais. Nesse sentido cita um dos psicólogos e sociólogos de grande sucesso Gustave le Bon [1841-1931]: "a educação, é arte de fazer passar o consciente no inconsciente", oOu seja na alma profunda, e nos corpos subtis. Considera assim que cada manifestação actual é uma resultante de idênticas manifestações passadas. Que há as resultantes de caráter físico, intelectual e moral, e espiritual, no fundo apresentando a lei da acção - reação, o que colhes, semeias, a lei do Karma oriental.
Preocupado em toda a obra coma regeneração do ensino, dos alunos, dos professores e do país na sua nova fase republicana, em prol do apoio à sacralidade do ensino, e ainda hoje com grande actualidade, intensificada até com os perigos de desumanização pelo uso indiscriminado da Inteligência Artificial, citará o pedagogo, linguista e etnógrado, Adolfo Coelho, na sua Educação e Pedagogia, p. 30:
«O Estado moderno só justificará a sua acção cada vez mais absorvente no ensino, quando faça do professorado um novo sacerdócio que possa viver e viva só para a missão de construir pedras vivas para formar o edifício social.»
Pedras vivas, ou seja animadas pela fé e o quererem aperfeiçoar-se nas suas almas [o talent de bien faire, lema do Infante D. Henrique, e realçado por Fernando Pessoa] e melhorarem Portugal e o Mundo, algo bem necessários nesta fase tão crucial da Humanidade, quando a brutalidade e violência de alguns políticos, o verdadeiro eixo do mal, está a causar o fim dos direitos humanos, da ordem internacional, da justiça, ética, da fraternidade.
Não nos deixemos "incompletar", frustrar, alienar, manipular, escravizar, e consigamos antes, com a "constância" camoneana, tornar-nos mais completos, sábios e luminosos...

Sem comentários:
Enviar um comentário