segunda-feira, 1 de junho de 2026

René Guénon, O esoterismo islâmico. 1947. Sufismo, tasawwuf, esoterismo, misticismo, iniciação, linhas de filiação e de graça, barakah..

René Guénon (1886-1951), de uma família católica e pai arquitecto, desde 1904 em Paris e formando-se apenas em filosofia, pois pensara também em matemáticas, conhecendo muitas e valiosas pessoas, grupos, doutrinas e religiões, numa demanda exigente da verdade, foi iniciado em 1910 por um amigo sueco, o pintor Yvan Agueli, na tradição sufi, recebendo o nome de Abdel Wahed Yahi, servidor do Único. Mas também passou por três obediências maçónicas, enquanto gerava artigos livros, revistas, grupos, polémicas nos meios católicos, filosóficos, ocultistas e maçónicos. Pouco depois da mulher ter morrido em 1928, sentiu que seria melhor deixar a França e partiu para o Norte de África, onde já estivera brevemente na Algéria um ano, desta vez o Egipto, em 1931, levando consigo já onze livros bem pensados e publicados, mas  agora mais recolhido e estabilizado, casando-se até com Fatimah, a filha dum sábio advogado,  o Sheikh Mohammad Ibrahim, de quem teve quatro filhos, continuando a sua obra de escritor e pensador metafisico da espiritualidade, da Tradição Perene e que ele face à crise ou decadência do mundo moderno Ocidental  via subsistir sobretudo no Oriente, procurando apresentar os escolhos do caminho, as doutrinas, os símbolos, as vias iniciáticas da Tradição. 
                                 
Já nos últimos anos da sua vida, em 1947, foi convidado a participar no número dos Cahiers du Sud, intitulado L' Islam et l' Ocident, dirigido por Jean Ballard (que escreve dois artigos, tal como Massignon e Guénon), enviando então os artigos, um sobre a jihad ou guerra santa, Sayful-Islam, e outro  L' Esoterisme islâmique, sendo este último em 1973 reimpresso fielmente na coleção Les Essais, da editora Gallimard, à cabeça da antologia de dez artigos, intitulada Aperçus sur l'esoterisme islamique et le Taoisme. Vamos parcialmente transcrevê-lo e comentá-lo, tanto pelo seu valor e ensinamentos como pelas questões que levanta.

                                    

Para René Guénon,  no Islão,  o lado complementar da religião exotérica ou externa, a shariyah, etimologicamente,  a grande roda, é o lado esotérico, designada como el-haqiqah, "a verdade interior, reservada à elite", já que nem todos possuem as aptidões ou qualificações requeridas para se chegar ao seu conhecimento", e compara-as também à casca e ao núcleo e, de modo mais elaborado,  à circunferência e ao centro, com os raios que os ligam.

Assim a shariya com as suas prescrições é o exoterismo, a religião, e a haqiqah é o esoterismo, o conhecimento puro, não sendo apenas a verdade mas também o conjunto dos meios para se chegar lá, os quais constituem a tariqah, que é como o raio que parte da circunferência para o centro. 

Guénon abre ou alarga a noção comum de tariqah, pois não é só a ordem ou confraria em que se foi iniciado e a que se pertence, mas todos os conjuntos de meios para se chegar ao centro e que são tantos quantas as almas, embora o fim ou o centro seja um, a Unidade do ser, Allah, Deus. E no caminho o que se vai passando é a diminuição  das limitações dos atributos ou características pessoais, o ser humano aproximando-se da sua essência, que tem em si ou vivencia os atributos divinos.

Neste sentido o esoterismo, constituído pela tariqah, que são os meios, e pela haqiqah, que é a verdade, e o seu fim, é chamado tassawuf no Islão embora no Ocidente se tenha criado o termo sufismo para designar o esoterismo islâmico.

Especulando sobre o termo sufi e desdenhando das etimologias e  antes valorizando as correspondências entre letras e números que, tal como a astrologia e a quirologia, considera ciências tradicionais assentes nas homologias entre o macrocosmos e microcosmos, lembra que «a adição dos valores numéricos das letras da palavra sufi tem o mesmo número que El-Hekmat el ilahiyah, ou seja Sabedoria Divina, ou seja "aquele que conhece por Deus", pois ele não pode ser conhecido senão por Ele mesmo; e tal é bem o grau supremo e total no conhecimento da haquiqâh.» [aquele que conhece por Deus, ou aquele que  conhece através do conhecimento que Deus tem de...]

Nega em seguida e em consequência que o sufismo seja algo acrescentado do exterior, sendo pelo contrário uma parte essencial da doutrina islâmica e que procede directamente do Profeta Muhammad, e todas as turuq (plural de tariqah) procedem dele, pelo que  «a verdade é que o sufismo é árabe como o próprio Alcorão, no qual tem os seus princípios directos», apenas sendo necessários  encontrá-los e interpretá-los, o que frequentemente os doutores da shariya não sabem.

Após esta 1ª parte, em que deve ter criticado (sem mencionar) os que dizem que que haveria influências do misticismo cristão ou mesmo indiano,  Guénon entra numa explicitação talhante da diferença entre  esoterismo e misticismo, que poderá  ter também intenções esclarecedoras ou críticas, quais sejam as de exigir para o esoterismo uma componente iniciática, que teria de ser fornecida por uma filiação tradicional, seja num sheikh e tariqa, seja numa ordem tradicional iniciática, como a maçonaria ou os companheiros da floresta. Parece-nos contudo estar a  querer dispensar a componente devocional ou amorosa, forte nos místicos, a favor de uma exclusividade intelectual e metafisica, via iniciação esotérica, como meio de realização da Verdade e da Divindade.

Eis então como ele tenta clarificar o erro comum de identificação: «o esoterismo islâmico nada tem de comum com o misticismo.(...) Antes de mais porque o misticismo parece bem ser em realidade algo completamente especial ao (ou do) Cristianismo. E não é senão por assimilações erróneas  que se pretende encontrar algures equivalentes mais ou menos exactos, havendo apenas semelhanças exteriores, no emprego de certas expressões». 

E avança: «o misticismo pertence inteiramente, pela definição mesma, ao domínio religioso, e portanto releva pura e simplesmente do exoterismo e, ainda, o fim para que tende está seguramente longe de ser o do conhecimento puro». 

Parece-nos algo exagerado, pois houve místicos cristãos que chegaram ao conhecimento puro, ou intelectivo ou metafisico, do Ser, da Unidade, da Divindade, tal Ruysbroeck, Eckart, e de algum modo Taulero e Suso, pelo menos.

Em seguida René Guénon apresenta novas caracterizações do místico algo discutíveis, que podem exteriorizar uma possível vontade de os diminuir, ao generalizar as características limitadores que lhes atribui: «o místico, tendo uma atitude passiva e limitando-se por consequência a receber o que lhe vem de algum modo espontaneamente e sem qualquer iniciativa da sua parte, não saberá ter método.»  

Parece-nos exagerada esta crítica de Guénon pois basta consultarmos alguns dos milhares de livros que místicos, ascetas, santos e teólogos cristãos escreveram acerca das metodologias da oração, meditação e contemplação, e eu conheço dezenas portugueses, alguns até de sorores ou religiosas mais dotadas da aspiração mística unitiva, e que  praticavam alguns desses meios voluntária e conscientemente para conseguirem alcançar os estados de luz, fogo de amor ou união a que aspiravam.

Exagerará também no carácter  desprovido de influências espirituais que resultam da sua passividade e isolamento quando diz que o místico «não tem nem sheik ou mestre espiritual (o que, bem entendido, não tem absolutamente nada de comum com um director de consciência no sentido religioso), nem silsilah ou cadeia pela qual  lhe seria transmitida uma influência espiritual (barak)», pois quantos frades e monjas não tiveram mestres e mestras, ou bons directores de consciência, ou abadessas, por vezes até, quando já mortos, activos nos planos subtis ou espirituais e quantos não sentiram as suas bênçãos, tal S. Catarina de Ricci, e algumas sorores portuguesas, que  conheço, e sobre as quais no blogue há artigos?

Passa então à iniciação, para ele sobretudo ligada às turuk sufis e à maçonaria e outras ordens secretas: «a transmissão regular da influência espiritual é o que caracteriza essencialmente a iniciação, e mesmo o que a constitui propriamente, e é por isso que usamos esta palavra para traduzir taçawwuf», 

Se de facto a iniciação e a transmissão de uma bênção, força, ou ligação à corrente é importante, embora ressalvemos, que seja alguns dos sacramentos, seja profissão dos votos das religiosas seja a ordenação dos padres tivesse algo disso, também é um facto que se depois duma iniciação se não há a aspiração ou práticas ou devoção aspiração mística ou unitiva  que façam avançar as pessoas no caminho, no  aperfeiçoamento e na religação espiritual, tal pode ficar-se numa aceitação superficial da iniciação, na suas  aparências de rituais de transmissão, mas que serão ocos ou escassos de efeitos, conteúdo, poder,  ligação,  influência ou graça, senão há vivência, experiência, assimilação...

Conclui então René Guénon que «a via mística e a via iniciática são radicalmente incompatíveis em razão dos seus caracteres respectivos», pelas diferenças caracteres e de fins,  e de novo faz tábua rasa de tantos mestres que seguiram vias místicas, e as ensinaram aos discípulos, como vemos na Índia, nomeadamente em Ramakrishna, ou mesmo nos mais acantonados ou elevados na não dualidade, como Shankara ou Ramana Mahrishi, que compuseram hinos místicos às formas divinas que sentiam como mais próximas de si, ou mais manifestadoras e iluminadoras do conhecimento puro.  Para além do amor místico que muitos gurus, mestres ou sheiks islâmicos suscitavam nos discípulos, ou que os discípulos lhes transmitiam.

Interroga então: «Será necessário acrescentar que não há em árabe nenhuma palavra pela qual se possa traduzir mesmo aproximativamente, aquela de "misticismo", tal a ideia que ela exprime representa algo de completamente estrangeiro à tradição islâmica?» 

Haverá talvez aqui senão algum exagero pelo menos um grande esforço de rigor, pois centenas de sufis, ou de escritores sobre o sufismo, o esoterismo islâmico, a espiritualidade islâmica, frequentemente, quando traduzem sufismo ou mesmo tasawwuf, fazem-no com a palavra misticismo.

Cremos que as experiências nos meios católicos de S. Sulpice, ou nos ocultistas, o desiludiram muito dessa expressão tão usada e abusada por eles. E provavelmente dentro das muitas biografias que há de Guénon, conseguir-se-á encontrar alguns nomes de pessoas pseudo-místicas, ou que enveredaram por misticismos muto subjectivos ou mistificadores. Saint Yves d'Alveydre,  Sédir, por exemplo, poderão terem-no nos seus percursos desiludido, ou outros bastante mais...

O penúltimo ponto que René Guénon entende esclarecer é a validade   das ciências tradicionais, que foram denominadas ciências ocultas nesse ocultismo rico mas farfalhudo e mistificador francês que teve o seu apogeu entre o final do séc. XIX e  as primeiras décadas do séc. XX. E  escreve então: «A doutrina iniciática é, na sua essência, puramente metafísica no sentido verdadeiro e original desta palavra; mas no Islão como noutras formas tradicionais, ela comporta ainda, a título de aplicações mais ou menos directas a diversos domínios contingentes, todo um complexo conjunto de "ciências tradicionais"» que estão ligadas aos princípios metafísicos e que foram conhecidas na Antiguidade e em parte na Idade Media mas que estão esquecidas da maioria, e que os que confundem misticismo com esoterismo não conseguem compreender como estão incluídas no sufismo, pois tais conhecimentos estão afastados das preocupações dos místicos. Define então brevemente aa ciência dos números e das letras, as ciências cosmológicas ligadas ao hermetismo, a alquimia, a astrologia, que não é uma arte adivinhatória ou ciência conjectural mas um conhecimento das leis cíclicas, explicando em seguida muito bem que tais ciências « traduzem as mesmas verdades nas linguagens próprias às diferentes ordens de realidade, unidas entre elas pela lei da analogia universal, fundamento de toda a correspondência  simbólica; e em virude desta mesma analogia, estas ciências encontram, por uma transposição apropriada, a sua aplicação no domínio do microcosmo como também no do macrocosmos, pois o processo iniciático, reproduz, em todas  as suas fase, o próprio processo cosmológico.»

Reconhecerá contudo que «para se estar consciente de todas essas correlações é preciso de estar já num grau muito elevado  da hierarquia iniciática, grau que se designa como o do enxofre vermelho (el-Kebrit el ahmar),» sendo-se então capaz de influenciar pessoas e coisas pela ciência denominada simiâ através de mutações nas letras e números.

O último ponto que tenta clarificar para se poder compreender bem o verdadeiro caracter da doutrina iniciática, é que ela não é causada ou atingida pela erudição  e que não se poderá de modo algum aprender-se pela leitura de livros, tal como se faz para os conhecimentos correntes ou profano. 

Quanto a este último ponto René Guénon, diz que  os escritos dos grandes mestres só podem servir de suportes da meditação, mas que o discípulo precisa de ter disposições ou aptidões inatas que nada pode suprir. E após esta exigência bastante quase que diríamos aristocrática,  mas que poderia ter como resultado que alguns leitores mais concentrados e  graças a essas forças inatas pudessem ser iniciados, ou religados ao espírito, ao mundo espiritual, por si sós ou por mestres no além, Guénon vem de novo limitar o acesso ao Templo:  «é preciso em seguida a ligação apegante ou conexão (rattachement) a uma silsilah regular, pois a transmissão da «influencia espiritual», que se obtém por tal conexão, é, como já dissemos, a condição essencial sem a qual não há iniciação, mesmo no seu grau mais elementar. Esta transmissão, sendo adquirida uma vez por todas, deve ser o ponto de partida de um trabalho  puramente interior para o qual todos os meios exteriores não podem ser  mais do que ajudas e apoios, certamente necessários desde que se tenha em conta a natureza do ser humanos tal qual ele é; e é só por este trabalho interior que o ser se elevará de grau em grau, se ele for capaz, até ao cimo da hierarquia iniciática, até à "Identidade suprema", estado absolutamente permanente e incondicionado, para além das limitações de toda a existência contingente e transitória, que é o estado  do verdadeiro sufi.» E assim concluía o ensaio...

Quando René Guénon, a 7/1/1951, à hora da morte, muito serenamente, como foi observado e se conta, repetia, como sufi, calmamente, o nome sagrado Allah, estaria a trabalhar com o coração  ou a subir os degraus da escada iniciática que liga ao Céu, e que nos faz ascender aos domínios do Divino ou, como ele diz, da Identidade suprema?  Muita luz da Luz  e  fogo do Amor Divino nele e em nós...


Sem comentários: