As origens, características e influências das religiões mais antigas permanecem para muitos misteriosas mas para outros uma visão simplificadora e redutora, derivada em geral da religião a que pertencem - e que tentou afirmar-se perante as outras, em geral como sendo a melhor ou mais verdadeira -, gera neles erros graves de conhecimento histórico e religioso, o que é contudo útil aos que querem manter os seus privilégios antigos de controle do conhecimento da verdade e do poder das religiões.
As religiões mais antigas e hoje extintas, ou quase, tal a do Egipto e a do Irão, foram muito importantes e valiosas nos seus tempo, povos e civilizações e como depois de serem atacadas e destruídas deixaram tanto monumentos e ruinas como centelhas do conhecimentos e práticas que acabaram absorvidas no caudal das novas religiões triunfantes - o Judaísmo, o Cristianismo e o Islão - elas devem ser investigadas ou estudadas renovadamente.
Pouquíssima gente está consciente do que elas transmitiram e influenciaram, ou dos grandes ensinamentos de sabedoria que detinham e que ainda hoje podemos sentir e receber, pois em grande parte transformados ou ocultados, acabamos de atribuir às religiões posteriores a primazia de tais doutrinas ou ensinamentos.
Graças porém a arqueólogos e historiadores mais imparciais ou a amadores de tais religiões, tais conhecimentos e doutrinas podem, ainda assim ser reconhecidos e trabalhados.
Para comemorar o artigo 2000 do blogue, e a 10 de Junho, dia de Portugal, vamos homenagear o Irão e a sua civilização, tão ameaçada pela elite epsteiniana e infrahumana que governa o Ocidente. Vamos assim aproximar-nos de um historiador valioso, Paul Chalus, que na sua obra bem fundamentada, original e corajosa L'Homme et la Religion. Recherches sur les sources psychologiques des croyances. Paleolithique, Néolithique, Age du Bronze, Crete, Israel, Iran. editado em Paris, pela Albin Michel, em 1963, num in-4º 510 p., abordou os principais núcleos e mistérios das religiões, tais como o monoteísmo, panteísmo, dualismo, a luta entre bem e mal, a angeologia, a ligação psico-afectiva do ser humano com Deus e, no caso, do tão sagrado Irão, que Trump e Netanyahu querem ver destruído, regressado à pré-história, onde ele mesmo assim já lhes era superior.
É do cap. VIII, intitulado Les Indo-Europeens en Asie. l'Iran, de 48 páginas, muito rico de indicações e deduções, e do subcapítulo IV Escathologie et Mystique, que extrairemos um trecho bem substancial; mas antes apontemos alguns dados valiosos dos três capítulos anteriores, onde aborda no I a Índia védica, e no II a religião iraniana e védica, neste anotando, por exemplo, as correspondências entre as deidades ou formas de manifestação divina Agni e Attar, Surya e Hvar, Mitra e Mitrah. Quanto a Varuna tão sagrado era o seu nome que não era pronunciado, chamado o Senhor sábio, Ahura Mazdah. Aborda a equivalência entre as bebidas fermentadas sagradas do Soma védica indiana e do Haoma iraniano, que eram derramadas nos sacrifícios sobre a chama ou as oferendas. Já a exposição dos corpos dos defuntos ao céu e às aves, citando R. Lantier, La religion ibérique, equipara-a aos Celtiberos no nordeste ibérico.
Os aspectos históricos e cronológicos são equacionados a partir das inscrições dos reis aquemédias do séc. VI ao IV, com dedicatórias a Ahuramazdah, relacionando com Heródoto, que «tendo recebido informações das províncias aqueménidas ocidentais, assinala que os Persas adoravam o ser supremo sob o nome de Dyaus Pitar, o Céu Pai, o que é evidentemente a grande divindade indo-europeia, que se perpetua no nome de Ahuramazdah». A expressão baga, previdência, é dada aos outros deuses, o que estará afim do russo Bog, Deus, e de Bhaga, deidade indiana que providencia a sorte. O que para Paul Chalus é uma evolução significativa: mudança da primeira religião iraniana, que chamava aos seus deuses daeva e passa para os baga e por fim, com a reforma zoroastriana, para yazata, o ser venerável. Constata que popularmente Mithra e a deidade feminina, das águas e fertilidade, Anahita, continuarão a ser muito cultuadas.
Ora o princípio religioso mais importante, afirmado pelo rei Ciro (559 a 530), fundador do império aqueménida, numa inscrição na grandiosa Persepolis, é Arta, ordem, justiça, cósmica, na natureza e na sociedade, a ela se opondo Drauga, Druj, a injustiça, a mentira, a traição, algo que nós vemos hoje em 2026 mais expresso na luta que o Irão enfrenta, e desde 1953 contra as forças do mal israelo-americanas, que certa e divinamente serão derrotadas... Ameen...
Na peugada do grande iranólogo belga J. Duchesme - Guillemin (1910-2012), P. Chalus considera que a religião iraniana mais antiga já deveria ter tanto Ahura Mazdah como a luta ente arta e druj, e mesmo uma retribuição dela no além, e chama-lhe a religião dos Magos (outros apontaram para o shamanismo como a fonte comum mais antiga, tal H. S. Nyberg)) sobre a qual a reforma do profeta Zoroastro, no séc. VIII, incidiu, estabelecendo mais claramente o Deus único. Paulo Chalus aponta ainda o mistério não resolvido plenamente, se o profeta nascera no nordeste iraniano, na região do Alto-Oxus, nos confins do Pamir, próximo da Índia, ou se na zona do Azerbeijão, no sul do Caucasso, distante 2.000 km para Oeste.
No capítulo seguinte Zoroastrismo e Madzeísmo, Paul Chalus cita diferentes autores e afirma que no estado actual do conhecimento é ainda impossível saber-se ao certo o que esteve por detrás dos processos transformativos, mas que lhe parece evidente que os seis Amesha Spenta, os seis "imortais veneráveis", que acompanham Ahura Mazdah, e que podem ser vistos como aspectos, qualidades ou atributos divinos, ou Arcanjos, correspondem a antigas divindades indo-iranianas. Tais Vohu Manah, o Bom Pensamento, Mitra e depois no Avesta recente, Bahman. E Asha, ou Asha-Arta, a Boa Ordem, Ardibihist, Rita na tradição vedica. Khshathra-Vairya (shariver) a potência, domínio ou reino. Armaiti, Spenta Armaitii, "abandono generoso, pensamento piedoso, devoção cultual" semelhante à Aramati, védica, e à Anahita mesopotâmica espiritualizada. Haurvatat (Khordath), a integridade, saúde; e Ameretat (Mourdad),a imortalidade, ligada às plantas.
Outras entidades e princípios importantes são Sraosha, a obediência, e disciplina, e Ashi, a retribuição. E por fim Daena, o Arcanjo da Terra, tão aprofundado por Henry Corbin, tal como as fravashis, as entidades guardiães celestiais de cada ser, e que neste blogue já trabalhei brevemente. Que nos inspirem!
O Madzeísmo responde às perguntas que Zoroastro cantou nas suas Gathas, pois nos seus textos já compilados no séc X, tal o Denkart e Datastan-i-denik, e por fim o Boundahisn, explicam melhor as doutrinas das sucessivas criações, e repousos, divinos, bem como os ataques das forças do mal, que são cíclicos e tocam alguns dos setes keshvars, orbes, climas, ou mundos, terrestres, subtis e espirituais, no qual o do meio o centro é Eran-Vaj, o espaço sagrado, a montanha das Auroras (que reaparecerá em Shoravardi, e a sua filosofia iluminante - Ishraqi), a terra das visões, onde Zarathustra conseguiu chegar e ver o resplandescente Amesha Spenta ou Arcanjo Vohu Manah, o Bom pensamento.
No plano da moral, a pregação de Zaratustra traz - repitamos - um progresso incontestável. Para os Iranianos antes do profeta, o pecado é uma mancha de ordem mágica, que se apaga por procedimentos da mesma natureza, tal como para os Indianos védicos [Oldenberg, La Religion du Veda, p. 171.] Evidentemente, estes últimos alcançaram rapidamente, parece, um estágio moralmente superior, e alguns hinos são belos testemunhos disso [Rigveda, VII, 86. Renou, La poésie religieuse de l'Inde antique, p. 60...] Mas ainda assim, nenhum vínculo afetivo verdadeiro se estabelece entre os deuses e o fiel: os primeiros são déspotas que o segundo deve tentar persuadir. Zaratustra, ele, é o amigo de Deus: ambos "põe de pé" um conjunto de princípios que fazem a rectidão da nova religião, eles conduzem uma luta comum contra o mal. Os Amesha Spenta alinham-se atrás de uma divindade única, o profeta segue-os e é recomendado aos humanos fazerem o mesmo. O culto é uma manifestação da piedade, mas não passa de um compromisso de bem agir: as más ações só podem ser resgatadas pelas boas, e estas devem, no final das contas, pesar mais do que as primeiras.
A intimidade de Deus e de Zaratustra transporta-nos a um mundo que não é mais o da pura natureza, mas o da revelação - que é também o da escatologia - onde entram em contato o divino e o humano:
Existe, portanto, um modo, um lugar ou um tempo de existência onde essa amizade de Zaratustra e de seus fiéis com Deus se manifestará – seja um estado post mortem ou uma transformação "à vista" da vida presente, tal como entre os primeiros cristãos [se veio esperar, com a palavra Maranata]. Então Zaratustra e os justos, com tudo o que é belo - ou seja, luminoso - no universo, contribuirão para a glória de Ahura Mazdâh.
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