quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

"E Antero disse..." Poema inspirado e algo profético do P. Moreira das Neves, escrito do alto do Cristo Rei


 Corria o ano de 1959 e o mês quente florido de Maio, quando o Padre Moreira das Neves (18/11/1902 a 31/3/92), desde 1934  chefe de redacção do jornal da Igreja Católica «Novidades», escritor, conferencista e poeta, entusiasmado e inspirado com a construção e a inauguração do monumento nacional a Cristo Rei, escreveu o seu décimo quarto livro intitulado Cristo sobre o Tejo, com 31 poemas, quatro deles dedicados a seres,  Antero de Quental, Rainha Santa Isabel, Princesa Santa Joana e Jesus, e os outros a Lisboa, ao rio Tejo, à história e alma portuguesa, todos eles repassados de religiosidade, ora sofredora ora esperançosa e alegre. A obra leva como dedicatória inicial: «A todos aqueles que na suplica e na esperança amorosamente o ajudaram a construir.»

Vamos partilhar o poema de Antero de Quental, pois o P. Moreira das Neves era um bom apreciador e conhecedor da Literatura Portuguesa e nomeadamente da geração de João de Deus, Antero, Eça, Junqueiro, Ramalho Ortigão e Oliveira Martins, sendo o seu livro O Grupo dos Cinco. Dramas Espirituais, bem valioso, com bastantes páginas dedicadas a Antero, derivando o seu drama de não se ter conseguido conhecer, sofrendo duma luta entre o coração e a cabeça. sem humildade para aceitar os ensinamentos da Igreja, pelo tivera um "curto-circuito espiritual" ao suicidar-se, ressalvando que Deus ainda assim no seu íntimo o poderia ter salvo.  Este seu poema dedicado a Antero, ou invocando-o, foi inspirado das alturas do monumento do Cristo Rei, após  árdua subida de 500 degraus em andaimes, num dos fins de tarde em que o Sol poente derrama sobre Lisboa e o Tejo os seus raios, gerandos miríficas refrações coloridas.

A fala imaginada de Antero, depois de ter invocado outros dois grandes poetas da solidão e do amor, e da serra da Arrábida, Frei Agostinho da Cruz e Sebastião da Gama,  é um discurso póstumo que poderemos até aceitar como possível, como não destoando do que Antero Quental lhe poderia murmurar se eles estivessem clarividentemente em diálogo. E quem saberá o que se passou na inspiração do poema na alma do P. Moreira das Neves?

E ANTERO DISSE:

«São quinhentos os degraus.
A um por um os subi.
Subi-os, o peito arfando,
Arrastado no desejo
De conquistar as alturas
Do pedestal hirto e enorme

E por escadas de andaimes
Subi ao cimo da estátua
Do Cristo de sobre o Tejo.

Em baixo, o rio corria,
Dizendo adeus à cidade
E já sentindo nas ondas
O sal das ondas do mar.
Ao longe o mar era espuma,
Espuma e distância azul.
Ao longe a terra era verde,
Toda de verde vestida

E sobre o Tejo correndo
E sobre a terra sonhando,
Um céu de poema heróico
cheio de sol e nuvens.

Ardia a tarde nos vidros
Das janelas de Lisboa.
Sobre o zimbório da Estrela
sangravam jóias acesas.

Uma bandeira flutuava
Sobre a torre de Castelo
De altas ameias morenas.
Ao Sol, de burel, a Arrábida
Clamava nomes de poetas:
Frei Agostinho da Cruz.
O da divina saudade,
E tu, Sebastião da Gama,
Arauto da Serra-Mãe.

Subi ao cimo da estátua
E entrei no braço direito
Do Senhor das Amplidões.
Lembrei os versos de Antero,
Coração crucificado
Na angústia do pensamento
Ansioso de repousar
Na mão direita de Deus.

E Antero me disse, triste
Com a túnica de bruma
Da ilha de S. Miguel:

-- A imagem vale uma sombra.
Para além da sombra, olha
O Corpo das Cinco Chagas
jorrando como, em verdade,
Cinco fontes infinitas
E, para além do corpo, alma,
Princípio e glória de tudo.
A alma que me falou,
E que eu não soube escutar
(Por não ouvir essa voz
Na hora do desencanto,
É que eu cedi, lábios mudos,
À tentação dos abismos).
Mas Cristo é Deus. Deus é Pai.
Grita-o sempre, sem descanso.
O mundo deseja a paz.
A paz não vem de outra origem.
O mundo deseja o amor.
O amor não vem senão dEle.
Sem Ele, os anjos não lutam
Pela salvação da Esperança.
E então os homens, transidos,
Possessos de ódio e loucura,
Nunca mais farão poemas
Nem catedrais. Nunca mais!

E cairão sobre o gume
Das suas próprias espadas.» 

O que encontramos de profético no poema é o estado da humanidade sem amor, infrahumanizada ou transhumanizada, oprimida pela oligarquia globalista liberal. sem referência a Deus, a Cristo, à alma, à voz da consciência, ao Anjo, à Tradição, à família.

Antero sempre desejou e recomendou tentarmos ouvir a voz interior da consciência, e segui-la, e lamenta-se de não a ter escutado quando se suicidou e se precipitou num vácuo, abismo, inconsciência, ou nada, Temporário estado, claro, embora não saibamos bem por quanto tempos, e o que o terá ajudado a elevar-se para planos de luz e de auto-consciência, e de abertura ao Anjo, ao Cristo, à Divindade. 

São valiosas a sugestão de oração pela Paz e Amor: a fonte é Cristo, ou o Logos Solar, o Amor-Inteligência Divina. E a de que é nesta ligação que os Anjos trabalham pela esperança dos seres humanos., ou que neste estado consciencial e anímico que temos acesso a eles.

Saibamos pois abrir-nos mais a estas vibrações e dimensões divinas, para que os Arcanjos e Anjos da Guarda possam fortificar-nos na luta contra as forças do ódio, da mentira, da manipulação, da opressão, da corrupção, que no presente tanto regem o Ocidente e a tão desgraçada, anti-democrática e anti-russa direcção da União Europeia.. 

Que Frei Agostinho da Cruz, Antero de Quental, Sebastião da Gama, o P. Moreira das Neves, e outras grandes almas,  nos inspirem a abrir-nos mais ao Amor-Sabedoria Divina, a sê-lo (esto) e a partilhá-lo no mundo, e entre os poucos mais afins, os dois ou três unidos no nome, palavra ou Logos!

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