quinta-feira, 6 de novembro de 2025

O fundo da consciência humana como Ananda, beatitude Divina, nos yogis e nos ensinamentos do guru Ranade. Somos Sat Chit Ananda.

                                                  
Das principais contribuições da espiritualidade e filosofia da Índia para a Humanidade foram as tentativas de conhecimento e caracterização do do verdadeiro eu, chamado também espírito, e em sânscrito denominado Purusha, Atman, Jivatman, Purushatma, e que em si mesmo teria ou manifestaria três qualidades ou atributos principais, chamados Sat Chit Ananda, significando Sat - Ser verdadeiro, Chit - Consciência ou inteligência e Ananda - Bem-aventurança ou beatitude. Eles corresponderiam a qualidades e atributos que o ser humano discernia em Deus...
Embora esta visão e compreensão tenha sido gradualmente alcançada pelos rishis (videntes) e yogis védicos, como podemos ver nos antigos textos, ela incorporou-se e desenvolveu-se por alguns darshanas ou sistemas filosóficos da Índia, especialmente o Yoga Vedanta, bem como pelos contributos de yogis que a conheceram, meditaram e partilharam, mas com o tempo, e devido aos contextos crescentemente complicados e artificializados de vida, muitas das pessoas esqueceram ou perderam ligação e consciência das primeiras e terceiras qualidades ou níveis, e muito mais tal aconteceu fora da Índia porque esta visão da realidade foi bastante sepultada ou manipulada por influências religiosas e filosóficas contrárias ou diferentes, pelo que é importante demandarmos tais qualidades ou atributos e procurar viver mais ligados a este fundo do nosso ser mais íntimo, e em especial com a qualidade ou atributo de bem-aventurança, ananda, que poderemos até chamar de amor no cerne de sua identidade, e ainda graça divina.
                                               
Como sabem os estudiosos e praticantes da espiritualidade indiana, um dos seus últimos grandes representantes, Gurudev Ranade (1886-1957, e a quem já dediquei alguns artigos), foi um ser muito especial, pois sua vida era ao mesmo tempo a de um jnani yogi, com estudos filosóficos profundos, um bhakta, de muita devoção, um karmin, bem activo na sociedade e um raja yogin, pelas concentrações e meditações, e assim tornou-se um professor e filósofo proficiente, e um verdadeiro guru, iniciando e impulsionando muitos discípulos, deixando semeados ou disseminados nos seus livros sinais de verdades valiosas para os peregrinos no caminho da auto-realização, e religação com Deus.
                                              
Guru Ranade nascera numa família de devotos e foi iniciado em 1901 por Shri Bhausaheb de Umadi, que por sua vez fora iniciado por Sri Nimbargi Maharaj (1790-1885), e seu mahasamadhi, ou lugar de desincarnação ou de união final na terra, está em Nimbal, um centro ainda hoje activo e peregrinado. E podemos ver a tão valiosa linhagem (sampradajaya) de mestres na fotografia.
                                
Ora B. R. Kulkarmi, um devoto discípulo do gurudev Ranade, no seu livro Aspectos Críticos e Construtivos da Filosofia do Prof. R. D. Ranade, Belgaum, 1974, refletiu, meditou e resumiu alguns dos seus ensinamentos, pelo que, naturalmente, a base ou íntimo da consciência como beatitude, ananda, é bem abordada, na página 127 afirmando mesmo: «Mas a contribuição distintiva do Prof. Ranade ao pensamento metafísico-ético é sua doutrina do Beatificismo. Na verdade, essa doutrina diz respeito às experiências místicas e tem implicações metafísicas e éticas. É importante lembrar que o subtítulo de seu livro proposto, O Caminho para Deus, Patway to God, seria A Filosofia do Beatificismo. Ranade considerou a concepção idealista da autoconsciência como o ponto central da existência e mostrou que não é a autoconsciência humana, mas sim a autoconsciência divina [que grande desafio] que deve ser a realidade básica. E dando um passo adiante diz mesmo que esta realidade central não é apenas consciência, mas também bem-aventurança. A concepção axiológica de bem-aventurança e a concepção metafísica de Brahman são as mesmas. A identificação da bem-aventurança com a realidade é o beatificismo. Em vez de a autoconsciência ser o centro da realidade, a bem-aventurança torna-se o centro. Em vez do idealismo, temos o beatificismo.»
Neste parágrafo valioso sobre a visão de Gurudev Ranade sobre a essência da consciência humana e a Divina constatamos a não aceitação da identificação dos seres humanos como simples animais superiores dotados de consciência (proveniente do cérebro e neurónios), antes afirmando que a consciência já é Deus dentro de nós mesmos e que a sua essência é a beatitude, ananda, denominando mesmo esta doutrina como o Beatificismo...
Nos dias de hoje, algo toldados pelos conflitos e genocídios, violências e opressões, em que constantemente somos atemorizados ou violentados, não é este nível beatífico em nós uma realidade importantíssima de ser demandada, reconhecida e mais vivida por nós?
Neste sentido, não se contentando com um reconhecimento ou compreensão intelectual, o Guru Ranade, como um verdadeiro sadhak, ou uma alma praticando sadhana, caminho espiritual e meditação, com bhakti (amor-devoção-aspiração), pede, exorta-nos e ensina-nos a realizar mais, pela devoção e meditação, a verdadeira essência do eu e de Deus: beatitude, ananda, shukam, alegria, felicidade.
                                                     
Tal demanda é, inegavelmente, um grande desafio a ser aspirado, desejado, querido e sentido, com perseverança, e por isso só por si mesmas as palavras Sat Chit Ananda podem constituir um bordão, um apoio, um bom mantra e quando o repetirmos e meditarmos poderemos receber do nosso próprio Atman, dos Mestres, da Divindade ou Brahman algumas bênçãos ou graças, nomeadamente a beatitude, ananda.
Consubstanciando a sua linha de pesquisa, B. R. Kulkarni apresenta-nos alguns textos nos quais gurudev Ranade encontrou essa identidade, tal como no Bhagavad Gita, VI, 28, onde o fruto do puro vairagya ou desapego, e da constante consciência de Deus (brahma-sansparśham) criam ou dão origem a shukam (prazer-alegria), o conceito incipiente de Ananda: "O iogue auto-controlado, ao unir o eu com Deus, torna-se livre da contaminação material e, estando em constante contacto com o Supremo, alcança o mais alto estado de felicidade perfeita."
Também na Taittiriya Upanishad, 21, é dito, com certeza alguma exageração retórica: «Aum brahmavid apnoti param, tad esa, abhyukta, satyam jnanam anantam brahma, yo veda nihitam guhayam parame vyoman, so, asnute sarvan kaman saha, brahmana vipasciteti» «Brahmam é Sat Chit Ananda. Quem o experimenta como existindo escondido no coração, fica livre de todos os seus desejos instantaneamente e sem mais manifestações, como acontece com o Brahman omnisciente.»
De forma retórica são imaginadas em seguida as quantidades ou medidas de felicidade alcançadas pelo homem, o Anjo (Gandharva) e o Brahman, para nos tornarmos mais dedicados à auto-realização do atman-Brahman, pois a união do espírito com o Ser Divino, é a verdadeira felicidade, que supera todas as outras em milhares. Também dos tão fundamentais Brahma Sutras, 1.3.8, refere a menção a Brahman como sendo Bhunam, ou seja, Bem-Aventurança infinita, o que para gurudev Ranade é mais um sinal ou prova de não haver uma supremacia de Chit (inteligência-consciência) sobre Ananda na caracterização do Atman, como sri Shankaracharya, o mestre principal da corrente Advaita ou não dualista, nos seus comentários escrevera, pois ambos estão unidos. Além disso, gurudev Ranade sugere que os dois tipos de meditação, Pratikopasana, a meditação num símbolo de Deus, e Gunapasana, aquela onde Deus é pessoalmente sentido e adorado nos atributos ou qualidades (ou através delas, explicando que isso significa ou implica viver em cada dia alguns actos com as qualidades de Deus que adoramos e queremos desenvolver em nós), atingem o seu nível mais alto ou terceiro tipo de meditação em Ahamgrahopasana, a meditação unitiva, na qual o mantra So Ham (Eu sou Ele) é vivenciado na unidade ou união do Eu Espiritual e do Divino, gerando em nós o sentirda bem-aventurança infinita, Ananda.
Certamente para se alcançar os níveis mais elevados de comunhão, bem-aventurança e unidade devemos desenvolver perseverança na prática devocional e na auto-consciência e receber as graças subtis, as quais gurudev Ranade confirma também pelas suas próprias experiências internas, falando, por exemplo, de ver o olho espiritual, o ponto ou bindu de luz, o vastu ou spiriton (um nome cunhado por ele para o espírito), bem como cores, ou ouvir sons, etc.
Na realidade estas graças que descem sobre nós dos planos espirituais e do guru para o nosso bhava, ou sentimento interno, pelo japa, as orações-mantras e pela meditação dão-nos a bem-aventurança e permitem-nos realizar mais a nossa verdadeira essência de Satchitananda e cooperarmos melhor com o Bem comum e espiritual da Humanidade numa sociedade equitativa mulripolar, harmoniosa.
Que este pequeno ensaio, como uma pequena gota do grande Oceano de Brahman e Sat Chit Ananda,sirva para nos intensificar mais na demanda da bem-aventurança interior, um potencial tão valioso, realizado apenas na autoconsciência perseverante, aspiração, discernimento, amor e unidade...
Que possamos estar mais em sintonia com gurudev Ranade e os mestres e sentir mais Ananda, o Atman Espiritual e Divino em nossas vidas e consciências, e compartilhar isso com os outros, melhorando a Humanidade e o mundo multipolar que se tenta erguer...
Om Sri Gurabe namah

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