quinta-feira, 23 de dezembro de 2021

Das imagens religiosas e espirituais, dos santinhos e das energias luminosas potenciais. Ensaio de iconologia espiritual, na história de arte religiosa.

Entre as imagens religiosas e espirituais, pela sua acessibilidade e profusão, destacam-se as gravuras e registos dos séculos XVII e XVIII, e os santinhos, estampas e depois cartões de boas festas que no século XIX e XX, com o desenvolvimento tipográfico e a democratização das sociedades, tiveram o seu apogeu, com grandes centros impressores e tiragens enormes e que se espalhavam pela cristandade ou até supra-religiosamente...
Dir-se-á que são obras de arte menores, embora os haja até realizados ou pintados manualmente e com grande originalidade e beleza, mas na realidade são como pequenas pinturas sagradas à disposição prática de qualquer pessoa.
Por isso, e porque haja quem os sinta tão carregados de energias, não só potenciais como também acumuladas, eles são ainda hoje apreciados e sentidos por algumas pessoas que não os menosprezam como úteis no caminho espiritual.
Energias potenciais dizemos, porque representando aproximações devocionais e amorosas a altos níveis dos seres,  do Cosmos e da Divindade têm esse potencial de nos tocarem, encantarem e religarem ao sagrado, desafiando-nos a comunicarmos com eles e a intuirmos o que nos sugerem, sentindo-os, e deixando-nos ir nos sentimentos e associações, realizando com eles preces e meditações, obtendo até compreensões valiosas da ordem sagrada do Universo ou mesmo expansões de consciência...
Contém energias acumuladas, quando já foram dados e usados, pois sendo antigos sofreram os influxos das pessoas que os possuíram, receberam, deram, assinaram, anotaram.
 Por exemplo, este que me foi enviado por Germain March'adour (que o destacou e imprimiu) e dado por José V. de Pina Martins, contém a reprodução da oração que o grande amigo de Erasmo, Thomas More escreveu (quando estava preso e antes de ser martirizado em 6-VI-1535, pela sua defesa da fidelidade à consciência livre), à volta de uma imagem do seu livro de Horas, ou de orações, e que rezava e reza assim hoje em dia também em Julian Assange (um heróico jornalista que desvendou pioneiramente a criminalidade impune do imperialismo norte americano, e que ao estar a ser detido e martirizado prolongadamente pelos vingativos ingleses, norte-americanos e australianos se tornou um Cristo do séc. XXI) e em outros heróis e mártires da luta pela verdade, justiça e liberdade: «Dá-me a tua graça, bom Senhor, para ver o mundo como nada. Para estabilizar rapidamente a minha mente em Ti, e não andar à volta da explosão das bocas humanas. Para estar contente na solidão, não desejar a companhia do mundo, a pouco e pouco deitar fora completamente o mundo e libertar a minha mente de todos os negócios com ele. Para me inclinar para o conforto  de Deus. E activamente laborar por O amar. Para comprar de novo o tempo que antes fora perdido.»
Ora, regressando às imagens contempladas, a intencionalidade transmitidas e a acumulação energética não são fáceis de se ver ou provar, pois é difícil distinguir se o impacto do santinho provem só da beleza, antiguidade, elevação e temática, ou se a essas componentes de origem subtil humana incorporadas  historicamente ou no tempo também contam, vibram e contribuiem para os nossos movimentos de alma...
Potencialmente, por si só, cada santinho é de certo modo um livro em imagens, contendo ou potencializando ensinamentos pessoais, históricos, religiosos, estéticos, culturais, espirituais e que se abre e lê portanto multidimensionalmente.
Cada um deles ensina-nos e leva-nos a contactar temas, seres e símbolos, acrescentando-se a riqueza das legendas, conselhos, orações e ainda o que se reflecte das mentalidades da época, tudo convergindo para uma experiência, ou pelo menos vivência, espiritual. E para o historiador de arte ou investigador pode haver ainda a considerar o autor do desenho ou pintura,  o gravador, a tipografia, o ambiente representado, e mesmo a textura, a qualidade gráfica, o colorido, etc.
Há pois muitos valores e utilidades nos santinhos, nomeadamente a harmonizadora, a afectiva, a espiritual e a evolutiva, para qualquer pessoa, sem ter que ser criança, beata ou simplesmente católica...
Seja pela forma e estética, e consequentemente pelos efeitos psico-somáticos gerados em nós, seja pelas impulsões que nos transmitem, seja pela ligação com níveis subtis, do inconsciente e do supra-consciente colectivo, seja pela ligação com anjos, santas e santos, Jesus, Maria, ou o Pai, Deus, são muitos os motivos para contemplar estas imagens que estão à nossa disposição em qualquer momento.
Podem-se distinguir certos tipos de santinhos, os mais vulgares sendo os consagrados a Jesus, a Maria, aos santos e santas, aos Anjos, à Cruz, aos sagrados Corações, ao santíssimo Sacramento, à 1ª comunhão, a retiros, a mortes, a santuários e suas Nossas Senhoras, a peregrinações, aos Anjos e Arcanjos, às virtudes e a cenas da Natureza como pano metafórico para ensinamentos morais e espirituais ora para a mera transmissão de sentimentos e emoções inocentes e purificadoras:
 Cada pessoa pode sentir mais afinidade ou atracção por este ou aquele tema, ou ainda maravilhar-se com os efeitos geométricos, as perspectivas, ou já na feitura exterior com os rendilhados, os debruados a canivete, os que têm fotografias de pessoas santa, ou mesmo relíquias delas.
Dos mais valiosos são os que propicionam um contemplar espiritual, uma sintonização com o mundo espiritual, e uma maior ligação com o nosso espírito e com o Ser Divino. Aqueles que mostram auras, estrelas (nomeadamente a estrela de 5 pontas, impressa como cartão de boas festas por Manuela Morais, da editora Tartaruga, a partir do desenho de 2004 do seu marido Espiga Pinto, um amigo e bom conhecedor da geometria sagrada, tal como Almada Negreiros, Lima de Freitas e Carlos Calvet), nuvens, árvores, pedras, cosmos,  ao entrarem no nosso cérebro e alma receptivos, facilmente nos harmonizam e expandem a consciência.
Soletremos brevemente uns poucos deles, à sorte:
A Nossa Senhora de la Salette, da França (e em breve a ilustrarei), surge representada em belas imagens, pairando no ar, no meio da natureza e com uma grande aura. É das melhores para contemplarmos e podermos elevar-nos à nossa dimensão de seres dotados de corpos gloriosos, quando ela está representada só e a pairar, pois noutras já está a chorar pelos pecados no mundo, ou a aconselhar os dois pastorinhos, actividades certamente também importantes...
                                       
A Nossa Senhora de Fátima, em santinhos, pagelas e imagens, embora tendo sido bem explorada ou projectada nessa dimensão na natureza, da árvore sagrada e das nuvens, rapidamente foi talvez demasiado coisificada na bela estátua que tanto se venera e peregrina no mundo e que serve de facto de íman. Ao encontrarem-se  alguns santinhos  com esses elementos da Mãe Natureza e até ampliados na sua contextualização, com os anjos e armas de Portugal,   permitem-se bons alinhamentos psico-espirituais dos devotos que contemplarem o santinho, ou cantarem com a pagela e imagem, tal como partilhamos em seguida, sem que antes não deixe de referir a força mantrica de tais hinos ou cantos, já que na Índia e noutros locais sendo convidado a participar com algum canto, ao lado dos partilhados por Paramahamsa Yoganananda, o "a 13 de Maio" foi entoado com boa devoção e aspiração ou, como se diz na tradição yogi indiana, bhakti e mumuksha.
S. José tornado fiel protector-seguidor de Jesus e Maria, ou a  guardião de Maria, destaca-se mais na imagística pela ternura do olhar pleno de amor paternal, o esmero na arte da carpintaria que ensina ao filho e na suavidade e pureza dos lírios que empunha. É um ser que foi porém algo vítima do papel absurdo com que ainda se mantém nos dias de hoje: uUm pai que não é (miticamente...) pai, quando seria mais acertado falar-se da pureza com que gerou com Maria, Jesus...
Também o Pai Deus de Jesus  continua um mistério, para muita gente uma concepção baseada em crenças e leituras bíblicas com contradições fortes,  advindas de S. Jerónimo ter criado uma tão estreita sobreposição ou identificação entre o Jehova violento do Judaísmo e o Deus de Jesus, e que concretizou com a Bíblia, enquanto união dum Antigo Testamento e dum Novo Testamento, tornando-se assim muito mais perdida e pesada a mensagem libertadora de Jesus, da qual intuímos sinais em alguns passos e ditos dos Evangelhos canónicos, ou do Evangelho de S. Tomé,  muito afogados na profusão forçada de milagres e de cumprimento de profecias das antigas escrituras.
A Cruz é outro dos elementos centrais em muitos santinhos, em especial lembrando que na vida terrena cada um de nós tem que levar a sua cruz, as suas dificuldades e sofrimentos, pondo os olhos nos que deram exemplos virtuosos, dos quais se destaca primacialmente Jesus. A cruz é então ora posta sobre os ombros das pessoas, ora junto ao martírio, à morte e à tumba, ora  avistada num alto, como fonte de inspiração ou de força. Algumas cruzes remetem para a cruz cósmica que traça um centro no Universo, e podemos vê-las ainda como mostrando o fluxo e cruzamento das energias das 4 direcções do espaço. 

 Outras realçam o mistério da redenção, de Jesus, pelo amor que manifestou e sangue que derramou, se ter erguido fortemente como fonte de luz e de amor salvífico para a Humanidade que nele crê e de algum modo o segue como mestre do Espírito, embora saibamos bem como na prática tão pouco o Amor é vivido pelos mais poderosos e ricos, e como mesmo os Estados modernos na civilização cristã ou ocidental o tem abandonado, pesem os apelos do Papa ou de seres mais religiosos. A laicidade exagerada, a não espiritualidade do ser humano e a inexistência de Deus são crenças limitadoras modernas mais ou menos desfraldadas como valores pela União Europeia.
Das mais belas representações são as de jovens que a aceitam nos sofrimentos, surgindo como que ministrada por Jesus como sacramento, enquanto que outras são já cruzes envoltas em flores, com belos enlaçamentos ou espirais e com dizeres inspiradoras, por vezes com certo efeito interno ou anímico ascensional.
Cada pessoa devia ter algumas imagens espirituais ou mesmo santinhos de predilecção e contemplá-los com regularidade, de modo a conseguir levá-los no coração, ou a tê-los de cor. Quem sabe se quando morrermos essas devoções abrirão ou fortificarão portas ascensionais, canais, linhas de comunicação...
Cada pessoa devia também fazer, desenhar uma imagem, um santinho seu, uma composição que marque as suas aspirações e realizações, as suas crenças e experiências e que seja como que um mantra visual, certamente com base geométrica, que permita até afectar mais o olho espiritual, equilibrando-o de tanta exposição a imagens violentas, desorientadoras ou superficiais, como o mundo de hoje tanto reproduz, em especial nos meios de comunicação, com os seus aterrorizadores jornalistas e grupos de pressão que estão por detrás deles. 
Enviada por uma amiga inglesa Marilyn, na unidade dos espíritos em amor no caminho
Sejamos continuadores criativos das tradições artísticas espirituais, tanto nacionais como internacionais, na religião universal, resistindo à lavagem ao cérebro e à massificação por baixo que predomina hoje em dia, antes aspirando pelo esforço e a beleza, através das imagens, à contemplação dos mundos e seres espirituais e divinos para a melhoria da Humanidade e do Planeta...
Bela imagem de pintura de Bô Yin Râ, propícia à contemplação espiritual...

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