quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

A situação mundial actual. Um texto escrito de noite em 25-II-2021, e levemente revisto.

                                                         

Nestes tempo de guerra total, ainda que por meios menos violentos visivelmente, num horizonte em que se perfilam vários grupos de força e pressão, uma questão que se põe a um cavaleiro do Amor é: qual deve ser o seu posicionamento, e como deve intervir na batalha, tendo em conta que as fronteiras entre os grupos ou entre o justo e o injusto são por vezes difíceis de deslindarmos, ou que o nosso contributo será quase insignificante?
Para uma pessoa se posicionar há que discernir bem seja as actividades, doutrinas e intencionalidades dos vários grupos e estados, seja o que é em si o melhor para o bem comum ou mesmo a Humanidade, repudiando o que parece ou é mais injusto, mentiroso, anti-ético, violento.
Cada um tem de discernir bem qual é o seu swadharma, o seu pequeno dever ou missão, dentro do grande Sanata Dharma a ordem justa eterna planetária e cósmica, na qual todos os seres estão incluídos, ainda que, em geral, se não houver tradições religiosas ou espirituais vivas,  tal ideia de missão ou dever e Ordem escapa à maioria das pessoas, que vivem então como meros seres humanos destituídos contudo de verticalidade e perenidade,  tornando-se por isso facilmente manipulados, oprimidos, explorados. 
Há muita gente que não  põe a questão do dever ou da missão, basicamente trabalhando para sobreviver, cumprindo os seus deveres e prazeres familiares, e ocupando o tempo que lhe resta mais numa dispersão informativa do que numa formação animico-espiritual e numa participação no devir da Humanidade. 
É mais nos escritores, pensadores, artistas, cientistas, amantes da Natureza e ecologistas, professores e profissionais da saúde, religiosos e espiritualistas, que surgem questionamentos mais profundos e criativos, por vezes espirituais, e muitos pensam e dialogam sobre os vários aspectos das políticas, das medidas tomadas, das ambições e imperialismos que dilaceram os povos, discernindo por vezes por entre as malhas das narrativas oficiais e manipulações mediáticas os conflitos e as linhas de força e intenções que se escondem e mesmo as soluções mais justas, sendo contudo frequentemente impedidos de se expressarem livremente... 
Que conflitos estão então a causar uma certa guerra de muitos contra muitos, e que não são apenas os de direitas e esquerdas dentro de cada país, nesse jogo aparentemente democrático mas frequentemente altamente manipulado, e pouco decisivo dado a submissão da maioria dos partidos aos interesses hegemónicos ocidentais?
Pois são sem dúvida as lutas dos Estados Unidos da América e da oligarquia sionista e ocidental contra as forças, associações e estados tradicionais, nacionais, socialistas, libertários e independentes que conseguem sobreviver ao estrangulamento diário, aos golpes de estado, às insidiosas corrupções e infiltrações que vemos sobretudo na América Latina e no Médio Oriente, mas não só já que a lepra ou vírus imperialista norte americano está em quase todo o planeta, pouco importando que sejam republicanos ou democratas os que estão no poder e na administração da máquina de guerra, pois o que conta é basicamente o America first e quase only.
Ora este império, assente sobretudo no controle dos principais meios de comunicação, praticamente em todo mundo, nos armamentos, nas bombas atómicas, na espionagem, nas bases militares espalhadas por mais de cinco países e que matam e torturam com toda a facilidade, tem como base o inesgotável dólar, tornando toda a vida económica na Terra desequilibrada e injusta. O dólar inesgotável e imperialista corrompe meio mundo. É trágico, mas é a realidade. Quantos Institutos, organizações não governamentais e Fundações Norte-Americanas existem pagando excelentemente aos seus membros ou aos seus colunistas, para andarem a manipular e corromper os países?
Ora não contente em estarem em luta com vários países da América Latina e do Médio Oriente, os USA estão ainda apostados numa luta titânica contra a Rússia, a China, o Irão, o BRICS e para isso contam com dois aliados muito importantes, a NATO, o braço armado, que se pode considerar semi-terrorista, norte-americano na Europa e nos vários continentes. e da União Europeia, esta sendo uma galinha tola de burocratas e tolos, que cumprem o que os norte-americanos ou a finança sionista lhes manda.
Qualquer alma mais sensível e pura e informada e não alienada pelo brainwashing norte-americano e dos seus prolongamentos está em então em perigo de ser engolida passivamente pela goela da grande sociedade ocidental dita democrática e cultural, mas que é tal só nas aparências e declarações, as quais por exemplo, a União Europeia, está constantemente a fazer, em muitos dos casos apenas servindo os interesses norte-americanos, financeiros globalistas e sionistas.
Mas não são só estes os conflitos mundiais, pois tanto os religiosos, os da emigração e os ecológicos são também bastante fortes, obrigando-nos a desmistificarmos as religiões e os seus pseudo-revelados livros, e tentarmos estancar as guerras e terrorismos, e as pobrezas e explorações que causam as misérias e emigrações. Valorizemos então a luta pela auto-subsistência das comunidades e povos, pelas cooperativas e associações de trabalhadores, o cultivo e o consumo de alimentos biológicos ou orgânicos, a luta contra a agro-química, e as grandes multinacionais farmacêuticas e de alimentos geneticamente modificados, geradoras das monoculturas, do empobrecimento dos solos e a desertificação, da poluição e do aumento das doenças. 
A estas fontes já já muito conhecidas e mais ou menos confrontadas, adicionou-se agora a guerra biológica e as vacinas e há já mais de um ano que estamos verdadeiramente envoltos num pandemónio, em grande parte derivado de uma má classe política que tem claudicado perante os interesses obscuros dos grupos financeiros e farmacêuticos que parecem dominar o mundo.
É verdade que há muita gente mais lúcida e desperta a tentar denunciar como vão nus os reis da picada, mas um outro factor veio ainda adicionar-se nesta guerra mundial: as grandes companhias tecnológicas que controlam as redes sociais e muitos meios de comunicação e que vão impondo as suas ideologias, as suas corrupções e alinhamentos ou então a censura, a qual, parecendo que era algo dos tempos passados, voltou a ser instalada, não sendo necessário o tribunal da Inquisição, pois ou o bloqueamento, isolamento e silenciamento são impostos pelas redes sociais ou, se for preciso, o assassinato, algo que a USA, Israel, UK, Arábia Saudita e Turquia, estão constantemente a fazer.
O que devemos pensar e agir nós então? 
Pois meditar, pensar, orar, intuir, dialogar, escrever, agir, conscientes de que somos seres espirituais e temos antes de mais de nos fortificar e iluminar, e em família, com amigos ou em grupos dinamizar as forças da multipolaridade, do anti-imperialismo, da cultura, da fraternidade, da luz, do amor e da paz criativamente... 

23:05 25-II-2021, e levemente revisto em 22-I-26.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Frei Paulo de Vasconcelos: a Consciência da Presença de Deus é um modo de oração. Das jaculatórias. Venha a nós a Vossa Luz. Extractos da sua "Arte espiritual."

 Frei Paulo de Vasconcelos, mestre prior geral da Ordem de Cristo, na sua Arte espiritual, dada à luz em 1649, e reimpressa em 1725,  já abordada num primeiro artigo, num sub-capítulo valioso  partilhou a sua visão e compreensão da omnipresença de Deus, e do estado de oração permanente que tal realização permite, o que para nós nestes tempos agitados é bem fecundante. Intitula-se Também a presença de Deus é modo de oração.

 «É muito de advertir, que não é menos importante para a vida da alma a presença de Deus, do que para a vida do corpo a respiração, porque assim como não pode haver vida sem respiração, assim não havíamos de estar um instante sem a lembrança de Deus, e ainda que pareça dificultoso este exercício, com a Divina Graça vem a ser tão fácil, que muito mais dificultoso vem a ser o esquecer dele, do que ao princípio era a sua lembrança.
E se há-de adv
ertir, que a presença de Deus é de dois modos, um é a presença de Deus intelectual, e outro o imaginário. O do entendimento não é outra coisa senão abrir os olhos da razão, e advertir que temos a Deus presente no íntimo de nossa alma, e isto é tanto assim, que não só na alma, senão também o está na mais vil e desprezada coisa que há no mundo, dando-lhe o ser que tem, de modo que havemos de considerar a Deus como uma densa névoa, de que todo o mundo está cheio, e a nós no meio dela cerrados de todas as partes, ou como uma esponja metida no ar, que não só está cercada de água, senão que também a tem dentro em si, ou como o ferro, abrasado, que não está cercado de fogo, senão que por todas as partes o tem estranhado e metido em si. E deste modo podemos sempre trazer a Deus presente, abrindo os olhos da razão, e considerando a Deus em todas as coisas criadas, dando-lhe o ser que tem, e obrando em todas como primeira causa, que é de todas, e assim para qualquer parte que olharmos, temos motivos e ocasião de nos lembrarmos de Deus, e de o termos presente, e de sempre o andarmos louvando, tendo sempre respeito a quem está nelas (...)

 Comentário: Que extraordinário texto, que excelente modo de fazer bem compreensível e sensível a omnipresença divina. Meditemo-lo bem...

A presença de Deus imaginária é formar dentro de nós com a imaginação uma imagem de Cristo Nosso Senhor nascido, circuncidado, açoitado, ou de qualquer outro modo, que mais no incitar a devoção, e esta havemos de representar ao entendimento, e traze-la sempre diante de nós, como se na realidade o estivera, e com ela havemos de andar falando, representando nossas necessidades, queixando-nos de nossos males, dando-lhe graças pelas mercês recebidas, pedindo-lhe perdão pelos pecados, alegrando-se com ela. doendo-se das suas dores (...)

Comentário: Outro ensinamento presente nos iniciados e místicos de várias religiões, denominando-se o nascimento de Deus em nós, ou ainda o ishtadevata, na tradição indiana, com várias formas ou avatarizações possíveis na imensa religiosidade do Oriente. Nesta instrução, o Dom Prior geral Paulo de Vasconcelos cinge-se a Jesus Cristo, embora haja nela as duas dimensões humana e divina, e cada um sentirá a que lhe é mais afim...

Também servem para a oração o uso das jaculatórias, que é o que acompanha a presença de Deus; estas são umas palavras amorosas, ou aspirações com que o coração se levanta Deus, e são uns afectos da vontade afervorados, com que os contemplativos mostram o desejo que têm de servir, e contentar a Deus; e dá-se-lhe o nome de jaculatórias, porque podem tanto com Deus como se fossem armas de arremesso, que atravessam o coração de Deus; estas pode cada um formar conforme sua devoção, e necessidade, a saber: - "Senhor meu, quem nunca vos ofendera"; Que padecera antes as penas do Inferno, que ter-vos ofendido"; "Deus meu, alumiai-me, tende misericórdia."

 Comentário: são muitas as jaculatórias da nossa tradição espiritual, presentes desde os Templários, com o seu Non nobis, Domine, non nobis, sed Nomine Tuo da Gloriam,  e a Ordem de Cristo, aos místicos e místicas que ao longo dos séculos tão fortemente ligaram a grande alma portuguesa à divina, algumas das quais tenho apresentado neste blogue, advertindo que cada um deve ter ou criar algumas, quais mantras orientais. As jaculatórias apresentadas são da via purgativa, ou da propedêutica da humildade, necessária em todas as vias ou estágios...
                                                
Estas e outras
 semelhantes forme cada um conforme a sua devoção, e estas deve de ter na memória, para que na oração, e fora dele use muitas vezes delas no exercício da presença de Deus, e não deixe de as dizer por indevoção, nem por se ver levado com pecados, porque elas bastam para livrar de todos, e para afervorar a devoção, e não se deixe este exercício, posto que divirta milhares de vezes em cada hora, porque quando menos o cuidar, vira Deus com sua luz.»

                                   "Venha a nós a vossa Luz...."









terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Mestres espirituais da Ordem de Cristo e os ensinamentos de meditação: Frei Paulo de Vasconcelos, de Aveloso, Lamego. Extractos da sua "Arte espiritual."

Frei Paulo de Vasconcelos foi um dos mestres espirituais da Ordem Cristo, natural de Aveloso, Lamego e que professou no Convento de Tomar em 8 de Setembro de 1587, exercendo sucessivamente importantes posições no convento, no colégio de Coimbra, onde foi Prior tal como no Convento de Nossa Senhora da Luz em Lisboa, e por fim  Prior Geral da Ordem ao ser eleito a 22 de Maio de 1647, vindo a deixar a Terra no convento de Tomar a 29 de Junho de 1654. 

Embora tivesse deixado manuscritos importantes sobre a Ordem de Cristo e um Tratado da Oração, só foram impressos e sobreviveram duas obras, a primeira  a Instrucao de como se ha de dar posse do Mestrado da Milicia de Nosso Senhor Jesu Christo, & de como se ha de celebrar Capitulo geral da mesma Milícia. 
A segunda, a Arte espiritual que ensina o que he necessario para a meditação, e contemplação, repartida nas tres vias, purgativa, illuminativa & unitiva; o tempo em que se há-de entrar, e deixar cada uma delas com seus particulares exercícios, e o de cada dia..., ambas impressas em Lisboa, em 1649, quando ele era o Dom Prior geral da milícia de Cristoe na qual encontramos ensinamentos bem valiosos sobre a oração, a meditação, as potências e qualidades da alma activas no caminho espiritual, os estágios de purificação, iluminação, amor e união. Escreve dentro da tradição da Ordem de Cristo e da Cristandade e dos seus subtis ou ardentes místicos e místicas (dos quais cita o pseudo-Dionísio, Dionísio Cartusiano, e Santa Teresa de Ávila, de quem comenta no fim algumas advertências), e dos quais era um bom conhecedor, iniciador e transmissor, como mestre de noviços.
                                             
É certo que a obra
ressente-se por vezes da cosmovisão do Antigo Testamento, que cita de cor no livro a par do Novo Testamento, embora este seja muito mais privilegiado natural e acertadamente, já que o Antigo Testamento está cheio de fábulas demasiado exageradas e violentas. Tal podemos observar, por exemplo, nas suas considerações sobre os Anjos, por vezes bem valiosas, outras absurdas ao aceitar a literalidade dos textos referentes aos anjos do Antigo Testamento. Todavia, são muito mais as páginas de ensinamentos valiosos e correctos.
                                                        
A obra teve uma segunda edição, em 1725, o que prova o reconhecimento público do seu valor no discernimento subtil dos estados meditativos, amorosos, contemplativos, que conhece por experiência interior e não só por leitura e especulação, e que transmite com grande profundidade e clareza. Estamos diante dum verdadeiro e valioso Tratado da Oração Mental, ou Arte espiritual, tal como ele põe como cabeçalho da obra, na primeira página, com lições bem úteis para a via purgativa-iluminativa, aquela na qual devemos mais tentar e perseverar nestes nossos dias tão agitados e absorventes do mundo...
                           
Reimpressa em 1725
num in-4º de (8)-419-(7) páginas, a obra está dividida assim: A Oração e suas seis partes: Lição, Preparação, Meditação, Contemplação, Acção de graças e Petição. A via Purgativa: exercícios, considerações, colóquios e oferecimentos. A via Iluminativa: considerações gratas aos Anjos,  N. Senhora. Da página 91 à 210, numerosas meditações sobre a vida de Jesus Cristo. Seguindo-se até à 229 as Advertências da Via Unitiva, onde se inserem nove belas considerações ou meditações diárias sobre os atributos Divinos, tais a infinidade, a bondade, a formosura, a imutabilidade. Seguem-se as Advertências sobre a Meditação passada, que é do Divino Amor, e os motivos do Amor Divino. Começa então na p. 257, o Tratado de Contemplação e as considerações sobre a união da alma com Deus, as visões, a purificação da alma, o amor que se recebe, e por fim uma hermenêutica de algumas advertências da Santa madre Teresa sobre a contemplação. Da pág. 362 às finais do Índice,  de novo considerações  sobre nascimento, morte de Jesus Cristo e o mítico Juízo final. 

                                              
Há portanto
 páginas bastante valiosas, como se pode deduzir ou intuir, sobre a oração, a meditação, as potências da alma, os afectos, imagens sobrenaturais, os Anjos, a Luz, as Perfeições Divinas: sua essência, eternidade, imensidade, fortaleza, providência, bondade, formosura e imutabilidade. E como hoje tanta gente fala e escreve sobre as Ordens do Templo e  de Cristo mas do espiritual e divino delas pouco  realiza e transmite, creio ser um bom serviço partilhar estas centelhas da  Tradição Espiritual de Portugal.

 Vamos apenas transcrever alguns parágrafos, e mais tarde comentaremos, para nos inspirarmos talvez sobretudo mais no caminho da compreensão do controle e elevação mental e da intensificação ígnea amorosa da alma para Deus e seus estados expandidos e unificados de consciência.  
Como prior e mestre de noviços Frei Paulo de Vasconcelos partilha a  visão tradicional da oração mental, composta de seis partes com   duas mais essenciais, a meditação e a contemplação, ensinando que  a contemplação nasce da meditação, e nesta «o fim há de ser contentar a Deus, e o menos principal há de ser o proveito, que determina tirar daquela meditação, a saber, ser humilde, ser casto, aborrecer o pecado, desejar o Céu, etc. A causa eficiente são as três potências da alma: Memória, Entendimento e Vontade. A Memória representa a história, o Entendimento vai tirando de umas coisas outras, a Vontade escolhe conforme o entendimento lhe mostrou, ama, ou aborrece, etc. (...).
 A terceira advertência seja, que nenhum caso se pare nos discursos do entendimento sem chegar aos afectos da vontade: porque se parar nos discursos do entendimento ficará sendo especulação e não meditação, de forte que todas as três potências da alma, Memória, Entendimento e Vontade, hão de obrar na meditação, a Memória há-de representar ao entendimento,  há-de ir conhecendo, fazendo ilações e discursos, e descobrindo verdades; e a Vontade ir amando, ou aborrecendo, alegrando-se, ou entristecendo, e tirando outros afectos conformes a matéria sobre que vai meditando. (...)
A Quarta advertência é que o que medita não deixe ao entendimento discorrer livremente quanto ele quiser, senão que quando vir que é tempo, e que tem já conhecido o que vai especulando, ele há de ir amando [sentindo no coração, pronunciando jaculatórias, determinado-se em actos] para que não gaste o tempo todo em discursos e perca o que é mais, que são os afectos e actos da vontade, porque não está o caso em conhecer e especular as virtudes e os vícios, senão em aborrecer os vícios e amar as virtudes, e a razão é que o discurso do entendimento não serve de mais que acender o fogo na vontade, e tanto que a vontade tiver este desejo e fogo acesso, não há para que o entendimento trabalhe, porque escusado é ferir com o fuzil na pederneira depois que o fogo está acesso, assim que cesse o entendimento de conhecer, e ame a vontade quanto quiser as verdades, que o entendimento lhe descobriu, ou aborreça os erros que ele lhe declarou.
 Advertência quinta: Também se advirta, que sempre a meditação se há-de encaminhar para conhecer mais de Deus, ou para adquirir alguma virtude, ou desbaratar algum vício, como destro Capitão, que acode com mais socorro à parte mais necessitada, e que em qualquer parte da oração, em que achar devoção, ou movimento algum, que não há de passar avante em quanto lhe durar o tal movimento, porque como na oração não se trata de mais que de buscar meios para amar a Deus, e as virtudes, e aborrecer os vícios, em os tendo não há para quê buscar com dúvida o que está possuindo, pelo que em chegando a este bem, ali pare, e gaste o tempo todo que determinava ter de oração, e advirta que todas as considerações que fizer hão de ser uma escada para subir a alguma das perfeições divinas, e a que mais leva delas é a consideração da vida e milagres de Cristo Senhor nosso (...)
A sexta advertência é que a meditação parte é do entendimento, e parte da imaginação. A meditação do entendimento é de coisas espirituais, como são os atributos divinos, a sabedoria divina, sua eternidade, e imensidade, a graveza e fealdade do pecado, e outras coisas semelhantes. A meditação da imaginação é de coisas coroporais ou que já passaram...ou que ainda estão por vir (...)  
      Quarta parte da oração que é a Contemplação.
«A contemplação é uma simples, suave e qu
ieta vista de Deus, sem variedade de discursos, com grande amor, espanto, alegria e humildade, pelo que dizemos, que é meditação tomar no entendimento algum mistério, e depois de considerar nele o literal, considera as circunstâncias, e tira alguns afectos de vontade. Porém quando o entendimento por discursos que tem feito, ou também porque o Senhor sem eles lhe deu particular luz, conhece claramente a verdade e fixa os olhos nela, e está vendo com quietação e sossego. sem ter necessidade de mais discursos para se convencer, e a vontade pelo conseguinte convencida da verdade que tem em vista, com alegria a está vendo, ou se está espantado dela, ou a está a amando, então está em contemplação. De modo que a meditação busca e a contemplação chega ao porto desejado, pelo que em chegando a ele hão de parar todos os discursos do entendimento aplicando a vontade ao que está amando, porque este amor é fruto da oração e contemplação. Nunca o contemplativo se tire desta quietação, por seguir os demais pontos, salvo quando vir que se torna a distrair, porque então pode ir avante com seus discursos.» p. 17.

Em seguida Frei Paulo de Vasconcelos escreve acerca «do que se deve fazer para adquirir esta quietação [contemplativa] e tirar de Deus um conceito» seguindo pseudo-Dionísio, que recomenda dois modos para se chegar a tal contemplação: o imaginativo, em que vai pondo em Deus em grau máximo todas as perfeições que vê no mundo, tais a bondade, a formosura, agregando-as num conceito altíssimo de Deus. E o negativo, no qual vê que Deus não é nem entendimento, nem sabedoria, nem poder nem luz, pondo a morada de Deus na luz inacessível, «não afirmando dele coisa alguma, não o chamando grande, senão infinito, não lhe chama perfeito, senão inefável, imenso, incompreensível...» 

Seguem-se as partes quinta e sexta finais da oração, que são a acção de graças, e a petição. Acrescenta ainda a oração de repetição, e  a oração da presença de Deus, sobre a qual desenvolverá a sua visão e compreensão da omnipresença de Deus, e como nós ao realizarmos-la mais poderemos entrar num estado de oração mais incessante ou permanente, tal como também Erasmo ensinava ou propunha, e que a voz da consciência e a música das esferas aludem. É num subcapítulo bem valioso, Também a presença de Deus é modo de oração, e que transcreveremos e comentaremos brevemente no próximo artigo, e que se inicia assim: 

 «É muito de advertir, que não é menos importante para a vida da alma a presença de Deus, do que para a vida do corpo a respiração, porque assim como não pode haver vida sem respiração, assim não havíamos de estar um instante sem a lembrança de Deus, e ainda que pareça dificultoso este exercício, com a Divina Graça vem a ser tão fácil, que muito mais dificultoso vem a ser o esquecer dele, do que ao princípio era a sua lembrança. (...) 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

O Silêncio como Deus ou guia iniciático na Doutrina Moral, de Gomberville. La Doctrine des Moeurs: qui represente en cent tableaux la différence des passions, et enseigne la manière de parvenir à la sagesse universelle.

Otto Vaenius..

Marin Le Roy Gomberville no seu ensinamento moral e espiritual, baseado no poeta Horácio (65 a 8 a. C.) e no humanista e pintor (mestre de Rubens) Otto Vaenius (1556-1629), gerou uma obra de sabedoria bastante valiosa, ainda pouco estudada e aprofundada. Ao acolher plena ou fortemente a tradição greco-romana, na linha Humanista, ao não inserir referências ao Cristianismo na sua Doutrina dos Costumes, em plena época de lutas entre cristãos e protestantes, e de hegemonia da Contra-Reforma, Gomberville escapa das limitações teológicas dogmáticas e propõe uma visão da religião como harmonia com a Natureza, a Humanidade e a Ordem e Ser Divino, e uma visão da filosofia como o estudo da natureza humana e a prática do auto-conhecimento e das virtudes, a fim de vencermos a ignorância e defeitos, e diminuirmos ou extinguirmos os vícios e assim desenvolvermos a luz e amor da nossa alma, pois é nesta luta e caminho criativos que se encontra ou destila a Sabedoria e a felicidade.
Abordámo
s já alguns aspectos da sua vida e da Doutrina Moral, nas suas edições e variantes, e neste breve estudo apresentamos apenas um dos seus emblemas ou divisas, com o mote e o epigrama provindos de Otto Vaenius e da sua Emblemata Horatiana, algo modificados como veremos, sendo sua a explicação ou narratio, sobre o Silêncio, a figura 29ª da I parte do seu livro, La Doctrine des Moeurs, Doutrina Moral.
                                                               

                                                      O Silêncio é a vida do Amor.

O silêncio é um bem supremo:
É a virtude do sábio e a dum amante:
Quem só fala raramente,
Jamais ofende a quem ama.

«É por vezes justo que o Amigo fale livremente  ao seu Amigo (a); Mas quase nunca acontece que o amigo fale livremente do seu amigo.
Se a pri
meira Lei do Amor é amar, e a segunda é ter boa opinião do seu amigo, a terceira é infalivelmente, como nos Mistérios dessas antigas Religiões, ver, desfrutar e calar. Porque nada é tão apropriado para conservar a amizade quanto esse silêncio respeitoso, que nos faz guardar no coração tudo o que sabemos dos nossos Amigos.
O Pintor representa-nos esta verdade pela figura do Deus do silêncio, que sempre mudo, e sempre Mestre de si, comanda todas as paixões que podem perturbar ou o repouso das almas ou a harmonia da perfeita Amiza
de.
Se ele tem As
as, é para testemunhar que ele toma de empréstimo ao Amor a  sua actividade, e que elevando-nos do afecto amoroso pelas criaturas àquele do Criador, ele pode levar  os nossos corações até ao Templo eterno, onde devemos tornar-nos verdadeiros Adoradores do verdadeiro Deus, o qual em todas as suas operações conserva um silêncio perpétuo, quero eu dizer, o repouso imutável da sua natureza bem-aventurada.»
                                           
 Creio ser este
 comentário, explicação ou hermenêutica dos mais elevados espiritualmente em todo o livrinho, um in-8º de 412 páginas, e nele Gomberville demonstra conhecer e valorizar a instituição pagã do Mistérios e a iniciação que neles era facultada.
Primeiro, já pela pictura, desenhada por Otto Vaenius,  representando o Deus do silêncio, Harpócrates, no seu gesto iniciático: é no silêncio que ouvimos, seja interiormente seja exteriormente, e é guardando o silêncio que o recebido ou realizado não é menosprezado, diminuído ou mesmo atacado, antes se meditado melhor é assimilado, e sendo só transmitido posteriormente a quem
  o merece receber e até dialogar.
Segundo, pelas regras tradicionais
: "Saber, querer, ousar, calar", afirmaram alguns. Ou "contemplar, maravilhar-se e calar-se". Tal era a regra do silêncio a que os iniciados nos Mistérios de muitas religiões e tradições estavam obrigados: não deviam  revelar os ensinamentos, visões e experiências. Os ensinamentos mais elevados dos mistérios de Elêusis, por exemplo, seja do que se lhes dizia ou contemplavam nos ritos, meditações e iniciação, ainda hoje apenas se suspeita que seria isto e aquilo...
Silêncio que nos permite conservar as energias e intuições no coração e aí nos fortificarmos, elevarmos, harmonizarmos, unirmos com o que amamos, ou com quem amamos.
Silêncio sobre nós próprios, enquanto c
ompostos de corpo, alma e espírito, e portanto necessitando de  tentarmos controlar a agitação mental ou, mais basicamente, instintos, desejos, receios, que perturbam a harmonia, e que no fundo são barulhos na nossa aura e mundos interiores, e que não nos permitem aceder aos mundos espirituais, ou mesmo ouvir a voz interna ou até a música das esferas.
Silêncio que cala a horizontalidade e nos verticaliza para o espírito, para a anima mundi, para o Bem geral, para o Logos, para Deus. 

O Anjo-daimon-deus do silêncio, neste sentidos,  tem o dedo indicador vertical sobre a boca, cerrando-a ou fazendo a cruz nela, crucificando o Verbo, revertendo-o para o mundo interior ou espiritual. E tem na sua mão um estandarte bem erguido, com as famosas iniciais SPQR, Senatus PopulusQue Romanus, Senado e Povo Romano, que no fundo direcionam para a tenção ou talento de bem fazer pelo povo e o Estado. 

Acrescente-se que na edição transformada da Doutrine des Moeurs, de Gomberville, com modificações de 1672  sob o nome de Le Theatre Moral de la vie Humaine,  e de Theatro Moral de toda la Philosophia de los Antiguos y Modernos,  editadas pelo erudito tipógrafo François Foppens, em Bruxelas, só a imagem se conserva semelhante mas mais perfeita, pois houve grandes modificações no mote, que passa a ser - Nada mais proveitoso que o Silêncio -,  epigramas e as explicações (segundo François Foppens, redigidas por um notável cavaleiro espanhol nascido em 1603 que se quis manter anónimo),  bastante mais detalhadas dos emblemas gravados (pois também a dimensão é a de um in-fólio), e iniciando-se neste emblema pela explicitação de que «No Templo de Ysis e Serapion, adoravam os antigos, com suma reverência,  a imagem de Harpocrates, por Deus do Silêncio, (...) sentado entre o vinho e a ira...»
                                      
Quanto às asas do Anjo
-daimon-deus Harpócrates, acrescentaremos nós, indicarem  a  aspiração amorosa ou unitiva intensificando a sublimação e subida das nossas energias anímicas, tornando-as capazes de harmonizar a agitação mental e elevar-nos do mundo terreno ao espiritual e estabilizar ais na luz, amor e paz, de tal que modo conseguimos meditar, reverenciar, adorar ou mesmo contemplar os seres celestiais, o Espírito santo, a Divindade.
A parte final da explicação ou narratio de Gomberville é perfeita, como um hino ao Amor que pelo silêncio nos dá asas e eleva à Fonte. É uma explicação pitagórica ou platónica a que nos é oferecida por Marin, ou Martin, Le Roy de Gomberville.
Há mesmo algo da linguagem das nossas
sorores e místicas cristãs mais extáticas, quanto às asas, no anjo e no silêncio em nós   impulsionarem ou levarem  «os nossos corações até ao Templo eterno, onde devemos tornar-nos verdadeiros Adoradores do verdadeiro Deus».
Inegavelm
ente uma bem elevada realização:  conseguirmos entrar no Templo eterno, sermos pedras ou colunas nele, na adoração da Divindade, e numa compreensão de grande profundidade e altitude, religando a terra e céus, ou mundos subtis e espirituais.
Marin Le Roy
 de Gomberville conclui, com grande sabedoria e originalidade numa visão da natureza de inefável beatitude espiritual do «verdadeiro Deus que em todas as suas operações conserva um silêncio perpétuo, quero eu dizer o repouso imutável da sua natureza bem-aventurada».
                                                 
Possam Horácio, Otto Vaenius, Marin le Roy de
 Gomberville e os seus associados desfrutar da natureza bem-aventurada divina, e inspirar-nos nela, tal como aos vários amigos que nos últimos tempos têm partido para os mundos subtis e espirituais, e que saudamos na Luz, Amor e Silêncio, com seus anjos da guarda no coração iniciados, elevados.  

domingo, 18 de janeiro de 2026

Gomberville. Quadras e motes da "Doutrina dos Costumes". Com video. Acerca do caminho da realização da Sabedoria e da Virtude.

Continuando a trabalhar Marin Le Roy de Gomberville (1600-1674) e a sua Doutrina dos Costumes ou Doutrina Moral, baseada na Emblemata Horatiana, do pintor e humanista flamengo Otto Vaenius (1556-1629), publicada em Paris pela primeira vez em 1646, a que se seguiram várias edições e traduções (acessíveis hoje no Internet Archive),  eis alguns epigramas ou quadras traduzidas do francês contendo ensinamentos valiosos do caminho da realização da Sabedoria e da Virtude. No fim, num vídeo, encontra a leitura de algumas explicações e quadras sobre o Amor, comentadas por mim.
                                                  
3ª f
igura, mote: O Alimento consegue tudo, e a quadra : 

«Mama com o leite este nobre sentimento, 
Que o amor das Virtudes dá às almas bem nascidas:
Nossos corações são vasos que guardam constantemente
os primeiros aromas que lhes são dados.

A virtude pressupõe a pureza da Alma.

Reformemos a nossa vida: aperfeiçoemos nossos pensamentos,
para que as virtudes se deliciem nos nossos corações.
Estas essências do Céu, como outros licores,
Tomam o gosto do vaso onde foram vertidas.


6ª  A Virtude pressupõe a acção.

É preciso agir incessantemente,
E manter a alma em exercício:
Pois só pela acção  
A Virtude difere do Vício.

Quem não começa, nada conseguirá realizar.

Corre atrás dos trabalhos onde a Virtude te chama, 
Supera constantemente toda a dificuldade.
Quando um coração generoso adora uma beleza,
Há algum tormento que ele não sofra por ela?

Correndo chega-se ao fim.

Foge da Volúpia os atractivos criminosos,
sofre o fogo do Sol e os gelos da Ursa polar,
Se queres adquirir os tesouros eternos,
que os Deuses prometeram como prémio da tua corrida.

9ª  A Virtude foge dos excessos.

Nos extremos  o homem sempre se perde,
O Avarento e o Pródigo têm o mesmo defeito.
Caminha como deves:
Jamais  o louco Ícaro teria caído tão baixo,
se não
tivesse voado tão alto.

11ª A Natureza regula os nossos desejos.

As leis que regulam os nossos prazeres.
Não são leis desumanas,
A natureza e o céu não limitam os nossos desejos,
Senão pelo receio de aumentar as nossas dores.

12ª  Para detestar o vício, é preciso conhecê-lo.

Quanto mais o vício é horrível,
 Mais atractivos tem: vai sempre de máscara e tudo finge.
Assim é nas rochas que não aparecem 
 Que o nauta se engana, e a barca se quebra.

13ª O Estudo da Virtude é o fim do Homem.

Desprendei os vossos espíritos do temor e esperança, 
Permiti que a Virtude vos devolva a razão:
É insensato o Escravo que teme a libertação,
E é louco o Doente que odeia a sua cura.

14ª figura. Em qualquer condição pode-se ser feliz. 

Em todos os lugares a Virtude se encontra;
Cada um pode ouvir a sua voz:
E bem frequentemente descobre-se-a
assim entre os ruídos do Louvre,
tal como ela está no silêncio dos Bosques.

24ª O Amor dos povos é a força dos Estados.

Artesãos insensatos de discórdias civis,
Não acuseis o Céu das vossas calamidades:
Vossos ódios, vossas conspirações, vossas parcialidades,
São os primeiros Tiranos que desolam as vossas Cidades.

26ª O Amigo não vê o defeito do Amigo.

O Amor usa uma venda, só o parecido a si-mesmo.
Não vemos através dela nada que não seja belo.
Quem quiser amar, deve usar esta venda,
E achar tudo perfeito na coisa que ama.


31ª A Temperança é o supremo bem.

Ó Temperança heróica e santa,
Quem te acolher no seu coração;
Pode-se afirmar que é vencedora 
Da esperança e do receio.»

                           

sábado, 17 de janeiro de 2026

O Amor e a Amizade como estados de dádiva, aperfeiçoamento, união, sabedoria, felicidade. Os ensinamentos de Marin Le Roy Gomberville.

 Já partilhamos em dois artigos as máximas, mottos ou ditos da obra A Doutrina Moral ou dos Costumes, no original La Doctrine des Moeurs, tiree de la Philosophie des Stoiques,  en cent tableaux et expliqvee en cent discovrs pour l'instruction de la ieunesse, publicada em Paris em 1646 por Marin Le Roy Gomberville e reimpressa em 1683 sob o título La Doctrine des Moevrs, qui represente en cent tableavx la différence des passions: et enseigne la manière de parvenir à la sagesse universelle,  que contém na sua  I Parte sessenta figuras, e  na II Parte quarenta e três,, valiosas de serem contempladas, cada uma delas com o seu mote ou lema,  o epigrama ou quadra e  por fim a explicação ou comentário, igualmente dignos de serem lidos e meditados por quem quer trilhar melhor o caminho da Sabedoria humana e Divina.
                                         
 
Foi um manual de virtus et sapientia para muitos, dinamizando o discernimento do bem e do mal, a virtude e o vício, sem excessos de atemorizações ou rigores e com observações valiosas psico-espirituais. Também os títulos debaixo das imagem - motes, ditos ou lemas -, e depois os epigramas ou quadras em verso eram facilmente assimiláveis na alma, na sua tão importante faculdade retentiva, a memória, a que se seguia o breve texto explicativo, a narratio, de página e meia da autoria plena de Gomberville, já que motes e epigramas tiveram diferentes autores e Gomberville apenas os modificou ou mesmo simplificou.
                                        
Na verdade, tanto os mo
tes e os epigramas, como as figuras ou emblemas,  vinham da obra de Otto Vaenius intitulada Quinti Horatii Flacci  Emblemata imaginibus, in æs incis, notisq́; illustrata, publicada em 1607,  1612 e anos seguintes,  conhecida também por Emblemata Horatiana,  estando constituída por emblemas inspirados sobretudo na obra do poeta e filósofo romano Horácio (65 a 8 a. C.). Com as sucessivas edições e traduções, outros gravadores e editores entraram em acção e a qualidade e os pormenores das imagens oscilaram. As edições impressas por Francisco Foppens, em Bruxelas, são das melhores. As francesas de Gomberville, impressas por Pierre Daret em 1646 e por Jacques le Grass em 1688 ressentem-se de serem em tamanho  in-8º ou de 16 cm, sendo as primeiras de Pierre Daret  mais nítidas ou melhores, mas mesmo assim inferiores às primordiais de Otto Vaenius, ou Otto van Veen (1556-1629), como podemos observar:
                                              
Vamos neste
 artigo apresentar um resumo ou breve hermenêutica de dez motes e suas narratio ou explicações contidos na I Parte do livro, respeitantes ao Amor, nas suas indicações mais originais  ou valiosas:
- O Homem nasceu para amar. -
- Amando, tornamo-nos perfeitos.
- É preciso amar para ser amado.
- O amor dos Povos é a força dos Estados.
- A verdadeira amizade é desinteressada.
- O amigo não vê o defeito do amigo.
- Respeita o teu amigo e cuida de ti. -
- O Silêncio é a vida do Amor.
- A inveja é a morte do amor.
- Quem tem o necessário, não tem nada a desejar.
                                           
1º mote
O homem nasceu para amartem esta quadra boa: 

 O Amor anima das suas chamas,
Todos os que são dignos da luz do dia
As pessoas que não têm amor
São corpos que vivem sem almas. 

Na explicação, Marin Le Roy de Gomberville  considera o Amor como fogo animador nosso, e diz-nos que temos todos uma mesma Mãe ou fonte Divina, estando no nosso coração gravado pelo dedo da Natureza o amor a Deus e ao próximo e logo as suas consequências fraternas: sentir os outros com mais amor, como amigos, pois só assim poderemos sentir a felicidade recíproca e a sintonia divina. 
 No 2º dito ou mote, Amando, tornamo-nos perfeitos Marin de Gomberville explica que na verdadeira amizade ou amor os defeitos de cada um devem ser iluminados, ajudados ou amados pelo outro, para que haja conversão gradual das imperfeições e vícios, em virtudes que geram "o acordo harmonioso, que é o laço indissolúvel das almas."
 No mote ou mantra 3º, bem desafiante, ígneo mesmo, É preciso amar para ser amado, Gomberville volta à necessidade de suportarmos e apreciarmos os temperamentos, inclinações, gostos e qualidades dos outros diferentes ou contrários aos nossos, para  nos completarmos na amizade, tal como vemos no caçador e o tocador de lira.
O 4º mote, O amor dos Povos é a força dos Estados, tal como a explicação, são actualíssimos, nesta relembrando que se os povos estão unidos entre si afectivamente,  tanto horizontalmente como verticalmente, não podem ser presas ou vítimas dos estrangeiros. Ora vemos como tais divisões destruíram alguns países e como outros, mais martirizados e resilientes, se uniram e vão conseguindo vencer os cobiçosos e traiçoeiros inimigos. Os casos da Síria e do Irão. E mesmo em parte a Venezuela ou Cuba.
 O 5º mote.  
A verdadeira amizade é desinteressadacontém tanto um belo verso, ("O lucro é o objecto da amizade vulgar,/ Mas um coração grande e nobre ama sem interesse, /E creio que o Amor, sendo Deus tal como ele é,/ Não é usurário nem mercenário), como uma ainda boa explicação, onde realça ser uma infâmia ter interesses em vista, ou ser comerciada ou comprada, a amizade, pois só o amor compra ou merece o amor. 
O 6º mote O amigo não vê o defeito do amigotem uma quadra de grande sabedoria e que eu já glosei há uns anos (tal como encontra no blogue) numa exposição de pintura e textos na galeria Novo Século do Carlos Barroco e da Nadia Bagioli, intitulada o Amor é cego, pois só com essa venda é que vemos tudo perfeito no ser ou coisa amada.
 O 7º lema  Respeita o teu amigo e cuida de tirelembra como é mal vermos tantos defeitos nos outros e sermos cegos para os nossos. E existir tal hipercriticismo para com os amigos ainda é pior. Saibamos lavar os olhos e a alma com a humildade, a modéstia,  junto ao auto-conhecimento da nossa condição peregrina e frágil.
O 8º mote, que é a 28ª figura no livro,   O Silêncio é a vida do Amor, e do qual transcrevemos o epigrama no 1º artigo do blogue sobre a busca da Sabedoria em Gomberville, é explicado em alguns sentidos, tal o de se falar o menos possível das nossas amizades a outras pessoas para não ofendermos ninguém. Aduzindo as três leis do Amor, a primeira de amar, a segunda ter uma boa opinião do seu amigo ou amiga, a terceira o respeitoso silêncio de guardar no coração tudo o que sabemos dele ou dela, cita a regra do silêncio nos Mistérios das Religiões antigas, introduzindo assim na sua obra uma menção expressa à iniciação e à Theologia Perennis. Transcreveremos brevemente toda a explicação. https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2026/01/o-silencio-como-deus-ou-daimon.html
O  9º mote ou dito  A Inveja é a morte do Amor, é simples pois aponta apenas à inveja dos bens ou da prosperidade dos outros, considerando a sua representação como serpentes saindo dos cabelos muito adequada.
                                       
O 10º mote e final desta série que selecionamos, diz-nos Quem tem o necessário, não tem nada a desejar, e nele Marin Le Roy Gomberville, depois de relembrar que o sofrimento faz metade da virtude, e que a outra consiste na abstinência, explica minuciosamente o simbolismo do desenho, algo que aliás faz em todas as explicações das figuras enaltecendo sempre os artistas desenhadores (e vários foram ao longo das edições, tais P. Daret, C. Boel, C. Galle, P. de Jode, A Clouzier),  no qual vemos o sábio contentando-se com água da fonte (que algo iniciaticamente lhe é servida por um anjo, génio ou subtil espírito)  e, ao longe, um homem que, desmedido na sua hubris ou ambição, acaba por ser levado por uma corrente. Quem não pensará em alguns dirigentes políticos?  Ora se nos contentarmos com pouco ou menos, conservaremos a vida física e moral, a cordialidade com os vizinhos e a relação divina. No fundo, implicitamente, diz que quem está no caminho espiritual ou da Sabedoria deve estar contente e muito grato ou em amor pelo que a vida e Deus lhe dão, nos dão... Demos graças... Amen....
 Concluamos com um emblema onde Nemésis, tão necessária nos nossos dias de tanta hubris política, expulsa as forças inimigas que tentam com riquezas corromper a Virtude, com um mote que invoca ainda o Amor abordado nos dez anteriores, e meditemo-lo bem: "Ama a Virtude, pelo amor dela mesma, " e recebamos o início da hermenêutica guerreira de Martin Le Roy de Gomberville: Não podemos ignorar que a Virtude não é Virtude, se ela não age, se ela não combate e se mal-grado o grande número de inimigos pelos quais é atacada, ela não permanecesse victoriosa!
                     Virtus, Sapientia et Amor omnia vincunt! 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Marin Le Roy Gomberville e a sua Doutrina dos Costumes. II Parte. Um tratado de Sabedoria em cem figuras, seiscentista.

Frontispício da 1ª edição.

    A Doutrina Moral ou dos Costumes, aliás La Doctrine des Moeurs: qui represente en cent tableaux la différence des passions, et enseigne la manière de parvenir à la sagesse universelle, publicada desde 1646 (e então com o subtítulo tiree de la philosophie des stoiques) por Marin Le Roy Gomberville, já abordada nas sessenta figuras e motes da sua  I parte, contém  na II parte, sob as gravuras ou figuras, quarenta e três motes ou lemas valiosos de serem meditados por quem quer trilhar caminho da Sabedoria humana e divina.
                                        
Embora o fi
m da obra seja aparentemente algo "negativo", pois muitas das figuras e motes finais sejam sobre a Morte, dentro do princípio de que Filosofar é aprender a morrer, - pelo desprender-se dos bens, dos desejos, da necessidade e assim conseguir libertar-se dos laços terrenos, seja ainda em vida e nas suas meditações, seja à hora da morte, para não se ficar retido nos planos subtis do umbral e do astral menos luminoso -,  há vários ensinamentos bem valiosos tanto pelos emblemas, como pelos motes, epigramas e texto explicativo ou hermenêutico. O que destacaremos mais no seu todo?
- O valor duma boa consciência limpa e tranquila, e logo confiante, destemida, imperturbável. A vida sóbria ou tempera
nte, os estudos e esforços pelas virtudes, equilibrados por sentimentos sãos e cordial disposição, geram a sabedoria, a qual dá frutos perenes. 

 Registe-se que  Marin le Roy de Gomberville, transcrevendo Otto Vaenius, na II Parte não utilizou a palavra Amor, só desenvolvida ou valorizada em 12 ou 10 motes na I Parte, ainda que bem importantes, tal o "Ama a Virtude (ou se quisermos a Sabedoria) pelo amor a ela". "O ser humano nasceu para amar". "Ao amar uma pessoa torna-se perfeita", "é preciso amar para ser amado". "O Amor dos povos é a força dos Estados" (como falham hoje tanto os governos, só amando os "seus" companheiros na governança). "A inveja é a morte do Amor". Nesta II Parte  valoriza mais o estudo, o esforço, o vencer os sofrimentos, o desenvolver a tranquilidade de consciência, o desprendimento perante a morte e a confiança na  consciência justa nossa e de Deus. Leiamos então o conjunto dos quarenta e três motes da II Parte, ficando para outra vez a transcrição de algumas das explicações morais de Marin Le Roy Gomberville:
                                       
Cada um deve seguir a sua inclinação.
O tolo queixa-se sempre da sua condição.
Todos os nossos defeitos têm o seu pretexto.
Quem vive bem, viaja feliz.
O estudo das Letras é a felicidade do homem.
A preguiça é a mãe dos vícios.

Só o sábio é livre. 
O sábio é inabalável. 
A pessoa de bem estar em toda está parte segura.
Quem sofre muito, ganha muito. 
A boa consciência é invencível. 
Quem vive bem, não esconde nada a sua vida. 
A Virtude tem em toda pa
rte a sua recompensa.
A eternidade é o fruto dos nossos estudos.
A virtude torna-nos imortais.


 O espírito precisa de repouso.
O sábio não está sempre séri
o.


A alegria faz parte da Sabedoria.
O Sábio ri quando deve rir.
A Virtude é objecto de inveja.
A inveja só cede à Morte.
A Virtude triunfa de todos os seus inimigos. 
Nada dura assim que tudo dura.
Todos os Séculos tiveram seus vícios. 
É preciso acomodar-se ao tempo.
Não lamentes o tempo passado.
Não há nada de tão curto que a vida.
Tudo se perde, com o Tempo.


 Filosofar, é aprender a morrer. 
A Velhice tem os seus prazeres. 
Não te informes do futuro.
A Morte é inevitável. 
Vivamos sem temer a Morte.
O Velho não deve pensar senão morrer. 
Não há providência contra a Morte.
A Morte despoja-nos de todas as coisas.
A Morte iguala-nos a todos.
Nada de mais certo quanto a Morte.
O caminho da Morte é comum a todos. 


A Morte inexorável.
O Homem não é mais do que um pouco de lama.
A Morte é o fim de todas coisas.»