S. Catarina de Ricci (1522-1590) foi uma das notáveis místicas do séc. XVI, e teve na sua época, desde muito jovem, grande impacto em Florença e até Itália, pela sua comunhão com o mestre Jesus que sentia extaticamente todos os anos na época da Páscoa, no que foi minuciosamente esquadrinhada pelos teológos e padres dominicanos e do Papa, que se submeterem à sua genuinidade, pureza, sabedoria e inspiração dos santos e do Espírito Santo. Atraiu assim muita gente para a ver durante esse doze anos da vivência compassiva da Paixão gerando frequentemente conversões ou então filhos espirituais, tarefa para a qual tinha grande dedicação, abnegação, além de clarividência, restando muitas cartas dos conselhos dados enquanto orientava com perfeição o mosteiro cheio de sorores onde professara aos 16 anos, e dirigiu como prioresa mais de quarenta anos.
Os estados expandidos de consciência unitiva, ou extáticos, com Jesus aquando das celebrações da Paixão e muitas outras vivências de amor e de luz divina, que frequentemente a tornavam absorta e resplandescente, ocorriam aquando da comunhão, ou da adoração do santíssimo, ou orando a sós ou no coro, e sobretudo na contemplação de uma imagem de Jesus, que por vezes lhe falava intimamente.

Como se podem descrever tais estados de amor, e discernir as causas não é fácil, e como ela sempre foi de grande humildade e só quando foi obrigada pelo confessor é que disse ou se registou o que vivenciava, anda por cima pouco antes de morrer procurou muitos desses papéis e relações, de outras sorores suas companheiras até, e as deu a queimar à irmã cozinheira, não nos chegou tanta informação e teorização. Mesmo assim escaparam alguns papéis e relatos, pois o sacerdote que mais a acompanhou nos últimos anos escreveu a sua vida. E, claro, muita correspondência por vezes bem valiosa.

S. Catarina de Ricci não se tornou como Santa Teresa de Jesus, ou de Ávila, uma psicóloga profunda dos estados de amor com Jesus e com Deus, uma doutora da Igreja, porque os seus dons e missão foram diferentes, e se entregou ao aconselhamento de muita gente por cartas, enquanto simultaneamente defendia a boa sobrevivência do seu convento e animava e aconselhava as cerca de 200 freiras do seu convento como suas filhas. Uma tarefa hercúlea.

Como se podem descrever tais estados de amor, e discernir as causas não é fácil, e como ela sempre foi de grande humildade e só quando foi obrigada pelo confessor é que disse ou se registou o que vivenciava, anda por cima pouco antes de morrer procurou muitos desses papéis e relações, de outras sorores suas companheiras até, e as deu a queimar à irmã cozinheira, não nos chegou tanta informação e teorização. Mesmo assim escaparam alguns papéis e relatos, pois o sacerdote que mais a acompanhou nos últimos anos escreveu a sua vida. E, claro, muita correspondência por vezes bem valiosa.

S. Catarina de Ricci não se tornou como Santa Teresa de Jesus, ou de Ávila, uma psicóloga profunda dos estados de amor com Jesus e com Deus, uma doutora da Igreja, porque os seus dons e missão foram diferentes, e se entregou ao aconselhamento de muita gente por cartas, enquanto simultaneamente defendia a boa sobrevivência do seu convento e animava e aconselhava as cerca de 200 freiras do seu convento como suas filhas. Uma tarefa hercúlea.
Já publicámos: https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2025/12/s-catarina-de-ricci-e-os-anjos.html , e o que agora transcrevemos não é de escritos directos dela mas duma boa aproximação ao fogo do Amor divino em S. Catarina de Ricci, realizada com grande sensibilidade pelo anónimo autor português do Epitome da Portentosa vida, e milagres de Santa Catharina de Riccis, Florentina aquando da sua canonização em Roma e do oitavário festivo iniciado no Rossio de Lisboa, a 13 de Agosto de 1747.
«...Completo o ano da aprovação, que tão ansiosamente desejava, fez solene Profissão, na qual, deixando o nome de Alexandra, tomou o de Catarina: e confirmada no recebido Instituto de mais santa vida, se aplicou com todo o alento à prática de religiosas virtudes; não podendo explicar-se com quanta actividade pretendeu competir com aquelas gloriosas Virgens, de que tanto abunda ilustrada com suas acções a Ordem dos Pregadores, tirando desta virtuosa, e louvável emulação, até consigo mesma praticada, o desejo de ser melhor, e mais perfeita: cuidadosa, de que aquela ardente chama de amor Divino, em que se via inflamada, embaraçada com os terrenos desvelos, se não extinguisse, não consentia, que em sua presença se falasse mais que de Deus, e que tudo se dirigisse para sua glória, meditando na sua Clemência, Justiça, Sabedoria, Fermosura, Omnipotência.
Nesta meditação sucedia, que nem ela mesma se podia separar de Deus, ainda entre as exteriores, e precisas [ou necessárias] ocupações da Comunidade. Tudo quanto trazia diante dos olhos, quanto ouvia, e quanto finalmente tocavam seus sentidos, era uma doce violência para Deus, como gostoso centro centro de seus afectos, ministrada matéria, com que aquele ateado fogo, que lhe inflamava o coração, respirava imenso incêndio, servindo-lhe a tanto ardor de desafogo os suspiros, acompanhados em dilatado pranto.
Nesta meditação sucedia, que nem ela mesma se podia separar de Deus, ainda entre as exteriores, e precisas [ou necessárias] ocupações da Comunidade. Tudo quanto trazia diante dos olhos, quanto ouvia, e quanto finalmente tocavam seus sentidos, era uma doce violência para Deus, como gostoso centro centro de seus afectos, ministrada matéria, com que aquele ateado fogo, que lhe inflamava o coração, respirava imenso incêndio, servindo-lhe a tanto ardor de desafogo os suspiros, acompanhados em dilatado pranto.
Daqui nasciam aquelas contínuas vozes, e frequentes gemidos, com que pretendia exalar aquele incêndio, que lhe abrasava o coração;
deste amor nascia a falta de corporais forças, e tão continuados
delíquios, com que continuamente ferida desfalecia. As frequentes
protestações, que de sua indignidade fazia, eram chamas de Divino fogo,
que de nenhuma sorte se podiam executar, sem que nelas se não visse
vacilante a vida: aqueles abundantes gostos de sua alegre Alma, e
Celestiais delícias, que não cabendo nos estreitos espaços do seu
namorado peito, lhe saiam em resplandores ao rosto: aqueles admiráveis êxtases, com os quais, elevada nos ares por muitos dias sem sentidos,
conversava com o seu Divino Esposo cercada toda de luzes: aquela luz
Celeste, espécie de uma ardente chama, que dos olhos e boca lhe saia,
quando meditava os dolorosos Mistérios da Paixão de seu amado Esposo, ou
o recebia sacramentado. Finalmente aquelas fervorosas exortações, mais
penetrantes, que o agudo ferro, com que muitas vezes extática persuadia
inexplicáveis excelências de seu Esposo, com tanta eficácia, que
excitava incêndios, ainda em corações de pedra»
Numa breve hermenêutica sobreposta em termos espirituais, destaquemos 1º a ardente chama de amor Divino, em que se inflamava, e que pelos terrenos assuntos se não devia extinguir., algo importante nela tanto no mundo, mas não apegada a ele e numa via de simplicidade e pobreza.
2º Tentativa de dar Glória ou Luz ou claridade entre nós e nela, à Divindade, meditando nas Suas qualidades ou virtudes, tais a Clemência, Justiça, Sabedoria, Fermosura, Omnipotência, inegavelmente bons temas de concentração meditação, assimilação.
3º Capacidade de tudo o que entrava nos seus sentidos, servir de arrebatamento grato e doce para Deus, o centro de seus afectos ou aspirações, pois a toda essa matéria formas e seres do mundo, o seu coração inflamado por Deus ateava tal fogo que ela respirava, suspirava, gemia, chorava, irradiava..
4º O incêndio de amor, que lhe abrasava o coração eram chamas de Divino fogo, e era tal a intensidade desse seu amor a Deus que muita luz e calor saiam do espírito e da alma pelo corpo e olhos, resplandescendo e elevando-se, mas por vezes também a prostrando ou fazendo desfalecer, nomeadamente ainda pelos jejuns e austeridades fortes.
5º Nos estados mais unitivos e elevados de Amor a Deus ou ainda de ligação a Jesus, frequentemente o discernimento clarividente do espírito de cada alma que a rodeava ou consultava manifestava-se e sabia transmitir fervorosas penetrantes e persuasivas exortações, ressuscitando corações insensíveis, iluminando almas e religando-as mais ao Espírito Divino.
Que Santa Catarina Ricci e o Amor a, e de Deus, a todos nos inspirem, fortifiquem e iluminem, nomeadamente aos nossos amigos e amigas bem espirituais que muito recentemente partiram para o além: a artista, classicista e pedagoga Sandra Pinheiro e os médicos sábios e dedicados Artur Morais Vaz e ontem-hoje José Francisco de Noronha, um primo historiador, ginecologista e genealogista de grande valor, e que nos uniu a muitos, frequentemente em brilhantes luminosas conversas á volta da História, dos antepassados, da Índia. Que eles estejam cada vez mais activos nos seus corpo de luz e de glória no corpo místico e crístico da Humanidade.


2 comentários:
Que assim seja, carissimi amicum, Pedro. Pax e lux para os amigos e familiares e que todas estas vidas nos inspirem no caminho do bem.
Graças muitas. Sim, isso mesmo. Muita virtude luminosa e amorosa neles e em nós.
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