quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

Frei Paulo de Vasconcelos: a Consciência da Presença de Deus é um modo de oração. Das jaculatórias. Venha a nós a Vossa Luz. Extractos da sua "Arte espiritual."


 Frei Paulo de Vasconcelos, mestre prior da Ordem de Cristo, na sua Arte espiritual, dada à luz em 1649, e reimpressa em 1725,  já abordada num primeiro artigo, num sub-capítulo valioso  partilhou a sua visão e compreensão da omnipresença de Deus, e do estado de oração permanente que tal realização permite, o que para nós nestes tempos agitados é bem fecundante. Intitula-se Também a presença de Deus é modo de oração.

 «É muito de advertir, que não é menos importante para a vida da alma a presença de Deus, do que para a vida do corpo a respiração, porque assim como não pode haver vida sem respiração, assim não havíamos de estar um instante sem a lembrança de Deus , e ainda que pareça dificultoso este exercício, com a Divina Graça vem a ser tão fácil, que muito mais dificultoso vem a ser o esquecer dele, do que ao princípio era a sua lembrança.
E se há-de adv
ertir, que a presença de Deus é de dois modos, um é a presença de Deus intelectual, e outro o imaginário. O do entendimento não é outra coisa senão abrir os olhos da razão, e advertir que temos a Deus presente no íntimo de nossa alma, e isto é tanto assim, que não só na alma, senão também o está na mais vil, e desprezada coisa que há no mundo, dando-lhe o ser que tem, de modo que havemos de considerar a Deus como uma densa névoa, de que todo o mundo está cheio, e a nós no meio dela cerrados de todas as partes, ou como uma esponja metida no ar, que não só está cercada de água, senão que também a tem dentro em si, ou como o ferro, abrazado, que não está cercado de fogo, senão que por todas as partes o tem estranhado e metido em si. E deste modo podemos sempre trazer a Deus presente, abrindo os olhos da razão, e considerando a Deus em todas as coisas criadas, dando-lhe o ser que tem, e obrando em todas como primeira causa, que é de todas, e assim para qualquer parte que olharmos, temos motivos e ocasião de nos lembrarmos de Deus, e de o termos presente, e de sempre o andarmos louvando, tendo sempre respeito a quem está nelas (...)

A presença de Deus imaginaria é formar dentro de nós com a imaginação uma imagem de Cristo Nosso Senhor nascido, circuncidado, açoitado, ou de qualquer outro modo, que mais no incitar a devoção, e esta havemos de representar ao entendimento, e traze-la sempre diante de nós, como se na realidade o estivera, e com ela havemos de andar falando, representando nossas necessidades, queixando-nos de nossos males, dando-lhe graças pelas mercês recebidas, pedindo-lhe perdão pelos pecados, alegrando-se com ela. doendo-se das suas dores (...)

Também servem para a oração o uso das jaculatórias, que é o que acompanha a presença de Deus; estas são umas palavras amorosas, ou aspirações com que o coração se levanta Deus, e são uns afectos da vontade afervorados, com que os contemplativos mostram o desejo que tem de servir, e contentar a Deus; e dá-se-lhe o nome de jaculatórias, porque podem tanto com Deus como se fossem armas de arremesso, que atravessam o coração de Deus, estas pode cada um formar conforme sua devoção, e necessidade, a saber: Senhor meu, quem nunca vos ofendera; Que padecera antes as penas do Inferno, que ter-vos ofendido. Deus meu, alumiai-me, tende misericórdia. Estas e outras semelhantes forme cada um conforme a sua devoção, e estas deve de ter na memória, para que na oração, e fora dele use muitas vezes delas no exercício da presença de Deus, e não deixe de as dizer por indevoção, nem por se ver levado com pecados, porque elas bastam para livrar de todos, e para afervorar a devoção, e não se deixe este exercício, posto que divirta milhares de vezes em cada hora, porque quando menos o cuidar, vira Deus com sua luz.»

                                   "Venha a nós a vossa Luz...."









terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Mestres espirituais da Ordem de Cristo e os ensinamentos de meditação: Frei Paulo de Vasconcelos, de Aveloso, Lamego. Extractos da sua "Arte espiritual."

Frei Paulo de Vasconcelos foi um dos mestres espirituais da Ordem Cristo, natural de Aveloso, Lamego e que professou no Convento de Tomar em 8 de Setembro de 1587, exercendo sucessivamente importantes posições no convento, no colégio de Coimbra, onde foi Prior tal como no Convento de N. Senhora da Luz em Lisboa, e por fim  Prior Geral da Ordem ao ser eleito a 22 de Maio de 1647, vindo a deixar a Terra no convento de Tomar a 29 de Junho de 1654. Embora tivesse deixado manuscritos importantes sobre a Ordem de Cristo e um Tratado da Oração, só sobreviveu  a Arte espiritual que ensina o que he necessario para a meditação, e contemplação, repartida nas tres vias, purgativa, illuminativa & unitiva; o tempo em que se há-de entrar, e deixar cada uma delas com seus particulares exercícios, e o de cada dia..., impressa em Lisboa, em 1649,  e na qual encontramos ensinamentos bem valiosos sobre a oração, a meditação, as potencias e qualidades da alma activas no caminho espiritual, os estágios de purificação, iluminação, amor e união. Escreve dentro da tradição da Ordem de Cristo e da Cristandade e dos seus subtis ou ardentes místicos e místicas que cita (dos quais cita o pseudo-Dionísio, Dionísio Cartusiano e Santa Teresa de Ávila, de quem comenta no fim algumas advertências), e dos quais era um bom conhecedor, iniciador e transmissor, como mestre de noviços. 

                                          

É certo que a obra  ressente-se por vezes da cosmovisão do Antigo Testamento, que cita no livro a par do Novo Testamento, embora este seja muito mais privilegiado natural e acertadamente, já que o Antigo Testamento está cheio de fábulas demasiado exageradas e violentas. Tal podemos observar, por exemplo, nas suas considerações sobre os Anjos, por vezes bem valiosas, outras absurdas ao aceitar a literalidade dos textos referentes aos anjos do Antigo Testamento. Todavia, são muito mais as páginas de ensinamentos valiosos e correctos.
                                       
A obr
a teve uma segunda edição em 1725, o que prova o reconhecimento público do seu valor no discernimento subtil dos estados meditativos, amorosos, contemplativos, que conhece por experiência interior e não só por leitura e especulação, e que transmite com grande profundidade e clareza. Estamos diante dum verdadeiro e valioso Tratado da Oração Mental, ou Arte espiritual, tal como ele põe como cabeçalho da obra, na primeira página, com lições bem úteis para a via purgativa-iluminativa, aquela na qual devemos mais tentar e perseverar nestes nossos dias tão agitados e absorventes do mundo...
                                              
Impressa num i
n-4º de 419-(4) páginas a obra está dividida assim: A Oração e suas seis partes: Lição, Preparação, Meditação, Contemplação, Acção de graças e Petição. A via Purgativa: exercícios, considerações, colóquios e oferecimentos. A via Iluminativa: considerações gratas aos Anjos,  N. Senhora. Da página 91 à 210, numerosas meditações sobre a vida de Jesus Cristo. Seguindo-se até à 229 as Advertências da Via Unitiva. Seguem-se as Advertências sobre a Meditação passada, que é do Divino Amor, e os motivos do Amor Divino. Começa então na p. 257, o Tratado de Contemplação e as considerações sobre a união da alma com Deus, as visões, a purificação da alma, o amor que se recebe, e por fim uma hermenêutica de algumas advertências da Santa madre Teresa sobre a contemplação. Da pág. 362 às finais do Índice,  de novo considerações  sobre nascimento, morte de Jesus Cristo e o Juízo final.
                                  
Há portanto
 páginas bastante valiosas, como se pode deduzir ou intuir, sobre a oração, a meditação, as potências da alma, os afectos, imagens sobrenaturais, os Anjos, a Luz, as Perfeições Divinas: sua essência, eternidade, imensidade, fortaleza, providência, bondade, formosura e imutabilidade. E como hoje tanta gente fala e escreve sobre as Ordens do Templo e  de Cristo mas do espiritual e divino delas pouco  realiza e transmite, creio ser um bom serviço partilhar estas centelhas da  Tradição Espiritual de Portugal

 Vamos apenas transcrever alguns parágrafos, e mais tarde comentaremos, para nos inspirarmos talvez sobretudo mais no caminho da compreensão do controle e elevação mental e da intensificação ígnea amorosa da alma para Deus e seus estados expandidos e unificados de consciência.  
Como prior e mestre de noviços Frei Paulo de Vasconcelos partilha a  visão tradicional da oração mental, composta de seis partes com   duas mais essenciais, a meditação e a contemplação, ensinando que  a contemplação nasce da meditação, e nesta «o fim há de ser contentar a Deus, e o menos principal há de ser o proveito, que determina tirar daquela meditação, a saber, ser humilde, ser casto, aborrecer o pecado, desejar o Céu, etc. A causa eficiente são as três potências da alma: Memória, Entendimento e Vontade. A Memória representa a história, o Entendimento vai tirando de umas coisas outras, a Vontade escolhe conforme o entendimento lhe mostrou, ama, ou aborrece, etc. (...).
 A terceira advertência seja, que nenhum caso se pare nos discursos do entendimento sem chegar aos afectos da vontade: porque se parar nos discursos do entendimento ficará sendo especulação e não meditação, de forte que todas as três potências da alma, Memória, Entendimento e Vontade, hão de obrar na meditação, a Memória há-de representar ao entendimento,  há-de ir conhecendo, fazendo ilações e discursos, e descobrindo verdades; e a Vontade ir amando, ou aborrecendo, alegrando-se, ou entristecendo, e tirando outros afectos conformes a matéria sobre que vai meditando. (...)
A Quarta advertência é que o que medita não deixe ao entendimento discorrer livremente quanto ele quiser, senão que quando vir que é tempo, e que tem já conhecido o que vai especulando, ele há de ir amando [sentindo no coração, pronunciando jaculatórias, determinado-se em actos] para que não gaste o tempo todo em discursos e perca o que é mais, que são os afectos e actos da vontade, porque não está o caso em conhecer e especular as virtudes e os vícios, senão em aborrecer os vícios e amar as virtudes, e a razão é que o discurso do entendimento não serve de mais que acender o fogo na vontade, e tanto que a vontade tiver este desejo e fogo acesso, não há para que o entendimento trabalhe, porque escusado é ferir com o fuzil na pederneira depois que o fogo está acesso, assim que cesse o entendimento de conhecer, e ame a vontade quanto quiser as verdades, que o entendimento lhe descobriu, ou aborreça os erros que ele lhe declarou.
 Advertência quinta: Também se advirta, que sempre a meditação se há-de encaminhar para conhecer mais de Deus, ou para adquirir alguma virtude, ou desbaratar algum vício, como destro Capitão, que acode com mais socorro à parte mais necessitada, e que em qualquer parte da oração, em que achar devoção, ou movimento algum, que não há de passar avante em quanto lhe durar o tal movimento, porque como na oração não se trata de mais que de buscar meios para amar a Deus, e as virtudes, e aborrecer os vícios, em os tendo não há para quê buscar com dúvida o que está possuindo, pelo que em chegando a este bem, ali pare, e gaste o tempo todo que determinava ter de oração, e advirta que todas as considerações que fizer hão de ser uma escada para subir a alguma das perfeições divinas, e a que mais leva delas é a consideração da vida e milagres de Cristo Senhor nosso (...)
A sexta advertência é que a meditação parte é do entendimento, e parte da imaginação. A meditação do entendimento é de coisas espirituais, como são os atributos divinos, a sabedoria divina, sua eternidade, e imensidade, a graveza e fealdade do pecado, e outras coisas semelhantes. A meditação da imaginação é de coisas coroporais ou que já passaram...ou que ainda estão por vir (...)  
      Quarta parte da oração que é a Contemplação.
«A contemplação é uma simples, suave e qu
ieta vista de Deus, sem variedade de discursos, com grande amor, espanto, alegria e humildade, pelo que dizemos, que é meditação tomar no entendimento algum mistério, e depois de considerar nele o literal, considera as circunstâncias, e tira alguns afectos de vontade. Porém quando o entendimento por discursos que tem feito, ou também porque o Senhor sem eles lhe deu particular luz, conhece claramente a verdade e fixa os olhos nela, e está vendo com quietação e sossego. sem ter necessidade de mais discursos para se convencer, e a vontade pelo conseguinte convencida da verdade que tem em vista, com alegria a está vendo, ou se está espantado dela, ou a está a amando, então está em contemplação. De modo que a meditação busca e a contemplação chega ao porto desejado, pelo que em chegando a ele hão de parar todos os discursos do entendimento aplicando a vontade ao que está amando, porque este amor é fruto da oração e contemplação. Nunca o contemplativo se tire desta quietação, por seguir os demais pontos, salvo quando vir que se torna a distrair, porque então pode ir avante com seus discursos.» p. 17.

Em seguida Frei Paulo de Vasconcelos escreve acerca «do que se deve fazer para adquirir esta quietação [contemplativa] e tirar de Deus um conceito» seguindo pseudo-Dionísio, que recomenda dois modos para se chegar a tal contemplação: o imaginativo, em que vai pondo em Deus em grau máximo todas as perfeições que vê no mundo, tais a bondade, a formosura, agregando-as num conceito altíssimo de Deus. E o negativo, no qual vê que Deus não é nem entendimento, nem sabedoria, nem poder nem luz, pondo a morada de Deus na luz inacessível, «não afirmando dele coisa alguma, não o chamando grande, senão infinito, não lhe chama perfeito, senão inefável, imenso, incompreensível...» 

Seguem-se as partes quinta e sexta finais da oração, que são a acção de graças, e a petição. Acrescenta ainda a oração de repetição, e  a oração da presença de Deus, sobre a qual desenvolverá a sua visão e compreensão da omnipresença de Deus, e como nós ao realizarmos-la mais poderemos entrar num estado de oração mais incessante ou permanente, tal como também Erasmo ensinava ou propunha, e que a voz da consciência e a música das esferas aludem. É num subcapítulo bem valioso, Também a presença de Deus é modo de oração, e que transcreveremos e comentaremos brevemente no próximo artigo, e que se inicia assim: 

 «É muito de advertir, que não é menos importante para a vida da alma a presença de Deus, do que para a vida do corpo a respiração, porque assim como não pode haver vida sem respiração, assim não havíamos de estar um instante sem a lembrança de Deus, e ainda que pareça dificultoso este exercício, com a Divina Graça vem a ser tão fácil, que muito mais dificultoso vem a ser o esquecer dele, do que ao princípio era a sua lembrança. (...) 

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

O Silêncio como Deus ou guia iniciático na Doutrina Moral, de Gomberville. La Doctrine des Moeurs: qui represente en cent tableaux la différence des passions, et enseigne la manière de parvenir à la sagesse universelle.


Marin Le Roy Gomberville no seu ensinamento moral e espiritual, baseado no poeta Horácio (65 a 8 a. C.) e no humanista e pintor (mestre de Rubens) Otto Vaenius (1556-1629), gerou uma obra de sabedoria bastante valiosa, ainda pouco estudada e aprofundada. Ao acolher plena ou fortemente a tradição greco-romana, na linha Humanista, ao não inserir referências ao Cristianismo na sua Doutrina dos Costumes, em plena época de lutas entre cristãos e protestantes, e de hegemonia da Contra-Reforma, Gomberville escapa das limitações teológicas dogmáticas e propõe uma visão da religião como harmonia com a Natureza, o próximo e a ordem divina, e uma visão da filosofia como o estudo da natureza humana, e o auto-conhecimento, a fim de vencermos a ignorância e defeitos, e diminuirmos ou extinguirmos os vícios e assim desenvolvermos as virtudes, pois é nesta luta e caminho que se encontra a Sabedoria e a felicidade.

Abordámos alguns aspectos da sua vida e da Doutrina Moral e neste estudo apresentamos apenas um dos seus emblemas ou divisas, com o mote e o epigrama provindos de Otto Vaenius, sendo sua a explicação ou narratio, sobre o Silêncio, a figura 29ª da I parte do seu livro, La Doctrine des Moeurs.

                                                      O Silêncio é a vida do Amor.

O silêncio é um bem supremo:
É a virtude do sábio e a dum amante:
Quem só fala raramente,
Jamais ofende a quem ama.

«É por vezes justo que o Amigo fale livremente  ao seu Amigo (a); Mas quase nunca acontece que o amigo fale livremente do seu amigo.
Se a pri
meira Lei do Amor é amar, e a segunda é ter boa opinião do seu amigo, a terceira é infalivelmente, como nos Mistérios dessas antigas Religiões, ver, desfrutar e calar. Porque nada é tão apropriado para conservar a amizade quanto esse silêncio respeitoso, que nos faz guardar no coração tudo o que sabemos dos nossos Amigos.
O Pintor representa-nos esta verdade pela figura do Deus do silêncio, que sempre mudo, e sempre Mestre de si, comanda todas as paixões que podem perturbar ou o repouso das almas ou a harmonia da perfeita Amiza
de.
Se ele tem As
as, é para testemunhar que ele toma de empréstimo ao Amor a  sua actividade, e que elevando-nos do afecto amoroso pelas criaturas aquele do Criador, ele pode levar  os nossos corações até ao Templo eterno, onde devemos tornar-nos verdadeiros Adoradores do verdadeiro Deus, que em todas as suas operações conserva um silêncio perpétuo, quero eu dizer o repouso imutável da sua natureza bem-aventurada.»
                                      

Creio ser este  comentário, explicação ou hermenêutica dos mais elevados espiritualmente em todo o livrinho, um in-8º de 412 páginas, e nele Gomberville demonstra conhecer e valorizar a instituição pagã do Mistérios e a iniciação que neles era facultada.
Primeiro, já pela pictura, desenhada por Otto Vaenius,  representando o Deus do silêncio, Harpócrates, no seu gesto iniciático: é no silêncio que ouvimos, e é guardando o silêncio que o recebido ou realizado não é menosprezado, diminuído ou mesmo atacado. E só é transmitido a quem
  o merece receber.
Segundo, por regras tradicionais
: "Saber, querer, ousar, calar", afirmaram alguns. Ou "contemplar, maravilhar-se e calar-se". Tal era a regra do silêncio a que os iniciados nos Mistérios de muitas religiões e tradições estavam obrigados: não deviam  revelar os ensinamentos, visões e experiências que tinham tido. Os ensinamentos mais elevados dos mistérios de Eleusis, por exemplo, seja do que se lhes dizia ou contemplavam, ainda hoje apenas se suspeita que seria isto e aquilo...
Silêncio que nos permite conservar no coração e aí nos fortificarmos, elevarmos, harmonizarmos, deliciarmos com o que amamos, ou com quem amamos.
Silêncio sobre nós próprios, enquanto c
ompostos de corpo, alma e espírito, e portanto necessitando de persistentemente tentarmos controlar a agitação mental ou, mais basicamente, instintos, desejos, receios, que perturbam a harmonia, e que no fundo são barulhos na nossa aura e mundos interiores, e que não nos permitem aceder aos mundos espirituais, ou mesmo ouvir a voz interna ou até a música das esferas.
Silêncio que cala a horizontalidade e nos verticaliza para o espírito, para a anima mundi, para o Bem geral, para o Logos, para Deus. 

O Anjo-daimon-deus do silêncio, neste sentidos,  tem o dedo indicador vertical sobre a boca, cerrando-a ou fazendo a cruz nela, crucificando o Verbo, revertendo-o para o mundo interior ou espiritual. E tem na sua mão um estandarte bem erguido, com as famosas iniciais SPQR, Senatus PopulusQue Romanus, Senado e Povo Romano, que no fundo direcionam para a tenção ou talento de bem fazer pelo povo e o Estado. 

Acrescente-se que na edição transformada da Doutrine des Moeurs, com modificações de 1672  sob o nome de Le Theatre Moral de la vie Humaine,  e de Theatro Moral de toda la Philosophia de los Antiguos y Modernos,  editadas pelo erudito tipógrafo François Foppens, en Bruxelas, só a imagem se conserva semelhante mas mais perfeita, pois houve grandes modificações no mote - Nada mais proveitoso que o Silêncio -,  epigramas e explicações (segundo François Foppens, redigidas por um notável cavaleiro espanhol nascido em 1603 que se quis manter anónimo), estas bastante mais detalhada do desenho (pois também a dimensão é a de um in-folio), e iniciando-se neste emblema pela explicitação de que «No Templo de Ysis e Serapion, adoravam os antigos, com suma reverência,  a imagem de Harpocrates, por Deus do Silêncio, (...) sentado entre o vinho e a ira...»
                                              
Quanto às asas do Anjo
-daimon-deus Harpócrates, acrescentaremos nós, indicam que a  aspiração amorosa ou unitiva intensifica a sublimação e subida das nossas energias anímicas tornando-as capazes de harmonizar a agitação mental e elevar-nos do mundo terreno ao espirital e mais estabilizados na luz, amor e paz, de tal que conseguimos o meditar, reverenciar, adorar ou mesmo contemplar os seres celestiais, o Espírito santo, a Divindade.
A parte final da explicação ou narratio de Gomberville é perfeita, como um hino ao Amor que pelo silêncio nos dá asas e eleva à Fonte. É uma explicação pitagórica ou platónica que nos é oferecida por Marin, ou Martin, Le Roy Gomberville. 

Há mesmo algo da linguagem  das nossas sorores e místicas cristãs mais extáticas, quanto às asas, no anjo, no silêncio,   impulsionarem ou levarem  «os nossos corações até ao Templo eterno, onde devemos tornar-nos verdadeiros Adoradores do verdadeiro Deus». Inegavelmente uma bem elevada realização:  conseguirmos entrar no Templo eterno, sermos pedras ou colunas nele, na adoração da Divindade, e numa compreensão de grande profundidade e altitude, religando terra e céu.
Marin Le Roy
 Gomberville conclui, com grande sabedoria e originalidade numa visão da natureza de inefável beatitude espiritual do «verdadeiro Deus que em todas as suas operações conserva um silêncio perpétuo, quero eu dizer o repouso imutável da sua natureza bem-aventurada».
                                                 
Possam Otto Vaenius, Marin le Roy de
 Gomberville e os seus associados desfrutar da natureza bem aventurada divina, e inspirar-nos nela, tal como aos vários amigos que nos últimos tempos têm partido para os mundos subtis e espirituais, e que saudamos na Luz, Amor e Silêncio, quais anjos da guarda no coração iniciados, elevados.  

domingo, 18 de janeiro de 2026

Gomberville. Quadras e motes da "Doutrina dos Costumes". Com video. Acerca do caminho da realização da Sabedoria e da Virtude.

Continuando a trabalhar Gomberville e a sua Doutrina dos Costumes  eis alguns epigramas ou quadras traduzidas do francês, contendo ensinamentos valiosos do caminho da realização da Sabedoria e da Virtude. No fim, num vídeo, encontra a leitura de algumas explicações e quadras sobre o Amor comentadas por mim.
                                                  
3ª f
igura, mote: O Alimento consegue tudo, e quadra : 

«Mama com o leite este nobre sentimento, 
Que o amor das Virtudes dá às almas bem nascidas:
Nossos corações são vasos que guardam constantemente
os primeiros aromas que lhes são dados.

4ª A virtude pressupõe a pureza da Alma.

Reformemos a nossa vida: aperfeiçoemos nossos pensamentos,
para que as virtudes se deliciem nos nossos corações.
Estas essências do Céu, como outros licores,
Tomam o gosto do vaso onde foram vertidas.


6ª  A Virtude pressupõe a acção.

É preciso agir incessantemente,
E manter a alma em exercício:
Pois só pela acção  
A Virtude difere do Vício.

7ª Quem não começa, nada conseguirá realizar.

Corre atrás dos trabalhos onde a Virtude te chama, 
Supera constantemente toda a dificuldade.
Quando um coração generoso adora uma beleza,
Há algum tormento que ele não sofra por ela?

8ª Correndo chega-se ao fim.

Foge da Volúpia os atractivos criminosos,
sofre o fogo do Sol e os gelos da Ursa polar,
Se queres adquirir os tesouros eternos,
que os Deuses prometeram como prémio da tua corrida.

9ª  A Virtude foge os excessos.

Nos extremos  o homem sempre se perde,
O Avarento e o Pródigo têm o mesmo defeito.
Caminha como deves:
Jamais  o louco Ícaro teria caído tão baixo,
se não
tivesse voado tão alto.

11ª A Natureza regula os nossos desejos.

As leis que regulam os nossos prazeres.
Não são leis desumanas,
A natureza e o céu não limitam os nossos desejos,
Senão pelo receio de aumentar as nossas dores.

12ª  Para detestar o vício, é preciso conhecê-lo.

Quanto mais o vício é horrível,
 Mais atractivos tem: vai sempre de máscara e tudo finge.
Assim é nas rochas que não aparecem 
 Que o nauta se engana, e a barca se quebra.

13ª O Estudo da Virtude é o fim do Homem.

Desprendei os vossos espíritos do temor e esperança, 
Permiti que a Virtude vos devolva a razão:
É insensato o Escravo que teme a libertação,
E é louco o Doente que odeia a sua cura.

14ª figura. Em qualquer condição pode-se ser feliz. 

Em todos os lugares a Virtude se encontra;
Cada um pode ouvir a sua voz:
E bem frequentemente descobre-se-a
assim entre os ruídos do Louvre,
tal como ela está no silêncio dos Bosques.

24ª O Amor dos povos é a força dos Estados.

Artesãos insensatos de discórdias civis,
Não acuseis o Céu das vossas calamidades:
Vossos ódios, vossas conspirações, vossas parcialidades,
São os primeiros Tiranos que desolam as vossas Cidades.

26ª O Amigo não vê o defeito do Amigo.

O Amor usa uma venda, só o parecido a si-mesmo.
Não vemos através dela nada que não seja belo.
Quem quiser amar, deve usar esta venda,
E achar tudo perfeito na coisa que ama.


31ª A Temperança é o supremo bem.

Ó Temperança heróica e santa,
Quem te acolher no seu coração;
Pode-se afirmar que é vencedora 
Da esperança e do receio.»

                           

sábado, 17 de janeiro de 2026

O Amor-Amizade é desinteressado, paciente, aperfeiçoante, unitivo, beatificante. Os ensinamentos de Marin Le Roy Gomberville.

 Já partilhamos em dois artigos as máximas, mottos ou ditos da obra A Doutrina Moral ou dos Costumes, aliás La Doctrine des Moeurs: qui represente en cent tableaux la différence des passions, et enseigne la manière de parvenir à la sagesse universelle, publicada em 1646 por Marin Le Roy Gomberville, que contem sessenta figuras na sua  primeira parte, e  na segunda quarenta e três, valiosas de serem contempladas, cada uma delas com o seu mote ou lema,  quadra e  explicação  digno de serem lidos e meditadas por quem quer trilhar melhor caminho da Sabedoria humana e divina.
                                              
 
Foi um manual de sabedoria para muita gente, dando uma base boa para o discernimento do que era o bem e o mal, a virtude e o vício, sem grandes excessos de atemorizações ou rigores e com observações valiosas psico-espirituais. Também os títulos debaixo das imagem - motes, ditos ou lemas -, e depois as quadras dum verso, eram facilmente assimiláveis na alma, na sua tão importante faculdade retentiva, a memória, a que se seguia o breve texto explicativo, a narratio, de página e meia, já da autoria de Gomberville já que as imagens, os motes e as quadras vinham de Otto Vaenius e da sua Quinti Horati Flaci  Emblemata, publicada em 1607, e  1612. 
Eis um resumo ou breve hermenêutica de dez motes
da 1ª parte do Livro, respeitantes ao Amor e suas indicações mais originais  ou valiosas:
-  O homem nasceu para
 amar.  - Amando, tornamo-nos perfeitos.
- É preciso amar para ser amado. - O amor dos Povos é a força dos Estados.
- A verdadeira amizade é desinteressada.
- O amigo não vê o defeito do amigo.
- Respeita o teu amigo e cuida de ti.  - O Silêncio é a vida do Amor.
- A inveja é a morte do amor.
- Quem tem o necessário, não tem nada a desejar.
                                               

 1º mote, O homem nasceu para amartem esta quadra boa: 

 O Amor anima das suas chamas,
Todos os que são dignos da luz do dia
As pessoas que não tem amor
São corpos que vivem sem almas. 

Na explicação, Gomberville  considera o Amor como fogo animador nosso, e diz-nos que temos todos uma mesma Mãe ou fonte Divina, estando no nosso coração gravado pelo dedo da Natureza o amor a Deus e ao próximo e logo as suas consequências fraternas: sentir os outros com mais amor, como amigos, pois só assim poderemos sentir a felicidade recíproca e a sintonia divina. 
 No 2º dito ou mote, Amando, tornamo-nos perfeitos Gomberville explica que na verdadeira amizade ou amor os defeitos de cada um devem ser iluminados, ajudados ou amados pelo outro, para que haja concórdia e contentamento e aperfeiçoamento recíproco.
 No mote 3º, bem desafiante, ígneo mesmo, É preciso amar para ser amado, Gomberville volta à necessidade de suportarmos e apreciarmos os gostos e qualidades dos outros, para  nos completarmos na amizade.
O 4º mote, O amor dos Povos é a força dos Estados, bem como a explicação são actualíssimos, nesta relembrando que se os povos estão unidos entre si afectivamente,  não podem ser presas ou vítimas dos estrangeiros. Ora vemos como tais divisões destruíram alguns países e como outros, mais martirizados e resilientes, se uniram e vão conseguindo vencer os cobiçosos e traiçoeiros inimigos. Os casos da Síria e do Irão. E mesmo em parte a Venezuela ou Cuba,
O 5º mote  A verdadeira amizade é desinteressadacontém tanto um belo verso, ("O lucro é o objecto da amizade vulgar,/ Mas um coração grande e nobre ama sem interesse, /E creio que o Amor, sendo Deus tal como ele é,/ Não é usurário nem mercenário), como uma ainda boa explicação, onde realça ser uma infâmia ter interesses em vista ou ser comerciada ou comprada a amizade, pois só o amor compra ou merece o amor. 
O 6º mote O amigo não vê o defeito do amigotem uma quadra de grande sabedoria e que eu já glosei há uns anos numa exposição de pintura e textos na galeria Novo Século do Carlos Barroco e da Nadia Bagioli, intitulada o Amor é cego, pois só com essa venda é que vemos tudo perfeito no ser ou coisa amada.
O 7º lema  Respeita o teu amigo e cuida de tirelembra como é mal vermos tantos defeitos nos outros e sermos cegos para os nossos. E existir tal hipercriticismo para com os amigos ainda é pior. Saibamos lavar os olhos e a alma com a humildade, a modéstia,  junto ao auto-conhecimento da nossa condição peregrina e frágil.
O 8º mote, que é a 28ª figura no livro,   O Silêncio é a vida do Amor, e do qual transcrevemos o epigrama no 1º artigo do blogue dedicado a Gomberville, é explicado no sentido de se falar o menos possível das nossas amizades a outras pessoas para não ofendermos ninguém. Cita mesmo a regra do silêncio nos Mistérios das Religiões antigas, introduzindo assim na sua obra uma menção expressa à iniciação e à Theologia Perennis. Transcreveremos brevemente toda a explicação. https://pedroteixeiradamota.blogspot.com/2026/01/o-silencio-como-deus-ou-daimon.html
O  9º mote ou dito  A Inveja é a morte do Amor, é simples pois aponta apenas à inveja dos bens ou da prosperidade dos outros, considerando a sua representação como serpentes saindo dos cabelos muito adequada.
                                       
O 10º mote e final desta série que selecionamos, diz-nos Quem tem o necessário, não tem nada a desejar, e a propósito dele Marin Le Roy Gomberville, depois de relembrar que o sofrimento faz metade da virtude, e que a outra consiste na abstinência, explica minuciosamente o simbolismo do desenho, algo que aliás faz em todas as explicações das figuras enaltecendo sempre os artistas desenhadores (tais C. Boel, C. Galle, P. de Jode, A Clouzier),  onde vemos o sábio contentando-se com um pouco da água da fonte (que algo iniciaticamente lhe é servida por um anjo ou génio ou subtil espírito)  e, ao longe, um homem que, desmedido na sua hubris ou ambição, acaba por ser levado por uma corrente. Quem não pensará em alguns dirigentes políticos?  Ora se nos contentarmos com pouco ou menos, conservaremos a vida física e moral, e a relação divina. No fundo, implicitamente, diz que quem está no caminho espiritual ou da Sabedoria deve estar contente e muito grato ou em amor pelo que a vida e Deus lhe dão, nos dão... Demos graças... Amen....

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Marin Le Roy Gomberville e a sua Doutrina dos Costumes. 2ª parte. Um tratado de Sabedoria em cem figuras, seiscentista.

                                                                  

                                                           

  A Doutrina Moral ou dos Costumes, aliás La Doctrine des Moeurs: qui represente en cent tableaux la différence des passions, et enseigne la manière de parvenir à la sagesse universelle, publicada desde 1646 por Marin Le Roy Gomberville, já abordada nas sessenta figuras e motes da sua  I parte, contém  na II parte, sob as gravurasou figuras, quarenta e três motes ou lemas valiosos de serem meditados por quem quer trilhar caminho da Sabedoria humana e divina. 
                                                  

 Embora o fim da obra seja algo "negativo", e muitos das imagens e motes finais sejam sobre a Morte, dentro do princípio de que Filosofar é aprender a morrer, - pelo desprender-se dos bens, dos desejos, da necessidade e assim conseguir libertar-se dos laços terrenos, seja ainda em vida e nas suas meditações, seja à hora da morte, para não se ficar retido nos planos subtis do umbral e do astral menos luminoso -,  há vários ensinamentos bem valiosos tanto pelas imagens, como pelos motes, quadras e texto explicativo. O que destacaremos no seu todo mais? 
- O valor duma boa consciência limpa e tranquila, e logo confiante, destemida, imperturbável. A vida sóbria, os estudos e esforços pela virtude, equilibrados por sentimentos sãos e a boa disposição geram a sabedoria, que dá frutos perenes. Registe-se que  Marin le Roy de Gomberville, transcrevendo Otto Vaenius, na 2ª parte não utilizou a palavra amor, só desenvolvida ou valorizada em 12 ou 10 motes, na 1ª parte, ainda que bem importantes, tal o "Ama a Virtude (ou se quisermos a Sabedoria) pelo amor a ela". "O ser humano nasceu para amar". "Ao amar uma pessoa torna-se perfeita", "é preciso amar para ser amado". "O Amor dos povos é a força dos Estados" (como falham hoje tanto os governos, só amando os "seus" companheiros na governança). "A inveja é a morte do Amor". Nesta 2ª parte a valorização é mais do estudo, do esforço, do vencer os sofrimentos, do desenvolver uma consciência tranquila, o desprendimento perante a morte e a confiança na  consciência justa nossa e de Deus. Leiamos então o conjunto dos quarenta e três motes da 2ª parte, ficando para outra vez a transcrição de algumas das explicações morais de Gomberville:

Cada um deve seguir a sua inclinação. 
O tolo queixa-se sempre da sua condição.
Todos os nossos defeitos têm o seu pretexto. 
Quem vive bem, viaja feliz. 
O estudo das Letras é a felicidade do homem. 
A preguiça é a mãe dos vícios.
Só o sábio é livre. 
O sábio é inabalável. 
A pessoa de bem estar em toda está parte segura.
Quem sofre muito, ganha muito. 
A boa consciência é invencível. 
Quem vive bem, não esconde nada a sua vida. 
A Virtude tem em toda parte a sua recompensa.
A eternidade é o fruto dos nossos estudos.
A virtude torna-nos imortais.
O espírito precisa de repouso.
O sábio não está sempre sério.
A alegria faz parte da Sabedoria.
O Sábio ri quando deve rir.
A Virtude é objecto de inveja.
A inveja só cede à Morte.
A Virtude triunfa de todos os seus inimigos. 
Nada dura assim que tudo dura.
Todos os Séculos tiveram seus vícios. 
É preciso acomodar-se ao tempo.
Não lamentes o tempo passado.
Não há nada de tão curto que a vida.
Tudo se perde, com o Tempo.
Filosofar, é aprender a morrer. 
A Velhice tem os seus prazeres. 
Não te informes do futuro.
A Morte é inevitável. 
Vivamos sem temer a Morte.
O Velho não deve pensar senão morrer. 
Não há providência contra a Morte.
A Morte despoja-nos de todas as coisas.
A Morte iguala-nos a todos.
Nada de mais certo quanto a Morte.
O caminho da Morte é comum a todos. 
A Morte inexorável.
O Homem não é mais do que um pouco de lama.
A Morte é o fim de todas coisas.»

Encontra a obra no Internet Archive: https://dn720005.ca.archive.org/0/items/ladoctrinedesmoe00gomb/ladoctrinedesmoe00gomb.pdf

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Álbum Comemorativo do 50º aniversário da Fundação do Colégio de Campolide,1858-1908.

 Imagens antigas de Lisboa: O famoso  Colégio de Campolide, dos Jesuítas, extraídas do raro,  pois não se encontra na web, e que me passou pelas  mãos, Album Comemorativo  do 50º aniversario da  Fundação do Collegio de Campolide,1858-1908. São 23 fotografias, num livro dimensão 23 x 35 cm, brochado cor avermelhada. Com a revolução republicana de 1910 os jesuítas sofreram bastante, presos e desterrados e o Colégio foi encerrado. Terminava um sonho de 50 anos de cultura educativa, mas também de  religião ligada influência política, o que era fatal. Hoje é a Penitenciária de Lisboa,  e se reeducativa ou não, não sabemos bem. Brevemente anotarei as fotografias e partilharei alguns nomes, sendo a 1º fotografia dum padre a do fundador Carlos Rademeker. Borges Grainha, em 1913 traduziu do latim e publicou a História do Colégio de Campolide, da Companhia Jesus, muito bem ilustrada com fotografias do colégio e dos alunos, nomeadamente nas festas anuais de comemoração

 

Directores [do Colégio] de Campolide (1858-1908): 1º P. Carlos Rademaker. 2º P. J. Meagher. 3º P. Franco Sturzo. 4º  P. J. Campo Santo.5º P. A.   Cordeiro. 6º P. J. de Magalhães. 7º P. Luiz Cabral. 8º P. A. Barros.
Comissão dos Antigos Alunos (1907-1908):1º plano: José Carlos Lara Everard, D. João da  Câmara, Conde Ayres d'Ornellas, P. Luiz  Cabral, Edmundo Rovere, Fernando Belo. 2º plano: Conde de Vila Verde, P. Luiz de Almeida, Marquês de Souza Holstein, F. Alves Pereira Rodrigues Ravasco, Joaquim  Rumina. 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Marin Le Roy Gomberville e a sua Doutrina dos Costumes. Um tratado de Sabedoria em cem figuras, seiscentista.

 La Doctrine des Moeurs: qui represente en cent tableaux la différence des passions, et enseigne la manière de parvenir à la sagesse universelle, publicada em 1646 por Marin Le Roy Gomberville, um espírito de precoces dons, poeta, historiador, escritor criativo (sobretudo no seu romance estilo de cavalaria, barroco, Polexandre, bastante universalista), moralista piedoso e que viveu entre 1600 e 14/6/1674 sendo mesmo um dos quarenta membros fundadores da Academia Francesa. Na sua última obra , sobre a casa dinástica dos Never justifica não ter sido tanto historiador como foi publicista, poeta, ficcionista, moralista, por causas políticas. Teve descendência, cinco filhos, vivendo os últimos anos retirado em estudo e meditação, na linha pia jansenista. Esta obra revela a clara intenção pedagógica de inspirar as pessoas ao auto-conhecimento e ao caminho da virtude, sobriedade, harmonia, sabedoria, amor, felicidade aqui e no além...
A Doutrina dos Costumes, a Doutrina Moral  apresenta o caminho para se chegar à Sabedoria, segundo a tradição ética e filosófica ocidental greco-latina e cristã, e seguindo o que era veiculado com impacto e sucesso pelos autores de emblemata, tais Alciato (1492-1550) e Otto Vaenius (1556-1629). A obra desfrutou de grande sucesso editorial (1646, 1681, 82, 83,84,85,88) provavelmente por estar em vernáculo e conter uma recolha de cento e três sugestivas gravuras (desenhadas por Boel, Galle, Jode e Gijsbert van Veen, &, para a Q. Horati  Flacci Emblemata, publicada em 1607 e 1612, por Otto Vaenius),  divididas em duas partes, e cada gravura com um mote ou lema, um epigrama ou quadra e duas páginas da explicação ou hermenêutica moral. A base dos motes e epigramas é de Horácio e a tradição greco-romana, pitagórica, socrática e estóica, e humanista. Gomberville segue-as nas suas explicações, ora excelentes ora pouco aprofundando o epigrama, não dando citações de autores nas margens e apenas mencionando uma vez cada seis ou sete pensadores, tais como Sócrates, Catão, Licurgo, Diógenes, Zenão, Plutarco, além algumas menções dos poemas e mitologias greco-romanos, e seus heróis, tais Aquiles e Hércules, e deuses: Júpiter nos céus, Minerva, Harpócrates, Mercúrio.
Foi um manual de sabedoria para muita gente, dando uma base de discernimento do que era o bem e o mal, a virtude e o vício, sem grandes excessos de atemorizações ou rigores, e os motes ou títulos, e as quadras, eram autênticos lemas ou mantras facilmente assimiláveis na alma, a que se seguia o breve texto explicativo, este o único da autoria de Le Roy Gomberville.
  Por exemplo a 1ª divisa, "A Natureza começa: o alimento (cultivar) completa (aperfeiçoa)", a quadra é: 

«Ne te promets pas tout des soins de la Nature
Il faut que ton travail accompagne le sien:
Le Champ le plus fertile a besoin de culture
Et si le Laboureur ne l'ensemence bien, il n'y recueille rien.
 
Não esperes tudo dos cuidados da Natureza
É preciso que o teu trabalho acompanhe o seu:
O campo mais fértil precisa de cultura
E se o lavrador não o semear bem, nada recolherá.»

 Vamos transcrever  os motes das divisas da primeira parte, e num segundo artigo partilharemos a segunda parte, e mais imagens:

A Natureza começa: o alimento aperfeiçoa
O alimento supera a Natureza
O alimento pode tudo
A Virtude pressupõe a pureza da alma 
Fugir do vício é seguir a virtude
A virtude pressupõe a acção 
Quem nunca começa nunca saberá acabar
Correndo, chega-se ao objetivo 
A virtude foge dos excessos 
Fugindo de um vício, o imprudente cai noutro.
A Natureza regula nossos desejos.
Para odiar o Vício, é preciso conhecê-lo.
O estudo da Virtude é o fim do Homem.
Em qualquer condição, se pode ser virtuoso.
A cura da Alma é a mais necessária.
Ama a Virtude por amor dela própria.
Só Deus não tem Mestre.
Treme diante do Trono do Deus vivo. 
A impiedade causa todos os males.
Os maus punem-se uns aos outros.
O homem nasceu para amar.
Amando, tornamo-nos perfeitos.
É preciso amar para ser amado.
O amor dos Povos é a força dos Estados.
A verdadeira amizade é desinteressada.
O amigo não vê o defeito do amigo. 
Respeita o teu amigo e cuida de ti.
O Silêncio é a vida do Amor.
A inveja é a morte do amor.
 Quem tem o necessário, não tem nada a desejar.
A temperança é o bem supremo.
Quem ama a sua condição, é feliz.
A vida do Campo é a vida dos Heróis.
A vida escondida é a melhor.
Os excessos da boca são a morte da alma.
Quem compra as Volúptias, compra um arrependimento.
Não há crime sem castigo.
O Vício é uma servidão perpétua.
O debochado passa de um crime a outro.
Só é rico quem despreza as riquezas.
O medo da Morte é a punição dos Ambiciosos.
O medo é a companhia do poder.
Por toda a parte a preocupação acompanha-nos. 
A pobreza é antes bem que mal.
A pobreza nem sempre prejudica a Virtude.
Tudo cede ao Demónio das riquezas.  
Se Tersite é rico, tomam-no por Aquiles.
O desejo de bens é contrário às coisas honestas.  
O dinheiro corrompe tudo. 
A fortuna não faz de modo algum o mérito.
O amor aos bens é um suplício sem fim.  
A avareza é um grande mal.
O avarento teme tudo e não teme nada.
A avareza é insaciável.
O avarento é o seu carrasco.
Uma cegueira é seguida por uma outra.
O avarento morre como viveu.
A malícia do avarento vive depois da sua morte.
As riquezas são boas aos bons. 
O homem que faz bem é amado por todo o mundo.»

Encontra a obra no Internet Archive: https://dn720005.ca.archive.org/0/items/ladoctrinedesmoe00gomb/ladoctrinedesmoe00gomb.pdf

 Concluamos esta homenagem à Sabedoria, a Otto Vaenius e a Marin Le Roy Gomberville, com a 28ª figura, intitulada  O Silêncio é a vida do Amor, e a sua quadra:
«O silêncio é um bem supremo:
É a virtude do Sábio e a dum Amante.
Quem não fala que raramente
Não ofende jamais aquele que ama.»