Esta celebração celta e druídica, ou seja, da religiosidade pré-cristã europeia, realizava-se entre os nossos 29/10 a 2/11 e considerava-se que interagia magicamente com a transição da estação do Outono para a do Inverno, ao entrar-se na mais fria e sombria época.
A palavra Samain, significando principalmente reunião ou união (e sobretudo da Luz do alto invocada), mas também fim do Verão, implicava, enquanto a última das quatro festas (Imbolc, Beltaine e Lugnasad) do calendário celta (e que antecedem por cerca de 50 dias cada solstício e equinócio), assembleias, cerimónias, fogueiras, oráculos, encantamentos, orações, feiras, festejos com músicas e danças, comida e bebida. Recebiam-se assim esclarecimentos e forças e congraçavam-se energias para se atravessar mais segura, luminosa e frutuosamente a época mais obscura que se iniciava. Demandava-se um novo ano, abençoado ou comungado com a Divindade e as suas faces, mensageiros e energias: os Deuses, os Anjos, os heróis míticos e antepassados, os espíritos da Natureza e as forças sagradas da Mãe Terra...

Eram dias intensos festejando a entrada no Inverno e nas trevas maiores do tempo para um renascimento posterior. Os Deuses e os espíritos dos mundos invisíveis tinham que ser evocados pelos druidas e videntes como protectores do novo ano e presenteados com energias que eram-lhes oferecidas por rituais, danças, sacrifícios ou ofertas de alimentos e libações, e poemas.
Com efeito considerava-se que os Deuses e espíritos dos antepassados e mortos, ou da natureza, desciam mais à Terra ou tornavam-se mais visíveis, mais impactantes, nestes dias: o mundo de Sid estava aberto, as fronteiras esfumavam-se, as visitações, epifanias, inspirações, oráculos e adivinhações podiam acontecer mais luminosamente.
Esta abertura ao Sid, ao mundo subtil e espiritual, era provavelmente o aspecto mais essencial e dinamizador da cosmovisão ou doutrina desses dias de celebração do Samaim, mais tarde Samonios, e foi algo preservado em parte no Cristianismo, pois este adoptou tais datas como os dias de Todos os Santos, 1 de Novembro, e a 2 o dos Mortos, continuando a assinalar e a apelar a uma abertura maior entre os mundos e seres na pluridimensionalidade cósmica, na sintonização subtil e silenciosa e na aspiração à Luz que conseguirmos, nestas noites mais longas do ano.
Noutra linha de continuidade, a noite de 31 para 1 de Novembro foi denominada e celebrada a partir do século XVIII como o Halloween (de hallow santos) e tanto tem gerado celebrações de rituais por grupos pagãos ou celtas, como brincadeiras juvenis com as simpáticas abóboras, como festas de dança, "barulholatria" e bebida e, claro, amizades e amor. Certamente que houve, em geral, na evolução até hoje, uma diminuição grande da qualidade da celebração e da religação subtil e espiritual...
A visão do Sid não era muito fácil, a não ser para alguns mais videntes e sensíveis, ou então, segundo os poemas e narrativas míticas, para que participavam nessas grandes festas, banquetes e rituais, sobretudo quando algum druida ou uma inspirada transmitia ou intensificava essa capacidade de expansão de consciência, e abertura do olho espiritual.

Tradicionalmente as entradas para o Sid localizavam-se na direcção do Sol poente, o Ocidente e, na linha do trajecto do Sol, e nesse sentido correu na tradição visionária medieval que a Terra dos Mortos ou as Ilhas Afortunadas localizavam-se nesse horizonte em que o Sol se punha. E assim também os mortos eram depositados na parte poente do recinto sagrado à volta das capelas. Assim, quem quiser orar ou meditar em ligação ao mundo dos espíritos e antepassados poderá fazê-lo virado nesta direcção e aproveitando o balanço ou a corrente energética, embora seja certamente apenas um factor relativo, o mais importante sendo a intensidade da irradiação do nosso coração em aspiração de ajuda, de comunhão e de petição das bênçãos divinas.
Outro meio é virar a cama para tal eixo e, ao adormecer, tentar orar, sonhar e partir para, ou apenas sintonizar, o mundo intermediário e subtil, o Sid, ou mesmo para a Ilha Afortunada, no meio do imenso Oceano da Manifestação, também denominada Avalon, a ilha da imortalidade ou das maçãs pentagonais que a propiciam, ou que desvendam e manifestam a consciência mais sentida e clara do espírito que somos bem como dos que nos rodeiam nos mundos infinitos.
Aspectos muito importantes da celebração da reunião ou Samain eram as fogueiras que se erguiam, a Luz do Alto que se evocava, as purificações que se realizavam, as danças e namoros que começavam, os poemas e contos que se recitavam, as interrogações oraculares que se erguiam, as evocações dirigidas pelas druidas, as orações pelos mortos, as sátiras e interditos dos mais desequilibrados, as trocas de ervas e sementes medicinais, ou conservas alimentares e unguentos, o gui e o verbasco.

Eram ensinamentos de reconexão com os mundos espirituais, com os seus seres celestiais ou não incarnados e com os poderes psíquicos e espirituais dos seres o que era mais celebrado e ritualizado nestes dias, e que, transmitido ao Cristianismo apenas parcialmente, se pode e deve aprender e realizar em toda a época de maior frio, recolhimento e obscuridade, não ficando assim reduzido a estes dias e em fórmulas algo externas. É então um ensinamento iniciático: destinado a que as pessoas iniciem um novo caminho, ou uma prática ou religação subtil, espiritual, divina, em fidelidade e perseverança às tradições ouvidas, às transmissões orais e faciais de alma a alma, aos sonhos e visões, ideias e intuições tidas, como entre nós poetizou Fernando Pessoa em relação ao Infante D. Pedro das VII Partidas, na Mensagem...
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