domingo, 5 de fevereiro de 2023

Um poeta pianista, profundo no Amor e citando Antero: Rodrigo Beça e o seu "Intermezzo (Opus I)".

 Pianista que é poeta, deixa transparecer a unidade dos sons, palavras, vibrações e seres e facilmente ressoa nas almas do que o escutam. No título da sua primeira obra tal se espelha: Intermezzo (Opus I), ou se quisermos, Interlúdio,  e foi dada à luz em 1908 na Typografia da Empreza Guedes, na tão conhecida dos bibliófilos rua Formosa, no Porto. Nela anunciava o seu próximo Livro de Sonetos, que viria a sair em 1910, sucedendo-lhe ainda os Versos, na mesma excelente tipografia, em 1911.

Rodrigo Beça, assim se chamou o poeta e pianista, era um  fiel do Amor, um panpsiquista, admitindo a pluralidade de vidas (num dos poemas) e considerava Antero de Quental uma autoridade, como se depreende do exemplar, que possuo da sua primícia, com uma dedicatória assinada pelo Pai, tocante marginália que tanto potencializa o livro, pelo que não quis ou não pude deixar de o homenagear e trazer à luz a sabedoria e amor da sua alma. Ou, se quisermos, ressuscitá-lo para a nossa comunidade e comunhão dos poetas (homens e mulheres) portugueses, espirituais, anterianos e fiéis e cavaleiros aprofundadores do Amor.

Reza assim a dedicatória escrita há cem anos sobre papel de boa qualidade e a abrir a bela impressão da saudosa tipografia Guedes, em sincronia com a qual, talvez, o desenho da capa se foi desvanecendo e é com esforço que delineamos ou recuperamos a musa feminina que nela foi impressa.


«A Eduardo Pinto, companheiro da memória, em recordação do nosso infeliz pianista, oferece com gratidão, o pobre pai do malogrado poeta»...

Não está datada a dedicatória, e assim não sabemos em que ano deixou a Terra (e o "malogrado" pode ter vários sentidos), e porquê, e em que estado afectivo, psico-consciencial  ou anímico, mas dadas tais limitações de conhecimento, pelo menos por hora, pois quem sabe se alguma referência biográfica dele surgirá, nem que seja nos outros dois livros que publicou, aceitemos e oiçamo-lo antes na sua apresentação prefacial:
«O
Intermezzo é uma colecção de versos d'amor.
Não só amor da mulher, mas o amor das coisas, da luz, do ar, das gotas d'água, das manhas de primavera, dos pobre, de tudo que tenha um aroma de Beleza ou um perfume de Bondade.
Não me cabe falar do valor do livro.
Desejo somente fixar nele os princípios, que presidiram à sua celebração e que constituem, por assim dizer, um programa de orientação literária:
Arte poética - nenhuma;
Não escrever um verso sem o sentir.
Ser simples;
Procurar Beleza sob todas as formas, sem atenção a regras nem convenções.
Não ser obscuro na ideia, nem empregar bizantinismos de forma.
Eis tudo.
Finalmente, se algum dia me perguntarem se não tenho vergonha deste livro, responderei como Antero de Quental no prólogo de uma colecção de versos da mocidade: «Não, nunca me envergonhei de ter tido 20 anos».

Duas Palavras, ou o prefácio de Antero de Quental às Primaveras Românticas

Depois desta apresentação da sua poesia e onde parafraseia a justificação que Antero de Quental ofereceu quando, já entrado mais na fase revolucionária, com 30 anos, em 1872, resolver publicar as suas composições de amor adolescente e idealista, escritas entre os 18 e os 23 anos, As Primaveras Românticas, na realidade tão palpitantes da aspiração unificadora e agraciadora do Amor, vamos transcrever 6 das 62 poesias do Intermezzo, nas quais podemos sentir como os sentimentos e  compreensões, as descrições e analogias do Amor por Rodrigo Beça são bem merecedoras da perenidade e logo de connosco nestes dias dialogarem....

A 1ª, pelo som, o nome, o mantra, a música, a cor, a suavidade, a elevação, a 2ª pelo panpsiquismo, pelo amor omnipresente e entrelaçador de coisas e seres, a 3ª pela vivência do amor unificador na Natureza, a 4ª pela navegação no oceano subtil do coração e da entrega plena, a 5ª sobre o amor todo poderoso e infinitamente sensível e descritível, a 6ª pela comunhão reciproca dos olhos e seus conteúdos e reflexos profundos:

                                                                                   

«Teu lindo nome vibra na minha alma
Como se fosse
Aquele som duma pureza calma
Tranquila e doce,
Que parece subir até ao céu
Ao viajante alegre, que regressa
Á terra onde nasceu
E ouve ao longe desde a madrugada
O sino leve da ermidinha airosa
A descantar a matinal balada
Da terra em flor ao céu todo de rosa.
 
15º 

O Amor é a mão amiga,
O iman infinito,
Que tudo atrai e liga
Da lágrima ao granito.
 
 
16ª
Frescas manhãs de primavera. Passa
Por entre os ramos verdes da floresta
A vibração subtil. Maria enlaça
 
Numa coroa simples e modesta
Folhas e flores. A seiva sobe. Canta
Num hino alegre a Natureza em festa.
 
Luz - poema d'oiro! Aleluia Santa!
Vibram no mesmo cântico de amor
Ave, regato, pedra, terra, planta.
 
Vem avançando impávido o calor.
Sento-me, descansando, o sossegado
À sombra amiga duma olaia em flor.

E enquanto pelo azul ilimitado
Uma andorinha voa satisfeita
E nos espinhos duros dum silvado.

Maria prende a saia pouco aérea
A ser levada assim por maus caminhos
Penso no seu belo tempo da colheita,

Quando com doces, infantis carinhos
A Terra Mãe nos dá o vinho, o pão,
E o aroma subtil dos rosmaninhos,

Horas passaram lentamente. Então,
Chegando ao pé de mim, ficaste pressa
Entre os meus braços, contra o coração,

Passar assim a vida quem nos dera!
Nunca nós nos amámos, com certeza
Como nessa manhã de primavera
Perfumada a alfazema e alecrim
Em que eu amei a Natureza
E tu amaste a Natureza em mim.
 
 
23
Por sobre as águas do mar
Andam barquitas boiando,
E o mar fica tão brando,
Que não as deixa afundar.
 
Nas ondas do teu olhar
Desliza o meu coração,
Mas não tenhas compaixão,
Podes deixá-lo afogar. 

29
 
Canta D. João:
 
Amor é um forte, um colossal Desejo.
Amor palpita numa frase linda;
E une os lábios num imenso beijo
E cinge os braços em carícia infinda.

Canta Ophelia:
 
Amor é Graça, que nos doira a vida,
Perfume, incenso, ou roseiral em flor,
Nuvem, que ao longe passa de fugida,
Talisman santo, que afugenta a Dor.

Canta Santa Teresa:
 
Uma visão,visão, que nunca esquece,
A mais suave e pura, a mais ideal.
Sinto o meu corpo todo que estremece
Como uma frágil folha de cristal. 

Canta o poeta:

Amor é o mais perfeito sentimento,
Que pode a nossa vida dominar.
Incoercível como o pensamento;
Incomensuravelmente vasto como o mar.»
 
55
 
Quando os teus olhos benditos
Vem descansar sobre os meus,
Vejo mundos infinitos
Por descobrir. Queira Deus
Que eu seja o Gama atrevido
Desse mar desconhecido,
Desses mundos infinitos
Que vejo nos olhos teus.»
 
E concluamos, orando para haja muita luz e amor divinos na alma e espírito de Rodrigo Beça, que esteja com as pessoas que mais amou e ama, em comunhão divina e, cientes de que no Amor ele foi bem fundo e alto, trabalhemos ética e espiritualmente para conseguirmos com ele realizar e dizer:
«Brotam de nós, dos nossos seios.
Ondas de luz, ondas de amor.»
 

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