sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Ensinamentos de Pico della Mirandola acerca da felicidade e do bem, nos humanos e na natureza. Nos 560 anos do seu nascimento. Tradução (1ª) de um excerto do Heptaplo.

 Nestes tempos em que o transhumanismo e o globalismo da elite oligárquica que rege o Ocidente, e não só, tenta reduzir o seres humanos a obedientes zombies e comedores de insectos, é bem importante reconectarmo-nos com as grandes almas que passaram na Terra luminosamente e deixaram ensinamentos que são portais para os seus conhecimentos, estados de consciência e mundos espirituais...

Pico della Mirandola, numa pintura quinhentista que pertenceu ao prof. Pina Martins, notável humanista, natural de Penalva de Alva, e pontificava no seu scriptorium.

 Neste dia 24 de Fevereiro de 2023, em que se comemoram os 560 anos do nascimento de [Giovanni] Pico della Mirandola, resolvemos, e cotejando a tradução francesa de Nicolas le Févre de La Boderie, adaptada por Olivier de Boulnoi e dada à luz em Jean Pic de la Mirandole, Oeuvres Philosophiques, na PUF, em 1993, traduzir do latim, da Opera Omnia, de 1557, alguns dos ensinamentos valiosos contidos num dos livros em que, constantemente na curta vida até 1494, Pico tentou demonstrar a unidade da tradição filosófica, religiosa e espiritual pré-cristã, oriental, grega e latina, com a cristã, a chamada Filosofia Perene ou Prisca Teologia, partilhando com grande genialidade e audácia as suas escolhas, discernimentos, intuições e realizações, que certamente não são fáceis de sentir e realizar em cada ideia e frase que apresenta.
Independentemente do que é mais seu ou mais das tradições
que lhe chegaram, ou que demandou na Itália tão rica e livre do começo do Humanismo, o valor e a beleza das suas originais ideias acerca da felicidade nos seres humanos, elementos, plantas e animais que nos deixou são tão grandes que só  as devemos estudar e aprofundar, ou então simplesmente admirar e deixar-nos elevar nos seus voos e arremetidas ao sagrado e ao Divino.

Marsilio Ficino, Pico della Mirandola e Angelo Poliziano, numa pintura mural na igreja de S. Ambrogio, por Cosimo Rosseli, 1486.

Eis então alguns excertos do seu Heptaplo, do preâmbulo da 7ª exposição:
«Defino assim a felicidade como o retorno de cada ser ou coisa ao seu princípio. A felicidade é o sumo bem, e supremo bem  que a todos apetece. E isto a que apetece ou aspira tudo é o mesmo que está no começo de tudo, como o atestam Alexandre de Afrodísia, nos seus comentários à filosofia primeira, e os intérpretes gregos da ética de Aristóteles. É o mesmo que é tanto o fim como o princípio de todos os seres e coisas, o Deus um e omnipotente e abençoador óptimo, o melhor de tudo o que pode ser ou cogitar-se  e dele saíram nos Pitagóricos as duas denominações principais: o Um e o Bem. O Um é assim chamado, porque ele é o começo de tudo, do mesmo modo como a Unidade é o começo de todo o número. Também o Bem  é o fim de tudo, o repouso de todos e a absoluta felicidade.
Podemos já ver, se formos um pouco engenhosos, a razão da dupla felicidade: pois a felicidade não é senão possuir ou adoptar este  Bem primeiro. As criaturas podem alcançar este bem de dois modos: nelas ou nele. Pois nele mesmo, ele está elevado acima de tudo, habitando os abismos da sua Divindade, e difundido em tudo ele descobre-se em todas, aqui mais perfeito, acolá menos perfeitamente, de acordo com a condição das coisas em que é participado. Donde (como escrevem os poetas):«Júpiter é tudo o que vês. E portanto, de Júpiter tudo está cheio» [Cf. Virgílio, Bucólicas, écloga, III. 60]

Donde, cada natureza, já que ela tem em si Deus de certo modo, já que tem de Deus quanto ela mantém de bondade (e tudo o que Deus fez é bom), e tendo a sua natureza perfeita em todas as proporcionalidades,  ela ganha Deus enquanto se alcança em  si, e se ganhar Deus é ser feliz,  como já provamos, ela é feliz de certo modo. Esta é a felicidade natural que as diversas coisas são providas mais ou menos segundo a diversidade da sua natureza.
O fogo está carente de alma, participa po
rém de Deus por várias razões: primeiramente ele é, e cada um que é, é participado por Deus, que é o próprio ser ; por outro lado, como é uma certa espécie e acto, assemelha-se a Deus que é a  primeira espécie e acto. E quando o fogo arde, ele revela a fecundidade divina; enquanto ele se contém nos seus términos, [ele revela] a justiça; e quando nos serve, a benignidade, e nisso imita a Sua natureza um pouco. Enquanto o fogo age assim, alcança a sua perfeição, e é tão feliz quanto  é capaz de felicidade. [Comentário nosso: que beleza de empatia com o fogo, da vela à lareira, do coração humano ao divino...]


 Mais felizes são as plantas, porque têm mais vida,  e mais felizes ainda os animais a quem é atribuído um conhecimento, para que eles encontrem em si mais perfeição tal como também em si mesmo encontrem mais natureza ou poder divino. E de melhor condição que todos os mortais, o ser humano, que tal como a natureza, apoia a felicidade natural dos outros, e está dotado de inteligência e de livre arbítrio, os  dotes requeridos para conduzirem mais à felicidade.  Suprema entre as criaturas é a mente angélica, tanto na nobreza da substância quanto na consecução do fim, do qual maximamente participa e à qual está mais próxima e junta.
Em verdade, como dissemos acima, p
or esta felicidade nem as plantas, nem os animais, nem o homem, nem o anjo, atingem Deus, que é o sumo Bem, no próprio Deus, mas em si mesmos. É por isso e pelos graus naturais de de capacidade que a quantidade ou proporção (ratio) da felicidade varia. Pelo que, por isto só  os filósofos colocaram a felicidade de cada coisa na operação óptima da sua natureza.[O swadharma oriental, a missão ou natureza própria de cada um.]

E dos anjos, a que eles chamam mentes e intelectos, ainda que confessem que a sua perfeição é soberana porque eles entendem Deus, eles não estimavam que o conhecimento que tinham de Deus fosse outro do que aquele com que eles se conheciam; de tal modo que eles deviam entender de Deus tanto quanto a Sua natureza estivesse representada na substância deles.
Também no Homem, m
esmo se diversos autores sustentaram diferentemente, eles contudo  encerram-na nos limites das capacidades humanas e sustentaram que era determinante na felicidade do ser humano o encontrá-la, seja só na investigação, como queriam os da Academia, seja mais na sua aquisição pelo estudo da filosofia, como disse Alfarabi.»

Saibamos pois aspirar, esforçar-nos, investigar, dialogar, meditar e amar a verdade, a unidade fraterna na natureza e no Cosmos, o Bem, a felicidade e o amor e ser divinos, e sermos...

                                    

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