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| Uma fotografia de Ramakrishna Paramahansa, em Calcuta, 10-X-1881. |
Qualquer biografia, para ser mais fidedigna e impactante, requer testemunhos de contemporâneos, conhecimento directo, visualização e sensação, e assim a do santo místico bengali Ramakrishna (1836-1886) tem de forçosamente colher muito no que um discípulo Mahendranath Gupta registou com autorização do mestre ao longo dos últimos anos da sua vida, de 1862 a 1866, e que publicou em bengali, em 5 volumes, de 1897 a 1932, data em que deixou a Terra. São notas muito vivas quase cinematográficas as que ele nos deixou do que era o dia a dia, os ambientes, os diálogos, as ideias, os êxtases, os problemas de um dos últimos grandes mestres da Índia.

Mahendranath Gupta
Tal registo, que se autonomizou como o Evangelho de Ramakrishna, e que teve mudanças (e seria interessantes estudarem-se) nas sucessivas edições das traduções em inglês, é a base fundamental para se desenvolverem aproximações, teorizações, facetas, biografias de acordo com a individualidade do historiador, biógrafo, ensaísta, orientalista ou mero devoto. Entre os ocidentais, sem dúvida Romain
Rolland foi um dos melhores dos seus biógrafos, pois a sua Vida de Ramakrishna, na qual, após os dois avisos preliminares aos leitores do Ocidente e do
Oriente, escalona a obra em doze capítulos, foi realizada com grande
sensibilidade, empatia e sabedoria, esta tanto inata como adquirida, já que, para além de ter escrito anteriormente boas novelas e biografias e ter recebido, por tal e pelo seu elevado idealismo e amor da verdade, em 1915, o Prémio Nobel da Literatura, uns anos antes, em 1924, biografara Gandhi, outra grande alma da Índia, da qual se considerara mesmo o seu Evangelista europeu, nomeadamente da ahimsa, não-violência. Como a de Ramakrishna nunca foi traduzida para português, ao contrário da que ele realizou de Gandhiji, vamos resumi-la brevemen
te.

Romain Rolland e Gandhi, em 1931.
No 1º capítulo, intitulado o Evangelho da Infância, narra o seu nascimento, seguindo o modo subtil de ter sido anunciado em sonho, a 18 de Fevereiro de 1836, e descreve os seus dois primeiros êxtases, e a vida simples e plena de imaginação do tão sensível jovem, que pela morte do pai aos sete anos, acabou por juntar-se ao irmão mais velho, que era sacerdote num templo em Calcutá quando tinha 16 anos, ajudando-o na jardinagem e oferta de flores no templo. Quando este morre, passado cinco anos, Sri Ramakrishna acaba por aceitar tornar-se o novo sacerdote nesse templo de Dakshineswar, na margem esquerda do Ganges, a seis milhas de Calcutá e que fora fundada por uma milionária mas da casta mais baixa Rani Rasmani, e onde viverá toda a sua vida, à parte algumas peregrinações e viagens não muito longas, e as idas mais regulares a Calcutá. Deste capítulo já extraímos uns parágrafos valiosos para o blogue, conforme pode ler em Os êxtases da alma-Proteu de Ramakrishna, por Romain Rolland, na sua "Vida de Ramakrishna".

Kali
No 2º capítulo intitulado Kali, a Mãe, observamos o crescimento da intimidade com a Deusa, a Divindade na sua essência feminina, Kali sendo uma das faces e a mais adorada na Bengala, e como ela se revela em visões, numa crescente numa fusão anímica e corporal, e que irá originar o senti-La continuamente presente. Eis a primeira, narrada por Ramakrishna: «Um dia, fiquei preso de uma angústia intolerável. Pareci-me que me torciam o coração como uma tolha molhada. A dor dilacerava-me. Quando pensei que não teria em vida a bênção da visão divina, uma agitação terrível tomou-me. Pensei: Se tem de ser assim, então chega de vida... A grande espada [atributo da deusa] estava pendurada na parede do templo de Kali. O meu olhar caiu sobre ela e de repente um raio atravessou o meu cérebro: Ela... Ela vai ajudar-me... Precipito-me, empunho-a como um louco e eis que subitamente a sala, com as suas portas e janelas, o templo, tudo se desvaneceu. Parecia que nada existia. E, em seu lugar, apercebi-me de um oceano de espírito, sem limites, refulgente. Para qualquer lado que virasse os olhos, tão longe quanto olhasse, eu via chegarem vagas enormes deste oceano luminoso. Precipitavam-se furiosamente sobre mim, como para me engolirem. Num instante ficaram sobre mim, abateram-se e engolfaram-me. Rolado por elas, sufocava. Perdi toda a consciência natural, tombei... Como se passou esse dia e o seguinte, não sei. Dentro de mim ondulava um oceano de felicidade (ananda) inefável. E até ao fundo dele, eu estava consciente da Mãe Divina...». Uma bela descrição de um típico momento de iniciação, no limite das nossas forças, e a posterior comunhão com o beatífico ou amoroso oceano da Divindade...
No 3º capítulo, Os dois mestres do conhecimento: A monja brâmane e Totapuri, o homem todo nu, descreve a vinda destes dois grandes seres espirituais, bem importantes na sua aprendizagem dos caminhos tradicionais da Índia, ao alargarem bastante o seu conhecimento prático, as sadhanas, e teórico, das darshanas, ou visões filosóficas, e passando a abranger em si tanto a devoção à Divindade com forma, em especial a Deusa Kali, como a Divindade sem forma, o Brahman, no qual Totapuri estava de certo modo imerso consciencialmente, budicamente.
Transcrevo de Romain Rolland a sua descrição dos efeitos do ensinamento da Bhairavi e do reconhecimento que ela fez dele como avatar:« Ele possuía agora todas as formas de união de amor com Deus, - as dezanove atitudes ou emoções (rasas) diversas da alma na presença da Divindade: as relações de servo para senhor, de filho para a mãe, de amigo, de amante, de marido, etc. Investira a citadela divina, por todos lados, e o "conquistador" de Deus participava da sua natureza.
A sua iniciadora reconheceu nele uma incarnação da Divindade. Numa reunião que ela provocou, em Dakshineswar, após discussões com os sábios panditas, a Bhairavani impôs [ou convenceu] às autoridades religiosas o reconhecimento do novo avatar. Então o seu renome começou a estender-se. Vinham de longe para ver o homem maravilhoso, que não só realizara uma das sadhanas ou vias de iluminação mas todas, e os peregrinos que se esforçavam pelo Divino, por uma ou outra dessas vias, - monges, ascetas, sábios, sadhus - vinham pedir-lhe conselho (...) As descrições dele [poucas] falam da fascinação que produzia o aspecto daquele que vinha não, como Dante, do Inferno - mas do Mar profundo, como um pescador de pérolas, - a irradiação dourada do seu corpo, que o fogo do êxtase [e do amor e devoção] lentamente cozera e dera uma patine [pelo afluxo de sangue, anotará Romain, a que podemos acrescentar a aspiração, a respiração e a intensificação energética]»
Será com Totapuri, que foi mesmo obrigado a feri-lo no 3º olho com um vidro, que conseguirá passar subitamente da sua devoção fixada na forma de Kali, a divindade pessoal, para a Divindade absoluta, sem dualismo. Anos mais tarde Ramakrishna dará uma compreensão mais unificada: «Kali não é alguém diferente do que chamais Brahman [a Divindade Absoluta]. Kali é a energia primordial, Shakti. Inactiva, chamamos-lhe Aquilo, Tat, ou Brahman, mas quando está em função criadora, preservadora e destrutiva, então chamamos a tal Shakti ou Kali».
No 4º capítulo A Identidade com o Absoluto, aprofunda aspectos e efeitos dos ensinamentos vedânticos monistas ou advaiticos que Totapuri lhe transmitira, e especula a realização da unidade do espírito individual com o Absoluto.
Deste capítulo transcrevo uma parte de Romain Rolland que o anterior possuidor deste livro (o meu irmão Carlos, e Luz para ele!) sublinhou: «Para Ramakrishna há dois planos distintos e escalonados da visão: a Visão sob o signo de Maya que cria a realidade do Universo diferenciado - e a supra-visão da perfeita contemplação (Samadhi), pela qual o contacto com o Absoluto faz desvanecer-se instantaneamente a irrealidade de todos os eus "diferenciados" nossos ou dos outros. Mas, realça Ramakrishna, é absurdo pretender que o mundo seja irreal enquanto fizermos parte dele e que, conservando o nosso eu, recebemos dele a convicção inextinguível (mesmo que esteja velada na nossa lanterna) da sua realidade. Mesmo o santo que voltasse do Samadhi [unificação total ou êxtase] ao plano da vida corrente, está constrangido a retomar o envelope do seu eu diferenciado, se bem que atenuado e purificado. Ele é rejeitado no mundo da relatividade. (...) E então a verdadeira face de Maya aparece-lhe: ela é o verdadeiro, e o falso, Vidya o conhecimento e Avidya a ignorância, tudo o que leva a Deus e o que não leva. "Portanto ela é". E a sua afirmação toma o valor de um testemunho pessoal, - qual S. Tomé apóstolo, que viu e tocou, - quando Ramakrishna atesta os Vijnani, os supra-conscientes (dos quais ele é um), que obtiveram o privilégio de realizar nesta vida, Deus pessoal e impessoal.»
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| A Harmonia das Religiões, pintura da época por Keshab Navavidhan. À esquerda Keshub e Ramakrishna. |
Nos capítulo VI Os Construtores da Unidade: Ram Mohun Roy, Devendranath Tagore, Keshab Chunder Sen, Dayananda, e VII, o Reencontro com os grandes Pastores, escreve a importância destes quatro reformadores religiosos e sociais de Bengala e da Índia e como conhecendo os três últimos só com Keshub Chunder Sen (1838-1884), e o movimento do Brahmosamaj desenvolveu uma genuína e prolongada amizade.
| Devendranath Tagore |
Foi Devendranath Tagore (1817-1905), sucessor de Ram Mohun Roy (1772-1833), que organizou e sistematizou o Brahmosamaj, baseando-se sobretudo nas Upanishads livremente interpretadas e criando um caminho do meio entre o politeísmo hindu e o trinitarismo cristão. Sublinhados pelo meu irmão Carlos, eis os seus e do grupo-assembleia (samaj) Quatro artigos de Fé:
I - Ao Princípio era o nada. Só o Um supremo existia. Ele criou todo o Universo.
II - Ele (a) só é o Deus (a) da Verdade, a Infinita Sabedoria, a Bondade, a Potência, a Eternidade, a Omnipresença, a Unidade sem segundo.
III - É no seu culto, na sua adoração que reside a nossa salvação, neste mundo e no outro.
IV - O culto consiste em amá-lo e em fazer o que Ele-Ela ama».
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| Keshub Chundra Sen, grande amigo e admirador de Ramakrishna. |
No VIII Capítulo, O Apelo dos Discípulos, mostra a organização do Brahmo Samaj da Índia, de Keshub Chundra Sen, nascida em 1886 da cisão (já que ele era mais teísta e entusiasta, com alguma influência do evangelismo cristão) com o que passou a designar-se o Adi Brahamo, o 1º Brahmo (de Devendranath Tagore, mais olímpico e hindu). E com alguma originalidade Romain Rolland considera que Sri Ramakrishna, ao acompanhar Keshub e os seus discípulos desde 1875, clarificou-se para a sua próxima fase da missão, a de mestre com discípulos, embora a monja brâmane Bhairavani já tivesse anunciado tal logo no início da sua vida como religioso. Uma visão com vários jovens a aproximarem-se dele como discípulos tê-lo-á preparado para começar a ser visto, apreciado e procurado pelos mais jovens e ardentes dos meios citadinos ligados ao renascimento bengali. Simultaneamente a fama dos seus samadhis e da sua sabedoria popular atraíam muita gente simples que o visitava, ouvia e divulgava. E assim começaram a surgir os primeiros discípulos, que ele começa a esmiuçar os contornos dos encontros e das suas características no IX capítulo, o Mestre e as suas crianças, e no X, algo influenciado pelos Evangelhos e a vida de Jesus, intitulado O Discípulo amado Naren, em que Narendranath Duth, depois chamado swami Vivekananda, é apresentado, mais extensamente, pois, para além de ser um dos que ele mais amava, será ele o líder, após a morte de Ramakrishna Paramahansa, da Ordem monástica que se estabelecerá em 1897 e irradiará para grande parte do mundo.

Uma das narrativas de Ramakrishna aos seus discípulos: «Eu digo às pessoas para cumprirem tantos os seus deveres no mundo e na família, como com Deus, pensando nele. Eu não peço para renunciarem a tudo... (Sorrindo), No outro dia, Keshab estava a discursar e orava assim: "Ó Deus, concede-nos o mergulharmos no rio de Bhakti, amor devocional, e atingir o oceano de Satchitananda (Ser, Consciência e Felicidade eternas)!..." Ora havia senhoras que estavam a ouvir mais atrás. E disse então a Keshab: «Como é que podes mergulhar toda a gente de repente? O que aconteceria às senhoras? É portanto melhor saírem da água de vez em quando, mergulhar e sair alternativamente!»... Keshab e as outras pessoas riram-se muito...
Quanto à inserção no mundo, dirá: «Não podeis deixar de trabalhar pois a Natureza, Prakriti, força-vos a isso. Sendo assim, que todo o trabalho seja feito, como deve ser. Se é feito desprendidamente, ele levará a Deus. O trabalho feito assim é um meio para chegar à meta. E a meta é a Divindade... Trabalhar sem apego, é trabalhar sem esperar qualquer recompensa, sem medo de qualquer castigo, neste mundo ou no outro...»
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| O símbolo ou emblema da Ordem de Ramakrishna, com um grande cisne, Parama Hansa, vogando no oceano de Stachitananda | |
Nos capítulos XI e XII, O Último Canto, e o Rio Reentra no Mar Romain Rolland caracteriza os últimos anos de grandes satsangas ou conversas, rodeado e acarinhado pelos devotos e discípulos, e descreve alguns desses diálogos tão profundos e libertadores quão simples nas suas histórias e parábolas, mas que na sua generosidade o iam desgastando de tal modo que o corpo começou a tornar-se demasiado frágil e finalmente se romper, a partir de um cancro na garganta, que não obstou contudo a continuar a ensinar quase até ao fim, morrendo de noite, e pensando os discípulos durante algumas horas que ele tinha entrado apenas em samadhi.
Realçaremos, uma passagem dessas satsangas inolvidáveis, que também tocou ao meu irmão Carlos e a assinalou no exemplar utilizado: «Certos cristãos e bramoístas (do Brahmo Samaj) veem no sentido do pecado quase toda a religião. O ideal que têm do devoto é o de quem ora assim: «Ó Senhor, eu sou um pecador. Digna-te perdoar os meus pecados!...» Eles esquecem que o sentido do pecado caracteriza somente a etapa primeira e inferior da espiritualidade.... As pessoas não se apercebem da força do hábito. Se dizeis constantemente: «Eu sou um pecador», permanecereis um pecador até à eternidade. Devereis repetir antes:«Eu não estou aprisionado, eu não estou encadeado... Quem me pode prender? Eu sou o filho de Deus, do Rei dos reis...» Fazei agir a vossa vontade, e sereis livres! O tolo que diz incessantemente: «Eu estou na escravidão», acaba em verdade por se tornar escravo. O miserável que repete incansavelmente: «Eu sou um pescador», torna-se pecador. Mas essa pessoa torna-se livre, quando pensa e diz: «Eu estou livre da escravatura do mundo. Eu estou livre...». «O Senhor não é nosso Pai?... A escravatura é do espírito. A Liberdade é também do espírito...»
Ou ainda: «O telhado está ao alcance da vista de toda a gente, mas é muito difícil de ser atingido. Mas aquele que o atingiu pode deitar uma corda para os que estão em baixo e puxá-los para o telhado.»
Um Epílogo final, descreve o começo da formação da Ordem de Ramakrisna, num pequeno mosteiro em Baranagore, a que junta três Notas, intitulada a primeira a Fisiologia da Ascese Indiana, onde compara os estudos da experiência mística na Índia e no Ocidente, valorizando a obra de Henri Bremond, a Histoire litteraire du sentiment religieux en France (que tem afinidades com os dois valiosos e mais eruditos tomos d' As Correntes do sentimento religioso em Portugal, de Silva Dias), destacando o tomo VI, que fala da Vida intensa dos místicos; contrapõe o minucioso conhecimento que na Índia se fez dos corpos subtis, chakras e kundalini, mencionando os perigos e acidentes de tais práticas mais intensas e tenta mapear a graduação e caracterização iluminativa através dos chakras, a partir de alguns ditos (complexos ou subtis) de Ramakrishna e Vivekananda; a segunda Nota é Os Sete Vales da Meditação, da obra The face of Silence, de D. G. Mukerji, uma imaginação sobre o percurso de Ramakrishna e, finalmente, a terceira, Saradi Devi e os ladrões, sobre a experiência que a mulher de Ramakrishna só e perdida de noite no caminho teve com um ladrão e a mulher que face à sua irradiação a trataram como a uma filha e a guiaram à sua meta, vindo ela depois a ser uma mãe para muitos dos discípulos. Possamos todos nós realizar mais ligação aos mestres, ao espírito, ao bem, ao Amor e à Divindade!




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