quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Tarot, XIII, a Morte. Imagens arquétipas, símbolos energéticos, iniciações conscienciais.

O arcano XIII da Morte é dos mais simples e claros, tanto que na maioria dos Tarots era o o único arcano que dispensava o nome,  e nesta versão muito antiga renascentista vemos um esqueleto segurando a árvore da vida seca, indicando-nos que a duração do corpo, carne e sangue como veículo da alma e do espírito termina um dia, pois com o envelhecimento corporal e a maturação anímica é necessário e conveniente deixar o corpo e este mundo. 
Todavia,  o que o vento ou a energia subtil desfraldará da nossa consciência no além pouca gente demanda ou interroga, e como tal esta carta apela a uma maior auto-consciência espiritual, pois o  hálito da morte subitamente vem e não sabemos bem para onde nos soprará. Maior auto-consciência significará então maior sensibilidade à nossa multidimensionalidade subtil e aos campos ambientais, vitais e auricos que nos rodeiam e ameaçam, que criamos e nos protegem. 
Como talvez não se saiba os Tarots nasceram provavelmente de transmissões orais itinerante dos Mistérios antigos e de programas humanistas e herméticos na época do Renascimento, concretamente nas cortes italianas e assim a imagem da Morte montada no cavalo e abatendo ricos e pobres era bem adequada num tempo em que constantes guerras na Europa faziam as suas razias, algo que hoje em dia no mundo da globalização e do terrorismo se alargou a uma sociedade planetária, na qual as guerras e mortes já não são tão localizadas ou encerradas em fronteiras e continentes e em grande parte provêm de imperialismos, nacionalismos e ideologias insensíveis à Natureza e ao ser humano e logo violentas, extremistas, mortíferas...
Há que estarmos então atentos às múltiplas circunstâncias ambientais e saber até prever se determinada situação ou local, e forma de pensamento ou hábito, não é conducente ao sofrimento ou mesmo à morte, e se devemos mudar de local, de hábito, de modo de ver e agir...
Assim passando dos Tarots primordiais para os mais modernos, houve já quem apontasse bem o dedo ao imperialismo norte-americano, baseado em alianças de países e grupos de petrolíferas, armamentos e dinheiro, como a maior causa da morte e da destruição no planeta, com milhares ou milhões de seres morrendo, sobretudo no Médio Oriente, e milhões de bombas sendo largados. Como poderia ser diferente se os desejos e aspirações de paz, fraternidade, cultura e progresso harmonioso prevalecessem e substituíssem os criminosos,  ineptos e corruptos líderes...
Mas voltemos aos Tarots mais antigos e a uma simplicidade bem maior e menos trágica e ineptamente criminosa da Morte, pois ela vinha sobre todos quando chegava a hora, naturalmente, as guerras não tinham a escala, a hipocrisia e a tecnologia de hoje, e mesmo uma esperança maior de imortalidade reinava nas almas individuais que retornavam a esse além, infernal, purgatorial ou paradisíaco como se doutrinava e antevia. 
E que todas as pessoas estão sujeitas à morte e para ela se devem preparar, mostrava-se no desenho simbólico das cartas com a cabeça de uma mulher e uma de homem coroado, além de mãos e pés de vários tipos de pessoas, espreitando ou exprimindo-se para fora da lama ou terra indiferenciadora da morte, com algumas plantas até já a germinarem. Também tudo como sinal de um post-mortem, de uma vida depois da morte e quem sabe de partes do corpo mais ora despertas ora embrutecidas e cortadas...
Na religião do Egipto o chacal Anubis acompanhava a alma do defunto na cerimónia da Pesagem do Coração e ajudava-a avançar nos reinos da Luz. Os Gregos, que herdaram alguma sabedoria egípcia via Solon e Pitágoras, entre outros, chamaram psicostasis a essa verificação de como a  alma se regera pela verdade e a justiça (Maat), e  os pitagóricos antecipavam-na diariamente, na revisão à noite do dia vivenciado, melhor ou pior, exercendo-se ou treinando-se assim de certo modo a morrerem diariamente já em vida...
Tarot XIII. A Morte. La Mort. Death.. E ressuscita...
 O arcano XIII da Morte, nesta original imagem do clássico Tarot de Marselha, corresponde bem à ideia arquétipa que em sociedades ainda muito agrárias se fazia da morte, a Ceifeira: ela ceifava as vidas a direito, fazia os corpos retornarem ao húmus indiferenciado, embora algo delas sobrevivesse, como as coroas, mãos e pés sugerem. Quando havia as pestes, então toda a gente via à sua volta tal imagem em acção. 
Provavelmente terá sido durante séculos a imagem no Ocidente que mais se auto-gerava da morte e seja nos Livros de Horas, seja nas representações teatrais, seja já com a tipografia com os Livros das Danças da Morte, em xilogravuras, ela estava bem presente, e em muitos sermões dominicais algum tipo de arte de bem morrer se ensinava nas práticas da virtude e do desprendimento.
Certamente que o arcano XIII da Morte ou da Foice não tem o sentido de dia aziago ou apenas de morte física e das transformações ou metamorfoses que ocorrem posteriormente, pois constantemente estamos a morrer em milhares de células e partículas. E mesmo o ciclo de vigília-adormecimento (com os seus sonhos) é já uma morte menor e temporária e que, tal como a outra, ainda permanece bem misteriosa, apenas poucas pessoas tendo os sentidos espirituais despertos para estarem conscientes fora do corpo físico, ou durante essa passagem da consciência para o mundo onírico e interior.
Em verdade, morremos também, e muito, psiquicamente, por causas diversas e sem que seja o envelhecimento dos anos a causa obrigatória do morrer, havendo mesmo pessoas novas praticamente mortas na alma, por actos e psiquismos continuados daninhos, e que permanecem ainda vivas fisicamente. 
Outras vezes dispersamo-nos demasiado, abusamos das nossas forças e a morte apanha-nos precocemente, em termos de expectativas, ainda que frequentemente tal pudesse ter sido previsto. Na verdade, temos pouco desenvolvido esse auto-termómetro do que nos mata ou vai matando, ou quão próxima está a morte de nós...
Um misterioso Tarot Zombie, muito actual quando se tenta massificar, manipular, zombizar toda a gente
Ora para conseguirmos viver longa e harmoniosamente e para não morrermos na alma espiritual e sabermos morrer antes no ego e para os seus erros, apegos e ilusões sempre houve o caminho iniciático. Neste sentido  tanto Antero de Quental como Fernando Pessoa reafirmaram textualmente o antigo dito da Antologia Grega: "Morrer é ser iniciado" não só porque com a morte entramos no mundo subtil mas porque morrer para o que nos ilude e desilude e para as aparências, e renascer espiritualmente pela meditação, iniciam-nos mais no Espírito e nos mundos subtis, espirituais e na ligação Divino. 
Morrer é então deixar os hábitos e inércias limitadoras (nomeando antes de dormir, meditando), abandonar as falsas identificações (e à hora da morte as vestes corporais), subir de frequência vibratória e renascer mais conscientes como espírito, num corpo psico-espiritual. Ser iniciado será mesmo a demanda principal (a par da de génio literário) de Fernando Pessoa, que nos deixou alguns textos sobre as condições de iniciação e as práticas meditativas e activas, tal como a conversa com o Anjo da Guarda, a tal conducentes.
Nas mortes psíquicas que temos de atravessar em vida, e que é bom consciencializar-nos  como tal para as podermos melhor atravessar ou transmutar, para além das provocadas por doenças e faltas de dinheiro, destacam-se as desilusões nos relacionamentos, seja por divergências afectivas, culturais, políticas, espirituais ou simplesmente dos egos ou mesmo das vias evolutivas próprias de cada um. 
Mas tais desilusões e mortes são para renascermos, de modo a que o  amor e alegria não se esfriem nem se apaguem em nós, antes com os outros, com o Espírito, no Angélico, no Divino e no Todo avancemos criativamente, realizadoramente.
Não está estudado ou consciencializado devidamente porém como a desilusão em relação a uma pessoa amiga, ou o corte de uma afectividade amorosa, provoca, além de ferimentos e sangramentos psíquicos, certo tipo de morte e logo afastamento e desprendimento do mundo. 
E contudo milhares de pessoas amam-se e "desamam-se" diariamente e apenas sabemos depois que há muita a gente a tomar comprimidos, a fechar-se mais em si, a compensar-se de outros modos, sem meditarem e auto-consciencializarem-se do seu estado interior e fazerem as alquimias, diálogos e transmutações necessárias...
Outras pessoas porém conseguem desabrochar da sua cruz, provações e mortes anímicas a Rosa do Amor perene do Espírito e do Ser divino (e neste sentido publiquei em 1988 o livro Rosea Cruz, de textos quase todos inéditos de Fernando Pessoa, e recentemente em 2016 os ensaios  Da Alma ao Espírito); essas, provavelmente, quando se aproximarem do momento da partida da Terra a imagem-sensação e estesia da morte que verão, sentirão e as acompanhará ou rodeará será então bem luminosa...
Na Tradição Espiritual Portuguesa, Bocage, Antero de Quental e Fernando Pessoa destacam-se como três dos elos que, não pertencendo à Igreja Católica, a qual administrava de certo modo as chaves do Além e facultava uma relativa Arte de Bem Morrer (patentes nas Ars Moriendis, tal como a que Erasmo escreveu), trabalharam bastante a morte, o primeiro, Bocage, em dezenas de elegias, odes e sonetos nos quais afirma a sua visão da sobrevivência da alma no além e a capacidade dela de se manter em comunicação subtil connosco, um psicomorfismo ou dinamismo psíquico bastante presente na grande alma Portuguesa ao longo da sua história. 
Podemos citar, como exemplo deste psicomorfismo, tanto mais que ao longo dos séculos os poetas foram um dos mais importantes elos da transmissão iniciática,  o final do dramático e belo soneto Antero de Quental, Com os mortos, onde o poeta responde à interrogação inicial: "Os que amei, onde estão": «Mas se paro um momento, se consigo/ fechar os olhos, sinto-os ao meu lado/ De novo esses que amei:vivem comigo,// Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também,/ Juntos no antigo amor, no amor sagrado,/ Na comunhão ideal do eterno Bem»
Em algumas das elegias de Bocage a sua qualidade de Fiel do Amor, presente por exemplo também noutro grande vulto literário Jorge Ferreira de Vasconcelos (algo esquecido apesar do trabalho notável actual da investigadora Silvina Pereira), surge original e poderosa, nomeadamente quando descreve a passagem do último sopro ou hálito de vida tingido de amor para a amada, ou vice-versa, tal como a imagem de um Tarot recente sugere e que deveria ser sempre um desiderato de dois seres que vivem juntos e se amam verdadeiramente...
 Na realidade, o segundo destes dois valiosos elos da Tradição Espiritual Portuguesa, Antero de Quental, cultivou tanto um desejo de superação da injustiça, da incompletude, da transitoriedade e ilusões desta vida que o fez abraçar voluntariamente, precocemente, impulsionado por circunstâncias ambientais do momento, aquela que ele chamava a irmã Morte, a libertadora e sua amada.
Antero, numa fotografia próxima da sua aura talvez tingida demais pela Morte
Mas naquele final do século XIX qual seria a representação da Morte que  ele teria mais predominante dentro e à volta de si e que provavelmente foi determinante no acto de chamá-la voluntariamente? 
Que imagem e arcano das centenas de versões dos Tarots modernos poderia aproximar-se daquela que ele gerara dentro de si ou que mais lhe correspondia?
Interrogação ou questão bem difícil.....
E cada um de nós, qual é imagem e vivência da Morte que estamos a criar no nosso corpo e alma, ao longo da vida?
Como a enfrentamos, acolhemos e geramos quando morreram familiares e almas amigas?
Quantos animais matamos para nos alimentarmos ou para sobrevivermos mais facilmente?
Quantas pessoas amigas deixamos para trás porque não as quisemos acompanhar ou não as podemos amar?
Como sentimos as mortes ou, que sejam, as violências feitas sobre os mais fracos, pessoas ou países? 
Como assistimos e a deixamos acontecer tão passiva ou subjugadoramente, talvez pela banalização da morte e por uma passiva aceitação da falta de ética na utilização da força ou nas governações de alguns Estados ou regimes que tanto oprimem a Humanidade?
Que forças psicofísicas ou psicomórficas deveremos desenvolver para transmutar tal situação, em ressonância com a nota final do testamento, seis meses antes de deixar a Terra, do terceiro elo referido, Fernando Pessoa, uma pessoa certa da vida depois da morte e que a venceu também na imortalidade e sucesso da sua obra: «Ter sempre na memória o mártir Jacques de Molay, grão mestre dos Templários, e combater sempre e em toda a parte, os seus três assassinos - a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania.»
Estamos a preparar uma morte e continuidade luminosa pelo desprendimento em relação ao ego e às suas tendências e instintos e pelo desabrochamento dos sentidos psico-espirituais e a comunhão solidária e criativa com a Alma do Mundo, ou  Campo unificado de energia-informação-consciência da Humanidade e  os seus seres animais, humanos e celestiais?
Estamos mesmo a talhar  um corpo espiritual com o qual avançaremos nos mundos subtis e espirituais conscientemente, cumprindo esse dito grego, provindo talvez do Egipto, repetido por Antero de Quental e Fernando Pessoa: «Morrer é ser iniciado»?
Então que todas as mortes e ferimentos sejam metamorfoseantes e luminosa e amorosamente intensificadoras do Ser e do seu corpo de glória ou de partículas-ondas controladas, luminosas, harmoniosas...
Vá vencendo a Morte em si, manifeste mais o Amor eterno, divino... 
Dia XIII, um dia não aziago mas de triunfo do Amor libertador sobre a morte...

4 comentários:

CASA DA EIRA disse...

Gratidão pelo excelente ensaio sobre a morte, Assunto que durante anos era tabu na minha linguagem, Superei a educação terrível que me havia sido dada. Caminho hoje para leituras de sabedoria como a que aqui nos deixa. É um trabalho solitário, quando a vida nos oferece de bandeja o tumulto e o vozeamento distratores, exigindo de nós uma força maior para salvaguardar a consciência ainda tão parca. Mais uma vez grata e, se me permitir, vou divulgar.
esmeralda

Pedro Teixeira da Mota. disse...

Muitas graças pela sua apreciação e divulgação deste pequeno texto, Esmeralda. Sim, a meditação e a compreensão mais clarividente da morte é importante de se ir realizando em vida, tanto mais que ela é simultaneamente a entrada numa vida maior...

Mariana de Brito disse...

Muito grata. Pegou-me na mão e ajudou-me a viajar num mundo de sabedoria, harmonia bondade e aperfeiçoamento espiritual, tornando mais suave os tormentos e desvalorizando as agressões. Quem me dera saber como iniciar o caminho...

Pedro Teixeira da Mota. disse...

Muitas graças, Mariana. Sim, o Tarot pode ser verdadeiramente um guia pela sua imensa sabedoria milenária, pois as suas raízes recuam à Antiguidade clássica. O Caminho é muito simples e há muitos meios de nos sentirmos mais nele ou seja mais na consciência da alma e no espírito. Sobretudo a respiração consciente e a meditação auxiliam...