quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Tarot, XII, o Sacrificado. Imagens arquétipas, símbolos energéticos, iniciações conscienciais.

A representação do arcano XII, o Enforcado ou Pendurado, não apresenta muitas variantes e mostra-nos um jovem, ou um homem, pendurado de cabeça para baixo, por uma corda atada a um pé, a outra perna estando livre e cruzada, e com as mãos atadas atrás das costas. O significado interpretativo geral é limitação, prisão, bloqueamento, sacrifício, frustração ou ainda punição por erro, maldade ou traição.
Na maior parte das representações tradicionais ele está dependurado entre duas árvores com os  ramos cortados, como se tivessem sido podados, remetendo-nos para um saber agrícola milenário no qual se sabe que para certas árvores darem melhores frutos convém cortarem-se os ramos e folhas para a energia ascender mais concentradamente e logo dar mais vigor à árvore, ou ser, e seus frutos. 
Dentro das correspondências invertidas a seiva humana escorre então para a  cabeça e um ou outro Tarot moderno realça esta sublimação energética, pondo mesmo a serpente kundalinica, ou vital e sexual, enrolada na perna presa, ou seja a ser controlada, as pernas do movimento e do desejo motor assim dominadas.
Este arcano também é designado por Sacrifício,  Sacrificado e, em verdade, ao longo da vida todos  passamos por limitações, servidões e dores, que temos de assumir por variadas razões e este arquétipo de fazer sagrado, sacrum facere, o que quer que seja que nos aconteça, nomeadamente as prisões, perdas e doenças é um bom princípio transformativo ou metamórfico, sem que com isso não se deixe de afirmar a luta e o querer a libertação em relação a tal situação, tanto mais que ela mais de que ser aceite pede que seja vencida.
Pelo sacrifício o ser imobiliza-se na sua capacidade de agir e de receber e concentra-se e aspira intensamente a um estado melhor,  ligando-se assim mais aos mundos interiores espirituais e divinos, aos quais pede ajuda, apoio, desvendação.
Deste modo o ser interioriza-se, desprende-se da agitação exterior, das ilusões da personalidade e purifica-se, reentra em si mesmo e aproxima-se do coração espiritual.

Já na Tradição Egípcia o enforcado existia, tal como noutros povos, e o castigo para traidores podia ser esta posição. A história de Judas que entregou ou traiu Jesus por trinta dinheiros e que se enforcou poderia estar também na génese ilustrativa deste arcano e na linha geral de advertência de não roubarmos, de não trairmos pois seremos certamente descobertos e castigados, se não formos nós próprios a punir-nos posteriormente, já que a Voz da Consciência, entre nós tão trabalhada por Antero de Quental,  é uma espécie de mestre  universal ou divino em nós...
As representações deste arcano XII com o dinheiro a cair dos bolsos do Sacrificado ensinam-nos ainda a estarmos mais desprendidos em relação ao dinheiro, às posses e às eventuais perdas, tais como as que certas instituições, bancos, empresas nos causam frequentemente...
Sabermos assumir as limitações, os trabalhos custosos, as demoras na resolução das situações, a empatia dolorosa mas necessária com os que sofrem, a nossa cruz e a cruz dos outros, tudo isso pode ser vivenciado mais harmoniosamente se tivermos presente este arcano e lembrar-nos das vidas sacrificiais de certos seres e do que alguns mestres escreveram relembrando-nos que o caminho para a Luz e Fonte Divina passa necessariamente por noites escuras da alma, e por podas, frustrações e crucificações de expectativas e de desejos, sendo tais situações sentidas como feridas no coração, no tronco, no fundo estados martirizantes, sacrificiais...

Todavia, mesmo nesses momentos de maior treva exterior, e solidão, decepção e dor, a consciência pode estar transparente, axializar-se verticalmente e percepcionar as ajudas dos planos invisíveis e dos mestres e santos, fortificando-se nessa resistência e estoicismo e, com tal ligação interior, vencer-se a desilusão e fome, a sede e dor, o sofrimento e  isolamento, o roubo e incompreensão.
A peregrinação da vida é tanto uma espiral ondulatória como partículas voláteis e posições estáticas e a arte e sabedoria está sem sabermos assumir sacrificialmente, sacramente, ora os dinamismos acertados ora as posturas físicas e anímicas recolhidas e que geram a morte e renascimento espiritual, para que  a ligação entre a Terra e o Céu continue a realizar-se e  ao de cima venha ou se forme ou desvende o Ser Perfeito, o Ser Universal, Estrela pentagonal em corpo espiritual, com mente sã em corpo são. A carta final XXI, o Mundo, é como que o reverso do Enforcado, pois nela a alma humana já está harmonizada, espiritualizada, quintaessenciada...
Saiba então reconhecer-se limitado no corpo, matéria e sociedade, conter-se, contentar-se e lutar nas dificuldades, estando vigilante nos sub-campos em que se encontrar, discernindo quanto ao que se deve abster ou renunciar e o que deve sustentar, apoiar e amar, criativa, luminosa e desabrochadoramente...
Aum INRI Hum...

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