sábado, 15 de outubro de 2016

Tarot, XV, o Diabo. Imagens arquétipas, símbolos energéticos, iniciações conscienciais.

O arcano XV, o Diabo, é certamente dos mais complexos e convém que tal confessemos ou admitamos antes de entrarmos em algumas das suas facetas e simbolizações, e tentarmos compreender algumas das razões justificativas de ele ter sido representado através de diferentes formas.
Não recuaremos a representações mais ou menos antropomórficas muito antigas do mal, ou  de um dito ser mau ou opositor de Deus ou dos deuses, tais como na Índia Ravana e no Irão Ahriman, nem falaremos por hora das origens egípcias e depois gregas, claramente marcantes neste arcano, com Hades, nas profundezas da terra, sendo tanto o reino dos Mortos como o Rei desse Inferno, nem entraremos em cultos modernos tolos ou malignos do mal e do diabo, ou de imaginadas e mistagógicas hierarquias demoníacas. 
Aproximemo-nos antes da palavra grega Diabolos que, significando apenas aquele que divide, falso acusador, caluniador ou mentiroso, acabou por ser utilizada personificadamente no Novo Testamento como "o Diabo", tendo em conta algumas indicações negativas do Antigo Testamento, tal como no Génesis a enigmática serpente do mítico Éden,  ou  ainda Satan, palavra hebraica que significava um adversário, um acusador e que podia ser utilizada tanto para referir um homem ( Salmos, 108, 6) como um ser invisível, espírito ou anjo, apenas usada no episódio de Balaão (Núm. 22.22) e em Job, como um dos filhos de Jeová, com a missão de testar a paciência de Job. Com o tempo vai tornar-se o inimigo de Israel e depois até de Jeová.
Muitos dos conhecimentos sobre o além e as entidades invisíveis foi algo que os hebreus em grande parte receberam e desenvolveram depois do cativeiro da Babilónia, onde tiveram contacto com as tradições religiosas da Mesopotâmia e da Persa, e a  visão, crença ou adivinhação de espíritos invisíveis tornar-se-á com mais profetas, cabala e o ocultismo uma salgalhada inventada de nomes de entidades e hierarquias negativas e positivas, sendo o caso mais flagrante o dos 365 nomes de Anjos para cada dia do ano e aos quais se poderiam dar ordens, tal como neste século XX um mistagogo de nome Aziel propagou em tantos livros, inaugurando um culto quase de feira pseudo-angélica em tanta literatura e workshops da nova Era.
                      
A junção personificadora e identificadora com um  alto ser celestial (Lucífer) caído, o Príncipe das Trevas, foi afirmada  mais tarde e pioneiramente no Apocalipse (12.9), atribuído incorrectamente a S. João, como Erasmo bem provou, e que tanta fortuna terá no Catolicismo, na arte e literatura ou mesmo em cultos e expositores dos nossos dias, dos mais fraudulentos certamente os que o exploram para atemorizar as pessoas e recolherem mais que o dízimo, em nome de uma universal aldrabice de Reino de um apenas imaginado, e mal, Deus, tão dependente ainda do tribal e vingativo Jeová, certamente em  parte uma entidade algo maléfica até. E contudo infelizmente, ainda com tantos seguidores, tão desconhecedores, tão crentes e carentes, tão alienados e manipulados, nomeadamente em igrejas pseudo-evangélicas recentes mas já com multidões arrebanhadas e auto-iludidas..
Nessa obra imaginativa apocalíptica e numa visão fantasiosa do fim dos tempos (Apo.12, 7)  se declara que o anjo ou arcanjo Miguel e os seus anjos guerrearam contra o Dragão e os seus anjos e «foi derrotado, e não se encontrou mais um lugar para eles no céu. E que aquele magno dragão, a serpente antiga, que se chama Diabo e Satanás, que seduz toda a orbe da terra, foi projectado na terra com os seus Anjos».
Uma imaginação completa de uma futura história que nunca acontecerá e cheia de contradições, este Apocalipse atribuído ao discípulo mais amoroso de Jesus e que certamente negaria tal autoria, fruto de meios messiânicos judeo-cristãos nas lutas e dúvidas do começo do cristianismo e que é ainda hoje utilizado por mistificadoras igrejas ou pessoas, ditas até esoteristas, para justificar sonhos e utopias e manipular os fiéis, os crentes, os aprendizes...
Mais tarde, no baptismo dos cristãos, a renúncia que se veio a fazer no baptismo a Satan e sobretudo a sua "pompa", esta referindo-se ao cortejo das entidades negativas...
Se interelacionarmos ainda as tentativas de
compreender-se mais psicológica e sociologicamente a origem e a constante gestação do Mal e do sofrimento na Terra, com as mitologias do Bem e do Mal em luta que se foram criando em muitos povos e religiões e que de algum modo ainda hoje, mais ou menos fanaticamente influenciam pessoas, compreenderemos a extensão e força deste símbolo e arquétipo e que conforme as épocas foi  muito fortalecido pelas formas e ideologias de que se tem revestido a potencialidade da oposição ao Bem (ou do que se considerava o correcto, o autorizado, o admissível, a Ordem Divina, o Amor), e que são principalmente o ódio, a violência, a opressão e o mal dentro do ser humano e nas sociedades, governos, grupos.
Ora sendo o Tarot um programa Humanista de ensinamentos históricos, morais e iniciáticos, com origens mediterrânicas e dos mistérios greco-romanos, com o tempo tornado um jogo, e uma técnica ou arte de aconselhamento e de reintegração  mais do que adivinhação, as diferentes versões simbólicas do Tarot tentaram transmitir algumas linhas de força sobre o que consideraram ser o Mal e sobretudo o Diabo, sua individualização, muito temido na Idade Média e no Renascimento, conforme afirmavam e desenvolviam as doutrinas ("o mundo, a carne e o diabo, os três inimigos da alma", algo sobre o qual Fernando Pessoa reflectirá várias vezes), as visões de alguns padres e místicos e os sermões e pregações, estes explorando tanto o medo do destino no além como o do próprio dito "opositor de Deus". Também os bestiários medievais, com as imagens em miniaturas iluminadas e nos capitéis das igrejas e catedrais ecoam estas visões e entendimentos...
Daí as múltiplas imagens do Diabo e da luta entre o Bem e o Mal que encontramos na escultura românica e gótica, na iconografia de gravuras ou pinturas, em livros ou em telas, e que ecoam as diferentes concepções e as intenções dos seus criadores, de acordo com as suas mundividências, a fim de não soçobrarmos sob ele, ou nele, e em especial não nos deixarmos enredar nos defeitos ou vícios pelos quais se consideravam as pessoas estarem mais ou menos submetidas a ele, Mal e Diabo, este do qual pouco se sabia mas muito se ameaçava...
                              
Esta representação do Diabo dum dos primeiros Tarots, do
séc. XV, mostra os traços mais clássicos ou repetidos ao longo dos séculos: uma figura semi-humana semi-animal, com ar negativo ou atemorizador, que tem aos seus pés, presos de um modo ou outro, dois seres humanos, homem e mulher, por vezes com alguns traços animais. 
A interpretação mais simples é a de que os seres humanos se deixam controlar por instintos, hábitos, forças, sentimentos ou ideias negativas, e portanto pelo que se pode denominar a  sombra, ou então por seres negativos, opressivos, dominadores, destrutivos, subordinados a essa entidade denominada o Diabo. 

Poderemos pensar que pode ainda, noutra direcção interpretativa, ter havido nesta representação seja uma certa diabolização das forças da natureza e sexuais, ou mesmo do Paganismo e em especial do Dionisismo (e algo do Deus Pan estaria a ser visado), seja o contrário: é o temor a tais forças que as diaboliza, ou seja, ora faz com que as pessoas considerem como mal instintos e actos naturais, e sabemos como nessas épocas a noção do pecado original tendia nesse sentido, ora faz as pessoas perderem o seu livre arbítrio e lucidez, deixando-as presas ou viciadas em situações, hábitos e modos de ser negativos, de dependências ou mesmo de violência e ódio, verdadeiramente diabólicos, isto é, adversários do Bem.
De qualquer modo os seres humanos estão encadeados, subordinados, submetidos e tal não é bom...
                         
Esta versão do Diabo com a forquilha (do Dick Tarot), muito medieval e que nos faz lembrar alguns dos
autos de Gil Vicente, remete-nos para outra concepção paralela ao arquétipo e entidade do Diabo e que é a ideia de haver um local para onde as almas negativas são dirigidas após a  morte e onde o Mal reside mais concentradamente e onde espíritos maléficos tratam dos que não se portaram bem em vida, pelo que a ideia (tão cheia de imagens imaginadas ou então sonhadas) do Inferno, tão ameaçadoramente pregada mesmo no Renascimento italiano, como o fez o exaltado frade dominicano Savonarola, na Florença dos Medici, de Pico della Mirandola, Marsilio Ficino e Botticelli, subjaz também a este arcano e nesta versão bastante simples e só com uma figura, mas com uma tal carga de medos por detrás que a sua força não fica diminuída.  
É claro que sempre houve descrentes seja no Diabo como um Anjo caído, seja no Purgatório (em grande parte formulado no Cristianismo por S. Agostinho e S. Gregório, o grande), seja no Inferno, tanto mais que de certa forma o Purgatório e o Inferno são criados por cada um segundo a visão que se faz de si e dos outros e age, embora certamente na vida anímica depois da morte física haja estados de consciência, e logo locais, infernais, purgatoriais e paradisíacos e, finalmente os da realidade espiritual e Divina...
Assim há uma origem na consciência de cada um, ao constatar ou observar o estado em que está, esse  julgar-se pelo que de negativo ou positivo fez nos outros, algo que tem já um eco na vida terrena no que foi denominado a Voz da Consciência, por exemplo entre nós tão trabalhada por Antero de Quental, recomendando, por exemplo, ao seu amigo Fernando Leal que a tentasse meditar com persistência a fim de a finalmente a poder ouvir e intuir enquanto fonte de Bem e de dinamismo...
                      
Algumas versões antigas do Tarot de Marselha mostram sob as asas de morcego do Diabo, sempre representado com traços humanos e animais, e com o ventre inconsciente como cabeça, também duas pessoas presas com vários sinais de órgãos animais, como a cauda e as orelhas, os cornos e os cascos, indicando com isso que a entrega aos instintos naturais ou a servidão às forças do mal (seja instintivas seja de violência e ódio) tem consequência negativizantes, densificantes e portanto é considerado um mal, um atraso ou retrocesso evolutivo e aprisionador. 
Ora, das forças negativas, das forças nos prendem e manietam nos tempos actuais, das que nos tentam atemorizar ou manipular, quais serão as mais perigosas ou intensas, perguntar-se-á?
A exposição e a aceitação da violência por tantos meios de informação e de cinema? O pragmatismo da luta pela sobrevivência, a dispersão consumista virtual? A alienação provocada pela informação-desinformação imensa? As violências, preconceitos, exclusivismos, racismos e imperialismos? As seitas e os grupos mistificadores de esoterismo, auto-cura, sucesso, nova Era?
O excesso ou mesmo a alimentação carnívora, o álcool, as drogas? A falta de contacto com a Natureza, a ausência de invocação e de ligação aos Mestres, aos Anjos, à Divindade?
                        

O clássico Tarot de Marselha, na forma definitiva da tipografia Grimaud, clarifica alguns aspectos de tal servidão, ao destacar mais a dualidade homem-mulher aprisionada e ao mostrar o Diabo com uma espada sem punho e de duas lâminas segura pela mão esquerda, enquanto a da direita se ergue numa posição neutra, em contraste com a do arcano V, o Papa, em que há o gesto ou mudra abençoador e para o alto, para o espiritual e Divino.
Uma das interpretações possíveis desta interacção dos três é a de vê-la como uma denúncia da violência que anima o Diabo, ou do que é a essência do Mal, ou dos seres maus-violentos-falsos, e que todos podemos ser em certos momentos da vida, já que o arcano sugere que se pode usar da espada sem se magoar a si próprio enquanto simultaneamente os seres humanos a ele sujeitos estão aprisionados, limitados, ameaçados, submetidos, oprimidos, em sofrimento.
O mal ou diabólico é então aquilo que em nós fere os outros, violenta as suas crenças e expectativas, o que corta as esperanças, o que atraiçoa, abandona, oprime, explora, engana, abusa.
É diabólica a postura enganadora de quem detendo algum poder ou autoridade sobre os outros baseia-se na violência, na opressão e na desinformação manipuladora para atingir os seus fins egoístas.
Tal é de outrora como é de hoje (e muito, basta citar os exemplos de cadeias de informação como a CNN ou a BBC, British Brainwashing Corporation), e foi denunciada ou desmascarada como diabólica, já no século XVI, com grande divulgação ou sucesso nos seus Adágios, pelo ousado e irónico Erasmo, pondo em causa, entre outros aspectos, a guerra então eminente, com um texto sobre dito antigo: dulce bellum inexpertis, "a guerra é boa para os que não a experimentaram", algo que as pessoas hoje se esquecem, ao aceitarem, verem e consumirem passivamente as notícias televisivas de tantas criminosas actividades de governos ou grupos, ou tantas guerras e conflitos.
Assim, nos tempos modernos, por muitos modos, podemos estar a ser vítimas ou canais de forças ou sugestões maléficas, orgulhosas, mentirosas, violentas, opressivas, dominadoras, imperialistas, caóticas, seja passivamente seja activamente, tantas são as formas de nos ligarmos, prendermos ou submetermos ao dito Mal ou à entidade Diabo, negando ou recusando a vontade ou intencionalidade Divina de Amor e Sabedoria que potencialmente nos interliga no Campo unificado de energia informação que envolve e consubstancia psico-energeticamente a Humanidade e a Vida Planetária, tão violentadas.

                          
O Tarot de Arthur Edward Waite, já do começo do séc. XX e proveniente de uma recriação ocultista de uma versão renascentista semi-perdida, mostra-nos o Diabo, na figura do «"Bode Cornudo de Mendes" [do deus egípcio Banebdjedet, da cidade de Mendes]) com asas de morcego», «empunhando uma grande torcha flamejante invertida para a terra», com a qual acende a energia dos instintos nos seres humanos que estão encadeados ao cubo-rectângulo da matéria (ou ara-altar) sobre a qual ele está e domina.
A ideia de Mal pode nascer pelas cores sombrias, o ar atemorizador do Diabo, o encadeamento do par com caudas e cornos animais e o pentagrama invertido que está entre os cornos e a cabeça, o qual, com os ocultistas franceses do século XIX, demasiado mistagogos e egoicos, foi considerado um sinal de magia negra quando antes assinalava mais, ou sobretudo, a descida das energias para a manifestação terrena e o corpo material.
Mas Arthur E. Waite, no livro de explicação do seu Tarot,
The pictorial key to the Tarot, lança a analogia com Adão e Eva, e que a figura central pode significar simplesmente o Guardião do Umbral, esse ser que é uma egrégora ou entidade psico-energética fantasmática auto-criada que nos condiciona ou barra no acesso ao mundo espiritual e sobre a qual alguns ocultistas, tal como Rudolfo Steiner e o seu discípulo Edouard Shuré bastante escreveram.
A possibilidade de vencermos a nossa natureza, tanto animal como egóica ou mesmo orgulhosa, bem como as forças exteriores astrais negativas, é talvez sugerida pelas posturas e faces "mimosas" ou joviais do par encadeado-enlaçado, que poderão a qualquer momento libertar-se pelo Amor-Sabedoria ou mesmo a Graça do Alto...
                         
Outro Tarot ocultista do séc. XX, o de Alesteir Crowley, amigo de Fernando Pessoa, realça a energia sexual e fecundante e mostra algumas figuras em posições alegres e dinâmicas em relação ao uso de tal energia, da qual o mago ocultista Crowley, que se considerou representado nesta imagem, usou e abusou, de algum modo destruindo-se com o uso simultâneo de drogas e de formas violentas de relacionamentos, além de invocações algo mistagogas em rituais perturbadores.
Os cornos ou presas de veado nesta versão são
amplificados para indicarem, como já vinha das mais antigas religiões (shamânicas e pagãs), ligação ao alto, fertilidade, força sexual e longevidade. O caduceu de Hermes ao meio sinaliza a importância da coluna vertebral e da circulação da energia vital, da qual a sexualidade é um dos aspectos mais fortes ou importantes, mas que tem o seu ponto mais elevado na relação com a Divindade, alguém que Crowley
não quis aceitar, ou se submeter, tal como Fernando Pessoa, que o conheceu, escreveu num pequeno apontamento, acerca de ele não dobrar o joelho diante de Deus.
                       
O Diabo veio a ser então frequentemente ligado à 
oposição a Deus e a desregramentos, perversões ou sucubos (ou seja, intervenções sexuais de seres invisíveis), algo em grande parte proveniente de puritanismos excessivos ou então o contrário de histerias colectivas e orgiásticas algo que a sexualidade nos dias de hoje pode ainda assumir, por vezes claramente em onda de irracionalidade e violência e logo de Mal.
Não haverá muitas dúvidas que a mais real expressão do Mal ou das forças diabólicas nos seres humanos é a violência, a mentira, a opressão, o assassinato, ou seja, a falta de palavra e de ética, de diálogo, respeito e amor recíproco, como nas últimas décadas se têm vindo a acentuar na cena política mundial, com o egoísmo e o imperialismo de alguns países, governantes e gestores, ligados a petrolíferas, bancos, indústrias dos armamentos, fármacos e agro-química, frequentemente  apoiando-se e encobrindo-se mutuamente, e explorando e destruindo pessoas, países e partes do planeta, causando guerras, grandes sofrimentos e retrocessos evolutivos em partes significativas da Humanidade. veja-se a tragédia do Yemen, vítima do regime imperialista mais que sinistro e criminoso da Arábia Saudita. Isto tudo encadeando-se na lei do karma, da acção reacção, ódio e vingança,  gato e  rato, gera situações quase insolúveis como vemos no Médio Oriente, em especial na relação da Palestina com Israel.
                           
Esta é a face actual do Mal e do Diabo no século XXI mais tragicamente presente, e embora o imperialismo norte-americano tenha apelidado do eixo do mal outros países, sem dúvida têm sido antes eles os seus aliados e coligados a gerá-lo e a apoiá-lo com repetida e grande intensidade, sobretudo no Médio Oriente. Cabe pois denunciá-la como maléfica, e tentar corrigi-la e não apoiá-la, pois são demasiado os seres e recursos que estão a ser oprimidos e destruídos pela ganância de domínio de recursos e terras, e pela supremacia imperialista, claramente ambas orgulhosas ou diabólicas.
Já o francês Hadès, meu primeiro instrutor (por livro) no Tarot, fazia nos anos 60 a ligação entre o arcano XV e a bomba atómica, citando a frase, julgo que de Oppenheimer: "Fizemos a obra do Diabo". O que não diria ele hoje dos perigos da energia nuclear, tanto a das ogivas como a pacífica (Chernobyl (1986), ou a de Almarnaz posta pelos espanhóis "bucolicamente" junto ao rio Tejo dos peixinhos e banhos, e explorada para além do seu tempo seguro de uso, como têm denunciado muitos ecologistas, nomeadamente o António Eloy com o seu último livro Almarnaz e outras energias más, 2017, onde também eu fui um dos colaboradores.

Talvez seja lícito interrogar-nos que países ou práticas governamentais e empresariais são mais maléficas e até onde irá a hybris (arrogância desafiante) do sistema mundial financeiro e imperialista ao tentar dominar todos e destruir os que de um modo ou outro lhe resistem (o caso da Rússia, de Vladimir Putin, de certo modo muito mais europeia que a USA, mas também China, Irão, Cuba e Venezuela) e levando atrás de si (tão desorientada, vendida e desumanizada esta anda) a própria direcção da União Europeia, e assim atraiçoando a convivência fraterna dos povos europeus entre os quais a Rússia prima.

                        
E contudo, as cartas-arcanos do Tarot, tanto no sequência delas como nas ligações com as outras, apontam-nos as soluções pedagógicas fundamentais para vários destes problemas do mal, pois mais do que entortar a coluna das crianças e dos povos com o peso de muito joio e palha, de violências e opressões, dever-se-ia ceifar, varrer e queimar tais inutilidades. E ajudarmos as crianças e os povos a desabrochar os dons e capacidades científicas, éticas, ecológicas e espirituais, livres de opressões, violências e medos e em diálogos e práticas norteados pela justiça e a verdade.
Comparemos agora três arcanos bem interligados:
             
A contemplação psicomórfica destes três arcanos pode sugerir que o caminho da evolução humana passa primeiro por uma educação religiosa ou religante à solidariedade e ao Amor, ao espírito e ao Divino, e em segundo pelo desprendimento e libertação em relação a todo o tipo de servidões, seja as grupais religiosas e partidárias, seja as diabólicas de abusos e violência, medos e silenciamentos, seitas e alienações, e que é pelo desabrochar de uma consciência mais pura, amorosa e livre, onde o Amor, o Espírito e o Anjo estejam mais presentes, que a religação divina e ecológica-paradisíaca (do sânscrito paradesa, ou do persa pardes, jardim, parque) desabrochará mais.
É o Amor transparente, verdadeiro e solidário entre os seres e povos que reverdecerá a terra, que conterá ou cerceará o mau Sistema opressivo e os seus donos e agentes repressivos, e que permitirá aos seres humanos uma maior harmonia e auto- realização.
O poder, seja sexual, financeiro ou de força armada, deve ser usado correctamente para o bem da Humanidade e não apenas para grupos de pressão e minorias.
O Mal, do ódio e da vingança, e o Diabo, da
destruição e opressão, visíveis e invisíveis, têm de ser vencidos pelas forças do Amor, da Cultura e do Bem que desenvolvermos em nós, em rede virtual ou de mãos dadas com os outros mais afins, na grande comunhão do Corpo Místico da Humanidade...
Avancemos na Luz, no Amor, no Bem...
Saibamos discernir o Mal e denunciá-lo corajosamente e assim sairmos da sua esfera e libertar-nos dele e dos seus agentes soturnos, mecânicos, burocratas, insensíveis, mercenários, opressores e destruidores das terras, seres, povos, culturas e liberdades naturais...
Meditemos, entremos bem dentro de nós, e estejamos abertos e conscientes do Amor e do Ser Divino, livres de medos e fanatismos, persistentemente, com sabedoria, coragem e criatividade, para que o Bem resplandeça mais...

                
                 Pintura de Bô Yin Râ sobre a irradiação do Bem

2 comentários:

alda berenguel disse...

Boa tarde. Sinto-me grata por pertencer a este blog e, desde já agradeço ter-me aceite.
Este meu conhecimento de si , veio-me através da minha grande amiga Amália do Algarve.
É um prazer lê-lo e tentar conhecer outras visões da vida, do ser e do estar neste Universo.
Grata.
alda berenguel

Pedro Teixeira da Mota. disse...

Muitas graças, Alda, pelas suas palavras tão generosas e espero que possamos dialogar no sentido de melhorarmos o nosso auto-conhecimento e vida harmoniosa. Quando tiver questões, força. Luz!